As almas das crianças mortas em pecado original, portanto sem o batismo, preferem existir a não existir. Este é o parecer de Santo Agostinho, que escrevia: «Não afirmo que as crianças mortas sem batismo sofram tais penas que desejem antes não existir do que existir» (Contra Julian., lib. 5, c. 8).
A Igreja católica nos deixa livres para pensar, com São Tomás, que não se está sujeito à pena do sentido por causa somente do pecado original, mas unicamente à privação da visão intuitiva de Deus, que é um dom gratuito e sobrenatural, ao qual as criaturas inteligentes, por sua natureza, não têm direito algum (Summ. I.a, 2.a, q. 28, art. 5).
Há teólogos que opinam que a privação da visão beatífica não causará dor nem tristeza alguma a tais almas. A sua condição será, de certo modo, uma condição intermediária entre a recompensa e o castigo, o que não parecia impossível nem mesmo a Santo Agostinho. Os referidos teólogos apoiam-se ainda na autoridade de São Gregório Nazianzeno, do Nazianzeno e de Santo Ambrósio. São Tomás deixa entrever que se inclina a esse pensamento, e parece admitir uma ordem de providência benevolente da parte de Deus para com aqueles mesmos que não pode recompensar…
«As crianças mortas sem batismo, lemos em Lirano, levarão uma vida mais alegre e agradável do que aquela que naturalmente se pode encontrar neste mundo (In Eccles.).»
Scoto crê que esses meninos terão um conhecimento de todas as coisas naturais muito mais extenso do que o que tiveram, todos juntos, os filósofos (In 2, Distinc. 33, c. 1).
Segundo Marsílio, eles amarão a Deus acima de todas as coisas (In 2, Quaest, 28, 5).
Os escolásticos exprimem os mesmos sentimentos: dizem que esses meninos sofrerão somente a pena do dano, e não a do sentido. São Boaventura afirma que eles viverão contentes com o seu estado (De Damn.).
Daí Lessius conclui que eles conhecerão clara ou distintamente a essência de sua alma e também, embora de modo mais imperfeito, as naturezas angélicas; e que louvarão eternamente a Deus em reconhecimento de sua criação e da criação de todas as outras coisas (De Perect. divin. Lib. 13, c. 22). Outro autor acrescenta que não sentirão pesar nem tristeza pela perda da visão beatífica, porque não a perderam por própria culpa (PELAGIUS, in Pueris).