Tesouro n.º 56 · Volume I

DOÇURA DOLCEZZA

6 seções · 46 parágrafos · pp. 597–608 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DA MANSIDÃO

“Caríssimos, escrevia São Paulo aos Romanos, não vos vingueis por vós mesmos, mas dai lugar à ira” (Rm 12, 19). Dai lugar à ira, isto é, guardai silêncio, cedei ao que está irado, suportai com paciência a afronta, não luteis com palavras enquanto a ira vos atormenta, mas deixai-a acalmar-se, perdoai a quem se enfurece, dilatai o vosso coração de modo que nele entrem a caridade e a doçura. Aos Gálatas recomendava que, vendo alguém cair por fraqueza em alguma falta, eles, como pessoas que vivem segundo o espírito, cuidassem de corrigi-lo, mas com doçura; de erguê-lo, mas com delicadeza, tendo os olhos voltados para si mesmos, por temor de também serem tentados (Gl 6, 1). E a Timóteo inculcava que fosse manso e doce para com todos (2Tm 2, 24).

Jesus Cristo, como observa Santo Agostinho, ordenou-nos que aprendêssemos dele, não a fabricar o mundo, não a criar as coisas visíveis e invisíveis, não a fazer milagres sobre a terra, não a ressuscitar mortos, mas a ser mansos e humildes de coração (1); por isso nos exorta a jamais deixar que a doçura se afaste do nosso coração (2).

Os abusos e os maus costumes só se extirpam com a doçura.

2. EM QUE CONSISTE A MANSIDÃO

A doçura consiste: 1° em manter para com todos a bondade do coração e das palavras; 2° em acalmar a cólera alheia com respostas corteses e serenas; 3° em sofrer pacientemente as injúrias; 4° em mostrar-se alegre em meio às afrontas; 5° em vencer a má disposição de um inimigo, atraí-lo, conquistar-lhe a benevolência e torná-lo amigo mediante bons tratos e benefícios; 6° em não buscar a vingança; 7° em agir sem amargura, nem indignação, nem animosidade, nem soberba, sem insultar o infeliz nem bater-se de frente com o soberbo, sem fazer valer a nossa condição sobre o inferior; mas procurando ganhar uns e outros com gentilezas, insinuando-nos com destreza, sem que o percebam, em seu coração. Quanto mais rude, rústica e excêntrica for a pessoa com quem se tem de lidar, tanto mais se deve proceder com doçura, mansidão e maneiras amistosas e cordiais. Nunca se deve opor irritação à irritação, violência à violência, mas usar de paciência e caridade.

A doçura é certa estabilidade de espírito que mantém no homem, tanto entre as honras como entre as humilhações, uma perfeita uniformidade de caráter. É uma virtude que nos leva até a rezar com toda a calma por aqueles que nos ferem e atormentam. Pode ser comparada a um rochedo que resiste “ao furor do mal e lhe quebra as ondas furiosas… Não convém resistir duramente àquele que nos maltrata… A lã detém uma bala de canhão, e contudo a bala rompe, despedaça e destrói as muralhas mais sólidas. Não resistir é vencer com a virtude aquele que nos assalta com paixão; e isto é mostrar-se muito mais forte e valoroso do que ele… Não resistir é tirar da cólera o pavio que a acende; sem replicar palavra, conservando a calma e um semblante de doçura, triunfa-se de tudo… Devemos compadecer-nos do próximo em suas faltas, ter compaixão dele em suas desgraças, tolerar-lhe o mau humor, desculpar-lhe os defeitos, aquiescer aos seus desejos todas as vezes que pudermos e humilhar-nos sem pesar.

Há falsas doçuras, bondades desdenhosas, cheias de secreta negrura; há uma ostentação, uma afetação de doçura mais repugnante e insultante do que a aspereza manifesta; é a bondade do tigre; uma mansidão hipócrita, abominável e perigosa. A nossa doçura deve ser sincera, conscienciosa, imitada daquela de Nosso Senhor Jesus Cristo e semelhante à doçura de Moisés, de Davi, de São Francisco de Sales, de Liguori etc…

3. EXCELÊNCIA DA MANSIDÃO

A doçura e a humildade são irmãs, assim como a cólera é irmã da altivez. O homem não pode ser doce se não for humilde e se, em seu coração, não se calar o sopro das paixões: o oceano não fica sereno senão quando os ventos repousam.

1° A doçura nos torna agradáveis a Deus e aos homens. 2° Faz-nos imitadores de Jesus Cristo, o modelo da doçura. 3° Concede-nos a paz do coração (Mt 11, 29). 4° Torna-nos capazes da sabedoria e da aquisição dos bens celestes (Sl 24, 9). Que mais? O divino Mestre coloca a virtude da doçura entre as bem-aventuranças evangélicas: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 4). Não disse: Bem-aventurados os ricos, bem-aventurados os grandes, os que se regozijam com as coisas do século, mas bem-aventurados os homens dirigidos e guiados pela doçura. E São João Clímaco expõe as razões disso, escrevendo: A doçura ajuda à obediência; dirige a sociedade religiosa, reprime a cólera, doma o furor, faz nascer a alegria, imita Jesus Cristo, adorna os eleitos, acorrenta os demônios, constitui uma defesa eficaz contra a amargura e a aflição. A alma cheia de doçura oferece ao Senhor um agradável lugar de repouso, enquanto a alma irada e perturbada é ninho do demônio (Grad. XXV).

“Os mansos, diz o profeta, terão a terra como herança e se deleitarão na abundância da paz” (Sl 36, 11). Terão a terra como herança, porque também aqui embaixo é raro que as pessoas doces, pacíficas e mansas sejam perturbadas em suas posses… Depois, o homem doce contenta-se com tudo, tudo para ele é riqueza… Mas a terra prometida ao manso é principalmente o céu, a verdadeira terra dos viventes… Os homens doces possuirão a terra, isto é, os próprios corações dos homens terrenos…; ou, como entende São Bernardo, o seu corpo e o seu coração, reinando sobre os seus movimentos sensuais, governando-os e fazendo-se obedecer (Serm. in Fest. omn. Sanct.).

A terra prometida aos mansos é, diz São Leão, a ressurreição de seu corpo para a glória (In Fest. omn. Sanct.).

“Meu filho, realiza as tuas obras com mansidão e doçura, diz o Eclesiástico, e terás, juntamente com a glória, o amor dos homens” (Eclo 3, 19); guarda em mente que “uma palavra doce multiplica os amigos e aplaca os inimigos” (Id. 6, 5). Também o autor dos Provérbios nos adverte de que “uma resposta doce aplaca a ira; uma palavra áspera acende o furor” (15, 1).

“Nada é penoso, sentencia São Leão, para o homem que ama e pratica a doçura (3).” “A doçura, diz São João Clímaco, é o fundamento da paciência, o princípio, ou melhor, a mãe da caridade; é a prova mais manifesta da prudência, obtém o perdão, é o refúgio dos pecadores que querem mudar de vida, o domicílio do Espírito Santo” (Grad. XXV).

“Se formos mansos e dóceis, seremos invencíveis, escreve o Crisóstomo, e não haverá injúria que possa comover-nos (4).” Com efeito, diz o Salmista, o Senhor toma sob sua especial proteção os mansos (Sl 146, 6).

A doçura torna o coração dócil e apto a receber a lei de Deus… A doçura é a serenidade, a tranquilidade, a lucidez do espírito; ela proporciona a sabedoria e leva a fazer o bem. “Assim como a arca de Noé, escreve Gersão, elevava-se tanto mais alto quanto mais subiam as águas, assim também a alma do homem manso se engrandece tanto mais quanto mais abundam as águas da tribulação (5).”

O homem pacífico, escreve Sêneca (Epl. IV), é superior a toda injúria.

“Nada é mais forte e mais poderoso que a mansidão, pregava o Crisóstomo; pois, assim como a água extingue qualquer chama, por mais ardente que seja, assim também uma palavra pronunciada com o acento da doçura basta para mitigar as mais impetuosas explosões de um ânimo furioso. E daí nos advém uma dupla vantagem: tanto porque exercitamos a doçura, como porque pomos fim à indignação do irmão e libertamos sua mente da perturbação. O fogo não pode apagar o fogo, nem a cólera extinguir a cólera; mas aquilo que a água é para o fogo, a mansidão o é também para a ira (6).”

Diz bem Cassiano que fruto da mansidão e da paciência da alma é a pureza do corpo, a qual aumenta na proporção em que aquela cresce (7).

Os pacíficos, os mansos, gozam de perfeita saúde da alma e asseguram também a saúde do corpo. Alegram-se nas afrontas, louvam a Deus nas adversidades, acalmam os homens iracundos, triunfam de tudo. São senhores dos corações, dominam a concupiscência e as paixões.

Lê-se em Cassiano que o abade Camerão inculcava a doçura como o melhor remédio contra as tentações dos sentidos e contra toda espécie de vícios, porque a doçura quer e proporciona a paz à alma e a todos os membros. Este remédio é manifestamente eficacíssimo: quem é manso cura o seu coração e o seu corpo; e extirpa a cólera, a tristeza, a preguiça, a inveja, o orgulho, a impureza etc. (Apud. Cass. Collat. 12, C. VI).

Mediante a doçura, os homens elevam-se aos primeiros postos; com efeito, são amados e julgados capazes de governar, porque sabem dominar as próprias paixões. “O homem doce, observa o Crisóstomo, goza da estima e do amor daqueles que tratam com ele e agrada até mesmo àquele que o conhece apenas de nome. E talvez não encontremos pessoa que, ouvindo falar de alguém doce e manso, não deseje vê-lo, aproximar-se dele, e não aprecie a sua amizade como um ganho para si (8).” O mesmo doutor diz: “A mansidão coloca a nossa alma num estado de perpétua tranquilidade e como que num porto de paz, onde se desfruta toda espécie de recreio e repouso. Com efeito, que coisa há de mais agradável e feliz do que ser libertado de uma guerra intestina? Pois, por maior que seja a paz de que se goze exteriormente, de nada serve quando o interior é posto em desordem pela tempestade da ira (9).”

A Escritura nos diz que Deus fez de Moisés um grande santo por causa de sua doçura (Eclo 45, 4). Por isso, São João Crisóstomo afirma que o homem manso e doce proporciona felicidade a si mesmo e grandes benefícios aos outros; o iracundo, ao contrário, é um peso para si e um dano para os outros (10). Por isso, Santo Ambrósio nos admoesta que “a discussão deve ser feita sem ira, a advertência deve ser dada sem aspereza, a exortação deve ser feita sem ofensa, a suavidade deve mostrar-se sem amargura (11)”.

Um proceder bárbaro e duro, uma ordem excessivamente imperiosa não impedem o pecado: remedia-se melhor com palavras doces do que com ordens severas; valem mais os avisos mansos e brandos do que as ameaças duras e terríveis; quando se trata com culpados, é preciso, na maioria dos casos, agir com mansidão. A severidade deve ser usada somente com os orgulhosos e, mesmo nesse caso, não deve estar inteiramente desacompanhada da doçura… Se nos vemos obrigados a recorrer às ameaças, que isso seja feito a contragosto e apresentando aos olhos do réu a vingança divina, para que se tema a Deus e não a nós. As exortações doces e amorosas levam os pecadores ao arrependimento.

“Os mansos se alegrarão cada dia mais no Senhor” (Is 29, 19). Eis uma última vantagem da doçura, indicada por Isaías.

4. JESUS CRISTO, MODELO DE MANSIDÃO

O Salvador disse de si mesmo: “Aprendei de mim, que sou manso” (Mt 11, 29). E já os profetas, aludindo à sua doçura, o haviam apresentado sob o símbolo do cordeiro. Ouvi Isaías que, falando do Redentor do mundo, prediz que será conduzido à morte como uma ovelha; e, como um cordeirinho sob as tesouras daquele que o tosquia, não dará um lamento (53, 7).

Nessa cruel tosquia, não lhe será tirada a lã, mas a carne, o sangue, a vida; será flagelado, coberto de chagas, dilacerado, crucificado, e ele não oporá resistência, não soltará um gemido, não fará ouvir um lamento, mas tudo sofrerá no silêncio de uma paciência inatingível e de uma inefável doçura.

No tempo do dilúvio, Deus se mostrou como leão e fez desaparecer da terra os pecadores; Jesus Cristo, no tempo da redenção, veio como cordeiro e os justificou. O dilúvio do sangue do Cordeiro imaculado tirou os pecados e restituiu a vida aos homens. Esse Cordeiro tão doce nos gerou semelhantes a ele; todos os que praticaram a paciência e perseveraram, todos os humildes, todos os mansos, todos os mártires, hauriram sua força, sua paciência e sua doçura do divino Cordeiro…

De quanta força nos dá testemunho esse Cordeiro tão manso e doce!

Que vitória alcança! Não com o ferro, mas com a cruz venceu o mundo; não ferindo com a espada, mas derramando o seu sangue; não golpeando, mas sofrendo; não exterminando, mas morrendo sem lamento… A vitória pertence à doçura; por isso Isaías, depois de ter retratado Jesus Cristo tão humilde, paciente e doce, conclui profetizando que alcançará a vitória, que fará triunfar sua causa no tribunal de Deus e que nele os gentios depositarão sua esperança (Is 53, 11-12).

São João Batista, apontando para Jesus Cristo, chamou-o: “O Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29); a Igreja, para nos recordar incessantemente a doçura do Deus feito homem, quando o apresenta aos fiéis na comunhão, chama-o de Cordeiro divino, cuja missão é apagar os pecados do mundo.

Encontramos um exemplo da doçura de Jesus Cristo nestas outras palavras de Isaías: “Eis o meu servo, eu estarei com ele: o meu amado, em quem se compraz a minha alma; nele derramei o meu espírito, e ele manifestará a justiça às nações. Não fará acepção de pessoas; não gritará, nem sua voz se fará ouvir lá fora. Não quebrará a cana fendida, nem apagará o pavio que ainda fumega” (Is 42, 1-3). O Cordeiro de Deus é doce para com os pecadores e os fracos; não apaga o pavio que ainda fumega, isto é, não aniquila aqueles homens cheios de rancor, que desafogam contra ele sua má disposição com impiedades e blasfêmias. Suporta toda espécie de injúrias, suporta todo gênero de insultos sem se irar, sem se ressentir, mas com exemplar e inefável paciência. Ouvi.

Um dia, seus inimigos lhe dizem: Vê-se que estás possuído pelo demônio; quem é que procura matar-te? E Jesus responde sem se alterar: Não, eu não estou possuído pelo demônio, mas honro meu Pai, e vós me ultrajais (Jo 8, 49). Os judeus enfurecem-se porque ele realizou uma cura em dia de sábado; diante de tanta maldade, hipocrisia, insolência e ira, ele, sem se perturbar, nada opõe senão estas brandíssimas palavras: Vós vos indignais contra mim porque fiz um milagre em dia de sábado; mas dizei-me: quem há entre vós que, vendo nesse dia sua ovelha cair num fosso, não a tire de lá? (Mt 12). Vede diante dele uma mulher, trêmula e envergonhada, surpreendida em adultério. Que lhe diz? … Nada mais que estas benigníssimas palavras: “Se ninguém te condenou, eu também não te condeno: vai em paz e, de agora em diante, guarda-te de pecar mais” (Jo 8, 10-11). No tempo de sua paixão, deixa-se beijar por Judas e, nesse mesmo ato, com toda ternura, dá-lhe o doce nome de amigo… É amaldiçoado e não amaldiçoa; é cuspido, espancado, caluniado, ridicularizado, e não retruca palavra, não solta um lamento, não profere ameaça. Pedro o nega, e ele o olha com um olhar de tão compassiva doçura, que desperta em seu coração o arrependimento. E, flagelado, condenado à morte, crucificado, pede ele graça por seus algozes e tem sede da salvação deles. Ó doçura divina e inenarrável! Oh! Quão razão tinha ele ao dizer: “Aprendei de mim, porque sou manso!”.

5. EXEMPLOS DE MANSIDÃO NOS SANTOS

São Efrém tinha por natureza um temperamento colérico, mas chegou a vencer tão perfeitamente essa paixão que, entre suas maiores virtudes, brilhava a mansidão, a tal ponto que era chamado a doçura, ou o pacífico de Deus. Nunca foi visto discutir com alguém; a doçura, as lágrimas e a oração eram as armas que empregava contra os pecadores obstinados (SURIO, Vite de’ Santi).

Se, como diz São Paulo aos Hebreus, é impossível agradar a Deus sem a fé, podemos dizer que é impossível conquistar os corações dos homens e incliná-los ao bem sem a doçura. Obedece-se de bom grado a um homem doce, previnem-se seus desejos e faz-se com prazer até mais do que ele ordenou. Lede as vidas dos santos e encontrareis a confirmação destas palavras. Em todos sobressaem uma doçura e uma mansidão admiráveis, porque todos caminharam pelas pegadas de Jesus Cristo; todos tomaram como norma de sua conduta a sentença do Salvador: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”. É certo que, sem a prática e o cumprimento dessas duas sublimes virtudes, a doçura e a humildade, é impossível chegar à santidade e promover a salvação alheia; com elas, tanto uma coisa como a outra se torna muito fácil.

Eis alguns exemplos. À força de vencer a si mesmo, São Sisoés, anacoreta do Egito, adquiriu uma doçura tal que nada podia perturbá-lo. Seu zelo contra o vício não tinha nada de amargura; não se espantava com as quedas dos irmãos e, em vez de repreendê-los com indignação, ajudava-os a se levantar com admirável bondade e doçura.

São Bernardo era todo afabilidade e doçura com seus religiosos e punha em prática a máxima tantas vezes repetida em seus escritos: um superior deve governar como pai, não mandar como senhor. Se devia repreender ou castigar algum monge relaxado, fazia-o com tanta suavidade de maneiras e ternura de afeto que mostrava claramente sofrer ele próprio mais pela compaixão que sentia pelo culpado do que este pela confusão que o castigo lhe causava. Em suas exortações, comparava-se a uma mãe e chamava seus discípulos de seus olhos, suas entranhas, seu coração. Nas ternas expansões de sua alma, parecia derramar maná e mel; e, se a própria doçura pudesse fazer homilias e escrever livros, não falaria por outra boca senão pela de Bernardo. O fruto de tal procedimento foi que aqueles que, no princípio, pareciam perder a coragem e já haviam vacilado na resolução de mudar de propósito, correram com santa alegria pelos caminhos da perfeição, e Claraval assumiu o aspecto de um paraíso. A experiência havia ensinado a esse ilustre doutor, como ele mesmo atesta, que não se alcança bom resultado quando, no governo dos outros, não se leva o espírito de doçura.

São Elzeário, depois da morte de seu pai, teve de passar ao reino de Nápoles para tomar posse do ducado de Ariano; o povo, que tomava o partido de Aragão contra a França, não queria prestar-lhe vassalagem, e durante três anos ele não opôs senão a doçura e a paciência, sem dar atenção às razões que seus amigos apresentavam para induzi-lo a fazer justiça por si mesmo. E quando o príncipe de Taranto, seu parente, lhe disse: Deixai-me o encargo de punir os revoltosos; mandarei executar alguns, e os outros se submeterão; pois, se é bom ser cordeiro com os bons, é preciso também ser leão com os maus, e é necessário castigar semelhante insolência —, como respondeu Elzeário: Dareis vós este conselho, que eu comece meu governo com massacres? Eu conquistarei os rebeldes tratando-os com bondade. Não há glória para um leão em despedaçar um cordeiro; mas é belo espetáculo ver um cordeiro triunfar sobre um leão; espero que, com o auxílio de Deus, vereis em breve esse milagre. — Os fatos logo lhe deram razão. Os habitantes de Ariano, envergonhados de sua revolta, submeteram-se por própria vontade, convidaram o santo a tomar posse do condado, e desde então o amaram e honraram como seu pai. O próprio Elzeário deu a conhecer o motivo da maravilhosa doçura com que suportava os insultos e as afrontas. Quando me vejo de algum modo injuriado, dizia, e sinto suscitarem-se em meu coração movimentos de impaciência, volto meu pensamento para Jesus Cristo crucificado e digo a mim mesmo: Posso eu comparar o que sofro com aquilo que Jesus Cristo se dignou sofrer por mim? Não era, pois, falta de coragem, mas doçura, grandeza de alma e generosidade verdadeiramente cristã o que impelia Elzeário a comportar-se daquele modo.

São Odilão, sexto abade de Cluny, embora fosse severo e austeríssimo consigo mesmo, mantinha para com os outros uma conduta toda bondade e doçura; costumava dizer que, se tivesse de escolher entre os dois extremos, preferiria pecar por excesso de doçura a pecar por excesso de severidade.

São Francisco conquistava os corações com sua doçura inalterável em meio a toda espécie de contradições. Talvez nem todos saibam que a aquisição dessa virtude lhe custara não poucos nem leves combates; ele mesmo nos faz saber que era, por natureza, vivaz e pronto à ira, e de fato revelam-se em seus escritos um fogo e uma impetuosidade que não deixam lugar para duvidar disso. Desde a juventude, aplicou toda a sua alma a fazer violência a si mesmo para reprimir os impulsos da natureza e, à força de estudar na escola de um Deus doce e humilde de coração, chegou a estabelecer, sobre as ruínas de sua paixão dominante, o reino da doçura, que formou seu caráter distintivo. Foi sobretudo essa virtude que abriu os olhos aos calvinistas mais pertinazes e arrancou setenta e duas mil almas à heresia.

Em uma conferência com Monsenhor Camus, bispo de Belley, disse estas notáveis palavras a respeito da correção fraterna: A verdade deve ser sempre caridosa; um zelo amargo não produz senão o mal; as correções são um alimento de difícil digestão e é preciso cozinhá-las no forno ardente da caridade, para que percam toda a sua aspereza; do contrário, assemelham-se àqueles frutos agrestes que, apenas ingeridos, produzem cólicas. A doçura não considera os próprios interesses, mas somente a glória de Deus. A amargura e a dureza têm sua raiz na vaidade, no orgulho e na paixão. Um bom remédio, aplicado onde ou como não se deve, converte-se em veneno. Um silêncio prudente e sensato é sempre mais útil do que uma verdade sem caridade.

Era admirável nele o dom de conquistar o coração de seus inimigos: aos insultos e impropérios deles, não opunha senão a mansidão e os benefícios… A doçura era sua virtude dominante.

Ele mesmo dizia tê-la estudado durante muitos anos na escola de Jesus Cristo e que seu coração ainda não estava satisfeito com o que havia aprendido. Ora, se este santo, que podia ser chamado a doçura personificada, julgava ter pouca doçura, que diremos nós daqueles cujo modo de tratar e falar revela um coração transbordante de amargura, um espírito perturbado pelo despeito e pela cólera?

Vejo-me carregado de afazeres, dizia às vezes esse grande bispo, e, no entanto, todas essas pessoas que me seguem são crianças que correm ao seio do Pai; já se viu alguma galinha irritar-se quando os pintinhos se lançam todos sob suas asas? Não: ao contrário, então ela as abre ainda mais, para poder cobri-los todos. Parece-me que o coração se dilata à medida que aumenta o número dessas boas pessoas. O mais poderoso e seguro remédio que conheço contra os movimentos repentinos de impaciência é um silêncio doce e sem fel. Por poucas que sejam as palavras ditas, o amor-próprio nelas se insinua, e escapam coisas que lançam o coração na amargura por vinte e quatro horas. Quando não se abre a boca e se sorri de bom coração, passa o furacão, a cólera e a indiscrição ficam desconcertadas, e saboreia-se uma alegria pura e duradoura. Quem possui a doçura cristã tem um coração terno para com todo o mundo e inclinado a perdoar e desculpar as fragilidades dos outros. Manifesta a bondade de seu coração por uma doce afabilidade, que influi em suas palavras e ações e lhe faz achar tudo agradável; evita todo discurso frio, brusco e imperioso. Uma amável serenidade brilha sempre em seu rosto; nada tem em comum com aqueles sátrapas cujo olhar está sempre torvo, cuja mão está sempre fechada para dar ou, se alguma vez se abre, o fazem de modo tão desagradável que perdem todo o mérito da boa ação.

Certa vez, alguns o censuraram por sua extrema indulgência para com os pecadores, e ele respondeu: Se houvesse coisa melhor que a doçura, Deus no-la teria ensinado; ao passo que nos recomenda apenas duas coisas: ser doces e humildes de coração. Quereis, porventura, impedir-me de observar o mandamento de Deus e de imitar, quanto posso, a virtude da qual ele nos deu o exemplo e da qual mostrou fazer tanto caso? Somos nós, então, mais sábios que Deus? … Quando os apóstatas e os pecadores mais desgraçados recorriam a ele, abria-lhes o coração com uma ternura inexprimível e uma doçura inteiramente celestial; acolhia-os exatamente como o pai evangélico acolheu outrora o filho pródigo. Vinde, exclamava o bom Pastor, vinde, meus queridos filhos, para que eu vos abrace, vos estreite contra o meu peito e vos esconda em meu coração: o Senhor e eu vos assistiremos. Peço-vos uma só coisa: que não desespereis; quanto a todo o resto, eu cuidarei; não vos aflijais. Olhava-os com olhos através dos quais transpareciam a doçura e a sinceridade dos sentimentos; abria-lhes a bolsa e o coração. Àqueles, porém, que se mostravam escandalizados com esse seu modo de proceder e observavam que isso os encorajava a pecar por meio da impunidade, respondia: Não vedes que são minhas ovelhas? Nosso Senhor deu-lhes todo o seu sangue; posso eu negar-lhes as minhas lágrimas? Esses lobos se transformarão em cordeiros; virá o tempo em que serão mais santos do que muitos de nós o somos atualmente. Se Saulo tivesse sido rejeitado, jamais a Igreja teria tido São Paulo.

6. MEIOS PARA ADQUIRIR E PRATICAR A DOÇURA

Quem aspira à aquisição da doçura deve: 1° Ser humilde, pois jamais foi doce o orgulhoso. 2° Meditar e persuadir-se bem da dignidade, beleza e bondade da doçura… 3° Não dizer nem fazer coisa alguma enquanto se sente comovido… 4° Tornar-se superior às injúrias… 5° Deixar a Deus o cuidado de vingá-lo… “A mim pertence a vingança, diz o Senhor; eu retribuirei a cada um segundo suas obras” (Rm 12, 19). 6° Desapegar-se de tudo e afeiçoar-se somente a Deus… 7° Pensar frequentemente nos exemplos de Jesus Cristo e dos santos.

Voltemos todo o nosso estudo e esforço para a aquisição do espírito de doçura, que é o verdadeiro espírito do Cristianismo. Que a unção do Espírito Santo suavize nossa aspereza e amoleça nossa dureza. Jamais tenhamos um aspecto altivo e carrancudo: isso é dar prova de fraqueza; a força consiste em expor tranquilamente as razões de nosso proceder, e essa força falta quando se recorre à força rude e litigiosa.

É preciso falar com mansidão àqueles contra os quais a verdade exige que combatamos. Desse modo, sem discutir e sem nos perturbar, levamo-los a ver claramente o seu erro; demonstramos ser verdadeiros cristãos e imitadores de Cristo Jesus… Servi a Deus com doçura; sede cristãos perfeitos e, por conseguinte, verdadeiros cordeiros: não murmureis, não vos digladieis, não procureis fazer alarde, não vos deixeis arrastar pelo espírito de contradição, não cesseis de mostrar, em todo encontro, uma serenidade imperturbável. Tende doçura: ela gera a paciência. Essas duas virtudes formam o caráter próprio da piedade cristã e os dois frutos da unção de Jesus Cristo derramada sobre nós…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.