A palavra humildade provém dos dois vocábulos latinos humi alitus, isto é, nutrido e deitado por terra… A verdadeira humildade não é outra coisa senão o verdadeiro conhecimento de Deus e de si mesmo. Por isso Santo Agostinho dizia continuamente a Deus: «Fazei, ó Senhor, que eu vos conheça e conheça a mim mesmo» (Soliloq. c. I). A verdadeira humildade consiste em não ensoberbecer-se de coisa alguma, em não murmurar de coisa alguma, em não ser nem ingrato nem melindroso, mas em dar graças a Deus em todos os atos de sua providência, louvando-o tanto por sua bondade quanto por sua justiça. Ao conhecer Deus e conhecer a nós mesmos, Santo Agostinho faz consistir toda a ciência prática (Soliloq. c, I); e São Francisco de Assis dizia: Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós, o abismo do ser, da sabedoria e de todo bem; eu, o abismo do nada, da loucura, de todo mal, o mais culpado dos pecadores (In Vita).
Clara e peremptória é a sentença do divino Mestre: «Digo-vos, em verdade, que, se não mudardes de atitude e não vos fizerdes pequenos como estas crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mt 18, 3). As crianças não sabem o que é vangloriar-se, sobrepujar os outros, andar de cabeça erguida, mas vós as vedes simples, cândidas, inocentes; assim devemos ser nós. É preciso que sejamos humildes por virtude, como a criança o é pela idade; é preciso que sejamos pequenos pela humildade, como os jovenzinhos o são pela estatura. Jesus Cristo ordena-nos que nos tornemos semelhantes às crianças, não na leviandade e na imprudência, mas na simplicidade e na humildade. Por isso São Pedro exorta-nos a revestir-nos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes (1Pd 5, 5); e Santo Agostinho escrevia: «Se me perguntais qual é o caminho seguro para chegar ao conhecimento da verdade, se me perguntais qual é a coisa mais essencial na religião e na escola de Cristo, respondo-vos: A primeira é a humildade; a segunda, a humildade; a terceira, a humildade; e, se cem vezes me repetísseis a pergunta, cem vezes vos daria a mesma resposta (Epist. LVI). Ninguém, com efeito, se aproxima da grandeza de Deus por outro caminho senão o da humildade; o humilde aproxima-se dele, o soberbo afasta-se dele (Sent. LXXXVIII)».
São João Crisóstomo adverte-nos de que qualquer coisa boa que façamos, seja oração, seja jejum, seja esmola, seja continência, logo se dissipa e desaparece, se a fizermos sem humildade (Homil. 15, in Matth.). A mesma sentença repete o Papa São Gregório, comparando aquele que reúne virtudes sem a humildade a quem leva pó sobre a mão aberta enquanto sopra o vento (Moral. lib. XXXIV); e acrescenta que «qualquer ação que se faça não serve para nada, quando não é cuidadosamente protegida pela humildade»; ― mais ainda, ele dá como sinal evidentíssimo de reprovação a soberba, e como indício certo de predestinação a humildade (Mor. lib. 34, c. 18).
O abade Isaías costumava dizer que, assim como a terra não pode produzir fruto algum sem semente e sem água, assim também ninguém pode excitar-se ao arrependimento sem humildade (In Vita). E, de fato, o Salmista confessa de si mesmo que, antes de ser humilde, era pecador (Sl 118, 67); porque, como ele mesmo acrescenta, do alto de seu trono Deus olha para os humildes, mas rejeita indignado as súplicas dos soberbos (Sl 137, 6). «Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, matou a soberba não de outro modo senão por meio de sua humildade, e traçou-nos o caminho por meio da humildade, pois, pelo orgulho, havíamos nos afastado de Deus e não podíamos retornar a ele por outro caminho senão o da humildade (In Psalm. CXXXVII)». E isso bem o sabe a antiga serpente; por isso emprega todo esforço para soprar em nós o espírito de orgulho e para fechar à humildade toda entrada em nosso coração (Serm. XLIX). Ah! Nós quereríamos ser elevados antes de nos abaixar! Isso é impossível, dir-vos-ei com o mesmo Doutor; começa a humilhar-se aquele a quem agrada ser exaltado (Sent. LXXXVIII). É necessário, como observa São Leão, que aqueles que devem ser coerdeiros da glória de Jesus Cristo participem de sua humildade (Serm. in Nativitat.).
«Humilhemos nossas almas, dizia Judite, e sirvamos a Deus em espírito de humildade» (Jt 8, 16). «É melhor um pecador humilde, afirma Santo Agostinho, que um justo orgulhoso»; e a razão de tal sentença está nesta outra de Jesus Cristo: «Todo aquele que se exalta será humilhado; e todo aquele que se humilha será exaltado» (Lc 14, 11). Máxima cheia de verdade e, contudo, oh! quão pouco praticada! … «Que grande erro, exclama São Bernardo, que enorme ilusão é essa dos filhos de Adão, que procuram vangloriar-se e considerar-se alguma coisa grandiosa! Quanto mais elevado estás, tanto mais abaixa-te em tudo, porque, sem o mérito da humildade, não se chega a méritos mais insignes. É preciso que aquele que tende ao cume das virtudes tenha baixa opinião de si mesmo, para que não aconteça que, enquanto se julga aquilo que não é, caia abaixo daquilo que é (Serm. 34, in Cant.)». «A humildade é o vestido de todas as virtudes, diz o Papa São Gregório, e, se lho tirardes, vê-las-eis morrer pouco a pouco (Moral.)». São Bernardo diz com razão: «Louvável é a virgindade, mas mais necessária é a humildade. Aquela nos é aconselhada; esta nos é ordenada; àquela te chama um convite; a esta, a obrigação. É-te possível salvar-te sem a primeira, impossível sem a segunda. Pode agradar a Deus a humildade que deplora e chora a perda da virgindade; mas, sem humildade, ouso afirmar que nem sequer a virgindade de Maria teria agradado ao Filho de Deus (Homil l., super Missus)».
O Evangelista, falando da infância e da juventude do Redentor, resume tudo nestas palavras: Jesus estava sujeito a Maria e a José (Lc 2, 51). Sobre estas palavras São Bernardo exclama: «Quem é aquele que está sujeito? E a quem está ele sujeito? Um Deus que se sujeita não somente a Maria, mas também a José! Que um Deus obedeça aos homens é uma humildade sem exemplo. Envergonha-te, ó cinza orgulhosa! Um Deus humilha-se, e tu te elevas! (Homil. super Missus)». Falando depois de si mesmo, esse divino Redentor disse: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). Ah, sim, «tenhamos em nós, direi com São Paulo, os sentimentos que havia em Jesus Cristo, o qual, sendo revestido da divindade e igual a Deus, aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens; e humilhou-se, fazendo-se obediente até à morte, e à morte de cruz» (Fl 2, 7-8). Todo o ensinamento da sabedoria cristã consiste, como diz São Leão, não na abundância das palavras, nem na arte de filosofar, nem na busca do louvor e da glória, mas no conhecimento e no exercício daquela verdadeira e voluntária humildade que o Senhor escolheu para si e ensinou tão vivamente, desde o seio de sua mãe até o alto da árvore da cruz (Ad Diosc.).
«Eis-me feito verme, e não homem, diz Jesus falando de si pela boca do Profeta: opróbrio dos homens e escárnio da plebe» (Sl 21, 7). E, de fato, esse grande Deus escolhe uma manjedoura por berço; leva uma vida humilde e escondida durante trinta anos; passa o restante de sua vida numa pobreza que se pode chamar indigência; pois são poucos os pobres que possam dizer como ele: «As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8, 20); e finalmente morre como um impostor, um criminoso, entre dois ladrões. Que profunda e sublime humildade! «Para que o homem não se recusasse a humilhar-se, Deus se fez humilde, observa Santo Agostinho: Deus se abaixou para que o orgulho humano não julgasse indigno de si seguir as pegadas de um Deus (12)». São Basílio adverte-nos de que «a alma progride nas virtudes na mesma medida em que progride na humildade. O conhecimento da piedade é o conhecimento da humildade. Quando o homem sabe humilhar-se, então sabe imitar Jesus Cristo (13)».
«Eu não sou senão cinza e pó», dizia de si o virtuoso patriarca Abraão (Gn 18, 27). Moisés, aquele homem tão terrível para os egípcios, tão grande e tão elevado em dignidade, era profundamente humilde. E a virtude predileta de todos os profetas foi a humildade.
A Bem-aventurada Virgem Maria, escolhida por Deus desde toda a eternidade para ser a mãe do Homem-Deus, saudada pelo Anjo com profunda veneração como cheia de graça, como aquela que estava destinada a dar ao mundo o Messias prometido, declara-se, em sua sublime humildade, simples serva do Senhor: ― Ecce ancilla Domini (Lc 1, 38).
Que direi de São João Batista? A Verdade incriada havia testemunhado a respeito dele que, entre os nascidos de mulher, não havia quem lhe fosse igual (Mt 11, 11); havia-o chamado: «Lâmpada ardente e luminosa» (Jo 5, 35); havia-o elevado acima de Elias e dos profetas (Mt 11, 9); havia-o designado como seu precursor e, por isso, santificado desde o seio materno. Pois bem, esse Batista tão elogiado, honrado e exaltado abaixa-se e humilha-se até o ponto de qualificar-se como simples voz que clama no deserto (Mt 3, 3), de declarar que não era digno de desatar as sandálias do filho de Maria (Lc 3, 16).
Observai a humildade do Centurião e do Publicano. Aquele, ao oferecimento que Jesus lhe faz de ir à sua casa para curar-lhe o servo, declara-se confuso diante de tanta cortesia e indigno de acolher sob o seu pobre teto tão grande personagem, bastando uma só palavra deste para curar o enfermo, a qualquer distância (Mt 8, 8). O Publicano, entrando no templo, não ousa avançar até o santuário, mas, prostrado à entrada, batendo no peito, clama: Meu Deus, tende piedade de mim, pobre pecador (Lc 18, 13).
Pedro e Paulo, as duas colunas da Igreja — aquele pela autoridade, este pela doutrina; aquele constituído chefe do colégio apostólico, favorecido por Jesus com especial familiaridade; este escolhido como vaso de honra para levar por todo o universo o nome de Jesus Cristo — que exemplos de humildade nos dão! O primeiro declara-se indigno dos favores que o Redentor lhe quer conceder; mostra-se perturbado e tomado de temor ao considerar a sua indignidade, ao ver que Jesus havia realizado um grande milagre em seu favor e em sua barca (Lc 5, 8). O segundo chama-se «um nada» (2Cor 15, 11); «o último dos Apóstolos, e indigno até mesmo de tal nome: um aborto» (1Cor 15, 8-9).
Em uma palavra, todos os Santos foram modelos de humildade. Assim como a terra mantém ocultas em suas entranhas as minas de ouro; o mar, as pérolas; o solo, as raízes e a seiva das plantas, assim também a virtude dos Santos e dos humildes é mantida escondida aqui embaixo pela Providência e por eles mesmos… Quanto mais os homens sábios e santos são iluminados por Deus e elevados em perfeição, tanto mais reconhecem que Deus é tudo e que eles são nada; por isso, humilham-se e aniquilam-se.
Os Santos, humilhando-se, cumprem aquele preceito do Eclesiástico: «Quanto maior fores, tanto mais deves humilhar-te em tudo» (Eclo 3, 20); palavras que deveriam ser bem guardadas na mente por todos, principalmente por aqueles que estão acima da condição comum dos homens, porque são muitas as razões de tal preceito. 1° A grandeza costuma inflar os homens e levá-los ao orgulho. 2° A verdadeira grandeza é a humildade; somente a humildade eleva; somente na humildade se encontra a magnanimidade. Somente a humildade sabe inclinar um grande coração a desprezar as fumaças e as sombras miseráveis e vãs das honras mundanas, porque ela vê que não há verdadeira honra fora da virtude, e que a única honra desejável consiste na glória celeste e eterna. 3° A escola de Jesus Cristo é a escola onde se aprendem a humildade e a caridade. 4° Porque, como diz o Papa São Gregório, «quando aumentam os dons, cresce também proporcionalmente a conta que deles se deverá prestar depois; deve, portanto, cada um, segundo o seu ofício e estado, procurar humilhar-se e servir a Deus com tanto maior zelo quanto mais grave e rigorosa é a conta que se vê obrigado a prestar a Deus (Homil. 7, in Evang.)». 5° Porque é nesse relativo e progressivo abaixamento de nós mesmos que consiste a perfeição da humildade e de todas as outras virtudes. A 6ª razão no-la dá o mesmo Sábio no lugar citado, onde, depois de haver dito que, quanto maiores somos, tanto mais devemos abaixar-nos, acrescenta: «E encontrarás graça diante de Deus» (Eclo 3, 20). Por isso, quem deseja ser maior aos olhos de Deus, único justo avaliador da verdadeira grandeza, e entrar mais profundamente em sua graça, seja maior em humildade. «Quando te vires elevado ao ápice da virtude, então, mais do que nunca, te será necessária a humildade, diz Santo Efrém, para que, sendo sólido e perfeito o fundamento, que é a humildade, o edifício permaneça firme; e então será seguro o fruto de tuas virtudes (De Vita spirit. n. 66)». Lembrai-vos, diz Santo Isidoro, de que sois pó e cinza; corrupção e vermes; e qualquer grau que ocupeis, por mais elevado que seja, se a vossa humildade não for igual à vossa elevação, perdereis inteiramente aquilo que sois. Estais talvez mais alto que o primeiro anjo? Sois mais ilustre na terra do que era Lúcifer no céu, o qual, por seu orgulho, caiu de sua sublime altura na mais profunda baixeza e miséria? (De Conflictu vitior, et virtut.). Finalmente, encontramos uma 7ª razão no versículo seguinte do Eclesiástico: «Porque somente a potência de Deus é grande, e ele é honrado pelos humildes» (Eclo 3, 21). Humilhai-vos profundamente, e recebereis grande abundância de graças de Deus, porque esta virtude da humildade honra grandemente a Deus; ele se compraz e se alegra com ela, honra aqueles que o honram e os cumula de seus favores. A razão é clara: sendo Deus a suprema grandeza, a criatura deve tributar-lhe a máxima humildade. Deus ama a humildade porque ama a verdade; ora, a humildade não é senão a verdade, porque é o conhecimento de Deus e de si mesmo, ao passo que o orgulho é a ignorância absoluta destas duas grandes verdades, que encerram em si todas as verdades possíveis.
Quem somos nós, ó homens, 1° quanto à substância? …, 2° quanto à extensão e à medida do nosso ser? …, 3° quanto à qualidade? …, 4° quanto à origem, de Adão pecador? … 5° quanto à ação? … 6° quanto à enfermidade? … 7° Onde estamos? Sobre a terra, entre o céu e o inferno… 8° Há quanto tempo existimos? … Quanto vivemos? … Quando morreremos? … 9° Qual é a nossa condição? … Hoje de pé; amanhã, ou talvez dentro de um momento, caídos e exangues… 10° Quais são os nossos costumes? … Como vivemos? O santo Jó dizia: «Eu disse à corrupção: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã» (Jó 17,14). «Ó homem, diz Santo Agostinho, se considerasses o que há de repugnante encerrado em teu corpo, compreenderias que não existe cloaca mais vil (In Psalm)». «A tua humilhação está no meio de ti», diz Miqueias (6,14). Desçamos, portanto, da altura do nosso orgulho, prostremo-nos no pó, sentemo-nos sobre a terra nua (Is 47,1); digamos com o Salmista: «O meu ser é como um nada diante de ti, ó Senhor; todo homem vivo sobre a terra não passa de vaidade… A minha ignomínia está sempre diante de mim, e o meu rosto está coberto de confusão» (Sl 38,6; 43,16).
Quem está bem persuadido de que não passa de barro e de que em breve deverá reduzir-se a cinzas jamais será soberbo, diz São Jerônimo; e quem considera a brevidade do tempo e a extensão da eternidade, quem mantém sempre diante dos olhos o pensamento da morte e do seu nada, será humilde (Lib. sup. Matth.). São Gregório observa que aquele que tem um conhecimento exato e perfeito de si mesmo despreza-se; porque o orgulho nasce da cegueira e da ignorância de nós mesmos (Moral.). A este respeito, São Bernardo faz o Senhor falar assim: «Ó homem! Se te visses, desagradarias a ti e agradarias a mim; mas, porque não te vês, agradas a ti e desagradas a mim. Virá o dia em que não agradarás nem a ti nem a mim; não a mim, porque estás manchado pelo pecado; não a ti, porque arderás eternamente (Serm. In Psalm.)».
Que motivo de humilhação é para nós sermos incapazes de produzir por nós mesmos qualquer bem? Ora, Jesus Cristo no-lo declara abertamente: «Sem mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5). São Paulo no-lo repete, advertindo-nos de que, se alguém julga ser alguma coisa, quando na realidade é nada, engana-se a si mesmo (Gl 6, 3). Com efeito, como observa Santo Agostinho, «não há delito, por mais enorme que possa ser, cometido por um homem, que outro homem não possa cometer, se lhe faltar o amparo daquele que o criou (De Charitate)». «Onde está o homem, pergunta o Sábio, que possa dizer: o meu coração é puro; estou isento de culpa?» (Pr 20, 9). Não, não há homem sobre a terra tão justo que faça sempre o bem e jamais tropece em alguma culpa (Ecl 7, 21). Ainda que haja justos e corações puros, não devem, contudo, nem vangloriar-se disso nem gloriar-se, seja porque essa pureza não é obra deles, mas de Deus, seja porque aquele que hoje é perfeito pode amanhã tornar-se um grande pecador, um réprobo; pode precipitar-se, por fragilidade natural, em excessos vergonhosíssimos, como aconteceu e acontece todos os dias a não poucos… O mesmo se pode dizer acerca da incerteza do estado de graça, segundo estas palavras do Espírito Santo: «O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio» (Id. 9, 1). Com efeito, ninguém, ainda que santíssimo, sabe de modo positivo e seguro, salvo no caso de uma revelação especial, se é justo, isto é, se se encontra no feliz estado da graça santificante, na amizade de Deus. Que motivo para temer, tremer e humilhar-se! … Suponde, diz São João Crisóstomo, que haja uma pessoa tão santa e tenha alcançado tal altura de justiça que esteja isenta de pecado; ainda assim, não pode estar livre de alguma mancha, porque, embora santa, continua sendo homem. Quem pode dizer que não tem mancha? Quem pode assegurar que está sem pecado? Por isso nos é mandado dizer em nossa oração: Perdoai-nos os nossos pecados; para que, pelo uso da oração, sejamos advertidos de que estamos expostos ao mal por causa do fomes do pecado que há em nós e das consequências da concupiscência (In Orat. Dom.).
Portanto, abaixemo-nos diante de Deus, coloquemo-nos abaixo dos Anjos, dos homens, de todas as criaturas; abaixemo-nos até o inferno. São Francisco de Borja colocava-se sob os pés de Judas, e até mesmo dos demônios e do próprio Lúcifer (In Vita). Façamos o mesmo também nós. E por quê? Porque pecamos mais frequentemente e mais gravemente do que eles. São Vicente Ferrer costumava dizer com muito fervor: Quem quiser escapar às ciladas e às tentações do diabo, pense e sinta de si mesmo como se fosse um cadáver formigante de vermes, cuja visão o faz estremecer de horror, sobre o qual o olfato não se detém e do qual, enojado, desvia o rosto. É preciso que eu sempre olhe para mim mesmo e me trate assim, pois toda a minha vida está manchada: sou todo corrupção; o meu corpo, a minha alma, o meu coração e tudo o que há em mim são podridão, ignomínia repugnante, cloaca abominável de pecados e iniquidades; e, coisa ainda mais vil e espantosa!, sinto em mim repercutir-se com maior vivacidade esta corrupção degradante e perigosa (Tract. de Vita spir.). Dionísio Cartuxo diz que há em nós mil razões para nos humilharmos, principalmente se considerarmos: 1° os pecados por nós cometidos…; 2° a nossa fragilidade…; 3° a imperfeição da nossa natureza…; 4° as nossas imundícies e misérias corporais…; 5° se nos compararmos com os Santos e com os eleitos…; 6° se observarmos que nada temos por nós mesmos, que nada nos pertence…; 7° se meditarmos nos juízos de Deus…; 8° se contemplarmos a sua divina majestade…; 9° se ponderarmos o castigo do orgulho.
O primeiro grau da humildade consiste em que o homem conheça a si mesmo e o seu nada; o segundo, em que suporte corajosamente o desprezo, venha ele de onde vier; o terceiro, em que se alegre com isso… Outros graus da humildade são: 1° humilhar-se diante dos superiores; 2° diante dos iguais; 3° diante dos inferiores. Santo Anselmo faz consistir a humildade no desprezo de nós mesmos e lhe atribui sete graus: 1° reconhecer que somos desprezíveis; 2° gemer por causa dessa degradação; 3° confessar que somos dignos de ser vilipendiados; 4° persuadir disso os outros no tempo e no lugar oportunos; 5° não nos ofendermos quando alguém no-lo diz; 6° ter paciência quando nos vemos tratados como tais; 7° alegrar-nos e rejubilar-nos com isso, e não somente tolerá-lo com ânimo tranquilo, mas ir ao seu encontro com prazer (Lib. de Simil, c. 100).
Na regra traçada por São Bento para os seus religiosos, são assinalados doze graus de humildade: 1° o temor de Deus; 2° a resignação; 3° a obediência; 4° a prática da obediência também nas coisas mais penosas; 5° manifestar os próprios defeitos e dar-se inteiramente a conhecer aos superiores; 6° considerar-nos indignos de toda consideração e favor; 7° crer sinceramente que somos inferiores a todos os outros; 8° — o que é próprio especialmente dos religiosos — seguir o exemplo da Comunidade e não mostrar-se singular em coisa alguma; 9° guardar silêncio até que sejamos interrogados; 10° não nos entregarmos ao riso desmedido e à dissipação; 11° falar pouco, modestamente e de coisas razoáveis; 12° praticar a humildade interior e exteriormente.
Quanto aos sinais ou marcas da humildade, Cassiano, em suas Instituições (Lib. 4, c. 39), apresenta-nos os seguintes: 1º a mortificação; 2º a prestação de contas que cada um dá de si aos superiores; 3º cumprir tudo segundo a decisão do superior; 4º a obediência e a mansidão em tudo; 5º não fazer mal aos outros e suportar o que nos é feito pelos outros; 6º não fazer nada senão segundo a regra e o exemplo; 7º estar contentes com os encargos humildes, baixos e até vis, e considerar-nos servos inúteis; 8º mostrar-nos inferiores a todos; 9º refrear a língua e falar com modéstia; 10º não nos entregarmos a alegrias ruidosas.
Em outro lugar, o mesmo autor indica ainda estes outros: 1º não querer ser louvados; 2º conservar simplicidade nos costumes; 3º ignorar voluntariamente o bem que os outros dizem de nós, por temor de que, conhecendo-o, o percamos; 4º nutrir baixos sentimentos de nós mesmos, ainda quando os outros falem de modo diverso; 5º ser generosos em reconhecer e confessar nos outros as suas boas qualidades; 6º acusar a nós mesmos; não nos desculpar e receber de bom grado a correção; 7º ignorar as próprias virtudes; 8º desprezar o que é humano e terrestre; 9º rezar pelos próprios perseguidores e fazer-lhes o bem.
1º A humildade vence os demônios e as tentações; enfraquece toda a força dos nossos inimigos. O humilde é aquele justo de quem diz o Espírito Santo que se acusa e condena a si mesmo (Pr 18, 17); ele, portanto, arranca das mãos do demônio toda arma com que este poderia atacá-lo, acusá-lo e vencê-lo. «Toda a vitória do Salvador, que triunfou do demônio e do mundo, foi, como diz São Leão, concebida na humildade e consumada na humildade (De Vocatione)». São Macário ouviu certo dia o demônio dizer-lhe: Grande violência me fazes, ó Macário, de tal modo que, com toda a vontade que tenho de te prejudicar, não posso fazê-lo. Tu jejuas e vigias com frequência; eu também faço isso; mas há uma coisa na qual não posso competir contigo e, por isso, tu me vences. Macário quis saber qual era e, tendo-lho perguntado, o diabo respondeu: Somente a tua humildade me vence (Vit. Pat. lib. 7, c. XIII).
2º A humildade eleva: é palavra infalível de Jesus Cristo: «Quem se humilha será exaltado» (Lc 14, 11). Com efeito, São Paulo diz do divino Redentor: «Jesus Cristo aniquilou-se; por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo outro nome, de modo que, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e no inferno» (Fl 2,7, 9-10). Maria humilha-se, confessando-se serva do Senhor, e eis que, naquele mesmo instante, o Verbo eterno se encarna em seu seio. A sua humildade a eleva à única e sublimíssima dignidade de Mãe de Deus. «E com toda a razão, como diz São Bernardo, tornou-se senhora de todos aquela que se confessava e reconhecia serva de todos (Serm. in Apoc.)».
O humilde considera-se o mais abjeto de todos, embora viva mais dignamente que todos, e, julgando-se o último entre todos, é na realidade o primeiro. A verdadeira grandeza da alma é a humildade, pela qual o homem esconde a sua grandeza, a exemplo do Verbo encarnado, que esconde a sua grandeza divina sob o véu de sua santa humildade… «A humildade em meio às honras, escreve São Bernardo, é a honra da honra, é a dignidade da dignidade. Nenhuma dignidade merece esse nome se se mostra altiva e soberba. Sobressais sobre os outros por condição ou ofício? Sede iguais a eles pelo voluntário rebaixamento; fostes postos para mandar? Sabei submeter-vos. Por que vos encherdes de orgulho e vos exaltardes sem motivo? O Senhor é infinitamente elevado, mas não é nisso que ele se propõe a vós como modelo. A sua grandeza deve ser louvada, não imitada. Humilhai-vos, e sereis senhores de Deus. Somente a humildade eleva, somente a humildade conduz à vida; ela é o verdadeiro caminho para isso, e não há outro senão este. Quem caminha fora dela cai, não sobe (Serm. 34, in Cant.)».
A humildade é a árvore da vida, que cresce incessantemente e se eleva até muito alto. Quanto mais o homem se abaixa, tanto mais se eleva, assim como a árvore cresce e se ergue à medida que suas raízes descem e se aprofundam na terra. O orgulho eleva-se até o céu e é obrigado a retroceder até o inferno; a humildade desce até o inferno e é elevada até o céu. Esse é o ensinamento dos Padres. «Quanto mais humildes fordes, diz São Bernardo, tanto mais de perto vos seguirá o aumento da glória. Descei, se quereis subir; humilhai-vos, se desejais ser elevados, para que não vos aconteça que, exaltando-vos, sejais rebaixados. A humildade ignora o que é cair, mas sabe muito bem o que é subir (De Modo bene vivendi, c. XXXIX)». A humildade, diz São Cipriano, eleva o homem ao estado mais excelso (Serm. ad Martyr.). Acolhamos, pois, o conselho de Santo Agostinho, que nos exorta a ser pequenos aos nossos próprios olhos, para que sejamos grandes aos olhos de Deus (Serm. CCXIII, de Temp.). Deus é generoso remunerador dos humildes; caminha à frente deles para conduzi-los ao alto, até que alcancem a coroa.
«Deus ergue do pó o pobre, isto é, o humilde, canta o Salmista, e tira do monturo o indigente, e o faz sentar-se entre os príncipes do seu povo, no meio da multidão dos seus eleitos» (Sl 112, 7-8). Temos um exemplo vivo e eloquente disso em José: seus irmãos não lhe poupam ultraje algum, humilham-no até vendê-lo como escravo; e Deus o eleva a ponto de fazê-lo o deus do Faraó e de todo o Egito; e seus irmãos soberbos são obrigados, se não querem morrer de fome e obter misericórdia, a prostrar-se aos seus pés. «Seus irmãos vendem-no, observa aqui São Gregório, para não honrá-lo; e ele é honrado e exaltado porque é vendido (In Gen.)». José, assim vendido e maltratado pelos irmãos, parecia miserável e digno de compaixão aos olhos deles e do mundo; contudo, não o era, porque Deus começa, por esse mesmo fato, a elevar o seu feixe de glória e a rebaixar os feixes de seus irmãos. E, assim como procede com José, Deus procede com todos: começa a elevar quando humilha; e quanto mais quer exaltar alguém, tanto mais primeiro o rebaixa. O soberbo e honrado Amã procura perder o humilde e desprezado Mardoqueu, e eis que o abjeto Mardoqueu é elevado acima de Amã, enquanto este pende da forca que havia preparado para aquele. Oh! Quantos exemplos semelhantes poderia fornecer-nos a história!…
O carro triunfal da virtude e da glória é feito de humilhações, zombarias, adversidades e desprezos. «Quando eras pequeno aos teus próprios olhos, não te constituí eu chefe das tribos de Israel, não te consagrou o Senhor rei de Israel?», disse Samuel a Saul (1Sm 15, 17). Eis o fruto da humildade… «Diante do Senhor, que me escolheu e ordenou que eu fosse rei em Israel, eu aparecerei mais baixo e vil do que antes, dizia Davi; serei humilde aos meus próprios olhos e terei maior glória» (2Sm 6, 21-22). «Davi, comenta aqui o Crisóstomo, reconhecia ser pastor de rebanhos e não célebre pela nobreza de sangue. Tornado depois nobre e grande, sente e confessa que foi tirado do pó; porque não esqueceu sua condição primitiva, perseverou na dignidade real (In Lib. 2 Reg.); cumprindo-se nele, mais do que nunca, aquela sentença do Sábio: A humildade precede a glória» (Pr 15, 33), repetida por São Gregório Nazianzeno com estas outras palavras: «O esplendor e a glória caminham lado a lado com a humildade» (Orat. III).
«Queres ser grande? Começa por ser pequeno. Queres erguer um magnífico edifício? Começa pela humildade, que é o seu fundamento (In Evang. Matth. Serm. X)». Esse é o conselho de Santo Agostinho, que em outro lugar diz: Quanto mais baixo é o conceito que o homem tem de si mesmo, tanto maior ele é na presença de Deus; ao contrário, tanto mais vil e abjeto Deus julga o homem orgulhoso quanto maior ele parece ao mundo. Humilhai-vos, pois, se quereis ser elevados, para que não vos aconteça que, elevando-vos por soberba, sejais rebaixados. Pois aquele que é pobre e desprezível aos próprios olhos é caro e precioso aos olhos de Deus. Em vossa exaltação, conservai-vos em profunda humildade; a elevação redunda em vossa honra na medida em que sois humildes (Serm. CCXIII). Por causa do orgulho, a admirável natureza dos Anjos caiu do céu; em virtude da humildade do Filho de Deus, a fragilidade da natureza humana subiu ao céu. Quanto mais um coração se abaixa e desce pela humildade, tanto mais se eleva. Crede em mim, escreve São Cirilo: quem se julga grande torna-se vil, assim como quem se considera sábio se torna insensato. A suprema dignidade encontra-se, pois, onde reina uma profunda humildade; e, quando vos desprezais sumamente, então a vossa dignidade cresce infinitamente. Enquanto nos julgamos indignos de toda grandeza humana, a humildade nos torna dignos da morada eterna do céu (Catech. III). Quem quer seguir os passos da divindade, diz Santo Ambrósio, caminhe pelo caminho da humildade; quem quer sobressair-se sobre seu irmão no céu, preceda-o e ultrapasse-o em humildade na terra (Offic.). O caminho do céu é a humildade e a humilhação; o caminho da ruína e do inferno é o orgulho.
Lemos nos Provérbios que «o humilde de espírito receberá a glória» (Pr 29, 23). Assim como a águia alimenta seus filhotes, toma-os, transporta-os pelo ar, mantém-nos e sustenta-os para que não caiam, assim a graça celeste acolhe os humildes, eleva-os, sustenta-os em sua elevação, fortalece-os e não os deixa cair. A humildade é a mãe de toda verdadeira honra, porque o humilde é honrado por Deus, pelos Anjos e pelos homens; não recebe uma só honra, mas recebe todas, tanto temporais como eternas. O humilde aumenta e multiplica a sua glória na proporção em que multiplica os atos de humildade, pois não há ato mais glorioso e admirável do que considerar-se um nada enquanto se realizam grandes feitos. A verdadeira glória consiste em cumprir exatamente aquela exortação de Cristo: «Depois de haverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis e fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10). «Queres ser grande? diz Santo Efrém; faze-te o último de todos. Desejas gozar de boa fama? Realiza tuas obras com humildade e mansidão (Tract. de Timore Dei, t. III)». São João Batista, como observa o Papa São Gregório, não quis usurpar o nome de Cristo e, por isso, tornou-se membro de Jesus Cristo; tendo cuidado de confessar com sincera humildade a sua pequenez, mereceu ser elevado à mais alta altura (Moral.): porque, como diz Santo Agostinho, aqueles que Deus eleva até si, eleva-os e faz deles o seu céu (Serm. XII).
3º Somente os humildes são capazes de grandes coisas. «Nada é impossível, e nem sequer difícil, aos humildes», diz São Leão (Serm. de Quadrag.). Com efeito, o humilde desconfia de si mesmo em tudo e faz tudo em Deus; Deus, portanto, o ajuda… Consulta Deus em todos os assuntos, e Deus o guia… Atribui tudo a Deus, e Deus o abençoa e faz prosperar em tudo; então ele pode tudo. Exclama com Pedro: «À vossa palavra, ó Senhor, lançarei as redes» (Lc 5, 5); e, com um milagre não menos estupendo que aquele obtido por Pedro, vê recompensada a sua fé humilde e confiante… O soberbo apoia-se num braço de carne; fica decepcionado em suas esperanças, não é sustentado e cai; o humilde confia somente no poderoso braço de Deus e, por isso, permanece firme e inabalável, empreende grandes obras e as realiza. O bicho-da-seda faz uma bela obra, mas esconde-se, e só se vê a sua preciosa casa. Façamos também nós assim: escondamo-nos e deixemos que sejam vistas somente as nossas obras. Esse era o sentimento de Davi quando dizia: «Sou um verme, não um homem» (Sl 21, 7). Quem jamais realizou coisas mais admiráveis e mais úteis do que as realizadas por Moisés, Judas Macabeu, pelos Apóstolos e pelos Santos de todos os tempos? Ora, eles nada faziam por si mesmos, mas faziam tudo em Deus e por Deus… Os soberbos não sabem fazer senão ruínas; somente os humildes realizam obras duradouras e heroicas.
4° A humildade de Maria repara tudo. «O favor divino que a natureza humana havia perdido pelo orgulho de nossos primeiros pais foi recuperado por ela, diz Santo Agostinho, por meio da humildade em Maria (Serm. XII)». Deus olhou para a humildade de sua serva, escreve o Evangelista, e a encheu de sua graça, comenta São Bernardo (Lc 1, 48); (Serm. Super Missus). «Ó verdadeira humildade, exclama Santo Agostinho, que dá à luz um Deus para os homens, que dá vida aos mortos, que renova os céus, que purifica o mundo, que abre o céu, que liberta as almas dos homens! (Serm. XII)». A propósito daquelas palavras do Senhor: «Sobre quem repousarei o meu olhar, senão sobre o coração contrito?» (Is 66, 2), São Bernardo faz a seguinte observação: «Deus assegura que mantém os olhos sobre o pobre, não sobre o virgem. Se, pois, Maria não tivesse sido humilde, o Espírito Santo não teria repousado sobre ela, nem a teria tornado fecunda. Deus olhou para a humildade de sua serva, mais que para a sua virgindade; e, se esta lhe agradou pela virgindade, foi pela humildade, porém, que ela se tornou sua mãe; e por isso deve à humildade o fato de, tendo a sua virgindade granjeado o favor de Deus, ter-se tornado sua mãe (Homil, 1, super Missus)».
5° A humildade é o fundamento, o sustento e o crescimento das virtudes. «A humildade, escreve São Basílio, é o mais seguro receptáculo, a raiz e a base de toda virtude (In Constit. monast, c. XVII)». Em outro lugar, o mesmo autor chama-a o arsenal, o armazém de todas as virtudes (Admonit. ad fil. spirit.). São João Crisóstomo adverte que, assim como a soberba é fonte de todo mal, assim também a humildade é origem de toda virtude (Hom. 15, in Matth.). Cassiano saúda-a como a senhora e a rainha de todas as virtudes, declara-a o mais sólido fundamento do edifício celeste (Collat. 15, c. VII). São Bernardo louva-a como guardiã da pureza, mãe da paciência, escola perfeitíssima da sabedoria cristã (Epist., ad Dioscor.). Por isso, São Paulino exorta-nos a não considerar coisa alguma nem mais querida nem mais preciosa que a humildade, porque ela é a principal conservadora, a guardiã de todas as virtudes (Epist. 15, ad Celant,), de tal modo que, onde ela falta, estas, juntamente com qualquer outro dom de Deus, como diz São Gregório, correm perigo (Moral.).
6° A humildade é a virtude que mais depressa nos faz encontrar Deus e mais nos aproxima dele. «Aproximai-vos de Deus, diz-nos São Tiago, e Deus se aproximará de vós» (Tg 4, 8). «Vede, ó irmãos, exclama Santo Agostinho (Serm. 2, de Ascens.), coisa admirável! Deus está no alto; contudo, se vos elevais, ele foge de vós; se vos abaixais, ele desce até vós». Estas palavras são o comentário daquelas do Profeta Davi: «Do alto de seu trono, o Senhor olha para os humildes e repele para longe de si os soberbos» (Sl 137, 6), e destas outras: «O homem subirá ao cume de seu coração altivo, e Deus se elevará ainda mais alto» (Sl 63, 7-8). Porque, como observa Santo Agostinho no lugar citado, «nas coisas materiais e visíveis, vê melhor os objetos colocados no alto aquele que sobe a um lugar elevado; mas, para ver Deus, chega-se não elevando-se, mas humilhando-se (Ibid.)». Um pecador humilde encontra Deus mais depressa que um justo soberbo… Pelo passo da humildade chega-se ao céu. Aprendamos, pois, a ser humildes, se queremos aproximar-nos de Deus. «Ouvi, exclama Isaías, o que diz o Altíssimo, o Sublime, aquele cujo nome é o Santo e cuja morada é a eternidade: habito acima dos céus e escuto os gemidos do coração humilhado; dou vida ao espírito dos humildes» (Is 57, 15). Notemos aqui a admirável grandeza e magnificência de Deus, na estupenda conexão com que une os dois extremos, isto é, a suprema elevação ao supremo abaixamento, o céu e o humilde: ele, que permanece elevado no infinito, une-se ao supremo nada que se humilha. Ele habita no coração humilde, como habita no céu, porque no coração humilde se forma para ele um céu. Eis como Deus eleva os humildes até o céu, até a eternidade; e, assim elevados, como não encontrarão eles a Deus, enquanto ele está neles, e eles nele?
7° A humildade é a destruição do pecado. O homem cai no pecado pelo orgulho; levanta-se dele pela humildade. Um coração humilde nunca permaneceu por muito tempo no pecado, nem Deus jamais recusou o perdão aos humildes, segundo aquelas palavras do Salmista: «Vós nunca rejeitais, ó meu Deus, um coração contrito e humilhado» (Sl 50,19); e aquele dito de Santo Agostinho: «Deus perdoa o pecado quando o pecador o reconhece e o confessa humildemente» (Confess.). Santo Egídio, discípulo de São Francisco, compara a humildade ao raio; pois, assim como este fere e derruba, mas desaparece, assim a humildade abate e destrói todo pecado, e faz que o homem se torne como um nada aos próprios olhos (In Vita). O humilde torna-se quase impecável, porque, desconfiando continuamente de si mesmo e não confiando senão em Deus, vigia, teme, foge, reza,..
8° A humildade transforma os demônios em Anjos, segundo esta sentença de Santo Anselmo: «A soberba transformou os Anjos em demônios; a humildade transforma os demônios em Anjos (Lib. de Similit.)»; com efeito, como diz São Gregório, por meio da humildade os homens vão ocupar no céu os assentos deixados vazios pelos Anjos apóstatas (Homil. in Evang.). Bastam os exemplos de Davi, da Madalena, do Publicano, de Paulo e de Agostinho para nos provar que o mais torpe pecador que se humilha se torna um anjo. Se os demônios do inferno pudessem e quisessem humilhar-se, Deus lhes perdoaria.
9° A humildade é o sacrifício mais agradável a Deus. «Sacrifício excelentíssimo acima de todos os sacrifícios é a humildade», escreve São João Crisóstomo (Hom. 2, in Psalm. L). E, com efeito, a humildade é a imolação do coração, da alma, do espírito, da vontade, do corpo, enfim, do homem todo.
10° A humildade ilumina e faz conhecer a verdade. «No profundo da humildade está depositado o conhecimento da verdade», diz São Bernardo (Epist.). E, de fato, se Deus se revela ao homem, escolhe sempre o humilde. Jesus diz ao Pai: «Eu vos dou graças, ó meu Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e aos prudentes (isto é, aos orgulhosos) e as revelastes aos pequeninos (isto é, aos humildes)» (Mt 11, 25). Se os hereges estão no erro e fora da verdade, a causa deve ser procurada no orgulho… A falta de humildade de espírito e de coração é a maior desgraça que pode acontecer a um homem; é um dos mais terríveis castigos de Deus… Para um espírito humilde, basta a fé para ver e conhecer todas as verdades essenciais necessárias à salvação, ao passo que o orgulhoso não quer senão a sua razão. E, como Deus se retirou dele, por isso sua razão está obscurecida e corrompida; ele já não passa de um insensato.
11° A humildade dá a verdadeira liberdade. «Eu me humilhei, cantava o Profeta, e Deus me restituiu à liberdade» (Sl 114, 6). «Aquele que se humilha para confessar a própria escravidão merece a liberdade da graça», diz São João Crisóstomo (Hom. 2, in Psalm. L). A humildade domina os movimentos da ira; vence as ofensas e os obstáculos do amor-próprio; triunfa do demônio, da carne e de todo gênero de pecados; abre o caminho e a porta para o céu. Pode haver liberdade mais bela e mais preciosa que esta?
12° A humildade traz a verdadeira sabedoria. Diz o Espírito Santo: «Onde quer que habite o orgulho, ali haverá confusão; mas onde há humildade encontra-se a sabedoria» (Pr 11, 2). «A humildade, diz Santo Agostinho, merece ser guiada pela luz de Deus; e a luz de Deus é o prêmio da humildade (Tract. 104, in Ioann.)».
13° A humildade dá a graça e a paz, como Jesus Cristo nos assegura abertamente: «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para as vossas almas» (Mt 11, 29); e São Tiago diz: «Deus concede abundantemente a sua graça aos humildes» (Tg 4, 6). Santo Agostinho deixou escrito: «Quem não é humilde não pode ter em si a graça de Deus (Tract. 104, in Ioann.)» … Filha da humildade é a paz do coração… O humilde está em paz com Deus, com o próximo e consigo mesmo… Deus não nega graça alguma à humildade.
14° Daqui deriva outra vantagem para o humilde: sua oração é sempre ouvida por Deus. «Escrevam, diz o Salmista, as gerações futuras em sua memória esta consoladora verdade: que Deus ouve a oração dos humildes e nunca deixa sem resposta a sua súplica» (Sl 101, 18-19). Por isso, ele mesmo, para ser atendido pelo Senhor, apresentava-lhe que vivia profundamente humilhado (Sl 112, 7). Também Judite nos assegura que a oração dos humildes e dos mansos sempre foi agradável a Deus (Jt 9, 16).
15° A humilhação é um bem precioso. «Foi bom para mim, dizia Davi ao Senhor, que me humilhastes» (Sl 118, 71). Com efeito, as humilhações fazem-nos voltar a nós mesmos, abrem-nos os olhos, de modo que conheçamos e deploremos os nossos desvios; desprendem-nos dos bens, das honras e dos prazeres do mundo; tornam-nos capazes de reconhecer o nada do corpo e das criaturas e levam-nos a estreitar-nos com Deus, que somente é rico, grande, bom, sumamente amável e digno de admiração e de louvor… Ao homem humilde podem aplicar-se, em sentido místico, aquelas palavras do Salmista: «Os vales abundarão de trigo» (Sl 64, 14), tantos são os bens que o humilde extrai da humilhação.
16° A humildade satisfaz toda injustiça e agrada infinitamente a Deus. Pela humildade, o homem paga o que deve a Deus; pois o humilde se submete a Deus por espírito de religião, faz tudo o que Deus dele exige e deseja. Paga o que deve ao próximo, tratando a todos com afável cortesia e sincera caridade; pois o humilde é sempre caridoso, sempre disposto a prestar serviços, a ajudar, a socorrer, a consolar. Paga o que deve a si mesmo, submetendo, pela continência, o corpo à alma, e a alma a Deus… E, fazendo assim, não será ele o dileto, o favorito de Deus? Tinha, pois, razão São Luís, bispo de Tolosa, ao afirmar que não há coisa mais cara e agradável a Deus do que uma vida cheia de méritos e acompanhada de profunda humildade; porque o homem é tanto mais caro a Deus quanto mais despreza a si mesmo por amor dele (In Vita).
17° Na humildade encontram-se a perfeição e a verdadeira felicidade. A virtude da humildade é a árvore da vida, que sempre cresce e continuamente se eleva… Quanto mais cheia está a espiga, mais inclina a cabeça; quanto mais carregada de frutos está uma árvore, mais seus ramos se abaixam: assim é o humilde, do qual se pode verdadeiramente dizer que vai sempre fazendo novos progressos (Sl 83, 6); e Deus, de sua parte, o enche de alegria e consolação, e disso resulta a felicidade e a bem-aventurança.
Assim se entende aquela palavra do Salmista: «Nós nos alegramos, ó Senhor, pelos dias em que nos humilhastes» (Sl 89, 15). E a Virgem Maria exclamava: «Porque o Senhor voltou os olhos para a humildade de sua serva, por isso todas as nações me proclamarão bem-aventurada» (Lc 1, 4-8).
Jesus Cristo chamou bem-aventurados os pobres de espírito (Mt 5, 3); e com este nome, com toda razão, como afirma Santo Agostinho, entendem-se os humildes, cujo espírito não está inchado de orgulho (In haec verba). A humildade é o princípio da graça, da glória e do reino celeste. Ora, onde se encontra a verdadeira felicidade, senão na graça e na glória celeste? Feliz, exclama São Nilo, aquele cuja vida é elevadíssima e cujo espírito é humildíssimo! (In Vit. Patr.). Nele se cumprirá o que diz São Jerônimo a respeito de Santa Paula: «Fugindo da glória, merecia a glória». «Grande felicidade e esplêndida glória é a humildade, escreve Santo Efrém; ela não conhece nem queda nem ruína (Serm.)». Até mesmo Sêneca nos deixou este aviso: «Se queres ser feliz, cuida antes de tudo de desprezar a ti mesmo; depois, deseja ser desprezado pelos outros (Prov.)». Esperemos, pois, na humildade, a consolação do Senhor, direi com Judite (Jt 8, 20).
18° A humildade assegura a salvação. «Senhor, dizia Davi, vós salvareis o povo que é humilde» (Sl 17, 28). «O Senhor salvará os humildes de espírito» (Sl 33, 19). E como não se salvaria o humilde, se a humildade de Jesus e de Maria é a causa da nossa salvação? Santo Optato diz que são preferíveis os pecados com humildade à inocência com orgulho (Cont. Donat. lib. II); e São João Crisóstomo observa que a humildade introduziu no paraíso o bom ladrão antes dos Apóstolos (In Luc. c. XIX). A humildade veio do céu e ao céu nos conduz.
É preciso ser mais humilde de coração e de espírito do que de língua, diz Santo Anselmo; é preciso que a nossa consciência nos encontre humildes e que estejamos intimamente convencidos de que não somos nada, de que nada sabemos, de que nada compreendemos (De Similit.). O autor da Imitação resume esta máxima em poucas palavras: «Ama ser ignorado e ser tido por nada» (l. 1, c. II). É preciso alimentar os humildes sentimentos de Salomão e repetir com ele: «Eu sou o mais insensato dos mortais, e em mim não há sabedoria» (Pr 30, 2). O Espírito Santo quer mostrar-nos com isso que a verdadeira sabedoria consiste principalmente no conhecimento de nós mesmos, de nossa miséria e pequenez, e em pensar humildemente sobre tudo o que fazemos… Estudar, a exemplo de Santo Agostinho, para conhecer a Deus e conhecer a nós mesmos, é o verdadeiro meio de conhecer e praticar a humildade…
Aprendei a praticar atos de humildade segundo esta norma, a saber: 1° ato, desprezar a si mesmo; 2° não se julgar bom para nada; 3° não querer ser tido em conta; 4° desejar e procurar ser considerado vil e desprezível; 5° afligir-nos se nos virmos elevados; 6° colocar-nos sempre abaixo dos outros; 7° estar resignados a tudo; 8° submeter-nos, por amor de Deus, a todos os homens; 9° escolher aquilo que é mais humilhante.
Outros modos de exercitar-nos na humildade são os seguintes: 1° Não dizer nada para ser louvado; 2° não alegrar-nos com os louvores; 3° não fazer nada por respeito humano; 4° não nos desculpar; 5° expulsar os pensamentos vãos; 6° considerar todos os outros como superiores a nós; 7° receber de bom grado as humilhações.