1º Da Escritura. — A palavra eucaristia significa ação de graças, e foi tomada para designar o sacramento do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, tanto porque ele é a maior das graças, quanto porque deve ser recebido com os mais vivos sentimentos de gratidão e com os mais sinceros agradecimentos… E que Jesus Cristo esteja realmente presente na Eucaristia, provam-no a Escritura, os Padres, os concílios, a tradição universal, a razão teológica, os próprios hereges e os milagres.
«Eu sou o pão da vida — disse Jesus aos judeus —; vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Mas este é o pão que desce do céu, para que aquele que dele comer não morra. E eu sou este pão vivo, descido do céu: quem come deste pão viverá eternamente» (Jo 6, 4-8-53). E para que não restasse dúvida acerca do sentido de suas palavras, acrescentou: «E o pão que eu darei é a minha própria carne, para a vida do mundo» (Ib. 58). Ora, estas palavras eram tão claras que os próprios judeus compreenderam que Jesus inculcava a necessidade de alimentar-se dele, de comer realmente a sua carne. Com efeito, o Evangelho observa que «começaram a discutir entre si, dizendo: Como pode este homem dar-nos sua carne para comer?» (Ib. 55). E Jesus então, em vez de modificar suas palavras ou explicá-las de modo que não ferissem a suscetibilidade dos ouvintes, confirma antes o sentido em que eles mostraram tê-las compreendido, e acrescenta: “E eu vos empenho a minha palavra: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Ib. 54).
Jesus Cristo nos impõe aqui o preceito rigoroso de nos alimentarmos de sua carne e de seu sangue, pois nos ameaça nada menos que com a privação da vida, se não o cumprirmos. Mas como cumpriremos nós esta obrigação, como comeremos sua carne e beberemos seu sangue, se sua carne e seu sangue não estão realmente, e em toda a verdade, na Eucaristia? Se ele não estivesse realmente presente na Eucaristia, a obrigação que nos impõe de recebê-lo seria impossível e injusta, e de modo algum poderia condenar-nos. Que absurdo seria este! Ordenar-nos que o recebêssemos sob pena de morte, quando ele não se encontra ali! … Ora, Deus não é absurdo…
Jesus Cristo continua: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia; porque a minha carne é verdadeiro alimento, e o meu sangue é verdadeira bebida” (Ib. 6, 55-56). Ora, como poderia a carne de Jesus Cristo ser verdadeiro alimento e o seu sangue verdadeira bebida, se a hóstia consagrada não fosse senão pão, e no cálice consagrado não houvesse outra coisa senão vinho? Se na Eucaristia não recebêssemos a carne e o sangue de Jesus Cristo, e por isso não nos tornássemos consubstanciais com ele, quando e de que modo se cumpririam em nós as seguintes promessas do Redentor: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu nele… Quem se alimenta de mim viverá por mim… Quem come deste pão viverá eternamente… As palavras que vos disse são espírito e vida”? (Ib. 57, 58, 64.) Ó judeus cegos, vós murmurais e perguntais como pode ele dar-vos a comer sua carne! Mas não perguntastes isso quando ele vos alimentou com a multiplicação dos pães! Aqui está o poder de Deus. “E quando Deus opera, deixemos a ele — diz São Cirilo — o conhecimento e o modo de sua obra” (1).
São formais as palavras de Jesus Cristo: “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos”. É preciso, portanto, comer Jesus Cristo, sob pena de não mais viver; logo, Jesus Cristo se encontra realmente na Eucaristia, porque nela nos oferece a sua carne e o seu sangue. “De que modo Jesus Cristo se comunica a nós e como se come este pão, isso nos está oculto — diz Santo Agostinho —; entretanto, se não comerdes este pão, não vivereis; este é um mandamento claro e preciso, que traz consigo a sanção penal, isto é, a ameaça de morte em caso de transgressão; logo, é preciso cumprir o mandamento de Jesus Cristo; logo, Jesus Cristo está sobre o altar” (De Praesent. in Sacram.).
“Na véspera de sua morte, Jesus toma o pão, abençoa-o, parte-o e distribui-o aos discípulos, dizendo: Tomai e comei; isto é o meu corpo. Depois, tomando o cálice, deu graças e, apresentando-o aos discípulos, disse: Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que será derramado por muitos para a remissão de seus pecados” (Mt 26, 26-29). Jesus Cristo diz sem véu e abertamente: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue. Ele não diz: Esta é a figura, a imagem, a representação do meu corpo e do meu sangue, como pretendem os hereges… E foi no sentido de Cristo que o grande Apóstolo o entendeu, ao escrever: “O cálice de bênção que abençoamos não é porventura a participação no sangue de Cristo? E o pão que partimos não é porventura a participação no corpo do Senhor?” (1Cor. 10, 16).
Este é o meu corpo, este é o meu sangue. Onde encontrar palavras mais claras e precisas? E note-se que Jesus as pronuncia na véspera de sua morte; elas declaram, portanto, a sua última vontade, constituem o seu testamento. Ora, haverá para os homens momento mais solene do que este para manifestar a verdade? E seria justamente este o momento que Jesus teria escolhido para falar ambiguamente, para enganar e lançar toda a Igreja, até o fim do mundo, na idolatria? A Igreja, sua esposa dileta, por quem derrama o seu sangue! Jesus diz nessa ocasião aos apóstolos: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de ir sofrer” (Lc 22, 15). Por que um desejo tão ardente, se não quer dar-lhes senão puro pão? Por que usar tais expressões, se nada há de extraordinário, se se trata de um alimento comum, em nada diferente de qualquer outra comida ordinária? … Eis uma nova aliança com os seus apóstolos, isto é, com os seus mais queridos e íntimos amigos; e dir-se-á que Jesus os escolheu e elegeu para deles fazer um indigno joguete e enganá-los? Quem poderá jamais crer que Jesus Cristo, verdade suprema e sabedoria, bondade infinita, tenha dado, com estas suas últimas e solenes palavras, motivo a uma falsa crença, a um erro irreparável? a uma monstruosa heresia? E, contudo, teria querido fazer isso e certamente o teria feito se aquelas palavras tão claras e expressivas: Este é o meu corpo, este é o meu sangue, tivessem sido empregadas por ele em sentido figurado, como entendem os calvinistas. Se assim fosse, toda a Igreja, os doutores, os teólogos, os concílios e os santos, desde o princípio do cristianismo, cairiam no erro mais grosseiro e perigoso, na mais estúpida idolatria…
“Eu recebi do Senhor — escreve São Paulo — aquilo que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que será entregue (à morte) por vós; fazei isto em minha memória. Do mesmo modo, tomou o cálice, depois de ter ceado, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memória de mim” (1 Cor. 11, 83-25). Jesus Cristo oferece, portanto, aos seus apóstolos aquele mesmo corpo que em breve oferecerá na cruz; ora, visto que ele morreu na cruz não em figura, mas na realidade, segue-se logicamente que ele se dá realmente a nós na Eucaristia, pois nela nos dá o mesmo corpo que entregou à morte na cruz… E, com efeito, notai que o Apóstolo tira daí a consequência de que todo aquele que come e bebe indignamente aquele pão e aquele vinho se torna réu da profanação do corpo e do sangue de Jesus Cristo (Ib. 27). Mas, se na Eucaristia não houvesse senão puro pão — o que aconteceria se Jesus estivesse nela apenas em figura —, como se poderia chamar réu do corpo e do sangue de Jesus Cristo aquele que não comesse senão uma figura? … “Examine-se, pois, o homem a si mesmo — continua o Apóstolo — e assim coma desse pão e beba desse vinho. Pois quem come e bebe indignamente come e bebe a própria condenação, não distinguindo o corpo do Senhor” (Ib. 28-29). São Paulo exige de nós que nos examinemos e nos purifiquemos antes de receber o pão eucarístico. E por que esse exame, se se trata de puro pão? Por que outro comeria a própria condenação, supondo que não esteja em estado de graça, se a Eucaristia não fosse senão pão e vinho?
2º Dos Padres da Igreja. — Santo Inácio, mártir, falando dos hereges, diz que eles não admitem a Eucaristia porque não querem confessar que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo (2).
São Irineu assim se expressa: “O pão sobre o qual foi pronunciada a invocação de Deus já não é um pão comum, mas é a Eucaristia! … E mais abaixo acrescenta: “Aquele pão sobre o qual foram dadas ações de graças é o corpo de Jesus Cristo, e o cálice é do seu sangue (3)”.
São Justino declara expressamente (Orat. ad Antonin. imperat.) que a Eucaristia contém aquela mesma carne que o Verbo de Deus tomou no seio da Santíssima Virgem.
Não menos explícitos são Tertuliano e Orígenes; o primeiro escreve que nos alimentamos do corpo e do sangue de Jesus Cristo, para que a nossa alma se enriqueça de Deus (4); e o outro nos assegura que, quando tomamos o pão e o vinho eucarísticos, comemos e bebemos o corpo e o sangue do Senhor (5).
São João Crisóstomo pregava que as palavras: “Isto é o meu corpo” transformam em corpo e sangue de Jesus Cristo o pão e o vinho oferecidos sobre o altar (6). E São Cirilo de Jerusalém observava que, tendo o próprio Jesus Cristo pronunciado com a sua boca e afirmado que isto é o seu corpo, não há quem possa contradizê-lo, pois ele mesmo declarou: “Isto é o meu sangue”; onde está o petulante que ousaria duvidar e dizer: “Não, isto não é o seu sangue”? (7). Também São Nilo deixou escrito que, depois das invocações e da descida do Espírito santificador, aquilo que se encontra sobre a sagrada mesa já não é pão, já não é vinho, mas o precioso corpo e sangue de Jesus Cristo, nosso Deus (Vit. Patr.).
Ouçamos Santo Ambrósio: “Este pão, antes das palavras sacramentais, é pão; mas, realizada a consagração, o pão se torna o corpo de Cristo… Quantos há que dizem: Eu desejaria ver a sua face! Pois bem, ei-la que se vê, se toca e se come (8)”.
Nós sabemos, escrevia São Jerônimo, que o pão que o Senhor partiu e deu aos seus apóstolos é o corpo do Salvador. Moisés não deu o verdadeiro pão; mas este nos foi dado pelo Senhor Jesus, que é ele mesmo banquete e convidado; come e se dá a comer (Epl. CL).
Santo Atanásio, São Basílio e São Gregório Nazianzeno falam da mesma maneira; entre os Padres dos primeiros cinco séculos, bastará ouvir ainda Santo Agostinho: “Assim como cremos firmemente que Jesus é o mediador entre Deus e os homens, assim também, com igual fé, sustentamos que ele nos dá a sua carne para comer e o seu sangue para beber (9)”.
“Não somente pelo ouvido, mas também pelo paladar, aprendestes qual é o sangue do Cordeiro”, dizia São Gregório (10). E embora aquilo que se vê, acrescenta São Remígio, não pareça ser outra coisa senão pão, na realidade, porém, é o corpo de Cristo (11). E, com efeito, se as palavras de Elias, como observa Lanfranco, tiveram a virtude de fazer descer o fogo do céu, não terão as palavras formais de Jesus Cristo eficácia bastante para transformar o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue? (Advers. Berengar.). Podia, portanto, com toda a razão, São João Damasceno escrever: “O pão, o vinho e a água são milagrosamente transformados no corpo e no sangue de Jesus Cristo pela invocação e pela descida do Espírito Santo sobre eles (12)”.
De resto, a heresia dos sacramentários, isto é, dos inimigos da transubstanciação, já havia sido refutada e destruída por esta argumentação de São Cirilo de Jerusalém: O Senhor mudou, pelo simples poder de sua vontade, a água em vinho nas bodas de Caná; e haverá quem pense fazer injustiça à própria razão se acreditar nele quando afirma que mudou o vinho em sangue e o pão em seu corpo? Ah! Recebamo-lo, pois, com plena segurança de receber o corpo e o sangue de Jesus Cristo; porque, sob a figura do pão, é dado o corpo, e, sob a figura do vinho, é dado o sangue, a fim de que, participando do corpo e do sangue do Senhor, nos tornemos um só corpo e um só sangue com ele (13).
Em 1025, Gerardo, bispo de Arras e de Cambrai, fez esta profissão de fé: “Quando o pão e o vinho misturado com água são consagrados, de modo inefável, sobre o altar, pela cruz e pelas palavras do Salvador, tornam-se o verdadeiro e próprio corpo, o verdadeiro e próprio sangue de Jesus Cristo, embora aos sentidos pareçam outra coisa; pois não se vê senão pão material, e, não obstante, ele é realissimamente o corpo de Jesus Cristo, como nos assegura, em termos formais, a verdade que disse: ‘Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue’” (Stor. eccles.).
Embora Hildeberto tenha sido discípulo de Berengário, manteve-se, contudo, sempre afastado dos erros de seu mestre. Ele afirma claramente que, depois da consagração do corpo de nosso Senhor, a substância do pão já não permanece na Eucaristia. Serve-se também da palavra transubstanciação e é o primeiro autor em quem se encontra este vocábulo (Stor. eccles.). São Paulino, bispo de Nola, declara que, ao receber a Eucaristia, comemos a carne de Jesus Cristo, a mesma carne que foi pregada na cruz (Stor. eccles.).
“Sob as espécies do pão e do vinho, Jesus Cristo deixou aos seus fiéis, diz São Tomás, o seu corpo como alimento e o seu sangue como bebida. Que há de mais admirável que este sacramento, no qual o pão e o vinho são substancialmente transformados no corpo e no sangue de Jesus Cristo? (14.)”.
3° Dos Concílios. — Eis como falam os Padres do concílio de Alexandria, sob São Cirilo: “Somos santificados pela participação da sagrada carne e do precioso sangue de Jesus Cristo; porque não recebemos este alimento como uma carne comum, Deus nos livre! Nem como a carne de um homem santificado e unido ao Verbo somente quanto à dignidade, ou em quem a divindade tivesse somente habitado, mas como uma carne verdadeiramente vivificante e, por conseguinte, como a própria carne do Verbo, sem a qual ela não seria vivificante” (Stor. eccles.).
No quarto concílio ecumênico de Latrão, foi expressamente definido que o próprio Jesus Cristo é o sacerdote e o sacrifício da nova lei; que, em virtude do poder por ele conferido aos apóstolos e aos seus sucessores, somente os sacerdotes legitimamente ordenados podem consagrar o sacramento dos nossos altares; que o corpo e o sangue deste Deus feito homem estão realmente contidos nele, sendo o pão transubstanciado no corpo e o vinho no sangue, em virtude da onipotência divina (Stor. eccles.). Este vocábulo transubstanciação, que exprime a doutrina invariável da Igreja, foi consagrado pelo décimo segundo concílio ecumênico para expressar a mudança do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus Cristo, assim como o concílio de Niceia havia consagrado a palavra consubstancial para expressar que o Filho de Deus é da mesma natureza que o Pai.
Mas deixemos de lado todos os outros concílios, que a uma só voz atestam a fé firme e inabalável da Igreja na presença real, e detenhamo-nos somente no concílio de Trento, que é o compêndio de todos os concílios anteriores.
Este santo concílio, em sua décima terceira sessão, no cap. III, assim se expressa: “E sempre se acreditou na Igreja de Deus que, imediatamente depois da consagração, existe sob as espécies do pão e do vinho o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de nosso Senhor, juntamente com sua alma e sua divindade; de tal modo, porém, que, em virtude das palavras, o corpo existe sob a espécie do pão, e o sangue sob a do vinho; em virtude, depois, daquela união natural e concomitância pela qual as partes de Jesus Cristo, já ressuscitado dos mortos para não mais morrer, se unem entre si, o corpo se encontra também sob a espécie do vinho; o sangue, sob a do pão, e a alma, sob ambas; finalmente, a divindade encontra-se ali em virtude de sua admirável união hipostática com o corpo e com a alma. Por isso, é absolutamente verdadeiro que, tanto em uma como em outra espécie, se contém tudo quanto se encontra em ambas; porque Jesus Cristo está inteiro tanto nas espécies do pão como nas do vinho”. E já no capítulo I havia proclamado que as espécies sacramentais contêm verdadeira, real e substancialmente o Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
O mesmo concílio, na mesma sessão, declara que este sagrado dogma é um artigo de fé e ameaça com os anátemas divinos aqueles que de algum modo o negarem. Diz, portanto, no cânon primeiro: “Se alguém negar que o corpo, o sangue, a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo estejam verdadeira, real e substancialmente no sacramento da santíssima Eucaristia, e que, por isso, Jesus Cristo ali se encontre inteiro; mas disser que ele está ali somente como sinal, ou em figura, ou em virtude da fé; seja anátema”.
No cânon segundo: “Se alguém afirmar que, no santíssimo sacramento da Eucaristia, permanece a substância do pão e do vinho juntamente com o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e negar aquela singular e admirável mudança de toda a substância do pão no corpo, e de toda a substância do vinho no sangue, permanecendo ali apenas as aparências do pão e do vinho, mudança que a Igreja católica apropriadamente chama transubstanciação, seja anátema”. No terceiro: “Se alguém sustentar que, no augusto sacramento da Eucaristia, Jesus Cristo não está inteiro sob cada uma das espécies e em cada partícula das espécies divididas, seja anátema”.
4º. Da crença constante, invariável e universal da Igreja.
Ainda podemos confundir os hereges ou os incrédulos, opondo-lhes a crença ininterrupta, invariável e universal da Igreja na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, e dizer: No dia em que vós aparecestes no mundo, toda a Igreja cristã acreditava na presença real de Jesus Cristo no sacramento eucarístico; logo, ela acreditou nisso desde o tempo dos apóstolos até nós.
É impossível que, tratando-se de um sacramento de uso universal e cotidiano, que constitui a parte principal do culto cristão, a crença comum e universal pudesse ter mudado sem que semelhante mudança tivesse provocado rumores e disputas, e sem que tivesse suscitado a palavra dos sumos pontífices e dos concílios; contudo, não há vestígio disso em lugar algum. É impossível que, em todo o Oriente e no Ocidente, os pastores e doutores da Igreja tenham conspirado juntamente com o papa para introduzir semelhante mudança, ou que todos a tenham introduzido sem se dar conta. É impossível que nenhum dos hereges condenados pela Igreja católica, descontentes e irados contra ela, não lhe tivesse censurado tal mudança, se realmente tivesse ocorrido; ou que ninguém a tivesse revelado. Ora, acerca disso não se encontra senão silêncio absoluto…
Temos uma prova positiva de que a fé na presença real jamais mudou no fato de que a linguagem foi sempre a mesma em todos os séculos: os Padres, os papas, os concílios, as liturgias, as profissões de fé, os teólogos e os autores eclesiásticos empregam todos as mesmas expressões e concordam no mesmo sentido…
Todas as liturgias, inclusive aquelas que uma respeitável e contínua tradição atribui aos apóstolos; as de São Basílio e do Crisóstomo; as antigas liturgias galicana e moçárabe, as dos nestorianos, dos jacobitas, dos sírios, dos coptas, dos etíopes e dos gregos, estão perfeitamente de acordo com a missa romana, tal como é celebrada hoje em toda a Igreja católica; todas contêm clara e formalmente a doutrina da presença real e da transubstanciação…
5º. Da razão teológica. — 1) Se a Eucaristia não é senão pão, se a hóstia permanece pão mesmo depois da consagração, segue-se que a figura do pão sucedeu ao cordeiro figurativo. Ora, quem ousará afirmar semelhante estranheza? Teria sido melhor conservar o cordeiro, em vez de substituí-lo por simples pão: pois o cordeiro imolado na antiga lei era uma figura muito mais expressiva de Jesus Cristo sofredor do que o simples pão na nova. Além disso, quem não vê que, se fosse correta a opinião de Calvino, isto é, que a Eucaristia contém apenas pão, teríamos no cordeiro um tipo exagerado e ridículo da Eucaristia?
2) O Filho de Deus, onipotente, infinitamente sábio e bom, escolhe a véspera de sua paixão para tomar entre as mãos um pão, na presença dos apóstolos e de sua bem-aventurada Mãe, e pronunciar aquelas solenes palavras: Este é o meu corpo — Hoc est corpus meum. — Naquele momento solene, como observa o evangelista, ele se detém para fazer notar aos seus convivas que lhe foi dado todo o poder, que nada lhe é impossível, que seu poder é infinito, que ele é a sabedoria eterna do Pai, a bondade por essência, que ama unicamente os homens, que os prefere aos anjos, tendo-se feito homem pelos homens, que os ama e sempre os amou; todas essas coisas Jesus recorda e antepõe antes de dizer: Este é o meu corpo. Posto isso, teria sido acaso necessário recordar todas essas grandes coisas, se se tratasse de dar aos apóstolos nada mais que um pedaço de pão? E a quem dirigia ele aquelas palavras: Este é o meu corpo? A seus amados apóstolos, aos quais já havia dito: “Não vos chamarei mais servos, mas amigos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, ao passo que a vós manifestei tudo quanto ouvi do Pai” (Jo 15, 15). Fala aos seus apóstolos, com os quais costumava expressar-se de modo claro e simples, sem metáforas nem parábolas, ou, se alguma lhes propunha, imediatamente lhes dava a explicação. “A vós é dado penetrar os mistérios do reino dos céus, mas aos outros, não” (Mt 13, 11). Ele fala com seus embaixadores, aos quais confiou o encargo de instruir todo o universo, de interpretar suas palavras, de revelar e explicar seus mistérios. Ora, a quem, senão aos seus embaixadores, informa um rei sobre seus desígnios, seus desejos e seus segredos, para que estejam em condições de cumprir suas vontades? E Jesus Cristo, dizendo a seus íntimos amigos, a seus delegados, a seus embaixadores: Tomai e comei, isto é o meu corpo; tomai e bebei, isto é o meu sangue, tê-los-ia enganado! e, em vez de seu adorável corpo, não lhes teria dado senão um pouco de pão!
3) Observemos ainda a circunstância do tempo. Jesus come primeiro o cordeiro pascal com os discípulos; depois, para chegar a um mistério mais elevado, para passar da figura à realidade, da promessa ao cumprimento, da sombra ao corpo, diz-lhes, tomando o pão, abençoando-o e partindo-o: Tomai e comei, isto é o meu corpo. Se aquilo que lhes oferece não fosse realmente o seu corpo, faria uma coisa sem finalidade; seria uma repetição inútil, não de palavras, mas de fatos, porque o cordeiro pascal era uma figura muito mais distinta, mais expressiva e mais significativa do seu corpo do que um pedaço de pão…
4) Mas há ainda mais. Se, depois daquelas palavras tão claras e precisas: Este é o meu corpo, o pão permaneceu pão, e o vinho, vinho, Jesus Cristo não somente zombou dos apóstolos e de toda a Igreja até o fim dos séculos, mas ainda desmentiu os profetas. O Salmista havia dito que o homem comeria o pão dos anjos (Sl 77, 25). Ora, onde está esse pão, se não na Eucaristia? O próprio Deus havia anunciado pela boca de Malaquias que, em todo o mundo, do Oriente ao Ocidente, se imola e se oferece ao seu nome uma oblação pura e sem mancha, porque grande é o seu nome entre as nações (I, 11). E onde estariam a vossa veracidade e a vossa majestade, ó grande Deus, se esta oblação, este sacrifício puro e sem mancha não fosse outra coisa senão um pedaço de pão? …
5) Todos os sacrifícios da antiga lei simbolizavam, segundo as palavras de Jesus e dos apóstolos, o sacrifício da nova lei, e cessaram ao aparecer o sacrifício da cruz e do altar; mas, supondo-se que a Eucaristia fosse simplesmente pão, a realidade não corresponderia à figura, e não se poderia compreender como Deus, rejeitando os sacrifícios da antiga aliança, receba como oferta imaculada, pura e agradabilíssima a de um pouco de pão. A cessação de todos os antigos sacrifícios fora predita e ocorreu depois que Jesus Cristo disse: Isto é o meu corpo; ora, aquilo que Jesus declarou ser o seu corpo será simplesmente um pedaço de pão! e todos os sacrifícios judaicos terão cessado para dar lugar a um pedaço de pão! e esse pedaço de pão terá perfeitamente substituído todos os antigos sacrifícios, será a realidade de todos os sacrifícios que não eram senão símbolos! e Deus, que não se contentara nem com bois, nem com cordeiros, nem com rolas, nem com touros, contentar-se-á, desde a vinda de Jesus Cristo até o fim do mundo, com um pedaço de pão oferecido nos santos altares pela Igreja, sua esposa! e a Igreja dirá, oferecendo a Deus esse pão: Eis o corpo de vosso Filho, que vos apresento; este pedaço de pão vale tanto quanto o corpo de vosso Filho; este punhado de farinha tem mérito infinito, é digno de vós; e Deus se dará por satisfeito!
6) Encontramos nos evangelistas descritos minuciosamente todos os cuidados e preparativos que Jesus Cristo tomou antes da celebração de sua última ceia. Lede o Evangelho de São Lucas (22, 8-12) e, pelas ordens que vedes dadas pelo Redentor aos apóstolos para que o lugar da ceia fosse bem adornado e tudo estivesse preparado, percebereis que Jesus Cristo, em nenhuma outra ocasião, jamais recomendou maior atenção e magnificência. Mas, se Jesus, naquele banquete, não queria dar aos apóstolos senão um pouco de pão, por que ordenar tamanha pompa? Por que manifestar solenidade tão insólita? Teria mostrado tanta solicitude para proclamar uma mentira, para enganar a Igreja, para torná-la idólatra até o fim dos séculos? E, no entanto, tudo isso teria acontecido se a Eucaristia fosse simplesmente pão. Além disso, um instante antes de dizer: Isto é o meu corpo, o Redentor afirma, diante de seus apóstolos, que sempre fora seu ardentíssimo desejo comer com eles aquela Páscoa antes de morrer (Ib. 22, 15). E diremos nós que esse ardente desejo, que durante tão longo tempo inflamou o amorosíssimo coração do Salvador, não tivesse outro objetivo senão comer, na companhia de seus apóstolos, um pouco de pão? Mas ele já o havia comido muitas vezes antes, sem proferir palavras tão doces e sublimes! Por que, nessa ocasião, dar tanta importância a um pedaço de pão?
7) Jesus Cristo está prestes a abandonar-nos, dá à Igreja o seu último adeus, parte para a morte e depois para o céu. — Quando um esposo, no fim da vida, despede-se de sua fiel esposa, não lhe abre porventura inteiramente o coração, não lhe revela os seus pensamentos mais íntimos? Quando é que lhe fala com maior franqueza, deixa-lhe penhores mais preciosos, dá-lhe testemunhos maiores de seu afeto? E Jesus Cristo teria escolhido esse momento supremo para falar de modo obscuro e ambíguo à sua fiel Igreja, por cuja salvação vai derramar o seu sangue! E, como toda prova de sua ternura, como toda garantia de sua amizade, para consolá-la de sua ausência, não lhe teria deixado senão um pouco de pão!
8) Se a Eucaristia não é senão pão, não havia razão alguma para que Jesus a prometesse com tanta antecedência, falasse dela com tanta ênfase, mostrasse com tanta frequência a sua necessidade e os seus maravilhosos efeitos, preferindo-a ao maná do deserto. Se aquilo que vem de Jesus Cristo não é senão pão, o maná é certamente preferível, pois o maná era figura do corpo de Cristo, descia do céu, era um pão milagroso que tinha todos os sabores mais requintados, ao passo que o pão, que de modo algum simboliza o corpo de Jesus Cristo, é produzido pela terra e tem sempre o mesmo sabor para todos e em toda parte…
9) Esse grande Deus, para salvar o mundo, escolhe a mais pobre e humilde entre as virgens; toma como palácio um estábulo; como primeiras testemunhas de seu nascimento, rudes pastores; passa a vida numa miserável casinha; não quer fazer ostentação de si mesmo, mas permanece durante trinta anos esquecido de todos, no recolhimento e na solidão; provê o próprio alimento com o trabalho de suas mãos; quando querem fazê-lo rei, esconde-se; não tem onde reclinar a cabeça; morre na cruz entre dois ladrões. E, entretanto, na ceia, ostenta magnificência, quer uma sala ampla e bem adornada; lava os pés de seus apóstolos; dirige-lhes um longo e sublime discurso; e tudo isso não teria tido outro objetivo senão prepará-los para receber um pouco de pão! …
Depois de tais provas, quem pode negar ou pôr em dúvida a presença real? E estas razões, que estabelecem firmemente a transubstanciação do pão, provam igualmente a transubstanciação do vinho…
10) Todos os evangelistas, e São Paulo com eles, dão a explicação daquelas palavras: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, com este acréscimo: Este corpo e este sangue que será dado por vós em remissão dos pecados. Ora, não foi o pão que foi entregue nas mãos dos judeus, mas o corpo de Jesus Cristo; não foi o vinho que foi derramado, mas o sangue de Jesus Cristo; não fomos resgatados pelo pão e pelo vinho, mas pelo corpo e pelo sangue do Redentor; é, portanto, evidente que, para os evangelistas, o pão e o vinho eucarísticos são o corpo e o sangue de Jesus Cristo…
Se as palavras de Jesus Cristo: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, não soassem claras, positivas e evidentes, então eu lançaria ao herege e ao incrédulo este desafio: Sugerí vós mesmos aquelas expressões mais adequadas e menos obscuras que Jesus Cristo poderia ter empregado para significar que o pão fora mudado em seu corpo e o vinho em seu sangue. Seria necessário, porventura, que, não se contentando em dizer: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, tivesse acrescentado: Isto é verdadeiramente o meu corpo, isto é realmente o meu sangue? Mas teria isso sido uma maneira de falar conforme ao senso comum? …
Quando digo, por exemplo, assim se exprime Bossuet, há pão, há vinho e qualquer outra coisa, sem mais, quem quer que me ouça apreende imediatamente o meu pensamento e entende que falo e me refiro realmente a pão e vinho. Será porventura necessário que eu acrescente: Eis aqui realmente pão, eis aqui realmente vinho? De modo algum; esse acréscimo pareceria e seria verdadeiramente inútil. Ora, o Salvador do mundo, para que não pudéssemos enganar-nos quanto ao sentido de suas palavras, não se contentando em dizer de modo absoluto: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, explica-se ainda mais claramente e acrescenta: É esse mesmo corpo que será dado por vós, esse mesmo sangue que será derramado por vós…
A Igreja católica, apostólica, romana, sempre creu, ensinou e professou a presença real. Ora, como juíza e autoridade, ela é infinitamente mais digna de fé que o herege e apóstata Calvino…
Em 1050, Berengário, tendo negado a transubstanciação, foi imediatamente condenado por toda a Igreja, porque ensinava uma doutrina nova, jamais ouvida antes, falsa e herética; e, convencido de seu erro, Berengário abjurou publicamente, com a própria boca, a sua heresia no concílio de Tours, sob o pontificado de Vítor II. Tendo recaído nela, foi novamente condenado sob o papa Gregório 7, e foi-lhe exigida a seguinte profissão de fé: “Eu, Berengário, creio de coração e confesso com a boca que o pão e o vinho são mudados no verdadeiro, próprio e vivificante corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; que, depois da consagração, o pão é o verdadeiro corpo de Jesus Cristo, nascido da Virgem, e o vinho é o verdadeiro sangue de Jesus Cristo, saído de seu costado; e que isso não se dá em figura, mas na realidade e propriedade da natureza, e na verdade da substância” (Storia eccles.).
Depois que Jesus Cristo proferiu aquelas palavras: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, tudo quanto houve de mais sábio, de mais santo e de mais perfeito no gênero humano — os apóstolos, os mártires, os santos padres, os papas, os bispos, os pastores, os teólogos, os confessores, os missionários, os concílios, entre os quais oito ecumênicos, a saber: o primeiro e o segundo de Niceia, o Romano sob o papa Nicolau II, o IV de Latrão, os de Viena, de Constança, de Florença e o de Trento, além de grande número de sínodos provinciais —, a Igreja inteira, em todos os tempos, todos confessaram a presença real, todos a creram como um dogma de fé e lançaram anátema contra toda crença e prática contrárias.
Ora, se Jesus Cristo não se encontrasse realmente na Eucaristia, todos, em todas as épocas e lugares, teriam sido enganados; todos teriam sido, seriam no presente e seriam no futuro, até o fim do mundo, idólatras, porque todos adoraram, adoram e adorarão o pão e o vinho em vez do corpo e do sangue de Jesus Cristo. O que equivale a dizer que os cristãos mais esclarecidos seriam mais insensatos que os pagãos mais cegos, porque estes, ao menos em grande parte, adoravam o sol, a lua e as estrelas; os cristãos, porém, adorariam um mísero pedaço de pão! … Vedes vós estes milhares de milhões de católicos de todos os séculos, prostrados, de geração em geração, há mil novecentos e tantos anos, em atitude de adorar Jesus Cristo presente nos altares? Pois bem, todos eles são idólatras; não adoram senão um pouco de pão. Quem o disse? Calvino… Vedes vós aqueles milhares de bispos, aquelas miríades de sacerdotes católicos que todos os dias consagram e que dizem aos fiéis, depois da consagração: Eis o Cordeiro de Deus — Ecce, Agnus Dei? — Pois bem, todos eles são mentirosos, impostores, idólatras. Quem o afirmou? Calvino. Compreendeis agora toda a loucura e as monstruosas consequências da heresia e da incredulidade? …
6° Dos próprios hereges. — Os próprios hereges não puderam esquivar-se inteiramente de dar testemunho da clareza das palavras eucarísticas. Lutero, por exemplo, escrevia a Argentino que, se Carlostádio tivesse podido persuadi-lo de que no sacramento da Eucaristia há somente pão e vinho, lhe teria prestado um grande serviço, porque o teria posto em condições de combater com êxito o papado. Mas, infelizmente, acrescentava, vejo-me obrigado a crer na presença real; não encontro apoio para negá-la, porque o texto evangélico soa de modo demasiado claro, positivo e peremptório; é demasiado difícil torcê-lo para outro sentido, seja por meio de palavras, seja por meio de raciocínios.
Também Melanchthon diz: “Se neste sacramento colocardes a figura em lugar da realidade, por meio desse artifício será possível subverter tudo; então será permitido transformar a religião inteira. Será permitido afirmar que Deus não é Deus, que Jesus Cristo não é Jesus Cristo etc.” (Epist. ad Freder. Myconium.), Assim precisamente vemos que aconteceu, pois o verdadeiro Protestantismo já não existe, mas desapareceu no abismo do ateísmo e do racionalismo, confirmando as previsões do cardeal Osio, que, desde os primeiros empreendimentos da Reforma, afirmava que os hereges se tornariam ateus e que o termo de toda heresia era o ateísmo, porque na heresia não há nada de estável, firme ou invariável, nada que permaneça de pé senão a incredulidade e a negação de toda verdade (Contra Haeres.).
Erasmo escrevia a Conrado: “Sempre afirmei que seria impossível fazer-me negar a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, principalmente pela evidência do Evangelho e das Epístolas apostólicas, que dizem formalmente ser o verdadeiro corpo de Jesus Cristo aquilo que nos é dado, e ser o seu verdadeiro sangue aquilo que está sobre o altar. Se vos agrada crer que na hóstia e no cálice não há outra coisa senão pão e vinho, seja assim; mas, quanto a mim, prefiro ser feito em pedaços a abraçar a vossa crença a respeito deste dogma; e jamais suportarei que me acuseis de ser autor ou partidário de semelhante erro…”. Em outro lugar, o mesmo autor, que tampouco se desentendia mal com os Reformistas em vários pontos, escreve: “Nunca pude, nem jamais poderei persuadir-me de que Jesus Cristo, que é a verdade e a caridade por essência, tenha podido tolerar por tão longo tempo que sua dileta esposa permanecesse em erro tão abominável e adorasse de modo permanente um miserável bocado de pão” (Ad Ludov. Berum.).
7° Dos milagres. — A santa Eucaristia operou inúmeros milagres.
São Gregório Nazianzeno relata que seu pai, consumido por febre ardentíssima e no fim da vida, foi curado pela santa Eucaristia, e nos assegura que o mesmo milagre se renovou em sua mãe e em sua irmã Gorgônia (In Distich.).
Santo Ambrósio dá como certo que Sátiro, seu irmão, foi salvo de certo naufrágio em virtude da santa hóstia que levava ao pescoço (Lib. I de offic.). E São Gregório Magno atesta que o mesmo milagre aconteceu com Máximo, bispo de Siracusa (SURIO).
Santo Optato de Milevo nos informa que, tendo a seita dos donatistas, no ano de 384, cometido uma horrível impiedade contra a santíssima Eucaristia, lançando as santas hóstias aos cães, logo se viram aqueles animais, sinal visível da vingança divina, atirarem-se enfurecidos contra seus donos, mordendo-os, dilacerando-os e despedaçando-os (Stor. eccles.).
Em Constantinopla, no ano de 552, um menino judeu recebeu a comunhão juntamente com as crianças cristãs; seu pai, sabendo do ocorrido, encerrou-o numa fornalha acesa, mas o filho foi preservado das chamas e saiu de lá, algum tempo depois, ileso (Stor. eccles.).
Uma dama romana, recebendo certo dia a santa comunhão das mãos de São Gregório papa, deixou escapar um leve sorriso quando ouviu que aquele pão que pouco antes ela mesma havia feito com as próprias mãos era chamado corpo de Jesus. Mas o santo, querendo fortalecer a fé vacilante daquela cristã, mandou depositar a hóstia, pôs-se em oração e depois lha mostrou, na presença de toda a multidão, transformada em carne (Stor. eccles.).
Encontramos nas obras de São Nilo que São João Crisóstomo via frequentemente anjos no lugar santo, principalmente durante o adorável sacrifício do corpo e do sangue de Jesus Cristo, e que, desde o momento em que o sacerdote começava a oblação, eles circundavam o altar até a consumação dos santos mistérios.
Um estupendo milagre aconteceu em Paris no ano de 1290. Uma pobre mulher havia empenhado junto a um judeu um vestido seu por uma pequena quantia que dele tomara emprestada. Alguns dias antes da Páscoa, pediu ao judeu que lhe emprestasse aquela veste, para que pudesse cumprir, como dizia, com mais decência o dever pascal. “Com prazer”, respondeu-lhe o judeu, “e eu vo-la deixaria até mesmo para sempre, sem juros, se quisésseis trazer-me o pão que recebeis na igreja e que vós, cristãos, chamais vosso Deus; gostaria um pouco de ver se realmente há Deus nele.” A incauta e desventurada mulher aceitou o trato e, tendo recebido a comunhão em São Merry, sua paróquia, furtou secretamente a santa hóstia e levou-a ao judeu. Este a colocou sobre uma mesa e, começando a perfurá-la com golpes de faca, viu escorrer sangue. A mulher dele correu, assustada, e empregou todos os meios para impedi-lo de cometer algo pior; mas ele, ainda mais enfurecido, cravou um prego na hóstia, que novamente derramou sangue; lançou-a ao fogo, mas ela saiu ilesa, mantendo-se suspensa no ar. Finalmente, colocou-a numa caldeira de água fervente e, num instante, viu-se toda aquela água tingida de sangue; e a hóstia, elevando-se mais uma vez, apareceu sob a forma de um crucifixo. Essa hóstia milagrosa foi colocada e zelosamente conservada na igreja de São João em Grève; e já no ano de 1295 um burguês de Paris, chamado Régnier Flamming, mandou construir ali um oratório que recebeu o nome de capela do milagre. Esse prodígio, atestado por toda Paris, não foi contestado por ninguém.
Em 1331, na cidade de Colônia, uma pessoa sem fé, tendo recebido a Comunhão, não pôde engolir a sagrada partícula e foi obrigada a tirá-la da boca; naquele instante, ela apareceu sob a forma de uma criança ao povo que, tendo ouvido o acontecido, acorria para lá em grande multidão. Os enfermos que se aproximavam daquele lugar eram prontamente curados. Foi construída uma igreja, em cujo frontão se lia: — Corpo de Cristo — “O corpo de Cristo”.
Em 1454, Casimiro, rei da Polônia, erigiu um magnífico templo em memória do seguinte estrepitoso milagre: certos ladrões haviam roubado um cibório que continha as sagradas espécies, julgando-o de ouro; mas, ao descobrirem que era de cobre, lançaram-no, juntamente com as partículas, dentro de um lago, o qual se transformou subitamente num fogo que resplandecia noite e dia. O bispo do lugar, ignorando a causa de tal prodígio, ordenou um jejum de três dias; depois disso, dirigiu-se processionalmente, recitando orações, à margem do pântano, e ali encontrou o cibório e as santas espécies, que levou de volta ao lugar de onde os ladrões as haviam retirado. Atas autênticas, e o templo construído naquele local, dão testemunho perene do fato.
Um ladrão rouba, no burgo de Exilles, um cibório de prata no qual está encerrada uma hóstia consagrada; carrega o fruto do roubo em sua cavalgadura e parte em direção a Turim. Chegando a essa cidade, diante da igreja de São Silvestre, o animal cai de joelhos; a hóstia se desprende e se eleva no alto, resplandecente de luz. Avisado do fato, o bispo dirige-se processionalmente ao lugar do milagre, prostra-se por terra, manda trazer um cálice, e eis que a hóstia, que permanecia imóvel e resplandecente como um sol no ar, às orações do bispo e do povo desce e pousa no cálice. Esse milagre, ocorrido em 1453, e do qual se conservam documentos autênticos, permanece até hoje vivo na memória dos turineses, pela festa que todos os anos se celebra em sua honra e pela bela igreja do Corpus Domini erigida no próprio lugar em que aconteceu.
Corria o ano de 1591 quando chegou aos ouvidos de Santo Odo, arcebispo de Cantuária, que alguns alimentavam dúvidas acerca da presença real; o santo voltou-se para Deus, pedindo-lhe que os libertasse de tal tentação e confirmasse a verdade do mistério de algum modo esplêndido. O céu atendeu à oração: certo dia, enquanto celebrava a Missa na catedral, ao partir a hóstia, duas gotas de sangue escorreram à vista de toda a multidão ali reunida e caíram no cálice. O bispo chamou ao altar aqueles que estavam atormentados pela dúvida; e eles, profundamente agradecidos a Deus pela graça que lhes fora concedida, agradeceram-lhe solenemente, juntamente com o seu arcebispo (In Vita).
Na igreja abacial de Faverney, no Franco-Condado, no ano de 1608, estavam expostas à veneração pública duas hóstias encerradas num relicário de prata. Irrompe um incêndio que reduz a cinzas as toalhas, os ornamentos, o pálio e até mesmo o altar, enquanto o relicário permanece suspenso no ar, sem qualquer apoio, durante doze horas, à vista de uma imensa multidão atraída das localidades circunvizinhas pelo desejo de observar o prodígio. Enquanto isso, muitos sacerdotes celebraram a Missa nos altares próximos, e a santa hóstia permanecia suspensa no ar. Finalmente, numa dessas Missas, no momento da elevação, viu-se o relicário descer levemente, por si mesmo, sobre os corporais estendidos no altar. Os autos autênticos recolhidos por ordem do arcebispo de Besançon nomeiam cinquenta testemunhas fidedignas, as quais afirmam ter visto com os próprios olhos o referido prodígio.
Poderíamos citar inumeráveis milagres em prova da verdade da presença real… Mas os milagres mais estupendos que nos asseguram a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia são os espirituais, isto é, os milagres da graça de uma boa e fervorosa Comunhão. Quantas doces e inefáveis consolações não experimentam as almas bem preparadas! Ah! A hóstia consagrada não pode ser simples pão, mas deve ser o corpo e o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo!
O primeiro motivo que levou o Redentor a instituir o augusto sacramento do altar é o seu amor: para nutrir nossas almas com a própria substância da divindade, para que a Igreja pudesse honrar a Deus, ao longo dos séculos, de modo digno dele, e adorá-lo como merece, Jesus quis deixar-se a nós como alimento e bebida. Com efeito, a vítima que é oferecida vale um preço infinito; é igual a Deus; um Deus é oferecido a Deus! … Como tudo o que podemos fazer, inclusive a oferta de nós mesmos, é pouca coisa, por isso Jesus Cristo quis que, tomando-o como holocausto, pudéssemos prestar a Deus um culto digno de sua majestade e tão grande quanto ele possa desejar…
O segundo motivo era deixar-nos para sempre, neste divino testamento, a lembrança de sua vida e de sua paixão…
O terceiro motivo foi unir-se a nós e transformar-nos nele, realizando a sentença dos Provérbios: “. Minhas delícias estão em estar entre os homens” (8, 31). Ao nascer, diz São Tomás, Jesus Cristo fez-se companheiro do homem; ao morrer, fez-se o preço de sua liberdade; ao comer com ele, fez-se seu alimento; no céu, onde reina, dá-se a ele como recompensa (15). É preciso, portanto, retribuir-lhe amor com amor, viver, combater, vencer, sofrer e morrer por ele.
O quarto motivo foi animar-nos a praticar todas as virtudes: a fé, a esperança, a caridade, a humildade, a pureza, a paciência, a obediência, a oração etc.
O quinto foi deixar-nos um penhor do paraíso; com efeito, a Eucaristia é alimento de imortalidade, segundo a palavra de Cristo: “Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6,52).
Mas por que ele demorou até a véspera de sua paixão para instituir este divino sacramento? “Para que, responde São Tomás, a imensidade de seu amor se gravasse mais profundamente no coração dos fiéis: ele o instituiu na última ceia como memorial perpétuo de sua paixão, cumprimento das antigas figuras, o maior dos milagres por ele realizados, precioso consolo para aqueles que deixava desolados pela falta de sua presença visível (16)”.
Vós sois pescadores de peixes, disse Jesus aos seus apóstolos; agora, vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens, com esta diferença: os pescadores apanham os peixes para comê-los, e vós pescareis os homens para que se alimentem de mim mesmo na Eucaristia; esta coisa, indicada pelo apóstolo São João naquelas palavras: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1), já havia sido prenunciada por Jesus Cristo pela boca de Oseias: “Eu os atrairei a mim com os laços mais caros ao homem, com os laços do amor; e os levarei nos braços, como o pai que traz um filho ao colo” (Os 11, 4, 3).
A Eucaristia é o fogo do amor divino que acende no homem a chama da caridade; pois é precisamente nela que Deus se mostra todo caridade, como diz São João (Jo 7, 4, 8). “O sacramento do altar é o amor dos amores, exclama São Bernardo; quando pronuncio o nome Eucaristia, manifesto em uma só palavra todos os tesouros da benignidade do Senhor (17).”
“Vós dais, ó Senhor, diz o Salmista, a vida àqueles que vo-la pedem” (Sl 20, 4). E esta vida é ele mesmo em pessoa, que se oferece a nós como a filhos diletos, diz São Paulo (Hb 12, 7). “De tal modo Deus amou o mundo, diz São João, que lhe deu o seu Filho Unigênito” (Jo 3, 16). De maneira que, com razão, o santo Concílio de Trento afirma que, no divino sacramento da Eucaristia, Jesus Cristo esgotou todos os tesouros do seu amor para com os homens (18). “O homem, como observa São Fulgêncio, afastou-se de Deus por desprezo; e Deus veio ao homem por amor” (19).
Na encarnação, Jesus Cristo ocultou sua divindade sob o véu da carne, para que pudéssemos vê-lo; na Eucaristia, oculta a divindade e a humanidade sob as espécies do pão, para que possamos comê-lo. Na encarnação, Deus recebeu o homem, unindo a natureza humana ao Verbo divino; na Eucaristia, o homem recebe Deus e o une a si. A Eucaristia é a extensão, a continuação da encarnação; Deus encarna-se, de certo modo, em todos aqueles que comungam.
Para formar alguma ideia do amor infinito de Jesus Cristo por nós na Eucaristia, consideremos, em primeiro lugar, aquilo que ele nos dá à santa mesa. Dá-nos o seu corpo… o seu sangue… a sua alma… a sua divindade; dá-nos a si mesmo inteiro, em suas perfeições…; ele esvazia, segundo a expressão de Santo Agostinho, os tesouros de seu poder, de sua sabedoria e de sua riqueza (20). Há um abismo entre o amor do Criador e o amor da criatura; a criatura ama por indigência, o Criador por abundância; a criatura ama por necessidade, Deus ama por excesso de bondade; a criatura ama para receber, Deus ama para dar. A criatura sempre supõe algum bem naquele a quem começa a amar; o Criador nada supõe, mas comunica o bem ao objeto do seu amor. Deus não possui de modo algum o amor de interesse, o amor mercenário, mas somente o amor de benevolência e o de complacência: o amor de benevolência, pelo qual ele quer bem à criatura e efetivamente lhe faz o bem; o amor de complacência, pelo qual ele se compraz não na criatura que recebeu esse bem, mas em si mesmo e em sua bondade divina, que fez esse bem à sua criatura. Daí se segue que imenso, infinito, inefável, incompreensível é o amor que ele nos dedica; nenhum pensamento nem imaginação, humana ou angélica, é capaz de alcançá-lo. Com efeito, como o motivo que ele tem para nos amar não reside em nós, mas nele; como sua benevolência não nasce de alguma perfeição que se encontre em nós, mas somente de sua bondade natural, por isso, tendo o seu amor uma razão infinita, um princípio divino, deve-se necessariamente dizer que ele é tão grande e tão infinito quanto o seu ser. Ora, é principalmente na Eucaristia que ele nos dá prova de seu grande amor. Este Deus que ama a si mesmo com um amor infinito, que é todo amor, estando em nós e transformando-nos nele, ama a si mesmo em nós e nos ama em si, com amor infinito, e aplica a cada um de nós aquelas doces palavras: “Este é o meu Filho amado, em quem pus as minhas complacências” (Mt 3, 12).
Consideremos, em segundo lugar, o modo como Jesus Cristo se dá a nós na Eucaristia, e teremos uma ideia do seu amor. “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, todo impregnado de doçura” (Ib. 21, 5).
Se ele viesse a nós e estivesse em nós na qualidade de rei, sentir-nos-íamos tomados de temor e espanto; mas vem na qualidade de rei todo doce e incomparavelmente pacífico… Não, não, diz o Crisóstomo, sua majestade e sua grandeza não constituem de modo algum um obstáculo que o impeça de fazer-se homem conosco e de encarnar-se, de certo modo, em nós (Homil. ad pop.). Sua divindade, abismo de luz, haveria de nos cegar; ele a oculta sob o véu da humanidade; sua humanidade ainda teria esplendores demasiado vivos, e ele a oculta sob as espécies do pão. Depois, para estimular-nos à comunhão, apresenta-nos a Eucaristia como um alimento que nos é necessário. E todas estas admiráveis invenções são feitas por puro amor para conosco.
Quando o sacerdote oferece este grande Deus ao fiel que está para recebê-lo à santa mesa ou em viático, adverte-o do prodígio ocorrido mediante a consagração; mas acaso diz ele, naquele instante: Eis o rei da majestade e da glória; eis o Deus da eternidade; eis o Senhor que comanda o trovão e maneja os relâmpagos; eis o supremo juiz dos vivos e dos mortos; tremei, ó mortais? De modo algum: as palavras que ele pronuncia são aquelas dulcíssimas e consoladoríssimas de São João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29).
E também aqui, acaso o recorda e apresenta como um cordeiro vencedor? Não, mas sim como o cordeiro imolado pela salvação do mundo, destinado a ser comido em sinal de aliança com a divindade…
Se no céu este grande Deus tem por morada uma claridade inacessível, se cinge a glória como coroa e se reveste de luz como de sua própria veste (Sl 103, 2); se milhares de serafins cobrem o rosto com as asas na presença de seu eterno esplendor, como ousaríamos recebê-lo, se não ocultasse sua majestade? Se o sol material nos ofusca, que seria de nós diante do sol eterno da justiça, se ele não velasse seus divinos raios? Mas vem a nós com uma mansidão da qual é emblema o mais manso dos seres; e nós nos aproximamos dele como de um cordeiro terno e afável.
Consideremos, em terceiro lugar, por que ele se dá a nós, e também isto nos fará compreender, tanto quanto podemos, a grandeza de seu amor. Ele se comunica a nós para unir-nos a ele… para fortalecer-nos…, para cumular-nos de toda sorte de bens…, para divinizar-nos… Como! Ó Senhor, unir-vos a pobres criaturas, a vermes da terra, ao nada que se revolta contra vós… O amor de Jesus Cristo é infinito; faz-lhe esquecer todos estes obstáculos…
Consideremos finalmente quando ele se dá a nós: 1° na véspera de sua morte… 2° apressa seus apóstolos a preparar tudo o que é necessário… 3° dá-se no mesmo momento em que Judas conspira para perdê-lo e combina o preço da traição… (Mt 26, 15). 4° Ele vê diante de si a traição de Judas, a fuga dos apóstolos, a negação de Pedro, a agonia, o suor de sangue, as correntes, os flagelos, os escarros, as bofetadas, o abandono do Pai e dos homens, os ultrajes, os insultos, os falsos testemunhos, a condenação à morte, a coroa de espinhos, a cruz, os cravos, o Calvário, os gritos, as blasfêmias; e é precisamente este o momento solene em que o seu amor o leva a deixar à sua Igreja o monumento eterno do seu eterno amor na Eucaristia… 5° Institui este sacramento de amor para dar-se àqueles mesmos que o venderão, negarão e abandonarão. Nada o detém… 6° Estão presentes ao seu espírito os insultos, os sarcasmos, as zombarias, as profanações, os sacrilégios, as imposturas e as perseguições das quais será objeto, desde a instituição da Eucaristia até o fim do mundo; e nada detém, nada arrefece o seu amor.
Meus queridos discípulos, eis como o amor o faz falar no sublime instante da instituição deste sacramento: amigos do meu coração, estou para deixar-vos e ir morrer por vós; mas, antes que isso se cumpra, quero dar-me todo a vós; tomai e comei: isto é o meu corpo; tomai e bebei: isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança; na cruz, este sangue vos unirá ao meu Pai; na Eucaristia, ele vos unirá a mim. Oh, se soubésseis há quanto tempo anseio pelo desejo de celebrar esta Páscoa convosco, antes de padecer e morrer pelo mundo inteiro! Meus queridos amigos, eis o meu testamento, eis a minha última vontade; preparo para vós a dignidade real, como meu Pai a preparou para mim; preparo-a para vós, a fim de que comais e bebais à minha mesa no reino da minha Igreja, até que comais e bebais no reino dos céus (Lc 22,29-30). Necessitais deste alimento divino para que ascendais ao reino da minha glória. “Ó meu Pai, eu estou neles e vós em mim, para que formem uma só coisa” (Jo 17,23). Ó amor infinito! …
“Ó amor do meu Deus — exclama Santa Maria Madalena de Pazzi —, ó amor! É preciso que o amor não seja amado, nem sequer conhecido pelas suas próprias criaturas! Ó meu Jesus! Ah, por que não tenho eu uma voz que se faça ouvir até os confins da terra? Eu proclamaria por toda parte que este amor deve ser conhecido, amado e estimado como o único verdadeiro bem. Amor, amor! Se em outro lugar não encontrais morada, vinde a mim, e eu vos darei por alojamento toda a minha alma!” (In Vita).
O amor de Jesus Cristo na Eucaristia é bondade infinita: comunica-se a todos os que o desejam, ao pobre e ao rico, ao idiota e ao sábio, ao menino e ao ancião… Bondade gratuita: não pede nossas riquezas nem nossos bens; nada mais nos pede senão o coração, para inebriá-lo de delícias… Bondade liberal: dá-se inteiramente, sem reserva; enriquece-nos com seu corpo, seu sangue, sua alma e sua divindade; dá-nos o céu inteiro, toda a bem-aventurada eternidade… Bondade paterna: vem a nós como o mais terno e amoroso dos pais; abraça-nos, acaricia-nos, nutre-nos de si mesmo… Bondade doce, paciente e longânime: é uma vítima que permanece dia e noite sobre os nossos altares, para que possamos tê-la sempre a nosso serviço…
A santa comunhão é uma espécie de encarnação do Verbo em nós; ele vem habitar em nós, feito carne (Jo 1,11). A santa Eucaristia é o pão do céu, o maná celeste (Sl 77,24); é a fonte dos jardins do Senhor, que dá água viva, jorrante do Líbano da eternidade (Ct 4,15); isto é, a Eucaristia é a fonte da mais pura sabedoria, da graça que jorra de Jesus Cristo, elevado ao mais alto dos céus, segundo aquela profecia de Isaías: “Vós haurireis com alegria as águas que jorram das fontes do Salvador” (Is 12,3).
A Eucaristia é verdadeiramente um pão celeste e divino: 1° não somente quanto ao lugar de onde desce, que é o céu, mas também quanto à sua natureza e substância… 2° é o verdadeiro pão celeste comparado ao maná; porque na Eucaristia está a realidade, a verdade; no maná, a sombra e o símbolo… 3° é o verdadeiro pão do céu porque dá a vida… 4° é o verdadeiro pão celeste, isto é, o pão perfeito e saboroso… o pão de Deus, vindo do céu para levar a vida ao mundo (Jo 6,35). A Eucaristia é o pão de Deus, porque somente Deus o fez e somente a Deus pertence; mais ainda, ele é o próprio Deus: “Eu sou o pão da vida” (Ib. 6,35), disse Jesus Cristo, isto é, o pão vivo e vivificante, ou melhor, a vida por essência…
A Eucaristia é chamada por Zacarias de trigo dos eleitos e da própria beleza de Jesus Cristo; é o vinho que gera os virgens (9,17): 1° por causa de sua substância, porque nos dá substancialmente Jesus Cristo, que, como Deus, é o Verbo, a imagem, a beleza do Pai, e, como homem, é o mais belo entre os filhos de Adão…; 2° por causa de seus efeitos, porque produz em nós uma florescente juventude de espírito, de alma e de coração, de tal modo que nos tornamos vigorosos, belos, ágeis, aptos para todo bem, inteiramente puros e virgens…; 3° é trigo e vinho na qualidade de sacramento, porque as espécies do pão e do vinho nos representam Jesus Cristo imolado na cruz e como morto, isto é, a carne separada do seu sangue. E essa imolação da cruz, que o sacramento dos nossos altares representa, foi não somente sumamente bela, preciosa e nobre, mas também digníssima de Deus e extremamente agradável a ele; porque, por meio dela, o homem recupera a glória que lhe foi roubada pelo pecado, e por meio dela se realizou a nossa redenção e reconciliação com Deus…; 4° enquanto é banquete, no qual Jesus Cristo nos oferece ele mesmo um alimento não terrestre, mas angélico, e até divino, e, por conseguinte, de valor inestimável. Aprendamos disto que a Eucaristia é o maior dos bens, é toda a beleza de Deus e de Jesus Cristo, e não somente a deles, mas também a nossa, de modo que Deus não pode dar-nos nada nem melhor nem mais belo…; 5° a Eucaristia é chamada a beleza e a bondade por excelência, porque nela Deus renova todos os antigos milagres e a todos supera…
A Eucaristia é o vinho que forma os virgens. Este vinho é tão doce, generoso, bom, poderoso e eficaz que nos impregna do próprio Jesus Cristo e da graça do Espírito Santo; pela virtude deste vinho, os lânguidos se fortalecem, os enfermos saram, os mortos ressuscitam transformados em outros homens, diferentes do que eram antes, de tal modo que recuperam o ardor da juventude e podem, com energia igual ao ardor, empreender e cumprir tudo o que Deus lhes ordena… A Eucaristia encerra o benefício da criação, da redenção, da justificação, da glorificação e de todos os bens… A Eucaristia é o milagre dos milagres, a obra-prima das obras de Deus… São Dionísio a chama a consumação de todos os mistérios, o mais divino e o mais sagrado dos sacramentos, o mais santo e o mais augusto dos mistérios (Hierarch. c. III).
1° União com Deus. — O primeiro fruto que se colhe da participação da divina Eucaristia é a união com Jesus Cristo. Comunhão quer dizer communis unio, união comum, comunicação… Na santa comunhão, Jesus diz à alma o que já dizia ao Pai: “Todas as minhas coisas são tuas, e todas as tuas são minhas” (Jo 17,10); diz-lhe o que disse aos apóstolos: “Eu estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós” (Ib. 10,21). Àquele que se comunica com ele, repete: eu estou em meu Pai pela unidade da essência divina; eu em vós e vós em mim pela santa comunhão; porque quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele (Santo Hilário, De Trinit. lib. III).
A comunhão, unindo-nos a Jesus Cristo, comunica a todos e a cada um em particular o sangue de Jesus Cristo, o preço de sua paixão e todos os seus méritos… A alma unida a Deus pela comunhão torna-se radiante de beleza, e nesses momentos sublimes ouve o Esposo celeste sussurrar-lhe ao coração: “Como és bela, ó minha amada, como és bela!” (Ct 1,14). Sim, a alma que recebe dignamente a santa Eucaristia é duplamente bela: 1° pela graça que a adorna; 2° pela glória que a espera no céu.
“Ó que admirável sociedade é esta! — exclama Hugo de São Vítor — aquele que é a beleza por essência une-se àquela que é toda bela! Eu, o esposo, sou todo belo, e tu, alma dileta, minha esposa, és toda bela. Eu, belo por natureza, e tu, pela graça. Sou todo belo porque me pertence toda espécie de beleza; tu és toda bela porque nada de disforme se encontra em ti. És bela no corpo purificado, mais bela na alma santificada; bela no corpo pela pureza e pela modéstia, bela na alma pela humildade e pelo fervor. Ó digna companheira de um digno esposo, bela junto à beleza, pura diante daquele que jamais foi tocado pela corrupção, elevada junto ao Altíssimo, esposa do Rei eterno (21)”.
São Lourenço Justiniano, falando da união do Verbo com a alma fiel na santa comunhão, exprime-se assim: “Ali se celebra um banquete contínuo, no qual é servido o cordeiro cevado. A alma saboreia nele a paz interior, uma tranquilidade segura, uma felicidade tranquila, uma grande alegria, uma fé serena, uma amável sociedade, os abraços e o beijo da unidade, o deleite da contemplação, a suavidade do Espírito Santo: ali está a porta do céu, a entrada para a morada bem-aventurada. Desse leito nupcial, muitas vezes a esposa sobe ao céu; e sempre o esposo divino desce até a esposa, que o recebe (22)”.
A alma fiel exclama na comunhão, com a Esposa dos Cânticos: “Meu amado, que vive entre os lírios, está comigo, e eu com ele” (Ct 2,16); e o Esposo divino responde-lhe: “Vem do Líbano, do cume das virtudes, ó minha esposa, vem e serás coroada de glória, repleta de bens” (Ib. 4,8). Mas observai — diz Santo Ambrósio — que a alma, recebendo na Eucaristia a Deus como sua porção, contrai a obrigação de não mais ocupar-se senão de Deus, e nada mais lhe resta em comum com o século (23). “À mesa sagrada — diz São Jerônimo — a alma recebe Deus como sua herança, mas também ela, por sua vez, se torna herança de Deus, a primeira porção, escolhida e bendita, especialmente unida a Jesus Cristo (24)”. “Ó Senhor — exclama Santo Agostinho —, libertastes-me inteiramente, para me possuirdes todo!” (25).
A união de Jesus Cristo com a alma, na santa Eucaristia, é tão perfeita que o próprio Jesus Cristo a compara à união que se forma entre o corpo e o alimento: “Minha carne, disse ele, é verdadeiro alimento, e meu sangue, verdadeira bebida” (Jo 6,56). E reafirma imediatamente depois a mesma sentença, acrescentando: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Ib. 57). Portanto, pela santa comunhão, nós nos unimos e nos incorporamos a Jesus Cristo, à divindade, à onipotência, tão realmente como o alimento se une a nós e se transforma em nós.
“Jesus Cristo, já pregava São João Crisóstomo, une-se a nós e incorpora-nos a si, para que não formemos senão uma só coisa com ele, assim como a cabeça e os membros não formam senão um só corpo. Ele não somente se deixa ver, mas também tocar e comer, e ser triturado pelos dentes daqueles que o desejam, para satisfazer todos os nossos desejos (26).”
“Assim como um pedaço de cera derretida, quando se mistura com outro pedaço de cera igualmente liquefeita, se mescla de tal modo que dos dois resulta um só pedaço, assim, diz São Cirilo de Alexandria, quem recebe o corpo e o sangue de Jesus Cristo une-se tão estreitamente a ele que Jesus Cristo está nele, e ele se encontra transformado em Jesus Cristo (27).” E São João Crisóstomo também repete que Jesus “nos alimenta com o seu próprio corpo e, por esse meio, nos une e quase nos amassa consigo (28)”.
Não neste sentido, diz Santo Agostinho, de que este pão que comemos se transforme em nossa substância, mas, antes, de que nos transforme na substância de Jesus Cristo e nos torne semelhantes a ele, coisa que o pão comum não faz (29).
Eis a razão pela qual a divina Eucaristia recebeu dos Padres o nome de comunhão, isto é, união comum; porque ela nos une tão real e intimamente ao corpo de Jesus Cristo que, segundo a sentença do citado São Cirilo, Jesus e aquele que comungou não formam senão um só corpo (Lib. 4, in Ioann. c. XVIII); e, como se expressa Tertuliano, “a alma daquele que recebe a comunhão se enriquece de Deus”. — Poderíamos também compará-la à união que se forma entre o ferro que se inflama na fornalha e o fogo. Santa Teresa assemelha-a à união das gotas de chuva que caem numa fonte: essas duas águas misturam-se tão bem que delas resulta uma só água. Representa-a ainda pelas águas de um rio depois que desaguou no mar; pelos raios do sol que, penetrando por duas janelas numa câmara, se misturam tão perfeitamente que formam uma só luz (In Vita).
2° Transforma-nos em Deus. — “Vós sois o templo do Deus vivo” (2Cor 6,16), “antes, o corpo de Cristo e membros do seu corpo” (1Cor 12,27), “formados da sua carne e dos seus ossos” (Ef 5,30), e “transformados na sua mesma semelhança” (2Cor 3,18), dizia o grande apóstolo São Paulo; porque, diz o evangelista São João: A todos os que o receberam, Jesus Cristo deu o poder de se tornarem filhos de Deus (1,12), “participantes de Jesus Cristo e participantes da natureza divina”, como se expressam São Paulo e São Pedro (Hb 12,11; 1Pd 1,4). Por isso São Paulo exclamava: “Já não sou eu que vivo; é Jesus Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Não há, pois, de que admirar-se se São Cirilo afirma que, por meio da comunhão, nos tornamos concorpóreos e consanguíneos de Cristo (30); se Tertuliano chega a dizer que “o nosso corpo se alimenta do corpo e do sangue de Jesus Cristo, para que a alma se enriqueça de Deus (31)”; se Santo Agostinho conclui observando que “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus; e, para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem (32)”.
E já antes dele São Cipriano havia deixado escrito: “Deus se une ao homem; Jesus Cristo quis ser aquilo que é o homem, para que o homem pudesse ser aquilo que é Cristo (33)”.
O primeiro homem aspirou a tornar-se Deus; não o pôde e cometeu um delito. Que fez Deus, em sua sabedoria e misericórdia? Disse: O homem anseia pela divindade, não lhe é dado alcançá-la; antes, é para ele um delito o simples fato de desejá-la. Agora encontrarei um meio de satisfazer o desejo do homem, e de satisfazê-lo sem que se torne culpado: eu me farei homem, dar-me-ei a ele na Eucaristia; fazendo-me homem, o homem será feito Deus; alimentando-se de mim, viverá de Deus e será Deus. Aqui, na santa Eucaristia, cumpre-se a promessa da serpente: quando disse aos nossos primeiros pais: “Sereis como deuses” (Gn 3,5), havia profetizado, sem o querer, a futura elevação do homem à divindade. Satanás, julgaste enganar o homem, e enganaste a ti mesmo. Sim, o homem será Deus, não comendo o fruto do paraíso terrestre, mas alimentando-se, à mesa sagrada, no jardim da Igreja, do fruto divino do paraíso celeste.
Inspirado pelo Espírito Santo, o verdadeiro profeta exclamava: “O homem comeu o pão dos anjos” (Sl 77,25); por isso, “tornamo-nos o povo de seus pastos e as ovelhas feitas por suas mãos” (Sl 94,7); “deuses, e todos filhos do Altíssimo” (Sl 81,6).
Por meio da Eucaristia, diz o Crisóstomo, somos transformados em Jesus Cristo “não somente pelo amor, mas tornamo-nos, na realidade, a carne de Jesus Cristo; este milagre opera-se em virtude do alimento que ele nos dá. Para nos testemunhar o seu amor, quis dar-se a nós de modo que formássemos uma só coisa com ele (Homil. ad pop. LXI). Quem come o pão eucarístico torna-se semelhante a este pão. Ora, “eu sou o alimento dos fortes, diz Jesus; fortalece-te, portanto, e come-me, porque tu não me transformarás em ti, mas eu te transformarei em mim (34)”.
A propriedade deste sacramento, observa São Tomás, é transformar o homem em Deus e torná-lo semelhante a ele. Com efeito, se no fogo há tal virtude que ele transforma em si tudo aquilo que alcança e lhe comunica a sua força e perfeição, depois de destruir tudo o que poderia haver de contrário à sua natureza, quanto mais este fogo devorador da divindade não consumirá tudo o que encontrar de impuro em nossas almas e não as tornará semelhantes a deuses (Offic. SS. Sacrament.).
Por meio da santa comunhão, o homem deixa de ser aquilo que era, para tornar-se outro Jesus Cristo; e então já não somos nós que vivemos: é Jesus Cristo que vive em nós, segundo a sentença do Apóstolo. Eis uma das mais belas prerrogativas do sacramento do altar que recebemos na santa comunhão. Os demais alimentos que tomamos transformam-se em nossa substância; este, ao contrário, transforma-nos em si mesmo — mudança infinitamente proveitosa, porque é infinitamente melhor para nós sermos transformados em Deus, do que Deus ser transformado em nós. Se Deus se transformasse em nós, perderia a sua santidade, pois nós não somos senão miséria e pecado; perderia todas as suas perfeições, uma vez que nada temos de nós mesmos e somos um nada. Ao contrário, sendo nós transformados em Jesus Cristo, tanto quanto podemos sê-lo, adquirimos tudo aquilo que não temos e que não podemos receber de ninguém senão de Jesus Cristo, e depomos tudo o que havia em nós de miserável, de fraco e de nocivo. Somos fracos e tornamo-nos fortes; somos cegos e tornamo-nos iluminados; somos pecadores e, em virtude da mais venturosa das transformações, tornamo-nos santos.
Por meio da santa comunhão, não somos apenas honrados com o augusto nome de filhos de Deus, mas o somos de fato, diz São João (1Jo 3,1); porque formamos, diz São Cirilo de Jerusalém, um só corpo e um só sangue com Jesus Cristo (35). “Comungamos, diz São Leão, para sermos transformados na carne daquele que assumiu a nossa carne. Conhece, pois, ó cristão, a tua dignidade e, feito participante da natureza divina, guarda-te de recair jamais na tua antiga baixeza. Lembra-te de qual cabeça e de qual corpo és membro (36)”.
Com a encarnação do Verbo, a natureza divina contraiu uma união tão íntima com a natureza humana, que dessas duas resultou uma só pessoa. Ora, à altura deste grau, à participação de uma aliança tão santa, tão perfeita, tão sublime, excelente e divina, somos, por assim dizer, chamados e associados pela Eucaristia. Com efeito, a palavra de Deus e a teologia nos ensinam que Jesus Cristo instituiu este sacramento para estender, dilatar e consumar em nós o mistério da encarnação. Pois, estando a divindade unida ao seu sagrado corpo pela união hipostática, que é uma união substancial e pessoal, e estando o seu corpo unido ao nosso não hipostaticamente, mas íntima e admiravelmente pela comunhão, o nosso corpo fica unido à própria divindade desde esta vida, pela interposição da sagrada carne de Jesus Cristo.
Há uma cadeia única, estupenda, preciosa e inestimável, pela qual o Pai eterno liga e une, desde aqui, o corpo terrestre e mortal dos homens à essência suprema da divindade; cadeia composta de três elos unidos entre si. O primeiro é a residência essencial e substancial da divindade do Pai na pessoa do Filho, pela geração eterna. O segundo é a residência substancial e pessoal do Filho no corpo de Jesus Cristo, pela encarnação. O terceiro é a residência substancial e corporal do corpo divino de Jesus Cristo no nosso, por meio da Eucaristia. Assim, por certos degraus, ascendemos a unir-nos substancialmente, já nesta vida, à essência de Deus — união tão excelente que não pode ser substituída aqui por nenhum outro sacramento! Daí aquela máxima universal entre os Padres e os mestres da vida espiritual: não há para o homem, enquanto se encontra neste lugar de exílio, mal mais grave nem desgraça mais temível do que ser separado do corpo de nosso Deus pela comunhão; assim como o maior dos bens consiste em recebê-lo.
O sacramento eucarístico, segundo o ensinamento de todos os Padres da Igreja católica, é para todos os fiéis que dele se aproximam uma extensão continuada do mistério da encarnação. Sabeis a que grau e excelência de honra foi elevada a humanidade de Jesus Cristo no feliz instante em que se uniu ao Verbo divino; ora, ao dar-se Jesus Cristo a nós na santa Eucaristia, admite todos os membros da sua Igreja à participação da mesma glória, porque ele vem a nós, une-se a nós, transforma-nos nele, diviniza-nos e forma conosco uma só coisa…
3° União com o próximo. — Por quatro razões foi dado à Eucaristia o nome de comunhão, isto é, união comum. A primeira, porque a Eucaristia é uma mesa, uma mesa comum a todos os fiéis… A segunda, porque todos recebemos e participamos do mesmo alimento, que é o corpo de Jesus Cristo; e isso levou São João Crisóstomo a dizer (Homil. LV, ad pop.): que, pela comunhão do corpo de Cristo, já não formamos senão um só corpo. A terceira é-nos sugerida por São Paulo nestas palavras aos Coríntios: “O cálice da bênção que abençoamos não é acaso uma comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é uma comunhão do corpo de Cristo? Portanto, embora muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos daquele único pão” (1Cor 10,17). A quarta, porque a Eucaristia, unindo-nos a Jesus Cristo, comunica a todos e a cada um o sangue, a paixão e os méritos do Salvador, que, na sagrada mesa, vê perfeitamente cumprido o voto que manifestou ao Pai antes de morrer: “Pai santo, conserva em teu nome aqueles que me deste, para que sejam uma só coisa, como nós” (Jo 17,11).
Assim como uma grande quantidade de grãos forma um só pão, também, pela santa comunhão, todos os fiéis formam um só pão sagrado e vivo, isto é, um só corpo místico de Jesus Cristo; corpo que forma a Igreja, porque, na verdade, todos os membros da Igreja estão unidos ao corpo de Jesus Cristo e, com esse corpo divino, compõem uma só coisa na Eucaristia. Este é o vínculo que unia tão estreitamente entre si os primeiros cristãos, a ponto de São Lucas dizer que tinham um só coração e uma só alma (At 4,32). Por isso, o Concílio de Trento escreveu sabiamente que “este sacramento é sinal de unidade, vínculo de caridade, símbolo de misericórdia e de paz (37)”.
Esta união de todos os fiéis por meio da santa comunhão é tão verdadeira, tão perfeita, que os Padres a chamam de união física. São Cirilo, por exemplo, raciocina assim: “Meu corpo está unido ao corpo de Jesus Cristo pela comunhão; o corpo de Jesus Cristo está unido ao corpo de meus irmãos; portanto, meu corpo e o de meus irmãos estão realmente unidos neste sacramento de amor” (Lib. 4, in Ioann, c. XVII); São João Crisóstomo observa: o corpo de Jesus Cristo é indivisível; portanto, não tomais vós uma parte dele e eu outra, mas tanto vós como eu o tomamos inteiro; ora, se todos temos em nós o mesmo Deus, segue-se que todos temos também um só e o mesmo corpo (Homil. 60, ad pop.). Por meio da Eucaristia, estamos unidos uns aos outros como os nossos dois braços estão unidos por meio do corpo, porque tanto um como o outro estão ligados ao corpo.
Parece que a religião nos pede algo muito grave quando nos ordena que nos mantenhamos todos fortemente unidos de alma e de coração, de espírito e de afeto, à imitação dos primeiros crentes; contudo, isso não é senão a consequência natural da doutrina evangélica acerca da comunhão. A religião nos diz que estamos corporalmente unidos uns aos outros mediante a santa Eucaristia, pela qual nos tornamos, segundo a palavra do Apóstolo, “membros do corpo de Jesus Cristo, carne da sua carne e ossos dos seus ossos” (Ef 5,30). Unidos assim nobre e santamente quanto ao corpo, estaremos nós divididos e separados quanto ao coração? … Ah!, diz o Crisóstomo, este sacramento nos obriga a manter-nos livres não somente de toda rapina, mas também de toda e qualquer inimizade, por menor que seja (38).
A santa comunhão é o vínculo da caridade para com os nossos semelhantes, pois nela recebemos aquele mesmo Deus que disse a todos: “Se, ao ofereceres o teu dom no altar, te lembrares de alguma discórdia com teu irmão, deixa o teu dom de lado e vai primeiro reconciliar-te com ele; depois vem oferecer a tua oferta” (Mt 5,23-24); nela recebemos aquele mesmo Deus que ordenou a todos amar os inimigos, fazer o bem àqueles que nos querem mal, rezar por aqueles que nos caluniam e perseguem (Mt 5,44); nela recebemos aquele que disse: “Vós não tendes senão um Senhor, e sois todos irmãos” (Mt 23,8); e nos ordena que amemos uns aos outros, como ele nos amou (Jo 13,34).
A santa comunhão é vínculo de caridade com o próximo, não somente porque nela recebemos aquele Deus que nos ordena amar-nos reciprocamente e perdoar-nos uns aos outros, mas ainda porque esse mesmo Deus uniu o exemplo ao mandamento: ele foi o primeiro a amar todos os homens, perdoou e readmite todos os dias à sua graça os mais perversos pecadores; na cruz, implora de seu Pai misericórdia para aqueles que o blasfemam e crucificam.
Como é belo e comovente o espetáculo que nos apresenta a sagrada mesa! Aqui vês perfeita igualdade: nenhuma distinção entre ricos e pobres, entre nobres e plebeus, entre fortes e fracos, entre senhores e servos, entre sábios e artesãos. Todos estão juntos, uns ao lado dos outros, no ato de alimentar-se do mesmo alimento, do mesmo Deus: no altar não há senão uma só família, a família de Deus, a família da Igreja…
A Eucaristia é o vínculo que nos une, porque o Deus que ela nos oferece é nosso Pai. Recebendo todos o mesmo Pai, sendo todos filhos do mesmo Pai que se dá a nós, necessariamente resulta que somos todos irmãos… “Porventura não temos todos nós, pergunta Malaquias, um só e mesmo pai? Não foi um só e mesmo Deus que nos criou? Por que, então, cada um de nós despreza o seu irmão, violando a aliança contraída com nossos maiores?” (Ml 2,10).
4º A Comunhão nos fortalece. — Entre as cerimônias que se costumavam praticar nos solenes triunfos dos romanos, uma das mais expressivas era a de demolir uma parte das muralhas da cidade, para que o triunfador entrasse por essa brecha: como que para dizer-lhe: Roma já não precisa de muralhas; tu sozinho bastas para sua defesa! Assim também devemos fazer quando recebemos Jesus Cristo: é preciso expulsar o temor servil, armar-nos de confiança e dizer-lhe com o Salmista: “Não temerei mal algum, porque vós estais comigo, ó Senhor” (Sl 22,4).
“Aguarda-nos uma batalha feroz e encarniçada, diz São Cipriano, para a qual os soldados de Jesus Cristo devem preparar-se com fortaleza, considerando que justamente para isso bebem todos os dias o sangue de Jesus Cristo, a fim de haurirem coragem para também derramar o sangue por Cristo (39)”.
Quando o anjo exterminador passou a matar os primogênitos dos egípcios, poupou aquelas casas cuja porta estava tingida com o sangue do cordeiro (Ex 12). Nossos inimigos tremem diante de Jesus Cristo, respeitam-nos e não podem vencer-nos quando nos veem marcados com o sangue do Cordeiro de Deus… “Da mesa sagrada, diz o Crisóstomo, levantamo-nos como leões que expelem fogo e nos tornamos terríveis contra os demônios (40)”. São Paulo assegura aos Filipenses que tudo pode naquele que o fortalece (Fl 4,14); pois, diz em outra passagem o mesmo Apóstolo: “se Deus é por nós, quem ousará afrontar-nos?” (Rm 8,31).
Quando Elias comeu um pão trazido por um anjo, sentiu-se tão revigorado que fez uma viagem de quarenta dias, sem parar nem tomar outro alimento, até chegar ao monte de Deus (1Rs 19,8). Bela figura da coragem e do vigor que o alimento eucarístico infunde numa alma para caminhar no caminho do bem! O Apocalipse nos revela este magnífico efeito da Eucaristia quando diz que, no combate travado entre o dragão e a descendência da mulher, esta alcançou a vitória em virtude do sangue do Cordeiro (12,11); e a esta força que provém da comunhão aludia o Salmista com estas palavras: “Vós, Senhor, preparastes para mim uma mesa contra aqueles que me fazem guerra” (Sl 22,5).
Terríveis são as expressões empregadas pelos profetas e pelos apóstolos para nos indicar a raiva, o encarniçamento e a insistência com que nos fazem guerra os nossos três grandes inimigos: o mundo, o demônio e a carne. Jeremias diz que eles escancararam contra nós as fauces, assobiaram e rangeram os dentes, silvando: havemos de devorá-los (Lm 2,16); voam mais velozes que as águias para nos perseguir e armam-nos ciladas por toda parte (Ibid. 4,19). Todos os dias, a cada instante, muitos e muitos de nós caem, feridos e prostrados por suas armas. “Simão, Simão, dizia Jesus Cristo aos seus apóstolos, dirigindo-se a Pedro, vede que Satanás vos tomou como alvo para vos peneirar como se faz com o trigo” (Lc 22,31). E São Pedro, por sua vez, adverte-nos a sermos sóbrios e vigilantes, porque o diabo, nosso inimigo, anda ao redor como um leão que ruge, procurando a quem devorar (1Pd 5,8). Por isso São João, no Apocalipse, ameaça a terra e o mar com desventuras e desgraças horríveis, porque o demônio desceu até eles, bufando de cólera e de ira (12,12). Nele estão a astúcia da serpente, o furor do tigre, a força do touro, a voracidade do lobo, a velocidade do relâmpago, o olhar da águia, as garras do abutre, o veneno da áspide e a mordida da víbora. Como escaparemos desse monstro? Por meio da santa comunhão. Jesus, durante sua vida mortal, com uma só palavra expulsava dos possessos legiões inteiras de demônios; como poderão agora resistir à sua presença divina num coração que o recebeu e o possui?
O mundo, por sua vez, é um inimigo não menos perigoso que o demônio. O mundo corrompido é o filho primogênito de Satanás…; é o inimigo jurado de Jesus Cristo, de suas leis, de sua religião, da virtude e da inocência… Está cheio de seduções, de escândalos, de causas de morte espiritual etc. Como sairemos dele vitoriosos? … Com a santa comunhão…
Que diremos, finalmente, da concupiscência? Quem não reconhece nela o mais terrível e implacável inimigo? Infelizmente, o homem é inimigo mortal de si mesmo, e tanto mais perigoso porque nunca se afasta dele, jamais o abandona; é inimigo mais terrível que o demônio e o mundo, porque estes dois nada podem fazer sem ele. Com que meio poderemos vencer esta concupiscência sempre renascente? Com a comunhão… O corpo de Jesus Cristo, unido ao nosso, acalma toda paixão; ordena aos ventos, às tempestades e às ondas revoltas do mar, e segue-se a bonança (Mt 8,26). Quando o sangue de Jesus Cristo circula em nossas veias, logo se faz sentir nelas um refrigério celeste que extingue o fogo da concupiscência.
São Tomás observa, entre as razões pelas quais este sacramento nos livra das tentações e nos torna vitoriosos sobre elas, também esta: tendo o mundo, o inferno e a concupiscência sido vencidos pela morte de Jesus Cristo, e sendo este sacramento uma representação de sua morte, assim que todos esses inimigos veem a santa Eucaristia, imediatamente põem-se em fuga ou se escondem (De SS. Sacram.).
“De onde hauriram os mártires, pergunta o Crisóstomo, aquela coragem indomável que os tornava superiores a todos os assaltos, a todas as perseguições, a todos os tormentos, a todas as lisonjas e a todas as promessas?” E responde: “Do corpo adorável de Jesus Cristo” (Hom. 1, ad pop.). “Além disso, acrescenta o mesmo Padre, este divino sacramento fazia-os considerar os suplícios e a própria morte como um delicioso banquete ao qual iam cheios de alegria e felicidade” (Hom. 61, ad pop.). De todos eles se pode dizer o que Santo Agostinho dizia de São Lourenço: “Porque havia comido e bebido bem, como que repleto daquele alimento celeste e embriagado daquele vinho que gera os virgens, nem sequer sentiu os tormentos (41)”. “Se há entre vós, diz São Bernardo, alguém que já não experimenta, tão frequentes e tão fortes como antes, os movimentos da cólera, da inveja, da luxúria e de toda outra inclinação má, saiba que deve dar graças ao corpo e ao sangue do Senhor: porque é a virtude do sacramento que nele opera tal coisa (42)”. Com razão, portanto, o Crisóstomo chama a mesa sagrada de “força da alma, nervo do espírito, vínculo da confiança, fundamento, apoio, saúde, luz e vida do homem (43)”. A Eucaristia é um pão substancioso que fortalece o coração, a alma, a mente e o corpo, e também se mostrou, por vezes, arma poderosíssima para vencer os exércitos.
Teodoreto deixou escrito que Constâncio, filho do grande Constantino, animou seus soldados a receber a santa Eucaristia antes da batalha que seu pai travou contra Magêncio. O mesmo fazia o exército cristão em sua guerra pelos lugares santos (Storia delle Crociate).
O cardeal Barônio atesta-nos que o imperador Otão, estando prestes a combater contra os húngaros, preparou-se, ele e seu exército, com a santa comunhão; depois dela, enfrentou as hordas inimigas e as pôs em completa derrota. Isso aconteceu em 955. Igual desfecho teve, em 1040, a batalha sustentada por Catalaco, general das tropas do imperador Miguel, contra um numeroso exército de sarracenos que haviam tomado uma província do império. Catalaco e os seus haviam recebido a comunhão como viático antes de partir para o combate.
O imperador Henrique, esposo de Santa Cunegunda, jamais travava batalha sem antes munir-se, ele e os seus, da santa comunhão.
São célebres as vitórias obtidas contra os mouros por Ramiro, em 534, e por Afonso VIII, rei de Castela, em 16 de julho de 1213. Este avançou contra o inimigo depois de se ter confessado e comungado juntamente com todo o exército, fazendo que o arcebispo de Toledo levasse à sua frente o estandarte da cruz. Munido desses poderosos auxílios, fez um massacre de duzentos mil sarracenos, com a perda de apenas 85 homens dos seus. Tendo sido inicialmente derrotado pelos inimigos, refugiou-se nas montanhas e, com o coração angustiado, rogou a Deus que viesse em seu auxílio. Apareceu-lhe o apóstolo Tiago, que lhe ordenou que mandasse os soldados cristãos confessar-se e comungar, e depois entrasse também em combate, pois um cavaleiro branco como a neve o precederia e desbarataria o exército inimigo. Assim aconteceu, e sessenta mil mouros ficaram no campo (RIBADEN, Fiore di vite di Santi).
5° A Comunhão é um remédio eficacíssimo. — No corpo de Jesus Cristo havia tal virtude, que os enfermos, tocando apenas a orla de suas vestes, eram curados de toda enfermidade. Ora, não será a Eucaristia, que é o seu verdadeiro corpo, infinitamente mais poderosa que suas vestes? Mas é na cura das enfermidades da alma que melhor resplandece a poderosa virtude da Eucaristia; por isso os santos Padres a chamam o remédio que proporciona a imortalidade.
Estais enfermo de orgulho? Recebei a Eucaristia, isto é, Jesus Cristo, que se humilha até revestir a forma humana na encarnação e a forma do pão na Eucaristia; e este pão sagrado vos tornará humildes. Sofreis da enfermidade da carne? Bebei o vinho que faz germinar os virgens. Sois atormentados pelos ímpetos da ira? Alimentai-vos do Deus imolado na cruz, do Cordeiro sacrificado pela salvação do mundo: ele vos comunicará a sua doçura e a sua paciência etc.
A Eucaristia é também remédio para as enfermidades corporais. São Boaventura afirma que muitas vezes pessoas fracas ou enfermas recebem da santa comunhão tanta força, alegria e consolação, que se retiram da sagrada mesa tão curadas como se jamais tivessem estado enfermas. Lemos nas vidas dos Padres que não poucos santos viveram uma vida longa e próspera, alimentando-se somente da santa Eucaristia. Paládio assegura-nos que o anacoreta João não tomava outro alimento senão a comunhão aos domingos. O abade Severo não comia durante a semana e somente aos domingos fazia uma refeição ligeira, mas depois de ter recebido o seu Deus. O imperador Ludovico, o Pio, como atesta Tomás Bosio, que o assistiu em sua última enfermidade, passou quarenta dias sem tomar outro alimento além da comunhão diária. Narra Sigiberto em sua crônica que, no ano 323, em Tulle, uma menina de doze anos, tendo comungado na Páscoa, passou três anos inteiros sem voltar a comer. Santa Maria Belga, tendo adoecido, recusava todo alimento, contentando-se apenas com a comunhão, que bastava para infundir coragem e força,
6° Perdoa os pecados veniais e, algumas vezes, também os mortais; preserva-nos de recair. — Suárez, com a maioria dos teólogos, ensina que a santa comunhão apaga aqueles pecados mortais que não vieram à mente do penitente depois de um exame sério e maduro; portanto, o pecador que ignora involuntariamente a sua culpa e comunga de boa-fé obtém o perdão e a justificação. E o Concílio de Trento nos ensina que este sacramento perdoa os pecados veniais e nos preserva dos mortais (Sess. 13, c. 2).
Devem ser estimados como benefícios grandíssimos o perdão dos pecados veniais e não somente o progresso na virtude, mas também o simples fato de não recair no mal ou de não retroceder no bem: os remédios que preservam das doenças não são menos preciosos que aqueles que restituem a saúde; e isso deve ser motivo de consolação para aqueles que não percebem o fruto que este divino sacramento produz neles. Vemos ordinariamente que quem comunga com frequência vive no temor de Deus, e não é raro que passe anos inteiros, e às vezes até toda a vida, sem cometer pecado mortal. Ora, um dos admiráveis efeitos deste sacramento é impedir que caiamos em culpas graves e conservar-nos a vida da alma, assim como o alimento corporal nos conserva a do corpo. Jesus o disse claramente: “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Porque eu sou o pão da vida; o pão descido do céu, para que quem dele comer não morra, mas viva” (Jo 6, 54, 48, 50, 53). Segundo as palavras do próprio Jesus Cristo, quem não come deste pão é atingido pela morte, isto é, cai no pecado mortal; ao contrário, quem dele se alimenta viverá, isto é, evitará as culpas graves e viverá da vida da graça. A santa comunhão concorre tão eficazmente para conservar a saúde da alma quanto os alimentos sãos, tomados na devida proporção, mantêm a saúde do corpo. Quando os hebreus passaram a ter náusea do maná que Deus lhes fazia chover do céu, pouco faltou para que perecessem todos, diz a Escritura (Sl 106, 18).
A Eucaristia é o pão da vida; é um pão vivo, que se come para ter a vida. De que vida maravilhosa vive aquele que, com as devidas disposições, come este pão vivo, que é a própria vida? Quem jamais ouviu semelhante prodígio: que se possa comer a vida? Somente Jesus podia dar-nos tal alimento: ele é a vida por natureza; quem o come, come a vida. Ó delicioso banquete dos filhos de Deus! Ó suntuosa mesa, ó suave alimento! Sirva a doçura deste alimento de norma para julgardes a excelência da vida que procede deste pão sagrado. “Jesus Cristo é nosso alimento e nossa vida”, diz São Cirilo (44).
7° A Comunhão proporciona a verdadeira felicidade. — “Possuindo Jesus Cristo, tenho tudo, dizia o Apóstolo; abundam em mim todas as coisas e estou repleto de todo bem” (Fl 4, 18). “Alegremo-nos, diz São João, exultemos e demos glória a Deus, porque chegaram as núpcias do Cordeiro, e sua esposa está adornada. Bem-aventurados os que são convidados ao banquete nupcial do Cordeiro!” (Ap 19, 7-9). Essas maravilhas já haviam sido previstas e profetizadas pelo Salmista: “Os pobres comerão e serão saciados” (Sl 21, 26); bem se pode dizer do dia da comunhão: “Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos e celebremos” (Sl 118, 24).
Saudando de longe a Eucaristia, a Esposa dos Cânticos exclamava: “À sombra daquele que era o objeto dos meus desejos, descansei; e o seu fruto é doce ao meu paladar” (Ct 2, 3). “Comei, meus amigos, bebei; embriagai-vos, ó meus amados” (Ib. 5, 1). “Quem é esta que sobe do deserto, repleta de delícias, apoiada em seu amado?” (Ib. 8, 5). Se Jesus encontra os seus mais caros deleites em estar entre os filhos dos homens, qual não deveria ser o prazer, a alegria e a felicidade dos filhos dos homens ao se encontrarem com Jesus Cristo e estreitá-lo ao peito! …
“Vós, ó Senhor, diz o Sábio, alimentastes o vosso povo com o alimento dos anjos e lhe oferecestes o pão do céu, que tem todo sabor delicado e suave” (Sb 16, 20). “O Deus dos exércitos, diz Isaías, preparará sobre este monte (altar) um banquete no qual serão servidas as mais requintadas iguarias e os mais preciosos vinhos” (Is 25, 6). O Profeta alude aqui ao banquete da Eucaristia, ao festim do corpo e do sangue de Jesus Cristo, que formam as delícias das almas fiéis; pois a Eucaristia proporciona à alma muito mais vida e alegria do que qualquer festim proporciona ao corpo. Por isso Santa Mônica exclama, depois da comunhão, num ímpeto de santa embriaguez: “Meu corpo e minha carne exultaram de alegria em meu Deus” (In Vita).
A Eucaristia faz-nos participar dos três principais favores dos quais resulta a bem-aventurança dos santos no céu: eles estão com Deus, unidos a Deus, transformados em Deus; e assim se torna a alma que se alimenta à sagrada mesa… Os santos no céu estão com Deus; veem sua divina majestade; têm a honra de formar o seu cortejo; possuem e gozam continuamente de sua presença, que os cumula de felicidade; por isso exclamava o Salmista: “Bem-aventurados os que habitam em vossa casa, ó Senhor!” (Sl 78, 5). Ora, por meio da santa comunhão, partilhamos com os santos essa felicidade; estamos com Deus, pois da Eucaristia está dito: “Este é o tabernáculo de Deus entre os homens, e ele habitará entre eles: eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus” (Ap 21, 3). É verdade que no céu há maior luz, conhecimento, alegria e segurança, mas ali não se possui Deus de modo mais real, mais substancial e pessoal do que o possuímos nós na santa comunhão… Quanto aos outros dois favores, o de estarmos unidos e transformados em Deus como os bem-aventurados no céu, já falamos mais acima, ao tratar do segundo fruto da Eucaristia… Mais ainda: se observarmos bem, podemos afirmar que, em certo sentido, somos mais felizes nós à sagrada mesa do que os santos no paraíso. Com efeito, os eleitos são servos de Deus; gozam dele, mas não se servem dele; ele é seu senhor, não servo; na Eucaristia, porém, Jesus faz-se nosso servo, nós somos seus senhores e dele nos servimos.
Santa Maria Madalena de’ Pazzi não conhecia felicidade comparável à de comungar; tanto que, para alcançá-la, afirmava que não hesitaria em lançar-se na caverna de um leão e expor-se a qualquer tormento (In Vita). São Carlos Borromeu costumava dizer que sua felicidade consistia em receber o seu Deus sacramentado, em permanecer aos pés dos altares e que, quando a necessidade o afastava dali, deixava ali o coração (In Vita). A Beata Maria da Encarnação, carmelita conversa, fez sua primeira comunhão em 1618, aos doze anos. Recebeu o seu divino Salvador com os sentimentos do mais puro e fervoroso amor, e d’Ele recebeu em troca, como hóspede divino, uma alegria tão inefável que, como dizia depois, não a teria trocado por todo o universo; e, a partir daquele momento, toda coisa terrena lhe pareceu insípida (In Vita). ‘
8º A Comunhão é o conjunto das mais preciosas graças. — Na santa comunhão somos repletos das graças de Jesus Cristo, diz São Paulo (Cl 2,10). “Visitastes a terra, exclamava já extasiado de alegria o Salmista, e a inebriastes de júbilo; empenhastes-vos em enriquecê-la, e seremos saciados dos bens de vossa casa” (Sl 64,5.9).
“Ó sagrado banquete, diz São Tomás, no qual se recebe Jesus Cristo, renova-se a memória de sua paixão, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da vida eterna! (45)”.
À mesa sagrada, Jesus distribui aquela água viva da qual, falando à Samaritana, dizia: “Quem bebe desta água do poço de Jacó terá novamente sede, mas quem beber da água que eu lhe der não terá mais sede; e a água que eu lhe der se tornará, para ele, uma fonte de água que jorra para a vida eterna (Jo 4,13-14)”. Digamos, pois, também nós a Jesus Cristo, com a Samaritana: “Ah! Dai-nos, Senhor, dessa água, para que não tenhamos mais sede” (Ib. 15). “Eu sou o pão da vida, disse Jesus; quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim jamais terá sede” (Ib. 6,35). Eu me deixei crucificar para restituir aos homens a vida que haviam perdido pelo pecado, e dou-me na Eucaristia para conservar-lhes essa vida; o mundo, ressuscitado em virtude da minha cruz, conserva e aperfeiçoa sua vida por meio da Eucaristia. Dei minha carne na cruz como trigo a ser moído; minha carne tornou-se o pão eucarístico, pão fortalecedor, pão que assegura aos fiéis a vida da graça e os conduz à vida da glória.
Santo Ambrósio diz: “Aproximai-vos de Jesus Cristo e saciai-vos, porque ele é pão; aproximai-vos e bebei, porque é fonte; aproximai-vos e sede iluminados, porque ele é luz; aproximai-vos e sede libertados, porque onde está o espírito do Senhor, aí está a liberdade; aproximai-vos e sede absolvidos, porque ele é a remissão dos pecados (46)”.
Assim como o batismo é uma regeneração espiritual, assim também a Eucaristia é um alimento espiritual; aquilo que o batismo produz pela regeneração, a Eucaristia o realiza por meio do alimento que oferece. O altar é o monte de Deus, o monte fértil, o monte de todas as graças (Sl 67,16).
“Qual é o bem de Deus, qual é a sua glória, diz o profeta Zacarias, senão o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar os virgens?” (9,17). Eis a Eucaristia e suas graças. A Eucaristia faz a alma florescer e, tornando-a fecunda por seu intermédio, produz frutos de virtude; dá vida aos virgens, enche de doçura e de alegria. A Eucaristia torna forte, diligente, apto para todo bem; consola e alegra, endireita, revigora, torna enérmicas e robustas as almas débeis, lânguidas, tristes, pusilânimes, terrenas e carnais, eleva-as ao céu e transforma-as em anjos… Com efeito, como observa São Bernardo, “este sacramento chama-se Eucaristia, que quer dizer graça perfeita, porque nele se recebe não somente toda graça, mas o próprio autor da graça (47)”.
Aqui verdadeiramente se faz ouvir e se cumpre aquele consolador chamado do Senhor: “Vinde a mim, e eu vos darei todo bem” (Gn 45,18); e a alma que recebeu a santa Eucaristia pode, com toda razão, repetir: “Com ela me vieram todos os bens” (Sb 7,11),
“Como é esplêndido, como é inebriante o vosso cálice, ó Senhor!” (Sl 22,5), exclamava o profeta; e São Cipriano, comentando estas palavras, diz: “Assim como a embriaguez tira do homem a razão, o põe fora de si e o transforma em outro, assim a Eucaristia transforma o homem e, de terreno, o faz celestial; embriaga-o para torná-lo sóbrio, para reconduzir-lhe o espírito à verdadeira sabedoria, para despertá-lo do torpor do século e elevá-lo ao conhecimento das coisas divinas (48)”. A Eucaristia nos faz Nazaré, isto é, separa-nos do mundo, de suas pompas e de seus deleites, e nos consagra a Deus.
Ao homem que se retira da mesa sagrada podem aplicar-se aquelas palavras do Salmista: “Foi-lhe dado alimento em abundância” (Sl 77,25), “e tu, ó Senhor, o preveniste com as bênçãos da tua doçura” (Sl 20,3). Isso Deus já havia pronunciado pela boca de Joel, dizendo: “Comereis até vos saciardes e louvareis o nome do vosso Deus, que fez por vós coisas maravilhosas” (2,26). E, por meio de Oseias, havia prometido que sua graça cairia como suave orvalho; que seu povo germinaria como o lírio e suas raízes se propagariam como as dos cedros do Líbano (14,6).
À mesa eucarística tornamo-nos ricos de todos os tesouros de Jesus Cristo, de tal modo que não nos falta graça alguma, diz São Paulo (1Cor 1,5-7); e a ela se pode aplicar aquele dito de Naum: “As comportas da chuva dos favores e das graças estão abertas”. “Uma só comunhão, diz Santa Teresa, basta, se não se lhe opõe obstáculo, para enriquecer a alma com todos os tesouros espirituais” (Sull’Eucar.).
Os outros sacramentos têm sua graça especial, mas a Eucaristia, propriamente falando, não tem uma graça determinada: compreende-as e encerra-as todas.
9° A Comunhão proporciona uma boa morte. — Este nono fruto é uma consequência dos precedentes. Alimentado com o pão da vida, o cristão parte do mundo acompanhado de seguríssima confiança e voa para o céu. Aquele Deus que tantas vezes recebeu em seu coração o acolhe naquele momento extremo, toma essa alma divinizada e a coloca na posse da felicidade eterna. A Eucaristia adoça as amarguras da agonia e dissipa os terrores da morte… Como é terrível a última hora; o corpo pregado num leito de dores, a família imersa no pranto, a alma perturbada pelo pensamento do passado, do presente e do futuro… Sim, tudo se aglomera de repente; o passado com suas quedas, o presente com suas mudanças, o futuro com seus juízos e com sua dupla eternidade. Ó Deus! Que urgente necessidade de auxílio se tem naquele momento! … Pois bem, o socorro mais poderoso está na santa Eucaristia. Recebendo o Deus da vida, já não se teme a morte, que antes se considera um bem e uma vantagem, e se diz com São Paulo: “Morrer é para mim um lucro!” (Fl 1,21).
Uma boa e santa comunhão é preparação, caminho e meio para uma santa morte. Tendo recebido o santo viático, Santo Alfredo expirou pronunciando estas palavras: “Senhor, cantarei eternamente a vossa misericórdia, a vossa misericórdia, a vossa misericórdia” (In Vita).
Santo Antônio, depois de ter comungado, exclamava todo alegre: “Adeus, meus filhos, adeus: Antônio vai para o céu” (Vite de’ Pad.). São Bernardo, munido do sagrado viático, ouviu uma voz que lhe sussurrava: “Vem, pois és esperado” (In Vita). “Ó felicidade!”, exclama São Francisco Régis, assim que recebeu o viático; “como morro contente! Vejo Jesus e Maria, que se dignam vir ao meu encontro para me conduzirem à morada dos santos” (In Vita). São Luís Gonzaga, tendo recebido a última comunhão, agradece a Deus por estar próximo o seu fim e pede a um padre da Companhia que recite com ele o Te Deum, e diz a outro: “Partimos contentes” (In Vita). Poderíamos referir mil outros exemplos das maravilhas do santo viático, que não é senão a continuação e o complemento das outras comunhões.
Eis as suaves consolações e a bem-aventurada morte que proporciona a santa comunhão… O bom cristão diz naquela hora com o Profeta: “Alegrei-me com o que me foi dito: eis que iremos à casa do Senhor” (Sl 121,1). Mas quem, durante a vida, negligenciou os sacramentos, experimenta tormento na morte…; e, sendo a morte o eco da vida, ordinariamente morre como viveu.
10° A Comunhão é o penhor da ressurreição e da eternidade feliz. — “Vossos pais”, dizia Jesus aos hebreus, “comeram o maná e morreram; mas quem come este pão viverá eternamente. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,59.55). A Eucaristia, portanto, é para nós garantia da ressurreição e da glória. Por isso o Concílio de Niceia a chama de “símbolo da ressurreição”; Santo Inácio, mártir, de “remédio da imortalidade (49)”; São Cirilo, de “alimento que nutre para a imortalidade e a vida eterna (50)”. O mesmo Padre diz em outro lugar: “O corpo de Jesus Cristo vivifica e dá a imortalidade incorruptível àquele que o recebe (51)”. O Concílio de Trento nos assegura que na Eucaristia temos o penhor da felicidade e da glória, e a mesma coisa afirma São Tomás (52). São Cipriano chama-a alimento incorruptível. (De Coena Dom.,); Santo Optato de Milevo, a garantia da salvação eterna e da gloriosa ressurreição (Lib. contro. Parmen.). “E como poderá morrer aquele que tem por alimento a vida?”, pergunta o Crisóstomo (53).
Portanto, a ressurreição, a imortalidade e a glória eterna estão asseguradas àqueles que dignamente se alimentam do corpo e do sangue de Jesus Cristo…
Observai os graus pelos quais a vida desceu de Deus até nós. O primeiro grau é aquele pelo qual o Pai comunica sua vida divina ao Filho; o segundo é aquele pelo qual o Filho comunica essa mesma vida à humanidade por ele assumida, mediante a comunicação dos idiomas; o terceiro é aquele pelo qual torna a humanidade participante de sua graça e glória; o quarto é aquele pelo qual Jesus Cristo nos comunica na Eucaristia uma vida não igual, mas semelhante à sua.
O apóstolo São João diz no Apocalipse ter visto, à direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos (5,1). Vários Padres representam nesse livro selado a santa Eucaristia. Os sete selos simbolizam as formas acidentais do pão eucarístico e sete magníficos prodígios, que são outros tantos mistérios ocultos na Eucaristia. O primeiro, a transfiguração; o segundo, a existência dos acidentes sem a realidade; o terceiro, a existência de Jesus Cristo num espaço tão estreito; o quarto, a existência de Jesus Cristo inteiro sob as aparências da hóstia, em virtude da consagração; o quinto, a existência simultânea de Jesus Cristo em cada hóstia consagrada sobre a face do globo; o sexto, a presença real de Jesus Cristo não somente em cada hóstia, mas em cada pequena parte dela; o sétimo, a transformação de Jesus Cristo naquele que dele se alimenta…
“O Senhor”, diz o profeta, “perpetuou a memória de suas maravilhas; ele, o Deus de bondade e de misericórdia, deu alimento àqueles que o temem” (Sl 110,5). Sim, a Eucaristia é o compêndio de todas as maravilhas do poder de Deus… Aqui se verifica aquela palavra do profeta (Sl 32,9): Deus falou, e tudo foi feito; num instante o céu se abre, Deus está sobre o altar, e o pão e o vinho são transformados em seu corpo e sangue… A Eucaristia é a lembrança da sabedoria de Deus.
Ele encontra o modo de estar com os anjos no céu e com os homens na terra; de alimentar os anjos com sua presença e os homens dando-se a eles…
A Eucaristia é a lembrança da bondade de Deus. Ele se une a nós do modo mais íntimo, mais perfeito; incorpora-se a nós, ou melhor, incorpora-nos a si mesmo e em si nos transforma. Ó maravilha incomparável, inefável, incompreensível!
A criação, o governo e a redenção do mundo constituem as três principais maravilhas, isto é, as três grandes obras do poder, da sabedoria e da bondade infinita de Deus. Seu poder manifesta-se na criação, sua sabedoria resplandece no governo do mundo, sua bondade inefável admira-se na obra da redenção. Essas três grandes perfeições de Deus são a causa eficiente do sacramento eucarístico…
Entre as maravilhas da infinita grandeza de Deus, desse oceano, desse abismo de perfeições, nenhuma, nem no céu nem na terra, supera em sublimidade a Eucaristia… Basta dizer que todas as perfeições de Deus, embora tão grandes que já não se podem conceber, tão sublimes que superam toda excelência, tão imensas que nenhum pensamento, nem de homem, nem de anjo, nem de serafim, pode chegar até elas, estão todas esgotadas neste sacramento de amor…
Deus manifestou seu poder na criação do universo. Com uma só palavra, torna fecundo o nada, fazendo dele surgir milhões de criaturas nobres, excelentes e perfeitas; o céu com todos os seus ornamentos, a terra com suas maravilhosas e variadíssimas produções; os anjos e os homens dotados de uma inteligência que é como um raio de sua sabedoria. Na Eucaristia, Deus exerce esse mesmo poder, ou melhor, manifesta-o em toda a sua magnificência; de uma coisa vil, de um pedaço de pão, faz, com duas palavras de seu ministro, a própria substância de seu adorável corpo. Este pão, por meio da consagração, é destruído e transformado. Na criação, Deus faz surgir apenas criaturas; na consagração, faz surgir do pão um Deus; mais ainda, faz dele um Deus; o pão deixa de ser pão e torna-se Deus. Encontramos no Êxodo que, à vista dos prodígios realizados por Moisés, os egípcios exclamavam: “Aqui está o dedo de Deus” (Ex 8,19). Com muito mais razão devemos repetir essas palavras diante do espetáculo das sublimes maravilhas que a Eucaristia nos mostra; e, mais que o dedo, devemos reconhecer aqui toda a força do braço do Senhor e exclamar: Fecit potentiam in brachio suo (Lc 1,51). Com efeito, a transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus Cristo não pode acontecer senão pelo poder da destra do Altíssimo (Sl 76,10). Aqui, verdadeiramente, faz-se ouvir a voz do Senhor em toda a sua força e magnificência (Sl 28,4).
Mas como pode Deus encontrar-se sob os acidentes de tão pouco pão? — E eu lhes perguntarei: Como pôde Deus tirar do nada tantas criaturas? Como elevou e estendeu a abóbada dos céus? Como a adornou de modo tão esplêndido? Como mantém suspensa no meio do vazio a pesada massa da terra? Como, com um pouco de barro, formou o homem, obra-prima de sua criação sobre a terra? Como restitui a vista aos cegos, a audição aos surdos, a fala aos mudos, a saúde aos enfermos e a vida aos mortos? Quando tiverem explicado de que modo Deus fez tudo isso, eu lhes direi como ele se encontra sobre o altar; porventura o poder de Deus não poderá fazer senão aquilo que vocês podem compreender? Terá ele certos limites, porque a inteligência do homem é rude, limitada e estreita? … Como está sobre o altar? … Está ali em virtude de sua onipotência, para a qual nada é impossível…
Em traços esplêndidos e magníficos, está desenhado no universo o poder de Deus; somente quem é cego não percebe o dedo divino impresso em todas as obras do mundo, das menores às maiores. Ora, quem compreende alguma coisa disso? E, entretanto, somos obrigados a ver, a crer, a admirar. Tudo traz a marca de uma sabedoria divina. Mas, na Eucaristia, a sabedoria de Deus resplandece com uma luz mais viva e divina que em todo o restante. O homem, criado à imagem de Deus e redimido com o sangue de um Deus, precisa, para conservar-se nessa altura, alimentar-se de um Deus; custou a vida a um Deus e só pode viver de Deus. Foi necessária a vítima da cruz para salvar o mundo; é necessária a vítima do altar católico para fazê-lo viver. Sim, a Eucaristia realiza esta grande maravilha. Mas vós, ó Senhor, subis ao céu; estais sentado à direita do Pai: como, então, vos encontrais sobre o altar? Contemplai a admirável e engenhosa invenção da sabedoria do Salvador; ele parte, e não se afasta; sobe acima dos céus e permanece sobre a terra; encontra-se no meio dos anjos e é alimento dos homens (Jo 16, S8).
Mas como pode acontecer que o corpo do Salvador se encontre no céu e na terra, que esteja presente ao mesmo tempo em tantas igrejas, que seja distribuído a tantas pessoas num só dia e que permaneça sempre o mesmo? Antes de responder a essas perguntas, pergunto-lhes como pôde o Filho de Deus estar inteiro no Céu e no seio da Bem-aventurada Virgem, sua Mãe, no mesmo instante. Mistério de um lado e de outro. Mas, assim como, quando Deus disse: “Faça-se a luz, e a luz foi feita” (Gn 1,3), e quando o Evangelho nos diz: “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14), realizou-se o grande prodígio da encarnação; do mesmo modo, quando este Deus criador, este Deus feito homem, disse: “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue”, — ele disse a verdade.
Antes de subir ao céu, Jesus, vendo que os Apóstolos haviam ficado tristes porque lhes dissera que ia para o Pai, prometeu-lhes que não deixaria de permanecer com eles até a consumação dos séculos. Portanto, não foi impossível àquele que partiu para o Pai, com quem ainda se encontra, e que, entretanto, permaneceu com os apóstolos, conservar seu corpo glorioso nos céus e dá-lo a nós como alimento na Eucaristia…
A Eucaristia é a lembrança da bondade de Deus. Observem como ele se dá a nós sem exceção: gratuitamente; inteiro; tantas vezes quantas se deseja; com doçura; sempre; e dar-se-á a nós até o fim do mundo…
A Eucaristia é o compêndio das maravilhas da antiga lei.
1° Contemplando o sacramento da Eucaristia, encontramos nele todas as maravilhas que existiam no estado de inocência, antes da queda de Adão. No meio do paraíso terrestre erguia-se o grandioso árvore da vida (Gn 2,9). Quão maravilhosa era aquela árvore! Era a árvore que encerrava em si a virtude de todas as outras, que podia dar ao homem uma espécie de imortalidade, que infundia forças sobre-humanas, restaurando continuamente as forças diminuídas. Aquela árvore da vida teria dado a Adão, com seu fruto: 1) uma vida longa; 2) uma vida saudável e vigorosa; 3) uma vida sempre inalteravelmente boa; 4) uma vida acompanhada de alegria. Ora, todas essas maravilhas também são produzidas pela Eucaristia. E é a árvore da vida plantada no meio da Igreja, que contém uma virtude infinitamente mais poderosa que a da árvore da vida, que nos comunica a vida da graça e nos assegura a vida da glória… A ela se aplica e nela se verifica o dito do Sábio: “É árvore de vida para aqueles que dela recebem; feliz quem a abraça” (Pr 3,18). A Eucaristia é a árvore da vida: 1) porque proporciona a vida natural da alma e a vida sobrenatural da graça; conserva-a e prolonga-a. 2) Dá força, vigor, energia e heroísmo. 3) Assim como o fruto da árvore da vida, o pão eucarístico supera em sabor e doçura todo outro alimento. 4) A árvore da vida preservava o homem da morte; do mesmo modo, a Eucaristia nos preserva da morte do pecado e, por consequência, da morte eterna, que é o cúmulo das desgraças… Adão, ao perder a árvore da vida, perdeu a faculdade de usá-la e de alimentar-se dela; o fruto daquela árvore nos foi restituído cem vezes mais pela santa Eucaristia.
2° A Eucaristia é aquele rio que irrigava o Éden; é um rio maravilhoso que banha, fecunda e faz germinar as virtudes em nossa alma, para que não percam o viço e se manifestem, mas desabrochem, floresçam e frutifiquem, formando um jardim agradável aos olhos de Deus e da Igreja…
3° A arca de Noé salvou a ele e à sua família das águas do dilúvio; a Eucaristia nos preserva das águas envenenadas da concupiscência, do dilúvio dos escândalos e dos vícios…
4° Os patriarcas e os profetas ofereciam sacrifícios agradáveis ao Senhor; depois de Moisés, os sacrifícios eram oferecidos pelos sacerdotes da antiga lei. Havia o sacrifício do holocausto, a vítima pacífica, a vítima de expiação e a vítima de propiciação. Todos esses sacrifícios, todas essas vítimas, não eram senão a figura do Cordeiro imolado na cruz e sobre os nossos altares. A Eucaristia é a realidade que cumpre todas essas figuras e substitui a verdade à sombra. A Eucaristia é um holocausto, porque Jesus Cristo é oferecido inteiro na consagração e na comunhão; é uma vítima pacífica, porque nos obtém de Deus a paz e todos os seus bens; é um sacrifício expiatório, no qual Jesus Cristo se oferece e satisfaz por nós; é um sacrifício de propiciação, porque por meio dele se obtém o perdão dos pecados veniais e dos pecados mortais dos quais não se tem memória, bem como o perdão total ou parcial das penas temporais devidas aos pecados mortais perdoados. Este sacramento remite mediatamente as culpas graves, porque por meio dele se obtêm de Deus a graça preveniente e a contrição, em virtude das quais esses pecados são perdoados. A Eucaristia é o maior, o mais perfeito de todos os sacrifícios; ou melhor, o único grande, o único perfeito. Por este sacrifício, Deus é honrado tanto quanto deseja e merece; é honrado infinitamente, pois um Deus é oferecido a Deus…
5° Nos dias de Moisés acontece um estupendo prodígio: uma sarça toda em chamas, sem se consumir. Moisés é impelido pelo desejo de ver de perto essa maravilha; mas uma voz lhe ordena: Não te aproximes; tira as sandálias, porque o lugar onde estás é santo. No meio daquela sarça ardente residia a majestade divina que falava com Moisés; daquele lugar ela o escolheu e o constituiu chefe do povo hebreu, comunicando-lhe as suas vontades. A Eucaristia é a renovação de todos esses prodígios. O esplendor da divindade está oculto sob a folhagem da humanidade, envolvido nas espécies do pão; a humanidade não é consumida pela divindade, nem a aparência do pão é destruída. De lá, o Senhor nos elege para o céu e nos dá a conhecer as suas vontades. Ela é a coisa mais santa, e ninguém deve aproximar-se dela senão tomado de santo respeito, mesclado de temor e confiança. Dos sagrados tabernáculos, Deus nos chama a si, fala-nos intimamente e nos estimula a sair do Egito dos pecados e dos maus hábitos.
6° Os judeus escaparam da espada do anjo exterminador por meio do sangue do Cordeiro pascal, que deviam comer de pé e com os rins cingidos, comendo juntamente alfaces silvestres. A santa Eucaristia, da qual o Cordeiro pascal não era senão uma figura, preserva-nos do anjo do extermínio, que é o demônio. É preciso recebê-la de pé, isto é, em estado de graça; com os rins cingidos, isto é, com pureza de mente e de corpo; com alfaces silvestres e amargas, isto é, com sentimentos de contrição, de penitência e de dor por havermos ofendido a Deus…
7° Quem não conhece a coluna de fogo e de nuvem que serviu de guia e escolta ao povo judeu durante tantos anos no deserto? Ela aparecia luminosa ao povo de Deus e tenebrosa aos egípcios. Este prodígio é renovado pela Eucaristia, que ilumina, aquece e inflama aqueles que dela dignamente se aproximam, enquanto cega, gela e conduz ao precipício os profanadores…
8° Que diremos então do maná, como símbolo da Eucaristia? Todas as maravilhas que nele se admiram renovam-se nesta de maneira ainda mais estupenda. 1) A cor é a mesma em um e em outra. 2) A doçura é a mesma em ambos. 3) Somente depois de se despedirem dos alimentos do Egito é que os hebreus se nutriram do maná; somente depois de renunciar aos apetites culpáveis deve o homem aproximar-se da sagrada mesa. A) O maná transformava-se em podridão para os infiéis e avarentos; para estes, a comunhão torna-se alimento envenenado e mortífero. 5) O maná foi dado somente depois da passagem do mar Vermelho; a Eucaristia não é concedida senão depois do batismo. 6) O maná caía no deserto; Jesus Cristo, no sacramento, quer habitar num coração segregado do ruído do século. 7) Fortalecidos pelo maná, os hebreus venceram e derrotaram os amalecitas; munidos da Eucaristia, os cristãos triunfam do mundo, dos demônios e de todo obstáculo à salvação. 8) O maná tinha o sabor que cada um desejava; a Eucaristia possui os mais suaves sabores da divindade, da graça e da virtude. 9) Do céu chovia o maná, e do céu também veio o pão eucarístico. 10) O maná tinha a forma de um pequeno grão; a Eucaristia encontra-se nas mínimas partículas da hóstia consagrada. 11) Os judeus ficaram estupefatos de assombro diante do prodígio do maná; os fiéis devem exultar de alegria, admiração, reconhecimento e amor diante do inefável prodígio da Eucaristia. 12) Todos recolhiam a mesma quantidade de maná; à santa mesa, cada um recebe Jesus Cristo inteiro. 13) Recolhia-se o maná nos seis dias da semana e guardava-se para o sábado, dia de repouso. Do mesmo modo, no dia da festa da eternidade, cairá o véu do sacramento, ver-se-á este mistério abertamente e repousaremos no seio de Deus. 14) O maná cessou na terra prometida; na terra dos viventes, a Eucaristia deixará de se mostrar a nós sob os acidentes do pão e do vinho, e nós possuiremos, veremos e gozaremos de Deus tal como ele é.
9° Lembrai-vos ainda da arca da aliança, feita de madeira incorruptível, que trazia o propiciatório, onde Deus residia no meio dos querubins, e continha o maná, a vara de Aarão e as tábuas da lei. Graças àquela arca, o povo de Deus atravessou o Jordão a pé enxuto para entrar na terra prometida, e as muralhas de Jericó desmoronaram diante dela; Oza tocou-a com mão irreverente e foi ferido de morte; os betsamitas não tinham o direito de vê-la, e setenta mil deles expiaram com a morte a indiscreta curiosidade que os impeliu a contemplá-la. Depois, depositada na casa de Obededom, trouxe consigo toda sorte de bênçãos. Bela e eloquente figura da Eucaristia, na qual se reproduzem todas essas maravilhas! Ela é a verdadeira arca da aliança, que une a terra ao céu, arca incorruptível que contém Jesus Cristo, maná celeste; a ciência da lei, a vara que fere e prostra os nossos inimigos. Os querubins a circundam, prostrados e venerandos; também nós a adoramos como arca da divindade, na qual Deus nos concede o perdão; por meio dela passamos à terra prometida da eternidade, depois de atravessarmos o rio do tempo; ela rompe e derruba o poder e o furor dos demônios, como as muralhas de Jericó; cumula de favores e bens aqueles que têm a ventura de recebê-la; mas também fere de morte os temerários e os profanadores…
A Eucaristia é, além disso, a lembrança e o compêndio das maravilhas da nova lei. 1° É o memorial da encarnação, porque, pela encarnação, o Filho de Deus veio a nós, e o mesmo acontece pela Eucaristia; na encarnação, a sua vinda foi visível e palpável, e, na Eucaristia, a sua vinda a nós, embora invisível, é não menos real; na encarnação, veio para nos redimir, e, na Eucaristia, vem para nos aplicar a redenção e nos santificar. Não se pode contemplar a Eucaristia sem reconhecer imediatamente que o Verbo se fez carne, habitou entre nós e ainda permanece aqui sob as espécies sacramentais. A Eucaristia é, como já observamos, uma certa extensão da encarnação; Jesus Cristo encarna-se em cada um de nós e nos diviniza.
2° A Eucaristia nos recorda as duas origens do Filho de Deus, uma eterna e outra temporal: pela primeira, ele procede do Pai por geração; pela segunda, é enviado do céu à terra. A primeira se dá desde toda a eternidade no seio do Pai; a segunda se realiza na plenitude dos tempos no seio de Maria. Aprouve a Jesus Cristo honrar, imitar e estender esses dois modos de existência por meio de um terceiro, que é a sua existência sacramental, vindo a nós e em nós para nos tornar participantes da sua divindade encarnada e da sua humanidade divinizada…
3° A Eucaristia é a lembrança do mistério da natividade. O nascimento de Jesus Cristo aconteceu em Belém, nome que significa casa do pão. Nesse lugar nasceu aquele que, falando de si mesmo, disse: “Eu sou o pão vivo descido do céu” (Jo 6, 51). Ali foi colocado na manjedoura, ali foi adorado pelos anjos e pelos pastores, ali foi respeitado pelos animais. Pela consagração, todas essas circunstâncias encontram o seu correspondente. A Igreja é Belém, a casa do pão descido do céu; o altar é a manjedoura em que ele repousa; os linhos do altar representam as pobres faixas em que o Homem-Deus foi envolvido. Não é ele acaso adorado sobre o altar pelos anjos, pelos pastores e pelo povo? O Verbo encarnado quis nascer numa estrebaria, para que os homens, abandonando a vida animalesca, vivessem uma vida angélica: cuidem, pois, os cristãos e vigiem sobre si mesmos, para não serem mais como os brutos; e, quando o Verbo divino vier a eles na santa comunhão, não lhe apresentem uma estrebaria, mas uma morada digna dele. Na sua vinda por meio da encarnação, nasceu num presépio para ali encontrar o homem que se embrutecera, tomá-lo, levantá-lo, tirá-lo da lama, torná-lo puro como os anjos e elevá-lo até o céu; mas, na sua vinda por meio da Eucaristia, já não tolera nem estrebaria, nem lama, nem sujeira, mas requer de nós um coração puro, uma alma celestial e uma consciência sem mancha…
4° A Eucaristia é um memorial da Epifania que, ao recordar-nos os Magos, os quais, guiados e iluminados por uma estrela, se dirigiram para adorar Jesus Cristo e presenteá-lo com dádivas preciosas e ricas, ensina-nos como devemos aproximar-nos dele.
5° É a lembrança da Visitação: Isabel, ao ver a Mãe de Deus, exclama, fora de si de alegria: “Donde me vem esta honra, de vir a mim a mãe do meu Deus?” (Lc 1, 43); João Batista exulta no seio de sua mãe e é santificado pela presença de Jesus Cristo. Maria entoa improvisadamente o belo cântico do Magnificat. Tudo isso se renova à sagrada mesa…
6° A alegria e a felicidade que o velho Simeão experimenta ao receber, no dia da Apresentação, em seus braços o menino Jesus, e o voto que faz de partir em paz do mundo depois de haver desfrutado de tamanha felicidade, dão-nos uma amostra da alegria e da bem-aventurança de que gozam aqueles que, não entre os braços, mas no coração, o recebem no banquete eucarístico. Imitemos Simeão no júbilo e no reconhecimento; imitemos Ana, que anunciava a todos as grandezas do Menino celeste.
7° Que prodígio nos recorda mais verdadeiramente a Transfiguração do Senhor do que a Eucaristia? Admirável transfiguração, na qual o corpo glorioso de Jesus Cristo se mostra na branca nuvem das espécies do pão, e a sua face, mais resplandecente que o sol, adorada pelos anjos e pelos homens, oculta os seus esplendores sob os acidentes sacramentais! Admirável transfiguração, que nos transforma em Deus! Ela se realiza sobre uma alta montanha, na Igreja católica, verdadeiro Tabor, que é a única montanha elevada, a única fértil, bela e rica. À sagrada mesa, a alma fiel pode dizer com toda a verdade, com São Pedro: “Ó Senhor, é bom para nós estarmos aqui!” (Mt 17, 4). À sagrada mesa, o Pai faz ouvir sobre cada conviva: “Este é o meu filho amado, objeto das minhas complacências” (Ib. 5).
8° A Eucaristia é a recordação da última ceia; pois aquelas palavras de Jesus Cristo: “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue”, ressoam todos os dias sobre os nossos altares, não menos eficazes do que no cenáculo, na noite da Quinta-Feira Santa…
9° É a recordação, ou melhor, a renovação da paixão do Salvador (São Tomás, in Off. SS. Sacram.). O santo sacrifício da missa é a verdadeira representação do sacrifício da cruz. Jesus Cristo, instituindo este adorável sacramento, disse: “Fazei isto (isto é, o que me vistes fazer) em minha memória” (Lc 22,19). Portanto, todos os dias se oferece o sacrifício da missa, cumpre-se o grande sacramento do altar, pelo ministério dos sacerdotes, em memória da redenção consumada com a paixão e morte de Jesus Cristo. O altar representa o Calvário; as vestes sacerdotais denotam as várias circunstâncias da paixão. E a consagração do pão é feita separadamente da do vinho, para representar mais vivamente a morte do Salvador.
10° Finalmente, a Eucaristia é o memorial da ressurreição, da ascensão e de todos os mistérios da nossa fé… É, numa palavra, o resumo e a recordação de todos os milagres do Redentor; e, por isso, com toda a razão devemos exclamar: “O Senhor perpetuou a memória de suas maravilhas, no alimento que sua bondade e misericórdia deram aos que o temem” (Sl 110,4-5).
Jesus Cristo permanece real, pessoal e substancialmente em nós pela comunhão, durante todo o tempo em que as espécies sacramentais permanecem em nós; consumidas estas, Jesus Cristo permanece em nós virtualmente, do mesmo modo que a virtude de um alimento substancioso e de um vinho generoso permanece em nós depois que eles se transformaram em nossa substância. Em virtude dessa permanência virtual de Jesus Cristo, a Eucaristia nutre, faz crescer, fortalece e alegra a alma fiel.
Eis, pois, a ordem das coisas no recebimento da santa Eucaristia: 1° Jesus Cristo é recebido inteiro como alimento e permanece em nós; 2° quando as espécies mudam de natureza, a carne e a humanidade de Jesus Cristo deixam de estar em nós; mas sua divindade, como alimento imortal, continua a permanecer em nós, e finalmente essa divindade comunica à nossa alma a vida sobrenatural, conserva-a e aumenta-a, alimentando-a continuamente com sua graça…
Jesus Cristo disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,54). Jesus Cristo afirma sob juramento que é impossível viver aquele que não cuida de receber a santa Eucaristia. Haverá necessidade de palavras mais enérgicas para estabelecer a necessidade da comunhão e impor-lhe o preceito? Tanto mais que, às palavras acima citadas, acrescentam-se estas outras: “Tomai e comei, isto é o meu corpo” (Mt 26,26), que soam como uma ordem clara e precisa.
Segundo o dito de Zacarias, a Eucaristia é o trigo e o vinho que fazem germinar os virgens e os eleitos para o céu (Zc 9,17). Isso prova que é impossível ao homem levar uma vida espiritual, perseverar por muito tempo na graça e, sobretudo, conservar-se casto e puro, sem a Eucaristia, assim como é impossível sustentar a vida do corpo sem alimento e bebida. E, contudo, é preceito absoluto levar uma vida moderada e casta…
Todos deveriam ter a peito aproximar-se com frequência da santa comunhão; mas, ao menos, não deveria haver sequer um que não cumprisse o preceito de Jesus Cristo segundo a determinação da Igreja, a qual, vendo a indiferença, a frieza e a cegueira dos homens, fixou o seu cumprimento uma vez por ano, na Páscoa. Esta ordem da Igreja, fundada no mandamento de Jesus Cristo, obriga todo cristão a fazer a sua Páscoa sob pena de pecado grave. Quantos cristãos há, pois, preguiçosos, indolentes, relaxados, cristãos de nome, pagãos de fato, que vivem no infeliz estado do pecado mortal, no estado de condenação! Quantos há que não fazem caso deste sagrado preceito! Não se importam com Deus e desprezam a Igreja. Ora, diz São Cipriano, Deus jamais terá por pai aquele que não reconhece a Igreja como mãe. Mas pode dizer-se que reconhece a Igreja como sua mãe aquele que viola a sua lei, dela zomba e a despreza? Que desgraça! … O coração deles, como o dos judeus ingratos no deserto, sente náusea desta divina maná (Nm 21,5). Este pão dos anjos lhes é insípido, e eles o desprezam. Oh! De quantos se pode dizer que parecem vivos e estão mortos! (Ap 3,1).
Como pode uma alma sentir náusea do corpo e do sangue de Jesus Cristo? Como pode ser-lhe repugnante aquele pão que constitui as delícias dos anjos? Que este pão sagrado e vivificante se torne insípido para certas pessoas; que lhes pareça penoso dele se servir e que até se recusem inteiramente a fazê-lo: tal cegueira, tal desgraça não se pode exprimir em palavras; e, contudo, é coisa que se vê todos os dias. Que estado terrível é o dessas pessoas! O sinal mais certo de uma saúde debilitada é sentir repugnância pelos melhores alimentos; nesse caso, facilmente se suspeita que se abriga algum mal secreto e perigoso, e empregam-se todos os meios para deter o mal e curá-lo radicalmente. Assim também se deve raciocinar a respeito da santa Eucaristia. Perder o gosto pela comunhão é a desventura que mais se deve temer; e não se sentir tocado ao ver-se afetado por essa náusea, viver tranquilo, indiferente e despreocupado, é o cúmulo do endurecimento, é o sinal seguro de uma consciência já inteiramente desregrada ou prestes a tornar-se tal e a perder-se completamente…
É verdade que existe certa falta de disposição para a comunhão, permitida por Deus como prova ou castigo transitório, e há certas aridezes, durezas etc.; mas então aquele que é atingido por elas geme e se humilha etc.; tais repugnâncias não devem ser temidas nem devem afastar-nos da sagrada mesa… Mas a náusea que provém de nós, da nossa infidelidade e do nosso relaxamento no serviço divino, é grande desventura e delito. Esse desgosto é frequentíssimo no mundo, e é dele que aqui se trata… Ora, qual é a causa de uma disposição tão comum e perigosa? O relaxamento da vida… Em vão se procurariam outras razões; cai-se na cegueira, arruína-se no erro…
Apresenta-se como desculpa o fato de não se estar em condições de comungar e de se temer incorrer num sacrilégio. Tendes toda a razão de temer o sacrilégio; ele é o delito de Judas, o mais enorme dos crimes; mas por que cometeríeis um sacrilégio ao comungar no estado em que vos encontrais? Certamente porque sois dominados pela preguiça; a indolência vos arrastou e sepultou neste deplorável estado. Sacudi, pois, a preguiça e o relaxamento, e em breve sereis capazes de receber dignamente o vosso Deus.
Que foi feito do feliz tempo da vossa primeira comunhão? Então vos aproximáveis dos sacramentos e amáveis aproximar-vos deles… Quem mudou? Deus ou vós? Ah! Deus não muda; ele é sempre infinitamente bom, amável e digno de ser desejado; mas o vosso coração é que mudou; vós negligenciastes e depois abandonastes a oração, a confissão, a vigilância e as cautelas que antes usáveis para evitar as ocasiões próximas de pecado; destes ouvidos ao demônio, ao mundo e à concupiscência; desde esse tempo, fatal à vossa inocência, a Eucaristia se vos tornou repugnante e nauseante. E acabastes por preferir Barrabás a Jesus Cristo.
Ó Deus! Quão terríveis são os efeitos da náusea e do afastamento da mesa do Senhor! A desregramento dos costumes conduz ao desgosto da comunhão; essa inapetência leva ao abandono de todos os mais sagrados deveres; então as graças diminuem, as forças enfraquecem, os inimigos se fortalecem. A partir do momento em que alguém se afasta de Jesus Cristo, aproxima-se do demônio.
Abandonada a sagrada mesa, todas as graças se ressecam, os inimigos nos assaltam, nos amarram, nos curvam e nos esmagam. Sem a comunhão, já não há comunicação com Deus: negligencia-se quase inteiramente o serviço do Senhor, e Deus se retira e, por sua vez, deixa a alma no abandono. Ora, a soma das desgraças é ser abandonado por Deus. Perguntai-o aos réprobos… O profeta pinta em dois traços esta imensa desventura da náusea e do abandono da santa comunhão: “Eles tiveram nojo e horror do pão da vida, e foram até às portas da morte” (Sl 106, 18). “Fui ferido e ceifado como o feno; meu coração secou-se, porque deixei de comer o pão da vida” (Sl 101, 5). Então a torrente de todas as paixões transborda, e as recaídas seguem-se às quedas; os hábitos transformam-se em necessidades. O homem se encontra como que agarrado, acorrentado, precipitado pelas quedas; as recaídas fecham a porta, os hábitos a muram; já não há ar, já não há luz, já não há movimento; morre-se e, ao despertar, está-se no inferno…
Deve-se, pois, desesperar? Não. Há um remédio eficaz, que consiste em vencer a náusea dos sacramentos; confessar-se e colocar-se em condições de comungar como das outras vezes.
Que felicidade, que tesouro é ser admitido à mesa de Jesus Cristo, recebê-lo, alimentar-se dele! Que se pode imaginar de tão útil, de tão grande, de mais honroso, de mais consolador! E Deus não somente nos permite aproximar-nos dele, o que já seria um insigne favor; não somente nos convida, mas nos chama e nos ordena que a ela nos dirijamos. Tão grande é o seu desejo de nos favorecer, de cumular-nos das graças mais abundantes, de dar-se inteiramente a nós, que nos obriga a recebê-lo…
De que pode provir em nós essa frieza para nos aproximarmos da sagrada mesa, que, infelizmente, se vê em muitos? Da ignorância, do esquecimento, do respeito humano, dos maus costumes, do desprezo, da perda ou diminuição da fé e, às vezes, de todas essas causas juntas. Infelizes aqueles que assim preferem a mais sórdida miséria às riquezas mais desmedidas, a soma das desgraças à soma das felicidades, a maldição à bênção, a morte à vida, o inferno ao céu, o nada ao tudo, a lama a Deus! … Todos os dias se cuida de alimentar o próprio corpo, esse corpo que em breve será pasto dos vermes; e não se pensa em fortalecer a alma com o seu Deus, que é o seu único alimento! Todos os dias se desejam e procuram alimentos vis; e despreza-se o corpo e o sangue de Jesus Cristo! Ó mortais insensatos, quão dignos sois de compaixão! …
Os primeiros cristãos comungavam todos os dias; as almas fervorosas, em todos os séculos, tiveram o costume de frequentar a comunhão; os mais exemplares entre os cristãos aproximam-se dela com frequência. São José de Copertino, religioso da ordem de São Francisco, comungava todas as manhãs, e seu rosto, sempre extremamente pálido, tornava-se fresco e rosado depois da comunhão (In Vita).
São Pedro Crisólogo recomendava vivamente a comunhão frequente, desejando que esse pão sagrado fosse o alimento cotidiano de todos os cristãos (In Vita).
Santo Elzeário aproximava-se muito frequentemente da comunhão ao longo da semana e costumava dizer: “Creio que não se pode imaginar alegria semelhante àquela que se saboreia à mesa do Senhor. A maior consolação de uma alma na terra é esta: receber frequentemente o corpo e o sangue de Jesus Cristo” (In Vita). Também Santa Ângela comungava todos os dias, e suas comunhões eram para ela fonte abundante de doçuras espirituais (In Vita). Todos os santos, em uma palavra, desejavam alimentar-se o mais frequentemente que pudessem da divina Eucaristia; e dessa fonte hauriram sua santidade e perfeição.
Com a comunhão frequente, crescemos em pureza, em humildade, em virtude, em santidade, em méritos… O desígnio de Jesus Cristo, ao mostrar tão grande desejo de instituir a Eucaristia, foi certamente fazer dela o nosso alimento habitual, ordinário, cotidiano. Por isso, os santos Padres entendem especialmente do pão eucarístico aquele pedido que Jesus nos põe nos lábios no Pai-Nosso: “Dai-nos hoje o nosso pão cotidiano” (Lc 11, 3). E Santo Agostinho observa que precisamente por isso o Redentor nos dá a Eucaristia sob a forma de alimento e bebida, e faz dela quase um banquete, para que compreendamos que é um alimento do qual devemos fazer uso frequente (De Coelest. vita).
Não é porventura palavra do nosso Deus, que nos convida à comunhão frequente, aquela do Sábio, que nos diz: “Vinde, comei do meu pão, bebei do meu vinho”? (Pr 9, 5). Isso fazia Santo Ambrósio dizer: “Se este sacramento é pão, se é pão de cada dia, por que te alimentas dele somente depois de um ano?” (De Sacram. lib. 5, c. 4). “Recebe-o todos os dias, diz Santo Agostinho, se queres que todos os dias te seja útil (54)”.
Daí não se segue que os cristãos sejam obrigados a comungar todos os dias, mas a viver de tal modo que possam ser dignos da comunhão cotidiana, como precisamente inculcava Santo Ambrósio: “Seja tal a vossa vida que mereçais receber todos os dias a santa Eucaristia (55)”.
É moralmente impossível que aquele que frequenta a comunhão não se sinta impelido e quase arrastado à força a purificar o coração, reformar a conduta e ordenar os costumes. Que pensamento vantajoso não é este: devo amanhã, devo muito em breve aproximar-me da sagrada mesa; devo receber Jesus Cristo, unir-me a ele! E desse pensamento, quanta humildade não se gera em nós, quanta vigilância, quantas orações naturalmente não provêm dele! Não há meio melhor de perseverar do que a santa comunhão.
A comunhão frequente é útil aos justos, tanto para se sustentarem como para progredirem na virtude e na perfeição. Para se sustentarem, porque, por nós mesmos, nada somos nem podemos nada… Para progredirem: como poderia o homem, como teria forças para correr pelo caminho das virtudes e do céu, se não é nutrido e se não restaura suas forças com o alimento dos fortes? … É útil aos pecadores convertidos e reconciliados com a graça, para não recaírem, para expiarem suas culpas, para não mais voltarem atrás, para obterem novas graças…
Mas, dirá alguém, para aproximar-se dignamente da comunhão, exigem-se tantas disposições que já é muito ousar recebê-la uma vez por ano: quem ousará fazê-lo diariamente? Pois bem, saiba esse tal que a melhor disposição é precisamente a comunhão frequente. Uma comunhão serve de ação de graças por outra; a comunhão de hoje é a disposição mais adequada para a comunhão de amanhã… O que acontece com a comunhão acontece também com a oração: quanto mais frequentemente se reza, melhor se sabe rezar e maior gosto se experimenta na oração. O uso da Eucaristia é o que nos torna aptos a recebê-la dignamente…
Felizes os apóstolos, dizeis vós, e todos aqueles que viram Jesus Cristo na terra, que conversaram com ele, com ele se sentaram à mesa e foram testemunhas de seus milagres, que dele obtiveram curas! … Pois bem, vós tendes tudo isso à mesa sagrada… Além disso, a comunhão deve ser mais ou menos frequente na proporção do fruto que dela se colhe: e é o confessor quem deve regular as comunhões. Comunicar-se frequentemente e padecer sempre das mesmas imperfeições, da mesma tibieza, conservar sempre os mesmos hábitos viciosos, é expor-se, ao menos, a fazer comunhões tíbias, infrutuosas…
Não se deve, porém, esquecer que a comunhão não torna impecável, e é bom recordar que apaga os pecados veniais… E se, não obstante a comunhão frequente, alguém se encontra tão imperfeito, que seria dele se descuidasse desta divina maná? Deus permite esta fragilidade para nos humilhar e nos animar a vigiar, rezar e fazer penitência.
A comunhão frequente nos faz progredir na perfeição sem que sequer o percebamos; e é bom que o ignoremos, para que o amor-próprio e a vaidade não devorem aquele pouco de bem que há em nós… Além disso, não nos constituamos juízes de nossas comunhões; deixemos que as julgue aquele que, para nós, ocupa o lugar de Deus. Ao nosso diretor compete traçar-nos o caminho; a nós, obedecer-lhe.
Deus opera em nosso favor milagres na Eucaristia; quer que também nós lhe ofereçamos, em proporção à comunhão, milagres quase semelhantes e correspondentes. O primeiro milagre que Jesus Cristo opera é a transubstanciação; assim também o pecador deve transubstanciar-se, transformar-se a si mesmo por meio de um coração contrito e penitente, para tornar-se digno do banquete eucarístico, a fim de que, de carnal, se torne espiritual; de orgulhoso, intemperante, luxurioso, invejoso e colérico, transforme-se, com seus esforços e pela virtude do corpo de Cristo, em humilde, sóbrio, casto, liberal e manso. É preciso que chegue a poder dizer com São Paulo: “Não sou eu que vivo, mas é Jesus que vive em mim” (Gl 2, 20).
Segundo milagre: na Eucaristia encontram-se o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo; assim também nós devemos oferecer a Jesus Cristo e consagrar-lhe o corpo, a alma, a mente e o coração, para que tudo quanto há em nós seja dado a Jesus Cristo e tudo se volte para seu louvor, sua honra, seu amor e sua glória.
O terceiro milagre que a Eucaristia apresenta é a humildade de Jesus Cristo: ele, imenso, infinito, encerra-se numa pequena hóstia, ou melhor, em cada migalha de hóstia; ó Deus, que prodígio de humildade! Aprendamos de Jesus a humilhar-nos quando nos aproximamos dele. Jesus Cristo esconde-se sob aparências comuns; ocultai também vós as virtudes e as riquezas espirituais, para que vosso único desejo seja agradar somente a Deus. Jesus Cristo, na Eucaristia, suporta, sem se queixar, toda injúria e afronta etc.; sirva-nos ele de exemplo para imitá-lo.
Quarto milagre: Jesus Cristo oferece-se a nós todo inteiro e indivisível; quanto mal eu faria, portanto, se me dividisse entre ele e o mundo, se subtraísse dele uma mínima parte de mim mesmo… O quinto milagre é a impassibilidade de Jesus Cristo; imitemo-lo pela paciência…
Sexto milagre: na Eucaristia, Jesus é tão imperceptível aos sentidos que a vista, o ouvido, o olfato, o paladar e o tato se enganam. Lição para nós, a fim de mortificarmos nossos sentidos e nos tornarmos insensíveis ao mundo e à carne.
O sétimo milagre consiste nisto: Jesus Cristo nos apresenta na Eucaristia as qualidades de seu corpo glorioso: a clareza, a agilidade, a sutileza e a impassibilidade. Ofereçamos-lhe também nós o esplendor da pureza e do bom exemplo, a agilidade do fervor, a sutileza da contemplação e a impassibilidade da resignação.
O oitavo milagre nos é mostrado por Jesus ao alimentar com a si mesmo todos os fiéis, ao unir-se e incorporar-se a eles, para que todos juntos não formem senão um só corpo com ele e nele. Reproduzamos em nós esta imensa caridade do Redentor, amando todos os homens e rezando por eles etc.…
Primeira disposição: a fé. — Queremos ver Jesus Cristo na Eucaristia? Estejamos cheios de fé. Os dois discípulos que se dirigiam a Emaús reconheceram seu divino Mestre ao partir o pão (Lc 24,31). A este respeito, diz Santo Agostinho: “Onde quis o Senhor que o reconhecessem? Ao partir o pão, e não em outro lugar, por consideração a nós, que não deveríamos vê-lo na carne e, contudo, deveríamos comer a sua carne. E receberemos este sacramento com tanto maior fruto quanto mais viva for a nossa fé (56)”.
“Porque viste, disse o Redentor a Tomé, creste; bem-aventurados, porém, os que creram sem ver” (Jo 20,29). E por que bem-aventurados? Porque, em sua adoração, têm o mérito da fé mais pura e da religião mais perfeita. Devemos dizer a Jesus Sacramentado o que Isaías dizia: “Tu és verdadeiramente um Deus escondido” (Is 45,15). Adoramos sem ver e sem pedir para ver; mas não adoramos sem conhecer: aquilo que adoramos, conhecemo-lo pela fé. De resto, não há verdade mais solidamente provada que a presença real de Jesus na Eucaristia.
A nossa fé deve ser firme, inabalável, viva; e chamo viva àquela fé que penetra o céu e descobre Jesus Cristo, que é cheia de respeito e fecunda em boas obras; porque a fé desacompanhada das ações é fé morta, diz São Tiago (Tg 2,26). Não nos aproximemos do banquete eucarístico sem uma fé assim. Ora, podemos nós dizer a Jesus Cristo o que o servo do Evangelho disse ao seu senhor: “Dez talentos me confiastes, ó Senhor; eis aqui outros dez que lucrei”? Ou não temos nós, até agora, imitado antes aquele outro servo preguiçoso e infiel, que escondeu debaixo da terra o talento recebido? (Lc 19,16). Não nos temos nós comportado talvez como as virgens insensatas, que deixaram apagar-se as suas lâmpadas, por não terem levado consigo óleo para reabastecê-las?… Ah! se, à mesa sagrada, Jesus pesasse a nossa fé, de quantos se poderia dizer, como do ímpio Baltasar (Dn 5,27): “Foste pesado na balança, e a tua fé foi achada em falta!”.
Tenhamos a fé de São Tomás de Aquino que, estando no fim da vida, ao ver que lhe traziam a santa Eucaristia, exclamou, com o acento da mais terna devoção, estas palavras: “Creio firmemente que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está neste augusto sacramento. Eu vos adoro, ó meu Deus e Salvador! Eis que recebo a vós, que sois o preço da minha redenção, o viático da minha peregrinação. Vós, por cujo amor estudei, trabalhei, preguei e ensinei” (In Vita). Repitamos com São Bruno: “Creio nos mistérios em que crê a Igreja e, em particular, que o pão e o vinho consagrados sobre o altar são o verdadeiro corpo, o verdadeiro sangue, a verdadeira carne de Jesus Cristo, que recebemos para a remissão dos pecados e na esperança da vida eterna” (In Vita).
Tenhamos a fé da Venerável Maria da Encarnação, carmelita leiga, que, interrogada pelo sacerdote que segurava a sagrada partícula entre as mãos, prestes a administrá-la como viático, se cria que Jesus Cristo estivesse realmente presente naquela hóstia, respondeu com ardor: “Sim, eu creio! Ah, sim, eu creio! Vinde, meu Senhor, vinde!” (In Vita).
Segunda disposição: a humildade. — “A humildade é tão necessária, diz São Bernardo, que, faltando ela, falta o fundamento de todas as outras virtudes, de tal modo que, sem ela, as virtudes não parecem virtudes, tão lânguidas, vazias, efêmeras e aparentes se mostram. E, onde ela falta, todo o edifício das outras virtudes necessariamente desmorona (57)”. E São Gregório sentencia: “Quem acumula virtudes sem humildade faz como aquele que lança poeira ao vento (58)”. E não disse porventura o próprio Jesus Cristo: “Se não vos fizerdes pequenos como crianças, não entrareis no reino dos céus”? (Mt 18,3).
Ora, se a humildade é tão necessária às outras virtudes, tão indispensável em todas as ações, como não o será na maior, na mais sublime das ações, na santa comunhão? Não será necessária a humildade para ser admitido àquele sacramento que se pode chamar, por antonomásia, o sacramento ou mistério da humildade e da humilhação, ou melhor, do aniquilamento de Jesus Cristo? Com efeito, ele se humilha ao revestir a forma humana; mas um anjo revela a sua grandeza. Humilha-se ao querer nascer num estábulo e escolher como berço uma manjedoura; mas os espíritos celestes anunciam aos pastores este grande milagre, a estrela de Jacó o manifesta, e o Oriente vem, na pessoa dos Magos, prostrar-se a seus pés, oferecer-lhe presentes e adorá-lo… Leva uma vida pobre e oculta; mas as tempestades aplacadas, os pães multiplicados, os enfermos curados e os mortos por ele ressuscitados proclamam o seu poder e publicam a sua grandeza. Na cruz, aniquilou-se; mas o sol que se obscurece ao expirar, a terra que treme, as rochas que se fendem, o véu do templo que se rasga, o centurião que deixa o Calvário batendo arrependido no peito, os mortos que ressuscitam são outras tantas vozes que clamam, são outras tantas testemunhas que afirmam a divindade do condenado à morte. Somente na Eucaristia, este grande Deus aniquilado não deixa transparecer nenhum sinal exterior de poder, de grandeza, de divindade; nada põe em evidência senão a sua sublime humildade e o seu infinito amor. Sobre este divino modelo devemos formar a nossa humildade, principalmente quando comungamos. E, para fazê-lo convenientemente, consideremos a grandeza daquele Deus que estamos prestes a receber, o nosso nada…, os nossos pecados…, a nossa pobreza de virtudes…
Agindo assim, imitaremos a humildade de Abraão, que se considerava cinza e pó; imitaremos a humildade da Virgem Maria…, de São João Batista…, de São Pedro…, de São Paulo…, do publicano…, do centurião…, da Madalena…, em suma, a humildade de todos os santos… Imitaremos a profunda humildade de Deus, que se entrega a nós… E, como ele é generoso de sua graça para com os humildes, sairemos repletos de seus favores do banquete eucarístico; ver-nos-emos elevados na proporção em que nos tivermos humilhado…
Terceira disposição: a pureza. — “O meu amado, dizia a Esposa dos Cânticos, que se apascenta entre os lírios, está comigo, e eu estou com ele” (Ct 2,16). Ele desceu ao seu jardim para colher lírios (Ib. 6,1). E, para comer a hóstia pacífica, a lei queria que o homem fosse puro (Lv 7,19).
Quanta pureza deve ter aquele que participa de tão grande banquete! De que pureza devem ser aquela língua que toca o corpo de Deus, aqueles lábios que se tingem com o seu sangue, aqueles olhos que o fixam tão de perto, aquele coração que deve servir-lhe de tabernáculo, aquela alma que o recebe! Quão puro deve ser aquele que recebe em si esse grande Deus, diante de cujo poder os anjos, querubins e serafins permanecem tremendo, velando o rosto com as asas!…
De Davi está registrado que “levantou-se do chão, lavou-se e ungiu-se, trocou de vestes; depois entrou na casa do Senhor e adorou a Deus” (2Sm 12,20). Se Davi faz tantos preparativos somente para entrar na casa de Deus, serão excessivos os cuidados que teremos para nos apresentar à mesa do Senhor? À mesa daquele Senhor diante de cuja presença, diz Jó, nem sequer os céus são puros (Jó 15,15). Nunca se julgará suficientemente puro aquele que considerar que, apesar da incomparável pureza e imaculabilidade da Virgem Maria, a Igreja, contudo, se admira de que este grande Deus não tenha tido horror de entrar em suas entranhas.
Se o nosso Redentor, observa São Pedro Damião, teve em tão grande apreço a flor da pureza, que não somente quis nascer de uma virgem, mas escolheu ainda, para seu guardião, um virgem, como era São José, que pureza não exigirá daqueles que o recebem na Eucaristia, agora que reina glorioso nos céus? (Lib. 1, Epist. VI).
Quem ainda não se despojou do homem velho não é digno de recolher este maná divino. «Aqueles que não são absolutamente puros e santos não ousem tratar das coisas santas», diz o Concílio de Cartago (59). «O cristão que se aproxima de Jesus Cristo, ensina São Lourenço Justiniani, seja como outro Cristo» (Lib. de ligno vitae). Jesus dá-se aos homens para que se tornem anjos. E quem são aqueles que São João viu sobre o monte Sião fazendo cortejo ao Cordeiro imaculado e seguindo-o por toda parte? Os virgens, que não estão manchados por mácula alguma (Ap 14, 1-4). Assim devem ser aqueles que, mais do que seguir, querem comer o Esposo dos virgens, o Santo dos Santos, aquele pão dos filhos que não se deve lançar aos cães, como se exprime São Tomás (60).
A pureza é uma virtude que nos torna semelhantes aos anjos. Ora, devemos procurar tornar-nos muitíssimo semelhantes a eles, porque, segundo o Profeta, «comemos o pão dos anjos» (Sl 77, 25), alimentamo-nos do pão celeste, que é o próprio Verbo de Deus, dizendo Jesus: «Eu sou o pão vivo, descido do céu» (Jo 6, 51).
O Sábio assegura-nos que terá por amigo o rei do céu aquele que ama a pureza de coração (Pr 22, 11), e que a castidade aproxima o homem de Deus (Sb 6, 20). Por isso, o Senhor diz: «Purificai-vos, vós que deveis levar os vasos de Deus» (Is 52, 11). «A alma impura que comer deste pão será punida com a morte» (Lv 7, 20).
A Escritura narra-nos que Judite despiu as vestes de luto, lavou o corpo, ungiu-se com precioso perfume, penteou os cabelos, colocou sobre eles a mitra, vestiu-se com elegância, calçou as sandálias, tomou os braceletes com lírios, os brincos e os anéis, de modo que apareceu aos olhos de todos com uma beleza incomparável. Ao vê-la, Ozias e os anciãos ficaram estupefatos com tamanha beleza e desejaram-lhe que o Senhor lhe concedesse a graça. Logo que se apresentou diante de Holofernes, ele se encantou com ela ao primeiro olhar e ordenou que fosse introduzida na sala dos tesouros. Depois disse-lhe: «Bebe agora e come alegremente, porque encontraste graça diante de mim» (Jt 10, 11, XII). Eis o quadro da beleza e da pureza de coração que deve levar um cristão à santa comunhão. Então ele entra nos tesouros de Deus, que o contempla com olhar de complacência e lhe diz: Bebe o meu sangue, come a minha carne, porque encontraste graça diante de mim… Antes de nos aproximarmos de um Deus virgem, do Deus dos virgens, é preciso renunciar àquelas afeições secretas, àqueles hábitos, àquelas relações e àqueles prazeres que a lei proíbe e que trariam desonra à carne imaculada de Jesus Cristo; é preciso assaltar tais paixões e vencê-las; desapegar-nos do mundo, de suas intrigas, de suas vaidades e pompas seculares, daqueles passatempos perigosos e funestos que afastam de Jesus Cristo… «O homem examine a si mesmo, diz São Paulo; e depois coma daquele pão e beba daquele sangue» (1Cor 11, 38).
Quarta disposição: o respeito. — «Os Magos, diz São João Crisóstomo, saudaram o menino com respeito e o adoraram com temor e tremor» (Homil. ad pop). Imitemo-los; respeitemos Jesus Cristo sobre o altar; não nos aproximemos deste sagrado corpo senão com profunda veneração. Não é um anjo, mas é o Rei dos reis, o Senhor dos anjos e dos homens, aquele que vamos receber e que se nos oferece como alimento.
Ninguém, nos tempos antigos, podia ver a Deus sem morrer de terror. Aos betsamitas coube uma grande mortandade apenas por terem olhado com excessiva curiosidade para a arca; Oza caiu morto no instante em que estendia a mão sobre a arca; o anjo do Senhor feriu terrivelmente Heliodoro, porque ousara entrar irreverentemente no templo de Jerusalém. Se tanto respeito se devia àquelas coisas, embora fossem apenas sombras, de quanta reverência devemos estar cheios diante da Eucaristia! … Deveríamos estar à santa mesa no estado em que Jesus Cristo se oferece: ele tem olhos e não se serve deles, tem boca e não fala, tem pés e não se move…
Respeito interior no espírito, na alma, no coração… Respeito exterior, que se manifeste por todos os sentidos, nos olhos, nos ouvidos, na língua, nos pés, enfim, em toda a atitude exterior… Se as dominações se curvam, se as potestades se inclinam, se os serafins se velam, com que respeito devemos nós aproximar-nos de seu rei!
Quinta disposição: um temor salutar. — À morte de Jesus, a terra tremeu e as pedras se fenderam (Mt 27, 51). Ora, por que esse terremoto? Responde São Hilário que isso aconteceu porque a terra pressentiu que em seu seio seria deposto o corpo do Salvador e, sentindo-se incapaz e indigna de recebê-lo, tremeu de espanto. Oh! não nos mostremos mais insensíveis do que a terra e os rochedos; seja um temor salutar o nosso companheiro à mesa do Deus da santidade… «Aqueles que vos temem, ó Senhor, dizia Judite, serão grandes diante de vós em todas as coisas» (Jt 16, 19), e o Salmista cantava que o Senhor sempre fez prosperar e abençoou aqueles que o temem (Sl 113, 22).
É preciso temer diante do Deus de majestade e de glória, por não estarmos suficientemente preparados… O grande Apóstolo, embora não tivesse nada de que se repreender, contudo não se sentia isento de temor, não se julgando justo somente porque a consciência nada lhe censurava! (1Cor 4, 4). São João Crisóstomo chama a mesa eucarística de mesa terrível…
Sexta disposição: a confiança. — O temor, porém, não deve ser tal que sufoque a confiança; antes, esta deve vencer o temor. Quem vem a nós é um rei, mas um rei que respira suavidade e doçura (Mt 21, 5). É um Deus, mas um Deus feito cordeiro, cheio de bondade e mansidão… É um pai, um esposo, um amigo, um mediador, um redentor, um médico, um guia, um salvador… É o pai do filho pródigo, o bom pastor, o caridoso samaritano… Eis os títulos sob os quais Jesus Cristo se oferece a nós… «Põe toda a tua confiança no Senhor, e ele te alimentará» (Sl 54, 23). José, Susana, Daniel etc. confiam e são salvos; o leproso, o paralítico, o cego de nascença confiam e são curados. Temperemos o temor com a confiança, e a Eucaristia será a nossa salvação.
Sétima disposição: desejo ardente. — Zaqueu deseja ver Jesus Cristo e ouve Jesus dizer-lhe: «Vamos, Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo ficar em tua casa»; e depois, à porta da casa, diz ao entrar: «Hoje a salvação entrou nesta casa» (Lc 19, 5-9). E é o desejo de Zaqueu que obtém favores tão assinalados.
«Quem tem sede, clama o Salvador, venha a mim e beba» (Jo 7, 37). Esta sede de que fala Jesus Cristo não é outra coisa senão um desejo ardente de aproximar-se da santa mesa… E como não deve ser ardentíssimo em nós o desejo de receber Jesus, quando ele mesmo arde de desejo de vir a nós (Lc 22, 15). E não é ele, porventura, quem no Apocalipse nos diz: «Eis que estou à porta e bato: quem ouvir a minha voz e me abrir a porta, terá de mim em sua casa, onde cearei com ele e ele comigo»? (3, 20). «Ah! ouço a voz do meu amado, exclamava a Esposa dos Cânticos; ele vem a mim, dizendo: Levanta-te, apressa-te, vem, minha amada, minha pomba» (Ct 2, 8-10).
Esse ardente desejo tinha o Salmista quando exclamava: “Como a corça sedenta deseja a fonte, assim minha alma suspira por vós, ó Deus” — (Sl 41,1). “Como são amáveis os vossos tabernáculos, ó Deus das virtudes! Minha alma desfaleceu de desejos, ansiando pelos pavilhões do Senhor” (Sl 78,23),
Diz a Esposa dos Cânticos: “Procurei aquele que é o amor de minha alma; procurei-o e não o encontrei. Ah! levantar-me-ei, percorrerei a cidade, procurarei pelas praças, pelas encruzilhadas e pelas vielas aquele por quem minha alma suspira” (Ct 3,2). E, não conseguindo realizar seus desígnios, volta-se para todas as criaturas e lhes diz: “Vistes aquele por quem minha alma suspira?” (Ib. 3). “Dizei-lhe que desfaleço de amor por ele; e que, mesmo dormindo, meu coração pensa nele” (Ib. 2,5; 5,2). Eis um modelo de desejos piedosos e ardentes.
Antes do nascimento de Jesus Cristo, o universo mantinha os olhos voltados para ele; os povos esperam-no durante quatro mil anos, os profetas o prenunciam, os patriarcas o desejam, todos os justos o invocam insistentemente a Deus; todos o saúdam de longe, alegram-se e se confortam na esperança de sua vinda. “Ele será o esperado pelas nações”, diz o Gênesis (Gn 49,10). “Virá o desejado das nações”, anuncia Ageu (Ag 2,3). “Derramai, ó céus, o vosso orvalho; desça das nuvens o justo”, roga Isaías; “abra-se a terra e dê-nos o Salvador. E quando, ó Senhor, abrireis os céus e descereis?” (Is 45,8; 44,1). Jesus diz que Abraão desejou ver o dia do Messias; viu-o em espírito e exultou de alegria (Jo 8,56). Nossos pais, diz São Paulo, de longe contemplavam e saudavam as promessas (Hb 11,13).
Todos esses justos da antiga lei nos oferecem modelos de ardentes desejos, que devemos imitar tanto mais diligentemente quanto somos mais afortunados que eles, pois possuímos na Eucaristia aquele que eles desejavam com tanto ímpeto do coração… Nosso desejo deve ser como o do filho pródigo, longe de sua terra e de seu pai… Qual é o enfermo que não deseja curar-se e não invoca o médico? Ora, quem é mais enfermo do que nós? E o homem sadio não deseja acaso o alimento? … Pois bem, Deus sacia aqueles que têm fome dele, diz a Santíssima Virgem (Lc 1,55). Quanto mais alguém deseja Jesus Cristo, tanto mais cresce o seu desejo: neste sentido, ele nos diz: “Quem me come terá ainda fome; e quem bebe de mim terá ainda sede” (Eclo 24,29); mas, enquanto sempre se deseja, sempre também os desejos são satisfeitos; saciados, ainda temos fome, e desejando somos saciados. Desejo de ser satisfeito e satisfação dos desejos: que felicidade não é esta! É uma amostra da felicidade celeste. Ah! os desejos do mundo e de suas loucuras nada têm que ver com os desejos da santa comunhão! …
Esse desejo da Eucaristia traz consigo todas as demais disposições; pois, se desejo sincera e eficazmente um fim, por isso mesmo estou determinado a tomar todos os caminhos que a ele me conduzem. Se, portanto, desejo verdadeiramente a santa comunhão, somente esse desejo faz com que eu nada negligencie para me preparar… Devemos ir ao encontro de Jesus Cristo e clamar: “Hosana nas alturas! Bendito aquele que vem em nome do Senhor!” (Jo 12,13); e então veremos Jesus Cristo entrar em nós triunfante… “Eis que já vem o Esposo; saí ao seu encontro” (Mt 25,6). “Ah! Senhor!”, devemos dizer com Santo Agostinho, “quem me concederá que venhais ao meu coração para dele tomar posse, para preencher todo o seu vazio, para nele reinar sozinho e nele habitar comigo até o fim dos séculos, para ocupardes o lugar de todas as coisas, para formardes nele as minhas mais castas delícias, para derramardes nele mil consolações interiores, para me saciardes, embriagardes e tirardes de minha mente toda agitação, inquietação e vã alegria, para me fazerdes esquecer todos os homens e o universo inteiro, e abandonar-me totalmente em vós, para gozar de vossa presença, de vossas conversas e das doçuras que tendes preparadas para aqueles que vos desejam! Vinde, ó Senhor, não demoreis; todos os bens virão a mim convosco. Desprezos, ultrajes, perseguições, aflições, despojamentos, calúnias, tudo, tudo considerarei como um nada, desde o momento em que vos tiver comigo, para adoçar-me toda amargura. As grandezas, as honras, as distinções, as riquezas e as maiores prosperidades já não me atrairão; antes, tê-las-ei por fumaça, desde que me houverdes dado a saborear as vossas doçuras” (Soliloq,). Tais são os desejos que devem conduzir-nos à sagrada mesa… “É preciso”, diz São Bernardo, “que o ardor de um santo desejo preceda o recebimento de nosso Deus (61)”.
Devemos ainda desejar, ao comungar, reparar todos os sacrilégios que se cometem. Levando ao banquete eucarístico um desejo ardente, este nos servirá de auxílio e meio para acender em nós um grande amor por Jesus Cristo; amor que é a mais importante e perfeita de todas as disposições para quem deseja comungar proveitosamente.
Oitava disposição: um amor ardente por Jesus Cristo. — Na Eucaristia, Jesus Cristo nos dá prova de uma ternura imensa, de um amor infinito… Essa bondade bem mereceria ser retribuída com um amor infinito; mas, como o homem, por si só, não é capaz disso, façamos ao menos tudo o que pudermos. Amemos o Salvador por todas as criaturas; desejemos que todas sejam empregadas e consagradas ao seu serviço… Onde está o nosso amor? Onde estão os arroubos do nosso coração? Ah! por que não tenho eu os corações de todos os homens? Por que não há em mim tantos milhões de corações quantas são as gotas de água no oceano? Eu gostaria de depô-los todos para sempre junto do altar, diante da divina Eucaristia! Por que não tenho eu o poder de detê-los, prendê-los e acorrentá-los tão indissoluvelmente ao trono de Jesus, que jamais dele se afastem! Como pode ser que, tendo continuamente Jesus Cristo no meio de nós, não estejamos continuamente prostrados em espírito e de coração diante do Santíssimo Sacramento! Como pode ser que não nos voltemos cem vezes por dia para a igreja, lançando-lhe olhares, suspiros e gemidos de amor pelo celeste Esposo!
A divina Eucaristia é o sacramento do amor; somente o amor leva Jesus a dar-se a nós. Convém, portanto, retribuir-lhe amor com amor…; se ele se dá todo a nós, poderemos nós recusar-lhe alguma coisa? Ousaríamos comparecer diante dele, aproximar-nos dele, beijá-lo, abraçá-lo, recebê-lo e nutrir-nos dele sem amá-lo?
Quando a lua está a declinar, ou é nova, já não tem semelhança com o sol: este é esplêndido, claro, luminoso; a lua está quase toda escura, porque contempla o sol somente pela metade, e, quando já não o contempla de modo algum, desaparece e é para nós como se não existisse; mas, quando está cheia, quando se apresenta ao sol em toda a extensão de seu globo e reflete plenamente os seus raios, então se torna muito semelhante ao sol e difunde a sua luz durante a noite. Do mesmo modo, quando comungamos, toda a nossa alma deve voltar-se para o eterno sol de justiça, a fim de recolher todos os raios de amor e para que tudo em nós resplandeça de amor. De onde provém que este tenha maiores luzes e mais sabedoria, mostre virtudes mais sólidas e difunda uma luz mais pura de bom exemplo do que aquele outro? Do fato de que, quando aquele comunga, é todo de Deus, dá-lhe todo o seu coração, apega-se a ele e se aplica a amá-lo com toda a alma; enquanto este, ao comungar, não contempla a Deus senão pela metade, não lhe dá senão uma pequena parte de seus pensamentos e afetos, concedendo a outra à vaidade, à terra, às criaturas, ao mundo, às ninharias e às loucuras…
Bastava ver a arca para que Davi exultasse de alegria; João Batista, ainda encerrado no seio materno, sentiu a presença de Jesus Cristo concebido nas entranhas de Maria e estremeceu de alegria. Eram impressões vivas de um amor vivo que os arrebatava para fora de si mesmos; impressões que foram compartilhadas por todos os santos em todos os tempos. À vista da divina Eucaristia, sentiam-se arrebatados em êxtases de amor; e, imersos nas mais profundas e doces contemplações, dissolviam-se em lágrimas de amor. Muitas vezes nos queixamos de aridez e tibieza; amemos Jesus, e cessarão as nossas queixas. Uma alma tomada de amor pelo Esposo divino nunca sofre falta de sentimentos que a ocupem e a inebriem; aos pés do altar, não conhece tédio nem desgosto. Quanto mais fala ao Senhor, mais coisas encontra para dizer-lhe; quanto mais recebe o seu deleite, mais deseja recebê-lo, e as horas voam para ela como minutos… Todo o mal consiste, pois, nisto: em que não amamos…
Quando São Filipe Néri se viu receber o Viático, foi ouvido gritar em alta voz, entre soluços e lágrimas: “Eis o meu amor! Eis que vem a mim aquele que é a delícia da minha alma. Dai-me depressa o meu amor” (In Vita).
São Norberto, arcebispo de Magdeburgo, dizia que uma pessoa que raramente se aproxima da Eucaristia, por se sentir tíbia ou fria, se assemelha àquele que dissesse: “Não me aproximo do fogo porque estou com frio”; ou: “Não recorro ao médico porque estou enfermo” (In Vita).
O amor que Santa Teresa nutria pelo Santíssimo Sacramento está esculpido em suas Obras. Suas expressões são todas fogo quando se trata deste augusto mistério. Não há palavras que possam exprimir o fervor com que se aproximava da santa mesa e retratar o ímpeto com que derramava sua alma diante do divino Salvador. Nesses instantes, insistia com fervorosas orações junto ao Onipotente, para que, em nome de seu Filho, pusesse um dique à torrente de iniquidade que inundava a terra e preservasse o mundo das horríveis profanações com que os homens parecem insultar sua misericórdia.
Tão vigoroso era o amor de São Estanislau Kostka pela Eucaristia, que seu rosto se inflamava quando entrava na igreja. Muitas vezes foi visto em êxtase durante a missa e depois da comunhão. Nos dias em que recebia Jesus no sacramento, não sabia falar de outra coisa senão do excesso de amor que Jesus Cristo nos manifesta na Eucaristia; e os discursos que proferia nessas ocasiões eram tão ternos e comoventes, que os padres profundos no conhecimento dos caminhos espirituais não deixavam de ouvi-los (In Vita).
A devoção de Santa Ângela à Eucaristia era tão ardente, que passava horas inteiras de joelhos diante do tabernáculo no qual se conservava o Santíssimo Sacramento (In Vita).
Numa carta que São Eleázaro escrevia da Itália à sua esposa Delfina, lemos: “Vós desejais muitas vezes saber minhas notícias: ide frequentemente visitar Jesus no Santíssimo Sacramento; entrai em espírito em seu sagrado coração: sabeis que lá é minha morada habitual; portanto, podeis estar segura de encontrar-me ali a qualquer hora que desejardes” (In Vita).
Santa Catarina de Gênova, em seus arroubos amorosos para com a divina Eucaristia, convidava até mesmo as criaturas inanimadas a bendizer e louvar a Deus, que se havia dado a ela. “Como! exclamava, não sois porventura criaturas do meu Deus? Amai-o, pois, bendizei-o como melhor puderdes e souberdes. Ó amor, quem me impedirá de vos amar! Ó amor! Se os outros se prendem a vós com uma cadeia, eu me prenderei com dez! Que outra coisa posso desejar, ó meu Senhor, senão que meu coração arda e se consuma de amor por vós na terra? Nada mais quero senão a vós, e não terei paz nem repouso enquanto não estiver escondida e submersa em vosso divino coração pela santa comunhão. Ó, quão poucas são as pessoas nas quais Deus habita! Ó meu Deus, vós retendes em vós mesmo o vosso amor, porque os homens, mergulhados nas coisas terrenas, recusam-se a recebê-lo! Que dareis vós em troca, ó terra, a estes que engolis?”
“Ó meu Salvador, exclamava Santo Efrém, quero-vos como meu viático no longo e perigoso caminho da vida. Na fome espiritual que me devora, alimentar-me-ei de vós, divino Redentor dos homens! Então já não haverá fogo que ouse apegar-se a mim; o odor vivificante de vosso corpo e de vosso sangue expulsará e manterá longe de mim todo o mau cheiro” (Serm.).
São Francisco de Sales professava um amor especialíssimo pelo Sacramento do altar; este era sua vida, sua força, seu amor, seu tudo.
Nona disposição: é preciso viver de Jesus Cristo. — A última e mais perfeita das disposições e preparações para receber dignamente Jesus Cristo consiste em viver continuamente do próprio Jesus Cristo. “Quem come de mim viverá por mim” (Jo 6,58). É preciso que possamos dizer, a todo momento, com o grande Apóstolo: “Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1,21). Assim como o Pai que enviou Jesus Cristo tem a vida, e Jesus Cristo vive pelo Pai, assim também quem recebe Jesus Cristo por meio da comunhão deve viver de Jesus e para Jesus. Do mesmo modo que Jesus viveu submisso a Maria e a São José, assim também nós devemos viver sempre submissos a Deus, à sua lei, à sua palavra… Ouvi São Paulo: “Assim como recebestes o Senhor Jesus Cristo, vivei segundo ele, arraigados nele, edificados sobre ele e firmes na fé” (Cl 2,6-7). Jesus deve ser a porção de nossa herança, e nós devemos segui-lo até o Calvário…
“Quem quer receber a vida, mude de vida, prega Santo Agostinho; pois, se o pecador não mudar de vida, receberá a vida para sua condenação; e ela lhe será semente de corrupção, não de salvação; de morte, em vez de vida (62).”
Quem comunga pertence, naquele momento, a Jesus Cristo, está com Jesus Cristo e deve pertencer-lhe e estar com ele para sempre. “Quem está em Jesus Cristo, diz São Paulo, é uma nova criatura; o que nele havia de antigo desapareceu; tudo se renovou” (2Cor 5,17).
São Lucas nos atesta que os primeiros cristãos perseveravam tanto na doutrina dos apóstolos e na oração como também na comunhão (At 2, 4.2). Seja Deus a vossa casa, escreve o Venerável Beda, e sede vós a casa de Deus; permanecei em Deus, para que Deus permaneça em vós. Deus habita em vós para não vos deixar tropeçar e cair. Vós habitais em Deus para que não caiais, mas persevereis no bem (In. Collect.). Neste sentido, diz-se no Apocalipse que Jesus dará ao vencedor de comer da árvore da vida (Ap 2,7).
Cada um deve dizer, ao partir da sagrada mesa, com a Esposa dos Cânticos: “Encontrei o amor de minha alma; vou conservá-lo, para que jamais o perca” (Ct 3,4). O povo de Israel comeu o maná durante quarenta anos, até chegar à terra prometida (Ex 13,35). Do mesmo modo, a perseverança na comunhão nos concede a perseverança final. Elias, avisado pelo anjo de que ainda lhe restava percorrer um longo caminho, levantou-se, comeu e bebeu; e, assim restaurado, caminhou sem se cansar durante quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, o monte do Senhor (1Rs 19,7-8).
***
Para o agradecimento depois da comunhão, veja-se: AGRADECIMENTO.