Em que consiste a verdadeira ciência, ensina-nos São João: «Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência, para que conheçamos o verdadeiro Deus e estejamos no seu verdadeiro Filho; o qual é verdadeiro Deus e vida eterna» (Jo 5,20). A verdadeira ciência, porque é a ciência da vida eterna, consiste, disse o próprio Jesus Cristo, dirigindo-se ao Pai, em que os homens vos conheçam, a vós, único Deus verdadeiro, e àquele que enviastes, Jesus Cristo (Jo 17,3).
Com razão, portanto, São Jerônimo estabelece que a verdadeira ciência consiste em conhecer a lei, compreender os Profetas e crer no Evangelho (1); e São Justino coloca a verdadeira e sã filosofia no conhecimento de Deus (Epist.). «A perfeição, o ápice da ciência, diz São Bernardo, consiste em conhecer a Deus (2)». Muito verdadeira, portanto, é a sentença que o mesmo Santo pronunciou ao morrer, isto é, que aqui embaixo não há conhecimento nem ciência alguma: somente no céu se encontra a plenitude da ciência, o conhecimento genuíno da verdade (3). Essa sentença concorda com outra da Sagrada Escritura: «Deus é o Senhor das ciências» (1Sm 2,3), «é ele quem dá a ciência, e de sua boca procedem a prudência e o saber» (Pr 2,6). Deus é, para a ciência e para aqueles que a procuram, o que a luz é tanto para os que contemplam um objeto quanto para o próprio objeto. Daí derivam duas consequências: a primeira, que somente o coração reto procura a verdadeira ciência (Pr 27,21); a segunda, que é feliz aquele que é instruído pelo Senhor e ensinado por sua lei (Sl 93,12). Este pode dizer com o Salmista: «Superei em inteligência todos os meus mestres, porque meditei a vossa lei, ó Senhor; superei em ciência os mais consumados anciãos, porque me apliquei a aprender os vossos mandamentos» (Sl 118,99-100).
São Lourenço Justiniano resume a verdadeira ciência do homem em saber estas duas coisas: que Deus é tudo e que o homem é nada (De Ligno Vitae). Se conheceis Jesus, isso basta, ainda que ignoreis todo o resto, diz um piedoso autor; mas, se ignorais Jesus, nada sabeis, ainda que sejais doutos em qualquer outra ciência. E o que sabiam os Apóstolos? Uma só coisa: Jesus, e Jesus crucificado (1Cor 2,2). Essa era toda a sua ciência; contudo, Jesus os chama luz do mundo, sal da terra, e eles mostraram pelos fatos que eram realmente assim (Mt 5,14); o que não se pode dizer dos mais renomados filósofos…
«Instruí-vos antes de falar», diz o Espírito Santo (Eclo 18,19). Nunca vos pronuncieis sobre aquilo que ignorais, porque poderíeis dizer coisas falsas, temerárias, reprováveis e condenadas. É próprio do homem sensato, segundo a Escritura, recolher a ciência dos antigos, ler continuamente as profecias, guardar como tesouro as palavras dos homens sábios e penetrar nos segredos das parábolas (Eclo 39,1-3). Mas principalmente na juventude devemos aplicar-nos a instruir-nos e a compreender as coisas pertencentes à verdadeira ciência (Pr 1,4). Deve-se depois ouvir e aprender enquanto disso se tiver necessidade, enquanto durar a vida, escreve Sêneca (4), para que não nos aconteça ouvir o Senhor dizer-nos: «O meu povo emudeceu, porque não tinha ciência» (Os 4,6). Qualquer que seja a idade, nunca se deve dizer: É tarde demais para instruir-me; pois há sempre o dever de aprender aquilo que se ignora… O rei Carlos IV dedicava um tempo considerável aos estudos, aos quais chamava seu espetáculo e passatempo (In Vita). «Embora já muito velho», escrevia Santo Agostinho a São Jerônimo, «e muito mais idoso do que vós, não deixo, contudo, jamais de aconselhar-me». Para aprender o que é necessário, nenhuma idade é avançada demais: se convém mais aos velhos ensinar do que aprender, é, contudo, melhor que aprendam, para que não ignorem aquilo que devem ensinar aos outros (Epist. XXVIII). A ciência é necessária também para regular o zelo que, diz São Bernardo, é verdadeiramente eficaz e útil quando unido à ciência; ao passo que, separado dela, muitas vezes se torna nocivo. Quanto mais ardente é o zelo, quanto mais ativo o espírito e persuasiva a caridade, tanto mais necessária é a ação da ciência, para saber refrear o zelo, conter o espírito e regular a caridade (Tract. de inter. domo). Mas, se há entre os homens alguém que tenha especial necessidade de estudar a verdadeira ciência, é certamente o sacerdote que, em seu nome de Vidente, com que o honra o Espírito Santo (2Sm 15,27), declara que seus lábios devem ser o livro da ciência, para que deles os povos aprendam a lei (Ml 2,7). E Deus, para provar ainda mais essa necessidade de ciência nos sacerdotes, ordena que, surgindo entre o povo algum caso difícil de decidir, vão expô-lo aos sacerdotes, os quais esclarecerão a verdade e indicarão o caminho a seguir (Dt 17,8-11). São Paulo, em suas Epístolas a Tito e a Timóteo, recomenda-lhes calorosamente que se dediquem ao estudo e permaneçam firmes na ciência aprendida, sabendo de quem a aprenderam (2Tm 3,14).
O sacerdote, escreve São Jerônimo, guardará a ciência como uma biblioteca douta e salutar, da qual cada um possa tomar aquilo de que necessita; pois é seu ofício a interpretação da lei (Epistola ad Nepotian.). Santo Ambrósio compara o sacerdote à abelha e diz que ele deve, como abelha celeste, sugar das Sagradas Escrituras a seiva da ciência divina e dela formar suave mel, bem como todo outro remédio necessário ao cuidado das almas (5); por isso chama a Bíblia de Livro sacerdotal ― Librum sacerdotalem ―, por ser próprio do sacerdote, que deve lê-la e meditá-la assiduamente (Offic. lib. II), sob pena de incorrer naquela terrível ameaça de Deus: «Porque não tiveste em conta a ciência, eu te rejeito como meu sacerdote» (Os 4,6); e naquela outra do Espírito Santo: «Os ignorantes morrerão na indigência do coração» (Pr 10,21).
Eis como o Espírito Santo nos descreve a verdadeira ciência, isto é, o conhecimento de Deus, das Sagradas Escrituras, das coisas divinas, da graça, das virtudes, do amor e do serviço de Deus, da salvação da alma e dos fins últimos, bem como o proveito que dela advém ao homem: «A ciência livrará os justos» (Pr 11,9); «Nela está o caminho para a vida» (Pr 15,24). «Aquele que dela se alimenta encontrará o bem, e seu possuidor tem nela uma fonte de vida. O coração do sábio derrama pela boca palavras de vida, e seus lábios florescerão em graças. A palavra eloquente é um favo de mel, a alegria da alma, a saúde do corpo. A boca do sábio é um vaso de valor inestimável» (Pr 16,2.22-24; 20,15). «A ciência do sábio se derramará como um rio que inunda as margens, e seus conselhos permanecerão como uma fonte de vida» (Eclo 21,16). «Aqueles que tiverem ciência», diz Daniel, «resplandecerão como o fulgor do firmamento; e aqueles que ensinam aos outros a justiça serão como estrelas por toda a eternidade» (Dn 12,3). Em suma, conhecer a Deus, não somente especulativa, mas também praticamente, é, segundo a Sabedoria, a justiça perfeita; e em compreender a equidade e a força de Deus está a raiz da imortalidade (Sb 15,3).
Os Santos Padres competem entre si em mostrar suas vantagens e exaltar seus méritos. A ciência de Deus, escreve o Nazianzeno, é a fonte de todo bem; é a mais preciosa e a mais perfeita de todas as coisas (6). «Não há coisa melhor», diz Santo Agostinho, «nem que torne o homem mais feliz, do que o conhecimento de Deus; antes, ele é a verdadeira felicidade (7)»; pois a vida bem-aventurada no céu não é outra coisa senão o perfeito conhecimento de Deus (De vita beata). O conhecimento de um só Deus, diz São Jerônimo, não somente exclui todos os delitos, mas equivale à posse de todas as virtudes; e quem ama a ciência da Sagrada Escritura terá em abominação os vícios da carne (8). Clemente de Alexandria assegura-nos que quem verdadeiramente conhece a Deus não pode entregar-se aos prazeres da carne (Strom. L IV). «Conhecer a Deus», escreve São Bernardo, «é a plenitude da ciência; a perfeição dessa ciência é a plenitude da glória, a consumação da graça e a perpetuidade da vida (9)». Também Lactâncio observa que não há alimento tão agradável à alma quanto o conhecimento da verdade, especialmente da verdade incriada (10). Por isso, entre os mais preciosos dons que Deus promete ao seu povo como recompensa por sua fidelidade em servi-lo, inclui, como um dos mais relevantes, o de dar-lhes pastores segundo o seu coração, que os alimentem com ciência e doutrina (Jr 3,15).
«As raízes da ciência são amargas, mas doces são seus frutos», dizia Aristóteles; e, perguntado sobre qual diferença havia entre um douto e um ignorante, respondeu: «A mesma que existe entre um homem vivo e um morto». Costumava dizer que a ciência é um ornamento na prosperidade e um refúgio na adversidade; que os pais que instruem sua descendência fazem coisa muito mais excelente e louvável do que aqueles que se contentam em dar-lhe a luz, porque estes não lhe deram mais que a vida, ao passo que os primeiros lhe proporcionaram os meios de levar uma vida boa, rica e feliz (LAERTIUS, In Vita).
Os incrédulos, os ímpios que se vangloriam de sua filosofia e ostentam a ciência humana, pertencem àquela raça de gente que a Escritura chama de insensata e imprudente, e a quem deseja que um dia cheguem a compreender, abram os olhos e prevejam seus fins (Dt 32,28-29). Pertencem àqueles que se vangloriam de saber e nem sequer compreendem o que dizem: sempre empenhados em aprender, sem jamais chegar ao conhecimento da verdade (1Tm 1,7; 2Tm 3,7). Do alto dos céus, o Senhor lançou um olhar sobre esses homens, para ver se havia algum que tivesse inteligência e bom senso e procurasse o Senhor; mas todos se extraviaram, corromperam-se, não se encontra sequer um que faça o bem (Sl 13,2-3). Não quiseram compreender, por medo de serem obrigados a fazer o bem (Sl 35,4).
Fora de Deus não há verdadeira ciência… Quem não conserva a verdadeira fé não pode ter a verdadeira ciência… «A eternidade e a verdade», diz Santo Agostinho, «estão no céu; e à verdade se chega por meio da fé (11)». O incrédulo despreza a Deus, a lei divina, a religião cristã, a alma, a salvação e a eternidade; não lhes dá atenção nem deles cuida; e, contudo, nisso consiste toda a ciência!
«A ciência incha» ― Scientia inflat ― diz São Paulo (1Cor 8,1). Essa sentença, embora possa verificar-se em quem possui a verdadeira ciência, por não a acompanhar com a virtude dos humildes, que consiste em não se ensoberbecer com a ciência (12), sempre atinge os amantes da falsa ciência, os quais por isso «resistem à verdade, renegam a fé e se entregam à corrupção do coração» (2Tm 3,8). E o coração corrompido não se ocupa senão de ciência corrompida, diz o Sábio (Pr 27,21). Ninguém deve gloriar-se de sua ciência, porque 1° é transitória; 2° imperfeita; 3° trabalhosa; 4° frequentemente nociva.
Um alimento indigesto, diz São Bernardo, gera maus humores; não nutre o corpo, mas o prejudica; assim acontece com a ciência lançada no estômago da alma, que é a memória; se a caridade de Jesus Cristo não a aquece e se essa ciência não move a vontade, ela é um mal, uma calamidade (Serm. 36, in Cant.). Não se deve buscar a ciência do homem e do coração humano nos livros maus, nos romances obscenos e nas folhas irreligiosas. Aí se esconde a ciência das paixões; aprende-se a prostituição da ciência, a ciência do demônio… Tal ciência forma demônios e conduz à casa do diabo. «O meu povo», diz o Senhor, «foi levado cativo porque não teve a verdadeira ciência; por isso o inferno dilatou suas fauces» (Is 5,13-14).
O grande Apóstolo predisse-nos que viria um tempo em que os homens, inchados de ciência humana, já não suportariam a sã doutrina; mas, levados por seus próprios desejos, procurariam mestres que agradassem aos ouvidos; e, não querendo ouvir a verdade, voltar-se-iam para estudar fábulas (2Tm 4,3-4). Escutemos essas advertências de São Paulo e evitemos as disputas e contendas de palavras, como inúteis e vãs (Tt 3,9).
«A maneira de instruir-se, diz São Bernardo, consiste em estudar com ordem, assiduidade e finalidade louvável (13).» Que ordem se deve observar nos estudos? É preciso começar por aprender aquilo que diz respeito à salvação, o que é devido a Deus, ao próximo e a nós mesmos. Importa estudar com assiduidade, com zelo, mas com o zelo do amor de Deus; não permitir que o coração se resseque diante da ciência, não por curiosidade, vanglória ou outro motivo humano semelhante, mas por Deus, pela própria utilidade e pelo proveito do próximo. «Torpe vaidade, diz ainda o Doutor citado, é a daqueles que querem saber para fazer um nome para si mesmos (14).»
Muitos se empenham em formar o espírito por meio da ciência, mas pouco ou nada cuidam de formar a consciência. Se puséssemos no alto de nossos pensamentos iluminar a consciência e nos entregássemos à verdadeira ciência com aquele ardor e aquela disposição com que nos aplicamos à ciência profana, teríamos bem depressa uma consciência reta, que nos serviria de guia muito mais seguro do que toda a ciência humana. É tarefa do sábio, diz o Espírito Santo, acumular o tesouro da sabedoria dos antigos, estudar os Profetas e as palavras dos homens célebres (Eclo 39, 1-2).
São Tomás de Aquino, interrogado sobre qual seria, em sua opinião, o melhor meio para alcançar a ciência, respondeu: «Falar pouco, conservar a pureza da consciência, dedicar-se à oração, mostrar-se afável com todos, não se intrometer nos assuntos alheios, procurar compreender aquilo que se faz e aquilo que se ouve, e, nas dúvidas, pedir conselho (15).» Certa vez, o mesmo Santo disse: «Se queres tornar-te douto, lê um só livro (16); esse livro por excelência é a Bíblia…». «Meu filho, dizia o Sábio, se ouvires minhas palavras, se acolheres em ti meus mandamentos, se deres ouvidos à sabedoria, se te mostrares dócil à prudência, se invocares a inteligência, então encontrarás e compreenderás a ciência do Senhor» (Pr 2, 1-5).
A primeira e verdadeira ciência, diz São Bernardo, consiste numa consciência pura e santa diante de Deus. Ninguém chega à luz da ciência se já não conservar no coração o germe da justiça; desse germe se desenvolve o grão da vida eterna, e não a palha da vanglória. Somente os discípulos de Jesus Cristo, isto é, aqueles que desprezam o mundo, chegam à verdadeira ciência; pois essa verdadeira ciência não se aprende tanto pela leitura quanto pelas obras; não está na letra, mas no espírito; não é a erudição, mas o exercício dos mandamentos de Deus. Semeai a justiça, colhei a esperança da vida futura; fazei acender em vós a luz da ciência do Espírito Santo e da cruz (Lib. de Conscient.). «Para adquirir a verdadeira ciência, escreve em outro lugar o mesmo Doutor, a compunção ajuda muito mais do que as profundas investigações; os suspiros, mais do que os argumentos; as lágrimas, mais do que as sentenças; a oração, mais do que a leitura; a contemplação das coisas celestes, mais do que o estudo das coisas terrenas (17).» Finalmente, sigamos o conselho de Santo Agostinho e empreguemos a ciência como meio para construir o edifício da caridade (18).