“Caríssimos, escrevia São Paulo aos Romanos, não vos vingueis por vós mesmos, mas dai lugar à ira” (Rm 12, 19). Dai lugar à ira, isto é, guardai silêncio, cedei ao que está irado, suportai com paciência a afronta, não luteis com palavras enquanto a ira vos atormenta, mas deixai-a acalmar-se, perdoai a quem se enfurece, dilatai o vosso coração de modo que nele entrem a caridade e a doçura. Aos Gálatas recomendava que, vendo alguém cair por fraqueza em alguma falta, eles, como pessoas que vivem segundo o espírito, cuidassem de corrigi-lo, mas com doçura; de erguê-lo, mas com delicadeza, tendo os olhos voltados para si mesmos, por temor de também serem tentados (Gl 6, 1). E a Timóteo inculcava que fosse manso e doce para com todos (2Tm 2, 24).
Jesus Cristo, como observa Santo Agostinho, ordenou-nos que aprendêssemos dele, não a fabricar o mundo, não a criar as coisas visíveis e invisíveis, não a fazer milagres sobre a terra, não a ressuscitar mortos, mas a ser mansos e humildes de coração (1); por isso nos exorta a jamais deixar que a doçura se afaste do nosso coração (2).
Os abusos e os maus costumes só se extirpam com a doçura.
A doçura consiste: 1° em manter para com todos a bondade do coração e das palavras; 2° em acalmar a cólera alheia com respostas corteses e serenas; 3° em sofrer pacientemente as injúrias; 4° em mostrar-se alegre em meio às afrontas; 5° em vencer a má disposição de um inimigo, atraí-lo, conquistar-lhe a benevolência e torná-lo amigo mediante bons tratos e benefícios; 6° em não buscar a vingança; 7° em agir sem amargura, nem indignação, nem animosidade, nem soberba, sem insultar o infeliz nem bater-se de frente com o soberbo, sem fazer valer a nossa condição sobre o inferior; mas procurando ganhar uns e outros com gentilezas, insinuando-nos com destreza, sem que o percebam, em seu coração. Quanto mais rude, rústica e excêntrica for a pessoa com quem se tem de lidar, tanto mais se deve proceder com doçura, mansidão e maneiras amistosas e cordiais. Nunca se deve opor irritação à irritação, violência à violência, mas usar de paciência e caridade.
A doçura é certa estabilidade de espírito que mantém no homem, tanto entre as honras como entre as humilhações, uma perfeita uniformidade de caráter. É uma virtude que nos leva até a rezar com toda a calma por aqueles que nos ferem e atormentam. Pode ser comparada a um rochedo que resiste “ao furor do mal e lhe quebra as ondas furiosas… Não convém resistir duramente àquele que nos maltrata… A lã detém uma bala de canhão, e contudo a bala rompe, despedaça e destrói as muralhas mais sólidas. Não resistir é vencer com a virtude aquele que nos assalta com paixão; e isto é mostrar-se muito mais forte e valoroso do que ele… Não resistir é tirar da cólera o pavio que a acende; sem replicar palavra, conservando a calma e um semblante de doçura, triunfa-se de tudo… Devemos compadecer-nos do próximo em suas faltas, ter compaixão dele em suas desgraças, tolerar-lhe o mau humor, desculpar-lhe os defeitos, aquiescer aos seus desejos todas as vezes que pudermos e humilhar-nos sem pesar.
Há falsas doçuras, bondades desdenhosas, cheias de secreta negrura; há uma ostentação, uma afetação de doçura mais repugnante e insultante do que a aspereza manifesta; é a bondade do tigre; uma mansidão hipócrita, abominável e perigosa. A nossa doçura deve ser sincera, conscienciosa, imitada daquela de Nosso Senhor Jesus Cristo e semelhante à doçura de Moisés, de Davi, de São Francisco de Sales, de Liguori etc…
A doçura e a humildade são irmãs, assim como a cólera é irmã da altivez. O homem não pode ser doce se não for humilde e se, em seu coração, não se calar o sopro das paixões: o oceano não fica sereno senão quando os ventos repousam.
1° A doçura nos torna agradáveis a Deus e aos homens. 2° Faz-nos imitadores de Jesus Cristo, o modelo da doçura. 3° Concede-nos a paz do coração (Mt 11, 29). 4° Torna-nos capazes da sabedoria e da aquisição dos bens celestes (Sl 24, 9). Que mais? O divino Mestre coloca a virtude da doçura entre as bem-aventuranças evangélicas: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 4). Não disse: Bem-aventurados os ricos, bem-aventurados os grandes, os que se regozijam com as coisas do século, mas bem-aventurados os homens dirigidos e guiados pela doçura. E São João Clímaco expõe as razões disso, escrevendo: A doçura ajuda à obediência; dirige a sociedade religiosa, reprime a cólera, doma o furor, faz nascer a alegria, imita Jesus Cristo, adorna os eleitos, acorrenta os demônios, constitui uma defesa eficaz contra a amargura e a aflição. A alma cheia de doçura oferece ao Senhor um agradável lugar de repouso, enquanto a alma irada e perturbada é ninho do demônio (Grad. XXV).
“Os mansos, diz o profeta, terão a terra como herança e se deleitarão na abundância da paz” (Sl 36, 11). Terão a terra como herança, porque também aqui embaixo é raro que as pessoas doces, pacíficas e mansas sejam perturbadas em suas posses… Depois, o homem doce contenta-se com tudo, tudo para ele é riqueza… Mas a terra prometida ao manso é principalmente o céu, a verdadeira terra dos viventes… Os homens doces possuirão a terra, isto é, os próprios corações dos homens terrenos…; ou, como entende São Bernardo, o seu corpo e o seu coração, reinando sobre os seus movimentos sensuais, governando-os e fazendo-se obedecer (Serm. in Fest. omn. Sanct.).
A terra prometida aos mansos é, diz São Leão, a ressurreição de seu corpo para a glória (In Fest. omn. Sanct.).
“Meu filho, realiza as tuas obras com mansidão e doçura, diz o Eclesiástico, e terás, juntamente com a glória, o amor dos homens” (Eclo 3, 19); guarda em mente que “uma palavra doce multiplica os amigos e aplaca os inimigos” (Id. 6, 5). Também o autor dos Provérbios nos adverte de que “uma resposta doce aplaca a ira; uma palavra áspera acende o furor” (15, 1).
“Nada é penoso, sentencia São Leão, para o homem que ama e pratica a doçura (3).” “A doçura, diz São João Clímaco, é o fundamento da paciência, o princípio, ou melhor, a mãe da caridade; é a prova mais manifesta da prudência, obtém o perdão, é o refúgio dos pecadores que querem mudar de vida, o domicílio do Espírito Santo” (Grad. XXV).
“Se formos mansos e dóceis, seremos invencíveis, escreve o Crisóstomo, e não haverá injúria que possa comover-nos (4).” Com efeito, diz o Salmista, o Senhor toma sob sua especial proteção os mansos (Sl 146, 6).
A doçura torna o coração dócil e apto a receber a lei de Deus… A doçura é a serenidade, a tranquilidade, a lucidez do espírito; ela proporciona a sabedoria e leva a fazer o bem. “Assim como a arca de Noé, escreve Gersão, elevava-se tanto mais alto quanto mais subiam as águas, assim também a alma do homem manso se engrandece tanto mais quanto mais abundam as águas da tribulação (5).”
O homem pacífico, escreve Sêneca (Epl. IV), é superior a toda injúria.
“Nada é mais forte e mais poderoso que a mansidão, pregava o Crisóstomo; pois, assim como a água extingue qualquer chama, por mais ardente que seja, assim também uma palavra pronunciada com o acento da doçura basta para mitigar as mais impetuosas explosões de um ânimo furioso. E daí nos advém uma dupla vantagem: tanto porque exercitamos a doçura, como porque pomos fim à indignação do irmão e libertamos sua mente da perturbação. O fogo não pode apagar o fogo, nem a cólera extinguir a cólera; mas aquilo que a água é para o fogo, a mansidão o é também para a ira (6).”
Diz bem Cassiano que fruto da mansidão e da paciência da alma é a pureza do corpo, a qual aumenta na proporção em que aquela cresce (7).
Os pacíficos, os mansos, gozam de perfeita saúde da alma e asseguram também a saúde do corpo. Alegram-se nas afrontas, louvam a Deus nas adversidades, acalmam os homens iracundos, triunfam de tudo. São senhores dos corações, dominam a concupiscência e as paixões.
Lê-se em Cassiano que o abade Camerão inculcava a doçura como o melhor remédio contra as tentações dos sentidos e contra toda espécie de vícios, porque a doçura quer e proporciona a paz à alma e a todos os membros. Este remédio é manifestamente eficacíssimo: quem é manso cura o seu coração e o seu corpo; e extirpa a cólera, a tristeza, a preguiça, a inveja, o orgulho, a impureza etc. (Apud. Cass. Collat. 12, C. VI).
Mediante a doçura, os homens elevam-se aos primeiros postos; com efeito, são amados e julgados capazes de governar, porque sabem dominar as próprias paixões. “O homem doce, observa o Crisóstomo, goza da estima e do amor daqueles que tratam com ele e agrada até mesmo àquele que o conhece apenas de nome. E talvez não encontremos pessoa que, ouvindo falar de alguém doce e manso, não deseje vê-lo, aproximar-se dele, e não aprecie a sua amizade como um ganho para si (8).” O mesmo doutor diz: “A mansidão coloca a nossa alma num estado de perpétua tranquilidade e como que num porto de paz, onde se desfruta toda espécie de recreio e repouso. Com efeito, que coisa há de mais agradável e feliz do que ser libertado de uma guerra intestina? Pois, por maior que seja a paz de que se goze exteriormente, de nada serve quando o interior é posto em desordem pela tempestade da ira (9).”
A Escritura nos diz que Deus fez de Moisés um grande santo por causa de sua doçura (Eclo 45, 4). Por isso, São João Crisóstomo afirma que o homem manso e doce proporciona felicidade a si mesmo e grandes benefícios aos outros; o iracundo, ao contrário, é um peso para si e um dano para os outros (10). Por isso, Santo Ambrósio nos admoesta que “a discussão deve ser feita sem ira, a advertência deve ser dada sem aspereza, a exortação deve ser feita sem ofensa, a suavidade deve mostrar-se sem amargura (11)”.
Um proceder bárbaro e duro, uma ordem excessivamente imperiosa não impedem o pecado: remedia-se melhor com palavras doces do que com ordens severas; valem mais os avisos mansos e brandos do que as ameaças duras e terríveis; quando se trata com culpados, é preciso, na maioria dos casos, agir com mansidão. A severidade deve ser usada somente com os orgulhosos e, mesmo nesse caso, não deve estar inteiramente desacompanhada da doçura… Se nos vemos obrigados a recorrer às ameaças, que isso seja feito a contragosto e apresentando aos olhos do réu a vingança divina, para que se tema a Deus e não a nós. As exortações doces e amorosas levam os pecadores ao arrependimento.
“Os mansos se alegrarão cada dia mais no Senhor” (Is 29, 19). Eis uma última vantagem da doçura, indicada por Isaías.
O Salvador disse de si mesmo: “Aprendei de mim, que sou manso” (Mt 11, 29). E já os profetas, aludindo à sua doçura, o haviam apresentado sob o símbolo do cordeiro. Ouvi Isaías que, falando do Redentor do mundo, prediz que será conduzido à morte como uma ovelha; e, como um cordeirinho sob as tesouras daquele que o tosquia, não dará um lamento (53, 7).
Nessa cruel tosquia, não lhe será tirada a lã, mas a carne, o sangue, a vida; será flagelado, coberto de chagas, dilacerado, crucificado, e ele não oporá resistência, não soltará um gemido, não fará ouvir um lamento, mas tudo sofrerá no silêncio de uma paciência inatingível e de uma inefável doçura.
No tempo do dilúvio, Deus se mostrou como leão e fez desaparecer da terra os pecadores; Jesus Cristo, no tempo da redenção, veio como cordeiro e os justificou. O dilúvio do sangue do Cordeiro imaculado tirou os pecados e restituiu a vida aos homens. Esse Cordeiro tão doce nos gerou semelhantes a ele; todos os que praticaram a paciência e perseveraram, todos os humildes, todos os mansos, todos os mártires, hauriram sua força, sua paciência e sua doçura do divino Cordeiro…
De quanta força nos dá testemunho esse Cordeiro tão manso e doce!
Que vitória alcança! Não com o ferro, mas com a cruz venceu o mundo; não ferindo com a espada, mas derramando o seu sangue; não golpeando, mas sofrendo; não exterminando, mas morrendo sem lamento… A vitória pertence à doçura; por isso Isaías, depois de ter retratado Jesus Cristo tão humilde, paciente e doce, conclui profetizando que alcançará a vitória, que fará triunfar sua causa no tribunal de Deus e que nele os gentios depositarão sua esperança (Is 53, 11-12).
São João Batista, apontando para Jesus Cristo, chamou-o: “O Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29); a Igreja, para nos recordar incessantemente a doçura do Deus feito homem, quando o apresenta aos fiéis na comunhão, chama-o de Cordeiro divino, cuja missão é apagar os pecados do mundo.
Encontramos um exemplo da doçura de Jesus Cristo nestas outras palavras de Isaías: “Eis o meu servo, eu estarei com ele: o meu amado, em quem se compraz a minha alma; nele derramei o meu espírito, e ele manifestará a justiça às nações. Não fará acepção de pessoas; não gritará, nem sua voz se fará ouvir lá fora. Não quebrará a cana fendida, nem apagará o pavio que ainda fumega” (Is 42, 1-3). O Cordeiro de Deus é doce para com os pecadores e os fracos; não apaga o pavio que ainda fumega, isto é, não aniquila aqueles homens cheios de rancor, que desafogam contra ele sua má disposição com impiedades e blasfêmias. Suporta toda espécie de injúrias, suporta todo gênero de insultos sem se irar, sem se ressentir, mas com exemplar e inefável paciência. Ouvi.
Um dia, seus inimigos lhe dizem: Vê-se que estás possuído pelo demônio; quem é que procura matar-te? E Jesus responde sem se alterar: Não, eu não estou possuído pelo demônio, mas honro meu Pai, e vós me ultrajais (Jo 8, 49). Os judeus enfurecem-se porque ele realizou uma cura em dia de sábado; diante de tanta maldade, hipocrisia, insolência e ira, ele, sem se perturbar, nada opõe senão estas brandíssimas palavras: Vós vos indignais contra mim porque fiz um milagre em dia de sábado; mas dizei-me: quem há entre vós que, vendo nesse dia sua ovelha cair num fosso, não a tire de lá? (Mt 12). Vede diante dele uma mulher, trêmula e envergonhada, surpreendida em adultério. Que lhe diz? … Nada mais que estas benigníssimas palavras: “Se ninguém te condenou, eu também não te condeno: vai em paz e, de agora em diante, guarda-te de pecar mais” (Jo 8, 10-11). No tempo de sua paixão, deixa-se beijar por Judas e, nesse mesmo ato, com toda ternura, dá-lhe o doce nome de amigo… É amaldiçoado e não amaldiçoa; é cuspido, espancado, caluniado, ridicularizado, e não retruca palavra, não solta um lamento, não profere ameaça. Pedro o nega, e ele o olha com um olhar de tão compassiva doçura, que desperta em seu coração o arrependimento. E, flagelado, condenado à morte, crucificado, pede ele graça por seus algozes e tem sede da salvação deles. Ó doçura divina e inenarrável! Oh! Quão razão tinha ele ao dizer: “Aprendei de mim, porque sou manso!”.
São Efrém tinha por natureza um temperamento colérico, mas chegou a vencer tão perfeitamente essa paixão que, entre suas maiores virtudes, brilhava a mansidão, a tal ponto que era chamado a doçura, ou o pacífico de Deus. Nunca foi visto discutir com alguém; a doçura, as lágrimas e a oração eram as armas que empregava contra os pecadores obstinados (SURIO, Vite de’ Santi).
Se, como diz São Paulo aos Hebreus, é impossível agradar a Deus sem a fé, podemos dizer que é impossível conquistar os corações dos homens e incliná-los ao bem sem a doçura. Obedece-se de bom grado a um homem doce, previnem-se seus desejos e faz-se com prazer até mais do que ele ordenou. Lede as vidas dos santos e encontrareis a confirmação destas palavras. Em todos sobressaem uma doçura e uma mansidão admiráveis, porque todos caminharam pelas pegadas de Jesus Cristo; todos tomaram como norma de sua conduta a sentença do Salvador: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”. É certo que, sem a prática e o cumprimento dessas duas sublimes virtudes, a doçura e a humildade, é impossível chegar à santidade e promover a salvação alheia; com elas, tanto uma coisa como a outra se torna muito fácil.
Eis alguns exemplos. À força de vencer a si mesmo, São Sisoés, anacoreta do Egito, adquiriu uma doçura tal que nada podia perturbá-lo. Seu zelo contra o vício não tinha nada de amargura; não se espantava com as quedas dos irmãos e, em vez de repreendê-los com indignação, ajudava-os a se levantar com admirável bondade e doçura.
São Bernardo era todo afabilidade e doçura com seus religiosos e punha em prática a máxima tantas vezes repetida em seus escritos: um superior deve governar como pai, não mandar como senhor. Se devia repreender ou castigar algum monge relaxado, fazia-o com tanta suavidade de maneiras e ternura de afeto que mostrava claramente sofrer ele próprio mais pela compaixão que sentia pelo culpado do que este pela confusão que o castigo lhe causava. Em suas exortações, comparava-se a uma mãe e chamava seus discípulos de seus olhos, suas entranhas, seu coração. Nas ternas expansões de sua alma, parecia derramar maná e mel; e, se a própria doçura pudesse fazer homilias e escrever livros, não falaria por outra boca senão pela de Bernardo. O fruto de tal procedimento foi que aqueles que, no princípio, pareciam perder a coragem e já haviam vacilado na resolução de mudar de propósito, correram com santa alegria pelos caminhos da perfeição, e Claraval assumiu o aspecto de um paraíso. A experiência havia ensinado a esse ilustre doutor, como ele mesmo atesta, que não se alcança bom resultado quando, no governo dos outros, não se leva o espírito de doçura.
São Elzeário, depois da morte de seu pai, teve de passar ao reino de Nápoles para tomar posse do ducado de Ariano; o povo, que tomava o partido de Aragão contra a França, não queria prestar-lhe vassalagem, e durante três anos ele não opôs senão a doçura e a paciência, sem dar atenção às razões que seus amigos apresentavam para induzi-lo a fazer justiça por si mesmo. E quando o príncipe de Taranto, seu parente, lhe disse: Deixai-me o encargo de punir os revoltosos; mandarei executar alguns, e os outros se submeterão; pois, se é bom ser cordeiro com os bons, é preciso também ser leão com os maus, e é necessário castigar semelhante insolência —, como respondeu Elzeário: Dareis vós este conselho, que eu comece meu governo com massacres? Eu conquistarei os rebeldes tratando-os com bondade. Não há glória para um leão em despedaçar um cordeiro; mas é belo espetáculo ver um cordeiro triunfar sobre um leão; espero que, com o auxílio de Deus, vereis em breve esse milagre. — Os fatos logo lhe deram razão. Os habitantes de Ariano, envergonhados de sua revolta, submeteram-se por própria vontade, convidaram o santo a tomar posse do condado, e desde então o amaram e honraram como seu pai. O próprio Elzeário deu a conhecer o motivo da maravilhosa doçura com que suportava os insultos e as afrontas. Quando me vejo de algum modo injuriado, dizia, e sinto suscitarem-se em meu coração movimentos de impaciência, volto meu pensamento para Jesus Cristo crucificado e digo a mim mesmo: Posso eu comparar o que sofro com aquilo que Jesus Cristo se dignou sofrer por mim? Não era, pois, falta de coragem, mas doçura, grandeza de alma e generosidade verdadeiramente cristã o que impelia Elzeário a comportar-se daquele modo.
São Odilão, sexto abade de Cluny, embora fosse severo e austeríssimo consigo mesmo, mantinha para com os outros uma conduta toda bondade e doçura; costumava dizer que, se tivesse de escolher entre os dois extremos, preferiria pecar por excesso de doçura a pecar por excesso de severidade.
São Francisco conquistava os corações com sua doçura inalterável em meio a toda espécie de contradições. Talvez nem todos saibam que a aquisição dessa virtude lhe custara não poucos nem leves combates; ele mesmo nos faz saber que era, por natureza, vivaz e pronto à ira, e de fato revelam-se em seus escritos um fogo e uma impetuosidade que não deixam lugar para duvidar disso. Desde a juventude, aplicou toda a sua alma a fazer violência a si mesmo para reprimir os impulsos da natureza e, à força de estudar na escola de um Deus doce e humilde de coração, chegou a estabelecer, sobre as ruínas de sua paixão dominante, o reino da doçura, que formou seu caráter distintivo. Foi sobretudo essa virtude que abriu os olhos aos calvinistas mais pertinazes e arrancou setenta e duas mil almas à heresia.
Em uma conferência com Monsenhor Camus, bispo de Belley, disse estas notáveis palavras a respeito da correção fraterna: A verdade deve ser sempre caridosa; um zelo amargo não produz senão o mal; as correções são um alimento de difícil digestão e é preciso cozinhá-las no forno ardente da caridade, para que percam toda a sua aspereza; do contrário, assemelham-se àqueles frutos agrestes que, apenas ingeridos, produzem cólicas. A doçura não considera os próprios interesses, mas somente a glória de Deus. A amargura e a dureza têm sua raiz na vaidade, no orgulho e na paixão. Um bom remédio, aplicado onde ou como não se deve, converte-se em veneno. Um silêncio prudente e sensato é sempre mais útil do que uma verdade sem caridade.
Era admirável nele o dom de conquistar o coração de seus inimigos: aos insultos e impropérios deles, não opunha senão a mansidão e os benefícios… A doçura era sua virtude dominante.
Ele mesmo dizia tê-la estudado durante muitos anos na escola de Jesus Cristo e que seu coração ainda não estava satisfeito com o que havia aprendido. Ora, se este santo, que podia ser chamado a doçura personificada, julgava ter pouca doçura, que diremos nós daqueles cujo modo de tratar e falar revela um coração transbordante de amargura, um espírito perturbado pelo despeito e pela cólera?
Vejo-me carregado de afazeres, dizia às vezes esse grande bispo, e, no entanto, todas essas pessoas que me seguem são crianças que correm ao seio do Pai; já se viu alguma galinha irritar-se quando os pintinhos se lançam todos sob suas asas? Não: ao contrário, então ela as abre ainda mais, para poder cobri-los todos. Parece-me que o coração se dilata à medida que aumenta o número dessas boas pessoas. O mais poderoso e seguro remédio que conheço contra os movimentos repentinos de impaciência é um silêncio doce e sem fel. Por poucas que sejam as palavras ditas, o amor-próprio nelas se insinua, e escapam coisas que lançam o coração na amargura por vinte e quatro horas. Quando não se abre a boca e se sorri de bom coração, passa o furacão, a cólera e a indiscrição ficam desconcertadas, e saboreia-se uma alegria pura e duradoura. Quem possui a doçura cristã tem um coração terno para com todo o mundo e inclinado a perdoar e desculpar as fragilidades dos outros. Manifesta a bondade de seu coração por uma doce afabilidade, que influi em suas palavras e ações e lhe faz achar tudo agradável; evita todo discurso frio, brusco e imperioso. Uma amável serenidade brilha sempre em seu rosto; nada tem em comum com aqueles sátrapas cujo olhar está sempre torvo, cuja mão está sempre fechada para dar ou, se alguma vez se abre, o fazem de modo tão desagradável que perdem todo o mérito da boa ação.
Certa vez, alguns o censuraram por sua extrema indulgência para com os pecadores, e ele respondeu: Se houvesse coisa melhor que a doçura, Deus no-la teria ensinado; ao passo que nos recomenda apenas duas coisas: ser doces e humildes de coração. Quereis, porventura, impedir-me de observar o mandamento de Deus e de imitar, quanto posso, a virtude da qual ele nos deu o exemplo e da qual mostrou fazer tanto caso? Somos nós, então, mais sábios que Deus? … Quando os apóstatas e os pecadores mais desgraçados recorriam a ele, abria-lhes o coração com uma ternura inexprimível e uma doçura inteiramente celestial; acolhia-os exatamente como o pai evangélico acolheu outrora o filho pródigo. Vinde, exclamava o bom Pastor, vinde, meus queridos filhos, para que eu vos abrace, vos estreite contra o meu peito e vos esconda em meu coração: o Senhor e eu vos assistiremos. Peço-vos uma só coisa: que não desespereis; quanto a todo o resto, eu cuidarei; não vos aflijais. Olhava-os com olhos através dos quais transpareciam a doçura e a sinceridade dos sentimentos; abria-lhes a bolsa e o coração. Àqueles, porém, que se mostravam escandalizados com esse seu modo de proceder e observavam que isso os encorajava a pecar por meio da impunidade, respondia: Não vedes que são minhas ovelhas? Nosso Senhor deu-lhes todo o seu sangue; posso eu negar-lhes as minhas lágrimas? Esses lobos se transformarão em cordeiros; virá o tempo em que serão mais santos do que muitos de nós o somos atualmente. Se Saulo tivesse sido rejeitado, jamais a Igreja teria tido São Paulo.
Quem aspira à aquisição da doçura deve: 1° Ser humilde, pois jamais foi doce o orgulhoso. 2° Meditar e persuadir-se bem da dignidade, beleza e bondade da doçura… 3° Não dizer nem fazer coisa alguma enquanto se sente comovido… 4° Tornar-se superior às injúrias… 5° Deixar a Deus o cuidado de vingá-lo… “A mim pertence a vingança, diz o Senhor; eu retribuirei a cada um segundo suas obras” (Rm 12, 19). 6° Desapegar-se de tudo e afeiçoar-se somente a Deus… 7° Pensar frequentemente nos exemplos de Jesus Cristo e dos santos.
Voltemos todo o nosso estudo e esforço para a aquisição do espírito de doçura, que é o verdadeiro espírito do Cristianismo. Que a unção do Espírito Santo suavize nossa aspereza e amoleça nossa dureza. Jamais tenhamos um aspecto altivo e carrancudo: isso é dar prova de fraqueza; a força consiste em expor tranquilamente as razões de nosso proceder, e essa força falta quando se recorre à força rude e litigiosa.
É preciso falar com mansidão àqueles contra os quais a verdade exige que combatamos. Desse modo, sem discutir e sem nos perturbar, levamo-los a ver claramente o seu erro; demonstramos ser verdadeiros cristãos e imitadores de Cristo Jesus… Servi a Deus com doçura; sede cristãos perfeitos e, por conseguinte, verdadeiros cordeiros: não murmureis, não vos digladieis, não procureis fazer alarde, não vos deixeis arrastar pelo espírito de contradição, não cesseis de mostrar, em todo encontro, uma serenidade imperturbável. Tende doçura: ela gera a paciência. Essas duas virtudes formam o caráter próprio da piedade cristã e os dois frutos da unção de Jesus Cristo derramada sobre nós…