Quatro são os deveres que ligam os servos ao patrão: o amor, o respeito, a obediência e a fidelidade. Que se entende pelo amor devido pelos servos aos patrões? Entende-se uma afeição sincera que faz com que os criados considerem como próprios os interesses daqueles a quem servem. Para obter isso, os criados devem:
1º ver a Deus na pessoa de seus patrões; 2º considerar, na vontade deles, a própria vontade de Deus…; 3º afeiçoar-se a eles com o fim de agradar a Deus…; 4º ter como objetivo de seus trabalhos e sofrimentos a recompensa eterna…; 5º ser bons e gentis com aqueles que lhes dão ordens.
«Saibam os servos e todos aqueles que dependem de outros», escrevia São Paulo a Timóteo, «que estão obrigados a prestar toda espécie de honra a seus superiores, para que o nome e a doutrina do Senhor não sejam blasfemados» (1Tm 6,1). A mesma exortação fazia São Pedro, dizendo: «Servos, sede submissos a vossos patrões com todo temor, não somente aos bons e afáveis, mas também aos bárbaros e maus; porque faz coisa agradável a Deus aquele que, para agradar-lhe, suporta pacientemente os maus-tratos que a injustiça lhe faz padecer» (1Pd 2,18-19).
Devem, pois, os servos respeitar seus patrões; não zombar deles, não falar mal deles, não contradizê-los, nem desprezá-los, nem insultá-los etc.… mas honrá-los nas palavras e de toda maneira honesta, defender sua honra, ocultar seus defeitos, preservar sua reputação e jamais falar deles senão com expressões de estima e respeito. Este é o ponto em que pecam gravemente muitos servos indiscretos, irrefletidos, imprudentes, ingratos e maus, os quais, enquanto comem o pão de seus patrões, não se envergonham de divulgar aos quatro ventos seus caprichos, fraquezas, antipatias, querelas e discórdias, de revelar seus segredos, violando assim as leis do direito natural, as da sociedade civil e o preceito da caridade cristã,
Quanto a este terceiro dever dos servos, eis o que ensina São Paulo: «Servos, obedecei em tudo a vossos patrões, não porque têm os olhos sobre vós, como se o fizésseis para agradar-lhes, mas com simplicidade de intenção e temor de Deus» (Cl 3,32). E aos efésios escreve: «Servos, obedecei com respeito e temor a vossos patrões, como ao próprio Cristo; não os sirvais por consideração humana, mas como servos de Cristo que fazem de todo o coração a vontade de Deus» (Ef 6,5-6). A Tito, seu discípulo, escrevia que exortasse os servos a permanecer submissos a seus patrões e a agradar-lhes em tudo, sem murmurar (Tt 2,9). «Obedecei a vossos superiores e sede submissos a eles», escrevia aos hebreus (Hb 13,17).
Os servos devem obedecer aos patrões, não somente porque estão obrigados a isso por sua condição, mas também por amor ao dever. Aqueles que obedecem à força, queixando-se e murmurando, não estão isentos de culpa diante de Deus… Nunca lhes é lícito desobedecer, a não ser quando os patrões ordenarem o mal; ao contrário, nesse caso estão estritamente obrigados a fazê-lo.
A fidelidade consiste em trabalhar conscienciosamente e, depois, em procurar e conservar os bens de seus patrões de modo que jamais causem dano a ninguém. São Paulo inculcava este dever ao escrever a Tito que exortasse os servos a não defraudar em nada seus patrões, mas a demonstrar em tudo uma fidelidade perfeita (Tt 2,10).
A fidelidade exige ainda que não se permitam facilmente compensar-se por si mesmos e, sob o pretexto de que seus patrões não lhes dão salários proporcionais ao trabalho, tomar às escondidas alguma coisa além do preço combinado… Assim como também não lhes é permitido dar a outros os bens de seus patrões… Se perceberem que o patrão é roubado ou de algum modo prejudicado, estão obrigados a avisá-lo, ainda que os culpados fossem os próprios filhos da família; antes, porém, devem procurar afastá-los do mal ou, quando este já tiver sido cometido, persuadi-los a repará-lo… Pecam igualmente contra a justiça e estão obrigados à restituição os criados e assalariados que não empregam fielmente seu tempo ou que não trabalham com diligência… Finalmente, o servo deve, como outro José, vigiar atentamente para que nada se perca ou se estrague daquilo que o patrão lhe confiou. Se, por sua culpa, a roupa de casa se perde ou se deteriora, os móveis se danificam, o vinho e o azeite se desperdiçam, os gêneros alimentícios se estragam e os objetos por ele deixados expostos à disposição de todos são roubados pelos ladrões, ele é obrigado a responder por isso. Não vale desculpar-se dizendo que os patrões não perceberam, pois justamente na ausência ou na falta dos patrões a fidelidade dos criados deve mostrar-se mais vigilante e transparente. «Aquele que cuida de seu patrão e de seus bens será cumulado de honras», dizem os Provérbios (27,18).