Tesouro n.º 47 · Volume I

DESEJOS (BONS) DESIDERI (BUONI)

6 seções · 31 parágrafos · pp. 530–539 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE SE DEVE DESEJAR

Que se deve desejar? Jesus Cristo. “Se alguém tem sede, diz ele, venha a mim e beba” (Jo 7, 37). “Minha alma, dizia o rei profeta, tem sede do Deus forte e vivo; quando será que me apresentarei diante dele?” (Sl 41, 2).

Jesus Cristo é chamado pela Escritura de “o desejo das colinas eternas” (Gn 49,26), isto é, o desejo dos anjos, dos patriarcas, dos profetas etc. O profeta Ageu chama-o de: “o Desejado de todas as nações” (II, 8).

Jesus Cristo é chamado o Desejado das nações, 1° porque é supremamente desejável. Embora as nações infiéis não o desejassem, e nem sequer o conhecessem, tinham, contudo, necessidade de sua vinda para serem libertadas de suas inumeráveis misérias; por isso, não o desejavam com um desejo sobrenatural, mas natural, do mesmo modo que a terra ressequida espera a chuva; ter necessidade é, em substância, desejar aquilo que pode satisfazer à necessidade que se experimenta. Mas, assim que as nações ouviram os apóstolos falar dele, de sua vida, santidade e doutrina, de sua moral e de seus milagres, logo que foram tocadas e comovidas por suas pregações, começaram imediatamente a desejar sobrenaturalmente Jesus Cristo; e quanto mais o conheceram, mais o desejaram e amaram, a tal ponto que alegremente lhe ofereciam não somente as riquezas, mas a vida e o sangue, e a inumerável cadeia dos mártires está aí para dar testemunho disso. Por isso, Jacó o chama “a expectativa das nações” (Gn 49,10).

2° Dá-se a Jesus Cristo o nome de Desejado das nações porque ele satisfez plenamente os seus desejos. A Igreja, em seus cânticos de alegria, exprime o seu desejo de Jesus Cristo. “Ó Jesus, exclama ela, nossa redenção, nosso amor e nosso desejo!”.

As nações que, antes da vinda de Jesus Cristo, seguiam a lei natural e acreditavam em Deus, os prosélitos e aqueles que se converteram ao judaísmo desejavam e esperavam, assim como os judeus, o Cristo, a quem consideravam o Salvador do mundo, como um raio celeste, o esplendor da luz eterna, o sol de justiça que devia iluminar o universo sepultado nas trevas da ignorância e da infidelidade, arrancar os homens da morte, curá-los, justificá-los e torná-los bem-aventurados. Tais foram Adão, Enoque, Noé, Sem, Isaac, Jacó, José, Jó etc….

Jesus Cristo, no céu, constitui o desejo de todos os eleitos e de todos os anjos; todos anseiam por gozar de sua divindade e de sua humanidade; ele satisfaz e cumula abundantemente os seus votos.

Jesus Cristo é o único desejo das almas justas; elas nada desejam melhor que agradar-lhe, amá-lo cada vez mais, servi-lo e possuí-lo, e todas dizem a uma só voz, com São Bernardo: “Mil vezes por dia vos desejo, ó meu Jesus; quando vireis? Quando me trareis a alegria, alimentando-me de vós mesmo? Ó Jesus, rei admirável, nobilíssimo vencedor, doçura inefável! Quando visitais o nosso coração, então ele contempla a verdade, calca aos pés a vaidade do mundo e arde de amor divino. Ó Jesus, suprema bondade, admirável alegria da alma, bondade incompreensível, que o vosso amor me consuma! Meu dulcíssimo Jesus, esperança da alma que suspira, é a vós que procuram as lágrimas piedosas, é a vós que invocam os íntimos suspiros do coração. Já vejo aquilo que procurei, já estreito ao peito aquilo que desejei; por vós, ó Jesus, definho de amor e dele estou todo abrasado. Ó feliz incêndio! Ó ardente desejo! Ó doce refrigério que é amar o Filho de Deus! (1)”.

Estais com fome? Desejai Jesus; ele é o pão dos anjos, o maná que contém toda doçura. Estais com sede? Desejai Jesus; ele é a fonte de água viva: quem dela bebe nunca mais terá sede; é o vinho que inebria a alma, que faz florescer as virgens. Estais enfermo? Desejai Jesus; ele é o médico, o remédio, o salvador, a saúde por essência. Estais nos extremos da vida? Desejai Jesus; ele é a ressurreição e a vida. Amais a beleza e as riquezas? Ele é a beleza em pessoa e o oceano de todos os tesouros. Aspirais aos verdadeiros prazeres e às verdadeiras honras? Ele vos fará reis e vos cumulará de delícias. Desejais um amigo sincero? Jesus é o melhor dos amigos, ou melhor, o único amigo. Desejais a sabedoria? Ele é a sabedoria incriada do Pai. Quereis a santidade e a vida eterna? Fora dele não há nem uma nem outra. Sois pecadores? Invocai Jesus; ele morreu para nos redimir. Desejais vencer os vossos inimigos? Ele venceu o demônio, o mundo, a carne, a morte, o inferno e a cólera de seu Pai. Desejais perseverar no bem? Tomai Jesus por guia: ele é o caminho, a verdade e a vida; quem o segue não caminha nas trevas. Desejai Jesus, suspirai por Jesus. Nele encontrareis todos os bens; fora dele estão todos os males. Dizei com São Francisco de Assis: “Meu Jesus, meu amor e meu tudo”. Cantai com a Igreja: “Jesus é a glória dos anjos, doce harmonia ao ouvido, mel delicioso ao paladar, néctar celeste ao coração (2)”. Ó Jesus, inflamai meu coração com o ardente desejo de vos amar! …

São Tomás, tratando da desigualdade que existe entre os bem-aventurados, diz que gozarão mais abundantemente da presença divina aqueles que a tiverem desejado mais ardentemente neste mundo, pois a doçura do gozo é proporcional aos desejos. Assim como a flecha disparada por um arco fortemente retesado corta rapidamente o ar e se crava profundamente no alvo, assim também a alma fiel que se tiver lançado com grande veemência de desejos para Deus, alvo de suas esperanças, penetrará profundamente no abismo da essência divina (I-I q. 5, art. 7).

Se quisermos compreender brevemente o que deve constituir o objeto de nossos desejos, diremos: 1° É preciso desejar Jesus Cristo… 2° a nossa conversão, o perdão de nossos pecados, a graça de não mais recair neles… 3° a virtude, a graça, a cooperação com a graça… 4° o cumprimento da vontade de Deus… 5° o reino de Jesus Cristo em todos os corações… 6° o céu… Eis o que importa desejar na terra…; eis os únicos desejos necessários, os únicos capazes de nos tornar felizes nesta e na outra vida, os únicos capazes de preencher o nosso coração, os únicos dignos do homem feito à imagem de Deus e destinado a gozá-lo eternamente… Todos os desejos contrários a estes são desejos de morte e de maldição. Por isso, são desejos de morte o apego aos bens terrenos, a sede dos prazeres, a ânsia das honras mundanas. Desejo de morte é aquele que tem por objeto a criatura, o corpo, o tempo… Os desejos, as aspirações que ocupam e governam o nosso coração nos põem em condições de julgar, já na vida presente, se seremos condenados ou salvos.

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DOS BONS DESEJOS

A última perversidade do coração, escreve Alvarez, tem origem no desejo do mal; o espírito, comovido e vencido por tal desejo, entrega-se ao pecado: de uma culpa cai em outra, até chegar ao hábito; do hábito cai no endurecimento do coração e na miséria suprema. Do mesmo modo, a suma perfeição do coração começa no desejo do bem; esse desejo, aumentando as forças da alma, excitando-a e impelindo-a, faz com que ela produza boas obras; a repetição das obras faz com que adquira o hábito das virtudes; por esse hábito, ela é levada a amar a Deus por si mesmo e, por esse caminho, chega à perfeição. Esse desejo é a porta pela qual ela entra no santuário da santidade; é o vento que mantém afastado do escolho das coisas terrenas o navio do coração, impelindo-o a alcançar pronta e felizmente o porto da salvação (ISA).

“Vim”, disse o anjo a Daniel, “para te manifestar a verdade, porque és homem de desejos” (Dn 9,23). “Não temas, ó homem de desejos”, continua o anjo; “a paz esteja contigo; tem confiança e arma-te de coragem” (Dn 10,19).

“Quem estiver cheio de bons desejos encontrará o verdadeiro repouso”, diz o Sábio (Sb 6,15). “Desejei e me foi dado o entendimento, e juntamente com ele veio o espírito de sabedoria” (Sb 7,7). “Tiveram sede, elevaram a ti, Senhor, os seus clamores, e a água viva jorrou do alto de uma rocha para saciá-los” (Sb 11,4). “O Senhor”, diz Davi, “saciou a alma vazia dos desejos do mundo; cumulou de bens a alma ávida de graças” (Sl 106,9).

Desejoso de ver Jesus para conhecê-lo, Zaqueu correu à frente e subiu a um sicômoro que ficava junto à estrada por onde devia passar o Salvador. Ora, quando Jesus chegou àquele lugar, levantou os olhos e, ao vê-lo, disse-lhe: “Vamos, Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo ir à tua casa”; e Zaqueu desceu prontamente e o recebeu, cheio de alegria, em sua casa… De pé, Zaqueu disse: “Senhor, eis que estou pronto para dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se defraudei alguém em alguma coisa, restituirei quatro vezes mais”. E Jesus respondeu: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,2, 6, 8, 9). O bom desejo de Zaqueu lhe obtém: 1° a felicidade de ver Jesus Cristo; 2° a de fazer grandes esmolas; 3° a de hospedar Jesus sob o seu teto; 4° finalmente, a de ouvir da própria boca de Jesus Cristo aquelas palavras que deveriam enchê-lo de alegria: “Hoje esta família recebeu a salvação”.

“Que o meu Deus”, escrevia São Paulo, “realize todo o vosso desejo, segundo as suas riquezas, e vos dê a sua glória por Jesus Cristo” (Fl 4,19). E o próprio Senhor diz pela boca de Isaías: “Eu regarei a terra sedenta” (44,3). “Ó vós todos que tendes sede, vinde às águas; apressai-vos a comprar, sem troca e sem prata, o vinho e o leite” (Is 55,1). Depois repete no Apocalipse: “Quem tem sede, venha; e quem quiser, receba gratuitamente a água da vida” (Ap 22,17).

Desejando a vida eterna, nós a adquirimos, contanto que conservemos e cultivemos esse desejo. Se disserdes resolutamente: “Meu Deus, eu vos desejo, eu vos quero”, não temais: Deus está convosco; pois a bondade de Deus jamais lhe permite recusar-se a um coração que o deseja, e nenhuma força pode arrebatá-lo daquele que o possui. Deus não é um amigo mutável, a quem o tempo cause repugnância. Como? Poderia ele, esse Deus tão bom, com sua mão benfazeja, arrancar seus filhos do seio paterno onde desejam viver? Nada está mais distante de seu pensamento; e, entre todas as verdades, a mais certa, comprovada e imutável é que Deus jamais falta àquele que o deseja, e que só perde a Deus aquele que primeiro dele se afasta por própria vontade. Não teve razão São Paulo para nos exortar a desejar as coisas celestes, visto que, desejando-as ardentemente, chegamos a possuí-las? (Cl 3,2).

“O desejo dos justos tende a todo o bem” — dizem os Provérbios (11,23). O verdadeiro meio de crescer na virtude está em desejá-la; pois, pelo desejo, concebemos interiormente as virtudes, fortalecemo-las e multiplicamo-las, e produzimo-las exteriormente sem que nos detenham nem o respeito humano, nem o temor, nem as ameaças, nem os sofrimentos, nem as perseguições, nem mesmo a morte. Vede quais imensos tesouros estão contidos num bom desejo! O pobre que ardentemente deseja fazer esmola, se pudesse, tem o mérito como se de fato a tivesse feito; merece tanto quanto, e às vezes até mais, que o rico que costuma socorrer os pobres; o enfermo, o debilitado, que deseja jejuar e mortificar-se, tem o mérito do jejum e da mortificação; o religioso, obrigado pela obediência a uma obra vil, obscura e aparentemente de pouco valor, que arde no desejo de fazer o melhor que os outros fazem, como pregar, ensinar, ouvir confissões, visitar os enfermos, ir entre os infiéis e espalhar o Evangelho ao preço do sangue e da vida etc., e que oferece a Deus todos esses piedosos desejos, tem tanto mérito quanto teria se realizasse essas ações santas e excelentes. Deus acolhe esses desejos como se tivessem sido realizados; São Paulo no-lo assegura na sua Segunda Epístola aos Coríntios: “Se alguém tem firme e pronta vontade de dar, Deus a aceita segundo o que possui, e não segundo o que não possui” (8,12). Não fica claro, por essas palavras, que Deus considera a boa vontade encerrada no desejo ainda mais que a própria dádiva? E a razão é esta: o mérito e a perfeição de uma virtude estão na firme vontade, no bom desejo, mais do que no número e na grandeza das ações. Por isso diz Santo Agostinho: “Deus coroa e recompensa a boa vontade, quando vê faltar o poder (3)”. E São Bernardo também diz: “Deus, sem dúvida, recompensa a boa vontade daquele que não pôde realizar (4)”; e São Tomás dá uma razão evidente: “O valor formal ou intrínseco da ação exterior depende inteiramente da bondade do ato interior, porque procede da vontade (5)”.

Sejamos, pois, cheios de boa vontade e de santos desejos, e enriquecer-nos-emos para o céu…

Ouvi novamente São BERNARDO: “Mereceis quanto quereis; porque o mérito cresce na proporção em que cresce a boa vontade (6)”. “Não é caminhando com os pés”, acrescenta este doutor, “que se vai em busca de Deus, mas voando com os desejos… Porventura, uma vez obtida a alegria, o desejo se completa? Não; antes, ele é o óleo que alimenta a chama, que é precisamente o desejo. Obter-se-á a alegria, mas o desejo não se extinguirá; e, portanto, tampouco se extinguirá o desejo de buscar novas alegrias. Daí uma saciedade sem náusea; uma curiosidade insaciável, mas sem inquietude; um desejo eterno e inexplicável, que não provém da indigência; uma sóbria embriaguez produzida não pelo beber, mas pela descoberta da verdade; inflamada não pelo vinho, mas pelo amor de Deus (7)”.

Quantas riquezas, que tesouros não estão encerrados nos santos desejos, e como se torna fácil, por meio deles, adquirir méritos, a salvação e a coroa eterna! …

3. DEUS NUTRE BONS DESEJOS A NOSSO RESPEITO

Não foi acaso pelo desejo de nos tornar felizes que Deus nos criou à sua imagem? Não foi acaso um desejo inefável de nos salvar que o impeliu a encarnar-se, a nascer numa estrebaria, a padecer e morrer por nós numa cruz? «Tenho sede» — clamou do alto do patíbulo. Tinha sede de resgatar nossas almas e de nos salvar. Não é o desejo de nos fazer o bem que lhe arranca dos lábios estas palavras: «Eis que estou à porta do vosso coração e bato; se alguém me abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo»? (Ap 3, 50). Quem não vê a expressão de um ardentíssimo anseio nestas palavras: «Minhas delícias são estar com os filhos dos homens»? (Pr 8, 31). Não é prova evidente e peremptória do desejo infinito que Deus tem de nos cumular de favores a instituição do Sacramento do altar, pelo qual ele se comunica inteiramente a nós? «Desejei ardentissimamente, disse aos apóstolos na véspera de sua Paixão, comer esta Páscoa convosco antes de morrer» (Lc 22, 15).

Ah, é precisamente verdade aquilo que diz a Sabedoria: o Deus de amor se antecipa àqueles que o desejam e mostra-se primeiro a eles (Sb 6, 14). O homem, lemos ainda na Sabedoria, que se levantar de madrugada para procurar aquele que é a sabedoria do Pai não terá dificuldade em encontrá-lo; mas o encontrará ao sair da soleira (Ib. 6, 15).

«Que pensamento de clemência vos subjugou assim, ó meu Jesus — exclama a Igreja no hino da Ascensão — a ponto de vos determinar a carregar nossos delitos e sofrer uma morte cruel para nos livrar da morte eterna? (8)». São Gregório Nazianzeno convida todos os homens a desejar a Deus, pondo em evidência sua infinita bondade, que de nada se compraz mais do que em despendê-la em nosso benefício; e, depois de haver desenvolvido cuidadosamente esta consideração, conclui dizendo: Deus deseja ser desejado; tem sede, quem acreditaria? Tem sede de nós em meio à sua abundância (Orat. in Bapt.).

Embora Deus seja infinitamente rico, nós podemos, contudo, torná-lo nosso devedor; e de que modo? Desejando que ele nos faça o bem, pois ele dá com maior desejo de nos obrigar do que nós de sermos obrigados. Não vos parece este Deus de bondade semelhante a uma fonte que, pela contínua fecundidade de suas águas límpidas e frescas, parece convidar o viajante a saciar a sede? Sempre rica, sempre abundante, a natureza divina não pode crescer nem diminuir; a única coisa que lhe falta, se assim nos é lícito expressar-nos, é que alguém vá buscar em seu seio as águas da vida eterna. Por isso, São Gregório diz que Deus tem sede de que tenhamos sede dele; e acrescenta que considera um benefício o fato de lhe oferecermos, por meio de nossos desejos, a ocasião de nos fazer o bem. É fazer injúria a essa bondade infinita não desejar ardentemente que ela nos enriqueça.

4. ARDENTES DESEJOS DOS SANTOS POR DEUS

«Como o cervo deseja as fontes de águas vivas, assim minha alma suspira por vós, ó meu Deus» (Sl 41, 1). «Ah, sim, minha alma tem sede de Deus» (Ib. 2), exclama o profeta.

«Ó filhas de Jerusalém — diz a Esposa dos Cânticos — não vistes acaso aquele que meu coração deseja?» (5,3). «Ah! Se o encontrardes, suplico-vos que lhe digais que desfaleço de amor» (5,8). «Eu durmo, mas meu coração está desperto. Por que não me é dado encontrar imediatamente o meu amado, para que eu o estreitasse contra o peito e o cobrisse de beijos!» (5,2; 8,1).

Levado nas asas do desejo de ver Jesus, Madalena vai de madrugada ao sepulcro e, não encontrando nele o objeto de seu amor, porque Cristo já havia ressuscitado, desfaz-se em lágrimas e não sabe encontrar repouso. O Salvador aparece-lhe sem se dar a conhecer e lhe diz: Mulher, por que choras? A quem procuras? — Ela, julgando falar com um jardineiro, diz-lhe: Ah! Meu senhor! Se tu o levaste, dize-me e indica-me onde o puseste! Jesus não disse outra palavra senão: Maria! E ela o reconheceu no mesmo instante, prostrou-se e o adorou (Jo 20, 15-16).

São Paulo desejava morrer para estar com Jesus Cristo (Fl 1, 23).

Toda a vida de um bom cristão é um santo desejo de passar de virtude em virtude, de perfeição em perfeição, de viver e morrer por Jesus Cristo. Eis o único caminho verdadeiro; não há outro senão este.

5. MOTIVOS QUE DEVEM INCITAR-NOS AOS BONS DESEJOS

Três coisas movem os desejos dos homens: a beleza, os benefícios e o amor, e muitas vezes basta uma só delas para inflamar os corações. Ora, Deus as possui todas as três em grau supremo; como, pois, não seremos nós levados a desejá-lo e amá-lo? … Vós desejais riquezas, prazeres, honras; onde encontrareis outras que se possam comparar às que Deus possui e vos reserva, quando as desejardes? … Nunca se deve cessar de desejar e buscar a Deus, porque nunca se deve cessar de amá-lo, diz Santo Agostinho (9).

6. O QUE SE DEVE FAZER PARA TER BONS DESEJOS

O desejo de conhecer, amar e servir a Deus é ardente como o fogo: não pode ser contido interiormente, mas lança-se para fora com suspiros, palavras e obras… Quatro qualidades tem o cervo, as quais representam o que devemos fazer em relação aos bons desejos: 1° ele é inimigo implacável das serpentes, contra as quais trava contínua guerra. Queremos que Deus nos encha de santos desejos? Façamos guerra encarniçada e sempre viva à antiga e venenosa serpente, Satanás… 2° Quando o cervo se sente perseguido pelos caçadores, foge velocíssimo para os picos das montanhas. Perseguidos pelo demônio, pelo mundo e pela carne, corramos prontamente para o cimo das montanhas eternas, isto é, imploremos o socorro do céu; então nossas almas serão cumuladas de piedosos desejos… 3° Os cervos observam por instinto o preceito de São Paulo aos Gálatas: «Ajudai-vos mutuamente a carregar os fardos uns dos outros» (Gl 5, 2); com efeito, quando avançam em rebanhos, apoiam a cabeça, carregada pelo peso das galhadas, sobre o dorso daqueles que vão à frente. Queremos ter santos desejos? Sejamos cheios de caridade e benevolência para com o próximo… 4° Quando o cervo é devorado pela sede, nada mais o impede de correr em busca da fonte. Superemos também nós todos os obstáculos que se interpõem ao cumprimento de nossos bons desejos…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.