As causas que levam ao desespero são: 1° a gravidade excessiva dos pecados cometidos, que tira a esperança de obter misericórdia. Tal foi o desespero de Caim, que clamava: “Grande demais é a minha culpa para que eu mereça perdão” (Gn 4, 13). 2° Contam-se os pecados, e a sua quantidade assusta… 3° Faz-se valer e exagera-se a força do hábito, o qual impede que se espere poder corrigir-se.
Outras causas do desespero são: 4° os escrúpulos; 5° a falta de confiança em Deus; 6° a malícia do demônio, o qual, para arrastar o homem ao pecado, esconde-lhe cuidadosamente a torpeza, engrandecendo-lhe a doçura e os atrativos; depois, quando o fez cair, para retê-lo no caminho do mal, põe-lhe diante dos olhos mil obstáculos que devem impedi-lo de converter-se…; 7° as fortes tentações; 8° os aborrecimentos; 9° as adversidades etc.
Mas todos estes motivos de desespero, se bem observados, são destituídos de fundamento e constituem puro engano, porque não há delito do qual não se possa obter o perdão mediante um sincero arrependimento e uma verdadeira penitência. Deus no-lo assegura por meio do profeta: “Vós nunca desprezais, ó Deus, um coração contrito e humilhado…” (Sl 50, 18).
Jesus Cristo morreu por todos; quem quer que recorra a este sangue divino está salvo… Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Entre o último suspiro de um moribundo e o inferno, pode interpor-se um oceano de misericórdia…
Quem desespera da misericórdia divina torna-se réu de grave culpa; fere a Deus na pupila do olho e condena a si mesmo à morte eterna. De modo ainda mais grave, em certo sentido, pecou Judas ao entregar-se ao desespero do que ao trair Jesus Cristo; o desespero impeliu-o ao cadafalso e precipitou-o no inferno.
Quem se enforca, diz Santo Agostinho, já não pode respirar; do mesmo modo, quem desespera já não recebe o sopro vivificante do Espírito Santo (Homil. XXVII); o pecado que se acompanha do desespero não pode deixar de conduzir à morte (1). O desespero obriga a misericórdia a retirar-se, e o perdão jamais poderá unir-se ao desespero… Desespera-se porque se cometeram muitos e enormes pecados; mas o maior entre eles é o desespero. Não se sai de um delito cometendo um delito mais monstruoso.
Aos desesperados não resta outra sorte senão aquela tristíssima que coube aos egípcios, os quais, na ânsia de perseguir os judeus para exterminá-los, ou ao menos mantê-los escravos, afundaram-se, como massa de chumbo, no fundo das voragens do mar (Ex 15, 10).
Afasteis do vosso coração o desespero e não contristeis o Espírito Santo que habita em vós; se desesperardes, ele se retirará, porque o Espírito do Senhor não é compatível com o desespero. O desespero é o sopro mais desastroso que pode passar sobre uma alma: uma oração feita em desespero não sobe até Deus… Assim como o fogo consome a madeira, assim o desespero consome a alma; ele é como uma densa fumaça que, elevando-se das fornalhas do inferno, obscurece e destrói toda alegria, toda paz, toda felicidade… A febre corrói as forças do corpo; o desespero tira da alma todo vigor… Uma mãe sofre dores indescritíveis no parto, mas depois, como diz o Evangelho, alegra-se toda pelo dom que Deus lhe concedeu; o desespero causa dores dilacerantes àqueles em quem nasce, e outras ainda mais horríveis depois que nasceu.
O desespero abre no coração uma profunda ferida; insinua nele a perturbação e a agitação, mergulha-o nas trevas. É um verme roedor; um carrasco que mata e que, ao matar, faz sofrer longos e penosos tormentos… Afoga a alma nas ondas da melancolia; tira-lhe o juízo e torna-a surda aos bons conselhos.
“Se te deixares abater pelo desespero no dia da provação, tua força diminuirá”, lemos nos Provérbios (24, 10). Não há coisa, diz o Venerável Beda, mais execrável que o desespero; quem cai nele perde o fruto de seus trabalhos e, o que é pior, também a disposição de se defender e combater pela fé (Sentent.). Cometer um pecado mortal é matar a alma, diz Santo Isidoro; mas desesperar é descer ao inferno (De Summo bono, lib. 2, c. 14). São Tomás ensina que o desespero é o mais monstruoso de todos os pecados; não em si mesmo, porque, sob esse aspecto, a apostasia e o ódio a Deus são pecados ainda mais graves; mas porque o desespero é a causa de todos os pecados, sendo muito fácil que se entregue a qualquer excesso aquele que se considera desesperado. A esperança revigora e encoraja, porque é a fonte da paciência e o princípio da vitória; ela dilata e fortalece a alma, mostrando-lhe o prêmio da virtude e o triunfo. O desespero, ao contrário, entorpece e empobrece o coração, enfraquece-o, aumenta as tentações e os combates (2- 2 q. 20, art. 3).
É grande preocupação dos demônios, dizia o abade Isidoro, fazer a alma cair no pecado, mas sobretudo mantê-la nele afundada por meio do desespero, para perdê-la com segurança e para sempre. Os demônios fazem a alma desesperada dizer: Eu gostaria de morrer, de ser aniquilada; e por que saí do nada? Amaria voltar a ele. Mas quem espera diz: “Não morrerei, mas viverei e cantarei as maravilhas do Senhor” (Sl 117, 17). Ao demônio, que o impelia a desesperar, sussurrando-lhe ao coração: Que belo fruto colherás de teus trabalhos e de tuas penitências! o inferno, os tormentos eternos; o mesmo abade respondia: Ainda que eu vá para o inferno, tu estarás, ó Satanás, sempre abaixo de mim. Por este meio, ele saía triunfante da tentação (SOPHRON. In Prato Spir., c. IX).
À beira da morte, Deus abandona o pecador que desespera; ele se retira; tudo está perdido… O desespero conduz à impenitência final, e a impenitência final ao inferno, lugar de eterno desespero. No momento da morte, o desesperado verá seu delito, a justiça de Deus, sua condenação, os demônios e o inferno escancarado: “Debater-se-á furioso, rangerá os dentes, seu desejo de ser aniquilado perecerá” (Sl 111, 9).
O Onipotente destruirá para sempre, diz o Salmista, aquele que desespera; arrancá-lo-á e o expulsará de sua morada, esmagá-lo-á, tirando-o da terra dos viventes (Sl 51, 5). E os que esperam no Senhor verão e serão tomados de temor e, rindo-se dele, dirão: Eis como termina o homem que não pôs em Deus a sua força (Sl 51, 6-7).
São Paulo exortava os hebreus a não se cansarem e a não perderem a coragem (12, 3); o profeta dizia à sua alma: “Por que estás melancólica e triste? Por que me perturbas e me afliges? Espera em Deus, porque ainda hei de proclamar o seu poder: a salvação vem do seu olhar” (Sl 41, 3). Pedro nega publicamente Jesus Cristo três vezes; é réu, e grandemente réu; mas espera e é salvo… Judas vende o seu Deus; desespera e é condenado… A esperança povoa o céu; o desespero enche o inferno… Todos os crimes cometidos desde o princípio do mundo até o fim dos séculos, se forem postos na balança com uma gota do sangue de Jesus Cristo, pesam menos que uma gota de água em comparação com as ondas do mar; ainda que fôsseis réus de todas as iniquidades de todos os pecadores, nem por isso deveríeis desesperar, porque infinita é a misericórdia de Deus… Quereis entregar-vos ao desespero por terdes sido injuriados, insultados, ridicularizados, amargurados? Não! Mas voltai os olhos para a glória celeste, reservada à vossa paciência. Será preciso desesperar porque perdestes os vossos bens? Não! Mas fixai o olhar nas riquezas da eternidade, nos tesouros que serão o prêmio e a recompensa da vossa pobreza, esperança e resignação. Caís enfermo? Não desespereis: graças à vossa confiança em Deus, gozareis de uma juventude e de uma saúde eternas. A morte vos rouba um ente querido? Não desespereis, porque o reencontrareis revestido de glória no paraíso. Expulsam-vos da pátria? Pensai que a vossa verdadeira pátria está no céu.
Os meios de prevenir e combater o desespero consistem: 1° em pôr toda a confiança em Deus…; 2° na frequência dos sacramentos…; 3° em fazer da resignação uma lei…; 4° na oração…; 5° numa sincera devoção à Virgem Maria.