Tesouro n.º 97 · Volume II

INDIFERENÇA INDIFFERENZA

2 seções · 5 parágrafos · pp. 1156–1158 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. QUEM É O INDIFERENTE

Indiferente em matéria de religião chama-se aquele que não se ocupa de religião alguma: sejam todas verdadeiras ou todas falsas, isso não lhe importa; que deva existir alguma e se, na verdade, há uma verdadeira, não se preocupa absolutamente em sabê-lo… Se há um Deus, se se lhe deve um culto e qual deve ser este; se existem dogmas sagrados ou não; o que é preciso crer, o que é preciso praticar e o que é preciso evitar; se a alma é imortal; se há depois da morte um juízo, um paraíso, um inferno, uma eternidade; se o homem foi feito para um fim e para qual fim; se existe uma revelação; se Deus falou aos homens, ordenou ou proibiu alguma coisa — todas essas são questões com as quais não se importa; pouco ou nada lhe importa como quer que se resolvam; sua religião consiste em não professar nenhuma… O indiferente pode dizer verdadeiramente aquelas palavras dos Provérbios: «Não aprendi a sabedoria, nem me preocupei em estudar a ciência dos santos (isto é, a religião)» (Pr. 30, 3); por isso, pertence ao rebanho daqueles seres que, segundo o Profeta, são inúteis para si e para os outros (Sl 13, 3).

Todos os que negligenciam os deveres religiosos também pertencem, mais ou menos, à classe dos indiferentes; é a indiferença religiosa que neles fomenta a deplorável acídia espiritual que os asfixia… E, mesmo quando cressem em tudo o que a Igreja crê e ensina, não o pondo em prática, cairiam na indiferença; sua fé está morta… Cumpre-se neles o que Deus diz pela boca de Oseias: «Dar-lhes-ei leis; mas eles não se preocuparão absolutamente com elas, como se não lhes tivessem sido dadas» (Os 8, 12); e aquilo de que se lamenta Sofonias: «Não buscaram o Senhor, empenharam-se deliberadamente em ignorá-lo» (Sf 1, 6); chegam até à impudência de dizer-lhe: «Afasta-te de nós, pois não queremos saber de tuas leis» (Jó 21, 14).

Mas o caminho dessa indiferença, que não é isenta de um culpável desprezo, conduz a um abismo vertiginoso, dizem os Provérbios (Pr 13, 15); o Apóstolo nos adverte de que não se zomba de Deus e de que cada um colherá o que tiver semeado (Gl 6, 7-8). Quem é indiferente, despreocupado de Deus, como poderá queixar-se se depois encontrar Deus indiferente e despreocupado dele?

2. CEGUEIRA E CULPA DOS INDIFERENTES

«Deus, escreve Bossuet (Oraison funèbre d’Anne de Gonzague), estabeleceu em nosso meio uma obra tal que, livre de toda outra influência e dependendo somente dele, preenche todos os tempos e todos os lugares e leva por toda a terra, juntamente com a marca de sua mão, o caráter de sua autoridade; e essa obra é Jesus Cristo e sua Igreja. Ele constituiu nesta Igreja um poder que, sozinho, é capaz de humilhar os orgulhosos e reerguer os simples e que, sendo igualmente adequado aos sábios e aos ignorantes, imprime a uns e a outros o mesmo respeito. E contra esse poder vemos rebelarem-se os libertinos, com o sorriso desdenhoso do desprezo; diante dessa autoridade, os indiferentes manifestam descaso e desprezo. Mas qual é a coisa vista por esses raros engenhos que não tenha sido vista antes pelos outros? Que ignorância é a deles! E como seria fácil confundi-los, se, fracos e presunçosos como são, não tivessem tanto medo de ser instruídos! Esses ignorantes presunçosos nada viram, nada compreendem e nem sequer podem estabelecer o nada a que aspiram depois desta vida. Ó Deus, que situação! Ver posta em dúvida até mesmo essa miserável parcela! Eles não sabem se encontrarão um Deus propício ou um Deus contrário. Se o fazem igual ao vício e à virtude, que monstruoso ídolo resulta daí! Supondo que não desdenhe julgar aquele que criou capaz de escolher o bem e o mal, quem lhes dirá o que lhe agrada ou desagrada, o que o ofende ou o aplaca? Onde aprenderam eles que tudo quanto se pensa acerca desse Ser primeiro é indiferente e que todas as religiões espalhadas pelo mundo lhe são igualmente agradáveis? Pelo fato de haver religiões falsas, segue-se porventura que não haja uma verdadeira? Infelizes de nós, se já não nos fosse dado discernir o amigo sincero, só porque estamos cercados de enganadores! Onde aprenderam eles que a pena e a recompensa não existem senão em virtude dos juízos humanos e que não há em Deus uma justiça, da qual a que resplandece em nós não é senão uma centelha? Se existe, pois, uma tal justiça suprema e, portanto, inevitável, divina e, por isso, infinita, quem lhes assegurará que ela não age segundo sua natureza e que uma justiça infinita não se exerce, por fim, mediante um suplício ou um gozo eterno e infinito? Que será, pois, dos ímpios e dos indiferentes, e que escudo têm eles contra a vingança eterna com que são ameaçados? Não lhes restando melhor refúgio, irão precipitar-se no abismo do ateísmo e colocarão seu repouso num furor que quase não encontra lugar nos espíritos? Quem lhes dissipará essas dúvidas, já que querem chamá-las por esse nome? A razão, que tomam por única guia, não lhes apresenta senão dificuldades e conjecturas. Os absurdos em que tropeçam, negando ou desprezando a religião, são muito mais duros e difíceis de digerir do que as verdades cuja sublimidade lhes causa vertigem; por não quererem crer em mistérios incompreensíveis, mas sublimes, engolem, uns após outros, erros não menos incompreensíveis, mas, além disso, absurdos. Que é, afinal, sua infeliz incredulidade, ou sua imperdoável indiferença, senão um erro desmedido, um erro culpável, uma temeridade que tudo arrisca, uma estupidez voluntária, em suma, um orgulho que não pode suportar o próprio remédio?

«Que culpável cegueira, que desgraça irreparável é essa de passar a vida inteira numa indiferença nociva quanto ao futuro da própria alma, esquecer inteiramente os próprios deveres de homem e de cristão, viver e morrer nessa cega indiferença! Como será terrível despertar nesse estado, na eternidade!» Ó vós que dormis, sacudi-vos, diz o grande Apóstolo, e levantai-vos do meio dos mortos, e Cristo vos iluminará» (Ef 5, 14).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.