Tesouro n.º 95 · Volume II

IMPUREZA IMPURITÀ

9 seções · 98 parágrafos · pp. 1122–1146 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A IMPUREZA É, POR SUA NATUREZA, UM PECADO MORTAL

O impudico consagra seu culto à carne… Adora aquilo que os pagãos adoravam; venera com eles o mesmo deus. Ora, a idolatria é um crime enorme. «Meu povo, diz Deus, trocou sua glória por um ídolo. Estremecei, ó céus, e vós, ó potências celestes, vesti-vos de luto» (Jr 2, 11-12). «O impudico troca a glória do Deus incorruptível pela semelhança do homem corruptível», diz São Paulo (Rm. 1, 23).

O mesmo Apóstolo diz ainda: «Aqueles que se deleitam na carne não podem agradar a Deus; se viverdes segundo os apetites da carne, morrereis» (Rm. 8, 8, 13). «Não vos iludais: nem os luxuriosos, nem os idólatras, nem os adúlteros possuirão o reino dos céus» (1Cor 6, 9-10); «porque a carne e o sangue não podem estar com Deus, nem a corrupção pode identificar-se com a incorruptibilidade» (Ib. 15, 50). «Não sabeis que sois o templo de Deus, que vossos corpos são membros de Jesus Cristo e que em vós habita o Espírito Santo? Empregareis, pois, os membros de Jesus Cristo para deles fazer membros de uma prostituta? Mas, se alguém profana o santo templo de Deus, templo que sois vós, Deus o exterminará» (Ib. 3, 16-17; 6,15). «Sabei e tende isto bem fixo na mente: nenhum fornicador ou impudico terá parte na herança do reino de Cristo e de Deus» (Ef. 5,5).

É formal o preceito de Deus: Não fornicarás (Ex 20,14), e não é menos clara sua sentença de que na cidade de Deus não entrará nada de manchado (Ap. 21,27). «E Deus, diz São Pedro, sabe reservar os maus para o dia do juízo, a fim de puni-los, e principalmente aqueles que acariciam a carne, vivendo segundo os desejos da concupiscência carnal» (II, 2, 9-10). Com efeito, a impureza é um pecado tão enorme e tão abominado por Deus que, como diz Santo Agostinho, é mais agradável a Deus o ladrar dos cães, o mugir dos bois, o grunhir dos porcos, do que o canto de seus servos impudicos (1).

«Não transformeis os vasos sagrados em vasos de ignomínia (2)», exclama São Pedro Damião; ora, já o ouvimos do Apóstolo, os cristãos são os templos, os vasos sagrados do Deus vivo. Se um profanador sacrílego demolisse uma igreja, derrubasse um altar, quebrasse um vaso sagrado, de que crime odioso não se tornaria culpado! Muito mais horrenda e indigna é a profanação que o luxurioso faz de sua alma, de seu coração, de seu corpo, e infinitamente mais enorme é o seu delito. Com efeito, se é verdadeira a sentença de São Tomás, de que pela luxúria o homem se afasta infinitamente de Deus (3)», e se é verdade que o pecado é um abandono de Deus por parte do homem, cada qual bem pode calcular a enormidade do pecado de impudicícia; por isso, São Bernardo não se contenta em dizer: Ai!, mas acrescenta: muitos e grandes ais ao incontinente (4).

E não se pense que, para cometer pecado grave nesta matéria, seja necessário chegar aos extremos limites desse vício abominável: seria isso um deplorável e grosseiro engano, porque não somente uma ação desse gênero é culpa mortal, mas também um simples pensamento, ou desejo, ou olhar feito com consentimento deliberado.

Os próprios casados podem tornar-se culpados de gravíssimas faltas nesta matéria, quando não tiverem por objetivo e freio o santo temor de Deus. Lembrai-vos, ó esposos, da palavra de São Paulo: «Que todos honrem o matrimônio e conservem imaculado o leito conjugal; porque Deus julgará os fornicadores e os adúlteros» (Hb. 13, 4); aterrorize-vos a sentença do Senhor: «A semente dos ímpios não vingará» (Sl.36,28). Deus destinava à vida e ao céu tantas crianças; ora, onde estão elas? Ó desgraçados, que reduzis ao nada seres destinados a bendizer, louvar e gozar de Deus eternamente! A Escritura nos narra que o infeliz Onã, porque impedia, por uma ação detestável, que se cumprisse a vontade divina, foi ferido de morte pelo Senhor (Gn.38, 9-10). Tal profanação é contrária à lei natural e à santidade do matrimônio. Esse delito é um homicídio. Há pais que se queixam de suas desgraças, das doenças e da morte de seus filhos. Pensem se não são talvez castigos de Deus, que os pune precisamente naquilo em que pecaram.

Onde se podem encontrar palavras que bastem para flagelar como convém o infame delito do adultério e todos os males que ele arrasta consigo? O adúltero: 1° rompe a fidelidade conjugal; 2° viola o matrimônio, porque a natureza, e o autor da natureza, Deus, exigem que os esposos respeitem sua união (Gn.2, 24); 3° profana o sacramento; 4° causa grave injúria aos filhos legítimos; 5° comete uma enorme injustiça; 6° torna-se culpado de um horrendo escândalo… O adúltero peca contra Deus, cuja autoridade não quer reconhecer, recusando-se a cumprir seu mandamento; peca contra a pessoa que lhe está unida, porque não lhe mantém a fidelidade prometida; peca contra si mesmo, porque mancha a alma e o corpo; peca contra os filhos legítimos, a quem prejudica; peca contra o próprio cúmplice do adultério, sendo para ele causa ou ocasião de pecado…

«Não sabeis, ó adúlteros, que a amizade deste mundo é inimiga de Deus?» (Tg. 4,4). O mundo é adúltero; amar o mundo é um adultério espiritual; quem consagra sua alma ao mundo, rouba-a a Jesus Cristo, esposo das almas…

O Senhor, na antiga lei, ordenava que o adúltero fosse apedrejado; pela boca do Sábio diz que será punido em praça pública; que fugirá como um potro desenfreado, mas será surpreendido onde menos o imagina; será desonrado diante de todos; deixará sua memória em maldição, e sua infâmia não será apagada (Eclo. 23, 36). Os castigos que caíram sobre Davi e sua família por causa de seu adultério, embora expiado por ele com amarguíssima penitência, bastam para nos dar uma ideia do que o adúltero impenitente deve esperar da justiça divina.

2. AVILTAMENTO DO IMPÚDICO

Uma viva imagem da embrutecência e da degradação do luxurioso nos é oferecida pelo filho pródigo do Evangelho, que se pôs a serviço de um patrão e foi mandado apascentar porcos (Lc 15, 15); muito mais vil que uma vara de porcos é a multidão de pensamentos imundos, de afetos desonestos, de desejos lúbricos que ele acolhe e guarda em sua alma. Eis a surpreendente, mas justa metamorfose do libertino e de seu estado! Eis o castigo infligido à sua licenciosidade e à sua liberdade insensata! Aquele que havia recusado ser filho devoto de um pai nobilíssimo e generoso vê-se obrigado a tornar-se escravo de um estrangeiro, de um desconhecido, de um tirano. Eis o impudico… rejeita a autoridade de Deus, recusa-se a obedecer-lhe; não quer permanecer com ele, e ei-lo obrigado a servir ao diabo mais que um escravo. O pródigo não quis habitar no palácio do pai e, expulso para o campo, entre a criadagem mais vil, abandonado à fome, à sede e à nudez. Não quis ter como companheiros de mesa e de casa o pai e o irmão; é condenado a partilhar o alimento e o alojamento com os porcos. Teve nojo do pão e dos excelentes manjares da casa paterna; agora se julgaria feliz se pudesse encher-se dos míseros restos de animais repugnantes! (Lc 15,16). «Que cruel e desoladora condição é esta, exclama o Crisóstomo, não poder sequer comer o alimento dos porcos, tendo de viver com os porcos! (5)». Eis aonde vai parar o luxurioso!

São Paulo nos adverte de que Deus abandona os impudicos aos desejos Imundos de seus erros, aos desejos ignominiosos da carne, para que se aviltem a si mesmos em seus corpos; até que, desesperando de sua salvação, entregam-se a toda espécie de dissolução ainda mais torpe (Rm.1, 24-26; Ef.4,19); e revolvem-se no lodaçal das mais repugnantes dissoluções, precisamente, diz São Pedro, como um porco que se atira na lama (2Pd 2, 22), e exibem, diz São Judas, suas torpezas (Jd. 13).

Não há vício mais repugnante, mais vergonhoso, mais degradante que a impudicícia; com razão São Pedro representa o impudico no porco. Pois: 1º ele ama as coisas sujas…; 2º é, em seus modos, sórdido e nauseante…; 3º deleita-se, à semelhança dos porcos, na lama e no lodo…; 4º o porco não olha senão para a terra, não se ocupa senão do ventre, deita-se no chão, não é senão uma massa informe de carne; não é diferente o impudico…; 5º o porco não tem reconhecimento sequer para com o seu dono; acaso o luxurioso não perde todo sentimento e discernimento? … Nele se cumpre a imprecação de Davi: «Cobre-lhes o rosto de ignomínia» (Sl 82,15).

«O dissoluto, escreve Santo Euchério, não se diferencia em nada das ovelhas ou dos porcos, porque põe seus prazeres nas satisfações carnais; faz de sua própria carne o seu deus e transforma em motivo de sua glória aquilo que há nele de mais vergonhoso (6)». A mesma coisa já escrevia São Paulo aos Filipenses: «Cujo deus é o ventre e cuja glória está na própria vergonha» (Fl 3,19). Também Clemente de Alexandria deixou escrito que os «homens luxuriosos chafurdam em suas torpezas como as minhocas na lama. São homens suínos, pois os porcos preferem a água lodosa à água límpida (7)».

Lê-se na vida de Santo Inácio de Loyola que, para corrigir um libertino que frequentava uma casa de má fama, ele se lançou um dia na água e, quando viu passar por ali aquele infeliz, disse-lhe: Vai, desgraçado, aos teus prazeres desonestos; não vês a ruína que te ameaça? Impus a mim mesmo duras penitências para afastar de tua cabeça os raios divinos que estão prestes a incinerar-te.

A volúpia é considerada por São Gregório Nazianzeno o alimento de todos os vícios, o anzol em que facilmente ficam presos os animais vis e embrutecidos (8).

Por isso, o Crisóstomo afirma que, se pudéssemos ver o aviltamento, a degradação da alma de um luxurioso, preferiríamos um sepulcro fétido a tal estado (Homil. 29, in Matth.); o profeta Habacuc chorava pela sorte daqueles que fazem ao redor de si montões de espesso lodo (2,6). E esses montões, diz São Gregório (lib. 6, Moral.), representam os desejos, as ânsias, as satisfações de uma concupiscência torpe; desse lodo, pedia o Salmista a Deus que o preservasse (Sl 68,15).

Que há de mais corrupto e de mais torpe, pergunta o Eclesiástico, que o pensamento da carne? Todo pão, mesmo o pior, parece bom ao fornicador (17,30; 23,24). E não é verdade que, para o homem embrutecido pela incontinência, qualquer criatura é desejável? Seja bela ou feia, pobre ou rica, limpa ou suja, jovem ou velha, ele não escolhe; contanto que lhe sirva para suas brutais satisfações, nada mais lhe importa; exatamente como um faminto morde qualquer pedaço de pão, por mais negro, mofado ou duro que seja, que lhe caia nas mãos.

São Bernardo observa que os homens carnais não têm coração de homem, porque, tendo-o todo manchado pelas paixões vergonhosas, ele se transformou em coração de fera. E, aplicando-lhes aquelas palavras do Salmista: «Meu coração se derreteu como cera no meio das minhas entranhas» (Sl 21,14), diz: «Seu coração, fundido no fogo da paixão carnal, sai do seu lugar e cai no lodo, nada mais saboreando senão a paixão; confundindo, corrompendo e degradando tudo, transforma o afeto natural e legítimo da amizade em apetite bestial e desregrado; cobiça o que é ilícito, ignominioso e vergonhoso até para a própria carne; esquece de tal modo sua antiga grandeza e nobreza de filho de Deus, que aqueles a quem corrompe e aqueles que o corrompem já não o consideram senão um lugar de prostituição pública, a sede natural da luxúria. Infelizes, mil vezes infelizes aqueles que, sufocando a voz da razão e da consciência, desceram a tamanho aviltamento que já não se estimam e prostituem a Satanás aquela alma que, criada por Deus, pertencia a Ele, fazendo dela a morada e o trono do demônio, a sentina de todas as imundícies, a cloaca de todas as mais infames fraquezas» (De nat. et dign. amoris, c. I).

Com toda razão, portanto, Eusébio sentencia que a luxúria rebaixa e degrada o homem abaixo dos animais (9); São Pedro Crisólogo afirma que o impudico «morre para a virtude, cresce nos vícios, obscurece sua glória, sepulta sua reputação e verá sua loucura crescer até o furor (10)». Ah, sim! é preciso dizer com o profeta que o homem, colocado em alta condição, não compreendeu seu destino, considerou-se igual aos jumentos e tornou-se semelhante a eles (Sl. 48,12); corrompeu-se e tornou-se abominável (Sl 13,1); por isso Deus os abandonou à ignomínia eterna (Sl 77,66).

O homem impuro, diz Santo Agostinho, em vez de espiritualizar seu corpo, embrutece e materializa sua alma (De Morib. Eccl.), e faz dela o covil predileto dos demônios, que amam permanecer nos luxuriosos mais que nos outros pecadores; como se vê figurado naquele fato do Evangelho em que se narra que os demônios, expulsos do corpo de um possesso, pediram a Jesus Cristo que os confinasse numa manada de porcos que pastava ali perto (Mt 31-32).

Quando uma alma despreza a glória e a grandeza a que era chamada, então à reputação sucede o escândalo e a loucura; à glória, a ignomínia; à riqueza, a miséria; a graça cede lugar ao ódio; o respeito, ao desprezo; o ganho, à perda; a intenção é corrompida, baixo e vil é o pensamento, desonesta a ação… Observai o aviltamento, a degradação em que caiu e jaz aquele adúltero, aquela mulher de má vida, aquela jovem desavergonhada. Ó Deus, como provocam nojo e repulsa não somente nos outros, mas nos próprios corruptores! O próprio demônio, depois de tê-las manchado, zomba delas, despreza-as, calca-as aos pés. Desonra da sociedade e da família, elas se veem transformadas em joguete das zombarias dos homens e da indignação de Deus; são a fábula do mundo inteiro, ridicularizadas pelo céu, pela terra, pelo inferno, detestadas e abominadas por si mesmas…

De onde pode vir, pergunta São Bernardo, tão grande e tão miserável abjeção, pela qual uma criatura tão bela e nobre, capaz da eterna bem-aventurança e do gozo de Deus; um ser criado à imagem de Deus, resgatado pelo sangue de um Deus, adotado pelo Espírito Santo, dotado da fé, alimentado por um Deus, feito para Deus e para a imortalidade; de onde pode vir, digo, que tal criatura não se envergonhe de mergulhar e viver na corrupção da carne e dos sentidos? Ah! este é justo castigo por ter abandonado um esposo como Jesus e por ter amado semelhantes torpezas; justo castigo, desejar os restos dos animais e não os possuir! Justo castigo para este orgulhoso que preferiu guardar esses animais, em vez de permanecer na casa de seu pai! Ó trabalho estúpido! Ó suor mal empregado, este pelo qual o homem se consome em torno de um cadáver em putrefação! «Ó mortais insensatos, ah! não ameis aquilo que, amado, vos mancha; possuído, vos esmaga; e perdido, vos atormenta (11)».

Finalmente, também os sábios pagãos concordam com a Escritura e com os Padres em que a impudicícia é coisa torpíssima, degradante e mais vergonhosa que qualquer outra. Platão e Cícero, por exemplo, dizem que a volúpia carnal é o alimento dos corações abjetos e corrompidos (De Senect.). Horácio chama os libidinosos de «porcos da vara de Epicuro». — A libido, diz Sêneca, é própria não do homem, mas da fera (12). O filósofo Panécio observava que o amor impuro é coisa vil tanto naquele que ama quanto naquele que é amado. Pois esse amor impuro nada mais faz que converter em podridão o corpo e tudo quanto se toma como alimento e bebida. O objeto que o impudico ama com desonesto amor permanece em sua memória como uma divindade em seu templo, divindade à qual ele sacrifica não um touro nem um bode, mas a alma e o corpo. Não se torna ele, portanto, verdadeiramente abominável e vil, se, por um prazer ignóbil de um instante, se entrega ao poder de uma carne corrompida, ou melhor, se faz escravo do mais imundo dos demônios? (Anton. in Meliss.).

3. FUNESTOS EFEITOS DA IMPUREZA

Os tormentos. ― O primeiro dos funestos efeitos da impudicícia é acender no coração e nos ossos do libidinoso um fogo que o atormenta, o coze, o devora: porque, assim como uma chama que se apodera do sótão de uma casa logo irrompe em vasto incêndio que consome toda a casa com tudo o que nela se encontra, assim também a impureza, apoderando-se de uma alma, se alastra, se não for prontamente extinta, em tal incêndio que no homem já não resta nada ileso, nem a mente, nem o coração, nem os sentidos, nem os membros. Além disso, assim como o fogo se propaga de casa em casa até reduzir a cinzas uma cidade inteira, assim também a chama libidinosa facilmente se estende de um ou de alguns a muitos e se torna um foco de incêndio. A impureza é, pois, ainda um fogo, porque está próxima do fogo do inferno. O inferno alimenta este fogo, e este fogo povoa o inferno. Sodoma, acesa pelo fogo impuro, é devorada pelas chamas de um fogo descido do céu.

«O fogo das paixões devora a juventude», diz o Salmista (Sl 77, 63), e «a chama impura acende-se entre os dissolutos e acaba por reduzi-los a cinzas» (Sl 105,19). «A impureza, diz Jó, é um fogo que não se extingue senão quando já nada resta para consumir» (Jó 31, 12). Sobre estas palavras, assim escreve São Gregório: «Que é a paixão impura, senão um fogo, e que são os pensamentos desonestos, senão palha? Ora, quem não sabe que uma faísca lançada na palha, se não for imediatamente apagada, em pouco tempo incendeia um palheiro inteiro?» (In Iob.).

«A impureza, diz Santo Ambrósio, é um fogo cruel que jamais cessa por um instante; queima noite e dia, e sua chama chega a tirar até o sono» (In Psalm. I). «Ó luxúria, fogo infernal — exclama São Jerônimo — cuja matéria é a gula, cuja chama é o orgulho, cujas faíscas são os discursos desonestos, cuja fumaça é a loucura e cujo fim é o inferno! (13)». Pois, como diz Santo Agostinho, «aquilo que deleita passa, mas o que atormenta e dilacera dura eternamente (14)».

«Ó impudicos — exclama Isaías — eis que acendeis o fogo e, cingidos de chamas, caminhais à luz do seu clarão e em meio ao incêndio que vós mesmos acendestes» (Is 50,11).

São Gregório vê naquele caldeirão fervente de que fala Jeremias (1, 13) o coração do luxurioso, inflamado de desejos carnais, aceso por Satanás, aquecido pelo consentimento; desse caldeirão ardente saem, como tantas centelhas, os desejos de entregar-se a obras nefandas (15).

«A alma impura é figurada num caldeirão fervente, diz São Tomás: 1° por causa do fogo da concupiscência; 2° por causa das ações brutais; 3° por causa da negrura da mancha. Ela é, pois, aquecida: 1° pelo furor de um amor cego; 2° pelo fogo da cólera e da disputa; 3° pelo fogo do inferno» (De Peccat.). Eis por que Oseias compara os impudicos a um forno aceso (Os 7, 4); e a Escritura, falando dos velhos incontinentes que atentaram contra a castidade de Susana, diz que foram tomados pelas chamas da concupiscência (Dn 13, 8).

O demônio une-se à paixão, e ambos competem para insuflar no coração do dissoluto o desejo do pecado; continuamente gritam aos sentidos e às criaturas: Trazei, trazei… «De tal natureza são os prazeres sensuais, diz São Gregório, que, enquanto não os possuímos, inflamam-nos de desejo; mal os saboreamos, sentimo-nos fartos e enfastiados deles. Ao contrário, os prazeres espirituais, enquanto não os possuímos, desagradam-nos; mas, apenas provados, estimulam o apetite, e tanto mais ardentemente são desejados quanto mais copiosamente são desfrutados (16)». O desejo das coisas espirituais, observa o mesmo papa, alegra; o apetite das coisas carnais atormenta; este é abjeto e vil, aquele nobre e grandioso. Os prazeres da carne logo saciam, e a saciedade gera náusea; mas os do espírito saciam sem causar desgosto, e a saciedade estimula o desejo; pois, quanto mais são saboreados, tanto mais são conhecidos e amados. Por isso, não pode amá-los quem primeiro não os experimenta, porque não conhece suas doçuras. Os deleites corporais excluem os espirituais e tiram até mesmo o sentido deles (Homil.).

Danos espantosos. ― Outro efeito, não menos deplorável que o primeiro, produz a libido, ao retirar todo tipo de bem da alma e do corpo de sua vítima: «Nada de são e intacto pode permanecer naquele que é tomado pelo fogo da concupiscência, diz São Cesário (17)». «E todos aqueles, diz Salviano, que caem e permanecem no lodo das paixões lúbricas enterram-se sob as próprias ruínas» (Lib. ad Ecclesiast.). E, com efeito, não se diz acaso do filho pródigo, figura e modelo do impudico, que, tendo ido para uma terra distante, dissipou todos os seus bens e foi reduzido à miséria por sua vida libertina? (Lc 15,13).

Esta é a sorte que cabe aos libertinos por profissão. Lançam fora todos os dons da natureza e da graça…: perdem a caridade e toda espécie de virtude… Este vício cega a inteligência, de modo que já não se conhece nem a Deus, nem a virtude… Apaga a lembrança da lei e dos benefícios de Deus… Enfraquece a vontade e a deprava a tal ponto que se prefere o vício à virtude, a volúpia à razão, a criatura ao Criador, a carne ao espírito, o remorso à paz, a terra ao céu, o demônio a Deus, a morte à vida, o inferno ao paraíso, o sumo e eterno mal ao sumo e eterno bem. Despem as insígnias de Jesus Cristo e vestem a libré de Satanás…

O voluptuoso torna-se estúpido, irrefletido, temerário, sem razão, sem espírito, sem coração, sem ânimo… Todas as forças da alma e do corpo, destinadas a servir ao Criador, são por ele desperdiçadas atrás da criatura, da concupiscência, dos prazeres dos sentidos. Despreza os dons dos sentidos. Despreza os dons da graça, calca aos pés as promessas do batismo; a nobreza desaparece sob o lodo, e extingue-se a aptidão espiritual para as grandes coisas e para as virtudes sublimes.

Ouvi como fala São Cirilo: «Por causa da volúpia, a carne se corrompe, o vigor da alma é enfraquecido, o ardor dos vícios se torna insolente; o jugo das virtudes torna-se intolerável; as paixões entram no coração, e o esplendor da razão se obscurece. A volúpia prostrou Sansão, prodígio de força; derrubou Davi, modelo de santidade; seduziu Salomão, oráculo de sabedoria. A volúpia envenena com sopro de dragão; toda doce, convida; toda suave, penetra; apodera-se como assassina e destrói tudo (18)». «A impureza — continua São Cipriano — é raiva venenosa, incêndio da consciência, mãe da impenitência, ruína da mais bela idade, vergonha do gênero humano, inimiga jurada do sangue e da família (19)».

«O incontinente, como já observava o Sábio, não respeita nem o princípio da vida, nem a santidade do matrimônio (Sb 14, 24). Nem há motivo para admiração; pois como quereis que ainda respeite alguma coisa esta gente, que é joguete de um vício tal que, como diz São Boaventura, arranca até as raízes de toda virtude (20) e, segundo Santo Agostinho, já não deixa sequer pensar no futuro e nos últimos fins (21), e, conforme o testemunho de Santo Ambrósio, faz desviar da reta fé? (22).

Com toda razão, São Basílio chama a luxúria de: «Amor do demônio que conduz à morte; mãe do pecado, nutriz do verme que roerá eternamente (23)». São João Damasceno chama-a: «Metrópole de todos os males (24)»; e Santo Ambrósio: «Sementeira e origem de todos os vícios (25)». São Remígio chegou a afirmar que a maior parte dos réprobos se encontra no inferno por causa deste vício (De Impurit.).

Sobre este versículo do Êxodo: «A terra os devorou» (15,12), assim escreve Orígenes: «Se vês uma pessoa entregue aos prazeres dos sentidos, uma pessoa na qual a alma já não tem domínio, mas é dominada pela luxúria, dize simplesmente que a terra a devorou e que em breve o inferno a tragará (26)».

A luxúria é uma cadeia que põe a alma à mercê do corpo, que a prende e a submete de tal modo à carne, que ela já não escuta senão o corpo, não vive senão dele e para ele, e se torna, como ele, matéria e lodo. Esta verdade também foi conhecida e confessada pelos pagãos. Eurípides cantava que a maior das loucuras é a incontinência (LAERTIUS); dizia-se de Antístenes que preferia tornar-se louco a tornar-se voluptuoso; pois um médico pode às vezes curar um louco, mas, quando a luxúria se apodera de uma alma, torna-se um mal quase incurável (Anton. in Meliss.).

A efeminação dos romanos foi, segundo o testemunho de Tito Lívio, a causa de suas derrotas sob Aníbal, porque lhes havia enfraquecido as forças e apagado o coração (Histor. Rom.). Cícero apresenta como sentença de Arquitas de Tarento que não havia no mundo peste nem mais perigosa nem mais funesta do que a volúpia. Dela provêm as traições à pátria, as ruínas dos tronos, as guerras das nações; não há delito ou crime ao qual a luxúria não impila. Quantos envenenamentos! Quantos infanticídios! Quantas rixas! (De Senect.).

Os prazeres carnais têm como consequência doenças, febres, chagas e males de toda espécie; por isso, Cláudio aconselhava: «Manter o coração fechado à voz encantadora da volúpia carnal, pois quem lhe dá ouvidos compra a própria ruína por meio da dor (27)».

A luxúria tira do homem o engenho, o juízo, a força física e moral; mata a razão, embrutece o homem. Esta paixão abominável embriaga os sentidos, enfraquece a vista, altera os traços do rosto, conduz à velhice precoce, destrói toda boa disposição, abate a coragem e torna o homem, em uma palavra, semelhante àquelas estátuas que têm olhos, ouvidos, pés e mãos e, entretanto, não veem, não ouvem e nada fazem. Além disso, destrói o bom nome, escraviza a vontade, acorrenta os bons desejos, entorpece os sentidos e faz do homem um animal da mais baixa espécie. Esta paixão é um delírio da alma; uma embriaguez na qual se perdem as riquezas, a nobreza, a dignidade, a fama, a santidade, a vida, a paz, a tranquilidade, a felicidade, a alma, o espírito, o coração, o tempo, a eternidade…

O escândalo. — O terceiro efeito da impureza é o escândalo que dela resulta. «A terra está manchada pela luxúria, está contaminada pela prostituição» (Sl 105, 37). O voluptuoso está manchado e mancha os outros; exala um fedor de morte que mata, segundo a expressão de São Paulo (2Cor 2, 16). A impudicícia corrompe tudo por onde penetra; é um escândalo onde quer que se mostre, seja nos banquetes, seja nas festas, seja nos bailes, seja nos teatros, seja nas conversas, seja nas vigílias, seja na solidão, seja nos livros maus… Não há escândalo pior do que o escândalo causado pelo impudico; ele escandaliza em tudo e por toda parte. Para ele nada é santo, nada é sagrado; não respeita nem a inocência, nem a idade, nem o sexo, nem a fraqueza, nem as lágrimas, nem o tempo, nem o lugar, nem sequer as coisas e as pessoas sagradas.

Eis o quadro que a Sabedoria nos traçou dos impudicos escandalosos. «Eles disseram, delirando em seus pensamentos tortuosos: “Breve e tedioso é o tempo de nossa vida, e não há remédio para o homem depois de seu fim, nem se sabe que alguém tenha voltado do inferno. Nascemos do nada e seremos como se jamais tivéssemos existido, porque o sopro de nossas narinas é fumaça; a palavra é uma centelha que procede do movimento de nosso coração: apagada esta, nosso corpo será cinza e o espírito se dissipará como uma leve brisa, e nossa vida passará como o rastro de uma nuvem e se dissolverá como a névoa batida pelos raios do sol e desfeita pelo seu calor… Vamos, pois, desfrutemos dos bens presentes e sirvamo-nos prontamente das criaturas enquanto somos jovens. Coroemo-nos de rosas antes que murchem; não haja prado por onde não passe a nossa luxúria. Não haja nenhum de nós que não participe de nossa vida lasciva; deixemos por toda parte os vestígios de nossa dissolução, pois esta é a nossa porção e a nossa sorte…” Assim pensaram e caíram no erro, porque a sua malícia os cegou» (Sb 2, 1-10, 21).

Roubar a honra, a honestidade, a saúde, a felicidade e a vida às vítimas de seus brutais desvarios é, para o luxurioso, um nada, uma galanteria. Ah! Quão verdadeira é a sentença de São Cirilo: «que a luxúria furiosa nada vê porque é cega (28)».

A cegueira. — Estas palavras de São Cirilo não somente nos explicam os tantos escândalos que os luxuriosos semeiam, mas também nos revelam o quarto efeito da impudicícia, que é a cegueira, efeito já assinalado por São Paulo: «O homem animal não compreende nada do que pertence ao espírito de Deus; pois considera isso uma loucura e não o pode compreender» (1Cor 2, 14).

O voluptuoso tem olhos, mas não vê; tem mente, mas não compreende, porque tanto aqueles como esta se tornaram, pela impureza, uma massa de carne. Ele é como a ave que se deixa prender no visco, ou como o peixe que morde o anzol. Ele se alegra quando, não vendo o anzol, engole a isca; mas, quando o pescador começa a puxá-lo, sente primeiro as entranhas serem dilaceradas, depois é arrancado e lançado para fora da água, que é o elemento de sua vida; e assim aquele alimento enganador que pouco antes constituía sua delícia tornou-se causa de sua morte e de sua destruição. Viva imagem da sorte que toca ao luxurioso! …

Não há vício que obscureça tanto a razão quanto o nefasto vício da impudicícia. Ela é mãe e nutriz da frivolidade, da inconstância, da precipitação, da imprudência, do amor de si, do ódio a Deus, do desejo desregrado da vida presente, do horror à morte e ao juízo… Onde encontrar cegueira semelhante à daqueles jovens que se desonram, correm mil aventuras, afogam-se em um mar de penas, vão ao encontro de uma infinidade de desgostos, destroem o próprio futuro por um momento de loucura? … Cegueira antes da paixão, para estudar o modo de satisfazê-la… Cegueira ao satisfazer a paixão… Cegueira depois de saciada a paixão, para entorpecer-se e jazer na desonra e no delito…

A escravidão. ― Se, pela sentença infalível de Jesus Cristo, todo aquele que se torna réu de um pecado se faz, por isso mesmo, escravo do pecado (Jo 8,34), qualquer pessoa pode, pelo que foi dito acerca das consequências da desonestidade, avaliar a dura e infamante escravidão à qual ela arrasta os seus amantes. O pródigo do Evangelho, que, reduzido à miséria pelas suas dissoluções, se faz escravo de um senhor duro e impiedoso, o qual o condena a habitar e comer com os porcos, é uma imagem desbotada da triste escravidão em que cai o desonesto.

Ele é como aquele jumento cego que gira continuamente em torno de uma mó, sendo a impudicícia a cadeia e a prisão da alma. E a desgraçada vítima da luxúria não está acaso continuamente ocupada, não corre noite e dia, não fala, não suplica para satisfazer a sua vil e animalesca inclinação? … Escravo da mais infame das paixões, escravo da criatura que seduziu ou pela qual foi seduzido; escravo dos seus caprichos; escravo de tudo quanto há nele de mais vil; escravo do demônio…; não é esta a mais ignóbil, a mais vergonhosa, a mais degradante das escravidões?

«Ó miserável servidão, exclama Santo Agostinho, miserável escravidão, é esta da luxúria! O escravo de um homem, cansado dos maus-tratos de seu senhor, pode às vezes subtrair-se a eles pela fuga; mas onde poderá refugiar-se o escravo da impudicícia para recuperar a sua liberdade? Aonde quer que vá, leva a si mesmo» (Tract. XLI).

«A carne, diz São Bernardo, é o instrumento, ou melhor, a corda com que Satanás detém e ata o desonesto» (Serm. XXXIX). O demônio faz dele o seu joguete; ora o empurra, ora o detém, conduzindo-o para onde bem entende, por entre espinhos, pedras, matos, barrancos e precipícios. Faz que caia e torne a cair, até que o vício se converta em hábito, e o hábito, numa necessidade que o mantém entre as suas garras, como escravo entre grilhões, segundo a observação de Santo Agostinho: «O costume ao qual não se resiste transforma-se em natureza (29)». O luxurioso já não tem vontade própria; entregou-a à paixão; e, como sem vontade nada se pode fazer, permanece entorpecido em sua dura escravidão, cujos grilhões lhe são ainda mais apertados.

4. OS PRAZERES DA CARNE SÃO COISA DE POUCA MONTA, CHEIOS DE AMARGURA E DE INCÔMODOS

O homem foi feito para Deus, e nenhuma criatura pode satisfazê-lo; seu coração é insaciável, porque é quase imenso em seus desejos; somente Deus, como bem imenso e infinito, pode satisfazê-los. «A alma racional, diz São Bernardo, pode ocupar-se de mil objetos, mas nenhum deles pode preenchê-la (30)». Se isso é verdade quanto a toda espécie de bens, prazeres e alegrias que o homem pode obter da terra, do mundo e das paixões, é mais do que nunca evidente quando se aplica aos prazeres que o desonesto extrai da carne. Com efeito, o que resta ao incontinente depois do desabafo de sua paixão? … Por que busca avidamente novos deleites? … Ó, como é pobre a volúpia! Ela não pode nutrir nem a alma, nem a mente, nem o coração, e, entretanto, cansa e mata o corpo; cava um abismo espantoso no interior do homem. Eis todo o lucro!

O que encontra o homem nos prazeres carnais? Neles encontra a vileza e a miséria…, a inutilidade…, a insaciabilidade…, a brevidade…, a instabilidade…, a falsidade…, a insensibilidade…, a infidelidade…, o desengano…, a incerteza…, um monte de cruzes.

«A volúpia é coisa tão pouca, diz Sêneca, que se desvanece no mesmo instante em que é saboreada; já chega ao fim quando mal começou (31)». Mas pensai, diz Santo Agostinho, que «se é momentâneo aquilo que deleita, eterno será aquilo que atormenta (32)».

Se, para todo pecado, como observa São Bernardo, o gozo passa e não volta mais, mas o sofrimento permanece e não se vai mais (33), tanto mais isso se verifica no pecado da incontinência. Assim, nos prazeres carnais, sucede ao voluptuoso o contrário de seus desejos. Ele desejaria que o deleite permanecesse sempre e não fosse misturado de angústia, mas isso não acontece. Desejaria que a melancolia e o sofrimento jamais viessem turvar o gozo, mas eles estão sempre às portas de seu coração, para expulsar dele o prazer tão logo este ali põe os pés. Desejaria a satisfação da carne sem a punição do pecado, mas experimenta o castigo sem saborear o prazer. Com efeito, a suprema justiça de Deus não se regula, nem pode regular-se, segundo os desejos culpáveis do dissoluto. Não; Deus não consulta, para punir justamente, os votos e os desígnios do luxurioso, que são tão injustos. Impudico, tu desejas, pois, prazeres eternos, sem mistura de amargura; mas sabe que jamais te será dado encontrar isso em tuas paixões. Sufoca as tuas paixões e então terás matado o sofrimento; volta a Deus com ânimo arrependido e sincero, e verás plenamente satisfeita a tua ânsia de verdadeiros e eternos prazeres. Esse desejo de gozar sempre dos prazeres declara que o teu coração foi feito para Deus. Aquilo que na volúpia lisonjeia e acaricia desaparece depressa; aquilo que é triste, amargo, vergonhoso e pungente vem a galope e permanece. Eis a justiça… «Observai, diz Platão, a diferença que existe entre a virtude e o vício: à efêmera doçura da volúpia sucede uma pena contínua, dores e ansiedades perpétuas; às breves e leves penas da virtude sucedem a paz e a felicidade eterna» (Lib. de Republ.).

«Infeliz de mim! exclamava Jônatas, apenas provei um pouco de mel, e eis-me condenado à morte» (1Sm 14,43). Que estas palavras nunca deixem de ressoar aos ouvidos dos desonestos, e que eles as apliquem a si mesmos. Sim, a volúpia espreme nos lábios do impudico uma única gota de mel, para depois afogá-lo num mar de fel; enquanto, na pureza, uma leve amargura logo se perde num oceano de doçura… «Um instante de volúpia, diz Santo Agostinho, prepara para a alma infeliz uma vergonha e um tormento eternos (34)». «É um estultíssimo, diz São Cirilo, aquele que se mata com o prazer, e tanto maior é a sua estultícia quanto mais irreparável é a sua ruína (35)». A doçura do prazer carnal é a lubricidade do verme que se alimenta da corrupção (Jó 24,20); e aos luxuriosos pode-se aplicar aquela sentença de Oseias (Os 10,13): «Vós comestes o fruto da mentira»; porque a concupiscência promete a felicidade e não dá senão tormentos; é uma sereia encantadora que atrai, seduz, adormece, para devorar.

«A volúpia, dizem os Provérbios, destila mel sobre os lábios, mas no fundo das entranhas se transforma em absinto e as dilacera como espada de dois gumes» (Prov. 5,3-4.). Como estas palavras cheias de verdade se cumprem exatamente nos desonestos! A amargura desse absinto e a ponta dessa espada são sentidas pelos luxuriosos em suas doenças, na perda da fortuna, da saúde, do repouso e da tranquilidade; na confusão, na desonra, nos remorsos, nas discussões, nas rixas, nos aborrecimentos, nos desgostos, no pranto, no desespero, na morte, na condenação e na eterna reprovação que os espera.

A dissolução envenena a vida, abrevia os dias; é um prazer pernicioso, semelhante ao fruto que Deus proibira Adão de comer, sob pena de morte (Gn 2,17). A concupiscência, o demônio e o mundo dizem, como Satanás ao primeiro homem: «Medo vão; em vez de morrerdes, se provardes desta doçura, sereis felizes como Deus» (Ib. 3,4-5). Maldita concupiscência! Tu prometes ao desonesto deleites e alegrias, mas, se ele te dá ouvidos, daí lhe advêm desgosto, remorso e vergonha; sim, ele se torna semelhante aos deuses, mas aos deuses das fábulas, deuses adúlteros e infames, deuses corrompidos e bestiais, dignos ídolos dos lupanares. «Ó céu, exclama Santo Agostinho, quantas calamidades, quantos sofrimentos andam juntos com os prazeres carnais! Quantos cuidados e angústias não custam nesta vida, sem contar depois o inferno. Guarda-te, ó luxurioso, para que já não sejas inferno para ti mesmo desde agora (36)».

«Viva é a cor das rosas, diz São Fulgêncio, mas seu caule é eriçado de espinhos; bela imagem da libido! Ela também tem o seu rubor pela afronta que faz ao pudor, mas não se pode tocá-la sem ser dilacerado pelo espinho do pecado. E, assim como a rosa deleita, mas logo murcha, assim a volúpia faz cócegas por um momento e depois foge para sempre (37)». Mas, ao fugir, deixa-vos, funesta herança!, os germes de perniciosíssima doença, como escreve São Leão (38); ou, como diz São Pedro Damião, abandona-vos, vítimas destinadas à morte eterna, à mercê do demônio, que se alimentará de vós como de iguaria deliciosíssima (39).

Nos voluptuosos cumpre-se aquela ameaça de Deus ao povo de Israel: «Eu os alimentarei com absinto, os farei beber fel; persegui-los-ei com a espada, até que deles não reste mais vestígio» (Jr 9, 15-16). Sim, para os desonestos tudo se resolve em pena, tormento e aflição. As águas doces dos rios, ao desaguarem no mar, adquirem o sabor salgado; todo prazer carnal, começado na doçura, termina na amargura. Ninguém se iluda, adverte o Crisóstomo, julgando colher da árvore da concupiscência o fruto do prazer sem sentir-se dilacerado e ensanguentado pelo remorso e pela angústia; isso é tão impossível quanto manusear roseiras espinhosas sem sentir as mãos feridas por seus espinhos (40).

Com toda a razão, portanto, conclui São Cesário que, para o impudico, não há dia de alegria e festa; mas, sempre corroído pelo remorso e pela aflição, consome-se de melancolia e tristeza (41).

5. QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS CAUSAS DA IMPUREZA

«A luxúria, diz São Bernardo, é o carro do delito, da morte, do demônio e do inferno; apoia-se sobre quatro rodas, que são a indolência, a vaidade, a gula e a imodéstia; é puxada por dois cavalos fogosos, que são a prosperidade e a abundância; sentam-se depois na boleia a indiferença e a falsa confiança» (Serm. XXXIX in Cantic.).

Os graus pelos quais se precipita na impureza são: 1° a vida faustosa; 2° beber em excesso; 3° os espetáculos, que são perigosíssimo escolho para a castidade e o pudor, porque a maioria vai a eles para admirar e ser admirada (42); 4° os cantos obscenos, os livros maus, as pinturas desonestas; 5° os presentes oferecidos e aceitos; 6° o amor excessivo ao repouso; 7° a companhia dos dissolutos; 8° os encontros de recreio com pessoas do sexo oposto.

Pensai na queda de Sansão, de Davi e de Salomão e, reconhecendo quão longe estais da fortaleza do primeiro, da santidade do segundo e da sabedoria do terceiro, temei e tremei. Pensai se podereis manter-vos firmes em meio aos perigos, vós, caniços fracos, vós, vidros frágeis, quando caíram aqueles que eram cedros robustos e sólidos rochedos. A impureza é fogo; não lhe forneçamos alimento.

6. DE QUANTOS MODOS SE CAI NO VÍCIO DA DESONESTIDADE

Cinco caminhos conduzem ao abismo da desonestidade: os pensamentos, os desejos, as palavras, os olhares e as ações.

1° Os pensamentos; porque os pensamentos desonestos afastam de Deus (Sb 1, 3), diante de quem são abomináveis (Pr. 15, 26). Com efeito, como diz São Cesário de Arles, deles se desprende tal fedor que, em comparação com ele, o mau cheiro da mais fétida cloaca é um nada (43).

Onde está o vosso pensamento, escreve São Bernardo, aí está o vosso afeto: se ele se volta para coisas torpes, o Espírito Santo afasta-se de vós e o templo de Deus torna-se castelo do demônio, porque Satanás se apodera daquilo que Deus abandona. Portanto, quando um pensamento mau se apresentar à vossa mente, expulsai-o imediatamente, não consintais nele, não o deixeis entrar em vosso coração. Rechaçai-o logo, e ele vos deixará mais facilmente. Um pensamento desonesto gera o prazer; o prazer move ao consentimento; o consentimento conduz à ação; a ação torna-se hábito; o hábito transforma-se em necessidade; a necessidade traz consigo a morte (44). Eis a que precipício conduz um pensamento mau!

Os maus pensamentos são centelhas que, se não forem apagadas no mesmo instante, acendem o fogo da concupiscência que se oculta sob as cinzas da carne e provocam um vasto incêndio. Portanto, a razão exige que não lhes seja dada trégua, mas que sejam combatidos e expulsos sem misericórdia, de onde quer que venham, seja das criaturas, seja da nossa própria concupiscência.

2° Cai-se na impureza por meio dos desejos. Claríssima é a sentença de Jesus Cristo: «Todo aquele que olha para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela em seu coração» (Mt 5, 28). Por isso, São Paulo exorta os romanos a não acariciarem a carne em seus desejos corrompidos (Rm. 13, 14).

3° Chega-se à impureza por meio das palavras. «A boca fala daquilo de que o coração está cheio», diz Jesus Cristo (Mt 12, 34). Uma linguagem obscena é, portanto, sinal e efeito de um coração impuro. Apesar disso, quantas pessoas não se julgam autorizadas a proferir discursos desonestos! É por brincadeira, respondem; mas vede que não se brinca com o pecado; a violação da lei de Deus e o escândalo do próximo não são coisas de brincadeira.

Escutai o aviso de São Cesário: «Antes de tudo, em qualquer lugar em que vos encontreis, nunca saiam de vossa boca palavras desonestas ou torpes (45)». E daquilo que cheira à luxúria, não se faça sequer menção, como convém aos cristãos (Ef 5, 3).

4° Cai-se na impureza pelos olhares. Lemos no Eclesiástico que a pessoa se dá a conhecer pelos olhos (Eclo 19, 26), e há olhos tais, diz São Pedro, que transbordam de adultério e de malícia (2Pd 2, 14). Por isso, Santo Agostinho escrevia: «Ninguém diga que tem a alma pura, se tem os olhos impudicos: o olho luxurioso é o sinal de uma alma desonesta, de um coração impuro (46)».

Grandíssima é a força dos olhos para ferir mortalmente a alma e o coração. O objeto visto, e tanto mais se contemplado, passa da pupila para o interior do homem, imprimindo nele a sua imagem, que ali permanece gravada e como que esculpida, mesmo depois que o objeto já não está presente; e isso não pode acontecer sem que se gere no espírito e no coração ou o amor ou o ódio… Ah! o olhar é uma flecha inflamada que penetra até a medula do coração e a consome. Davi caiu no adultério e no homicídio porque não foi vigilante em conter a vista. Os olhos são os guias e os acompanhantes de Cupido, isto é, do amor impuro: é impossível que freie a paixão aquele que não freia os olhos; o fogo queima de perto, os olhos queimam de perto e de longe.

«É coisa certa, diz São Bernardo, que, quando os olhos se detiveram com complacência sobre um objeto desonesto, a alma fica imediatamente manchada de impureza, pois o olhar é o precursor, o guia da impudícia, assim como as mãos e o tato são os seus ministros. É preciso guardar-se dos olhares imodestos, como da mordida de uma víbora (47)».

«A morte, diz Jeremias, subiu pelas nossas janelas e, tendo entrado em nossa casa, massacra os meninos e os jovens» (Jr 9, 21). As janelas de nossa casa são os olhos, e por eles entra a desonestidade na alma. De que servem os bastiões e as torres, se as portas da cidadela permanecem abertas à entrada do inimigo? Assim também de nada valem todos os abrigos, todos os meios de defesa que a graça nos oferece, se mantemos abertas as portas dos sentidos para receber na alma os pensamentos e os desejos da carne. Deve ser, portanto, severíssima a clausura e vigilantíssima a guarda que se deve exercer sobre os sentidos, principalmente sobre os olhos, pois por meio deles entra na alma ou a vida ou a morte. Quem conduziu os dois infames anciãos a desejos nefandos para com a casta Susana? Os seus olhos (Dn 13, 8). O consentimento no pecado vem sempre na esteira do olhar voluntário… Ó Deus! Quantos condenados no inferno por olhares impuros!

O próprio Sêneca assim exclama: «Ó quão espaçosa e fácil estrada se abre às paixões por meio dos olhos, e quanto melhor seria que fossem arrancados, a fim de não deixá-los ver coisas que corrompem o coração! Os olhos mostram a este o adultério, àquele o incesto, a um terceiro o poder; e está fora de dúvida que os olhos são os instrumentos ativos do vício, os precursores dos crimes» (Lib. de Remed, fortuit.).

5° Vai-se à luxúria por meio de ações desonestas, quer sobre o próprio corpo, quer sobre a pessoa alheia; e em todas essas várias maneiras de impureza há pecado mortal, quando nelas se encontra a vontade e o consentimento deliberado.

7. QUÃO DIFÍCIL É SAIR DA IMPUREZA

É facílimo ceder às seduções da volúpia, porque essa paixão se acende mais facilmente que a palha ao fogo; mas quão difícil é libertar-se dela e extinguir os ardores de tal incêndio! Que empresa árdua e laboriosa é corrigir-se e sair de semelhante cloaca, para quem nela se afogou por frequentes quedas e por longa prática!

E, com efeito, quem os ajudará a sair de tal pântano? Talvez Deus? Sim, Deus está pronto a ajudá-los e os chama a si pelas inspirações do divino Espírito; mas, tendo a vida deles sido toda carnal, tornaram-se carne, e o homem carnal, isto é, animalesco, pouco entende a voz do espírito (Rm 8, 5; 1Cor 2, 19). «Neles já não há vestígio, diz São Tiago, da sabedoria que vem do alto; não lhes resta senão a terrena, a animalesca, a diabólica» (Tg 3, 15). Ora, pode-se esperar que tal sabedoria se deixe vencer pelos puros e doces influxos da sabedoria divina?

Talvez a vergonha natural, o horror que certas torpezas provocam nas almas honestas? Nem isso; porque, abandonados por Deus ao furor de suas malditas concupiscências, entregues ao sentido reprovado, despem-se de todo o pudor e já não distinguem a fealdade da luxúria da beleza da honestidade: são, como os chama São Judas, homens de vida animal, privados de bom senso (Jd 19).

Deixar-se-ão ao menos comover e conquistar pela graça? Não podem, responde São Bernardo; «pois, assim como aquele que saboreou as doçuras da graça acha insípidos todos os prazeres da carne, assim também aquele que acha apetitosos os prazeres do corpo já não sente gosto algum nas doçuras, nos atrativos da graça (48)».

Será o terror dos divinos juízos que fará os luxuriosos recobrarem o juízo e os levará a sair do lodo? Não acrediteis nisso, diz Santo Agostinho, porque a incontinência desvia o pensamento das últimas coisas (49).

Os avisos, os conselhos, as admoestações não têm maior força sobre a alma dos impudicos; nenhuma dessas coisas, segundo o testemunho do Crisóstomo, pode sacudir e salvar do naufrágio a alma que se afoga na luxúria (50). Pelo contrário, como observa São Cirilo, «o libidinoso, em vez de acolher de bom grado as admoestações com que se procura arrancá-lo à sua vergonhosa condição, toma-as a mal (51)». Ele se torna uma mistura de obstinação, orgulho, cegueira e estupidez, de tal modo que em vão se trabalha ao seu redor, tanto Deus quanto o homem.

«Apanhados nesta diabólica rede de Satanás, oh! quão difícil e raro é, exclama São Jerônimo, que dela saiamos! (52)». Por isso, diz São Tomás, o demônio se alegra quando consegue apanhar uma alma na luxúria, porque é coisa extremamente viscosa e dificilmente se consegue libertar-se dela (53). Este vício é como um pântano lodoso em que, quando se consegue retirar um pé, afunda-se o outro.

Isso explica por que Clemente de Alexandria chama a impureza de «mal incurável (54)»; Tertuliano, de «vício imutável (55)»; e Santo Cipriano, de «mãe da impenitência (56)». São Dionísio de Chartres afirma que, entre os habituados aos prazeres sensuais, não se encontra quem se arrependa do seu pecado; por isso, quase todos os impudicos se condenam (In Vita). «É quase impossível, escreve Pedro de Blois, que alguém consiga triunfar da carne, quando a carne já triunfou dele (57)». Com efeito, observa Santo Agostinho, «ao dar vazão à libido, contrai-se o hábito dela, o qual, com o passar do tempo, se torna necessidade. A queda é uma cadeia; a recaída e o hábito lançam na prisão; depois, o hábito se torna necessidade e mura a porta dessa mesma prisão (58)».

Infelizmente, a experiência cotidiana de tantos jovens que se entregam ao vício e não se arrependem sequer em meio ao gelo da velhice é testemunho seguro da verdade das sentenças acima!

8. CASTIGOS E CONDENAÇÃO DO IMPUDICO

Bastam para nos dar uma ideia dos castigos que a impureza traz consigo os males e as desgraças que desabam como o raio e a tempestade sobre a cabeça do impudico; e aquela vida de nefandice, de aviltamento, de degradação, de ilusão, de engano, de agitação, de cegueira, de escravidão, de remorso e de aflição em que o vemos arrastar os seus dias. E não será porventura o mais terrível dos castigos o fato de que Deus os abandona aos corrompidos apetites da carne, ao seu sentido réprobo?

«Ah! não vos iludais, exclama São Paulo: Deus não se deixa escarnecer. O homem colherá aquilo que semeou: quem semeia na carne, colherá da carne corrupção; quem semeia no espírito, colherá do espírito a vida eterna» (Gl. 6, 7-8). E aos Hebreus recorda que Deus julgará os fornicadores e os adúlteros (Hb 13, 4). A mesma coisa prega também Pedro, quando diz que Deus sabe reservar para o dia do juízo aqueles que devem ser castigados, e entre estes estão em primeiro lugar os que se entregam aos prazeres sensuais (2Pd 2, 9-10):

«Deus, escreve Santo Agostinho, faz que os próprios pecados sirvam aos desígnios de sua justiça, de modo que aquilo que foi instrumento de prazer nas mãos do pecador se torna instrumento de castigo nas mãos de Deus vingador (59)». O desonesto é comparado por Crisóstomo ao endemoniado que não é senhor de si mesmo (Hom. XXIX in Matth.). «Quem se alia a pessoas de má vida tornar-se-á desavergonhado, diz o Eclesiástico; terá por herança a podridão e os vermes; será proposto como exemplo de terror e espanto e apagado do número dos vivos» (Eclo. 19, 3).

O mais espantoso castigo que o mundo já viu é certamente o dilúvio; ora, quem o atraiu sobre a terra? A impureza do gênero humano; toda a carne se havia corrompido e Deus, para purificar o mundo, afogou-o num dilúvio de água. Quem fez chover sobre Sodoma e Gomorra fogo e enxofre? A impudicícia… Quem derrubou os grandes impérios? A dissolução… De onde brota a maior parte das heresias que transtornam a Igreja de Deus? Do vício impuro.

Ferido por desgraças e castigos nos dias de sua vida, o lascivo encontra uma morte horrenda e espantosa…; terrível será o seu juízo…; o inferno será a sua morada eterna… Ah, sim! A impureza é um fogo que se converte em chamas eternas e termina no fogo do inferno. «Os desonestos, escreve o cardeal Caetano, já trazem dentro de si o inferno neste mundo e acabarão indo alimentar o fogo do inferno. O inferno estaria vazio, cessaria, por assim dizer, a sua chama, se a impureza dos homens deixasse de fornecer-lhe alimento. A volúpia se transformará em pez, que alimentará um fogo ardentíssimo nas entranhas dos lascivos por todos os séculos. Oh, que infelicidade, que desventura prepara para si mesmo o impudico, no tempo e na eternidade!».

9. REMÉDIOS CONTRA A IMPUREZA

«A volúpia é semelhante ao cão, observa São João Crisóstomo; se o expulsais, ele se afasta; se o acariciais, já não vos deixa (60)». É preciso, portanto, expulsar e fugir desta sereia encantadora que é a impureza, como já advertia aos jovens o próprio Sêneca (Ap. Laert. lib. II).

Outro remédio nos sugere São Basílio: que se castigue o corpo e se o mantenha guardado e domado como um animal furioso (61), maltratando com penitências e austeridades este nosso vestuário de carne e de imundície, como o chama o apóstolo São Judas (Jd 23). Pois a mortificação do corpo, diz São Basílio, produz a saúde e o vigor da alma (62).

Como esta paixão convida com lisonjas, atrai com o deleite da felicidade e do prazer, apodera-se do homem para matá-lo e arruína tudo quanto nele encontra, é necessário nunca lhe dar ouvidos, não lhe dar crédito, não confiar nela, mas desconfiar dela, temê-la e fugir dela cuidadosa e prontamente. «Quem quer praticar as virtudes, escreve São Gregório, e não impedir que cresçam, deve extinguir em si mesmo o fogo impuro, de tal modo que, pela vigilância, nunca se deixe tocar por ele, nem sequer levemente» (Moral.).

O remédio que nos previne contra as chamas do fogo impuro consiste em ter dele grande horror; em não se aproximar dele; em fugir para o mais longe possível; e isso se obtém com a vigilância e a oração, dizendo Jesus: «Vigiai e orai, para que não vos acometa a tentação; porque, embora o espírito esteja pronto, a carne é fraca» (Mt 26, 41).

Meios muito eficazes para vencer a volúpia são: considerar a brevidade do prazer e a duração dos sofrimentos que vêm depois; convencer-se de que a luxúria é o mais perigoso e mortal inimigo do homem e a causa principal de todas as suas desgraças; meditar atentamente sobre a imensa diferença que existe entre as riquezas, as consolações, as doçuras da graça, da continência, e a miséria, a amargura, a angústia, os tormentos da impureza, da incontinência.

A humildade é um bom talismã contra os encantamentos da luxúria: onde não há humildade, rarissimamente há castidade. Adão, por orgulho, rebela-se contra Deus, e eis que logo a carne se rebela contra ele; vê-se nu, enrubesce e é obrigado a esconder-se… É preciso que se submeta a Deus, que lhe obedeça, quem quiser ter a carne sujeita e obediente ao espírito…

Para repelir os assaltos da volúpia, o trabalho é também uma defesa excelente. «A libido é enfraquecida e extinta pelos trabalhos corporais», escreve Santo Isidoro (63); daí aquele áureo aviso de São Jerônimo: «Cuida para que o demônio sempre te encontre ocupado no trabalho (64)»; não se deve, porém, esquecer de unir ao trabalho a oração, que é, como diz São Gregório, «a guarda do pudor (65)». Finalmente, o jejum, os sacramentos, o pensamento da presença de Deus, a devoção à Virgem Maria, a consideração dos novíssimos são meios tais que seguramente vencem e prostram o vício da impureza.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.