Tesouro n.º 93 · Volume II

IMORTALIDADE DA ALMA IMMORTALITÀ DELL’ANIMA

8 seções · 22 parágrafos · pp. 1093–1099 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DE OCUPAR-SE DA IMORTALIDADE DA ALMA

Coisa de tamanha gravidade é para o homem a imortalidade da alma, escreve Pascal (Pensée), que demonstra ter perdido o juízo aquele que dela não cuida. Saber que existem bens eternos a esperar, ou não, exerce necessariamente tal influência sobre o curso de nossa vida, que não é possível ter uma conduta sábia e sensata senão propondo-se como meta este desígnio, que deve ser nossa primeira ocupação.

2. A IMORTALIDADE DA ALMA PROVADA PELOS ESCRITORES

Poucas citações bastam para provar que a verdade da imortalidade da alma tem seu fundamento e seu apoio na Sagrada Escritura. No Gênesis, diz-se que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,26); que lhe soprou no rosto o sopro da vida, e o homem teve uma alma vivente (Ib. 2,7). Que significa isso, senão que a alma humana, na qual verdadeiramente se encontra impressa a imagem divina, é imortal como o sopro de Deus; é indestrutível como é indelével a marca de Deus nela impressa? E parece que o Sábio quis destacar esta consequência com estas palavras: «Deus comunicou ao homem, com seu sopro, o espírito de vida (Sb 15,11); e criou-o imortal, porque o fez à sua imagem e semelhança» (Ib. 2,23). O mesmo Sábio afirma abertamente, falando dos justos, «que viverão eternamente e que sua recompensa está depositada no seio de Deus» (Ib. 5,16).

«Aqueles que dormem no pó da terra, lemos em Daniel, despertarão; uns para a vida eterna, outros para a eterna vergonha, que terão sempre diante de si» (Dn 12,2). E Tobias ordenava ao filho que sepultasse o corpo assim que Deus lhe tivesse recebido a alma (Tb. 4,3); porque ele era daqueles que esperam a vida que Deus dará àqueles que não negam a fé que lhe prometeram (2,18).

O divino Mestre confundiu os saduceus, que negavam a imortalidade da alma, com este raciocínio simplicíssimo: «Vós chamais vosso Deus ao Deus de Abraão, de Jacó etc., como se não soubésseis que Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos» (Mc 12,27). Depois, tratando do juízo final, disse claramente a sentença que proferirá o juiz divino. Aos que estiverem à sua direita dirá: Vinde, ó benditos de meu Pai, tomar posse do reino que vos foi preparado desde a origem do mundo. E aos que estiverem à sua esquerda: Afastai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo eterno, destinado ao demônio e aos seus anjos. Dito isso, «estes serão precipitados no suplício eterno, e aqueles irão para a vida eterna» (Mt 25,46).

Os Padres e todos os doutores do Cristianismo afirmam e provam a imortalidade da alma… A Igreja Católica a inclui entre seus dogmas.

3. OS SÁBIOS PAGÃOS ATESTAM A IMORTALIDADE DA ALMA

Máximo de Tiro, filósofo platônico, diz: «Aquilo que os homens chamam de morte é o princípio da imortalidade, é a entrada na vida futura (1)». Paládio afirma que a alma, ao sair do corpo, como de uma prisão de morte, voa para o Deus imortal (2). Estrabão, por sua vez, transmite-nos, como ensinamento dos brâmanes, esta sentença: «A morte é o nascimento para a verdadeira e bem-aventurada vida (3).

Eliano narra que certo Carcides, estando enfermo e sendo interrogado se deixaria o mundo de bom grado, respondeu: E por que não? Alegro-me com a separação da alma e do corpo, porque subirei àquelas alturas onde encontrarei Pitágoras em meio aos filósofos, verei Homero em meio aos poetas, Olimpo entre os músicos e todos aqueles que alcançaram fama nas ciências. De Sócrates, conta Laércio que, antes de beber o veneno, disse: Não vos parece que devo considerar-me grandemente afortunado por poder conversar, na outra vida, com Orfeu, Homero e semelhantes? Que prazer não experimentarei ao associar-me a Palas, a Ájax e àquela numerosa multidão de homens que foram condenados pelo julgamento de homens iníquos? Máximo deixou escrito que, tendo caído nas mãos de Catão o livro de Platão sobre a imortalidade da alma, matou-se para ir gozar da vida imortal. Ciro, moribundo, dizia aos filhos: Não penseis, meus filhos, que, ao sair desta vida, eu esteja morto: eu viverei.

Cícero, em seu livro da República, fala assim a Cipião, que já havia morrido: «Esteja com todos aqueles que conservaram, protegeram e engrandeceram a pátria; pois no céu há um lugar distinto e designado, onde esses homens gozam de uma vida eterna (4)». E em outro lugar diz: «Sim, eles ainda vivem, aqueles que, rompendo as cadeias de seu corpo, voaram para longe como de uma prisão. Esta vossa vida terrestre, que chamais vida, é antes morte. A morte, porém, não é uma destruição, mas certa partida ou mudança de vida, que conduz ao céu os personagens ilustres (5)».

As razões em que esses filósofos pagãos apoiam a imortalidade da alma são as seguintes: A alma do homem concebe, contempla; deseja o céu e a imortalidade; é, portanto, celeste e imortal. A alma não encontra na vida presente lugar nem bem em que possa repousar, saciada, tranquila e feliz; há de, portanto, gozar dessas coisas em outra vida; de outro modo, seria mais infeliz que todas as demais criaturas. Tudo o que é corruptível é matéria ou coisa acidental; ora, a alma humana não é nem corpórea nem acidental, e é preciso, portanto, concluir que é incorruptível e imortal. A crença na imortalidade da alma sempre foi a crença de todas as nações, de todos os povos. Encontra-se entre os egípcios, os gregos, os romanos, os indianos e os chineses; Cristóvão Colombo encontrou-a arraigada nas tribos da América por ele descobertas. De onde poderia ela ter-se originado, senão do próprio Deus, que verdadeiramente fez a alma imortal?

4. A PRÓPRIA NATUREZA DA ALMA, QUE É ESPIRITUAL, PROVA A SUA IMORTALIDADE

O corpo se desfaz, se desarticula, se decompõe, mas a alma não traz em si mesma nenhum princípio de corrupção. Simples, indivisível como o pensamento, nenhum elemento pode atingi-la. A morte é uma desagregação de partes materiais; ora, sendo espiritual, sem figura, em nada semelhante ao corpo, a alma não pode nem deve naturalmente sujeitar-se a uma dissolução igual. Sendo o corpo inteiramente distinto da alma, compreende-se bem como ele possa perecer sem que a alma sofra com isso…

A alma, sendo mais perfeita que o corpo e criada à imagem de Deus, não deve cessar de existir, pois o próprio corpo continua a existir depois da morte. O corpo muda de forma, mas não é destruído pela morte; e será destruída a alma, infinitamente mais nobre, maior e mais preciosa que o corpo? Nenhum átomo foi aniquilado depois da criação; e será aniquilada a alma, rainha e obra-prima do universo! Onde encontrará o materialismo uma razão que prove que somente a alma seja aniquilada? … A espiritualidade da alma estabelece, portanto, a sua imortalidade…

5. O DESEJO DA FELICIDADE PROVA A IMORTALIDADE DA ALMA

O homem foi feito para a felicidade e sente-se irresistivelmente impelido para ela. Ora, que há aqui embaixo que possa satisfazê-lo? Sendo imenso o seu desejo, busca em vão, nas riquezas, nas honras e nos prazeres do mundo — objetos limitados, finitos e estreitos — alguma coisa que baste para saciá-lo. Ele sente necessidade de um gozo puro, firme, sólido e seguro, de um repouso certo e duradouro; mas onde encontrar tudo isso aqui embaixo, no mundo? Se não há outra vida depois desta, se a alma não é imortal, quem explicará essa ilusão? … Desejo ser feliz e eternamente feliz; e quem colocou em mim esse desejo? Certamente não fui eu mesmo. E aquele que o colocou em mim quer satisfazê-lo com uma felicidade eterna; de outro modo, seria preciso dizer que o colocou em mim para me atormentar; mas, nesse caso, seria bem cruel a zombaria de que o Criador faria de mim. Esse anseio de felicidade e de imortalidade vem de Deus; mas Deus não engana; logo, a minha alma é imortal. Suspiro pela felicidade como pelo meu fim; mas, se eu fosse aniquilado, o meu fim não seria a felicidade, mas o nada; ora, o nada não pode ser um objetivo, um fim; eis, pois, a que absurdos conduz a suposição de que a alma não seja imortal. Abalada essa verdade, já não há estabilidade, nem certeza, nem consolo para o homem. Para que serviriam estes poucos e tristes dias sobre a terra, se nada houvesse além do túmulo? Melhor teria sido permanecer eternamente no nada…

6. O PRESSENTIMENTO DA VIDA FUTURA PROVA A IMORTALIDADE DA ALMA

Quem conhece um pouco os homens não pode deixar de reconhecer em todos eles um secreto impulso a sobreviver a si mesmos, a tornar imortal o próprio nome; e por que essa aspiração universal? Quem dá ao guerreiro a força e a coragem para enfrentar mil perigos, expor-se a provas inauditas, suportar as mais duras privações, arriscar a vida a todo momento? O desejo de transmitir à posteridade um nome ilustre. Mas, se a alma não fosse imortal, para que serviria tal renome? Que importam aos mortos o louvor e a censura?

E o sábio, que não cessa de consumir-se sobre os livros, de desgastar-se em estudos contínuos para deixar à posteridade obras imortais, por quem é guiado, sustentado e consolado no áspero caminho, senão pelo sentimento da imortalidade da alma? Pois, se ele devesse ser aniquilado, que loucura seria a sua, condenar-se a tantos cuidados e tantos sofrimentos, encurtar a própria vida para deixar belas obras! Os livros viverão, e o seu autor será aniquilado?

Louva-se aquele que morre pela pátria; ora, se a alma é imortal, compreende-se que ele tenha feito bem em sacrificar a própria vida; mas, se morre verdadeiramente, totalmente e para sempre, não pode escapar à acusação de insensato, por ter sacrificado o único bem verdadeiro, que é a vida presente, por uma ideia vã e pueril. Se a alma não é imortal, dever-se-ia dizer que foram insensatos todos aqueles milhões de cristãos que enfrentaram corajosa e alegremente as torturas e a morte. Ah! Se demonstraram tanto heroísmo e mostraram tamanho desprezo pela vida presente, foi porque os sustentava a fé na imortalidade da alma. A vida presente certamente deve ser preferida ao nada; mas, se não há outra vida depois desta, quem quer que a sacrifique por qualquer causa prefere o nada; e será este um homem que mereça encômios, louvores e monumentos? …

Lê-se em Plutarco que Catão dizia: «Eu jamais teria empreendido tantas obras civis e militares, se tivesse acreditado que a minha glória seria sepultada comigo no túmulo; mas eu sabia que começaria a viver verdadeiramente quando saísse desta vida».

7. O CULTO DOS MORTOS PROVA A IMORTALIDADE DA ALMA

É um fato atestado por toda a história que, em todos os tempos, em todos os lugares e entre todos os povos, qualquer que fosse a sua religião, sempre se teve grande respeito pelos túmulos dos que partiram, professando-se uma espécie de culto para com os mortos; ora, que mérito têm as cinzas dos mortos, para que sejam guardadas e conservadas com tanta veneração? … Se tudo termina com a morte, por que esse uso universal de cerimônias e pompas fúnebres? … Por que esses soberbos sepulcros, que constituem uma glória tanto da civilização pagã quanto da cristã? … Ah! A imortalidade da alma é a fonte, a raiz e o estímulo de tudo quanto os vivos fazem pelos mortos…

Aqui, segundo a observação de um célebre escritor, a natureza humana se mostra superior ao restante da criação, e manifesta-se o seu alto destino. Por acaso a fera conhece o sepulcro ou se inquieta com as suas cinzas? Que importam à fera os ossos de seu pai, ou sabe ela quem é seu pai, passadas as necessidades da primeira idade? Somente o homem, entre todos os seres criados, recolhe as cinzas de seu semelhante e as conserva em religiosa reverência: aos nossos olhos, o domínio da morte tem algo de sagrado. De onde vem, pois, a poderosa ideia que temos da morte? Será talvez que um punhado de pó seja, por si mesmo, digno das nossas homenagens? Não; nós respeitamos os ossos de nossos antepassados porque uma voz secreta e íntima nos clama que nem tudo neles se extinguiu. É esse o pensamento que consagra o culto fúnebre entre todos os povos da terra. Todos estão persuadidos de que o sono, nem mesmo o do túmulo, não é duradouro, e de que a morte, bem considerada, se transforma numa vida gloriosa.

E as preces que, misturadas às lágrimas, se derramam sobre o esquife de um pai, de uma mãe, de uma esposa, de um filho, de um irmão, de uma irmã, de um amigo, de um parente, não são elas um argumento da fé na imortalidade da alma? …

8. A IMORTALIDADE DA ALMA PROVADA PELAS DESORDENS QUE NASCERIAM DE UMA CRENÇA CONTRÁRIA

Se, depois desta vida, não houvesse outra; se a alma não fosse imortal, que razão se poderia dar da criação e da vida presente, tão breve e tão atribulada? … As feras seriam muito mais felizes do que nós…

E, além disso, que sentido teria a encarnação do Verbo, a sua paixão e a sua morte para redimir os homens? Para que serviriam um culto, uma moral, os dogmas, os sacerdotes, as pregações, as igrejas e os sacramentos? De que aproveitaria a prática das virtudes? Por que esforçar-se para refrear as paixões e conter os próprios apetites? …

Se tudo terminasse no túmulo, já não veríamos nem um bom pai, nem uma terna mãe, nem um amigo sincero etc. Ó céu! Em que desolante desespero não nos lançaria tal pensamento! … Que seria da recompensa da virtude? Pois todos veem quão poucas virtudes são recompensadas na vida presente! … O crime, a maldade teriam, então, o privilégio de permanecer impunes? Com efeito, ninguém pode negar que muitíssimos crimes permanecem ocultos, que muitos outros não são punidos e que não poucos são até recompensados! … E, nessa hipótese, Deus seria justo? Não seria a virtude um nome vão e o crime uma quimera?» … Resulta, pois, que a alma é imortal…; que há outra vida além da presente…; é preciso, portanto, pensar nela e trabalhar para alcançá-la, para sermos felizes na eternidade, fugindo do mal e praticando o bem no tempo…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.