Tesouro n.º 40 · Volume I

CONSCIÊNCIA BOA E MÁ COSCIENZA BUONA E CATTIVA

7 seções · 28 parágrafos · pp. 452–457 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É A BOA CONSCIÊNCIA

Boa consciência, diz Hugo de São Vítor, é aquela que se mostra afável para com todos, que não fere pessoa alguma, que usa castamente da amizade, que, paciente com os inimigos e benevolente para com todos, faz o bem quanto lhe é possível.

Boa consciência é aquela à qual Deus não imputa pecados, porque os evita; nem a acusa dos pecados alheios, porque não os aprova; nem a acusa de negligência, porque falou e agiu quando era necessário; nem a acusa de orgulho, porque se manteve sempre na humildade e na unidade (De Anima lib. 3, c. IX).

A boa consciência é aquela que é reta, que obedece às leis de Deus e da Igreja e que se serve das luzes da razão para iluminar-se… A boa consciência é aquela que está atenta para não cair e que, tendo caído, prontamente se levanta… A boa consciência é o homem inteiro; pois o homem nada é, ou melhor, é um monstro, um flagelo, quando não tem a boa consciência… A boa consciência é a imagem de Deus sobre a terra…

2. PODER E FORÇA DE UMA BOA CONSCIÊNCIA

Não ter nada de que se repreender, não ter de corar por culpa alguma, dá tal força que nos torna muros de bronze, cantava Horácio (1); e o mártir Tibúrcio afirmava que todo sofrimento é leve, ou antes, nada é, quando se tem a consciência reta e pura.

A boa consciência nada teme; ela pode repetir com o poeta: “Eu temo a Deus, caro Abner, e, fora disso, não conheço outro temor. — Que o corpo nos atormente com seus desejos e com o aguilhão da concupiscência; que o mundo nos lisonjeie ou nos ameace; que o demônio nos tente ou nos espante; a boa consciência permanece tranquila, firme, inabalável. No momento da morte, a boa consciência está cheia de esperança e comparece sem inquietação ao tribunal de Deus. O mundo vai e vem; chora e ri; passa e desaparece, sem que a boa consciência seja abalada ou maculada por isso. Pode-se golpear, torturar, despedaçar, crucificar, queimar o corpo, mas a boa consciência triunfa sobre todas essas provações.

3. EXCELÊNCIA E VALOR DA BOA CONSCIÊNCIA

“Que há neste mundo de mais precioso, escrevia São Bernardo ao papa Eugênio, de mais tranquilo e seguro que uma boa consciência? Ela não teme a perda dos bens, nem as injúrias, nem os sofrimentos; a morte, longe de intimidá-la, dá-lhe altivez (2).”

“Não a amplitude do principado, não a abundância das riquezas, não o fausto do poder, não o vigor do corpo, nem qualquer outra coisa semelhante proporciona tranquilidade e alegria à alma, mas somente a boa consciência; e infelicíssimo seria aquele que possuísse toda espécie de bens, mas, entretanto, tivesse consciência de haver praticado o mal”, diz o Crisóstomo (3).

Não há penhor mais seguro de futuras bênçãos que o testemunho consolador de uma boa consciência; por isso, os Provérbios a chamam de “um festim contínuo” (15,15). Por isso, Hugo de São Vítor a chama campo de bênção, jardim de delícias, tabernáculo de ouro, alegria dos anjos, arca da aliança, tesouro régio, trono de Deus, morada do Espírito Santo, livro fechado e selado que será aberto no dia do juízo (De Anim. lib. III).

4. FELICIDADE QUE A BOA CONSCIÊNCIA PROPORCIONA

“A própria notoriedade das boas obras que foram praticadas infunde esperança numa boa consciência, diz Santo Agostinho; pois esta é naturalmente inclinada a esperar e está cheia de confiança, ao passo que a má consciência é roída pelo desespero (4).”

“Onde encontrar alimento mais saboroso, diz Santo Ambrósio, senão no testemunho de uma boa consciência e de um coração inocente? (5)”; e todos os dias que uma boa consciência vê resplandecer são dias de festa… A paz da alma torna feliz a vida (Offìcib. lib. 2, c. 1).

Quando a alma não é atormentada pelos remorsos, pregava o Crisóstomo, experimenta tamanha felicidade que não se pode dizer. Que direi? Tudo o que há de mais consolador e deleitável na terra é amargura e melancolia, se comparado com o prazer que provém de uma boa consciência (Hom. ad pop.).

Que pode um justo temer? Ele sabe que a pureza de sua consciência lhe conquista a proteção e o amor de Deus. Sua alma é calma, serena, tranquila, cheia de confiança, de contentamento e de coragem, porque está apoiado em Deus.

“Nada se pode imaginar de mais feliz que a tranquilidade da consciência (6); e ninguém pode entristecer aquele cuja alegria é Cristo (Sentent. XC)”, diz Santo Agostinho. Ninguém é infeliz, acrescenta Salviano, porque outro o julga tal, mas a infelicidade provém somente de nós mesmos. Eis por que aquele que tem a felicidade de possuir uma consciência pura e boa é feliz, ainda que todos os homens o julgassem de outro modo (De Prov. Dei).

Além disso, não somente felicidade, mas também nossa glória é, segundo diz São Paulo, o bom testemunho da consciência (2Cor 1, 12).

Por isso, não é de admirar que também os pagãos concordem neste ponto. “Qual é o sumo bem?”, pergunta Ausônio, e responde: “Uma consciência que nada tem de que se censurar (7). A consciência de ter querido o bem é o maior dos consolos nas tribulações da vida (8)”; o testemunho de uma vida boa, unido à lembrança do bem que se praticou continuamente, constitui a felicidade do homem, sentenciava Cícero (Cato mai.).

A boa consciência nos livra de todas as inquietações da vida, lemos em Plutarco. “Quem são aqueles que vivem felizes?”, perguntou-se a Sócrates; “São aqueles”, respondeu, “que conservam sua consciência livre de toda sujeira” (Anton. in Meliss.). Perguntou-se a Bias qual era a coisa que nada temia, e a Periandro qual era a maior e mais perfeita, contida na menor e mais vil; ambos responderam: a boa consciência; e este último acrescentou: no corpo de um homem.

5. DESGRAÇAS QUE A MÁ CONSCIÊNCIA ATRAI E DESORDENS QUE PRODUZ

“Conserva”, escrevia São Paulo a Timóteo, “a boa consciência; alguns, por tê-la rejeitado, naufragaram na fé” (Tm 1, 29). A má consciência é a fonte de todas as heresias, da corrupção do espírito e do coração e de todos os delitos…

O mesmo Apóstolo menciona alguns que tinham a consciência cauterizada (Tm 4, 2). A consciência cauterizada, que é uma consciência profundamente corrompida e endurecida, perdeu o sentido do bem e do mal. Outrora reinava a consciência; depois, a ciência tomou o seu lugar; finalmente, uma e outra desapareceram, e nós nos tornamos seres estúpidos e perversos…

O erro, seja qual for, é sempre perigoso; mas aquele que influi sobre a consciência, essa regra dos costumes, é o mais nocivo.

“Cuidai”, dizia Jesus Cristo, “para que a luz que está em vós não se transforme em trevas” (Lc 11, 35). O olho de nossa alma é a consciência; ora, quando o olho é acometido de enfermidade, todos os atos da vida sofrem com isso; assim também, quando a consciência está enferma, tudo na alma é desordem: porque 1° não há excesso ao qual semelhante alma não se entregue…; 2° pratica-se o mal com ousadia e sem remorsos…; 3° esse estado já não tem remédio…

6. CAUSAS DA MÁ CONSCIÊNCIA

Se se seguisse a lei de Deus, se sobre ela se modelasse a conduta, a consciência seria reta e iluminada, porque a lei de Deus não permite que se faça o mal (Sl 18,7). Mas ela é interpretada segundo os próprios desígnios…; é disfarçada ao capricho das paixões…; é contornada, ou antes, desprezada e pisoteada… cada um forja uma consciência à sua maneira… uma consciência complacente… tudo o que se deseja é bom, diz Santo Agostinho; tudo o que agrada é santo (9).

7. O QUE SE DEVE FAZER PARA ADQUIRIR UMA BOA CONSCIÊNCIA

Para adquirir uma boa consciência, é preciso: 1° consultar a lei de Deus e segui-la; 2° detestar o pecado, segundo o próprio conselho de Sêneca: “Ainda que eu soubesse”, dizia esse filósofo pagão, “que isso permaneceria oculto aos homens e que Deus me perdoaria o pecado, contudo não quereria pecar, detido pela intrínseca fealdade do mesmo (10)”.

Um 3° meio nos é dado por Santo Agostinho, nestas palavras: “Adquire-se uma boa consciência por meio de uma boa vida (11)”. Uma vida cristã, pura e santa, é prova de uma boa consciência; uma vida desregrada, culpável e escandalosa gera uma má consciência; e, quando a consciência está corrompida, os costumes vão-se depravando pouco a pouco e a consciência endurece. Então tudo está perdido no tempo e na eternidade.

O 4° meio é sugerido pelos seguintes versos de Pitágoras: “Nunca faças coisa alguma torpe, nem na presença de amigos, nem de testemunhas, nem de ti mesmo, ainda que estejas sozinho, e trata a ti mesmo com suma modéstia (12)”.

Um 5° meio, excelentíssimo, consiste em considerar os tormentos e os castigos que uma má consciência inflige. Ela é, com efeito, uma espada que traspassa o coração…; é um abismo sobre o qual ruge a tempestade… O pecador encontra-se continuamente entre a angústia, o temor e os remorsos; passa a vida na amargura e no desgosto, mesmo quando parece nadar na abundância, nas delícias e na alegria…

A vida do homem sem consciência é um sonho; ao abrir os olhos, seu repouso desapareceu, seus prazeres se dissiparam. Vós não vedes nele senão os festins e as alegrias de que desfruta; considerai antes a sua consciência e as torturas que ela lhe causa… A consciência é uma testemunha…, um juiz…, um carrasco… O verme roedor da consciência não morre, disse Jesus Cristo (Mc 9,47).

Não, diz Santo Agostinho, há aflição igual àquela produzida por uma má consciência. Quem peca fica mal consigo mesmo; angustia-se, perseguido pelos próprios remorsos; torna-se carrasco e castigo de si mesmo. Pode-se evitar um inimigo, mas como fugir de si mesmo?

Não há sofrimentos semelhantes aos que uma má consciência faz experimentar, porque, estando o pecador em conflito com Deus, não encontra consolação em parte alguma (Sentent.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.