É preciso converter-se prontamente…; ou, como se exprime o Crisóstomo, “é necessário que corramos e com vigor (1)”. Devemos apressar-nos, porque o caminho é longo e a vida é breve; o chamado de Deus nos urge, e na demora corre-se perigo. Não ouvis como ele vos clama pela boca do Eclesiástico: “Não tardeis em converter-vos ao Senhor, não adieis de dia para dia”? (Eclo 5,8). Quem, percebendo que tocou numa víbora, não retiraria imediatamente a mão? Quem deixaria voluntariamente veneno em suas entranhas? Quem acolheria em sua casa um assassino? Quem fecharia na mão carvões ardentes? Ora, o pecado mortal é uma víbora, um veneno, um inimigo, um assassino, um fogo devorador; assim que sentirdes que o tendes no coração, deveis expulsá-lo imediatamente… Santo Agostinho chora com lágrimas ardentes o atraso que impôs à sua conversão: “Ó, quanto tarde te amei”, exclama ele em suas Confissões, “ó Beleza sempre antiga e sempre nova!”
“Por que tardais em vos converter? diz-nos Deus no Eclesiástico: não percebeis que vossas almas morrem de desejo?” (51, 32). “Eis, diz Santo Agostinho, aquele que tem em suas mãos o perdão; ele vos abre a porta: por que tardar? Deveríeis alegrar-vos se ele vos abrisse depois de vos ter feito bater; em vez disso, ele vos abre sem que tenhais batido; e vós permaneceis do lado de fora? Não tardeis, pois; tende piedade de vossa alma e procurai agradar a Deus. Dai esmola à vossa alma. Não vos digo que deis algo a ele, mas não rejeiteis a mão daquele que vos dá (2)”.
V. no artigo: CONVERSÃO, n. 7: Não se deve procrastinar a conversão.
Quem tarda em se converter conta com o tempo que lhe resta de vida; espera ter ocasião de fazer penitência: duas coisas incertíssimas e, entretanto, absolutamente necessárias. “Quem promete o perdão ao penitente, adverte-nos São Gregório, não promete o amanhã ao pecador (3)”. E Santo Agostinho diz: “Deus vos dá a palavra de que, no dia em que vos converterdes, esquecerá vossas culpas passadas, mas não vos assegurou a vida para o dia de amanhã (4); justamente por isso nos é ocultado o nosso último dia, para que todos os nossos dias sejam santamente empregados” (Serm. XXXIX).
Por isso, os Provérbios nos advertem “a não nos vangloriarmos do dia de amanhã, quando não sabemos o que acontecerá no dia seguinte” (27,1). Sêneca exortava a “ordenar cada dia como se ele devesse ser o último (5)”.
São João Crisóstomo, comentando as palavras do Eclesiástico: “Não tardes em voltar para Deus e não o adies de dia em dia” (5, 8), diz: “Ninguém sabe o que lhe trará o dia vindouro; perigo e temor se encontram na procrastinação, ao passo que salvação certa e segura se obtém onde não se interpõe demora (6)”.
O pecador diz: Amanhã me converterei; e muitos, observa Santo Agostinho, mata este adiamento. “Eles clamam: Amanhã, amanhã; e, num abrir e fechar de olhos, a porta é fechada. Ficam do lado de fora, grasnando como corvos, aqueles que não quiseram gemer como pombas (7)”. Não interponhamos, pois, demora, conclui o citado Padre, mas “apressemo-nos a utilizar os remédios que Deus nos oferece para a nossa conversão, por temor de que depois venha a faltar-nos o tempo (8)”.
Atentai, diz o mesmo Padre, e persuadi-vos de que não se deve tardar em ir trabalhar na vinha do Senhor, nem se deve embalar na esperança de receber a recompensa, começando apenas no meio ou no fim do dia. O dinheiro é, na verdade, prometido a todos, mas a todos também é proibido demorar-se depois do chamado. O que se deverá fazer e dar, o verá o dono da vinha; quanto a vós, quando fordes chamados, ide. Por que recusardes ir àquele que vos convida? Estais certos da recompensa, concordo, mas estais também certos quanto ao dia? Cuidai para que depois, por causa da vossa demora, não fiqueis privados daquilo que vos está prometido, se vos apressardes (LXXXVII de Verb. Evang.).
O pecador que adia sua conversão, confiando no tempo, imita a temeridade de Pedro que, tendo ouvido Jesus dizer-lhe: Pedro, tu me negarás, respondeu audaciosamente: Nunca, Senhor, eu vos renegarei. Jesus diz claramente a cada um: Se não vigiardes continuamente, eu vos surpreenderei; e nós ousamos responder-lhe: Ora essa, Senhor; dormiremos muito à vontade, e vós não nos surpreendereis, porque nos anteciparemos a vós e, quando nos aprouver voltar para vós, uma confissão feita às pressas, no tempo da doença, no momento da morte, nos livrará da vossa cólera. Ó céu! O Filho de Deus declarou que o conhecimento do tempo e dos instantes concedidos ao homem é um dos segredos reservados ao Pai (At 1, 7); e nós pretendemos descobrir esse arcano impenetrável! E temos a coragem de fundar nossas esperanças sobre um ponto oculto e por nós absolutamente ignorado! Ah, nós nos enganamos e nos iludimos grosseiramente.
Não confieis no tempo que vos engana: ele é um ladrão perigoso que vos rouba com tanta habilidade que nem sequer percebeis o seu furto. Por isso, contai não os dias que Deus pode dar-vos, mas aqueles que pode tirar-vos; não considereis somente que ele pode perdoar-vos, mas também que pode punir-vos. Não apoieis a vossa esperança, não fundeis o vosso futuro sobre uma coisa que vos está oculta…
O pecador que tarda em se converter, esperando no tempo, procura enganar-se, e o tempo concorre com ele para enganá-lo. Ele não percebe que o tempo corre veloz, porque, embora varie eternamente, mostra, contudo, quase sempre o mesmo aspecto. Uma longa sucessão de anos revela o engano, pois a fraqueza, a calvície ou a brancura dos cabelos, a alteração visível do temperamento nos obrigam a notar quanto do nosso ser já desapareceu e foi aniquilado; mas o tempo, para nos enganar, despoja-nos pouco a pouco; com fio tão tênue nos conduz ao extremo da vida, que chegamos a ele sem sequer perceber. Com esse procedimento, a malignidade do tempo faz a vida passar insensivelmente, e não se pensa na conversão. Caímos de repente e sem pensar entre as garras da morte; não percebemos o nosso fim senão quando chegamos a ele (BOSSUET, Sur la necessité de travailler à son salut).
E até quando deixareis, ó filhos dos homens, que durmam os vossos corações! exclama o citado Bispo de Meaux; até quando sereis ludíbrio das fantasmagorias do tempo que vos engana? Quando reconhecereis enfim que breve é a vida? Quereis esperar o último suspiro? Mas, qualquer que seja a vossa idade, quer esteja apenas começando agora, quer alcance o meio-dia, quer se encaminhe para o ocaso, o Apóstolo nos adverte de que o tempo urge e de que o fim está próximo. Os dias empurram-se uns aos outros; de um dia para o outro adia-se a hora da conversão e, finalmente, ela já não é encontrada. Pecamos ainda, porque temos tempo: eis o escolho em que se perdem os temerários. E, contudo, o último dia nos está oculto (Ib.).
Não há coisa que escape mais ao poder do homem do que o tempo futuro; terrível cegueira é, pois, adiar a própria conversão contando com o tempo. Confiar naquilo que de modo algum depende de nós é grande insensatez, que traz consigo as consequências mais espantosas e irreparáveis… O tempo compõe-se do presente, do passado e do futuro: o presente voa e desaparece no próprio instante em que dele se fala, o passado já não existe, o futuro incerto ainda não existe; pode ser que não venha para nós; mas, ainda que venha, logo que chega já não existe. “Se, pois, hoje ouvirdes a voz do Senhor que vos chama, não endureçais os vossos corações”, diz o Salmista (94, 8).
Que faz o pecador que tarda em converter-se? Dá a Deus o futuro, um tempo que o pecador não tem à sua disposição, porque não lhe pertence; um tempo que talvez jamais terá, um tempo em que não poderá converter-se: porque, diz Bourdaloue, nós só nos convertemos no presente, e o pecador usa para si o tempo presente, jamais o dá a Deus. Ele nunca quer converter-se quando pode, isto é, na hora presente; quer sempre fazê-lo no tempo em que já não poderá, que é o amanhã… Se alguém vos devesse uma quantia e, quando lhe pedísseis o que vos pertence, vos respondesse: “Pagar-vos-ei amanhã”, e assim repetisse todos os dias, seríeis pagos? Concordaríeis em esperar esse amanhã? De modo algum; compreenderíeis logo que o devedor quer zombar de vós. Eis precisamente a conduta daqueles pecadores que adiam dia após dia a própria conversão.
“Amanhã, os negócios!”, dizia um rei cegado pelas paixões e enganado pelos cortesãos; e o miserável foi morto naquela mesma noite. Pecador! Também tu repetes: “Amanhã, a minha conversão!”; entretanto, nesta noite, numa hora, num instante, Deus te pedirá a tua alma; adias, portanto, para amanhã a salvação? … No tempo futuro, tudo é incerto; sua existência, sua duração, seu fim, tudo é incerteza e obscuridade; não obstante, para amanhã o importante negócio da minha salvação! É certo que sou pecador, é certo que preciso fazer penitência; ora, tomo o futuro, que é incertíssimo, para assegurar-me de uma penitência sem a qual não posso passar: belo conselho! … Se hoje vossa casa se incendiasse, esperaríeis até amanhã para pedir ajuda e apagar o fogo? Se hoje caísseis na água, esperaríeis talvez até amanhã para sair dela?
Senhor, parece dizer o pecador ao retardar a conversão, vós sois o meu Deus, o meu senhor, quereis que eu volte para vós hoje; mas, Senhor, tende paciência; quero dar ao mundo, aos prazeres, ao demônio o meu corpo, o meu coração, a minha alma, a minha saúde, a minha eternidade por mais algum tempo; quero dar-lhes a minha juventude, a idade viril; a vós reservo e darei a velhice, os cabelos brancos, os restos amarrotados da minha vida. Sois tão bom, ó Senhor, que vos dareis por contente com isso! — Que insulto! Não é isto imitar os algozes de Jesus Cristo? Não é cuspir-lhe no rosto, esbofeteá-lo, flagelá-lo? … E vós desejaríeis, pecadores insolentes e insensatos, que Deus tolerasse semelhantes ultrajes e que, depois de uma vida tão perversa, vos adornasse com a coroa da bem-aventurança prometida somente àqueles que tiverem combatido legitimamente!
Quantas almas o amanhã perdeu! Supondo que tivésseis esse amanhã, dele vos aproveitaríeis para vos converter? Não. Por que não começar hoje? Temeis talvez que seja longa demais a vossa penitência de um dia? Sois um malvado e quereis continuar a sê-lo! Sempre quereis tempo e sempre o desperdiçais! Contais com o tempo para vos converter. Ah, temerário! Tereis tempo? … Tereis tempo suficiente? Tê-lo-eis favorável? Restar-vos-á tempo para finalmente abrir os olhos, fazer uma boa confissão e arrepender-vos? … Tereis à vossa disposição todos os meios necessários à vossa conversão? … Quem pode dizer quão grave e perigoso erro é contar com o tempo, que é tão incerto, e, apoiando-vos nisso, retardar a própria conversão? …
O tempo, ainda que se suponha que não falte, não basta para realizar uma conversão. Quem peca mortalmente mata-se para a eternidade. Ora, um morto não pode restituir a si mesmo a vida. A morte que o pecado dá é eterna por sua natureza, e o pecador não pode, por si mesmo, voltar à vida. Para operar este prodígio, é necessariamente necessária a mão do Onipotente, a graça eficaz… Deus é a bondade por essência, e a nossa confiança nele deve ser grande e inabalável; mas disso de modo algum se segue, diz Bourdalone (Sur le délai de la Corversion), que tenhamos o direito de confiar nele em prejuízo dele mesmo, nem que a sua bondade possa jamais servir de fundamento à nossa temeridade. “E, contudo, este é precisamente o falso princípio segundo o qual age um pecador quando adia a sua conversão, iludindo-se com a esperança de um dia receber a graça da penitência. Com efeito, prometer a si mesmo esta graça para continuar no hábito do pecado é querer:
1° Que Deus seja fiel àquele que o despreza. Ora, é ameaça de Deus que aquele que o despreza será, por sua vez, desprezado por ele (Is 33,1). Vós desprezais a Deus, ó pecadores, quando, endurecidos diante de suas inspirações, continuais a cadeia dos vossos pecados; quando, enquanto ele bate à porta do vosso coração, a mantendes continuamente fechada… Deus vos abandonará a vós mesmos…
2° Adiar a própria conversão, apoiando-se na graça, é pretender que Deus seja fiel em detrimento de sua glória, de seu serviço e de seus interesses. Com efeito, queremos converter-nos quando formos a escória do século, etc…. E é assim que se trata a Deus? É este o meio de atrair e merecer a sua graça?
3° Demorar a conversão, esperando na graça, é assaltar e combater a Deus no mais amável de seus atributos: a misericórdia. E, de fato, pecar contra Deus porque ele é bom; não cessar de ofendê-lo, procrastinar e dizer: “Ainda não quero mudar de vida porque Deus é misericordioso, dá-me tempo…”; não é zombar dele?… Se Deus fosse inflexível, nós nos apressaríamos a sair do pecado e a voltar para ele; mas, porque é bom, é preciso tardar! Não é inteiramente justo e natural que um coração que tão indignamente zomba da graça faça secar as suas fontes, para abrir para si as da vingança?
Deus deseja reinar sobre nós, porque a ele pertence o reino, e é próprio de sua soberana grandeza estabelecê-lo prontamente. Ora, ele só pode reinar de dois modos: ou por sua misericórdia ou por sua justiça; reina com a misericórdia sobre os pecadores convertidos, reina com sua justiça e vingança sobre os pecadores endurecidos e impenitentes.
4° Retardar a própria conversão, contando com a graça de Deus, é querer torná-lo fautor e cúmplice de nossas desordens. Com efeito, desejaríamos um Deus cego, insensível, fraco, que deixasse o pecado impune, que nos permitisse a volúpia, a ira, a glutonaria, o esquecimento e a negligência de suas leis.
Quem não se serve da graça quando ela lhe é oferecida por Deus corre o risco de depois não ter senão a sua justiça… São Efrém diz: Nenhum mascate vende mais suas mercadorias depois de encerrada a feira; nem coroa nem louvores, mas desprezo e condenação recebe aquele soldado que se apresenta no campo quando a batalha terminou. Quem adia a sua conversão até a morte é um soldado covarde, que nada merece senão o desprezo de Deus e a sua condenação (Tract., de Morte). Contais com a graça, mas quanto mais tardais em converter-vos, mais a impedis, multiplicando os pecados e aumentando o endurecimento; ora, não é claro que, quanto mais obstáculos opuserdes à graça, tanto menos razão vos resta para esperá-la?
O pecador que tarda em converter-se não pode apoiar-se nem no tempo nem na graça; em que, então, se fundamentará? Talvez na sua vontade? Mas vã e falaz é esta esperança, não menos que as duas outras.
É efeito do pecado, diz Bourdaloue (Sobre o adiamento da conversão), fazer com que o homem não possa estar seguro nem sequer da própria vontade. De todas as coisas do mundo, esta deveria ser a mais dependente dele; e, no entanto, se há alguma que mais se revolte contra ele, é justamente esta. Pode-se esperar com mais razão na graça, que ele não pode propriamente querer, pois os auxílios de Deus procedem de um princípio imutável, ao passo que a nossa vontade está à mercê de contínuas mudanças. Deus quer com vontade clara, firme e eficaz; e nós, muitas vezes, mal sabemos o que queremos.
Se alguém vos dissesse: Quereis converter-vos algum dia, ou morrer na impenitência? vós, certamente aborrecendo esta segunda alternativa, responderíeis que quereis converter-vos. Mas converter-se quer dizer arrepender-se e mudar de vida. Se decidis converter-vos alguma vez, por que não hoje? Sim, eu bem gostaria de fazê-lo ainda hoje, replicais, mas não posso; tenho tal empreendimento em andamento, tal negócio começado, aquele assunto que me rouba o tempo e a vontade, etc. É, pois, vossa intenção adiar e alimentar esta paixão, esperando que tereis a bondade de vos apegar a ela? Quem jamais ouviu semelhante prodígio?
Mas não sou eu senhor de dispor da minha vontade? Sim, certamente; e é justamente porque ela depende de vós que deveis temer ainda mais… Com efeito, se hoje, quando sois menos maus, menos escravos, menos acorrentados, a vossa vontade já é tão leviana, tão irresoluta, tão caprichosa que não podeis dobrá-la a obedecer-vos e não quereis converter-vos, podereis fazê-lo e querê-lo mais tarde, quando mil novos obstáculos a impedirem? Que absurdo! Que contradição! Quem vos diz que sereis mais fortes, mais determinados, mais prontos a querer, quando as paixões tiverem sobre vós absoluto domínio, e uma cadeia de iniquidade mais longa, mais forte e mais pesada vos prender de mãos e pés? Se, depois de poucas quedas, já vacilais, que será quando o hábito se tiver apoderado de vós? … Que loucura deixar que se fortaleça um inimigo que se pode facilmente vencer no princípio e que talvez seja invencível no fim?
Dois obstáculos quase invencíveis nos impedem de sermos senhores da nossa vontade: a inclinação e o hábito; aquela torna o vício amável, este o faz necessário. Não depende de nós o princípio da inclinação nem o fim do hábito. A inclinação nos prende e nos lança na prisão; o hábito nos precipita ainda mais nela, fecha-lhe e mura-lhe a porta, para que não nos reste sequer uma fresta de saída.
Há quem se vanglorie de poder vencer esse hábito e sair a seu bel-prazer do miserável estado do pecado; é uma ilusão, um erro fatal. Quando o vício, pela força do hábito, se arraigou no coração, a alma já não tenta senão esforços débeis e vãos para se levantar e, recaindo sobre as próprias chagas, sente-se afinal tão exausta e prostrada que mudar de costumes e retornar ao reto caminho, que lhe parecia a coisa mais fácil do mundo, se lhe apresenta como uma tarefa impossível, insuportável.
Por isso, aquela conversão que não quereis no presente, mas que julgais querer mais tarde, haveis de querê-la ainda menos então do que agora.
Se vos custa desprender-vos de um fio frágil agora que tendes vigor e mil meios, como podereis depois romper cordas e cadeias, quando estiverdes exaustos de forças e impedidos por mil obstáculos? Além disso, jamais podereis ter a vontade de vos converter, se Deus não vos ajudar a voltar para a vossa salvação a vontade depravada e endurecida. Deus vos deve esse auxílio? … Ele vo-lo dará? Vós o merecereis, depois de o terdes crucificado todos os dias? … E, se Deus se retirar, tudo estará perdido para vós; se Deus se retirar, jamais encontrareis de novo a vossa pretensa vontade, aquela que hoje se mostra recalcitrante. Então, desprovidos de tempo, de graça e de vontade, tendo vivido sem Deus, morrereis sem Deus na impenitência final, e o inferno será o preço espantoso, mas bem merecido, da funesta demora que interpusestes à conversão…
Ó pecadores que tardais em vos converter, não escapareis aos tremendos, mas justos castigos do céu… “Não imagineis Deus tão misericordioso, diz Santo Agostinho, a ponto de já não ver nele a sua justiça. Pensai que, quando tiverdes acumulado tesouros de ira para o dia da vingança, encontrareis a justiça daquele cuja bondade pusestes em escárnio (9)”.
Deus é paciente, porque é eterno; mas, como observa São Jerônimo, “quanto mais esticada está a corda, tanto mais impetuosamente dispara a flecha; assim acontece com o dia do juízo extremo: quanto mais tarda a chegar, tanto mais formidável será a sentença (10)”.
“A cólera divina, escreve São Lourenço Justiniani, caminha a passos lentos para se vingar de ti, mas compensa a demora do castigo com a gravidade do suplício. O Altíssimo é um pagador paciente e lento em punir; tolera longamente para que se convertam, mas depois condena mais duramente se não se convertem; quanto mais os espera para a conversão, tanto mais severamente os julgará, porque não quiseram mudar de vida (11)”.
“Não vos enganeis, dizia São Paulo aos Gálatas; Deus não se deixa escarnecer” (Gl 6, 7). “E não digais, diz o Eclesiástico: Grande é a misericórdia do Senhor; sejam embora muitíssimos os meus pecados, ele me perdoará de todos. Pois a misericórdia e a ira dele avançam juntas, e a sua ira mantém os olhos fixos sobre o pecador” (Eclo 5, 6,7). “Porque és forte, não sigas os maus desejos do teu coração; e não digas: O meu poder é grande! ou: Quem me pedirá contas das minhas obras? Porque Deus exercerá uma vingança atroz. Não digas: Pequei, e que mal me aconteceu? Porque o Altíssimo é um pagador, embora paciente” (Eclo 2-4). “Não tardes em converter-te ao Senhor, nem adies de um dia para o outro; porque repentinamente irrompe a sua ira, e ele, no tempo da vingança, te dispersará” (Eclo 8-9).
Não confieis nas vossas riquezas para viverdes sem Deus; não digais: Tenho tudo quanto é necessário para a vida, porque isso será motivo para vos condenar no dia da vingança. Tendes meios para viver, mas tereis meios para morrer? “De que aproveita ao homem, diz Jesus Cristo, ganhar o mundo inteiro, se perde a alma?” (Mt 16, 26). De que serviram ao ímpio Baltazar os tesouros e as grandezas, na noite em que foi pesado e achado leve demais diante do céu? (Dn 5, 27).
Ouvi, ó pecadores que abusais da bondade de Deus para prolongar a vossa conversão, ouvi o que vos diz o Apóstolo das gentes: “Desprezais, porventura, as riquezas da sua bondade, paciência e longanimidade? Não sabeis que a bondade de Deus vos chama à penitência? Mas vós, com a dureza e o coração impenitente, acumulais para vós um tesouro de ira para o dia da ira e da manifestação do justo juízo de Deus, o qual retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Rm 2, 4-5-6).
Pecadores, não vos alegreis, portanto, da impunidade de que pareceis gozar; sob um Deus justo, nada fica sem recompensa ou castigo. Além disso, a presente impunidade de que vos vangloriais é o mais terrível castigo que Deus vos pode infligir; porque essa aparente impunidade é a cegueira espiritual, é o endurecimento do coração; punições tão espantosas e terríveis quanto o próprio fogo do inferno… “Enquanto a alma do malfeitor não percebe que está sofrendo alguma pena, diz Santo Agostinho, ela crê que Deus não a julga; quando, pelo contrário, abusar da paciência de Deus e não querer compreender a bondade daquele que por um tempo poupa, já é uma tremenda condenação (12).” E sabeis por que, diz Boécio, Deus é tão pacientíssimo que parece não dar atenção sequer às mais atrozes ofensas e às mais horrendas blasfêmias dos pecadores? Porque é potentíssimo em si mesmo e acima de todas as coisas, sendo a paciência a potência em ato, enquanto a impaciência é o sinal da impotência (De Consol. lib. III).
De dois modos somente Deus reina sobre os homens: reina sobre os pecadores convertidos, porque estes se submetem voluntariamente a ele; reina sobre os pecadores condenados, porque os sujeita contra a vontade deles. Aquele é um reino de paz e de graça; este, de rigor e de justiça; mas ambos são reinos soberanos de Deus, porque no primeiro se pratica aquilo que Deus ordena, e no segundo se sofre o suplício que Deus impõe; Deus recebe as homenagens de uns e faz justiça aos outros. Pecadores que Deus chama à penitência e que não dais ouvidos à sua voz, estais entre os dois, porque nem fazeis nem sofreis aquilo que Deus quer; desprezais a lei e não tendes o castigo dela; sois insensíveis aos chamados de Deus e não sois fulminados pela sua cólera. Desafiais a bondade que vos chama e a paciência que vos espera; viveis como senhores absolutos de vossas vontades, independentes de Deus, sem sofrerdes nada da parte dele; ele não reina sobre vós nem pela vossa obediência voluntária, nem pela vossa sujeição forçada. Ora, este é um estado violento que não pode durar. Deus quer reinar sobre vós; vede, com efeito, como vos impele a isso. Quantos doces convites! quantas terríveis ameaças! quantas secretas advertências! quantos estrondos e nuvens ao longe, quantos trovões e tempestades de perto! Observai como ele rejeita todas as vossas desculpas; não permite a um que ponha em ordem os seus negócios, nem a outro que dê sepultura ao pai (Lc 9, 59-60). Àquele que lhe diz: Eu vos seguirei, Senhor, mas permiti que eu vá saudar os meus de casa, Jesus responde: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus” (Lc 9, 61-62). Tão grande é o seu desejo de reinar sobre nós, que todo atraso lhe desagrada. Se não reina com a sua bondade, muito em breve, e mais cedo do que pensais, quererá reinar com a sua justiça, porque a ele pertence o império, e ele deve a si mesmo e à sua grandeza estabelecê-lo o quanto antes (BOSSUET).
Três tipos de homens tardam em converter-se: uns nunca pensam nisso; outros estão sempre esperando; os últimos aplicam-se a isso com demasiada fraqueza; e eis aí três grandes obstáculos à sua conversão… Esses três tipos de pessoas desprezam a própria conversão. Os primeiros, endurecidos em seus pecados, consideram a sua conversão como coisa impossível e não se empenham nela. Os segundos imaginam-na fácil demais e a adiam de um dia para o outro, como coisa que está em suas mãos e que farão a seu bel-prazer e com toda a comodidade. Os terceiros, convencidos do risco que se corre ao protelar, começam-na, mas negligentemente, e deixam-na sempre imperfeita. São esses três terríveis defeitos que se devem evitar…
Ouvi o que escreve Santo Agostinho acerca dos obstáculos que o impediam de converter-se: “Eu era retido por ninharias sem valor algum e por vaidades. Minhas antigas companheiras puxavam-me pela veste de carne, sussurrando: Queres, então, abandonar-nos? Será verdade que queres ficar sem nós para sempre? Pensa que, se isso acontecesse, já não te seria permitido nem isto nem aquilo. E oh! como me soavam cruéis aquelas palavras: isto e aquilo! Ah! afasta, Senhor, da minha alma a tua misericórdia e o pensamento daquelas coisas que me eram sugeridas; que torpezas, que infâmias não eram aquelas! Eu lhes dava ouvidos um pouquinho, e elas, as maliciosas, não me assaltavam de frente, mas me faziam cócegas pelas costas; não gritavam diante de mim, mas murmuravam atrás de mim, tentando fazer-me voltar para olhá-las uma vez. Eu hesitava em desprender-me e afastar-me inteiramente delas, para ir aonde Deus me chamava; hesitava e demorava, porque a força do hábito me dizia: Crês que poderás viver sem elas? Mas já dizia isso muito languidamente (13).”
Quem conhece as trevas da sua cegueira, diz São Gregório, quem percebe quanto lhe falta da luz eterna, clame do fundo do coração com o cego de nascença: Jesus, filho de Davi, tende piedade de mim! Mas ouçamos o que acrescenta o Evangelho, falando daquele cego: “E os que iam à frente repreendiam-no para que se calasse” (Lc 18, 39). Quem representam estes que precedem Jesus, que está chegando? Certamente a multidão dos apetites carnais e a tumultuosa tropa dos vícios. Antes que Jesus entre em nosso coração, esses desejos põem o nosso espírito em alvoroço com as tentações e perturbam, na oração, a voz da nossa alma. Ora, que fazia aquele cego, desejoso de recuperar a vista? Elevava tanto mais a voz, clamando: Filho de Davi, tende piedade de mim, quanto mais os outros procuravam sufocá-la. Façamos também nós o mesmo diante das ocasiões que tentam deter-nos em nosso caminho para Deus (Homil. in Evang.).
Ouçamos também aqui a confissão de Santo Agostinho: De um lado, as frivolidades e vaidades, minhas antigas companheiras, e o poder do cruel hábito esforçavam-se por manter-me escravo e infeliz; de outro lado, na direção para a qual eu me voltava e aonde desejava chegar, a casta dignidade da continência, cheia de serenidade e de celestiais carícias, instava comigo para que, deposta toda dúvida e abandonada toda hesitação, me voltasse para ela; e, enquanto isso, estendia para mim os seus braços piedosos e santos, carregados de almas, repletos de bons exemplos. Mostrando-me aqui um numeroso grupo de jovens e donzelas, ali respeitáveis viúvas, venerandas virgens e pessoas de todas as idades, mas todas de castidade e pureza fecunda, mostrava-se ela, a continência divina, como uma mãe fecunda que vos havia concebido, ó Senhor, seu divino esposo, e dado à luz aquela numerosa família. E, com uma doce exortação irônica, quase zombando de mim, dizia: Como! Não poderás fazer o que podem estes e aquelas? Ou será que eles fazem por virtude própria o que fazem? Não é pela ajuda do Senhor, seu Deus, que se conduzem como anjos? O Senhor Deus deu-me a eles para que eu formasse almas para o céu. Por que hesitas e não te lanças resolutamente nele? Não temas: ele não se retirará, não te abandonará nem te deixará cair. Lança-te seguro e confiante em seu seio, e ele te acolherá e te curará. E eu, que estava preso por um fio às ninharias, sentia-me corar de vergonha diante da minha hesitação. A continência dizia-me ainda: Não dês ouvidos ao zumbido destes membros impuros, desta carne de pecado, mas mortifica-os e castiga-os; eles te falam de prazeres enganadores que não estão de acordo com a lei do Senhor e que nada valem em comparação com o prazer que deriva do cumprimento dessa lei. Essa luta das paixões contra a virtude, que se travava dentro de mim, era a minha obra contra mim mesmo (Confess. lib. 8, c. XI).
É certo que o pecador hesitante em sua conversão experimenta o mesmo combate que experimentava Santo Agostinho, ainda pecador. De um lado, a concupiscência, as paixões, os deleites, a carne, o mundo e o demônio procuram retê-lo; de outro, a beleza da virtude, o remorso, a palavra de Deus, as boas inspirações, a graça, o temor da morte, do juízo e do inferno, a felicidade do céu e a eternidade o estimulam a converter-se. Portanto, o que se deve fazer para retornar a Deus é fechar os ouvidos e o coração à voz enganadora e sedutora da concupiscência, do mundo, do demônio e da carne, e abri-los ao chamado da virtude, da graça etc…. Não se deve hesitar, mas querer com vontade firme e decidida, a exemplo do filho pródigo, de Davi, de São Paulo e de mil outros.
Embora os pecadores tenham caído por sua própria culpa, não se deve, contudo, deixá-los perecer; tenhamos piedade deles, estendamos-lhes a mão; e, assim como eles, se querem levantar-se de sua queda, devem ajudar-se a si mesmos com grande esforço, assim também, para encorajá-los, tiremos-lhes, antes de tudo, da cabeça a falsa ideia de que não se pode triunfar sobre as próprias inclinações e os maus hábitos. Estejam eles bem persuadidos da possibilidade de sua conversão, mediante a graça e a vontade…
Para que qualquer empreendimento tenha bom êxito, duas coisas, segundo Santo Agostinho, são necessárias ao homem. Antes de tudo, ele deve ter em si uma potência, uma força, uma virtude proporcionada à execução; em segundo lugar, é preciso que o objeto seja do seu agrado; com efeito, como o coração do homem não se decide a agir senão quando é movido por algum atrativo, pode-se dizer, de certo modo, que aquilo de que ele não gosta lhe é impossível (Homil.).
Daí derivam as duas razões que levam quase todos os pecadores endurecidos a desesperar de sua conversão. Antes de tudo, seus maus hábitos, tantas vezes vitoriosos sobre seus bons propósitos, induzem-nos a crer que já não lhes resta força alguma contra eles. Depois, mesmo supondo que creiam poder vencê-los, aquela vida sábia e regrada que lhes é proposta parece-lhes insípida, sem atrativos e sem doçura, de modo que não sentem em si a coragem de decidir-se a abraçá-la.
Pecadores, a graça de Deus dá força e poder para vencer não somente as paixões perversas, mas também as más inclinações; avante, pois, coragem! … Esta graça triunfará da vossa repugnância etc. Antes, fará com que comeceis com prazer uma vida nova… A boa vontade, a oração, a confissão: eis os meios que vos reconduzirão a Deus e que vos obterão o arrependimento e o perdão; far-vos-ão saborear as doçuras que se encontram na paz de uma consciência inocente; assegurar-vos-ão a felicidade do paraíso.