A razão da existência divina repousa na própria imutabilidade de Deus. É impossível que Deus não tenha existido sempre: se não tivesse existido sempre, quem o teria tirado do nada? Certamente, é necessário um ser incriado e eterno; e eis-nos novamente diante de Deus. E Deus existirá sempre: ele é indestrutível por sua natureza; possui essencialmente e em sumo grau a vida em si mesmo: em suma, ele é a vida eterna. De modo algum pode ser atingido por ataque, alteração ou destruição. A eternidade é o próprio Deus.
Mas Deus deu a eternidade futura aos anjos e aos homens? Sim, tal é a vontade de Deus; ele o revelou; todas as nações o creram; este é um dogma de fé universal; o homem deseja a imortalidade, sente dela a necessidade… Deus fez os homens e os anjos à sua semelhança e imagem para a eternidade…
“Os réprobos irão, segundo a sentença de Jesus Cristo, para o fogo eterno; e os justos, para a vida eterna” (Mt 25, 46). “O homem, diz o Eclesiástico, irá para a casa de sua eternidade” (12, 5). “Quem dentre vós, pergunta Isaías, poderá habitar em meio às chamas eternas?” (33, 14.). E São Paulo nos assegura que os réprobos serão condenados a penas eternas (2Ts. 1, 9).
A eternidade dos castigos e das recompensas é um dogma de fé, do qual todos os séculos e todas as nações, até mesmo as pagãs, tiveram conhecimento. “Deus fez o homem imperecível” (Sb. 1, 23).
“Sua origem, diz Miqueias falando de Jesus Cristo, é desde o princípio, desde os dias da eternidade” (V, 2). Ele saiu da eternidade passada, que compreende a eternidade futura; porque em Deus, que é a eternidade, não há passado nem futuro; tudo está eternamente presente…
A eternidade é um princípio sem princípio, um começo sem começo e o princípio de todo princípio… Ó, como é longa, como é profunda, como é imensa, como é feliz ou infeliz esta eternidade, senhora de todos os séculos, interminável, sempre vivente! … Ó, quanto és longa, ó eternidade! … e, no entanto, ó, quão pouco os homens se ocupam de ti! …
Que é a eternidade? É um círculo que gira sobre si mesmo, cujo centro se chama sempre; a circunferência chama-se nenhuma parte, isto é, sem fim.
Que é a eternidade? É um globo perfeito que não tem princípio nem fim. Que é a eternidade? É uma roda que gira sempre sobre si mesma e que girará para sempre, sem jamais se desgastar nem mudar de lugar… Que é a eternidade? É um ano que nasce, o instante que morre, e isto para sempre… Que é a eternidade? Uma fonte cujas águas, à medida que correm, retornam à nascente, sem que se perca sequer uma gota; é uma fonte perene, de onde jorram sem interrupção águas de bênção ou de maldição… Que é a eternidade? É um labirinto com mil desvios e voltas, que faz caminhar continuamente quem nele entra, o faz rodear-se e o extravia… Que é a eternidade? Um abismo sem fundo, que se fecha quando alguém nele entra…
A eternidade é um princípio sem começo, sem meio e sem fim. É um princípio contínuo, interminável; princípio no qual os bem-aventurados contemplam incessantemente a felicidade e sempre abundam em novas alegrias, enquanto os réprobos morrem a cada instante e, depois de todas as agonias e de todas as mortes, recomeçam as agonias e as mortes. E como foi no princípio, assim é agora, e assim será por todos os séculos dos séculos. Enquanto Deus for Deus, os eleitos serão sumamente felizes, reinarão e triunfarão. Quanto tempo Deus durar, tanto tempo os condenados sofrerão em meio aos tormentos… «A verdadeira eternidade, diz Santo Anselmo, é uma vida interminável, que existe inteira em cada instante do tempo» (Menolog. c. XXIV).
A eternidade é uma duração sem começo, sem fim e sem movimento…
Vamos repetindo a nós mesmos aquela sentença do famoso pintor Zêuxis: «Eu pinto para a eternidade, vivo para a eternidade (1)». Trabalhemos na obra de uma vida santa para a eternidade… Lançamos aqui embaixo os dados da nossa eternidade, e cabe a nós lançá-los bem. Uma vez lançados, não se podem mais recolher… Creiamos…, estudemos…, trabalhemos…, vivamos para a eternidade… Conduzamo-nos de tal modo que tenhamos de viver eternamente…
Antes de cada ação, pensem e digam: Eu trabalho para a eternidade, vivo para a eternidade; portanto, trabalharei e viverei santamente, para traçar em minha alma e em meu exterior a imagem e a ideia da virtude, de modo que Deus, os anjos e os homens possam louvar minha conduta. Cada um de nós diga a si mesmo: está em meu arbítrio pintar, em cada um de meus pensamentos, palavras e ações, a rica e preciosa imagem da virtude ou os horríveis traços do vício; trabalharei pela virtude, para que minhas obras resplandeçam como estrelas, para minha glória e felicidade no céu, e não pelo vício, que a justiça divina condenará ao fogo eterno. Ah! Pintarei para a eternidade; trabalharei tão bem que possa alegrar-me, por toda a eternidade, com o meu trabalho; pensarei, falarei e agirei como gostaria de ter pensado, falado e agido na eternidade…
Quando a eternidade aparece, já não há tempo, diz o Apocalipse (10, 6)… «Vós dormis — exclama Santo Ambrósio — e, entretanto, o vosso tempo caminha» (Serm.). E para onde me conduz este tempo tão veloz? À eternidade… Ó eternidade! Como és grande, imensa, ditosa! E, contudo, ó quantos te esquecem!… Quão poucos sabem estimar-te em teu justo valor! Ninguém te penetra, poucos te ponderam!… Muito bem diz São Gregório: «Se somos ávidos de bens, procuremos aqueles que possuiremos sem fim; se temos medo dos males, temamos aqueles que os réprobos sofrerão eternamente (2)». Por isso conclui em outro lugar: «Embora nossas obras se realizem no tempo, devemos, contudo, pela intenção, olhar para a eternidade (3)».
São Boaventura nos ensina sete caminhos que conduzem à eternidade feliz. O primeiro é a intenção que olha diretamente para a eternidade: é preciso que se ocupe unicamente da eternidade, que não vise senão à eternidade, que não se dirija a outro lugar senão à eternidade; que habite somente na eternidade, por causa do Deus eterno, que é o único bem verdadeiro, o único necessário, e que, chegada a sua finalidade, todos os seus desejos se realizem naquele que jamais lhe será tirado. É este o bem que Jesus Cristo destinou a Madalena (Lc 10, 42). O segundo caminho para a eternidade é a meditação atenta das coisas eternas… O terceiro é a clara contemplação das mesmas… O quarto é o amor daquilo que pertence à eternidade. Quando as pessoas piedosas, diz São Gregório, ardem do desejo da eternidade, elevam-se a tal altura de vida que até o simples falar de coisas mundanas lhes é pesado e as deixa constrangidas; pois para elas é intolerável tudo o que é estranho àquilo que amam. O quinto caminho é a revelação secreta das coisas eternas; a meditação assídua das revelações espirituais produz um contínuo crescimento da visão e dos conhecimentos da alma; por esse meio ela avalia justamente os bens futuros e penetra o segredo das verdades eternas. Com efeito, aqueles que amam com ardor descobrem melhor, distinguem mais claramente e conhecem mais profundamente. Por isso, quanto mais se amam as coisas eternas, mais profundamente se penetra nelas. Foi o que levou São Gregório a dizer: «A eternidade se realiza nos santos pela consideração da eternidade de Deus» (Moral.). O sexto caminho para a eternidade é certa experiência que se teve das doçuras eternas. Era isto que saboreava o real profeta quando dizia: «Provai e vede como o Senhor é doce» (Sl 33, 8); isto celebrava a Esposa dos Cânticos com aquelas palavras: «Doce é ao meu paladar o fruto de meu Esposo celeste» (Ct 2, 3). O sétimo caminho para a eternidade são as boas obras, conformes aos impulsos de Deus; os costumes puros e uma vida santa, pois, diz a Escritura, «as suas obras os acompanharão» (Ap 14, 13 — In Speculo).
Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida, guia-nos por suas estradas; ele se empenha para que nossa conversação esteja nos céus; ele nos abriu a porta da eternidade com sua vitória sobre a morte.
Feliz aquele que vai à eternidade por esses caminhos! Feliz aquele que, elevando-se acima da brevidade do tempo e da volubilidade dos séculos, fixa sua mente na eternidade firme e imóvel! Bem-aventurado aquele que considera vis os bens vãos e transitórios da terra e se alimenta dos bens sólidos e eternos!
Santo Agostinho designa os quatro degraus da escada que se apoia na eternidade bem-aventurada: a leitura, a meditação, a oração e a contemplação. Depois conclui: «Une o teu coração à eternidade de Deus, e serás eterno com ele (4)».
Suponhamos que Deus dissesse a Judas, ou a qualquer outro réprobo: A cada mil anos derramarás uma lágrima por teus pecados, e, quando assim tiveres derramado tantas lágrimas que formem um dilúvio suficiente para inundar a terra, terei piedade de ti e te tirarei das penas e do fogo do inferno; grande seria o júbilo, inefável a alegria que sentiria aquele condenado, porque finalmente teria uma esperança de salvação. Mas, ai de mim! Já não há lágrimas de arrependimento para os condenados e, portanto, nunca mais haverá perdão. Derramemos aqui embaixo lágrimas amargas sobre nossas culpas; elas nos fecharão a infeliz eternidade… A eternidade é um abismo; digamo-lo cem vezes, digamo-lo mil vezes, digamo-lo sem fim… Ó eternidade! Eternidade!… Meditemos sobre a eternidade…