Tesouro n.º 15 · Volume I

BATISMO BATTESIMO

4 seções · 27 parágrafos · pp. 167–172 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É O BATISMO; SUA NECESSIDADE

O batismo é um sacramento que apaga o pecado original, nos faz filhos de Deus e da Igreja… O batismo é a cruz de Jesus Cristo aplicada a nós… Por meio do batismo somos crucificados com Jesus Cristo… Ora, a cruz é a morte e a destruição dos pecados…

“Em verdade, em verdade vos digo”, dizia Jesus Cristo, “que quem não nascer uma segunda vez não pode ver o reino de Deus” (Jo 3, 3). E que com estas palavras pretendesse estabelecer a necessidade do batismo, provou-o com aquelas outras que logo acrescentou:

“Digo-vos, em verdade, que quem não nascer por meio da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus” (Ibid. 5). Depois, deu aos Apóstolos a ordem de ir por todo o mundo para instruir as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19).

Assim como, nascendo de Adão segundo o corpo, contraímos o pecado original, do mesmo modo quem quiser participar da justificação por meio de Jesus Cristo deve nascer dele segundo o espírito, por meio do batismo. De duas coisas, diz São Tomás, necessitava o homem em seu estado de perdição: a primeira era participar da divindade; a segunda, despojar-se do homem velho. Ora, Jesus Cristo nos deu uma e outra; primeiramente, tornou-nos participantes, por meio de sua graça, da natureza divina; depois, fez de nós, por meio do batismo, uma nova criatura (1).

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DO BATISMO

“Foste lançada na abjeção desde o dia em que nasceste — lemos em Ezequiel —; estavas então nua e coberta de chagas; eu te vi, estendi sobre ti a veste (do batismo) e te livrei da ignomínia. Jurei proteger-te, estabeleci contigo uma aliança, e tu te tornaste minha esposa. Lavei-te em uma água santa, purifiquei-te de toda imundície e fiz-te sentar sobre um trono” (Ez 16, 5, 7, 9, 13). Quem não vê expostas nestas palavras do Profeta a necessidade do batismo, a deplorável condição de quem não o recebeu e as maravilhas que ele produz?

1° Antes do batismo, estamos mortos para a graça, para o Céu, para Deus…; depois do batismo, já não é assim…: “Eu santifiquei esta água, diz o Senhor; não haverá mais morte nem esterilidade para quem dela fizer uso” (2Rs 2, 21).

2° Antes do batismo, somos escravos do demônio…; depois do batismo, estamos livres de seu jugo, e o Espírito Santo toma posse de nós (Exorcis. Ecclesiae).

3° Antes do batismo, somos um rebento selvagem; depois do batismo, somos enxertados em Jesus Cristo, diz São Paulo (Rm 11, 17): fazemos parte de seu corpo místico.

4° Antes do batismo, somos vendidos e estamos sob o poder do pecado (Rm 7,14); o batismo nos liberta e nos resgata. Sim, pelo batismo depomos o corpo do pecado e vestimos o da graça e da justiça. Pois o Senhor disse pela boca de Ezequiel que nos lavaria de toda mancha (Ez 36,25).

Por isso, São Cipriano chama o batismo de “a morte dos vícios e a vida das virtudes (2)”. São Paulino diz que “no batismo a culpa original é apagada, a vida nos é restituída, morre o velho Adão e nasce o novo, a fim de tomar posse do reino eterno (3)”.

No santo batismo, escreve Tertuliano, lava-se o corpo para que a alma se torne sem mancha; faz-se a unção para consagrá-la; o sinal da cruz para fortificá-la; a imposição das mãos, para que o Espírito Santo desça a iluminá-la (De Resurr.). Santo Optato, bispo de Milevo, reconhece no batismo “a vida das virtudes, a morte dos pecados, o nascimento para a imortalidade, a aquisição do reino celeste, o porto da inocência, o naufrágio dos pecados (4).

“Vós fostes lavados, santificados, justificados, no Espírito Santo por meio do batismo”, escrevia São Paulo aos Coríntios (1Cor 6,11). E São Pedro exclama: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, pelo efeito de sua grande misericórdia, nos regenerou” (1Pd 1,5). “Vós, ó Senhor, me lavareis, roga o Salmista, e eu me tornarei mais branco que a neve” (Sl 50,8).

O batismo é, segundo São Jerônimo, o sacerdócio dos leigos, que os consagra a Jesus Cristo (5). No santo batismo, o homem recebe a marca da divindade; e ao batizado convêm estas palavras do salmo: “Vestiste-te de glória e de esplendor como de um manto” (Sl 103,2); e ele pode exclamar com Isaías: “Eu me alegrarei no Senhor, minha alma está inebriada de alegria, porque meu Deus me adornou com a veste da salvação e me envolveu com a justiça. Assemelho-me ao Esposo cingido com sua coroa e à Esposa resplandecente de diamantes (Is 61,10)”.

Ao sair das águas do batismo, Deus repete à alma aquilo que já havia dito ao povo judeu pela boca do profeta Ezequiel: “Vesti-te com vestes esplêndidas, adornei-te com magníficos calçados e cobri-te com um manto finíssimo. Pus pulseiras em teus braços e um colar em teu pescoço; pendurei brincos de ouro em tuas orelhas e coloquei um diadema sobre tua cabeça. Assim, aparecias resplandecente de ouro e prata, vestida de linho e de sedas de várias cores, e tão formosa que quem te via se enamorava de ti” (Ez 16,11-13).

“Vós todos que fostes batizados, diz o grande Apóstolo aos Gálatas, fostes revestidos de Jesus Cristo” (Gl 3,27),

Depois de batizado Jesus Cristo, saiu da água, e os céus se abriram sobre sua cabeça; viu-se o Espírito de Deus descer em forma de pomba e pousar sobre ele; e, de repente, eis que uma voz bradou do céu: Este é o meu Filho amado, em quem pus todas as minhas complacências. Todas estas maravilhas que São Mateus (3,16-17) nos narra terem acontecido no batismo de Jesus Cristo renovam-se no dia solene do batismo de cada homem: os céus se abrem…; o Espírito Santo desce…; e Deus Pai adota como filho caríssimo o recém-batizado.

3. OBRIGAÇÕES CONTRAÍDAS NO BATISMO

São Paulo recordava aos Romanos que eles não ignoravam que todos os que são batizados em Jesus Cristo são batizados na sua morte; com efeito, foram sepultados com ele na morte, para que, assim como Jesus Cristo ressuscitou dos mortos pela glória de seu Pai, também eles caminhem por um caminho novo (Rm 6,3-4). Assim como Jesus Cristo morreu para a vida temporal, também aqueles que foram batizados devem morrer para o pecado. Somos sepultados, por meio do batismo, com Jesus Cristo; mas ninguém é sepultado senão aquele que morreu; por isso, aquele que recebeu o batismo deve estar verdadeiramente morto para o pecado…

O mesmo Apóstolo nos adverte a cuidar para que em nós o velho homem tenha sido crucificado com Jesus Cristo; a fim de que seja destruído o corpo do pecado e não sejamos mais escravos do pecado (Rm 6,6), porque quem morreu está livre do pecado (Ibid. 7,7). Mas Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais (Ibid. 6,9). Portanto, ressuscitados por meio do batismo, também nós não devemos mais morrer da funesta morte do pecado…

“Fostes resgatados por grande preço, diz ainda São Paulo aos Coríntios; dai glória a Deus e levai-o em vosso corpo” (1Cor 6,20); e não vos torneis novamente vis escravos dos homens (Ibid. 7,23). “Revestidos que estais de Jesus Cristo pelo batismo, já não vos é lícito despir esta veste preciosa para vestir os trapos do pecado…”. Despojai-vos, portanto, de tudo o mais e não conserveis senão Jesus Cristo (Cl 3,8).

Pelo santo batismo, tornamo-nos, segundo a palavra do grande Apóstolo, filhos da luz e filhos de Deus: já não pertencemos à noite nem às trevas; não durmamos, portanto, mas permaneçamos despertos e sóbrios (1Ts 5,6). Revesti-vos de Jesus Cristo e não cuideis mais de satisfazer a carne (Rm 13,14).

Quem depõe a veste das virtudes e enverga a dos vícios despe-se de Jesus Cristo e reveste-se do Anticristo.

“Vós fostes batizados em nome da Santíssima Trindade, diz Santo Ambrósio; confessastes o Pai, o Filho e o Espírito Santo; lembrai-vos do que fizestes. Conservai-vos fiéis a esta fé: morrestes para o mundo e ressuscitastes para Deus; morrestes para o pecado e ressuscitastes para a vida eterna (6)”.

“Vós que recebestes o batismo, acrescenta Santo Agostinho, fostes regenerados e entrastes numa nova via: nascestes para a vida eterna, se não sufocardes, por uma conduta perversa, aquilo que nasceu em vós (7)”.

“Lembra-te do juramento, diz o Crisóstomo; medita nas condições, considera a milícia: o juramento que prestaste, as condições que pactuaste, a milícia à qual te alistaste (8)”.

Na fonte batismal renunciastes ao demônio…, ao mundo…, às suas pompas…, às suas obras…; prometestes viver e morrer por Jesus Cristo…; e somente depois dessas solenes promessas foi derramada sobre a vossa cabeça a água regeneradora.

4. DEVER-SE-Á PRESTAR CONTAS DAS GRAÇAS RECEBIDAS E DAS OBRIGAÇÕES CONTRAÍDAS NO BATISMO

“Visitarei, disse o Senhor pela boca de Sofonias, todos os que se vestiram com uma veste estrangeira” (Sf 1, 8). O sacerdote dá aos neobatizados a veste branca, dizendo-lhes: “Recebei esta veste cândida, santa e imaculada, que deveis levar sem mancha ao tribunal de Jesus Cristo, para que alcanceis a vida eterna” (Ritual.).

Mostrando o diácono Muritta ao apóstata Epidóforo, que se tornara carrasco, a veste branca com que o havia vestido no batismo, disse-lhe: “Vê, Epidóforo, ministro do erro, a veste que te acusará no terrível tribunal de Deus; guardei-a zelosamente, para que dê testemunho contra ti no dia da tua condenação. Esta era a veste que usavas quando saíste sem mancha da água santa; ela se converterá em teu suplício quando arderes no Inferno; ela te condenará, porque te revestiste da maldição como de um manto, calçando aos pés a graça do teu batismo. Que farás tu, desgraçado, quando os servos do Pai de família reunirem os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro? O rei, bufando de cólera, lançará sobre ti os olhos e, vendo que perdeste a veste nupcial, te dirá: Como entraste aqui, sem a veste do teu batismo? Eu te havia vestido com uma veste branca e preciosa, e agora não a vejo: que fizeste dela? Perdeste a insígnia do teu alistamento, a arma da cruz que eu te havia dado. Eu te havia coberto com uma veste tingida do meu sangue, e agora não encontro mais nada em ti que me pertença: já não vejo em ti o caráter da Trindade. Portanto, não podes tomar lugar no banquete nupcial. Atai-o de mãos e pés e lançai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes”. Deus nos livre de nos expormos a encontrar a sorte com que aquele desgraçado era ameaçado!

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.