Que existem espíritos malignos chamados demônios é coisa atestada pela Sagrada Escritura e reconhecida por todos os povos.
Os pagãos acreditavam na existência de gênios, uns bons e outros maus; e concluíam que era preciso conquistar o favor dos bons com reverências, oferendas e orações; aplacar a vingança e a malícia dos maus com sacrifícios. Daí a idolatria, o politeísmo, as práticas supersticiosas, a magia, a adivinhação etc. A mesma coisa também acreditavam os filósofos pagãos…
A revelação veio iluminar-nos acerca da existência dos demônios. Moisés nos diz que a primeira mulher foi levada a desobedecer a Deus por um inimigo pérfido, disfarçado sob a forma de serpente (Gn 3,4). No Deuteronômio narra-se que os israelitas imolaram os próprios filhos aos espíritos malignos e maus (32,17); o Salmista confirma o mesmo fato com estas palavras (105,35). Também Jesus Cristo falou da existência dos demônios; mais ainda, sabemos que os expulsava do corpo dos possessos. A mesma linguagem empregaram os apóstolos, e a existência dos demônios constitui um dogma da Igreja católica.
Demônio significa espírito, gênio, inteligência; por isso, esta palavra, enquanto indica um ser dotado de inteligência, não tem em si mesma nada de odioso. No Novo Testamento, o nome de demônio é sempre empregado em sentido negativo e significa um espírito mau, inimigo de Deus e dos homens…
No princípio da criação, Deus tirou do nada os anjos, como tudo o mais. Ele os fez bons, porque está escrito que todas as coisas feitas por Deus eram muito boas, e Deus não pode ser autor de coisa má. A Escritura nos ensina que, desde o instante de sua criação, todos os anjos, que eram quase inumeráveis, foram colocados no céu. Sabemos ainda por ela que muitos deles se rebelaram contra o Criador e, como castigo por seu crime, foram condenados a eternos suplícios; a estes últimos a Escritura dá o nome de demônios. A outra parte dos anjos permaneceu fiel a Deus e foi confirmada na graça.
Por sua natureza, os anjos são espíritos inteligentes, ativos, imortais, imateriais, destinados a viver na contemplação de Deus. Os anjos são as criaturas que mais se aproximam da majestade divina, infinita em perfeições. Deus os criou para formar a sua corte, e é certo que Ele derramou com mão generosa sobre essas belas inteligências todos aqueles dons naturais dos quais nós recebemos apenas uma pequena parte. Ao cair, os anjos rebeldes nada perderam de sua natureza, agilidade, espiritualidade e vasta inteligência, mas perderam a inocência, a beleza e a felicidade. Sob este aspecto, perderam tudo… E em que se tornaram esses anjos decaídos? Ouvi a resposta de Santo Agostinho: “O demônio é o doutor da mentira, o adversário do gênero humano, o inventor da morte, o mestre do orgulho, a raiz da maldade, o autor dos crimes, o príncipe de todos os vícios, o instigador dos prazeres vergonhosos (1). Que há de mais perverso, de mais corrompido, de mais mau que o nosso adversário? (2)”.
A Sabedoria assim descreve os demônios: “São monstros nunca antes vistos, cheios de inaudita fúria, exalando chamas e odor de fumaça, irradiando pelos olhos horríveis centelhas; não somente podem matar ferindo, mas a sua simples visão pode causar a morte pelo espanto” (Sb 11, 19-20).
Jesus Cristo e os apóstolos atribuem aos demônios os maiores crimes, como a incredulidade dos judeus, a traição de Judas, o cegamento dos pagãos, as doenças cruéis e as obsessões. Chamam Satanás de pai da mentira, rei deste mundo, príncipe do ar, antiga serpente, demônio. Nos exorcismos, o demônio é chamado de espírito imundo, infelicíssimo tentador, enganador, pai da mentira e das heresias, feroz serpente, autor da impudicícia, estúpido, insensato, devastador, repugnante, efeminado, envenenador, monstro dos monstros, expulso do paraíso, da graça de Deus, da morada da felicidade, da assembleia e sociedade dos santos, criatura reprovada e amaldiçoada por Deus por toda a eternidade, orgulhoso, infame, cheio de iniquidade, de abominações, de blasfêmias, coberto de maldição, carregado de excomunhões e merecedor do fogo infernal. Eis os nomes e títulos que a Igreja dá ao demônio, interpelando-o nos exorcismos. Por eles podemos julgar quem ele é.
Tertuliano, São Basílio, São Cipriano, São Bernardo, Ruperto, abade, o Suárez, seguidos por bom número de teólogos, consideram provável que o pecado cometido por Lúcifer no céu, pelo qual foi levado ao orgulho, tenha tido origem na inveja que sentiu quando Deus lhe revelou que seu Filho se faria homem e lhe ordenou que se submetesse a Jesus Cristo encarnado. Teve ciúmes de que o Filho de Deus assumisse a natureza humana e não soube resignar-se a que o homem fosse preferido a ele, o mais nobre, o mais belo, o mais inteligente dos anjos; pareceu-lhe intolerável aquela união hipostática do homem com o Verbo; desejou que tal união se realizasse com ele e recusou reconhecer como seu superior um homem feito Deus pela encarnação. Não tendo Deus querido aceder a seus desejos, Lúcifer rebelou-se contra Ele e contra Jesus Cristo e aconselhou os anjos a segui-lo em sua revolta. Em sua carta aos Hebreus, parece que São Paulo favorece esta opinião naquelas palavras: “Quando Deus introduziu no mundo o seu Primogênito, disse: E adorem-no todos os anjos de Deus” (Hb I, 6). A parte dos anjos que adorou os segredos divinos submeteu-se à vontade de Deus, reconheceu como seu Senhor Jesus Cristo feito homem e não somente foi mantida em sua feliz condição, mas foi elevada ao mais alto dos céus e confirmada na graça.
O orgulho fez cair o anjo que, por seus esplendores, é comparado à estrela da manhã. “Como caíste do céu, ó Lúcifer, exclama Isaías: tu, astro brilhante, filho da aurora, como foste precipitado por terra?” (14, 12). Como te transformaste em trevas, ó Lúcifer? Como foste precipitado do mais alto grau ao mais baixo, da glória à ignomínia, da vida à morte, do céu ao inferno?
O chefe dos anjos rebeldes chama-se Lúcifer, porque resplandecia de graça e de glória no céu, assim como brilha com luz mais viva a estrela que se chama Lúcifer ou portadora da luz. Em sentido místico, isto significa que a queda de Lúcifer ocorreu na aurora, isto é, no próprio princípio da criação do mundo.
Lúcifer, continua Isaías, tu dizias em teu coração: Subirei aos céus e colocarei meu trono acima dos astros de Deus; elevar-me-ei acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14). Como caíste, tu que eras o selo da semelhança (Ez 28, 12), isto é, tu eras de perfeita beleza e cheio de sabedoria; criado entre as delícias do paraíso de Deus, andavas como que vestido de pedras preciosas; eras perfeito desde o dia da criação, e assim permaneceste até que a iniquidade veio macular-te. E qual é essa iniquidade, senão a de teres estimado demasiadamente a ti mesmo e de teres feito da tua própria excelência um laço para ti?
Infeliz e mil vezes desventurada, diz Bossuet, aquela criatura que não quer contemplar-se em Deus e que, fixando-se em si mesma, separa-se da fonte de seu ser, que é, por conseguinte, ao mesmo tempo, a fonte de sua perfeição e de sua felicidade. Aquele soberbo que fizera de si mesmo um deus suscitou a rebelião no céu, e Miguel, que se encontrou à frente do partido da ordem, gritou: Quem é como Deus? — Por isso recebeu o nome de Miguel, que significa: Quem é igual a Deus? Quem é aquele que quer mostrar-se a nós como outro Deus e que disse em seu orgulho: Eu me elevarei até os céus, dominarei todos os espíritos e serei semelhante ao Altíssimo? Quem é, pois, este novo deus que quer elevar-se acima de nós? Mas gritemos todos atrás dele: Não há senão um só Deus; digamos todos a uma só voz: Quem é semelhante a Deus? — Observai no que se transforma de repente aquele falso deus que queria fazer-se adorar: Deus o feriu, e ele precipitou-se com os anjos seus imitadores. Tu que te elevavas ao céu, foste lançado no inferno, nos abismos mais profundos e tenebrosos (Is 14, 15). Em sua queda, conserva inteiro o seu orgulho, porque o orgulho deve ser o seu suplício (Sur les Démons).
“Houve no céu um grande combate, diz o Apocalipse: Miguel e seus anjos combatiam contra o dragão, e o dragão e seus anjos combatiam. Mas estes não prevaleceram, e já não houve lugar para eles no céu. E aquele grande dragão, aquela antiga serpente, cujo nome é Diabo e Satanás, que seduz toda a terra, foi precipitado juntamente com os seus anjos” (Ap 12, 7-9).
O demônio não permaneceu na verdade, escreve São Bernardo, porque não se apoiou no Verbo. Confiou em suas próprias forças; quis sentar-se, quando por si mesmo nem sequer podia manter-se de pé. Dizia em seu coração: Eu me assentarei; mas Deus, julgando de outro modo, não lhe permitiu nem sentar-se nem permanecer de pé. Então o demônio caiu; diz isso Jesus Cristo com a própria boca: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18). Quem, pois, está de pé, não confie em si mesmo, mas apoie-se no Verbo, para não cair. É palavra do Verbo que, sem Ele, nada podemos fazer (Serm. 85, in Cantic.).
Eu me sentarei e serei semelhante ao Altíssimo. Ó impudente! diz o mesmo Padre; milhões de anjos o servem, e centenas de milhões permanecem com as asas aos pés para seguir suas ordens, e tu te sentarás! Os querubins permaneciam de pé, e não sentados; que fizeste tu para já seres digno de sentar-te? “Eu vi, diz Isaías (6, 1-2), o Senhor sentado sobre um alto trono, e os querubins permaneciam de pé ao redor dele.” — Por que tu, ó Lúcifer, que parecias o esplendor da aurora, não permaneceste na verdade, senão porque não eras um serafim? Querubim significa iluminado e inflamado; e tu, infeliz, tinhas a luz sem o calor. Ter-te-ia sido mais proveitoso ser ardente do que resplandecente; devias reprimir essa tua vã glória de aparecer, e era teu dever humilhar-te. Mas não: disseste: Eu subirei sobre as nuvens e nelas me sentarei, e eis-te caído. Os serafins permanecem de pé e firmes, porque a caridade jamais cai, diz São Paulo (1Cor 13,8). Eles permanecem fixos na eterna imutabilidade e na imutável eternidade. Tu, ó Lúcifer, pensaste em sentar-te! Ó ímpio! Eis por que estás instável sobre os pés e, ao tentar subir, despencarás; é o Filho do Eterno aquele que está sentado no trono; é o Senhor dos exércitos, que julga com calma. Somente a Trindade está sentada, somente ela possui a imutabilidade, mas os serafins permanecem de pé (Serm. 3, in Isa.).
Os anjos rebeldes foram, portanto, culpados: 1° de uma complacência excessiva com sua beleza e excelência; 2° do propósito de bastarem a si mesmos e de viverem unicamente para si, recusando-se a depender de Deus; 3° de terem querido arrogar-se a bem-aventurança e atribuí-la às próprias forças, e não ao poder e à bondade de Deus; 4° de terem ambicionado elevar-se acima dos outros anjos e desprezado toda sujeição a qualquer pessoa, até mesmo à própria pessoa de Deus.
Lúcifer pecou: 1° por um orgulho intolerável; 2° por sua rebelião e a de seus anjos contra Deus e a Igreja celeste; 3° Lúcifer e seus anjos cometeram um crime de lesa-majestade divina, tendo tentado apoderar-se do próprio trono de Deus…; 4° Lúcifer procurou arrastar consigo os anjos, e ainda procura arrastar consigo os homens…; 5° ele é o autor de todos os pecados, mas também é a criatura mais profundamente afundada e atormentada no inferno.
A primeira causa da queda dos anjos foi a soberba. A segunda foi o próprio nada deles. Eles recebiam a grandeza e a perfeição da mão de Deus e deveriam tê-lo reconhecido; mas, pobres e fracos, porque tirados do nada, quiseram confiar em si mesmos e, não encontrando senão o nada, caíram. A terceira foi o mau uso que fizeram de sua liberdade. E o que ganharam? Ai de nós! Perderam tudo… De anjos de luz, tornaram-se espíritos das trevas; eram bons, belos, felizes, e tornaram-se maus, horríveis, infelicíssimos.
As mesmas causas que levaram os anjos à perdição ainda levam para lá os homens que os imitam. Adão quis segui-los e foi conduzido a tal abismo de males, do qual jamais teria saído sem a infinita misericórdia de Deus. Tremamos… Se os anjos caíram no céu, se Adão caiu no Éden, se caíram Sansão, Davi e Salomão, se caem os cedros do Líbano, de quanto temor e de quanta humildade devemos estar tomados nós, fracos e frágeis caniços! Por isso o grande apóstolo nos exorta a trabalhar pela nossa salvação com temor e tremor (Fl 2,12).
Veja CONVERSÃO, n. 14.
“Vosso pai é o diabo, dizia Jesus Cristo aos escribas e fariseus orgulhosos e malfeitores, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade” (Jo 8,44). O demônio matou a si mesmo com sua revolta… Foi homicida do primeiro homem e continua a sê-lo da raça humana… Visava até mesmo destruir Deus, se pudesse, para usurpar o seu lugar. E aquilo que não pôde fazer contra Deus no céu, fez na terra, incitando os judeus a matar Cristo… O demônio é o pai da morte e jamais gerou outra coisa senão a morte. Não sabe fazer viver e, como um bandido ousado e feroz, não se ocupa senão de roubos e assassinatos, rindo-se dos crimes que consegue fazer cometer…
“Todo aquele que comete pecado é filho do diabo, diz São João, porque o diabo é pecador desde o princípio” (1Jo 3,8). O demônio é o príncipe do pecado e o pai de todos os males, escreve São Cirilo (3).
O demônio é o autor de todos os delitos, de todas as mentiras, de todos os erros e, por isso, o pai dos hereges e das heresias. Sem ele, o pecado jamais teria existido e, consequentemente, se não houvesse demônio, não haveria misérias, nem doenças, nem morte, nem inferno, porque todas essas coisas terríveis são a pena do pecado… Nenhum ser é tão culpado, mau e depravado quanto Satanás…
“Eu via, disse Jesus aos apóstolos, Satanás precipitar-se do céu como um relâmpago” (Lc 10,18). Lúcifer é aqui comparado ao relâmpago: 1° por sua agilidade…; 2° por seu poder de causar dano…; 3° porque chega num instante, mas também passa e desaparece prontamente se não lhe dão ouvidos…; 4° porque às vezes aparece sob forma esplêndida e pura; embora expulso, desprezado e amaldiçoado, transforma-se em anjo de luz…
“Sede sóbrios e vigilantes, diz São Pedro, porque o diabo, vosso inimigo, anda ao redor como um leão que ruge, procurando a presa” (1Pd 5,8). Satanás é chamado leão: 1° porque vigia durante a noite…; 2° é cruel como o leão faminto…; 3° emite, como o leão, rugidos terríveis…; 4° o leão que se lança sobre a presa é impelido pela raiva e pela fome; assim acontece com o demônio; o leão esmaga o que resta de sua presa, e o diabo escarnece daqueles que consegue perverter e matar, arrastando-os para a lama…; 5° o leão se esconde para surpreender a fera incauta; assim se comporta o demônio…; 6° o leão contrariado torna-se furioso, e também Satanás…; 7° o leão cheira mal, e o diabo espalha por toda parte o fedor das paixões e do pecado…; 8° o leão e o demônio têm o mesmo instinto de devorar…; 9° ambos também andam ao redor procurando a presa…; 10° o leão ataca principalmente as grandes feras, os animais de grande corpo e força, não se importando com os pequenos e fracos, e não come senão aquilo que captura vivo; o demônio escolhe o justo como sua vítima predileta, assalta de preferência as almas mais piedosas, mais santas, mais adiantadas na virtude, mais heroicas; dos corações fracos, carnais e vis não se ocupa…; 11° o leão e o demônio lançam-se com mais furor sobre o homem quando se sentem feridos…
O Evangelho chama o demônio de homem forte armado (Lc 11,21). Perguntais qual é a natureza desse inimigo? É um espírito… Desejais vê-lo? É invisível… Quereis conhecer seu caráter? É perversíssimo e astutíssimo… E seu poder? São Paulo o chama senhor e governador do mundo. “Revesti-vos, diz este grande Apóstolo, da armadura de Deus, para poderdes defender-vos das ciladas do demônio. Pois o nosso combate não é contra homens de carne e sangue, mas contra os principados e as potestades que governam o mundo, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 6,11-12). Notai aquelas palavras: principados, potestades, governadores do mundo. Segundo os santos Padres, os demônios conservaram, depois de sua queda, a mesma ordem hierárquica que mantinham no céu antes da defecção. Ordenados como um exército, uns comandam, outros obedecem e estão em condição inferior: daí provém sua imensa força. Aqueles que recebem o nome de principados, potestades e governadores são os chefes entre os demônios.
Quereis conhecer qual lugar ocupa o demônio? Ele domina a terra e precipita-se sobre nós desde as regiões do ar… Perguntais por sua morada? Ele está em toda parte, dia e noite… Quereis saber de sua inteligência? É vastíssima e superior à dos homens mais sábios… Se considerais sua natureza, o demônio é um gigante, diz Orígenes (Homil. 8, 12). “Os fortes, escreve o Salmista, lançaram-se contra mim” (Sl 58, 3); “e como arrebatar a presa das mãos do forte, diz Isaías, como salvar o que lhe foi tomado?” (Is 49, 24).
Embora já sejam poderosíssimos, os demônios, como espíritos inteligentes, ativos, ágeis e vigilantes, aumentam ainda espantosamente esse seu poder com a audácia, o ódio e a ferocidade que os animam. Conservaram, mesmo depois da queda, todas as suas forças; e estas são tais que São Paulo não hesita em chamá-los “deuses deste século” (2Cor 4, 4).
Com razão, São João Crisóstomo deixou escrito: “Se os demônios estão dispostos em legiões, se são espíritos, se são os senhores do mundo, como é possível, dizei-me, que nos entreguemos aos prazeres? Como os venceremos sem empunhar as armas? (4)”.
Acrescente-se à força e ao poder dos demônios o seu número prodigioso; e pensemos que toda essa espantosa multidão jamais cessa de mover-nos encarniçada guerra!
São Paulo chama os demônios de príncipes deste mundo, escreve Santo Agostinho; mas, para que não penseis que são príncipes do céu e da terra, chama-os apenas príncipes do mundo, isto é, príncipes dos amantes do mundo sepultado nas trevas, do mundo dos ímpios e dos maus, daquele mundo do qual se diz no Evangelho que, tendo vindo Jesus Cristo, o mundo não o conheceu. Eles são os príncipes daquele mundo contra o qual o Salvador lançou aquele espantoso anátema: Ai do mundo! e do qual disse em outro lugar:
“Ó meu Pai, não é pelo mundo que vos rogo” (Jo 17, 9).
Os demônios são os príncipes daquele mundo a que aludia Jesus Cristo quando, voltando-se para o Pai, lhe dizia: “Pai santo, o mundo não vos conheceu” (Jo 17, 25); daquele mundo que o rei profeta chama terra do esquecimento (Sl 87, 13) e ao qual alude o Apocalipse nestas palavras: “Ai dos habitantes da terra” (Ap VIII, 13). Os demônios são príncipes de um mundo semelhante àquele que o dilúvio cobriu com suas águas; são chefes e reis daqueles que trazem a marca da besta e adoram a sua imagem, segundo o Apocalipse (16, 2).
Está escrito no mesmo Apocalipse que o dragão se deteve sobre a areia do mar (12, 17-18). Que significam estas palavras? Por que o demônio, representado naquele dragão, se coloca à margem, sobre a areia do mar? A Escritura quer dizer, com isso, que o diabo não é forte nem prevalece senão contra os homens estéreis em boas obras e inconstantes como a areia móvel da praia marítima; denota ainda que Satanás domina somente aqueles que se expõem aos furacões, às tempestades e às ondas furiosas das paixões, aqueles, enfim, que se assemelham à areia do oceano, exposta a todas as tempestades e frequentemente levantada, dispersa, revolvida e agitada. Sobre a praia do mar do mundo pousa o dragão infernal para açoitar e afogar, nos redemoinhos da concupiscência, do vício e do delito, as suas vítimas…
Contra quem é forte, sobre quem reina o demônio? Sobre os filhos da soberba (Jó 41, 25); contra os mudos, os surdos, os cegos, os coxos, os paralíticos, os mortos espirituais… É forte contra os pais negligentes, escandalosos e indolentes diante dos vícios de seus filhos; contra os filhos indóceis, desamorosos e irreverentes para com aqueles que lhes deram a vida… É forte contra aquele jovem que imita o filho pródigo; contra aquela jovem que, faltando às promessas do seu batismo, despe a veste sagrada de Jesus Cristo, já não vigia os seus sentidos e expulsa do coração o amor de Deus para dar lugar ao amor corrompido do mundo e dos prazeres… É forte contra os avarentos, os impudicos, os indolentes que não rezam, não vigiam e negligenciam os Sacramentos… O demônio só é forte com a nossa ajuda:
“Enquanto os homens dormiam, disse Jesus Cristo, veio o inimigo e semeou o joio no meio do trigo” (Mt 13, 25).
É verdade que Jesus Cristo acorrentou o demônio com a sua cruz e lhe disse, como outrora ao oceano: “Até aqui chegarás, e não mais além; aqui se quebrarão as tuas ondas espumantes” (Jó 38, 11). “Ora, como é possível, pergunta Santo Agostinho, que, se está acorrentado, ainda cause tamanha devastação?” E responde: ― “É certíssimo, ó irmãos, que o demônio pode muito contra o homem, mas vede que domina somente os tíbios, os negligentes, aqueles que não temem verdadeiramente a Deus. Vede aquele leão acorrentado; se avista uma presa, lança-se sobre ela, mas é contido; agita-se furioso e tenta novamente arremeter, morde de raiva a corrente: esforços vãos, raiva inútil; sua presa está demasiado longe e ele não pode alcançá-la: ela não teme; mas, se se aproxima um pouco demais, o leão a agarra e a devora. O cão preso à corrente pode ladrar, mas só morde o imprudente que se põe ao seu alcance… Quão insensato é aquele que se deixa devorar por um leão fechado numa jaula, ou morder por um cão preso à corrente! A vós vos assemelhais, ó pecadores imprudentes, porque vos deixais morder e devorar pelo demônio. Acorrentado, ele não pode aproximar-se de vós a ponto de vos abocanhar; pode rugir e ladrar, mas não pode morder senão aquele que quer ser mordido. Pois o demônio não prejudica pela violência, mas pela persuasão; nem nos arranca à força o consentimento, mas no-lo pede (5)”.
Eis por que São Bernardo pregava: “Cesse a má vontade, e já não haverá inferno (6)”. Não são os demônios que nos combatem, porque fazemos a vontade deles, dizia o abade Abraão, mas são as nossas vontades que, transformando-nos em demônios, nos atormentam (Vit. Patr.). Perguntado ao abade Aquiles de que modo os demônios podem apoderar-se de nós, respondeu: “Por meio da nossa vontade”; e acrescentou: “As nossas almas são a lenha, o diabo é o machado; a nossa vontade é o cabo. Portanto, por meio da nossa má vontade somos cortados e abatidos (7)”.
“Sujeitai-vos a Deus, diz o apóstolo São Tiago, resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” (Tg 4, 7); mas resisti-lhe com fé firme e viva, acrescenta São Pedro (1Pd 5, 9). Quando o demônio se aproxima e procura suscitar em vós movimentos de cólera, soberba, avareza etc., resisti-lhe corajosamente, e vós o poreis bem depressa em fuga. Pois, diante de uma alma forte, o diabo treme; com os inertes, é terrível como um leão. “O antigo inimigo, escreve São Gregório, é forte contra aqueles que lhe dão ouvidos, fraco com aqueles que lhe resistem. Se se cede às suas sugestões, é formidável como um leão e sai triunfante; mas, se lhe resistimos com força e prontidão, fica esmagado como uma formiga. Para uns, portanto, ele é um leão; para outros, uma formiga: muito dificilmente as almas carnais se subtraem à sua crueldade, mas as puras calcam a sua fraqueza com o pé da virtude (8)”.
“Se considerarmos a natureza, observa Orígenes, o demônio é um gigante e nós somos gafanhotos; mas, se seguirmos Jesus, ele será um nada diante de nós (9)”. O demônio é fraquíssimo contra os homens corajosos e heroicos. É um leão que ruge; por isso, é terrível; é uma serpente que rasteja pelo chão; por isso, é fraquíssimo. Deus, que lhe deixou a força para seu suplício, impôs-lhe um freio; ele não pode reinar senão sobre aqueles que Deus abandona e despreza: triste poder, vergonhoso reino…
O demônio é fraco, pois emprega a astúcia, a fraude, os ardis, a mentira; é fraco, porque lisonjeia e se esconde. É impotente, pois Jesus Cristo o derrotou… Quem o desbarata e derruba? Aquele que vigia, que reza, que foge, que desconfia de si mesmo e que se mortifica. Uma só palavra de Jesus Cristo bastava para expulsar legiões inteiras de demônios do corpo dos possessos; agora, que coisa não fará a presença de Jesus Cristo, a sua graça, a santa comunhão? Um só sinal da cruz atemoriza os espíritos das trevas e os põe em fuga. São Bernardo assegura que todo aquele que invoca devotamente os santos nomes de Jesus, de Maria e de São José é invencível, ainda que tivesse contra si todos os demônios. Tertuliano dizia aos perseguidores da religião que qualquer possesso não teria podido resistir a um simples cristão (Apolog.); fraquíssimo, portanto, é o demônio. Uma simples resistência basta, diz São Tiago, para pô-lo em fuga (Tg 4, 7). Os santos de todos os tempos, de todas as idades e de ambos os sexos triunfaram sobre o demônio e esmagaram-lhe a cabeça; seguindo o seu exemplo, também nós podemos vencê-lo.
O demônio circula no ar, na água, sobre a terra, no inferno… “Nossos perseguidores, diz Jeremias, vencem na corrida as águias, seguem-nos pelas montanhas, armam-nos emboscadas nos desertos” (Lm 4, 19). Eles estão num instante onde quer que lhes apraza; vão mais rápidos que o pensamento; veem tudo sem serem vistos; entendem tudo sem se deixarem perceber. Basta dizer que o demônio está sempre circulando em busca de presa.
Esse ir e vir que o demônio faz ao nosso redor indica: 1° que ele é vagabundo e instável, pois, abandonando Deus pelo pecado, perdeu a firmeza do espírito. Ele, que queria sentar-se no trono do Onipotente, está condenado a vagar sempre, a nunca repousar, nem mesmo no inferno. Ele jamais gozará nem de repouso nem de descanso. 2° Denota a ira e o desejo insaciável de fazer o mal, que o corrói; 3° as suas astúcias, espertezas, dissimulações e enganos. 4° Príncipe do mundo, ele percorre o seu império. 5° Busca e vai farejando como um cão de caça; 6° as suas andanças mostram a sagacidade das suas explorações. 7° Leva os pecadores a completar o círculo das suas iniquidades, para que então caiam no círculo da eternidade infeliz…
Satã investiga o vício, a inclinação e o ponto fraco de cada um, e por esse lado o assalta. “Ele sabe, diz São Leão, a quem deve inflamar de cobiça, em quem deve inocular o veneno da inveja, a quem deve seduzir pela gula e em quem deve excitar a luxúria. Sabe quem pode ser perturbado pela tristeza, quem pode ser seduzido pela alegria, quem pode ser vencido pelo temor, quem pode ser conquistado pelo maravilhoso. Estuda as inclinações e os afetos de cada um, descobre as suas preocupações e encontra o meio de fazer mal justamente onde o homem é mais fraco (10)”.
O diabo está informado de tudo o que acontece sobre a terra. Vê os pensamentos, os desejos, as palavras, as ações, as omissões, o proceder de todos os homens… Ele sabe e recorda tudo o que aconteceu desde o princípio do mundo… Todos os corações estão abertos para ele, e conhece todas as voltas, rodeios e expedientes a tomar para insinuar-se, seduzir, vencer, abater, matar e arrastar ao Inferno… É todo olhos, todo ouvidos, toda língua, todo espírito, inteligência, perspicácia e ciência. Embora sepultado nas mais densas trevas, tudo vê, tudo compreende, tudo sabe, tudo pesa…
O demônio, observa São Cipriano, é chamado serpente porque, como a serpente, rasteja e se insinua insensivelmente e esconde o seu avanço para enganar. Tão grande é a sua astúcia, tão finas e ardilosas são as suas artes, que faz trocar a noite pelo dia, o dia pela noite, o veneno pelo remédio; impele ao desespero sob pretexto de esperança, à deserção simulando conduzir à fidelidade; apresenta ao nosso culto o Anticristo sob o nome de Cristo. Desse modo, substituindo a verdade pela mentira, chega a fazer desaparecer a verdade (De simplicit. Praelat.). Aliás, já São Paulo advertia aos Coríntios que Satã se transforma em anjo de luz para seduzir (2Cor 11, 14).
A malícia, a astúcia e os artifícios de Satã manifestam-se principalmente nisto: 1° que observa os lugares menos fortificados e defendidos, como diz São Jerônimo; 2° que jamais apresenta ao homem, como já observava o Crisóstomo, o pecado de modo aberto, mas sempre disfarçado e camuflado; não se arremessa de um salto, mas caminha pouco a pouco, infiltra-se sem ser percebido pelas frestas até submergir inteiramente a avariada embarcação. Para fazer cair no pecado, esconde-se, pois tão imunda, repugnante e horrível é a sua aparência que, se se mostrasse como é, ninguém se aproximaria dele. Ele oculta a fealdade do pecado, desse pecado que, filho de Satã, é imundo, sujo e horrível como seu pai; dá ao pecado a aparência e o nome de doçura, de flores, de felicidade e até de virtude. Esconde o anzol do pecado, sobretudo o da volúpia, para que fiqueis presos a essa agulha pungente e mortífera, enquanto saboreais os prazeres falazes e envenenados. Ele conduz o homem ao vício pouco a pouco e insensivelmente: começa por fazê-lo cometer faltas leves, depois arrasta-o gradualmente às mais graves (Homil. ad pop.).
O demônio, audacíssimo, desejaria também, se ousasse e pudesse, tornar-nos imediatamente maus como ele; mas, astuto como é, prevê que não o conseguiria; desejaria também assaltar-nos abertamente, mas teme que a presa lhe escape; por isso, procede por graus, diz Bossuet (Sur les Démons)… Ele rasteja como serpente e imita os seus movimentos: ora descobre a cabeça, ora a cauda. Rasteja enquanto está longe, para que o homem não se dê conta dele; depois morde assim que está perto… Estuda as inclinações particulares e adapta-se a elas; portanto, não tentará com a luxúria o avarento, nem tentará com a avareza o impudico, pois a dissolução é companheira da prodigalidade. Levará o ambicioso a desejar o ápice do poder; impelirá o orgulhoso a adorar a si mesmo; atiçará a fome no homem inclinado ao vício da gula… De um modo seduz o libertino, de outro o sábio, de outro ainda o escrupuloso. Assalta o menino, o jovem, o homem maduro, o velho, cada um segundo a idade, a compleição e a inclinação própria. Neste, ataca o corpo; naquele, o espírito; ora fere exteriormente, ora interiormente; apalpa o lado fraco e por ele inicia o assalto; apresenta a flor e esconde o espinho; doura o cálice e nele mistura o veneno… Observai — vai gritando — como é bela esta flor! Que suave perfume exala!… Vede como é deliciosa esta taça! Provai o suave e delicioso licor que contém! Bebei, esgotai-a… Ah! Abstende-vos dela! Esta flor, esta bebida estão envenenadas; se as tocardes, morrereis por toda a eternidade… Afinal, não passa de um pensamento, diz o espírito maligno, um simples olhar, uma pequena complacência… Experimentai; depois abstende-vos dela quando quiserdes; procurais o prazer, ei-lo; não o saboreareis?… Ah! Guardai-vos, por piedade: o assassino avança, o incêndio começa com uma fagulha… Que um navio afunde deixando penetrar de uma só vez grande quantidade de água, ou deixando-a entrar pouco a pouco, pouco importa: de qualquer modo, o navio está perdido…
O diabo é prudente, diz Bossuet; caminha passo a passo: impele Judas primeiro à avareza, depois à venda de seu Deus, em seguida à traição, finalmente ao desespero, à forca e ao inferno (Sur les Démons).
Observai a tática que o espírito maligno empregou ao assaltar os nossos primeiros pais. “A serpente, diz a Escritura, que era a mais astuta entre os animais, disse à mulher: “Por que Deus não vos permitiu comer de qualquer fruto do paraíso?” (Gn 3, 1). Esta única pergunta já é um delito. Por que te intrometes, ó serpente infernal, naquilo que Deus ordenou? Aquilo que Deus prescreveu é sagrado… Não age porventura assim Satã ao seduzir cada homem? Por que não fareis vós tal coisa? Por que não olhar para tal pessoa? Por que não ireis a tal lugar? Por quê, etc., etc.
Eva responde: “Deus nos proibiu comer e tocar o fruto da árvore que está no meio do paraíso, para que talvez não nos sobrevenha a morte” (Gn 3,3). Eva imprudente! Ela teve a fraqueza de escutar por um instante a serpente e, por isso, começou a sucumbir, a tornar-se culpada. Não é este, porventura, o modo como nós nos comportamos? … A serpente, vendo a fraqueza de Eva, avança e ao delito da interrogação acrescenta o da negação. Responde à mulher de modo claro e franco: “Não, por minha fé, vós não morrereis” (Ibid. 4). Não emprega o demônio semelhante astúcia a nosso respeito? … Ora, não há depois esse grande mal de que se fala… É exagero… severidade excessiva… E quê? Haverá porventura o inferno por tão pouco? Oh, não! … Finalmente, para seduzir inteiramente Eva, a serpente faz seguir ao delito da interrogação e ao da negação o terceiro, que é o da afirmação, acrescentando: “Deus sabe muito bem que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Ibid. 5). Eis Eva enganada e perdida! “A mulher percebeu que o fruto era belo de ver e saboroso de comer; então tomou-o, comeu-o e ofereceu-o ao marido, que também dele comeu” (Ibid. 6). E abriram-se os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus etc. (Gn 3,7). Eis os felizes e os deuses, tais como o demônio sabe torná-los! Todos os que dão ouvidos à serpente encontram as mesmas recompensas… Ó infelizes mortais que escutais o demônio, pai da mentira e da morte, inimigo jurado da felicidade do homem e do próprio Deus! … Os demônios, adverte-nos São Pedro, seduzem-nos com palavras de duplicidade e fazem de nossas almas um comércio para o inferno (2Pd 2,3); por isso o Salmista exclamava: “Esses espíritos orgulhosos das trevas armaram-me às escondidas uma cilada” (Sl 139,5).
“Se, ao aparecer pela primeira vez diante de nós, não esmagamos imediatamente a cabeça da serpente infernal, isto é, se não resistimos à sua primeira sugestão, ela se introduz inteiramente no fundo do coração, sem que o percebamos”, escreve São Jerônimo (11). O demônio é chamado serpente e tomou a forma desse réptil para seduzir nossos pais, porque: 1° a serpente é, por sua própria natureza, astuta e prudente… 2° mantém-se à espreita, assalta o homem de surpresa e morde-o de repente… 3° rasteja, inocula seu veneno e mata o homem… 4° a serpente toca a terra com todas as partes de seu corpo; o demônio não inspira outra coisa senão o amor às coisas terrenas e carnais…
Observai como, para surpreender e enganar Adão e Eva, o demônio se valeu de cinco mentiras evidentes: A primeira: “Vós não morrereis” — Nequaquam moriemini. — A segunda: “Vossos olhos se abrirão”. — A terceira: “Sereis como deuses”. — A quarta: “Conhecereis o bem e o mal”. — A quinta: “Deus sabe que aquilo que vos digo é verdade”, etc.
“O Senhor, diz Isaías, visitará, armado de sua espada longa, forte e cortante, o Leviatã, serpente enorme e tortuosa, e o matará” (Is 27,1). A espada de que se diz armado Deus é a cruz; a serpente é chamada enorme por sua força, tortuosa por sua depravação e pelas astúcias com que envolve o homem… O diabo sempre dissuade do bem, apresentando-o como algo inútil, penoso, impraticável etc.… Sempre conduz ao mal, dando-lhe a aparência de vantajoso, doce, delicioso etc.… Autor da morte, jamais conduz à vida da graça e da glória, mas à perda da inocência e à morte espiritual neste mundo e na eternidade…
É pensamento de Bossuet que o diabo, tendo-se declarado inimigo pessoal de Deus e nada podendo contra Ele, vinga-se de sua imagem e a desonra, dilacerando-a, sempre tramando, como espírito invejoso, vãos desígnios de vingança. Espírito tenebroso, furioso e desesperado, ostenta um fausto insolente em lugar de sua grandeza natural. Emprega artes maliciosas; não respira senão ódio, dissensão e inveja. Parece que Satanás e seus anjos dizem: “Não seremos nós os únicos miseráveis; quantos homens morrerão por nossa mão! Ah! saberemos muito bem criar lugares vagos, e haverá entre os condenados alguns que se teriam sentado entre os juízes!” O ódio dos demônios contra nós é tal — ouvi e horrorizai-vos de tamanho excesso! — que eles não se comprazem somente em roubar e maltratar, mas também em manchar e degradar nossa alma. Sim, preferem corromper-nos a atormentar-nos, tirar-nos a inocência mais que o repouso, tornar-nos maus mais que miseráveis. Quando esses cruéis vencedores se apoderam de uma alma, entram nela enfurecidos, saqueiam-na, violam-na; e a violam não tanto para satisfazer a si mesmos, quanto para desonrá-la e aviltá-la. Levam-na a abandonar-se em suas mãos; depois a conspurcam e desprezam; tratam-na como aquelas mulheres que se tornam objeto de escárnio daqueles a quem covarde e indignamente se prostituíram… Os demônios são nossos adversários, diz São Pedro (1Pd 5,8); portanto, como adversários, alimentam ódio, lançam fel contra nós e movem-nos uma guerra encarniçada, invejosos das graças e dos bens celestes que Deus nos concede e porque somos chamados a ocupar um dia aqueles tronos que eles perderam por causa de seu orgulho.
O diabo é um acusador, uma falsa testemunha, um enganador. Assalta a nós, à nossa salvação e à felicidade eterna; quer conquistar-nos para ter-nos como companheiros, depois de nos ter tido como cúmplices. E faz isso: 1° por ódio a Deus, para que não seja adorado por nós. Tanto ódio contra Deus lhe inspira o seu orgulho que, segundo a opinião de muitos autores, mesmo que Deus lhe prometesse perdoá-lo sob a condição de que se humilhasse, ele preferiria sofrer eternamente a renunciar ao seu ódio e ao seu orgulho… 2° Faz-nos guerra por inveja… 3° Faz-nos guerra também por orgulho; gostaria de tornar-nos semelhantes a ele, para dominar e reinar sobre nós… Devemos sustentar uma luta terrível e sem trégua contra os demônios, segundo a palavra de São Paulo aos Efésios (Ef 6,12).
Satanás foi visto por Zacarias em pé, para fazer guerra (Zc 3,1). Os ódios mais arraigados, furiosos e implacáveis entre os homens não passam de uma pálida sombra em comparação com os ódios dos demônios. Basta dizer que eles são puro ódio, inveja e desejo de vingança eterna…
A quem perguntasse por que Jesus Cristo permitiu que o demônio o tentasse, poder-se-ia responder com Santo Agostinho: Assim como, por piedade de nós, quis fazer-se homem, nascer num presépio, sofrer e morrer na cruz, assim também, por bondade e misericórdia para conosco, permitiu ser tentado (Serm.). Jesus Cristo, diz São Gregório, quis vencer nossas tentações por meio das suas, assim como quis ser vitorioso sobre nossa morte por meio da sua (Homil. 16, in. Ev.).
Além disso, no mistério de sua tentação, Jesus Cristo nos ensinou que a tentação não é pecado, enquanto não nos expusermos temerariamente a ela e lhe resistirmos. Em segundo lugar, mostrou-nos o método para triunfar. Jesus Cristo é nosso modelo, nosso capitão; por isso quis lutar ele mesmo para abater o demônio e ensinar-nos como podemos vencê-lo. Em terceiro lugar, quis compadecer-se de nossas tentações e comunicar-nos, pelos méritos de sua vitória, a força para também sairmos delas vitoriosos. Se a enfermidade de Jesus Cristo é nossa força, se suas feridas são nossa cura, se sua morte é nossa vida, bem podemos esperar e sustentar que sua tentação é nossa vitória… “O Filho de Deus”, escreve São João, “veio ao mundo para destruir as obras do demônio” (1Jo 3,8).
Satanás ousou, em seu ódio e em sua desfaçatez, atacar o próprio Deus; como crer agora que queira poupar o homem? … Jesus Cristo consentiu em ser tentado pelo diabo, mas, ao mesmo tempo, expulsava-o do corpo dos possessos e comunicou esse mesmo poder aos apóstolos e aos seus discípulos…
O demônio, como leão furioso, ronda ao nosso redor, escreve São Pedro, procurando a quem devorar (1Pd 5,8). Notai que o apóstolo não diz que o diabo procura morder, mas procura devorar… E São João, no Apocalipse, anuncia desgraças e calamidades à terra e ao mar, porque o demônio desce com grande cólera, sabendo que lhe resta pouco tempo para agir (Ap 12,12); depois repete ter visto o dragão sair enfurecido para fazer guerra (Ibid. 17). “Simão, Simão”, dizia Jesus Cristo, “eis que Satanás vos assalta para vos peneirar como trigo” (Lc 22,31).
A raiva e a crueldade do demônio, diz o Salmista, levam-no a perseguir-me, a agarrar-me e a calcar no lodo minha vida e minha glória (Sl 7,5). Meus inimigos me assaltaram e prenderam meus pés; seus olhos estão fixos no chão; eis que se lançam sobre mim como leões sobre a presa, como leõezinhos ao saírem pela primeira vez da toca; levanta-te, ó meu Deus, previne seus assaltos, quebra seu orgulho, arranca minha alma desses monstros (Sl 16,11-13).
“Servireis a deuses estrangeiros, anunciava Deus pela boca de Jeremias; servi-los-eis com zelo e diligência, e eles não vos darão um instante de repouso” (16,13). Esses pretensos deuses, tão cruéis, são os demônios… “Quando pecamos, caímos sob o império do diabo, escreve São Jerônimo, e ele jamais nos dá repouso, mas nos impele continuamente a acrescentar delito a delito, até que se forme uma montanha (12)”.
“Onde encontrar um ser mais mau, mais pérfido, mais maligno que o nosso inimigo? — diz Santo Agostinho. Não foi ele acaso quem introduziu a guerra no céu, a fraude no paraíso? Quem lançou a discórdia entre os primeiros irmãos e semeou o joio em todas as nossas obras? No alimento escondeu o anzol da gula; na geração, a luxúria; no trabalho, a preguiça; nas relações, a inveja; na administração, a avareza; na correção, o ímpeto da ira; no comando, o orgulho… Desperta na alma maus pensamentos, põe nos lábios palavras falsas, move os membros a ações iníquas. Se estamos despertos, impele-nos ao mal; se dormimos, atormenta-nos com sonhos torpes.
Arrasta à dissolução os joviais e ao desespero os melancólicos; em suma, todos os males que se cometem no mundo derivam de sua maldade (13)”.
“Não semeastes vós boa semente em vosso campo?” — diziam os servos ao senhor evangélico; “por que, então, está ele coberto de joio?” “Um homem inimigo meu fez isso”, respondeu o senhor (Mt 13, 27-38). Sim, é o demônio, adversário de Deus e dos homens, que semeou em toda parte e em todos os tempos o joio em meio ao trigo: semeou-o no céu e sobre a terra, no coração do homem e no seio da família e da sociedade; semeá-lo-á eternamente no inferno…
E até quando, ó espíritos de desordem — diz o profeta —, vos lançareis sobre o homem para lhe tirar a vida? Vós o golpeais como a um muro inclinado, como a uma casa em ruínas; não tendes outro objetivo senão fazê-lo cair de sua altura; vós o encheis de orgulho com palavras mentirosas para perdê-lo e o amaldiçoais em segredo (Sl 61, 3-4). Os inimigos do homem tornam-se seus dominadores, oprimem-no e fazem-no suportar a humilhação de seu poder tirânico (Sl 105, 39-40). Ó Deus, eles invadiram a vossa herança, mancharam o vosso santo templo! (Sl 78, 1). E a Esposa dos Cânticos lamenta que, tendo encontrado as sentinelas que rondavam a cidade, foi por elas espancada e ferida (Ct 5, 7).
Considerai os danos que o diabo causa aos nossos primeiros pais e ao redor deles: tão logo têm a desgraça de dar-lhe ouvidos, eis imediatamente a nudez, a vergonha, o temor, a desculpa, a concupiscência, a escravidão, os sofrimentos, a maldição, a expulsão do Éden, a esterilidade da terra, o trabalho, a tristeza, o remorso, as lágrimas, a penitência, a morte temporal e espiritual, o céu fechado, o inferno aberto. E essas desgraças atingem ao mesmo tempo não somente Adão e Eva, mas também toda a sua posteridade. Depois de lançar neste abismo os nossos primeiros pais, Satanás desaparece; já não lhes diz: “Sereis semelhantes a deuses”; tornou-os semelhantes a si mesmo, e isso lhe basta, seus cruéis desejos estão satisfeitos… É natural à serpente espalhar seu veneno e dar a morte… Confiando na serpente, Adão tornou-se terreno e carnal, voltado para a matéria e embrutecido: a mesma sorte cabe àqueles que escutam Satanás. “O diabo — diz São Gregório — assedia-nos com emboscadas, aterroriza-nos com ameaças, lisonjeia-nos com afagos, engana-nos com promessas, abate-nos com o desespero, despoja-nos com a violência (14)”.
Assim São Bernardo descreve os demônios e seu carro: “A malícia, que é o diabo, monta um carro de quatro rodas, que são a crueldade, a cólera, a audácia e a impudência. Corre impetuoso esse carro para derramar sangue; a inocência não o detém, a paciência não o abranda, o temor não o freia, o pudor não o retém. Puxam-no dois cavalos fogosos e desenfreados, o poder e a pompa secular, sempre prontos a levar por toda parte a carnificina e a morte; conduzem-no como cocheiros o orgulho e a inveja (15)”. O demônio — diz Orígenes — rouba ao homem a virtude da alma; priva-o da liberdade e de muitas vantagens corporais; tira-lhe os bens espirituais e temporais; extingue nele o temor de Deus; abandona-o às paixões. E o precipita nas misérias da vida presente e nos suplícios da eterna (Homil.).
O pescador apanha o peixe no anzol; o caçador captura as feras no laço e o pássaro no visco; o demônio procura apoderar-se do corpo e da alma por meio de diversas dores, preocupações, incômodos, embaraços, escrúpulos, litígios, más inclinações etc.; a fim de que ninguém lhe escape e todos caiam como sua presa sobre a terra, e principalmente no inferno… Observai — diz São Basílio — com quanta malícia e perfídia o demônio trata conosco; priva-nos das virtudes que lhe demos e nos dá em troca os vícios que não quereríamos. Sacrificamos a ele, rico em malícia e vícios, as virtudes; e isso com imenso dano para nós, porque quanto mais lhe damos, tanto mais ele nos fere (In Deuter. XV). Homens felizes! — exclama então São Bernardo — e quem é, afinal, aquele a quem servis e a quem seguis? Não vedes Satanás, precipitado no abismo eterno, cair do céu com a rapidez do relâmpago? (Serm. XXXIX in Cant.).
Tão logo Deus inspira salutares pensamentos de penitência, esmola e piedade, eis que imediatamente chega o demônio para dissipá-los e corrompê-los, a fim de que não sejam praticados, ou sejam viciados por uma finalidade má, ou executados mal, com o uso de meios ruins ou de modos indiscretos, isto é, sejam realizados com aplicação excessiva ou insuficiente…
“Como está solitária a cidade, ainda há pouco cheia de habitantes — lamentava-se Jeremias —; ela foi tomada por seus perseguidores em meio às angústias. Seus inimigos a oprimiram, seus filhos foram conduzidos à escravidão, caminhando à frente sob os olhos do conquistador. Toda a beleza desapareceu de seu rosto; seus príncipes tornaram-se como carneiros que não encontram pastagem e avançaram sem forças diante daqueles que estavam às suas costas… Os inimigos viram Sião e zombaram de seus sábados. Seus pés estão manchados de imundície, e ela não se lembrou de seu fim. Agora está profundamente abatida, sem ter quem a console… O inimigo estendeu sua mão rapace sobre tudo quanto ela tinha de mais caro… Ela pode muito bem dizer: “Estendeu um laço aos meus passos, fez-me cair para trás; lançou-me na desolação e consumiu-me de angústia” (Lm 1, 1, 3, 5, 6, 7, 9, 10, 13). Tornou-se para mim como um urso à espreita, como um leão em lugar oculto; escavou os meus caminhos, lançou-se sobre mim e despedaçou-me (Ib. 3, 10-11). Encheu-me de amargura, embriagou-me de absinto; quebrou-me, um a um, todos os dentes, alimentou-me de cinza. E expulsou de minha alma a paz; já não sei o que é o bem” (Ib. 3, 15-17).
Esse horrível quadro das devastações infligidas a Jerusalém por seus inimigos não é senão uma imagem pálida das ruínas e desgraças que o diabo causa numa alma onde reina e manda… Não tendo conseguido vencer a Deus quando o atacou no céu, o demônio apega-se à terra e corrompe tudo, até mesmo os elementos; como não pode criar nada, tenta destruir tudo… É um velho adúltero — diz Santo Agostinho (In Psalm.) — que emprega todo o seu empenho em seduzir.
Observai de que modo trata Jó. Rouba-lhe os rebanhos e degola os pastores; serve-se do raio para reduzir a cinzas suas ovelhas e seus guardiões; rouba-lhe os camelos e mata os guardas; levanta um furacão que derruba a casa onde os filhos de Jó banqueteavam, e todos perecem sob as ruínas; cobre o próprio Jó de úlceras repugnantes, da cabeça aos pés, de tal modo que esse patriarca foi visto sentado sobre a cinza, limpando suas chagas com um caco de barro (Jó 1, 11). Teria feito ainda mais, se Deus lho tivesse permitido… E o que fazia com os possessos? Citemos um só exemplo tirado do Evangelho. Um homem do povo diz a Jesus: “Eis que vos trouxe este meu filho, possuído por um espírito mudo, o qual, quando se apodera dele, lança-o por terra; e o rapaz espuma e baba pela boca, range os dentes e fica todo rígido e deformado”. “Trazei-mo aqui”, respondeu Jesus; e o espírito maligno imediatamente conturbou o jovem, que rolou pelo chão, debatendo-se e soltando gritos e baba. E, tendo Jesus perguntado ao pai há quanto tempo isso acontecia, ele respondeu que desde a infância, e que o espírito o lançara ora na água, ora no fogo, para tirar-lhe a vida (Mc IX).
Todo meio é bom para o demônio, contanto que derrube e destrua. “Todo o empenho do diabo, observa Tertuliano, consiste em encontrar um modo de fazer o homem cair (16)”.
Essa cólera e essas carnificinas do demônio são-nos retratadas pelo profeta Ezequiel, sob o nome e a figura do Faraó: espetáculo aterrador! Ao redor dele, há montanhas de cadáveres cruelmente maltratados por ele. Ali jaz Assur com seu exército; ali caiu Elam com todo o seu séquito; ali agonizam em seu sangue Mosoc e Tubal, e seus príncipes, capitães e seguidores, turba inumerável, tropa infinita, multidão imensa. O Faraó está no meio, saciando os olhos com a visão de tão grande carnificina e consolando-se com a perda e a ruína dos seus; o Faraó com seu exército é Satanás com seus anjos (BOSSUET, Sur les Démons).
Ora, se tanto dano o demônio causa ao corpo, pensai quanto dano causa à alma do pecador, quando nela reina! Se enche a terra de tantas carnificinas, a que horríveis tormentos submeterá os condenados no inferno! Ó Deus, não permitais que jamais caiamos nas mãos de tão feroz inimigo! …
“O deus deste século, escrevia São Paulo, cegou a mente dos infiéis” (2Cor 4, 4). O deus deste século é o demônio, porque é o deus daqueles que vivem segundo a corrupção do século. Ele é o deus deste século não por direito de criação, mas por sua maldade, seus escândalos, suas sugestões, seu império tirânico…
É próprio do orgulho, diz Bossuet, atribuir tudo a si mesmo; por isso, os soberbos fazem-se deuses a si próprios, sacudindo o jugo da autoridade soberana. Assim, tendo o diabo se inflado de extraordinária arrogância, as Escrituras dizem que aspirou à divindade. “Subirei”, disse ele, “porei o meu trono acima dos astros e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14). Expulso do céu e precipitado no abismo, reuniu ao seu redor todos os companheiros de sua insolente empresa e conspirou com eles para rebelar contra Deus todas as criaturas. Mas, não contente em incitá-las à revolta, concebeu desde então o audacioso desígnio de sujeitar todo o mundo à sua tirania: assaltou Adão e fez dele seu escravo. Orgulhoso desse êxito afortunado e não esquecendo seu primeiro desígnio de igualar-se à natureza divina, declarou-se abertamente rival de Deus; e, em seus esforços para revestir-se da majestade divina, como não estava em seu poder criar novas criaturas para opô-las ao seu Senhor, tomou a decisão de adulterar todas as obras de Deus, diz Tertuliano: ensina aos homens a corromper-lhes o uso; e os astros, os elementos, as plantas e os animais, tudo converte em objeto de idolatria; apaga o conhecimento de Deus e faz-se adorar, por toda a terra, ele mesmo em lugar de Deus, segundo o dito do Salmista: “Os deuses das nações são demônios” (Sl 95, 5). Por isso, o Filho de Deus o chama de “príncipe do mundo” (Jo 14, 30); e o Apóstolo (2Cor 4, 4) chama-o de “governador das trevas, deus deste século” (Serm. sur les Démons).
E até onde não levou sua insolência esse rival de Deus? Até tentar fazer o que Deus faz, imitando a mesma pompa. Deus, por exemplo, tem virgens consagradas a ele; e não teve o diabo as suas vestais? Não teve ele também templos, altares, sacrifícios, mistérios, sacerdotes e ritos, que procurou revestir de modo a fazê-los semelhantes aos de Deus, porque é ciumento de Deus e quer parecer-se com ele em tudo?
Quando Jesus veio à terra, diz ainda Bossuet (Histoire univers.), tudo era Deus, exceto somente Deus, e o universo não passava de um vasto templo de ídolos.
Sendo as paixões e o pecado filhos do demônio, esse pai faz adorar seus filhos; ou melhor, faz adorar a si mesmo por meio das paixões e do pecado. Assim, o avarento adora o ouro; o glutão, Baco; o dissoluto, Vênus etc. Eis todos os homens amantes de suas paixões depravadas, adoradores dos demônios; são idólatras: eis o demônio adorado nas paixões, nos escândalos, nos delitos…
O Evangelho narra que o demônio, depois de ter empregado toda a sua malícia contra Jesus Cristo por meio da tríplice tentação, retirou-se, mas somente por algum tempo, bem resolvido a voltar ao assalto (Lc 4, 13). Como o diabo persevera no apego ao pecado, depois de ter feito o homem cair, nada deixa de tentar para impedi-lo de se levantar ou para fazê-lo cair novamente quando já se tiver levantado…
A ocupação do demônio, diz o Salmista, é tecer contínuos enganos (Sl 37, 12). Esse velho inimigo está continuamente empenhado em urdir tramas e arquitetar fraudes.
O que torna o diabo tão terrível é o grande empenho com que coordena e une todos os seus meios, todas as suas forças, para provocar a nossa ruína. Todos os espíritos angélicos, diz São Tomás, são resolutos e firmes em seus empreendimentos; portanto, fixa, determinada e invariável é a tarefa assumida pelo diabo: perder o homem. É um inimigo que nunca dorme e que jamais deixa sua malícia inoperante (De pecc.). “Os demônios, observa São Martinho, armam ciladas aos incautos, enlaçam aqueles que não sabem resistir, devoram os que agarram, e jamais se saciam, por muitos que devorem (17)”.
“Mesmo quando derrubais o demônio, não creiais, diz Tertuliano, que tenhais refreado a sua audácia; não, mas é justamente então que ela mais se inflama, quando parece mais apagada (18)”. É precisamente disso que nos adverte Jesus Cristo com estas palavras do Evangelho: “Quando o espírito imundo sai de uma alma, anda errante por lugares desertos, procurando repouso; mas, não o encontrando, diz consigo: Voltarei para a casa de onde saí. Então vai e, levando consigo outros sete espíritos piores do que ele, entra novamente para habitar na casa pouco antes abandonada; e o novo estado desse homem torna-se pior que o primeiro” (Mt 12, 43-45). Satanás jamais se cansa, nem se desencoraja, nem repousa… Ataca Jesus Cristo três vezes e, três vezes repelido, ainda assim não cede, mas retira-se por um instante, decidido a tentar novamente a prova (Lc 4, 13). Espera o momento propício e jamais desespera de nos vencer… Desbaratai-o cem vezes, e cem vezes o vereis reaparecer diante de vós. Escarnecei dele, ridicularizai-o, cuspi-lhe, pisai-o; ele ri disso, não se considera ofendido, pois seu único objetivo é seduzir-vos e perder-vos.
Não há entre os homens, por mais perversos que sejam, ódio comparável ao ódio dos demônios. O homem que odeia procura esquivar-se daquele que é objeto de seu ódio; não quer nem vê-lo nem falar-lhe; mas o demônio, apesar de seu ódio implacável, não se afasta, não foge; procura, antes, ver e lisonjear o homem que tem em aversão… Que mais? Infunde temor e espanto, mesmo quando é vencido, porque é justamente então que se agita com uma raiva ainda mais furiosa.
“Assim como devem temer o encontro com os piratas não os navios vazios, mas os carregados de ouro, prata e pedras preciosas, assim não tanto o pecador quanto o justo, rico em virtudes e méritos, tem motivo para esperar mais frequente e mais cruel a perseguição do demônio”, escreve o Crisóstomo (19). O demônio, o mais rapace dos ladrões, deixa, por assim dizer, tranquilo o pecador quando já saqueou tudo: o corpo e a alma, o espírito e o coração, o tempo e a eternidade; mas põe-se de emboscada para surpreender o homem carregado dos tesouros da virtude. O justo é uma presa sobremaneira apetecível para Satanás, para quem é insípido e nauseante alimentar-se continuamente de pecadores. Ele quer fazer do justo sua presa, como de algo que não lhe pertence e de que ainda não pôde nutrir-se; persegue-o sem cessar, devora-o com o desejo.
“São tantos, tão diversos e sedutores, os laços que o demônio arma aqui embaixo para o homem, escreve Salviano, que é quase impossível evitá-los todos, de modo que até aquele que escapa de muitos facilmente cai em algum deles (20).” Conta-se nos Evangelhos que Jesus Cristo expulsava uma turba de espíritos infernais do corpo dos possessos; e, tendo um dia perguntado a um demônio que se apoderara de um infeliz qual era o seu nome, recebeu como resposta que se chamava Legião (Mc 5,9). Isto nos ensina que, quando um demônio não pode vencer sozinho, vários concorrem; todos se unem também, se necessário, para surpreender e matar uma alma; assaltam-na por todos os lados…
Diz Isaías que o demônio tem por morada os sepulcros e os templos dos ídolos; e, por alimento, animais imundos (Is 65,4). Isto significa que o demônio se alegra e exulta com a morte dos homens, e compraz-se em habitar entre aqueles a quem tirou a vida da graça… Satanás ri-se de sua presa e a despedaça com alegria. “Todos os meus inimigos, exclama Jeremias, ouviram as minhas desgraças e delas fizeram festa” (Lm 1,21). “Alegram-se, lemos nos Provérbios, quando praticaram o mal, e rejubilam quando levaram o homem aos crimes mais abomináveis” (Pr 2,14). Sua alegria maligna chega ao auge quando conseguem destruir o reino de Jesus Cristo… É seu deleite ter cúmplices na terra e no inferno… Tendo-se perdido sem esperança de retorno, tendo-se precipitado no abismo sem meio de saída, já não são capazes de outra coisa, diz Bossuet, senão daquela verdadeira e maligna alegria que experimentam os tristes em ter cúmplices, os invejosos em encontrar companheiros, os soberbos humilhados em arrastar outros em sua queda. “Nós não seremos”, dizem eles, “os únicos infelizes; Deus quis tornar os homens iguais a nós; eis que também se tornaram iguais a nós no pecado e nos tormentos.” Essa igualdade os alegra.
Nada mais lhes resta senão este vil, maligno e cruel prazer de fazer vítimas, pois perderam para sempre a felicidade suprema (Serm. sur les Démons).
“O demônio, diz Orígenes, é um tirano ao qual Deus entrega os homens que se rebelam contra ele, para que, maltratando-os e espancando-os, os humilhe e aflija, os abata e, assim, sejam conduzidos ao arrependimento e à submissão ao jugo de Deus (21).” E, se não se emendarem, os demônios serão os executores das vinganças de Deus por toda a eternidade…
O Eclesiástico deixou escrito que os demônios são espíritos criados para a vingança; em seu furor, duplicam os suplícios dos maus e executarão a justiça daquele que os criou (Eclo 39, 33-34). Foram criados para a vingança, isto é, destinados a cumprir os desígnios da vingança divina. Deus fez dos demônios os perseguidores e carrascos dos ímpios; são ministros de sua cólera; punem os delitos dos pecadores obstinados, os quais, visto que voluntariamente se submeteram aos demônios pelos pecados, permanecerão, contra a própria vontade, sujeitos a eles para expiar sua pena.
Os demônios conservaram, mesmo depois da queda, a potência e a força da vontade. Não adianta objetar que a força da vontade dos anjos rebeldes provinha, antes de sua queda, da conformidade que ela tinha com a vontade de Deus e que, perdida essa conformidade, também a força se perdeu; pois é preciso observar que Deus quer servir-se deles como ministros de sua justiça e que, nisso, a vontade dos demônios está de acordo com a de Deus: enquanto satisfazem sua vontade depravada, executam aquilo que Deus determinou com uma vontade sempre boa.
A sentença contra os demônios já foi pronunciada e há muito tempo vem sendo executada, diz São Pedro, pois, acorrentados e atormentados no Tártaro, ali aguardam o “juízo de Jesus Cristo” (2Pd 2,3-4). Orgulhoso Satanás, diz Isaías, serás arrastado ao inferno (Is 14,15). Condenados a um suplício eterno e fulminados pela maldição de Deus, os demônios estão no mais profundo do inferno, abaixo de todos os réprobos.
“Resisti ao diabo, diz São Pedro, permanecendo firmes na fé” (1Pd 5,9). São Paulo nos adverte de que, se temos a peito frustrar as ciladas e extinguir os dardos inflamados de nosso tristíssimo adversário, devemos haurir a força no Senhor e em sua onipotente graça, revestir-nos da armadura de Deus e manter-nos sempre protegidos com o escudo da fé (Ef 6,10-11,16).
“É terrível para nós, escreve São Bernardo, a tentação do inimigo, mas mais terrível para ele é a nossa oração. Sua iniquidade e duplicidade podem certamente prejudicar-nos, mas a nossa simplicidade e bondade lhe causam tormento muito maior. A nossa humildade o trespassa, a caridade o queima, a mansidão e a obediência o atormentam (22).”
“Superamos o poder do demônio, acrescenta o Crisóstomo, quando calcamos o pecado. Se formos cruéis para com Satanás, será inútil que ele se enfureça contra nós; se, ao contrário, formos condescendentes com ele, ele será duro conosco (23).”
“Nunca tireis os olhos do inimigo, que não vos perde de vista por um só instante”, diz São Basílio (24).
Quem quer expulsar o demônio deve, antes de tudo, subjugar as inclinações do próprio coração… A resistência detém o demônio, a energia o abate, a fé o prostra. Sustentada pela esperança, inflamada pela caridade, armada pela oração, a fé sai vitoriosa de Satanás… “Os príncipes das trevas, escreve São Bernardo, não temem nada mais que o esplendor das boas obras, porque as trevas não podem subsistir diante da luz (25)”. Por isso, o apóstolo São Pedro nos exorta a “manter-nos sóbrios e vigilantes” (I, 5, 8); e São Tiago nos assegura que, onde o demônio encontra resistência, põe-se em fuga (IV, 7).
Santo Agostinho nos ensina que, quando a Escritura nos exorta a resistir ao demônio e a combater contra ele, quer aludir às paixões e aos nossos apetites desregrados, pois é por meio deles que o demônio nos monta (De Agone Chris. lib. I).
O soldado de Jesus Cristo que quer sair vitorioso do combate contra o demônio deve preparar-se, munir-se, armar-se e prover-se de tudo quanto é necessário para tal empreendimento… A confissão, a santa comunhão, o temor de Deus, o pensamento de sua presença e o sinal da cruz são tais amuletos que nos tornam invulneráveis a toda arma diabólica.
Desde que Jesus Cristo destruiu, com sua morte, o império do demônio, o poder desse espírito sofreu um imenso abalo, tanto mais no que diz respeito ao cristão consagrado a Deus pelo batismo e, por esse meio, arrancado ao poder das trevas… Porque Jesus Cristo nos libertou, com seu precioso sangue, dos pecados que nos mantinham sob o jugo dos espíritos malignos, diz Clemente de Alexandria, e nos redimiu da escravidão de senhores cruéis aos quais outrora estávamos sujeitos (De Paedag. c. V.).