Tesouro n.º 99 · Volume II

INFERNO INFERNO

10 seções · 70 parágrafos · pp. 1173–1198 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É O INFERNO

O inferno, para defini-lo em uma palavra, é a privação de toda espécie de bens e a abundância de toda espécie de males; a privação de todo prazer, o cúmulo de todo tormento… No inferno, não mais riquezas…, não mais honras…, não mais liberdade…, não mais alegria…, não mais consolação…, não mais luzes…, não mais esperança…, não mais caridade…, não mais felicidade…, não mais repouso…, não mais graças…, não mais Deus…, etc., etc… Mas, para formarmos dele uma ideia pálida, façamos brevemente uma recapitulação das diversas penas que constituem aquilo que se chama inferno.

2. PENAS DO INFERNO

1° O fogo. ― «Os réprobos, diz São Paulo, estão condenados a permanecer em meio às chamas vingadoras, porque não quiseram conhecer a Deus nem obedecer ao Evangelho (2Ts 1, 8). A mão do Senhor, como anunciava o Salmista, estender-se-á sobre os seus inimigos, e a sua destra agarrará aqueles que o odeiam; lançá-los-á numa fornalha ardente (Sl 20, 8-9); a sua ira acendeu um fogo que arderá até o fundo do inferno (Dt 32,22); e durará, para tormento dos malditos, por todos os séculos, sem jamais se extinguir nem diminuir (Mt 25, 41).

O fogo do inferno faz a alma, separada do corpo, padecer os mesmos tormentos que sentiria se lhe estivesse unida; e quando, depois do juízo universal, tiver o corpo por companheiro, ambos darão contínuo alimento ao fogo, sem que por ele sejam destruídos. «O fogo divino, diz Lactâncio, queimará e tornará a queimar sempre, com a mesma atividade e energia, os ímpios; e quanto tirar dos corpos, tanto lhes restituirá, para consumi-los novamente, fornecendo assim a si mesmo um alimento eterno (1)».

Por conseguinte, o fogo infernal, como suplício e efeito da vingança divina, é o supremo dos males; tanto mais se se considerar: 1° que ele é um fogo ardentíssimo, abrasadoríssimo, penetrantíssimo… 2° que queima as almas não menos que os corpos, sem jamais aniquilá-los… 3° que é um fogo tenebroso, fétido, que atormenta os condenados não somente com sua intensidade, mas também com sua escuridão, com sua fumaça densíssima, com seu intolerável fedor de enxofre. «Fará chover (Deus) sobre eles os seus laços; o fogo, o enxofre, o vento das tempestades serão o cálice que lhes prepara» (Sl 10,6). São João viu-os afundar vivos num lago de fogo e enxofre e vomitar pela boca chamas, fumaça e enxofre (Ap 19,20; 9,17). E mais adiante: «Quanto aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos homicidas, aos fornicadores, aos envenenadores, aos idólatras, aos mentirosos, terão como herança o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte» (Id. 21,8). 4° Finalmente, este fogo será eterno; jamais poderá apagar-se nem diminuir, e manterá em contínua agitação, num tremor incessante, os adoradores da besta, confinados ali pela ira de Deus (Id. 14,11).

«Meditai, exclama aqui Santo Agostinho, estas verdades e fazei deste fogo do inferno um escudo contra as chamas da concupiscência que vos atormentam na vida presente. O fogo material que serve aos nossos usos envolve os objetos aos quais se apega e os consome; mas o fogo do inferno devora os réprobos e, não obstante, conserva-os sempre inteiros, para castigá-los eternamente. Por isso é chamado inextinguível, não somente porque jamais se apaga, mas também porque não mata nem destrói aqueles que consome. Quanto ao poder e à eficácia daquela pena e daquele fogo, não há língua nem palavra que possa exprimi-los (2)».

Vinde contemplar o horrendo espetáculo das vítimas do fogo infernal! Entrai em espírito naquelas prisões ardentes, observai aqueles escravos atados com cadeias de chamas! Eles não estão simplesmente no fogo, observa Jesus Cristo, mas ali estão sepultados (Lc 16,22). Vede aquele fogo que irrompe daqueles olhos ébrios de lascívia, ou que tantas vezes se deleitaram em deter-se sobre objetos obscenos! Contemplai aquele fogo que entra e sai em ondas daquelas bocas que tantas vezes vomitaram cantos impuros, palavras torpes, blasfêmias execráveis e maledicências venenosas! Vede como aquelas chamas envolvem todos os membros, como penetram nas medulas, como percorrem todas as veias, para fazer do réprobo um carvão em brasa! Justiça do meu Deus, quão terrível és! Aquelas infelizes vítimas não veem senão fogo, não tocam, não engolem, não sentem senão fogo, não são senão fogo (Lc 16,24). Ah! «Quem dentre vós, exclama Isaías, poderá habitar com esse fogo devorador? quem suportará esses ardores sempiternos?» (Is 33,14). O fogo daqui de baixo, já tão ardente, é o fogo da bondade de Deus; imaginai qual será o fogo infernal, que é o fogo da justiça e da vingança do Senhor! …

As trevas. ― Os réprobos não verão mais nenhum raio de luz por toda a eternidade (Sl 40,8.19), porque, submersos no abismo, no reino das trevas, na noite da morte (Sl 87,6), ali permanecerão como mortos sempiternos (Lm. 3,6). O pecador, em vida, buscava a escuridão das trevas para entregar-se sem freio às suas paixões brutais e encontra no inferno trevas sem medida e sem fim, em punição de seus crimes… O inferno, reino de Satanás, é reino de trevas, de escuridão, de noite densíssima e eterna… Representai-vos um desgraçado acorrentado numa prisão escuríssima, condenado a jamais sair dela e a não mais ver sequer um clarão de luz: ó Deus, que condição desoladora e desesperada seria esta! melhor cem vezes a morte. Pálida imagem do infeliz estado dos réprobos, amontoados na horrenda escuridão do inferno, nos densos turbilhões da fumaça que se ergue do lago de fogo e enxofre, menos horrendo e fétido que as culpas dos condenados! …

O verme roedor. ― No inferno, no fogo que sempre queima, conserva-se, contudo, diz Jesus Cristo, sempre vivo no seio dos réprobos um verme que os rói continuamente sem jamais consumi-los (Mc 9,43); cumprindo-se neles aquela palavra da Escritura: «O Senhor entregará a sua carne à chama e aos vermes, para que sejam atormentados e dilacerados para sempre» (Jt 16,21). Este verme roedor indica os remorsos e os inúteis arrependimentos dos condenados.

São Cirilo diz: «Os réprobos gemem continuamente e ninguém deles se compadece; clamam do fundo do abismo e ninguém os ouve; queixam-se e ninguém os socorre; choram e ninguém deles se compadece. Ó pecadores reprovados, onde está agora a soberba do século? onde estão a altivez, as delicadezas, os adornos, o poder, o fausto, as riquezas, a nobreza, a força, a beleza sedutora, a audácia altiva e insolente, a alegria do crime?» (De exitu animae). A mesma linguagem emprega Santo Efrém: «Os condenados derramam rios de lágrimas amargas e, entre gemidos, soluços e gritos, vão clamando: Infelizes de nós! como pudemos desperdiçar em tamanho torpor e negligência o nosso tempo? por que nos deixamos apanhar tão estupidamente nas redes das paixões? Ó, como o escárnio e o desprezo que fazíamos das coisas santas se derramaram sobre a nossa cabeça! Deus nos falava e nós tapávamos os ouvidos! agora nós gritamos e ele está surdo. Que proveito temos agora das grandezas do mundo? Onde está o pai que nos gerou? onde está a mãe que nos deu à luz? onde estão os filhos, os amigos, as riquezas, os poderes? onde está a multidão dos clientes, o enxame dos parasitas e dos aduladores; onde estão os bailes, os festins, as danças, as diversões, os banquetes, as conversas alegres?» (Serm.).

«De três modos, observa Inocêncio III, o verme roedor da consciência dilacera os condenados: pela lembrança, pelo arrependimento demasiado tardio e pelas angústias. Os réprobos recordam, com um pesar e um remorso inefáveis, infinitos, aquilo que fizeram no mundo com tanto deleite; o aguilhão da memória atormenta dolorosamente aqueles que o estímulo do pecado havia impelido ao mal» (In lib. Sap.).

«O verme roedor, diz também São Bernardo, é a memória do passado; nascido na alma juntamente com o pecado, apega-se a ela tão tenazmente que, levado por ela consigo ao inferno, jamais dela se separará por toda a eternidade; mas, roendo-a incessantemente e alimentando-se desse alimento inconsumível, prolongará eternamente a sua vida». E pouco depois faz o réprobo exclamar: «Infeliz de mim! por que, ó minha mãe, deste à luz um filho de dor, de amargura, de indignação, de pranto e de eterno pesar!». Em seguida conclui, tremendo: «Ah! eu estremeço ao pensar neste verme roedor! (3)».

O verme da consciência, que rói até a medula e roerá eternamente os condenados, fará ressoar continuamente aos seus ouvidos estas palavras lúgubres e dilacerantes: Como vendestes por preço tão vil a vossa alma, tão preciosa, a alma única e imortal? Como, por um breve e abjeto prazer, vos lançastes nestas chamas espantosas e inextinguíveis? Poderíeis ter-vos servido, segundo a vontade do Senhor, de tudo quanto possu fazíeis e fazer disso uma escada para merecer a glória eterna, para subir aos assentos dos anjos e dos bem-aventurados; mas vós, insensatos, quisestes abusar de tudo; por isso, o vosso destino será habitar eternamente com os demônios. Pobres loucos! por que fostes tão cruéis para convosco mesmos? por que trocar a bem-aventurança eterna por um alimento imundo? por que comprar, por um instante de vil prazer, uma eternidade de desventura e de pranto? Que vos resta dos vossos prazeres culpáveis? Tudo se desvaneceu como sombra, como sonho, como fumaça.

Os condenados veem os seus desvarios e eles mesmos os censuram, dizendo, gemebundos e envenenados de dor: Ah! se ao menos, vítimas de um destino inexorável, não tivéssemos podido evitar a nossa sorte fatal, saberíamos resignar-nos à força da necessidade, e menos dolorosa nos pareceria a nossa infeliz condição; mas pensar que estava em nosso poder salvar-nos e que nos perdemos por nossa culpa, isso nos atormenta mais do que tudo! Somente a nós devemos a nossa horrível desgraça. Nós somos os artífices da nossa desventura; somente a nós devemos imputar a perda infinita e irreparável que sofremos de Deus. Dependia de nós possuí-lo eternamente no céu, reinar com os santos; estava aberta para nós, não menos que para os outros, a porta daquela bem-aventurada morada; mas nós nos recusamos a entrar nela e abandonamos o caminho que conduz para o alto, para nos mantermos na estrada espaçosa que nos levou à perdição: «Ó Israel, a tua perdição vem de ti mesmo» (Os 13,9). Ah! cegos e insensatos que fomos! valia a pena que, por bens tão frágeis e tão fugazes como são os terrenos, por prazeres insípidos e abjetos, dos quais não nos resta senão a memória e a vergonha, lançássemos fora os bens eternos, as delícias inefáveis de que agora gozaríamos no reino da glória? Convenia que nos afeiçoássemos a uma criatura indigna, em vez de ao Criador, que somente podia satisfazer os nossos imensos desejos?

Oh! que espinho agudíssimo para os réprobos a perda voluntária de Deus, do céu, da salvação eterna; que amargo pesar, que ardente remorso lhes dilacerará as entranhas! Naquele inferno, onde a alma, recolhida em si mesma, já não terá como sair nem meio de se entorpecer ou distrair, sentirá toda a acerbidade e o tormento desses remorsos; estará como que cercada, sitiada, ferida por eles de todos os lados; para qualquer lado que se volte, tropeçará nesses espinhos, que nela penetrarão tão profundamente que lhe será impossível arrancá-los. Não passará um momento sem que ela se represente e censure os pecados cometidos e aqueles de que foi causa; o abuso que fez das graças concedidas por seu Deus: suas culpas não se apresentarão diante dela de maneira confusa, nem umas depois das outras, mas distintamente, todas de uma só vez e em toda a sua deformidade, e lhe dirão: Reconheces-nos? foste tu que nos fizeste; somos obra de tuas mãos. Este pensamento cruel — perdi Deus por minha culpa — jamais deixará por um instante o condenado, que será incessantemente afligido, angustiado, atormentado por ele. Infeliz de mim, dirá a si mesmo, que foi que fiz? Sacrifiquei o meu Deus, a minha alma, a minha eternidade; atraí sobre mim suplícios eternos! abusei do sangue de Jesus Cristo e calquei aos pés as suas graças! vejo o Calvário ao meu lado, vejo o sangue de Jesus gotejar da cruz sobre a minha cabeça e alimentar a chama que me devora!

Ó desgraçados réprobos, agora vedes as vossas más ações e delas vos horrorizais, mas é demasiado tarde! Infelizes! Ninguém vos obrigava a pecar; o mundo, o demônio e as paixões vos convidavam e solicitavam, mas não vos violentavam. Sois vós que livremente escolhestes a morte em troca da vida, o demônio em vez de Deus, o inferno em lugar do céu! …

A escravidão. ― Os condenados estão todos ligados e acorrentados uns aos outros, e cada qual à sua própria corrente: grilhões particulares, grilhões universais; mas todos incandescentes num mesmo fogo, todos temperados em suas próprias lágrimas, para que não se rompam nem se desgastem.

O Sábio viu os desertores da divina Providência jazerem todos presos a uma mesma cadeia de trevas (Sb 17, 17,2); viu-os como feixes de palha, atados juntos, consumirem-se no fogo (Eclo. 21, 10); a mesma comparação foi empregada por Jesus Cristo quando, simbolizando os maus pelo joio, disse que este seria ceifado e, atado em feixes, lançado ao fogo (Mt 13, 30).

Nas galés, os condenados eram amarrados vários juntos, de modo que, quando um galeote caminha, para, sobe ou desce, imprime aos outros os mesmos movimentos. Pálida imagem do que acontece no inferno! Todos os réprobos, ligados uns aos outros, são obrigados a suportar todos os movimentos, as agitações e as contorções de cada réprobo; e cada condenado, os abalos e as agitações de todos os danados. Em consequência desse furioso e incessante estremecimento, todos os ecos do inferno ressoam continuamente com o confuso e ensurdecedor ruído produzido pelo arrastar das pesadas correntes da inumerável turba dos demônios e dos réprobos.

Como um leão acorrentado e furioso se agita, morde raivosamente a sua corrente e a rói, rugindo, assim o condenado se afadiga continuamente em limar com os dentes as suas correntes; procura rompê-las, sem jamais alcançar o seu intento…

A separação de Deus. ― A privação da visão de Deus constitui a principal e mais acerba pena dos condenados. Um Deus perdido! Este bem por excelência, o autor e a fonte de todo bem; ó céu, que perda! Poderá jamais o homem sentir toda a sua amargura, medir toda a sua extensão? Não há mente que possa compreendê-la. Quem quiser formar dela alguma ideia, recorde aquela invencível ânsia de felicidade de que todos estamos sedentos. Essa ânsia é um sentimento profundo que nos domina e nos acompanha por toda parte; é o móvel de todos os nossos projetos, de todos os nossos empreendimentos e ações. Esse desejo é obra do próprio Deus; foi Ele quem o inseriu no coração do homem no mesmo ato em que o criava. Ora, somente Deus pode satisfazê-lo; Ele fez o coração do homem para Si e somente Ele pode contentá-lo: por isso esse coração chama a Deus seu único e supremo bem. Entretanto, o homem, distraído pelas inclinações e pelas seduções dos sentidos, afasta-se de Deus e busca em outra parte a satisfação de seus desejos; como, porém, está fora do caminho, sente-se agitado e perturbado pela falta daquele objeto que, sozinho, pode constituir a sua felicidade. E quem quer que o tenha experimentado ainda que por pouco tempo bem pode dizer quanta inquietação e quanta aflição lhe advieram nos dias de tal desventura. Viajante sobre a terra, se, em vez de elevar o olhar ao céu, o fixa naquilo que o rodeia; se põe nas riquezas, nas honras e nos prazeres o objeto de sua felicidade, com que ímpeto não se lança atrás dessas quimeras! Nada o impede nem o detém; corre para o objeto desejado; os riscos e perigos, em vez de extinguirem seus desejos, inflamam-nos, e os obstáculos irritam-lhes o ardor. Vede o guerreiro que enfrenta mil vezes a morte nos campos de batalha para cingir uma coroa de carvalho! O mercador afasta-se da família, da pátria e dos amigos, atravessa montanhas, cruza mares desconhecidos, desafia tempestades e naufrágios em busca da fortuna. Quem pode dizer o ímpeto violento dos desejos daquele que é dominado pelo amor às criaturas? A paixão apodera-se de todas as suas faculdades; a menor demora o impacienta; a necessidade de possuir aquilo que ama absorve-o de tal modo que, algumas vezes, se torna mais forte que o próprio amor à vida; não raro se veem pessoas que tiram a própria vida por mania amorosa. Os infelizes matam-se porque não conseguiram alcançar aquele fantasma que julgavam dever constituir a sua felicidade.

Ó cegos e insensatos mortais, não vedes que nada do que existe na terra pode satisfazer os desejos do vosso coração? Reuni todos os prazeres, combinai-os, vari
ai-os à vontade, multiplicai-os sem fim, mas não tardareis a sentir-lhes a insuficiência e o vazio. Incapazes de saciar a fome do coração, esses frutos da terra encantam e seduzem na aparência, mas, mal são saboreados, dão amargura e putrefação. Os prazeres e as afeições do mundo depressa se consomem e com dor. Tudo passa e não deixa atrás de si senão desgosto, angústia, ansiedade, inquietação e aquele vago e indefinível tédio que, pode-se dizer, forma a trama da vida humana. Não, não, nada pode aqui embaixo preencher o coração humano; ele é muito maior que o mundo; pede o seu Deus, quer o seu Deus; buscava o seu Deus até mesmo quando um objeto enganador o seduziu e iludiu…

Aqui na terra, o homem, distraído e enganado por aquilo que o rodeia, não reflete sobre essa verdade; aos olhos dos mundanos, porém, ela passa inteiramente despercebida; mas no inferno não haverá mais distrações, porque não haverá mais ilusões. A alma do pecador, que na terra dormia, desperta no inferno, e ali desperta para nunca mais adormecer. Ela vê, já não cega nem iludida, o seu Deus; vê-O como seu único bem, como o único objeto que pode torná-la feliz. Lança-se então para Ele com a rapidez do raio; mas um braço invisível a detém, repele-a, um intervalo imenso a separa de seu Deus; segundo o que Abraão respondeu do céu ao rico perverso, que lhe pedia do inferno uma gota de água: «Meu filho, um grande abismo está cavado entre nós e vós: os que querem passar daqui para vós não podem, nem de aí passar para cá» (Lc 6, 26).

Entretanto, a alma precipitada no inferno não deixa de voltar os olhos para o céu; nele vê sempre o seu Deus, conhece a sua grandeza, contempla as suas perfeições. Grande Deus, exclama ela, não há mais remédio? Eu Vos perdi e, perdendo-Vos, perdi tudo! Belo paraíso, para o qual eu fora criada, jamais, jamais vos tornarei a ver! Ó morada bem-aventurada; ó pátria de delícias, as vossas portas estão fechadas diante de mim para sempre! Um trono de glória estava preparado para mim em vós, e agora dele fui expulsa para a eternidade! Queridos parentes, diletos amigos, que sois os seus felizes habitantes, dei-vos, portanto, um eterno adeus! Jamais gozarei convosco da visão e da presença de meu Deus! Jamais saborearei aquela torrente de delícias pela qual sois inundados! Jamais participarei convosco da vossa glória! Sobre a vossa cabeça resplandece a coroa da imortalidade, e aquela que me estava destinada deixei-a cair da cabeça para sempre! Não há remédio; perdi tudo, e a minha perda é irreparável!

E, entretanto, essa alma inflama-se de novo ardor, toma novo impulso, mas em vão! Sente-se apertada e pregada ao inferno pelas correntes que não pode romper. Quem pode imaginar a acerba intensidade desse tormento: sentir-se atraída e impelida sem cessar para o céu e ver-se continuamente repelida e lançada de volta ao inferno! Ela tende para Deus como para o seu centro, dirige-se a Ele com ímpeto impetuoso; as ondas de um mar em tempestade, que se sobrepõem, chocam-se, impelem-se e quebram-se sem trégua contra os rochedos, são uma débil imagem da agitação e da perturbação daquela alma. Para onde vais, alma culpada? Acautela-te: voas diante do teu juiz, lanças-te nos braços do teu inimigo, sob os golpes de um Deus onipotente e punidor! Mas não; nem essas reflexões, nem esses temores, nem os castigos que prepara para si podem refrear o violento impulso que a arrasta. Ela se lança por necessidade de sua própria natureza e o peso de sua iniquidade faz que recaia sobre si mesma; encontra em seus pecados um muro insuperável aos seus mais impetuosos desejos. Eleva-se, levada pela imensa necessidade que tem de seu Deus, e todos os atributos divinos por ela ultrajados a repelem; Deus a repele pelo ódio necessário que tem ao pecado. Tenta novamente lançar-se para Deus, e a rapidez e a persistência de seus esforços fazem-na compreender que fora criada para gozar de Deus; é repelida por Ele, e o peso do golpe que a esmaga faz que compreenda melhor ter obrigado Deus a repeli-la. Todo o seu ser, todas as suas tendências a arrastam ao seio da divindade, e a mesma mão que imprime esses movimentos à sua vontade, com força invencível, repele-a de Si. Ela se eleva por desespero; Deus a repele por justa vingança. Dois movimentos terríveis a arremessam continuamente de um lado para outro: de um lado, é irresistivelmente atraída para Deus, para possuí-Lo, longe dos demônios e do fogo, para evitá-los; de outro, é obrigada a recair, repelida por Deus e puxada pelos demônios. Impulsiona-se sem cessar para Deus, e Deus continuamente a repele; foge sempre dos demônios, e os demônios mantêm-na sempre acorrentada no fundo do abismo. Deus, para quem ela tende, foge dela; os demônios, que ela abomina, abraçam-na. Foge de si mesma sem poder fugir de si; suspensa entre Deus e os demônios, entre o auge da felicidade e o extremo da miséria; igualmente infeliz quando se esforça por aproximar-se da fonte de todo bem e quando dela é violentamente arrancada; tão atormentada quando sai de si mesma como quando é obrigada a voltar a entrar em si, encontra o seu Deus sem poder possuí-Lo, deseja-O sem poder saborear a doçura de seus desejos; odeia-O sem experimentar o triste consolo que às vezes o ódio proporciona; passa das trevas à luz, da luz às trevas; vai de abismo em abismo, de horror em horror; leva o inferno para o céu e traz a imagem do céu até o próprio inferno. Ó cruel tormento!

Toda espécie de males. ― Diz São Cipriano: «O réprobo, despojado de toda veste, será queimado por chamas incorruptíveis; o rico, hoje vestido de púrpura, será abandonado nu à ação de um fogo devorador. As paixões encontrarão o seu suplício e o seu alimento eterno nos seus próprios ardores; os miseráveis condenados serão consumidos em caldeirões incandescentes. Ai! Que lugar cruel é o inferno! Lugar de pranto, de gemidos, de soluços. O réprobo aspira e respira o horrível incêndio do abismo e das chamas que se lançam furiosas como de uma cratera, na horrenda noite das trevas. Dos montes de fogo desabam pedras ardentes sobre todos e cada um dos condenados, esmagando-os.

Ardentes e inflamadas lavas de enxofre, pez e betume formam uma torrente impetuosa que os arrasta e precipita ao fundo do abismo, onde permanecem afogados e sepultados, como o Faraó e o seu exército nos turbilhões do Mar Vermelho. As chamas ardentes que enchem o inferno dele sairiam, se encontrassem uma fresta; mas, como o inferno está hermeticamente fechado com o selo do Deus vingador, as chamas que lhe incandescem a abóbada curvam-se e recaem sobre si mesmas, envolvendo os condenados de mil maneiras» (Serm. de Ascens. Domin.).

«O rico morreu e foi sepultado no inferno», disse Jesus Cristo ― Mortuus est dives et sepultus est in inferno (Lc 16, 22). Em vida, havia sepultado a alma na devassidão; ei-lo agora morto, jazendo no sepulcro do inferno e pedindo, por misericórdia, uma gota de água. «Ó rico miserável! exclama o Crisóstomo, tu suplicas a Abraão e te enganas! Abraão nada pode dar-te, nem conceder-te coisa alguma, mas somente receber. Olhemo-nos neste rico que necessita do pobre!» (Concio, 1, de Lazaro). «Eu ardo neste incêndio; ah, dai-me uma só gota de água!», clama o desgraçado glutão. «Mas, se o fogo do inferno te abrasa por inteiro, responde-lhe São Pedro Crisólogo, se as chamas te cercam, por que não pedes outro alívio senão refrigério para a língua? … Ah», responde o santo, «porque é a sua língua, aquela língua que insultava o pobre e negava a esmola, que é atormentada de modo muito mais atroz que todos os outros membros» (Serm. CXXIV). «Ele implora», diz Santo Agostinho, «uma gota de água àquele que lhe havia pedido uma migalha de pão; a misericórdia lhe é negada na proporção de sua avareza. Esse rico, sempre duro, sempre impiedoso, quer agora vir em auxílio de seus irmãos; mas, tardiamente terno e compassivo, não obterá nada do que pede. O pobre Lázaro conquista a bem-aventurança com a própria pobreza; o rico malvado alcança a infelicidade com o seu ouro. Ó rico! com que rosto imploras uma gota de água, tu que recusaste uma migalha de pão? Terias aquilo que pedes, se tivesses dado aquilo que te era pedido» (Serm. CX, de Temp.).

Na outra vida, o rico malvado tem por palácio o próprio inferno; por alimentos, o fogo, o enxofre, o fel e répteis de toda espécie; por perfumes, o mais nauseante e insuportável fedor; por amigos, os demônios como aduladores; em vez de púrpura, está cingido de chamas; enxofre e piche lhe servem de vestes; tem por luz as trevas, por companhia os demônios que, como cães raivosos, mordem-se e dilaceram-se entre si. Em suma, todos os membros do corpo, todas as faculdades, todas as potências da alma, que foram instrumentos dos prazeres, são atormentados por castigos e flagelos próprios a cada sentido e a cada faculdade…

«O réprobo», diz o Apocalipse, «beberá do vinho da ira de Deus, misturado com vinho puro no cálice de sua vingança, e será atormentado com fogo e enxofre» (Ap. 16, 10). Meditem os pecadores sobre estas palavras e encontrarão nelas os frutos e os castigos do pecado nestas penas: 1° O condenado beberá o fel da cólera do Senhor… 2° Este fel será sem uma gota de água, isto é, de consolação, e fará as vezes de toda espécie de suplício… 3° O réprobo alimentar-se-á de fogo e enxofre… 4° Será objeto de escárnio e de vitupério para os anjos e para os santos, na presença do Cordeiro… 5° A fumaça de seus tormentos se exala pelos séculos dos séculos… 6° Não gozará de um instante de trégua… Considerando estas coisas, digam a si mesmos: quereríamos nós ser tão loucos que, por um gole de mel enganador, por um prazer passageiro, nos afogássemos num mar de fel? Seríamos tão estultos que, por uma satisfação vergonhosa, nos lançássemos de olhos fechados para sempre no inferno? Ah, não! Nunca! O que deleita aqui embaixo passa num instante; o que atormenta no inferno dura eternamente (AUG., Serm. XC).

«O inferno», escreve Hugo de São Vítor, «é um lugar que não se pode medir, um abismo sem fundo, cheio de toda espécie de dores e de todos os tormentos imagináveis» (Lib. 4, de Anim.). Nele está o escoadouro de toda a escória de bandidos, assassinos, adúlteros, ladrões etc…. A vista é continuamente afligida por espectros horríveis, por fantasmas espantosos; a carne é enregelada pelo frio mais intenso, enquanto arde, inflamada por fogo inextinguível. Além disso, cada paixão encontra ali o seu castigo especial: o beberrão será abrasado por uma sede devoradora e terá o fel por bebida; o orgulhoso será coberto de vergonha e ignomínia, de lama e podridão; o impudico engolirá fogo; o vaidoso vestirá trapos imundos; o avarento estará na miséria; o indolente será eternamente estimulado, picado e privado de repouso; a beleza transformar-se-á em repugnante fealdade; o poder, em escravidão; a glória, em vitupério…

Deus, segundo as vigorosas alegorias do Salmista, fará chover laços sobre os miseráveis condenados, destinar-lhes-á como porção o fogo, o enxofre e o turbilhão das tempestades, dar-lhes-á de beber na taça de uma mistura amarga; e da borra daquele cálice, que irá espalhando por toda parte, serão obrigados a beber todos os pecadores (Sl 10,6; 74, 7-8).

Eis o horrendo quadro que o Sábio nos dá dos terríveis espectros infernais: «Ali há animais de espécies nunca vistas, de formas desconhecidas, de ferocidade inaudita; pela boca vomitam fogo, pelas narinas expelem nuvens de densa fumaça, dos olhos lançam chamas ardentes; com as mordidas matam, com o hálito empestam, e a simples vista faz empalidecer de espanto» (Sb 11, 19-20). «Ali, estrondos de pedras que rolam, mugidos de feras, correrias de animais, dos quais ressoa entre aqueles montes de chamas um eco espantoso» (Ib. 17, 18).

Tudo se revolta contra os réprobos e lhes move guerra encarniçadíssima… No mundo, o pecador abusava de tudo, tudo manchava, tudo profanava; no inferno, tudo se converterá para ele em instrumento de suplício e de tortura… Imaginai quantas espécies de tormentos, de dilacerações e de penas pode inventar a mais refinada barbárie, e pensai que, comparadas com o fogo e os sofrimentos do inferno, elas não passam de uma imagem pálida, de uma leve sombra da realidade. Ali se cumpre em toda a sua crueldade e extensão aquela ameaça do Senhor: «Acumularei sobre eles todos os males, lançarei contra eles todas as minhas flechas» (Dt. 32, 25). Entregá-los-ei como alimento às feras, lançá-los-ei como presa à fúria das serpentes; serão consumidos pela fome e servirão de pasto às aves de rapina (Ib. 24).

No inferno há um contínuo chorar, gemer, gritar, tremer da pessoa e ranger de dentes. É um oceano imenso de fogo que se agita, se eleva e se precipita; são ondas de chamas que se sucedem, se entrechocam, bramem e arrastam uma multidão de homens e demônios, que exalam sem cessar lamentos dilacerantes e desesperados. Arder no fogo, clamando misericórdia sem esperança; não poder sair nem mover-se daquela negra prisão, daquele caos tenebroso; ser observado por carrascos ferozes, carregado de correntes, perseguido continuamente pelos demônios com garras de falcão, açoitado a golpes de chicote; ser mergulhado nas chamas, afogado numa torrente de piche e enxofre; estendido sobre leitos de carvões ardentes e inextinguíveis; perseguido pelo verme roedor e por um juiz inexorável; não encontrar escape, não esperar defesa de criatura alguma, mas ser acusado por todas: eis a condição dos condenados, exclama São Cirilo de Alexandria (Orat. de Animae excessu).

Os réprobos no inferno são consumidos pela inveja, pelo ciúme, pela cólera, pelo ódio, pela tristeza, pelas angústias, pelos remorsos, pelo desespero… A pena do inferno é uma pena longuíssima, que se perde na eternidade; é uma pena extensíssima, que aflige todos os sentidos, todos os membros do corpo, todas as potências, todas as faculdades da alma; é uma pena altíssima, que priva de Deus, do céu e da felicidade dos eleitos; é uma pena profundíssima, que crucifica o interior da alma e a prega no fundo do abismo infernal… «Ó quão grande é», exclama São Próspero, «a desgraça de ser estranho à inefável alegria da contemplação divina, de ser excluído da bendita sociedade dos santos, de jamais chegar à cidadania do paraíso, de estar morto para a vida do céu, de viver para a morte eterna; de ser lançado para sempre, com o dragão e seus anjos, no lago de fogo, onde se encontra a segunda morte, o exílio, a danação, o suplício da vida; de estar sepultado em meio a chamas tenebrosas, num lago de fogo que arde e nunca se consome, que queima e ao mesmo tempo gela; de nada ver e sofrer todos os tormentos imagináveis! Ali há gemidos incessantes, crucifixão perpétua, dor infinita! Pensar nessas penas significa despedir-se de todos os vícios e repudiar todas as seduções das paixões» (De Vita contemp. 1.b. III).

No inferno, o fogo castiga a luxúria dos réprobos; uma tempestade de pedras inflamadas abate sua soberba e seu fausto; a fome castiga sua gula; a morte golpeia sua vida ímpia e escandalosa; as presas das feras dilaceram a violência e a tirania com que oprimiram os pobres e as almas piedosas. O leão os despedaça; o escorpião os tortura; a serpente faz-lhes expiar a malícia e a inveja que os atormentaram. Vergonha, confusão eterna! Ali os mais ricos não se distinguem dos mendigos; os mais elevados jazem no lugar mais baixo; os mais sábios estão convencidos de terem sido os mais insensatos; aqueles que mais se estimavam são os mais desprezados; os mais vaidosos de sua beleza são os mais repugnantes; aqueles que foram os mais perfumados serão os mais fétidos; aqueles que amavam dominar sobre todos são calcados aos pés por todos, etc.

3. O RÉPROBO É AMALDIÇOADO POR DEUS, PELO DEMÔNIO E PELOS OUTROS RÉPROBOS

A partir do instante em que o Juiz supremo tiver pronunciado contra os pecadores que entram na eternidade manchados ainda que por um só pecado mortal a terrível e irrevogável sentença: «Afastai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo eterno» (Mt 25, 41), a maldição de Deus jamais se afastará deles, mas os esmagará e os arrastará por todos os séculos.

Sobre a maldição de Deus lemos na Escritura: «Amou a maldição, e ela lhe cairá sobre a cabeça; não quis a bênção, e ela se afastará dele. A maldição o cobrirá como uma veste, entrará como água em suas entranhas, penetrará como óleo em seus ossos. Será para ele como um traje que jamais se depõe, como um cinto que lhe cinge os rins» (Sl 108, 16-18). Eis, pois, designados quatro terríveis efeitos da maldição de Deus: 1° ela circunda exteriormente o réprobo…; 2° entra em seu interior e se apega às potências da alma…; 3° impele-o ainda mais adiante e o fere até o íntimo de sua substância, como o óleo que penetra até os ossos…; 4° esta maldição jamais o abandonará por um só momento… Tal é a infeliz condição do condenado sob o peso da maldição divina! … Uma alma criada à imagem de Deus, redimida pelo sangue de um Deus, ser maldita por seu Deus, por seu Criador, por seu Redentor, por seu único e soberano bem! Quem pode compreender, quem pode explicar este sumo e indefinível mal? …

Enquanto os pecadores estão neste mundo, os demônios não cessam de lisonjeá-los, para seduzi-los e precipitá-los no inferno. Como outrora aos nossos primeiros pais, oferecem-lhes a cada hora frutos proibidos, dizendo: «Não morrereis, mas vos tornareis como outros tantos deuses» (Gn 3,4-5). Mas no inferno, em vez de lisonjeá-los, amaldiçoarão sem fim aqueles cegos que engoliram o veneno da sedução…

Na horrível prisão onde se expiam, entre atrozes suplícios, as culpas da vida, encontrar-se-ão reunidos os companheiros de dissolução que competiam entre si para ver quem mais ultrajava o pudor. Ali os amigos se tornarão algozes dos amigos; insultar-se-ão mutuamente, ultrajar-se-ão, cobrir-se-ão de amargas recriminações, lançarão uns contra os outros injúrias sanguinárias e horríveis maldições. Ali o pai negligente e escandaloso se encontrará com o filho transviado, que gritará furioso: Pai maldito, foste tu que me puseste no caminho do crime; tu me ensinaste a enganar o simples e o incauto, a defraudar o artífice; tu semeaste em meu coração os funestos germes da ambição, tu me ensinaste a profanar o domingo, a blasfemar, a embriagar-me, a desprezar os preceitos da Igreja. Tu és o autor da minha desgraça; eu te amaldiçoo e te amaldiçoarei eternamente!

A filha se lançará como uma fúria contra sua mãe, gritando: Mãe desgraçada, por que me deste à luz, se querias preparar-me uma eternidade de suplícios? Teu exemplo foi para mim contínua escola de imodéstia, de coqueteria, de libertinagem; tua culpável e frívola negligência, tua relaxação me perdeu! Por que não me estrangulaste com tua própria mão, ainda no berço? Sê maldita para sempre! E todos os ecos do inferno repetirão: Sê maldita para sempre!

Ali, ó libertinos escandalosos, encontrar-vos-eis com as vítimas de vossas seduções; elas permanecerão sempre ao vosso lado para vos pungir e dilacerar, e cada uma de suas recriminações será uma seta aguda e ardente que vos transpassará o coração. Corrup­tor abominável, assassino cruel, sedutor hipócrita, tu me tiraste a inocência, arrebataste minha virgindade, roubaste minha honra, furtaste minha coroa; mataste minha alma e fizeste-me perder meu Deus! Vai, diabo encarnado! Em que te havia ofendido minha alma imortal, destinada à vida da glória eterna, para merecer que lhe desferisses o golpe da morte eterna? Sofre e desespera, ó cruel, sofre para sempre! Em meu implacável ódio, amaldiçoo-te eternamente!

4. MORTE NO INFERNO

Diz o profeta que os réprobos serão amontoados como ovelhas no inferno, e a morte fará deles seu pasto (Sl 48,14). «É uma excelente comparação, escreve São Bernardo: perdido o velo das riquezas, os réprobos, inteiramente e duramente despojados, são lançados nus para arder entre as chamas eternas. A morte deles se alimentará, porque morrerão sempre para a vida e viverão sempre para a morte; seu corpo é abandonado aos vermes, sua alma ao fogo, até o dia em que, novamente unidos numa infeliz união, sofrerão juntos os suplícios, eles que foram companheiros nos vícios (4)». «A morte, acrescenta São Jerônimo, comentando as palavras citadas do Salmista, será o pastor dos condenados; é justo que sejam guardados e apascentados pela morte aqueles que não quiseram ter Cristo como bom pastor (5)».

«O pecado consumado gera a morte» (Tg 1,15). «E não há morte, diz Santo Agostinho, tão terrível e desgraçada quanto a morte que nunca morre (6)». Aqui na terra, observa também São Gregório, o pecador morre para a vida; no inferno, viverá da morte. A morte vive para vós, ó desafortunados réprobos, e vosso fim está sempre no começar. O condenado expiará todos os seus delitos, mas não será destruído. A morte não o aniquila, porque, se a vida desta morte fosse destruída, ele deixaria de existir; mas, para que seja atormentado sem fim, é obrigado a viver nos suplícios; é justo que aquele cuja vida na terra foi uma morte no pecado sofra no inferno uma morte que seja uma vida nos castigos (7). «No inferno, repete em outro lugar o mesmo santo, a alma perde a vida da felicidade, mas não o seu ser; daí a dura necessidade de sofrer a morte sem morrer, de perecer sem perecer, de terminar sempre sem jamais terminar; porque, para ela, a morte é imortal; é uma consumação sem consumação, um fim sem término. A morte é, pois, para os condenados, uma morte imortal, um fim infinito, uma destruição indestrutível (8)».

Como é triste e terrível a sorte dos réprobos! Pois, assim como os cadáveres servem de pasto aos vermes, assim as almas reprovadas servem de alimento à morte por toda a eternidade, e sua vida será alimentar-se da morte! … No inferno, a morte está sempre viva; ali está o seu reino, o seu trono; ali encontra uma fecundidade inesgotável. Se, portanto, quereis saber o que é o inferno, ouvi: o inferno é a morada, o reino da morte; porque a morte eterna ali domina absolutamente, reina sobre todos os condenados, homens e demônios, e seu império jamais verá fim. Na terra, os pecadores estão no vestíbulo da habitação da morte, mas no inferno estão nos aposentos mais secretos, nas câmaras mais interiores de seu palácio. O céu é o reino da vida, porque Deus é seu rei; o inferno é o reino da morte, porque ali ela comanda e domina como única senhora.

«Causa-me espanto, exclama horrorizado São Bernardo, a morte sempre viva; estremeço ao pensar em cair presa daquela morte que sempre vive, daquela vida que sempre morre; é esta a segunda morte que jamais tira os sentidos e, contudo, sempre mata. Ó Deus! Quem concederá tal graça aos pecadores, que morrem uma vez, para que não morram eternamente! (9)». E depois, a propósito daquelas palavras de Oseias: «Dirão aos montes: Caí sobre nós; e às colinas: Sepultai-nos» (Os 10,8), continua assim: «Que desejam os condenados senão a morte da morte, para que possam finalmente morrer ou fugir da morte? Mas, por mais que invoquem a morte, a morte jamais virá para libertá-los (10)». «Pois no inferno, diz São Gregório, a alma é imortalmente mortal e mortalmente imortal. É imortal, porém, de modo que pode morrer; e é mortal de modo que não pode morrer: o vício e o tormento lhe tiram, na verdade, a vida bem-aventurada, mas lhe deixam a vida que depende de sua essência (11)».

5. COMO OS DEMÔNIOS TRATAM OS RÉPROBOS

Ouvi como Isaías descreve a acolhida que se faz ao réprobo no inferno: «Ao aparecer pela primeira vez no limiar do inferno, a casa da morte se alvoroça; os demônios que ali imperam lançam-se ao seu encontro para dar-lhe as boas-vindas, e toda a multidão dos condenados, batendo palmas e soltando horríveis e altíssimos gritos, diz-lhe: Também tu foste ferido como nós! Também tu te tornaste semelhante a nós! Tua soberba caiu no fundo do abismo, teu corpo jaz por terra e os vermes serão tua veste» (Is 14,9-11).

Todos os demônios se aglomeram à porta do abismo e, ao apresentar-se um condenado, gritam com infernal alegria: Vem, ó réprobo, morar conosco, em meio ao fogo, entre chamas eternas; vem deleitar-te com a fumaça dos tormentos, que sobe pelos séculos. Vem, pois nada nos importa tanto quanto recompensar-te pela obediência com que acolheste nossas sugestões. Tu nos ouviste e seguiste quando te sussurrávamos: Bebe deste licor da volúpia, embriaga-te de cólera, de blasfêmia etc.… Tu nos davas ouvidos na terra; escuta-nos também agora, quando te dizemos: Bebe o cálice do fogo misturado com enxofre; traga a taça da cólera do Deus vivo; mergulha os lábios no vaso de nosso furor… Todos os demônios estão encarniçados em perseguir, maltratar e torturar o réprobo. Vítima na terra de suas sugestões, ele se torna no inferno vítima de seu incessante furor… Meditai, ó pecadores, estas verdades terríveis, mas salutares.

6. DESESPERAÇÃO NO INFERNO

Os réprobos estão excomungados e separados para sempre de Deus, dos anjos e da Igreja. Eles não recebem nem podem receber auxílio nem de Deus, nem dos anjos, nem dos homens, nem de qualquer outra criatura. Esquecidos e abandonados por Deus, pelo céu e pela terra, já não têm possibilidade de fazer penitência; suas orações já não têm valor, a redenção já não lhes pode ser aplicada; excluídos para sempre da misericórdia, estão condenados, por irrevogável juízo, a jamais ver Deus, a morar eternamente com os demônios, num fogo que nunca se apagará; todas as criaturas visíveis e invisíveis, corporais e espirituais são suas inimigas; odeiam-se e maltratam-se mutuamente; estão privados de toda caridade e reconciliação; compreendem com extrema clareza e sentem vivissimamente aquilo que perderam para sempre e aquilo que ganharam com o pecado; veem-se desprovidos de todo recurso, fechada toda via para chegar a amar a Deus…

Neste estado horrendo, o réprobo range os dentes e entrega-se ao mais desolador e cruel desespero. Na raiva de sua desgraça irremediável, vai repetindo: Meu fim está perdido, não há mais para mim fio de esperança (Lam. 3,18). Meu desvario não tem saída, não há mais escape, nem vida; vã e impossível é toda esperança de ver o fim de minhas desgraças; elas não terão mais término; jamais serei libertado delas; jamais terei sequer um minuto de repouso, de liberdade, de alegria, de consolação! A horrível prisão de onde jamais sairei não tem porta! ― E não é isto um motivo para envenenar sua raiva, para obrigá-los a ranger os dentes?

«Nos braços da horrível desesperação, eles fazem ouvir, diz Santo Efrém, este doloroso adeus: Adeus, apóstolos, profetas, mártires, todos os justos! Adeus, senado dos patriarcas! Adeus, exército dos anacoretas! Adeus, cruz preciosa e vivificante! Adeus, reino eterno dos céus, bela Jerusalém, mãe dos eleitos, paraíso de delícias! Adeus também a vós, nossa Senhora, mãe de Deus, genitora daquele que tanto amou os homens! Adeus, pais e mães, filhos e filhas, esposos e esposas; adeus, jamais tornaremos a ver-nos!» (Tract. de Abrenunt, et variis inferni poenis).

7. GRADAÇÕES DE SUPLÍCIOS

«Um julgamento severíssimo aguarda os que presidem», diz a Sabedoria; e, por isso, um castigo mais rigoroso está preparado para eles no inferno (6,6). Os mais famosos nos delitos, os mais astutos nas seduções, os mais escandalosos nos costumes, os mais velhacos nos cargos, serão condenados a tormentos mais duros, submetidos a suplícios mais atrozes; um fogo mais ardente, uma noite mais escura, um frio mais intenso, tormentos mais horrendos, angústias mais abrasadoras; em suma, deverão experimentar um inferno mais espantoso aqueles que, no mundo, tiveram mais capacidade de fazer o mal (Ib. 7-9).

«Muitos aposentos há na casa de meu Pai», disse Jesus Cristo (Jo 14, 2); pois os justos têm uma glória correspondente aos seus méritos, sendo cada um recompensado por Deus segundo as suas obras. Ora, o mesmo acontece no inferno: há ali muitos e diversos lugares; quanto mais culpadas são as almas que para lá caem, tanto mais abaixo e mais próximas dos demônios se encontram as suas moradas, tanto mais graves são os seus suplícios. A justiça de Deus reina no inferno como no céu. Os apóstolos ocupam lá um lugar distinto dos demais eleitos; o seu assento está mais próximo do trono do Cordeiro; Judas, o apóstolo traidor, ocupa no inferno um lugar bem diferente daqueles da multidão dos réprobos. Todo pecado mortal merece o inferno; por isso, quem para lá precipita-se carregado de cem, de mil culpas graves, deve encontrar tormentos cem, mil vezes mais graves que os sofridos pelo réprobo condenado por um só pecado mortal — supondo que um pecado daquele primeiro réprobo seja, em gravidade, inteiramente igual ao deste segundo —; pois há pecados muito mais graves que outros, e os mais graves ficam sujeitos a pena mais severa…

Deus, infinitamente sábio e justo, pesa tudo escrupulosamente e dá a cada um o que lhe cabe, seja prêmio, seja castigo… Quão cego e infeliz se mostra o homem que não procura aumentar a cada instante o tesouro dos méritos, o esplendor de sua coroa; ao contrário, aumenta a cada momento os seus pecados e a acerbidade dos seus suplícios! …

8. ETERNIDADE DAS PENAS INFERNAIS

Por mais graves, horríveis e insuportáveis que sejam os tormentos infernais, ainda seriam pouca coisa se tivessem de acabar; mas a eternidade deles é o pior dos suplícios. Esse fim que sempre começa, segundo a expressão de Santo Agostinho: ― Finis semper incipiet, ― é o que propriamente constitui o inferno e dá às penas que ali se sofrem a qualidade inefável, indefinível, que as distingue de todas as outras penas, por mais atrozes que sejam. Todos os réprobos sofrerão entre o horror e a aflição, viverão sempre da morte, sempre desesperados da misericórdia e do perdão. Eis a desgraça das desgraças, o inferno do inferno. Tormentos eternos! … Jamais tornar a ver Deus, nem a Santa Virgem, nem os santos, nem os amigos, nem os parentes felizes, nem o céu; e, o que é mais, nem sequer poder imaginar uma longínqua sombra de esperança de vê-los: eis o supremo dos suplícios, eis a mais atroz das torturas!

«Afastai-vos de mim, ó malditos, e ide para o fogo eterno», sentenciará o supremo juiz; e, diante dessa intimação, os réprobos irão para o suplício eterno, e os eleitos, para a vida eterna» (Mt 25, 41, 46). Já vemos essa sentença insinuada naquelas palavras de Daniel: «Os que dormem no pó da terra despertarão; uns para a vida eterna, outros para a ignomínia, que terão sempre diante dos olhos» (Dn 12, 2).

Oh! se ao menos todos os males do inferno tivessem um termo! Mas não; jamais haverá termo, nem fim, nem suspensão, nem diminuição da pena; ó Deus! que desgraça, que infelicidade é essa! … Não, não há redenção para o réprobo: «O sangue que Jesus Cristo derramou sobre a terra não penetra no inferno, diz São Cipriano, porque os pecadores o beberam todo (12)»; estes, portanto, diz o Apóstolo, sofrerão a pena de uma condenação eterna (Ts. 2, 1, 9).

«A miséria da pena, escreve Hugo de São Vítor, cairá sobre a miséria da culpa, para que permaneçam unidas; e, enquanto permanecer a culpa, durará a pena; ora, assim como no inferno a culpa permanece eternamente, assim também eternamente permanecem a pena e o castigo» (Lib. de Anima). «E não é talvez justo, diz São Gregório, que aqueles que teriam querido viver sempre para pecar sempre, e demonstraram esse desejo pecando sempre enquanto viveram, e nunca quiseram separar-se do pecado durante a vida, jamais sejam separados do suplício depois da morte? (13)». «É justo, responde Santo Agostinho, que a vontade que quis o eterno gozo do pecado seja punida com uma eterna severidade de vingança (14)».

Todo pecado mortal, por sua natureza, implica uma punição eterna. O homem, ao cair em culpa grave, mata-se para a eternidade e não pode mais ressuscitar sem a onipotência de Deus. Ora, esse milagre de ressurreição, ao qual Deus de modo algum está obrigado, quando acontece, acontece somente no tempo; mas, uma vez que o homem chega ao inferno, o milagre já não tem lugar: aquele que passa à eternidade manchado pelo pecado mortal vê a sua culpa e a pena dessa culpa tornarem-se eternas… Deus é bom; mas, precisamente porque é infinitamente bom, deve odiar o pecado enquanto dele restar algum vestígio; mas, como o pecado jamais é destruído na eternidade, segue-se que será eternamente punido, em virtude do ódio eterno que Deus lhe tem… A Escritura nos diz que Deus tem entranhas de misericórdia para com os homens, mas declara também, ao mesmo tempo, que há um fogo eterno, e que Deus decretou penas eternas para o pecado não apagado pela penitência. Ousaríamos dizer que Deus não é justo?

É verdade que a ação culpável dura pouco; mas o mal, mais que na ação, está na malícia, na desobediência, na vontade. Acusareis de injustiça a lei humana que pune no malfeitor o delito de um momento com longos anos de pena infamante? … «O homem pecador, diz São Jerônimo, deve satisfazer eternamente a Deus, porque era sua vontade resistir eternamente a Deus» (In Psalm. XVIII), «Numa vontade perversa não se deve considerar tanto o efeito, diz Santo Agostinho, mas a disposição do coração; embora o efeito falhe, porque não depende do homem, é justo que a vontade seja punida com pena proporcionada à sua má disposição (15)». Ora, que outra coisa desejaria o pecador obstinado, senão viver sempre para zombar sempre de Deus e da própria consciência? O ato do pecado não dura, mas a afeição ao pecado permanece sempre no fundo do coração…

Além disso, no inferno o pecador está privado da graça, e sem ela é impossível obter o perdão dos pecados… O pecado é um afastamento voluntário de Deus, é um desprezo formal da Majestade divina, é o amor da criatura preferida ao Criador, isto é, um adultério espiritual; é, portanto, a maior injúria que se pode fazer a Deus. Medi a gravidade de tal injúria pela grandeza do Deus a quem ela ultraja, e vereis que ela é infinita em seu objeto, porque atinge uma grandeza infinita. Mas um ser finito em sua essência não pode suportar uma pena infinita em intensidade; segue-se, portanto, a necessidade de uma pena infinita em duração.

As palavras de Jeremias: «O pecado dos réprobos está escrito com pena de ferro, com ponta de diamante, e gravado em toda a extensão de seus corações» (17, 1), ao mesmo tempo que denotam a vontade obstinada dos pecadores em praticar o mal, significam ainda que as suas culpas estão escritas no livro da morte com letras de fogo, e que nem a água, nem as lágrimas bastarão, por toda a eternidade, para raspá-las ou apagá-las. Estão gravadas na memória e na consciência dos réprobos e, como verme roedor, jamais deixarão de mordê-los e devorá-los.

Que desgraça é esta eternidade dos tormentos! Que desventura, ser condenado a viver sepultado nas chamas eternas! Ó insensatez dos homens que, por um vil prazer de um instante, precipitam-se em torturas sem fim! Ó eternidade de fogo, de desespero! Ó eternidade, tormento incomparável! Ó morte que jamais se consuma! Ó vida que é uma eterna morte! … Bebe-se, joga-se, graceja-se por um momento; isso passa velozmente, e eis que imediatamente lhe sucede uma calamidade eterna! Assim se vai rindo para o inferno, para a eterna infelicidade! Vai-se para lá, mas já não se volta; porque o fim da vida presente é o princípio da eternidade, e esse princípio é o fim das coisas daqui de baixo. Ó fim que não termina, ó morte que não és a morte, enquanto fechas o tempo, abres a eternidade que jamais terá fim! … Vivamos, pois, neste mundo de tal modo que mereçamos viver eternamente…

9. O INFERNO É CONFORME À JUSTIÇA DE DEUS

Deus não é autor do pecado, mas justo avaliador e conservador da ordem; pune a desonra da culpa com a honra da justiça. «Todas as coisas feitas por Deus são muito boas», diz a Sagrada Escritura (Gn 1,31); ele, portanto, não fez aquilo que há de mau no homem. O que há de mau no homem é uma desordem; ora, toda desordem merece castigo; mas quem deve ser punido, pergunta Santo Agostinho, senão o autor? E quem é o autor do pecado no homem, senão o próprio homem rebelde contra Deus? Esse castigo do homem rebelde contra Deus não é uma desordem; ao contrário, é a ordem: a pena é a ordem do delito. Quando digo pecado, digo desordem, porque exprimo a rebelião; quando, porém, digo punido, digo algo ordenadíssimo, porque é reta ordem que a iniquidade tenha castigo.

O pecador, como um louco, mata-se para a eternidade; advertido, faz-se surdo; quer justiça que seja punido… Vem aqui a propósito a advertência de São Paulo aos Gálatas: «Não vos iludais: de Deus não se zomba. O homem colherá aquilo que semeou: se semeou na carne, colherá da carne corrupção; se semeou no espírito, colherá do espírito a vida eterna» (Gl. 6,7-8).

A verdadeira e própria causa do inferno é o pecado (Sb 11,21). O que constitui o inferno não é a pena, mas o pecado. Com efeito, em que consiste essencialmente o inferno? Na privação da visão e do gozo de Deus, isto é, em estar separado de Deus, que é a suprema felicidade; ora, somente o pecado é a causa da separação do homem de Deus. Vós, portanto, ó pecadores obstinados, levais o inferno em vossas entranhas, porque levais dentro de vós o pecado que vos faz descer vivos ao inferno.

Deus não seria Deus se não fosse justo; ele deve retribuir a cada um segundo os seus próprios atos… A quem, pois, objeta: por que um inferno, sob um Deus bom?, a resposta vem clara e fácil: justamente porque Deus é bom, é necessário o inferno; assim como, por ser infinitamente bom, deve haver um inferno eterno; pois onde estariam a sua bondade, a sua equidade e a sua retidão, se a desordem moral ficasse impune? Se os tribunais não punissem, não obstante a evidência das provas, o parricídio, o furto e o incêndio, que seria da justiça e da sociedade? Se agrada um paraíso para recompensar os bons que sofreram em meio às privações e adversidades, por que não admitir um inferno onde sejam punidos os maus que viveram na impiedade e nos delitos? Deus é bom e justo; mas todos veem que muitas virtudes, até mesmo heroicas, como o martírio, não têm neste mundo recompensa alguma ou, certamente, uma recompensa inadequada; há não poucos delitos que nesta terra escapam a todo castigo; quer, portanto, a justiça que haja um paraíso e um inferno.

10. MEIOS PARA EVITAR O INFERNO

Os meios que temos para evitar o inferno são: 1° A oração. Voltemo-nos para Deus, clamando com o profeta: «Ah! Senhor, não me submerja a tempestade das ondas, não me engula o abismo, não se feche sobre mim a boca da voragem» (Sl 68,16).

2° O pensamento e o temor do inferno. «Desçamos ao inferno enquanto estamos vivos, diz um santo padre, se não queremos ir para lá depois da morte (16)». «Quão sensato e feliz se mostra, exclama Santo Agostinho, aquele que, em vida, se preocupa tanto com o suplício, a ponto de escapar ao perigo de sofrê-lo depois da morte. Quisera Deus que entendêsseis e compreendêsseis o que é o mundo e o que é o inferno! Certamente então temeríeis a Deus, desejaríeis as coisas celestes, desprezaríeis o mundo e teríeis horror do inferno (17)». Com efeito, quem dentre vós pode habitar em meio a um fogo devorador, entre chamas ardentes e sempiternais? — pergunta Isaías (33,14).

3° O arrependimento das culpas, a detestação e a confissão dos pecados, a conversão da vida. «Quem dará à minha cabeça, gemia São Bernardo, uma torrente de chuva; aos meus olhos, uma fonte de lágrimas, para que eu previna, com o meu pranto e os meus gemidos, o pranto unido ao ranger dos dentes? (Serm. in XVI Cantic.)».

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.