Tesouro n.º 98 · Volume II

ENDURECIMENTO INDURIMENTO

15 seções · 52 parágrafos · pp. 1159–1173 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É O ENDURECIMENTO

«Qual é aquele que se chama coração endurecido? — pergunta São Bernardo, e responde: É aquele que não se horroriza de si mesmo, porque já não sente nada. É aquele que a compunção não quebra, a piedade não abranda, as orações não comovem, as ameaças não abalam, os flagelos não entristecem. É ingrato aos benefícios, surdo aos bons conselhos, impiedoso ao julgar, desavergonhado nas coisas desonestas, temerário nos perigos da salvação, desumano com seus semelhantes, soberbo para com Deus, esquecido do passado, despreocupado do presente, imprevidente quanto ao futuro. Do passado, nada mais recorda senão as injúrias recebidas; perde o presente, fecha os olhos ao futuro, exceto para vingar-se. E, para compreender numa palavra todos os males de tão horrendo mal, chama-se coração endurecido aquele que não tem temor algum de Deus nem respeito algum pelos homens (1)».

O endurecimento é: 1° a malícia daquele que quer pecar e não fazer o bem; 2° um apego tão forte e obstinado àquilo que é proibido, que não se quer abandoná-lo nem por admoestações, nem por conselhos, nem por ameaças, nem por promessas, nem por recompensas, nem por castigos, nem por inspirações, nem por graças.

Um coração endurecido: 1° não quer compreender, por medo de ter de fazer o bem (Sl 35, 3). Medita a iniquidade com o ânimo tranquilo, põe o pé em todos os caminhos que não são bons; não recusa maldade alguma (Ib. 4). 2° Alegra-se quando pratica o mal e compraz-se nos crimes mais enormes (Pr. 11, 14). Quando alguém se compraz nas coisas vergonhosas, chegou ao fundo da desgraça; pois é desesperada a cura daquele que faz dos vícios um afeto, um hábito… 3° O coração endurecido percorre todo o caminho do mal, zomba de Deus e da virtude… 4° Seu pecado torna-se quase indestrutível, e sua chaga, incurável… 5° Não se envergonha de seus atos, por mais maliciosos e vergonhosíssimos que sejam… 6° É incorrigível… 7° Deus o abandona, rejeita-o, despreza-o, amaldiçoa-o… 8° Açoitado por Deus, já não sente nada; sufocou até mesmo os remorsos… 9° O hábito forte e inveterado de praticar o mal torna-lhe quase impossível fazer o bem e evitar o pecado… 10° São Paulo diz que tal coração acumula sobre si a cólera de Deus, que é abandonado ao sentido reprovável; chama-o filho da perdição, vaso destinado à destruição, cheio de furor, que transborda nos piores delitos… 11° Esse coração acrescenta iniquidade a iniquidade, agrava cada vez mais sua deplorável e desesperada condição, manchando-se com novas imundícies, mergulhando hora após hora, momento após momento, cada vez mais profundamente na cloaca imensa das paixões mais vergonhosas e vis…

2. CHEGA-SE AO ENDURECIMENTO POR GRAUS

O hábito é o primeiro grau que conduz ao fundo do abismo do endurecimento…; o segundo é a cegueira do espírito, que nasce do hábito do pecado…; o terceiro é a impudência, a obstinação na vontade de pecar, a impenitência…; o quarto é o desprezo de Deus…; o quinto é o desespero, e onde há desespero tudo está perdido para o céu; já não resta senão um inferno eterno…

O homem endurecido jaz num abismo escuro, privado de toda luz, e a pedra de seu endurecimento fecha a entrada do abismo em que está sepultado (Jo 11, 38). Falar de Deus, de religião, de virtude a um coração endurecido é obra vã; é como falar numa língua desconhecida… O coração endurecido já não vê nem seus deveres, nem a lei, nem as graças, nem os castigos de Deus. Pode-se dizer dele o que Isaías dizia do povo judeu: seu coração está cego; seus olhos estão fechados; nada teme tanto quanto ver a luz, compreender a verdade, ter o bom senso, converter-se e ser curado de seus males (Is 6, 10). Pode aplicar a si este lamento de Jeremias: «Minha alma caiu na cova; sepultaram-me sob uma pedra» (Lm 3, 53).

Os justos sobem ao céu por graus opostos, que são os graus das virtudes, pois passam de uma virtude a outra, e a prática da virtude se torna um santo hábito, do qual provêm tantas luzes sobrenaturais. Iluminados do alto, já não têm vontade própria, mas a vontade de Deus é a sua vontade; não amam senão a Deus, não esperam senão nele; perseveram nesse estado invejável, crescem nele, e sua união com Deus vai crescendo dia após dia, de modo que, enquanto ainda estão na terra com o corpo, sua alma está no céu; trazem o paraíso na mão, segundo aquelas palavras do Profeta: «Irão de virtude em virtude, até chegarem a ver o Deus dos deuses em Sião» (Sl 83, 7).

Quem não exclamará com o Apóstolo: «Ó gálatas insensatos, quem vos enfeitiçou o espírito, para que já não queirais obedecer à verdade?» (Gl.3,1).

2. CHEGA-SE AO ENDURECIMENTO POR GRAUS

O hábito é o primeiro grau que conduz ao fundo do abismo do endurecimento…; o segundo é a cegueira do espírito, que nasce do hábito do pecado…; o terceiro é a impudência, a obstinação na vontade de pecar, a impenitência…; o quarto é o desprezo de Deus…; o quinto é o desespero, e onde há desespero tudo está perdido para o céu; já não resta senão um inferno eterno…

O homem endurecido jaz num abismo escuro, privado de toda luz, e a pedra de seu endurecimento fecha a entrada do abismo em que está sepultado (Jo 11, 38). Falar de Deus, de religião, de virtude a um coração endurecido é obra vã; é como falar numa língua desconhecida… O coração endurecido já não vê nem seus deveres, nem a lei, nem as graças, nem os castigos de Deus. Pode-se dizer dele o que Isaías dizia do povo judeu: seu coração está cego; seus olhos estão fechados; nada teme tanto quanto ver a luz, compreender a verdade, ter o bom senso, converter-se e ser curado de seus males (Is 6, 10). Pode aplicar a si este lamento de Jeremias: «Minha alma caiu na cova; sepultaram-me sob uma pedra» (Lm 3, 53).

Os justos sobem ao céu por graus opostos, que são os graus das virtudes, pois passam de uma virtude a outra, e a prática da virtude se torna um santo hábito, do qual provêm tantas luzes sobrenaturais. Iluminados do alto, já não têm vontade própria, mas a vontade de Deus é a sua vontade; não amam senão a Deus, não esperam senão nele; perseveram nesse estado invejável, crescem nele, e sua união com Deus vai crescendo dia após dia, de modo que, enquanto ainda estão na terra com o corpo, sua alma está no céu; trazem o paraíso na mão, segundo aquelas palavras do Profeta: «Irão de virtude em virtude, até chegarem a ver o Deus dos deuses em Sião» (Sl 83, 7).

Quem não exclamará com o Apóstolo: «Ó gálatas insensatos, quem vos enfeitiçou o espírito, para que já não queirais obedecer à verdade?» (Gl.3,1).

4. O CORAÇÃO ENDURECIDO É REBELDE

Em vez de olhar para o Oriente, que é Deus, o endurecido volta-se para o Ocidente, que é o mundo, o demônio e a carne, diz Santo Agostinho (2). Com Deus, ele procede como Vasti com o rei Assuero; assim como ela, ao convite que o rei lhe fez para ir ter com ele, respondeu com uma recusa desdenhosa (Est 1,12), assim também o endurecido, ao convite do Rei dos reis, que o chama a si pela graça, pelas santas inspirações, pelas pregações e pelos benefícios, responde com escárnio e soberba: «Não, jamais me submeterei à tua vontade» (Jr 2,20).

Mas ouçamos o que diz o Senhor: «Eu vos chamei — assim se lamenta pela boca do Sábio —, e vós me virastes as costas; estendi a mão, e não houve quem prestasse atenção: rejeitastes os meus conselhos, não destes ouvidos às minhas ameaças» (Pr.1,24-25).

«Eles endureceram seus corações mais que um rochedo, diz ele pela boca de Jeremias; não quiseram voltar para mim; romperam meu jugo, quebraram meus vínculos de amor» (Jr 5,3-5). «A quem falarei eu, a quem pedirei que me escute? Seus ouvidos são incircuncisos e não podem ouvir; a palavra do Senhor lhes causa afronta, e não a acolherão de modo algum» (Id. 6,10). «Ah! corações de pedra! Eu vos chamei, e vós não me respondestes» (Id. 7,13).

«Eu lhes ordenei que escutassem a minha palavra, que andassem pelos caminhos que lhes havia indicado, e eu seria o seu Deus, e eles, o meu povo, gozariam de todo bem. Agora, porém, em vez de me ouvirem e obedecerem, submergiram-se cada vez mais nos desejos depravados da sua carne; em vez de avançarem, retrocederam» (Id. 7,23-24). «E, não contente de chamá-los por meio de santas inspirações, enviei-lhes ainda, desde o amanhecer, os meus servos, os profetas, dizendo: Deixe cada um o mau caminho e aplique-se a fazer o bem; mas ninguém me deu ouvidos» (Id. 35,15).

O profeta Ezequiel: «A casa de Israel não quer ouvir a tua palavra, porque tem fronte de bronze e coração de pedra» (Ez 3,7). Também por meio de Zacarias o Senhor se queixa de que, às exortações que fazia ao seu povo para que se convertesse e se emendasse de seus péssimos desejos e costumes, este havia respondido com desprezo e indiferença (Zc 1,4).

Sim, Deus diz continuamente ao mundo: Eu, vosso Deus, vosso criador e redentor, vosso senhor e rei, quero reinar sobre vós, cumular-vos de bens, salvar-vos; mas o mundo endurecido lhe responde: Não, não queremos que reineis sobre nós; não queremos nem reconhecemos outro rei, exceto a nossa vontade, o demônio e as paixões (Lc 19,14; Jo 19,15).

5. O CORAÇÃO ENDURECIDO DESPREZA TUDO

O homem que caiu no endurecimento do coração zomba de tudo, despreza tudo; a lei, a graça, os sacramentos, a palavra de Deus, a religião, a consciência, a vida, a morte, o juízo, o céu, o inferno, o tempo, a eternidade e o próprio Deus são, para ele, nomes vãos. Ninguém, porém, despreza tanto a si mesmo quanto o endurecido… Além disso, vimos que ele não dá ouvidos a ninguém; ora, não ouvir ninguém significa desprezar todos.

«Os corações endurecidos — diz São Cipriano — desprezam os preceitos de Deus, único remédio para suas chagas: não querem fazer penitência; impudentes e levianos antes de cometer o mal, obstinam-se nele com pertinácia depois de o terem cometido. Quando deviam manter-se de pé, caíram; e quando deveriam prostrar-se e humilhar-se, querem permanecer de pé (3)».

«Quando alguém chegou, em seu endurecimento, a tal audácia e desfaçatez que já não hesita, já não teme, já não treme ao cometer o mal, deve ser tido por desesperado», escreve São Bernardo (4). Com efeito, segundo a observação do Sábio, o ímpio dá sinal de ter caído no profundo da impiedade quando despreza tudo (Pr. 18,3). Do fundo de sua maldade, os corações endurecidos não somente não procuram o Salvador, mas fogem dele assim que ele se aproxima deles. Estão infinitamente longe de Deus e, quando ele vem até eles, desprezam-no. A enfermidade do coração endurecido é uma aversão ao remédio, uma náusea, um desgosto pelos bens eternos. Vós lhe mostrais a terra prometida, e ele se volta para o Egito; o maná celeste lhe causa nojo e repugnância. A ovelha desgarrada já não reconhece a voz do pastor que a chama e lhe estende os braços, mas obstina-se em permanecer entre as presas do lobo que a devora…

O coração endurecido está morto; tornou-se semelhante a uma pedra, diz a Escritura (1Rs. 25,37). Nada pode movê-lo: nem carícias, nem ameaças, nem prêmios, nem castigos; desafia até mesmo os raios e os castigos de Deus, sob os quais, em vez de se quebrar, endurece-se como um rochedo, diz Jó, e se consolida como uma bigorna golpeada pelo martelo (Jó 41,15). «Mergulhados no abismo — escreve São Bernardo —, os endurecidos não despertam de modo algum ao trovão das ameaças divinas, nem tremem diante do seu perigo espantoso (5)».

Jesus disse que os defuntos nos sepulcros haveriam de ouvir a voz do Filho do homem e sairiam da escuridão da morte (Jo 5,25). Ora, pois, não haverá mais meio de chamar à vida os corações endurecidos, muito mais verdadeiramente mortos que os próprios defuntos, mortos de quatro dias, cujas entranhas, já corrompidas por hábitos envelhecidos, causam horror? Não haverá maneira de dar carne a esses ossos áridos e ressequidos? …

6. O CORAÇÃO ENDURECIDO ABUSA DOS MEIOS DE SALVAÇÃO

O endurecido abusa da graça, da oração, do tempo etc. Sua ingratidão, sua desobediência, sua obstinação o entristecem e o tornam pior. É exemplo disso o Faraó, o qual, quando viu cessarem a chuva, o granizo e os raios, obstinou-se em seu pecado e o agravou (Ex 9, 34).

A respeito deles escreve São Paulo que, por mais que se procure instruí-los, nunca se chega a fazê-los compreender a verdade. São homens de espírito corrompido, que perderam a fé (2Tm 3, 7-8). Já não podem suportar aquilo que lhes é dito (Hb 12, 20).

Isso acontece na ordem espiritual como na material: a cera exposta ao sol ou ao fogo derrete, e o barro endurece; assim, os justos, que são como cera diante de Deus, derretem-se sob o influxo do amor divino, enquanto os corações endurecidos, cópias do coração do Faraó, que não são senão barro, quanto mais Deus procura inflamá-los com o fogo de seu amor, tanto mais secam e endurecem. Ah, sim! É demasiado verdadeiro que o coração endurecido não faz senão endurecer-se ainda mais, quando é admoestado com caridade ou ameaçado com a cólera de Deus, como já deplorava Jeremias: «Vós os feristes, Senhor, e eles não se compungiram; endureceram a fronte mais que uma pedra e não quiseram voltar para vós» (Jr 5, 3). Quanto mais se empregam com eles a graça, a paciência, a bondade e a justiça de Deus, tanto mais cresce sua dureza e obstinação.

Esses tais se tornam mais malvados e mais ímpios na medida em que Deus lhes oferece meios de salvação mais eficazes e mais preciosos. Observai aqueles que não querem cumprir o preceito pascal, que resistem a uma graça extraordinária de missões, de jubileu, de exercícios espirituais, e os vereis mais tristes que antes; chegam até a zombar daqueles que correspondem à graça… «Neles há o furor da serpente, diz o Salmista, o furor da áspide surda, mas que é tal porque tapa os ouvidos para não ouvir» (Sl 57, 4).

7. O ENDURECIDO IMITA O DEMÔNIO

Do coração endurecido pode-se dizer: «Sei onde habitas: habitas com o demônio» (Ap 2, 13). O homem endurecido vive com os demônios, em sua escola, sob sua tutela, e vive da vida dos demônios e dos condenados. Vários doutores dizem que tal é o orgulho de Satanás, tão grande e tão obstinada sua perversidade no mal, que, se Deus lhe dissesse: Humilha-te, pede-me perdão e eu te libertarei do fogo eterno, ele preferiria permanecer eternamente infeliz a confessar-se culpado, humilhar-se, arrepender-se e implorar perdão. Ora, também os corações endurecidos preferem a inimizade de Deus e a condenação a arrepender-se, humilhar-se e mudar de vida. «Eles fizeram um pacto com a morte, como diz Isaías, aliaram-se ao inferno» (Is 28,15).

8. O ENDURECIDO ESTUDA O MAL PARA COMETÊ-LO E SE VANGLORIA DISSO

Os corações calejados no pecado meditam o delito e nele se adestram como em um trabalho (Sl 63,6); gloriam-se de sua malícia (Sl 51, 1); alegram-se com o mal que cometem e deleitam-se nas coisas mais infames (Pr. 2, 14).

Seu endurecimento é como um leito em que dormem comodamente; como o demônio, já não sentem gosto algum pelo bem e gozam somente do mal, encontrando apenas nele contentamento e alegria; são atraídos por ele como por um instinto natural e irresistível; o mal lhes é familiar, comprazem-se nele, revolvem-se nele e nele permanecem satisfeitos como os porcos na lama.

Essa raça de pecadores, que não quer converter-se, não somente pretende desculpar e justificar seus delitos, mas os exalta e deles se vangloria (Is 3, 9), e quase parece não saborear toda a satisfação de suas intemperanças se não as expõe, como diz Tertuliano, à luz do dia, diante do céu e da terra (6). Vede esses corações soberbos e endurecidos que se vangloriam de sua libertinagem; que creem elevar-se acima de todas as coisas humanas pelo desprezo de todas as leis divinas; que consideram o próprio pudor como coisa pueril e indigna, porque nele há certo temor; vede como não somente desprezam, mas ultrajam publicamente a Igreja, o Evangelho e a consciência da humanidade!

Desgraçados! Eles estão verdadeiramente no fundo do abismo e, por isso, desprezam tudo; mas cuidem, pois, que, em vez de gloriar-se disso, deveriam pensar na vergonha e na ignomínia que os esperam (Pr.18,3). Escarnecem das advertências e daqueles que as fazem; riem dos delitos e não conhecem o rubor; zombam do pudor e da modéstia, põem em ridículo os perigos, as perdas, a alma, o espírito, o céu, fazem troça de todo direito divino e humano, do sagrado e do profano, dos anjos e de Deus, cuja Providência e até a própria existência chegam a negar. Zombam da consciência, dos suplícios, da virtude, de toda correção, do perdão e do remédio. São frenéticos desesperados que riem de tudo; cobertos de infâmia e desonra, vangloriam-se disso; estes são, diz Malaquias, os extremos limites da impiedade (1, 4). E quem chega a tais extremos pode ser comparado à mulher desavergonhada, cuja fronte já não é capaz de enrubescer (Jr 3, 3).

9. O CORAÇÃO ENDURECIDO É UMA SENTINA DE VÍCIOS

É sentença do Sábio que o homem de coração duro e mente obstinada cairá em todos os pecados (Pr. 28, 14); tudo nele é impureza, diz São Paulo, a alma e a consciência (Tt 1, 15). Ao homem endurecido podem aplicar-se estas palavras de Isaías: «Da cabeça aos pés ele é todo uma chaga, e suas feridas criam vermes todos os dias. Ora, onde está a faixa para envolvê-las, o remédio para curá-las?» (Is 1, 6). Ele não quer abandonar esse estado deplorável e espantoso: eis o último excesso do mal!

10. PERSEVERANÇA NO ENDURECIMENTO

«Os pecadores endurecidos no mal quereriam viver sempre, para pecar sempre, escreve São Gregório; e demonstram-no claramente por nunca cessarem de pecar durante todo o tempo em que vivem. Quer, pois, a justiça de Deus que aqueles que não quiseram cessar do pecado enquanto viveram sejam punidos com um suplício que jamais cesse (7)». Querem pecar com audácia e desfaçatez e jamais cessar de pecar; pecam continuamente e, amando sempre o pecado, fazem um pacto eterno com o pecado, com a morte, com o demônio e com o inferno.

É desses tais que Deus fala quando diz: «Violadores da minha lei, eu vos conheci desde o ventre de vossa mãe; eu sabia que seríeis pecadores obstinados» (Is 50, 8, 8). «Eu vos chamei, e vós não me respondestes; falei, e não me destes ouvidos» (Is 65,12). Eu lhes disse: ouvi a minha palavra, e eu serei vosso Deus, e vós sereis meu povo; mas eles não deram atenção e correram desenfreados atrás dos desejos depravados de seu coração corrompido… E aos meus profetas, que em todos os tempos lhes enviei para convidá-los a vir a mim, deram as costas, cumularam-nos de maus-tratos, não quiseram inclinar a cabeça e fizeram pior que seus pais (Jr 6, 23, 36). E quando essa gente há de pensar em converter-se? (Os 8, 5). Quanto tempo durará essa vontade perversa? E onde encontrar loucura mais insensata que a de recusar a cura que o Senhor nos oferece?, pergunta admirado São Jerônimo (Sup. Math.).

Quem quiser ter um exemplo disso, responde São Gregório, observe o endurecimento dos judeus, que ainda não reconhecem Jesus Cristo como Messias, embora leiam todos os dias as profecias que o anunciam e vejam os milagres que ele realiza para seu cumprimento. Os elementos insensíveis reconheceram seu autor, e o coração dos juízes, mais duro que os rochedos, recusou-se a reconhecê-lo; não quiseram fazer penitência (Moral.). Observai Judas, diz o Crisóstomo: apesar da bondade de Jesus Cristo, obstinou-se em seu culpável endurecimento, vendeu seu mestre e, desesperado, enforcou-se. Pecadores endurecidos, não imiteis Judas! (8).

11. É QUASE IMPOSSÍVEL SAIR DO ENDURECIMENTO

«É impossível (isto é, dificílimo), escrevia São Paulo aos Hebreus, que aqueles que já foram iluminados, provaram o dom do céu, receberam o Espírito Santo e se alimentaram da palavra de Deus e das maravilhas do século futuro, e depois caíram, retornem à penitência; pois recebe a bênção de Deus aquela terra que, cultivada e regada, produz o que é necessário ao agricultor; mas, se não produz senão espinhos e abrolhos, é abandonada, amaldiçoada e destinada ao fogo» (Hb 6, 4-8). E mais adiante o mesmo Apóstolo repete: «Se pecamos voluntariamente depois de termos conhecido a verdade, já não há vítima pelos nossos pecados» (Hb 10, 2.6). Ora, que devemos dizer daqueles que não somente caíram, mas recaíram tantas vezes, a ponto de formar o hábito e endurecer-se nele?

«O homem pervertido dificilmente se corrige», lemos no Eclesiastes (1, 15). Ouvi, com efeito, como fala de si mesmo alguém que teve essa triste experiência: «Eu me sentia acorrentado, não por grilhões externos, mas pela minha férrea vontade. Meu inimigo mantinha cativa a minha vontade e, assim, havia formado uma cadeia com a qual me constrangia à sua vontade (9)». O homem calejado no mal rarissimamente se converte, porque não quer; quer continuar a ofender a Deus, afasta-se dele e o amaldiçoa. E, sem Deus, como é possível arrepender-se? … Contudo, não se deve desesperar: tudo é possível a Deus; ele é onipotente e, ao mesmo tempo, misericordiosíssimo; o perdão por ele concedido a outros grandes pecadores é para nós penhor de sua vontade de salvar também os endurecidos, mas não se deve perseverar no pecado.

12. CAUSAS DO ENDURECIMENTO

Uma primeira causa do endurecimento, já observada por Santo Agostinho, está na força do mau hábito, que abate e sufoca a alma, a ponto de lhe tirar até o alento (Confess.). Uma segunda causa é a negligência em escutar a palavra de Deus… Uma terceira provém da cegueira da mente e do apego ao pecado, pelos quais se rejeita e despreza o temor de Deus… Uma quarta, e principalíssima, é o orgulho. O coração soberbo é duro e inflexível.

13. SINAIS DO ENDURECIMENTO

Cinco são os sinais, que também se podem chamar efeitos, do endurecimento: 1° a cegueira espiritual, à qual alude Jó: «Andarão tateando como nas trevas e cambaleando como bêbados» (Jó 12, 25); 2° a surdez voluntária, que nos faz dizer a Deus: «Afastai-vos de nós, pois não queremos saber dos vossos preceitos» (Jó 21, 14); 3° o desprezo de Deus e dos homens: «O ímpio, quando chega ao fundo do abismo, despreza» (Pr. 18,3); 4° a obstinação em não querer corrigir-se…; 5° o torpor e o sono espiritual…

14. DESGRAÇAS E CASTIGOS DO ENDURECIMENTO

Quando as virgens insensatas se apresentaram à porta do esposo evangélico, encontrando-a fechada, puseram-se a bater e a gritar: Abri-nos, Senhor; mas receberam esta resposta: Ide embora, porque não vos conheço (Mt 25, 11-12). Ora, se existe um ser que Deus não conhece, é o homem endurecido. Mas aquele que não é conhecido por Deus não é conhecido nem pelo céu, nem pelos anjos, nem pelos bem-aventurados; é conhecido somente pelo demônio, pela morte e pelo inferno; vede, pois, em que desgraça se encontra o homem endurecido no mal.

«Ai — exclama Santo Agostinho — daqueles corações de pedra dos quais Deus se afasta e foge! (10)». Com efeito, diz Isaías, o coração do ímpio é um mar sempre em tempestade (57, 20), e a paz não foi feita para ele (48, 22). Ah! O estado de uma pessoa calejada no mal é um estado de morte já nesta vida! Abandonada ao senso reprovado, ela é como um barco destroçado, que faz água por todos os lados, abandonado às ondas.

Mas, se é infeliz em vida, pela falta de toda verdadeira alegria, muito mais desgraçado será na morte o homem de coração duro, diz o Sábio (Eclo. 3, 27); com efeito, muitas vezes nem sequer se ousa adverti-lo do perigo que corre, por temor de que não se consiga induzi-lo ao arrependimento, e assim Deus permite que morra como viveu… Naquele supremo instante, seu coração se resseca a tal ponto que já não tem confiança alguma, e a esperança passada se transforma, diz Jó, numa pontada agudíssima de dor e desespero pelo presente (11,20): «Ele verá, diz o Salmista, se enfurecerá, rangerá os dentes e lançará fel; e seu desejo se perderá» (Sl 111, 9).

«Esses pecadores murmuram e blasfemam contra Deus, continua o Profeta, mas o Senhor os ouve, sua ira se inflama e irrompe sobre eles o fogo de sua vingança» (Sl 77, 19-20); «e eles precipitar-se-ão no abismo da perdição, onde não verão mais a luz eternamente» (54,23; 48,19). «Amaram a maldição, e a terão; rejeitaram a bênção, e ela se afastará deles. A maldição os envolverá da cabeça aos pés, entrará como água em suas entranhas, penetrará como óleo até a medula de seus ossos» (Sl 108, 16-17).

A esses tais pergunta São Paulo: «Porventura pensais desconhecer impunemente as riquezas da bondade, da sabedoria e da longanimidade de Deus, sem saber que sua benignidade age assim para vos chamar à penitência? Ah! Sabei que, com a vossa dureza e impenitência, acumulais um tesouro de ira para o dia da vingança e da manifestação do justo juízo de Deus» (Rm. 2, 4-5).

Pecadores endurecidos, vós fugis de Deus, mas não vos subtraís às suas vinganças… O salário de uma vontade obstinada e contumaz será a pena eterna do inferno. «Embora cometido no tempo, diz São Bernardo, o pecado de um coração obstinado no endurecimento tem como castigo uma pena eterna, porque aquele delito, que foi breve no tempo ou na ação, é duradouro, se se considera a pertinácia da vontade, pela qual o pecador, se não morresse, jamais cessaria de querer pecar; antes, quereria viver sempre para pecar sempre (11)».

O próprio Deus diz: «Se não me escutardes e não observardes todos os meus preceitos; se pisardes os meus mandamentos e não levardes em conta os meus juízos, cumprindo o que vos ordenei; se violardes a minha aliança, primeiramente vos colocarei nas estreitezas da pobreza e acenderei em vosso peito tal ardor, que tereis os olhos consumidos; voltarei-me contra vós, e caireis ceifados pelo ferro inimigo; derramarei sobre vós, para castigar o vosso endurecimento, sete vezes mais males do que sobre os outros; quebrarei o orgulho da vossa dureza e farei para vós o céu de ferro e a terra de bronze; todo o vosso trabalho será estéril, a terra não dará mais colheitas, as árvores não produzirão mais frutos. Soltarei contra vós as feras, para que devorem a vós e aos vossos rebanhos. Se ainda vos recusardes ao arrependimento e persistirdes em contrariar-me, também eu me oporei a vós e vos castigarei sem trégua; empunharei a espada vingadora, ferir-vos-ei com a peste e vos entregarei como escravos ao poder dos vossos inimigos. Perecereis, e uma terra estrangeira consumirá os vossos cadáveres» (Lv. c.26). «Ouvi o que diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Farei chover sobre este país e sobre todas as suas cidades todos aqueles males que anunciei; porque se endureceram em não dar ouvidos às minhas palavras» (Jr 19, 15). «Vós vos recusastes aos meus mandamentos e, por isso, declaro-vos que vos abandonarei, a vós que pretendeis permanecer livres para a espada, para a peste e para a fome» (Jr 34, 15-17). E, como que para encarnar e mostrar, vivos diante dos olhos de todos, essas suas ameaças, ordena ao profeta Oseias que imponha a uma de suas filhas o nome de — Sem misericórdia; — porque, diz ele, «não terei mais compaixão da casa de Israel; mas me esquecerei inteiramente deles» (Os 1, 6).

O dano mais terrível que pode acontecer a um pecador é ser abandonado por Deus; esta é a prova da impenitência e da obstinação por parte do pecador, do abandono e da reprovação por parte de Deus. Esquecido por Deus, o homem endurecido já não tem nada a esperar de Deus, de sua graça, de sua sabedoria. A causa desse abandono do Senhor é que o homem endurecido é o primeiro a afastar-se de Deus; e quem esquece e abandona a Deus bem merece, por sua vez, ser abandonado e esquecido por Deus. Tal foi o castigo infligido aos judeus deicidas…

O endurecido Faraó é golpeado por dez terríveis pragas e acaba afogando-se, arrastado para o fundo do Mar Vermelho. O braço da justiça divina ainda não se enrijeceu, e os imitadores de Faraó no endurecimento encontrarão, como ele, castigo severíssimo.

A cegueira é própria da inteligência; o endurecimento, da vontade; mas tanto uma como o outro são apego ao pecado, causa de pecado, pena do pecado… Tanto uma como o outro conduzem diretamente ao abandono de Deus, à impenitência final, à reprovação eterna…

15. O ENDURECIMENTO É OBRA DO HOMEM

Embora às vezes se diga que Deus cega, endurece e abandona o homem, isso acontece, contudo, apenas indiretamente, porque o endurecimento é uma afecção, um apego culpável e direto, pelo qual o homem rejeita a graça e lhe opõe obstáculos voluntários para impedir a ação da misericórdia divina; ora, sendo esse impedimento fruto da vontade e da obstinação do homem, não se pode negar que seja um pecado grave, o qual obriga, por assim dizer, Deus a afastar-se da alma; e, retirando-se Deus, o homem já não pode levantar-se e cai no endurecimento; por isso, é o homem que propriamente, diretamente e ativamente se cega, se endurece e se abandona ao seu senso réprobo.

Deus cega e endurece o homem: 1° permitindo que ele se cegue e se endureça…; 2° retirando-lhe pouco a pouco, porque ele o merece, não a graça suficiente, mas a graça eficaz e a abundância de suas graças…; 3° deixando ao demônio maior poder sobre o homem…; 4° apresentando ao homem ocasiões de queda, ocasiões que, aliás, são, em si mesmas, circunstâncias boas ou indiferentes, como, por exemplo, a visão de pessoas do sexo oposto, as riquezas, as honras, as adversidades, a fortuna; Deus prevê que, por essas ocasiões, o homem cairá no pecado, mas livremente, por sua própria vontade, e que se endurecerá nele; contudo, não lhe oferece essas ocasiões para fazê-lo cair, pois Deus não tenta ninguém e não quer diretamente a perdição de pessoa alguma, tendo morrido pela salvação de todos, mas para prová-lo, para dar-lhe ocasião de mérito, para fazer-lhe bem. Assim, por exemplo, Deus endureceu Faraó, golpeando-o com as pragas do Egito, no sentido de que, embora sua intenção ao enviá-las fosse que Faraó se humilhasse e obedecesse, esse rei, irritado pelos castigos que o flagelavam, tornou-se mais obstinado e endurecido contra Deus. Por isso, o endurecimento de Faraó provém diretamente de sua vontade, e é inteiramente sua culpa…

Deus endurece o pecador não tendo compaixão dele, abandonando-o ao seu endurecimento e aos seus pecados. Suponhamos que um pai adotivo queira cumular de riquezas e bens o filho que adotou; se esse filho zomba de seu benfeitor, escarnece dele e o despreza, chamaremos porventura de culpado o pai quando abandona e expulsa esse ingrato? E, se esse rebelde se torna infeliz, de quem será a culpa?… Em Deus, endurecer significa não ter compaixão, abandonar porque tal pessoa merece ser abandonada; Deus nunca abandona primeiro; se se afasta do homem, faz isso porque o homem o obrigou a afastar-se…

Isaías e Davi explicam de modo claro e evidente como os pecadores se endurecem propriamente e diretamente por sua própria malícia. «Quando estenderdes as mãos para mim, diz Deus, desviarei de vós os meus olhos; rezareis, e eu não vos atenderei, porque as vossas mãos estão cobertas de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, afastai de meus olhos a malícia de vossos pensamentos, cessai de praticar a injustiça, aprendei a fazer o bem, amai a justiça, socorrei o oprimido, protegei o órfão, defendei a viúva. Depois vinde e argui-me: se os vossos pecados, ainda que mais vermelhos que o escarlate, não se tornarem mais brancos que a neve, mais cândidos que a lã pura» (Is 1, 15-18). E o Salmista nos diz: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não endureçais os vossos corações» (Sl 94, 8). Portanto, não é Deus que endurece diretamente o homem; é o homem que o força a negar-lhe a sua graça.

Isso se vê claramente em Faraó, infeliz modelo de todos os endurecidos, pois da Escritura se conclui abertamente: 1° que Deus enviou-lhe nada menos que dez vezes Moisés, com a ordem de que desse liberdade aos hebreus para saírem do Egito; Deus queria, portanto, a saída, a partida de seu povo, não o endurecimento de Faraó; e, se o golpeou com as pragas, foi para obrigá-lo, mediante os flagelos, a fazer aquilo a que não conseguira persuadi-lo com palavras… 2° «Deus, como observa São Fulgêncio, puniu severamente a obstinação de Faraó; ora, Deus não é autor daquelas coisas que castiga e pune (12)». 3° O texto sagrado deixa a Faraó toda a culpa de seu endurecimento; com efeito, lê-se no Êxodo que, «vendo Faraó que lhe davam trégua, endureceu o seu coração» (8, 15); e pouco depois repete: «Vendo Faraó que a chuva, a saraiva e os trovões haviam cessado, agravou o seu pecado e endureceu o seu coração» (9, 34-35).

Nem a isso se opõe o texto de São Paulo: «Deus usa de misericórdia com quem quer e endurece a quem quer» (Rm. 9, 18), se tomado em seu verdadeiro sentido, que resulta do contexto: os judeus enfurecidos e quantos seguem os seus passos foram rejeitados por efeito da justiça; os cristãos que creram, e quantos creem, são justificados; os judeus foram rejeitados para serem condenados, porque os cristãos abraçaram a fé de Jesus Cristo, que os judeus não quiseram aceitar… Foram os judeus que se endureceram positiva e diretamente a si mesmos; eis por que se tornaram vasos de ira e de condenação, mas foram eles que assim se fizeram por sua culpa e por sua impenitência voluntária.

Deus está sempre pronto a compadecer-se e a usar de misericórdia para com quem lha implora; mais ainda, nunca deixa de no-la oferecer… O bem e a predestinação vêm de Deus; o mal e a condenação, do homem… Somente o homem pode pecar e peca; somente Deus o livra do pecado, quando o homem não opõe nem quer opor obstáculo à ação da graça divina…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.