Tesouro n.º 54 · Volume I

DESOBEDIÊNCIA DISOBBEDIENZA

3 seções · 16 parágrafos · pp. 588–592 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. MALÍCIA DA DESOBEDIÊNCIA

Se aquele a quem desobedeceis, escreve São Gregório, não tivesse outro título sobre vós senão o de vosso senhor e amo, já vos tornaríeis culpados para com ele. Mas quanto mais grave e repreensível será a culpa quando desobedeceis ao vosso Deus, criador, redentor e conservador! Desprezais as ordens do vosso Deus, que vos tirou do nada, vos criou à sua imagem, vos colocou acima de todos os seres corpóreos e vos fez reis por toda a eternidade! Não é porventura vosso Deus de modo todo especial aquele que vos cumulou de tantos e tão preciosos dons? E, contudo, mostrais não fazer caso algum de seus preceitos, que não são comuns a todas as criaturas, mas feitos especialmente para vós e colocados sob a salvaguarda de vosso livre-arbítrio (Moral.).

“Não se submeter à vontade de Deus é pecado igual à idolatria, dizia Samuel a Saul; e resistir às suas ordens equivale ao delito de magia” (1Sm 15,23). A desobediência iguala-se ao pecado de magia, porque não se desobedece a Deus sem consultar os demônios e receber deles resposta junto aos seus altares. Resistir a Deus é idolatria, porque quem resiste a Deus adora a própria vontade e a substitui à vontade de Deus.

Quereis ver melhor como se equivalem a desobediência e a prática da magia, a desobediência e a idolatria? Ouvi: O adivinho prediz o futuro por meio de sinais ou indícios errôneos e falazes; o desobediente interpreta, ou melhor, calca aos pés, a vontade de Deus, fundamentando-se na interpretação de sua razão, de seu juízo, de seus desígnios, de suas ideias tortuosas, filhas da cegueira, da obstinação ou da impiedade. Além disso, à vontade de Deus revelada e conhecida, o desobediente prefere a sua própria, como se a julgasse melhor e mais razoável que a de Deus; proclama-se mais sábio e mais prudente que ele; com sua conduta, desmente a onisciência, a prudência incomparável, a bondade infinita e o poder de Deus; nega, por conseguinte, que Deus seja Deus e, fazendo de seu juízo e de sua vontade uma divindade, adora-os como seus ídolos. Mas o ídolo é um deus mentiroso que profere falsos oráculos; portanto, o desobediente, que adora o próprio juízo e a própria vontade como divindades dignas de sua confiança, consulta-os como oráculos de sabedoria, confia neles e obedece a oráculos enganadores. Ele combate contra Deus, porque, seguindo a própria vontade, despreza a vontade de Deus e faz de si mesmo um deus. Assim como o guloso faz de seu ventre um deus, o impudico faz daquilo que é objeto de sua paixão, o ambicioso faz da honra, o avarento faz do ouro, assim o desobediente faz de seu juízo e de sua vontade um deus. Isso precisamente fez São Bernardo dizer: Compreendeis profundamente a enormidade de um delito que é comparado ao delito de magia e de idolatria? … Os jovens acometidos por esse mal desdenham inclinar-se diante dos anciãos, criticam, com fronte altiva e insolente, toda ação e palavra deles; julgam-nos, censuram-nos, zombam deles. Mas não o fazem impunemente, porque, seguindo esse caminho abominável, vão de queda em queda e, em vez de chegar a bom termo, tornam-se infelizes (Serm. in psalm.).

Jonas desobedece a Deus e, por ordem do Senhor, levanta-se uma furiosa tempestade que ameaça fazer naufragar o navio; mas, assim que o desobediente é lançado ao mar, as ondas se acalmam e faz-se bonança (JONAS. I). “Os marinheiros, comenta o Crisóstomo, lançam primeiro nos abismos todos os bens e mercadorias, e, contudo, o navio não se torna nem um pouco mais leve. Por quê? Porque nada há tão grave e pesado quanto a desobediência (1)”.

2. DANOS DA DESOBEDIÊNCIA

Se o sol negasse sua luz, se os elementos não cumprissem sua função, se a terra cessasse de produzir, que seria do mundo? Se os membros do corpo se recusassem a obedecer, no que se tornaria o homem? Se uma nação se rebelasse contra toda ordem, onde estariam a sociedade, o comércio etc.? Se um exército se amotinasse em campo contra o comandante, o que aconteceria? … Que desordens e confusões não nascem numa família cujos filhos não obedecem aos pais! … Agora, pensai que consequências muito mais terríveis e desastrosas traz consigo a desobediência a Deus!

Então a alma é posta em desordem, entregue ao roubo e ao saque. Tudo nela é cegueira, escravidão, maldição e morte… O inferno nela se estabelece; mais ainda, a própria alma é um verdadeiro inferno, e podem aplicar-se-lhe aquelas palavras de Jó: “Terra de dores e de trevas, onde reina a sombra da morte e habitam a desordem e o horror eterno” (Jó 10, 22).

Para um governo, para uma nação, desobedecer à Igreja produz as mesmas consequências, porque desobedecer à Igreja vale tanto quanto desobedecer ao próprio Deus (Lc 10, 16). Como o pecado da desobediência, observa São Gregório, provém da raiz do orgulho, os desobedientes bem se dispõem a ouvir as correções que lhes são feitas, mas não se dobram nem a confessar humildemente sua culpa, nem a corrigir-se dela.

3. CASTIGOS DA DESOBEDIÊNCIA

Por sugestão da serpente, Eva toma, come e oferece ao marido aquele fruto que pouco antes ela mesma havia confessado não dever tocar por ordem de Deus. Esta foi uma solene e formal desobediência, da qual Adão e Eva se tornaram culpados; tiveram, portanto, um terrível castigo: 1° a perda da inocência; 2° o sentimento da nudez; 3° a vergonha; 4° o temor; 5° as escusas; 6° a concupiscência; 7° as tentações; 8° as repreensões; 9° as dores do parto; 10° o domínio do homem sobre a mulher; 11° a maldição; 12° a diminuição da fertilidade da terra, o trabalho, os suores; 13° a expulsão do paraíso terrestre; 14° a morte; 15° a corrupção; 16° a perda do céu; 17° o inferno.

“Porque Adão, escreve São Gregório, não quis estar sujeito ao seu autor, perdeu o direito de governar a sua carne, para que a confusão de sua desobediência o envolvesse por inteiro; e, vencido e feito escravo, aprendesse o que havia perdido por seu orgulho (2)”.

“Se a alma deseja dominar o corpo e os sentidos, é necessário, diz São Bernardo, que ela mesma se mantenha sujeita ao seu Senhor. Pois tal há de experimentar de sua parte o inferior, qual ela própria se mostrar para com o superior… A criatura arma-se para vingar a injúria da desobediência feita ao Criador. Saiba, portanto, a alma que vê a carne rebelde que ‘tristemente isso lhe acontece porque ela mesma não se mostra sujeita, como convém, às potestades superiores (3)”.

“Reconhecei a ordem, diz Santo Agostinho; obedecei a Deus e a carne vos obedecerá. Que há de mais justo e de mais belo? Sede vós sujeitos àquele que vos é superior, e tereis sujeito a vós aquele que vos é inferior… Servi àquele que vos criou e sereis servidos por aquilo que foi criado para vós. Mas, se não quiserdes submeter-vos a Deus, jamais tereis a carne sujeita a vós; e justamente será maltratado pelo escravo aquele que não obedece ao Senhor (4)”.

Quando Adão se rebelou contra Deus, viu e sentiu os animais, a terra e seus próprios membros rebelarem-se contra ele e desobedecer-lhe… No tempo do dilúvio, os homens fizeram-se surdos à voz de Noé, que os ameaçava com a justiça divina, e pereceram todos… Os sodomitas não quiseram dar ouvidos a Deus, e uma chuva de fogo e enxofre os exterminou… O faraó obstina-se em não obedecer a Deus e vê-se obrigado a obedecer a mosquitos e gafanhotos… Os egípcios não levaram em conta os mandamentos do Senhor e precipitaram-se como chumbo no fundo do mar (Ex 15, 10).

“Se fordes desobedientes à voz do Senhor vosso Deus, intima Moisés ao povo, perecereis” (Dt 8, 20). “E aquele que se ensoberbecer e não quiser ceder ao mandamento do sacerdote, ministro do Senhor vosso Deus, nem à sentença do juiz, será punido com a morte, e assim será eliminado o escândalo do meio de Israel” (Ib. 17, 12).

Coré, Datã e Abiron desobedecem; a terra abre-se e os traga com tudo quanto lhes pertence (Nm XVI). Samuel diz a Saul: “O Senhor quer que se obedeça ao seu aceno, porque a obediência lhe é mais aceita que o sacrifício. Ora, porque desprezaste a palavra do Senhor, ele te rejeita, para que não sejas mais rei” (1Sm 15, 22-23). “Assim, pela desobediência, comenta São Gregório, Saul cai e perde a glória da alta dignidade de que havia sido revestido (5)”. Era muito justo: não tendo querido submeter-se a Deus, devia ser privado do reino…

Jonas quer subtrair-se ao mandamento de Deus; é lançado ao mar; passa três dias no ventre de uma baleia e não é salvo senão quando pede perdão. Jonas, diz São Gregório, é apanhado em falta, precipitado no abismo, engolido por um peixe. Eis que a tempestade encontra o fugitivo de Deus, a sorte o prende, o mar o recebe, a baleia o aprisiona (Moral, lib. 6, c. 12). Parecendo-lhe duro o mandamento de Deus, Jonas foge para longe de Deus, que é a salvação certa daqueles que lhe obedecem; entrega-se ao arbítrio dos ventos furiosos, do mar revolto, das ondas impetuosas, dos marinheiros infiéis; estes o lançam ao oceano, a um navio que não está separado da morte senão pela espessura de quatro dedos.

O pecador desobediente mostra-se insensato, porque, abandonando o seu Criador, deposita as suas esperanças nas criaturas, junto às quais não encontra senão inquietação, aflição, perigos, tempestade, naufrágio, monstros que o devoram… Ah! siga antes o conselho de Santo Agostinho: “Quem quer escapar à cólera de Deus, cuide de a aplacar (6)”. Obedeçamos a Deus, para que ele não nos persiga… O homem foi feito para obedecer a Deus; se lhe desobedece, obedece ao demônio… Quem não fizer a vontade da bondade e da misericórdia de Deus deverá submeter-se à sua justiça e à sua vingança.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.