«Um laço enredará o pecador», diz o Espírito Santo (Pr 29, 6). E, de modo ainda mais claro, Jesus Cristo: «Em verdade, em verdade vos asseguro que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado» (Jo 8, 34). E São Pedro, falando daqueles que andam apregoando mil promessas de liberdade, observa que estes, sendo escravos da corrupção, não podem dar liberdade aos outros, porque o vencido é escravo daquele que o subjugou (2Pd 2, 19). Ora, quem é escravo do pecado é também escravo do demônio…, das paixões…, das tentações…, da morte…, do inferno…, e está destinado à condenação eterna… «Que miserável escravidão é esta! exclama Santo Agostinho. O escravo do homem pode, às vezes, subtrair-se aos maus-tratos do senhor fugindo e encontrar repouso; mas para onde fugirá o escravo do pecado? Ai, pois o miserável, para onde quer que fuja, arrasta a si mesmo! A má consciência não pode fugir de si mesma; não tem lugar onde possa permanecer livremente: segue sempre a si mesma, isto é, jamais se afasta um ponto de si própria: porque o pecado está em seu interior (1)».
Santo Ambrósio, comentando aquele versículo do Salmista: «Eu sou vosso, ó Senhor, salvai-me» (Sl 118, 94), diz: «O homem mundano não pode dizer a Deus: Eu sou vosso, porque serve a muitos senhores. Apresenta-se a luxúria e diz: Tu és meu, porque manténs a alma nas coisas carnais. Apresenta-se a avareza e diz: Tu me pertences, porque te comprei por preço de ouro e prata. Vem a gula e diz: Olá, tu és coisa minha, porque o preço de tua vida é o festim de um dia. Vem a ambição e diz: Tu és todo meu, porque acaso não sabes que te coloquei acima dos outros, com a condição de que fosses meu escravo? Ignoras que, por isso, te dei o comando, para que estivesses sujeito ao meu império? Enfim, todos os vícios se aglomeram e gritam: Tu és nosso escravo. Como o pecador não pode dizer a Deus: Eu sou vosso, ouve o demônio dizer-lhe: Tu és meu (2)».
Na criação do homem, Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e que ele domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais e sobre todos os répteis (Gn 1, 26). O homem é, portanto, um ser feito para reinar. Ora, se o pecador é escravo até de seus vis apetites, como poderá reinar sobre o restante? «Cada um é escravo da paixão que o domina», escreve São Jerônimo (Epist.); e o grande Apóstolo nos assegura que o demônio mantém os pecadores como escravos, segundo a sua vontade; e, por isso, exorta-os a se libertarem dessas cadeias (Tm 2,26).
Quereis conhecer as cadeias que prendem e tornam escravo o pecador? São: 1° a culpa, isto é, a mancha do pecado, que permanece depois do ato de pecar; 2° o castigo, que está inseparavelmente unido à ação má; castigo ao qual o pecador é condenado, estando sujeito à cólera e à vingança de Deus; porque o ato e o prazer do pecado passam, mas a mancha e o castigo não passam; 3° ser escravo de Satanás. O pecador, segundo a expressão de São Dionísio, é a montaria do demônio; assim como o cavaleiro conduz o cavalo a seu bel-prazer, assim também o demônio é árbitro absoluto do pecador. A mancha do pecado o entrega às varas dos lictores; e, colocando a alma sob a vara de Deus e do demônio, como executor das vinganças divinas, sacrifica-a à morte e ao inferno… A cadeia dos pecadores é o hábito do pecado; esse hábito os mantém tão estreitamente presos que se torna uma necessidade, de modo que já não podem livrar-se dele sem um grande milagre de força e de graça divina, semelhante àquele que fez o Salmista dizer: «Vós quebrastes, ó Senhor, as minhas cadeias; eu vos oferecerei um sacrifício de louvor e invocarei o vosso nome» (Sl 115, 16-17) … Os grilhões dos pecadores são o aglomerado e a conexão dos pecados; porque um arrasta o outro; a gula, por exemplo, conduz à devassidão; a devassidão impele ao furto; o furto, ao homicídio, e assim por diante. E dessas quedas múltiplas e frequentes tece-se uma corda tão forte, tão pesada, tão vergonhosa e degradante, que o retorno à liberdade se torna quase impossível.
Os pecadores estão presos, escreve o Venerável Beda, pelas cadeias que eles mesmos forjam; e acabam por perder-se em razão de suas contínuas desregras. Aquele que faz uma corda aumenta a força dos fios torcendo-os e unindo-os; e, se assim procede com muitos fios, faz uma corda fortíssima. Tal é a força das más ações: tais são os livros dos hereges e dos escritores corrompidos e corruptores; acrescentam corrupção à corrupção, erros a erros; escrevem como vivem, vivem como escrevem (In Collect.).
Ao contrário, como obedecer a Deus é reinar, na obediência a Deus está a verdadeira liberdade; e por isso somente o justo é livre, ainda que, como diz Santo Agostinho, fosse escravo quanto ao corpo (De civ. Dei, lib. 4, c. III). Ele não se submete ao jugo do pecado, do demônio, da concupiscência, do mundo, nem do próprio corpo, mas é senhor de todas essas coisas… E como, e de que, será escravo aquele que possui a virtude, a graça, o próprio Deus? São Efrém não consegue explicar como se possa encontrar um só homem que prefira servir à criatura em vez do Criador.
Que condição mais miserável, que estado mais infeliz, mais vil, mais desesperado que o do pródigo do Evangelho, reduzido à miséria? Abandonado por todos, desgraçado, faminto, meio nu, servo de um senhor rude que o destina à guarda dos porcos, deseja o alimento de que se nutrem aqueles animais imundos! Eis uma débil imagem do estado de servidão a que reduz o pecado mortal… Um pássaro atado por um fio procura fugir, mas é impedido; assim o pecador, escravo de suas más inclinações, dá alguns passos para recuperar a liberdade, mas, retido pelos laços de seus maus hábitos inveterados, não chega a alcançá-la. O homem terreno e carnal pretende ser livre, mas, na realidade, é escravo. Quer ser livre, mas de tal liberdade que o lança na escravidão. Assim, a liberdade perece por causa da liberdade, de modo que a liberdade extrema se transforma em suma servidão, porque então já não se impõe freio algum às concupiscências, e o homem se torna escravo de tantos tiranos cruéis quantas são as diferentes paixões às quais se submete. Então se vê cumprida aquela previsão do Profeta: O fogo do Eterno se inflamou contra o seu povo, abandonou-o ao poder das nações, e seus inimigos, tornados seus senhores, oprimiram-no e fizeram-no experimentar a humilhação de seu poder (Sl 25, 39-41). Dos pecadores pode dizer-se que «jazem nas trevas e nas sombras da morte, acorrentados pelo ferro e pela mais sórdida miséria» (Sl 106, 10).
Ouvi, ó pecadores, os gemidos dos hebreus escravos e prisioneiros; proferi os mesmos lamentos, desabafai nos mesmos gritos, porque o vosso estado é semelhante ao deles, ou antes, pior. Sentados à margem dos rios da Babilônia, consumimo-nos em pranto, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros penduramos as cítaras; permanecemos silenciosos e tristes, e àqueles que nos conduziram ao cativeiro e nos pedem que entoemos os cânticos de Sião, respondemos: como haveremos de cantar os hinos do Senhor em terra estrangeira? (Sl 136, 1). Escravos do demônio e das paixões, dai adeus à felicidade e à vossa antiga alegria; perdestes tudo, ao perderdes, no pecado mortal, a liberdade dos filhos de Deus! Estais aqui embaixo, nesta terra de exílio e de maldição, em condição semelhante à de Jonas, encerrado no ventre da baleia. Se, segundo a palavra do Crisóstomo, todos os homens se encontram neste mundo como crianças no seio materno, tantas são as angústias que nos apertam (3), que dizer da situação dos pecadores?
«Toda paixão torna escravo», diz Santo Ambrósio (De Iacob et Vita beata, lib. II); e suas vítimas, diz São Jerônimo, ela agrava com tal escravidão que não podem sacudir-lhe o jugo nem de dia nem de noite; no coração, ela mantém o seu trono e, portanto, estabelece no interior do homem a sua intolerável servidão (Epist. ad Simpliciam.). Ora, se um vício reduz alguém a estado tão deplorável, que será quando o homem for joguete de muitos pecados? E, contudo, é certo, segundo Santo Agostinho, que o pecador é servo de tantos senhores quantos são os vícios a que está sujeito (4).
Narra-se que o rei Lisímaco, atormentado por uma sede horrível, vendeu seu exército ao inimigo para obter com que a aplacasse. Depois de beber e de se ver escravo, pôs-se a gritar, batendo na testa: Ó infeliz de mim! E que foi que fiz? Por um momento de prazer, que bem e que reino perdi! De rei, tornei-me escravo (5). Muito mais razão tem o pecador para assim exclamar. Ó céu! Por uma gota de água, por um vil e transitório deleite, que bem perdi eu! Perdi a alma, perdi as delícias do paraíso! Curvei o pescoço ao jugo do demônio, do inferno, da morte eterna!
Ouvi os castigos que Deus ameaça impor ao povo de Israel, caso se tornasse desobediente aos seus mandamentos: Servirás ao teu inimigo na fome, na sede, na nudez, na miséria; ele porá sobre o teu pescoço um jugo de ferro que acabará por esmagar-te — «Ele comerá os produtos do teu solo, devorará os frutos do teu gado; não te deixará nem trigo, nem vinho, nem azeite, nem rebanhos de bois, nem rebanhos de ovelhas, até reduzir-te à extrema indigência; derrubará as tuas fortalezas e os teus bastiões; pisotear-te-á, depois de, diante dos teus olhos, ter-se alimentado do fruto das tuas entranhas e da carne dos teus filhos e das tuas filhas; tão grande será a desolação à qual te reduzirão os teus inimigos!» (Dt 28, 48-53). E, contudo, esses horríveis males materiais são apenas uma imagem desbotada dos males espirituais que atingem o pecador escravo de Satanás! «O ímpio fica enredado em suas iniquidades, dizem os Provérbios, e acorrentado pelos grilhões de suas culpas» (5,22). Além das cadeias de seus pecados, o ímpio arrasta ainda as da sua pena e da sua penitência, porque também estas o exaurem e atormentam. Penas temporais, penas eternas…
É justo que sejamos escravos e que suportemos as penas e as consequências de nossa escravidão, quando a carne, que deveria ser escrava do espírito, é sua senhora: quando essa carne rebelde se vê acariciada e honrada, enche-se de soberba e quer mandar, em vez de ser serva da razão. Que enorme diferença de valor entre a razão e a concupiscência, o corpo e a alma! A concupiscência e a carne são terrenas, e o homem as tem em comum com os animais irracionais; a razão e a alma são espirituais, grandes, nobres, semelhantes aos Anjos pela inteligência e pela espiritualidade. A concupiscência e a carne são baixeza e miséria; a razão e a alma são excelência e riqueza; que absurdo, que vergonha, que degradação, que abominação não é, pois, ter a alma como serva do corpo e a razão como escrava da concupiscência!
«Ele edificou ao meu redor, diz Jeremias, e cercou-me de fel e de trabalhos; agravou as minhas cadeias e apertou os meus grilhões; fechou-me o caminho com pedras cortantes, destruiu as minhas veredas. E a paz fugiu do meu coração, esqueci-me da alegria e exclamei: Minha força se desvaneceu» (Lm 3, 5-7, 9, 17, 18).
«A verdade vos libertará» (Jo 8,32), disse o divino Mestre; ora, como a verdade é Jesus Cristo, e ninguém outro senão Jesus Cristo (Jo 14, 6), todos veem que somente dele o homem pode esperar a libertação da escravidão do pecado, do demônio e das paixões. Quatro espécies de servidão destruiu Nosso Senhor Jesus Cristo e nos concedeu a quádrupla liberdade. 1° Quebrou o jugo da antiga lei e nos deu a liberdade do Evangelho; 2° rompeu o jugo do pecado e trouxe a liberdade da justificação; 3° destruiu o império da concupiscência e trouxe a liberdade do espírito, o domínio da caridade e da graça; 4° venceu a morte e nos restituiu à liberdade da vida. Tornemo-nos, pois, servos de Jesus Cristo, e teremos a liberdade dos filhos de Deus; teremos conosco o Espírito do Senhor, e onde está o Espírito de Deus, aí se encontra a verdadeira liberdade, diz São Paulo (2Cor 3, 17). Façamos o que o Senhor nos sugere nos Provérbios (Pr 6, 3).