Tesouro n.º 37 · Volume I

CONVERSÃO CONVERSIONE

14 seções · 93 parágrafos · pp. 412–435 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A CONVERSÃO É OBRA DA GRAÇA E DA BONDADE DE DEUS

“O Senhor me livrou de toda obra má, dizia São Paulo; ele me salvará e me conduzirá ao seu reino celeste: a ele seja dada a glória por todos os séculos dos séculos” (2Tm 4, 18).

Adão, Davi, Madalena, Paulo, Agostinho, etc… e todos os pecadores que se converteram e se convertem, fazem-no somente pela graça e misericórdia de Deus… Deus, escreve São Paulo, por sua vontade opera em nós o querer e o realizar (Fl 2, 13); Jesus Cristo nos assegurou que, sem ele, nada podemos fazer (Jo 15, 5). Quem está em pecado mortal está morto; ora, quem está morto não pode ressuscitar; somente Deus o pode. Pode-se muito bem perder-se sem Deus; mas não se retorna à vida nem se chega à conversão sem o auxílio de Deus…

Ouvi o Salmista: “Senhor, ele vos pediu a vida, e vós lha concedestes” (Sl 20, 5). “O Senhor enviou do céu a sua graça e me libertou, cobrindo de opróbrio os meus perseguidores” (56, 3). “É o Senhor quem, com a sua fortaleza, liberta os escravos, e também aqueles que o irritam e habitam nos sepulcros” (67, 7). “É ele quem envia do céu a sua misericórdia e a sua verdade; arranca as almas dos dentes dos leõezinhos” (56, 5). “Ele toca as rochas do deserto e faz brotar delas águas para dessedentar os sedentos; faz jorrar do rochedo rios de água” (77, 15-16). “Não a nós, ó Senhor, deve ser atribuída a nossa conversão, mas somente a vós se deve a glória por ela” (113,9); “O Senhor solta os prisioneiros. Ilumina os cegos” (145, 6).

“Senhor, atraí-me a vós”, suplicava a Esposa dos Cânticos (Ct 1, 3). “Convertei-me, e serei convertido”, clamava Jeremias, “porque vós sois o Senhor, meu Deus” (Jr 31, 18). E por meio de Ezequiel o próprio Deus diz: “Eu lhes tirarei o coração de pedra e lhes darei em seu lugar um coração de carne, para que caminhem pelo caminho dos meus preceitos, observem as minhas sentenças, sejam o meu povo e eu seja o seu Deus” (Ez 11, 19).

Observai, diz Santo Agostinho, as feras selvagens e também os animais domésticos, sobre os quais o homem exerce domínio. Nem o cavalo nem o leão se deixam domar por si mesmos; assim também é o homem. Para domar o leão e o cavalo, é necessário o homem; para domar o homem, é necessário Deus; e o homem não se doma pela natureza, mas pela graça (Serm. 4, De verb. Domino in Matth.). Por isso o povo de Judá clamava ao Senhor: “Convertei-nos, e então nos converteremos; renovai os nossos dias como no princípio” (Lm 5, 21).

2. DEUS DESEJA ARDENTEMENTE A CONVERSÃO DO PECADOR

“Quero misericórdia e não sacrifício, disse Jesus Cristo; porque não vim aqui embaixo para chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). E, de fato, ele deu a vida pela conversão dos pecadores e para resgatá-los da escravidão de Satanás….

“Eis que estou à porta e bato, diz Deus no Apocalipse; quem dá ouvidos à minha voz e me abre o coração, terá a mim em sua casa, à sua mesa, e ele se assentará à minha” (Ap 3, 20). E em Ezequiel: “Jura pelo seu próprio nome que não quer a morte do ímpio, mas antes que se converta, abandone a sua vida perversa e viva. Depois diz: Convertei-vos, convertei-vos, afastai-vos dos caminhos da corrupção; por que morrerás, ó casa de Israel?” (Ez 33, 11). “Ah! Pecadores, detestai e cessai de cometer as vossas prevaricações, pelas quais vos apresentais sórdidos e repugnantes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo” (Id. 18, 31). “Alma infiel, entregaste-te ao poder das tuas inclinações perversas; contudo, volta para mim, e eu estou pronto a acolher-te de braços abertos” (Jr 3, 1).

Lemos no Eclesiástico que o Senhor é paciente com os pecadores e derrama sobre eles a sua misericórdia; ele vê a presunção e a malícia do coração deles, conhece a desordem e a corrupção do seu espírito; por isso derrama sobre eles toda a sua misericórdia. A misericórdia de Deus se estende a toda pessoa; compadece-se de todo aquele que recebe o ensinamento da sua misericórdia e está pronto a reconhecer as suas sentenças (Eclo 18, 3-14). Ah, sim, o próprio Deus virá, segundo diz Isaías, e vos salvará (Is 35,4); e não ouvis a sua dulcíssima voz, que clama: “Dá-me o teu coração, ó filho” (Pr 23, 26).

“Deus, escreve Santo Agostinho, começa por operar em nós, fazendo-nos querer, e coopera conosco quando queremos, levando a termo a obra. Ele nos previne para nos amar; depois nos acompanha para nos conservar na salvação; previne-nos para nos chamar a si; segue-nos para nos tornar bem-aventurados com ele; previne-nos para que vivamos piedosamente; segue-nos para que vivamos eternamente com ele (1)”.

Ouvi o que diz o Senhor dos exércitos pela boca de Zacarias: “Retornai, convertei-vos a mim, ó meu povo, e eu retornarei, voltarei para vós” (Zc 1, 3). Se eu, que sou o vosso soberano juiz, me inclino em vosso favor e emprego todos os meios para não lançar contra vós a sentença de condenação; se eu, vosso Deus, ofendido pelas vossas prevaricações, suspendo a vingança e não a quero; se eu, tão fácil e pronto, me ofereço ao perdão; se eu vos curo todas as vezes que não recusais a cura, por que vos perdereis? Tendes como advogado o meu Filho feito homem e morto por vós; tendes como juiz o vosso protetor; por que, então, vos perdereis? Pecadores, não podeis resistir ao meu poder nem subtrair-vos à minha justiça; mas a minha misericórdia não vos rejeita; lançai-vos em seus braços, e então desarmareis a minha justiça, e eu vos concederei graças…

Escreve São Gregório: “Aquele Deus que repele o pecador acolhe o penitente, chama a si os seus inimigos, concede o perdão aos convertidos, anima os indolentes, consola os aflitos, instrui os ávidos, socorre os combatentes, fortalece os atribulados e atende aos que suplicam (2)”.

3. MARAVILHAS DA CONVERSÃO

“Éramos outrora, diz São Paulo, insensatos, incrédulos, enganados” (Tt 3,3); pela conversão, tornamo-nos sábios, crentes, iluminados. O pecador que, amando a terra, era terra, voltando-se para o céu pela conversão, torna-se paraíso, escreve São Jerônimo (3).

“Senhor, diz o real profeta, vós prevenistes com as bênçãos de vossa doçura o pecador que se converte e lhe colocais sobre a cabeça uma coroa de puras e fulgidíssimas gemas: ele vos pediu a vida e vós lhe destes longevidade no tempo e na eternidade” (Sl 20,3-4). “Grande é a sua glória na vossa salvação; de esplêndida beleza vós o cercais e revestis; destinai-lo às bênçãos eternas, enchei-o de alegria, manifestando-vos a ele” (Id. 5).

No coração do pecador convertido pode-se dizer que Deus desembainhou a espada, rompeu a couraça, quebrou o arco de Satanás, preservou-o do extermínio da guerra (Sl 75,3), e ele pode repetir muito bem com o Salmista: Senhor, vós abençoastes este pecador que é coisa vossa; vós o tirastes dos grilhões da escravidão do pecado. Perdoastes-lhe os delitos e lançastes no esquecimento as suas iniquidades. Aplacastes a indignação e extinguiste o ardor de vossa cólera (Sl 84,1-3). Quebrastes a rocha, e dela brotaram as águas da graça; um rio fertilizador corre agora onde pouco antes havia o deserto árido e estéril (Sl 104,40). Vós conduzis pela estrada reta os pecadores convertidos, para que caminhem rumo à cidade que vos serve de morada… Vós os tirastes das trevas e da sombra da morte, quebrastes as suas cadeias (Sl 106,7.14). “O Senhor, convertendo-me, tirou-me do abismo das minhas misérias, de um lamaçal” (Sl 39,2); “libertou a minha alma da morte, enxugou de meus olhos o pranto e retirou meus pés do abismo: esforçar-me-ei por agradar ao Senhor na terra dos vivos” (Sl 114,8-9).

“Senhor, dizia a Esposa dos Cânticos, atraí-me ao odor de vossos perfumes; nós vos seguiremos” (Ct 1,3). O Senhor tira do vício o pecador que se converte, recondu-lo à virtude; leva-o da ignorância à fé, da carne ao espírito, da tibieza ao fervor, da justificação à perfeição, dos atos fáceis e comuns às ações mais excelentes e heroicas, da terra ao céu, do temor ao amor, do amor dos prazeres ao amor da cruz e da mortificação, etc…. Ó Deus! Quantos prodígios, quantas maravilhas numa conversão sincera…

“Sou negra, mas bela” (Ct 1,4), diz a Esposa dos Cânticos. A alma pecadora é negra; mas torna-se bela pela conversão e pela penitência…

O pecador é um escravo acorrentado, lemos no livro da Sabedoria (Sb 10,14); mas, no momento de sua conversão, Deus lhe quebra os ferros; põe-lhe na mão um cetro real; dá-lhe poder sobre os demônios, que antes haviam sido cruéis para com ele, e assegura-lhe uma glória eterna.

As trevas desapareceram, e agora a verdadeira luz brilha na alma do pecador convertido; podemos dizer com São João (1Jo 2,8). Eu estava morto, pode também dizer o pecador convertido, mas agora estou vivo e tenho as chaves da morte e do inferno (Ap 1,18). Vejo um novo céu e uma nova terra (Ib. 21,1). A obra da criação do mundo em seis dias é o emblema da obra da conversão e da justificação do pecador. No primeiro dia, diz o Senhor: Resplandeça a luz da minha graça nesta alma que jaz nas trevas, e a luz se fez. No segundo, faz-se o firmamento, isto é, a alma se eleva acima das coisas terrenas. No terceiro, aparece a terra e é separada das águas; o pecador já não está submerso no oceano da concupiscência, mas torna-se terra fértil que produz frutos de salvação eterna. No quarto dia, o sol toma o seu lugar na criação; a caridade apodera-se do coração; a lua e os astros, isto é, a fé e as virtudes, nele resplandecem. No quinto, nascem os peixes e as aves: o pecador convertido nada à vontade nas águas da misericórdia divina; feito águia para voar ao céu, lança o seu voo em direção às montanhas da perfeição. Finalmente, o sexto dia, que viu o primeiro homem e, nele, toda a sua descendência criada à imagem de Deus, vê o pecador tornar-se a imagem perfeita, a cópia genuína e viva de seu Criador; por fim, o convertido repousa no Senhor, tanto pela submissão absoluta de sua vontade à vontade de Deus quanto pela paz que goza na posse do Senhor.

Pela conversão, Deus transforma o coração estreito, fraco, vil, escravo e corrompido, etc., num coração generoso, forte, nobre, real e santo, etc…. “Abandonado à cólera do Deus onipotente enquanto persevera no pecado, o pecador, pela sua conversão, é elevado a uma glória suprema; o grande Deus reconcilia-se com ele”, diz a Escritura (2Mc 5,20).

“Senhor, dizia Santo Agostinho (4), vós me chamastes, gritastes e rompestes a minha surdez; enviastes relâmpagos e esplendores, e a minha cegueira foi dissipada; inflamastes-me, e senti a vida retornar em mim, e suspiro por vós: provei-vos e sinto-me faminto e sedento de vós; tocastes-me, e ardo de desejo pela vossa paz”.

Deus virá e salvará o pecador, diz Isaías, e então sim, abrir-se-ão os olhos deste cego e desimpedir-se-ão os ouvidos deste surdo; o coxo se tornará veloz como o cervo, o mudo, eloquente, porque as águas brotarão no deserto de seu coração. Esta terra tão árida transformou-se em lago: as fontes da graça irrigam este coração ressequido; onde rastejavam as serpentes, reina a verdura dos caniços e dos juncos, isto é, das virtudes; ali está a via santa pela qual já não passam nem o impuro nem o insensato. Nela não entra nem leão nem fera, porque é o caminho dos homens que foram libertados (Is 35,4-9). O Senhor consolará Sião, reparará as suas muralhas; os seus desertos converter-se-ão em lugares de delícias, a solidão será transformada num novo Éden. Tudo ali exalará alegria e júbilo; ouvir-se-ão ressoar os cânticos de louvor e de ação de graças (Id. 51,3).

Convertei-vos, filhos rebeldes, diz Deus pela boca de Jeremias; retornai a mim, que sou vosso pai, e eu vos introduzirei em Sião. Convertei-vos, filhos rebeldes, e eu vos curarei (Jr 3,14.22). Corrigi as vossas obras e os vossos pensamentos, e eu virei estabelecer em vós a minha morada (Id. 7,3). Então vos aliviarei do jugo de vossos inimigos, quebrarei os vossos grilhões e já não sereis servos de estrangeiros, mas do Senhor vosso Deus. Eu vos libertarei de uma terra distante, da terra do cativeiro, e vós retornareis e repousareis na abundância de todos os bens, sem temer pessoa alguma. Eu enfaixarei a vossa ferida e cicatrizarei o vosso ferimento (Id. 30,8.10.17).

Ouvi as palavras consoladoras de São Bernardo: Cremos e ensinamos que uma alma, ainda que carregada de vícios, enredada nos pecados, acostumada aos prazeres pecaminosos, prisioneira, exilada, acorrentada em seu corpo, atolada na lama, pregada à carne, atormentada por cuidados, brinquedo do erro e da mentira, joguete do desespero, conspurcada, morta, antecipadamente condenada ao inferno, pode, contudo, sempre entrar novamente em si mesma e não apenas conceber a esperança do perdão e da misericórdia, mas converter-se e aspirar às núpcias do Cordeiro. Não, não tema fazer aliança com Deus; não tema curvar-se ao suave jugo do amor divino (Serm. 73, in Cantic.).

Há muitíssimos exemplos de penitentes que se tornaram grandes santos: Santa Maria Madalena, Santa Maria Egipcíaca, Santa Pelágia, Santa Taís, São Paulo, Santo Agostinho etc. Deus retirou essas almas do lodo das paixões; desposou-as consigo e fez delas anjos terrenos, cumprindo-se a palavra de Baruc: “Deus os conduzirá, levados sobre um trono de honra, como filhos do reino” (Br 5, 6).

Eis aqui nove dons inestimáveis que Deus promete, pela boca de Ezequiel, ao pecador que se arrepende e se converte. 1º Derramará sobre ele água pura, e ele será purificado de toda imundície (Ez 36, 25). 2º Dar-lhe-á um coração novo (Ib., 26). 3º Tirar-lhe-á o coração de pedra e lhe dará em lugar dele um de carne (Ib.). 4º Porá nele o seu Espírito (Ib. 27). 5º Fará que caminhe pelo caminho de seus preceitos, observe e pratique suas ordens e abunde em toda espécie de virtudes e boas obras (Ib.). 6º Dar-lhe-á habitar a terra de seus pais, isto é, permanecer na Igreja em paz, na alegria, na abundância dos bens espirituais, e finalmente partir para o céu (Ib. 38). 7º Ele será povo de Deus (Ib.). 8º Deus será seu protetor, sua providência, sua mãe, seu rei, seu guia, seu defensor, sua recompensa; ocupará para ele o lugar de todo outro bem (Ib.). 9º Fará dele, de terra inculta e estéril, um jardim de delícias (Ib. 35).

O mesmo profeta conta ainda que o Senhor o fez um dia transportar-se em espírito para o meio de um campo semeado de ossos secos e reduzidos a pó, e lhe disse: Filho do homem, vivem estes ossos? E ele: Vós o sabeis, ó Senhor Deus. E este lhe disse novamente: Profetiza sobre estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra de Deus. Ao ouvirem essas palavras, o espírito entrou neles e eles reviveram. Então o Senhor lhe acrescentou: Filho do homem, estes ossos representam a casa de Israel. Seus filhos vão dizendo: Nossos ossos secaram, nossa esperança desvaneceu-se, fomos arrancados daqui. Por isso, profetizando, dize-lhes: Ouvi o que vos anuncio, eu, o Senhor Deus: Abrirei vossas sepulturas, tirar-vos-ei de vossos túmulos e vos conduzirei à terra de Israel. E, quando eu fizer isso e derramar sobre vós o meu espírito, e vós viverdes, e vos fizer repousar em vossa terra, sabereis que eu, o Senhor, falei e cumpri a minha palavra (Ez 37, 1-14). Pois bem, todos esses prodígios se realizam, e de modo ainda mais maravilhoso, na alma do pecador que se converte…

“Eu caí, mas me levantarei; quando andar tateando nas trevas, Deus se fará minha luz” (Mq 7, 8). “Deus voltará e terá compaixão de mim, despojar-me-á de minhas culpas e precipitará todos os meus pecados no fundo do abismo” (Ib. 19).

“Se retornardes ao Todo-Poderoso, diz Jó, ele vos elevará, e vós afastareis a iniquidade de vossa casa” (Jó 22, 23).

“Lavai-vos, diz ainda o Senhor pela boca de Isaías; purificai-vos, afastai de meus olhos a malícia de vossos pensamentos, cessai de praticar a injustiça; aprendei a fazer o bem, amai a justiça, socorrei o oprimido, protegei o órfão, defendei a viúva. Depois vinde a mim e acusai-me, se a vossa alma, carregada de pecados e mais vermelha que o escarlate e o cinábrio, não se tornar mais branca que a neve, mais cândida que a mais cândida lua” (Is 1, 16-18). Quantas maravilhas numa verdadeira conversão!

4. A CONVERSÃO DO PECADOR É A MAIOR DAS GRAÇAS, O MAIS ESTUPENDO DOS MILAGRES

“Aquele que se purificar, escrevia São Paulo, será um vaso de honra, santificado e útil ao Senhor, apto e pronto para toda boa obra” (2Tm 2, 21).

Ó milagre! exclama Santo Agostinho; ó misericórdia! Vede e maravilhai-vos: ontem este homem era um glutão, hoje é um modelo de sobriedade; ontem, uma cloaca de impureza, hoje, uma flor de modéstia; ontem, um blasfemador, hoje, um louvador de Deus; ontem, escravo das criaturas, hoje, fiel servo do Criador (In Psalm. LXXXVIII). Ontem, uma fera; hoje, um cordeiro; ontem, escarnecia, insultava, maltratava e amaldiçoava os pobres; hoje, respeita-os, honra-os, ama-os, cuida deles, abençoa-os, despoja-se a si mesmo para vesti-los. Vede que estupendos e incríveis milagres: quem os produz? A graça onipotente da conversão.

O que eram os apóstolos antes de receberem o Espírito Santo? … Eis que, de repente, no dia de Pentecostes, ouve-se um ruído no ar, e várias chamezinhas em forma de línguas de fogo são vistas descendo sobre o cenáculo onde estavam reunidos e pousando sobre cada um deles; e eles ficaram cheios do Espírito Santo (At 2, 2-4). Que artífice é o Espírito Santo! exclama São Gregório: instrui num instante e ensina tudo o que quer. Assim que toca a inteligência, ilumina-a; seu simples contato é a própria ciência. Desde o instante em que ilumina, muda o coração, de modo que este renuncia imediatamente aos afetos terrenos e já não é o mesmo de antes. Consideremos em que estado encontra os apóstolos e o que faz deles! Pedro, que tremia diante da voz de uma criada e renegava seu mestre, exulta sob os açoites, entre as cadeias, nas prisões; ele é mais forte que todo o mundo (In Act. Ap.).

Saulo sopra ameaças e anseia por massacre; Jesus Cristo lhe diz: Por que me persegues, ó Saulo? E ele, prontamente: Que quereis, Senhor, que eu faça? (At 9, 4-6). “Já está pronto a obedecer, observa Santo Agostinho, aquele que fremia de raiva e ardia no desejo de perseguir; já o algoz se converte em defensor; o lobo torna-se cordeiro; o adversário faz-se intrépido advogado (5).

À imitação de Satanás, Saulo nada mais procurava que a morte e o extermínio dos fiéis; transformado em Paulo, torna-se modelo de todas as virtudes, e nada mais lhe importa senão a glória de Deus e a salvação das almas. Pouco antes, jurava apagar o nome de Jesus Cristo e exterminar o Cristianismo; agora ei-lo desejoso de dar a vida pelos crentes em Jesus Cristo, de expor-se a viagens penosas, trabalhos, perseguições, fome, sede, prisões, cadeias, flagelos, naufrágios, perigos, suplícios e mil mortes, para estender o reino de Jesus Cristo e da Igreja; de tal modo que parecia transformado em Jesus Cristo e podia dizer: “Cristo é a minha vida, e morrer é para mim um ganho” (Fl 1, 21). “Eu vivo, mas já não sou eu; é Jesus Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Eu mostrarei a Paulo, disse Jesus Cristo, quanto lhe será necessário sofrer por meu nome (At 9, 16). “O Cordeiro morto por suas ovelhas, diz Santo Agostinho, transforma em cordeiro Paulo, que era um lobo. E aquele que empregava todo o seu poder para apagar o nome de Jesus deve agora sofrer para manter a honra desse nome; ó castigo misericordioso! (6)”. Paulo é prostrado e convertido; recupera prontamente a vista e fica cheio de força; prega Jesus Cristo… “Não se envergonha de sua mudança, observa o Crisóstomo (7), nem hesita em renunciar àquilo que antes constituía a sua glória”.

A conversão dos povos pagãos, qualquer que seja o aspecto sob o qual a consideremos, é um dos mais estupendos milagres. É um grande, ou melhor, o maior dos milagres, 1° se olharmos para o sujeito: pois quem são aqueles que se submetem à cruz de Jesus Cristo? São homens orgulhosos, carnais, cruéis, bárbaros, indisciplinados…; 2° se considerarmos os motivos que a determinam: pois a conversão e a santidade cristã consistem na mortificação dos sentidos e das paixões, na humildade, na castidade, na paciência, no amor aos inimigos e em outras virtudes repugnantes à natureza corrompida…; 3° se atentarmos para os instrumentos: pois é obra de doze pecadores pobres, desprezíveis, ignorantes, grosseiros, sem ouro, sem relações e sem eloquência…; 4° se considerarmos o fim: pois teve por finalidade não a glória terrestre, mas a celeste; tende-se ao céu contrariando as inclinações da natureza, pelo caminho das cruzes, das provações e das privações de toda espécie… Esses milagres se repetem na conversão de cada indivíduo. Por isso, o Venerável Beda, explicando o sétimo capítulo do Evangelho de São Lucas, onde se narra como Jesus expulsou um demônio do corpo de um mudo, escreve assim: “Três milagres aconteceram nesse homem: era cego e viu; mudo e falou; possesso e foi libertado. Esses três milagres acontecem todos os dias na conversão dos pecadores: o demônio é expulso, eles recebem a luz da fé e sua boca, antes muda, abre-se para louvar a Deus (8)”.

Mais insigne milagre é, diz São Gregório, converter um pecador por meio do ensinamento e da oração do que ressuscitar um morto: pois o morto não opõe obstáculos à sua ressurreição, ao passo que o pecador endurecido opõe aos esforços do apóstolo a sua perversa vontade (9). “A justificação do ímpio, diz Santo Agostinho, é obra maior, mais difícil e mais divina do que a própria criação do universo” (10).

“Como é grande, exclama o Eclesiástico, como é imensa a misericórdia do Senhor e a clemência com que Ele se comporta para com aqueles que se convertem a Ele!” (Eclo 17, 28). Essa misericórdia não se pode nem conceber nem expressar, porque é infinita…

Quereis formar uma ideia da imensidade da misericórdia divina para com o pecador a quem perdoa? 1° Meçais a grandeza dos suplícios do inferno que o pecador mereceu…; 2° considerai a vileza e as misérias do homem que ofende a Deus e pensai que a misericórdia divina as absorve como o mar absorve uma gota de chuva: o abismo de nossa miséria invoca o abismo da misericórdia…; 3° pesai a multidão e a enormidade das faltas que o homem cometeu e considerai que a misericórdia as ultrapassa infinitamente, não somente porque apaga a mancha por elas impressa na alma e a injúria feita a Deus, mas ainda, e sobretudo, porque lhes substitui a graça e a amizade de Deus, porque torna o pecador filho e herdeiro do Pai e lhe assegura a glória eterna. Além disso, a graça da conversão remite sempre ao penitente, primeiro uma parte e depois toda a pena devida ao pecado. Digamos, pois, com o Salmista: “As misericórdias do Senhor estão acima de todas as suas obras” (Sl 144, 9).

Ó misericórdia infinita de Deus! diz o Crisóstomo; quando o mundo inteiro gemia sob o jugo do pecado, veio o Criador do universo e afastou as causas do pecado, ou melhor, eliminou-as, para que ninguém doravante desesperasse da própria salvação. Se sois ímpio, pensai no publicano; se luxurioso, representai-vos o perdão concedido à adúltera; se homicida, olhai para o ladrão suspenso na cruz; se manchado de crimes, lembrai-vos de Paulo pecador, primeiro cruel inimigo de Jesus Cristo, depois pregador do Evangelho; primeiro coberto de pecados, depois dispensador das graças de Deus; primeiro ervilhaca, depois trigo escolhido; primeiro lobo furioso, depois pastor do rebanho fiel; primeiro vil chumbo, depois ouro puro; primeiro pirata, depois admirável piloto. Que é o pecado diante da misericórdia divina? Uma teia de aranha que um sopro de vento basta para levar embora (11).

Quem não admirará, diz Cassiano, a obra miraculosa de Deus na conversão dos pecadores e não exclamará: Eu soube que Deus é grande quando o vi fazer de um avarento um pródigo, de um voluptuoso um casto, de um orgulhoso um humilde, de um ser fraco e frágil um homem mortificado e um soldado intrépido, de um amigo dos confortos e da opulência um penitente que jejua e se priva de tudo para aliviar o pobre? Eis, certamente, as obras mais admiráveis de Deus; eis os maiores prodígios que Ele realizou sobre a terra (Lib. Iustif.).

5. QUANTA CONSOLAÇÃO A CONVERSÃO DO PECADOR PROPORCIONA AO CÉU, À IGREJA E AO PRÓPRIO PECADOR

Qual de vós, dizia Jesus Cristo, tendo cem ovelhas, se perder uma delas, não deixa as noventa e nove e vai em busca da perdida até encontrá-la? E, tendo-a encontrado, coloca-a sobre os ombros e a leva todo jubiloso para o redil; e, reunindo os amigos e os vizinhos, diz: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a ovelha que estava perdida. Pois eu vos digo que haverá maior alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não necessitam de penitência (Lc 15, 4-7).

“Reanima-me no Senhor”, escrevia São Paulo a Filêmon, “enche o meu coração de alegria” (Fm 20). Isso acontece quando um pecador se converte: Deus se alegra, os anjos fazem festa, o céu exulta, a Igreja, terna mãe, derrama lágrimas de consolação; à semelhança do pai do filho pródigo, acolhe esse filho transviado, abraça-o, estreita-o contra o peito, despe-o dos trapos, veste-o com esplêndidas roupas, prepara um lauto banquete e exclama: Meu filho estava morto e ressuscitou; eu o havia perdido e o reencontrei (Lc 15, 24). Pecando e prejudicando a si mesmo, o homem entristece a Igreja; convertendo-se, enche de consolação o coração dessa terna mãe, assim como o retorno do filho pródigo alegrou o coração do pai.

A tranquilidade reina na alma do pecador que se corrige de seus extravios, e Deus inunda-lhe o coração com as doçuras da paz (Sl 75,2; 84, 8-9). O Senhor enche a alma que se esvaziou das coisas do mundo; sacia de bens a alma faminta e desejosa de voltar à graça de seu Deus (Sl 106, 9). Quando o Senhor liberta uma alma da escravidão do pecado, faz chover sobre ela a alegria e o contentamento (Sl 125, 1). Sim, no momento da conversão, o Senhor consola a alma, restaura nela todas as ruínas, transforma-a de deserto em jardim fértil; inspira-lhe a alegria, a ação de graças e os cânticos de louvor (Is 51, 3). Naquele instante, o pecador clama com Santo Agostinho: “Tarde demais te amei, ó beleza sempre nova e sempre antiga!” (Confess.).

Homens cegos, que apodreceis no vício, que buscais vossa felicidade nos estultos prazeres da carne e do mundo, ah! — se conhecêsseis os dons de Deus, as castas e incomparáveis delícias que saboreia um coração que renuncia ao mundo e aos seus prazeres enganadores, que se consagra a Jesus Cristo mediante uma sincera conversão! Ó Deus, como vos pareceriam então vis e desprezíveis o mundo, suas alegrias, suas riquezas e suas honras! Clamaríeis com o rei profeta: “Mais vale, ó Senhor, um dia passado nos átrios de vossos tabernáculos do que mil gozados nos aposentos dos pecadores” (Sl 83, 10). O pecador reconciliado com Deus pode repetir com São Paulo: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem a mente do homem imaginou o que Deus reserva àqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

O mundo corrompido e os pecadores endurecidos não entendem nem um iota dessas inefáveis consolações. Eles, como os animais que são, não saboreiam, diz São Paulo, senão as coisas animais, estando fechados às de Deus (1Cor 2, 14). O Pai celeste, diz Jesus Cristo, esconde essas maravilhas aos sábios e prudentes do mundo e as revela aos pequeninos (Mt 11, 25). Mantém-nas ocultas aos pecadores soberbos que não querem converter-se, mas manifesta-as aos pecadores que se humilham e pedem graça.

6. CONVERTER-SE É FÁCIL

Um pecador que se recusa a converter-se é, segundo diz o Apóstolo, sem Deus e sem Jesus Cristo; aquele, ao contrário, que deseja e ama a própria conversão está em Jesus Cristo; estava longe de Deus e aproxima-se dele pelo sangue do Salvador (Ef 2, 12-13).

Dos primeiros fiéis se diz nos Atos dos Apóstolos que “uma grande graça estava em todos eles” (At 4,33). Não temos nós, porventura, as mesmas graças para nos converter? Ah! As graças não nos faltam; somos nós que faltamos à graça. Temos a doutrina, a palavra de Deus, sua lei, suas inspirações, os sacramentos, os remorsos etc. Ah! não permaneçamos cegos, nem surdos, nem mudos, e convertamo-nos… Imitemos os tessalonicenses, os quais haviam aproveitado tão bem as graças que lhes foram trazidas por São Paulo, que este lhes pôde escrever: “Vós mesmos sabeis que a nossa chegada entre vós não foi sem fruto” (1Ts 2,1).

“A graça de Deus, nosso Salvador, escrevia o grande Apóstolo a Tito, manifestou-se a todos os homens, para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões do século, e a viver no mundo com temperança, piedade e justiça” (Tt 2,11-12). Basta ter vontade de se converter… Quem quer, pode…

7. NÃO SE DEVE PROCRASTINAR A CONVERSÃO

“Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não endureçais os vossos corações” (Sl 94,8). Assim fez o filho pródigo, o qual, tão logo disse: “Eu me levantarei e irei ter com meu pai”, imediatamente se pôs em movimento e partiu (Lc 15,20).

“Sabemos, escrevia São Paulo aos romanos, que o tempo urge e que já é chegada a hora de despertarmos do sono” (Rm 13,11); e aos coríntios: “Nós vos suplicamos, em nome de Jesus Cristo, que vos apresseis em reconciliar-vos com Deus” (2Cor 5,20). “Exortamo-vos a não receber em vão a graça de Deus; pois ele mesmo nos disse: Eu vos ouvi no tempo favorável, socorri-vos no dia da salvação. Eis agora o tempo favorável, eis os dias da salvação… Purifiquemo-nos, pois, prontamente, de toda mancha do corpo e do espírito” (Ib. 6,1-2; 7,1). Depois, aos efésios: “Despertai, vós que dormis, levantai-vos dentre os mortos, e Jesus Cristo vos iluminará” (Ef 5,14). Finalmente, escreve aos hebreus: “Exortai-vos mutuamente cada dia, enquanto durar aquilo que a Escritura chama o Hoje, para que nenhum de vós, seduzido pelo pecado, caia no endurecimento” (Hb 3,13).

“Levanta-te e sai prontamente daqui”, disse o Anjo a Pedro, que estava acorrentado na prisão; Pedro se levantou, e as cadeias caíram-lhe das mãos (At 12,7). Porque Pedro se levanta à primeira intimação que lhe é feita, eis que se quebram os grilhões, abre-se de par em par a prisão; calça as sandálias, cinge-se, toma o manto, segue o Anjo, passa pela primeira e pela segunda guarda; a porta de ferro gira sobre os seus gonzos, e ele se vê na cidade. Voltando a si, reconhece que o Senhor lhe enviou o seu Anjo e o libertou das mãos dos seus inimigos. Tudo isso se renova no pecador que não adia a sua conversão. Caem despedaçadas as cadeias de seus pecados e de sua escravidão, abre-se a prisão do Inferno, e dela sai a vítima; ele calça as sandálias da verdade, cinge-se com o cinturão da pureza, reveste-se da graça de Jesus Cristo; ouve e segue o seu Anjo da guarda, os santos pensamentos, as salutares inspirações; supera os obstáculos do mundo e da concupiscência; cede a porta do endurecimento, e ele parte rumo à cidade eterna. Reconhece a mão e a bondade de Deus; enche-se de gratidão. Está livre de seus inimigos, chegou a Deus e, como Pedro, proclama as maravilhas da misericórdia divina.

É preciso imitar Davi, que assim dizia: “Eu o disse; e agora começo a minha conversão, retorno sem demora ao meu Deus; esta mudança é, na verdade, obra da mão de Deus” (Sl 76,10).

Poder-se-ia dizer, embora em outro sentido, ao pecador que adia a sua conversão aquilo que Alexandre, bispo de Alexandria, dizia a Santo Atanásio, que, por temor e humildade, fugia do episcopado: “Atanásio, vós fugis, mas não escapareis”. — Pecadores, vós fugis de Deus, que vos chama e quer o vosso retorno a ele; pois bem, não fugireis de Deus vingador, que vos julgará e condenará. — Jesus Cristo bate agora à porta do vosso coração; quer entrar nele para purificá-lo, enchê-lo de graças e fazer dele um paraíso; ah! abri-lhe este coração enfermo, imundo e repugnante; talvez amanhã seja tarde demais…

Saulo, Saulo, por que me persegues? Quem sois vós, Senhor? Eu sou Jesus de Nazaré, a quem persegues. Senhor, que quereis que eu faça? Levanta-te, vai a Damasco, e lá te será indicado o que deves fazer… E agora, por que esperar mais, ó Saulo?, disse-lhe Ananias. Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o Senhor (At 22,7-8, 10, 16). Pecadores, Deus vos diz, como a Saulo: Por que me perseguis? E vós tende a prontidão de vontade daquele novo convertido e clamai: Que quereis, Senhor, que façamos? Um caridoso Ananias vos dirá: Levantai-vos do sepulcro dos vossos pecados, recebei o batismo da penitência, purificai-vos das vossas iniquidades, invocando o Deus que perdoa… Pecadores, diz o Eclesiástico, tende compaixão da vossa alma, tornando-vos agradáveis a Deus por meio de uma pronta e sincera conversão (Eclo 30,24).

“É, na verdade, grande insensatez e crueldade, escreve São Bernardo, não ter compaixão de si mesmo e recusar a confissão, que é o único remédio depois do pecado; grande insensatez, conservar no seio o fogo que vos devora, em vez de afastar dele as primeiras faíscas; grande estupidez, não dar ouvidos ao sábio que vos aconselha a ter piedade de vossa alma, procurando agradar a Deus. Ora, será bom para os outros aquele que é cruel consigo mesmo? (12)”.

Quem quer dar esmola, diz Santo Agostinho, comece por si mesmo. Deus, em sua infinita bondade, não só nos aconselha, mas nos suplica que saiamos do triste estado do pecado mortal. Ouçamo-lo, para que mais tarde, no dia do juízo, ele não queira mais nos ouvir.

Ouçamo-lo, pois ele nos clama pela boca do profeta: Tende piedade de vossa alma, agradando a Deus. Que respondereis a este insistente convite? Deus vos suplica que tenhais piedade de vós mesmos, e vós recusais? Ele vem defender a vossa causa junto de vós, e nada pode obter? Como dará ouvidos às vossas orações quando o suplicardes no dia do juízo, se recusais ouvi-lo agora, quando vos pede que tenhais piedade de vós mesmos? (13).

Ah! pecadores, entrai em vós mesmos (Is 46,8). Levantai-vos, recuperai a vossa primeira força, revesti-vos dos vossos gloriosos trajes (Ib. 52,1).

Levantai-vos, purificai-vos, tirai de meus olhos a maldade de vossos pensamentos: cessai da iniquidade e do pecado (Is 1, 16).

Ouvi o Senhor que vos brada: “Meu filho, não desprezes a ti mesmo em tua enfermidade, mas roga ao Senhor, e ele te curará” (Eclo 38, 9).

“Buscai o Senhor enquanto ele pode ser encontrado; invocai-o enquanto está perto” (Is 55, 6). “Observai, diz São Bernardo, comentando estas palavras de Isaías, que são três as causas que costumam impedir de encontrar a Deus aquele que o busca: isto é, não o buscar quando, ou como, ou onde convém (14).” “Ah! Levanta-te do chão, ó Jerusalém, desprende-te das cadeias de teu cativeiro, senta-te no trono, ó filha de Sião; pois isto diz o Senhor: fostes vendidos por nada e sereis resgatados sem que tenhais de gastar um só centavo (Is 52, 2-3). Deixe o ímpio o seu caminho e o iníquo os seus perversos desígnios; voltem ao Senhor, e ele terá compaixão deles; voltem ao seu Deus, que é rico em misericórdia” (Is 55, 7).

Coragem, ó pecadores, que até agora estivestes sepultados nas trevas do pecado e do esquecimento de Deus, que dormistes sobre os pecados, que estivestes encerrados na prisão do demônio e sujeitos à escravidão do inferno. Vamos! Sacudi-vos deste letargo, levantai-vos, saí desta prisão; abri os olhos, recebei a luz de Deus e da graça. Despertai, erguei a cabeça, abraçai-vos a Jesus Cristo, vosso Salvador, que vos oferece o uso da vista, da liberdade e da alegria. Sede iluminados, recebei como um espelho a luz da fé, do arrependimento e da graça, para que sejais transformados e, pela mudança de vida e pelos vossos bons exemplos, vos torneis novamente astros esplêndidos.

“Despede, ó Jerusalém, diz o profeta Baruc, o luto e veste o traje de gala, de alegria e de glória eterna que te vem de Deus” (5,1). “O Senhor te revestirá do manto da justiça e porá sobre tua cabeça um diadema de honra eterna” (5,2).

“Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (Jn 3,4). Importa, pois, apressar-se. A exemplo dos ninivitas, cessai de pecar, fazei penitência… Então Deus retirará suas ameaças e vos perdoará… Dai ouvidos ao que vos anuncia pela boca de Ezequiel: “Convertei-vos e fazei penitência de todo pecado, e vossas iniquidades não mais serão para vós causa de ruína” (Ez 18,30).

8. PERMANECER NO PECADO É COISA DEPLORÁVEL

Pecadores, que deveríeis estar mortos para o pecado, como é que vos obstinais em pecar? (Rm 6, 2). Ah! Em vez de continuardes pelo caminho do mal, de perseverardes no pecado, considerai atentamente quão danosa e amarga coisa é ter abandonado o Senhor, vosso Deus (Jr 2, 19): reconhecei e confessai com Santo Agostinho a vossa desgraça de não terdes amado mais cedo o vosso Deus, beleza sempre nova e sempre antiga.

Se o justo abandona o caminho do bem e se entrega aos braços das abominações do ímpio, porventura viverá?, diz Deus pela boca de Ezequiel: não; antes, serão esquecidas todas as boas obras que ele fez, e morrerá na prevaricação em que caiu, no pecado que cometeu (Ez 18, 5). Se o justo que cai e não se levanta está perdido, que sorte caberá àquele que sempre foi e quer ser pecador? E como! Perseverar na inimizade de Deus, na escravidão, na morte da alma, perder o céu e assegurar para si um inferno eterno! … “Quem vive no pecado não vive, diz Santo Agostinho. Morra para a culpa, para que não morra para a eternidade; converta-se, para que não se condene (15)”.

9. É PRECISO DEIXAR O PECADO

Para converter-se, é preciso renunciar ao pecado e desapegar-se dele. A morte nos separa de tudo; ora, a conversão, que é a morte do pecado, deve separar-nos do pecado. “Do mesmo modo que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, escreve o grande Apóstolo, assim também nós devemos viver uma vida nova. Considerando que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja destruído o corpo do pecado e não sejamos mais escravos da culpa, porque quem morreu está liberto do pecado. Considerai-vos também vós mortos para o pecado e vivos somente para Deus no Senhor Jesus Cristo” (Rm 6, 4-7, 11).

São Próspero, comentando estas palavras, deixou escrito: Que significa morrer para o pecado? Nada mais que não viver já de ações reprováveis, não mais afagar a carne, não cobiçar nem invejar coisa alguma, ser, em suma, como um corpo morto. Um morto não fala mal de ninguém, não despreza pessoa alguma, não guarda ódio, não faz mal, não é invejoso, não procura induzir outros ao pecado, não zomba dos aflitos, não se entrega à gula, não obedece à luxúria (In Sent.).

“Assim como fizestes servir os vossos membros à impureza e à injustiça para cometer a iniquidade, assim fazei-os agora servir à virtude para vos tornardes santos” (Rm 6, 19). “Lancemos para longe de nós as obras das trevas e empunhemos as armas da luz. Revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13, 12-14).

“Tirai de vós, dizia o mesmo Apóstolo aos Coríntios, o velho fermento, para que sejais uma nova massa” (1Cor 5, 7). “Formado da terra, o primeiro homem é terreno; vindo do céu, o segundo homem é celeste. Ora, assim como trouxemos a imagem do homem terreno, tragamos também a imagem do homem celeste” (1Cor 15, 47-49). “Jesus Cristo morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles” (2Cor 5, 15). “Se, portanto, alguém está em Cristo, é uma nova criatura: o que havia nele de velho desapareceu, tudo é novo” (2Cor 5, 17).

Por isso, exortava os efésios a despir o homem velho, segundo o qual haviam outrora vivido, e que se corrompe seguindo a ilusão

das próprias paixões; a renovarem-se no interior de sua alma e a vestirem o homem novo, que é criado à semelhança de Deus, na verdadeira santidade e justiça (Ef 4, 22-26). A mesma coisa repetia aos colossenses, escrevendo-lhes: “Rejeitai agora também vós tudo isso (isto é, os vários pecados que enumera em seguida)” (Cl 3, 8). “Despi-vos do homem velho e de suas obras, e revesti-vos do novo” (Ib. 9-10).

“Jesus Cristo morreu, escreve Santo Anselmo, para que morramos para o pecado; e ressuscitou para que ressuscitemos para as obras de justiça (16).” Quem quer converter-se, diz São Jerônimo, deve, à imitação de Abraão, sair da terra em que habitava, que é o seu corpo; deixar sua parentela, abandonar os caldeus, que são os demônios, e habitar a região espiritual, a terra da virtude (Comment.). E, de modo admirável, São Bernardo: Há dois homens, o velho e o novo, Adão e Jesus Cristo; aquele é terrestre, este celeste. A velhice nos representa Adão; a novidade, Jesus Cristo. Há, além disso, uma tríplice velhice e uma tríplice novidade ou juventude, porque há a velhice do coração, da língua e da carne; e pecamos de três maneiras: em pensamentos, em palavras e em obras. No coração aninham-se os desejos carnais e terrenos, o amor do século; na boca afiam-se a jactância e a maledicência; na carne germinam a concupiscência e o pecado. Tudo isso forma a imagem do homem velho, e tudo deve ser renovado. O coração renova-se, excluindo dele os desejos terrenos e carnais e introduzindo nele o amor de Deus e da pátria celeste. A jactância e a maledicência devem ceder lugar à confissão sincera dos pecados em que caímos e ao louvor do próximo. A concupiscência e os delitos, velhice do corpo, devem desaparecer por sua vez diante da continência e da inocência, de modo que essas virtudes aniquilem os vícios que lhes são contrários (Serm. XXX). E o mesmo santo escreve em outro lugar: “Assim como o velho Adão ocupou o homem inteiro e se difundiu por todos os seus membros, assim agora o possui inteiramente aquele Cristo que o curou todo, o resgatou todo e o glorificará todo (17).”

“Lançai para longe de vós, dizia Ezequiel, todas as vossas iniquidades com que vos maculastes e fazei-vos um coração novo e um espírito novo” (Ez 18, 31). Afasta-te do mal, diz o Eclesiástico; dirige tuas mãos e purifica teu coração de toda espécie de iniquidade” (Eclo 38, 10). Vê-se, portanto, que o Senhor exige três coisas para que uma conversão seja perfeita: 1° que se remova o pecado, isto é, que se afaste dele o espírito e se tome a resolução de não mais pecar; 2° que se regulem as mãos para fazer boas ações; 3° que se purifique o coração de toda iniquidade por meio da contrição e da confissão.

Em suma, tudo em nós seja novo: os corações, as palavras e as obras (Hymn. in Fest. Corp. Christi). Então poderemos repetir com o Salmista: “Vós, Senhor, arrancastes minha alma da morte e preservastes meus pés da queda, para que eu caminhe diante de vós na luz dos vivos” (Sl LV, 13).

10. DEUS DESEJA A CONVERSÃO DO PECADOR E LHE DÁ A SUA GRAÇA: O PECADOR DEVE, DE SUA PARTE, DESEJAR A PRÓPRIA CONVERSÃO E COOPERAR COM A GRAÇA

A Santíssima Virgem e São José, tendo perdido Jesus Cristo, voltaram a Jerusalém e, encontrando-o ali no meio dos doutores, sua mãe lhe disse: “Eis que teu pai e eu, aflitos, andávamos à tua procura” (Lc 2, 4.8). A alma que perdeu Jesus Cristo deve procurá-lo: 1° com a dor e as lágrimas de um coração contrito; 2° com grande solicitude e um zelo incansável; 3° entre os doutores, isto é, entre homens instruídos e piedosos…

As duas asas com que a alma vai a Jesus Cristo são a inteligência iluminada por Deus e a vontade por ele estimulada e fortalecida…

“Renunciando, diz o apóstolo São Tiago, a toda imundície e desordem, recebei com docilidade a palavra enxertada em vós e que pode salvar as vossas almas” (Tg 1, 21). É preciso cortar o rebento silvestre que há em nós e enxertar nele o ramo cultivado, que é Jesus Cristo e a virtude. Esse enxerto lançará raízes com o auxílio da seiva divina da graça e dos santos desejos.

“Quebremos as cadeias do pecado e lancemos para longe de nós o jugo de Satanás” (Sl 2, 3). Gritemos com o Salmista: “Tende piedade de nós, Senhor, segundo a vossa grande misericórdia, e segundo a multidão das vossas graças, apagai os nossos pecados. Lavai-nos cada vez mais de nossas imundícies e de nossas culpas” (Sl L, 1-3). “Não vos lembreis mais, Senhor, de nossas iniquidades passadas; apressai-vos em prevenir-nos com vossas misericórdias, porque nos tornamos extremamente pobres. Socorrei-nos, ó Deus, nosso Salvador, e, pela glória de vosso nome, perdoai nossas culpas e salvai-nos” (Sl 78, 8-9).

“Jaziam nas trevas e nas sombras da morte, acorrentados e morrendo de fome; clamaram ao Senhor em meio à sua miséria, e ele rompeu seus grilhões e os libertou de suas angústias” (Sl 106, 10, 13).

Aproximai-vos de Deus com ardentes desejos de vos converter, e Deus se aproximará de vós (Tg 4, 8). Ora, por que caminho alguém se aproxima de Deus? 1° afastando-se do demônio e resistindo-lhe; 2° humilhando-se; 3° desejando voltar para Deus… Vede o prodígio, diz Santo Agostinho: Deus habita no mais alto dos céus; vós vos elevais, e ele foge de vós; vós vos humilhais, e ele desce até vós (Homil.); 4° pela penitência…; 5° pelo exercício do amor de Deus e das obras de caridade; 6° pela oração.

São Gregório observa que os pecadores tomam muitas vezes boas resoluções, mas recaem nas mesmas faltas ao sopro da tentação, porque seu coração não mudou e não se convertem seriamente a Deus. Querem ser humildes, mas com a condição de que não lhes toque o desprezo; consentem em permanecer em seu estado, contanto que lhes seja lícito desfrutá-lo; propõem manter-se castos, sem, contudo, mortificar a carne; dispõem-se a ser pacientes, quando não tenham de suportar provações. Desejam as virtudes, mas fogem da pena de adquiri-las; não sabem travar uma batalha em campo aberto e pretendem subjugar uma fortaleza (Pastor.). Ao contrário, diz São Bernardo, a humilhação é o caminho que conduz à humildade, os sofrimentos conduzem à paciência, a mortificação à castidade, o jejum à sobriedade (In Psalm.).

De três maneiras o homem se afasta de Deus, escreve Hugo de São Vítor: pela vaidade, pelo afeto desregrado a si mesmo e pela curiosidade para com o próximo. Retorna a Deus pela confissão de suas culpas, pela compunção do coração e pela mortificação da carne; é preciso que a verdade ressoe nas palavras, que a pureza resplandeça na alma e que a sobriedade regule a satisfação das necessidades do corpo (Lib. De Anima).

São Gregório, comentando estas palavras de São Lucas (VII, 37): “Havia na cidade uma mulher pecadora”, diz: Esta mulher, antes entregue às dissoluções, usava perfumes para agradar e seduzir; mas aos pés de Jesus Cristo oferece a Deus, de modo a merecer-lhe os louvores, aquilo que vergonhosamente empregara para adornar o próprio corpo. Seus olhos haviam se deleitado com as coisas terrenas e agora estão úmidos de lágrimas; sua boca havia proferido palavras de orgulho e agora beija os pés do divino Mestre. Tudo aquilo que havia servido aos seus prazeres culpáveis, ela sacrifica: exerce tantas virtudes quantas culpas havia cometido. Quer que tudo aquilo com que havia ofendido a Deus dê prova da sinceridade de sua penitência. Que motivo impelia essa mulher a comportar-se assim? O ardente desejo de converter-se e de obter misericórdia…

11. É PRECISO LEMBRAR A FELICIDADE DE QUE SE GOZAVA ANTES DE SE CAIR NO PECADO

“Trazei à memória, escrevia São Paulo aos Hebreus, aqueles primeiros dias nos quais, depois de iluminados, sustentastes grande combate de sofrimentos” (Hb 10, 32); e também o Salmista dizia: “Eles se lembrarão dos benefícios do Senhor e se converterão” (Sl 21, 27).

Com efeito, o que estimulou e impeliu o filho pródigo a abandonar o país onde vivia miseravelmente e a retornar ao pai? Precisamente esta lembrança: comparou a triste condição a que seus desregramentos o haviam reduzido com o feliz estado de que gozava na casa paterna. Este confronto o fez cair em si, e disse: “Quantos jornaleiros na casa de meu pai têm pão em abundância, enquanto eu, seu filho, aqui morro de fome!” (Lc 15, 17). Quão feliz eu era junto dele, quão miserável sou longe dele! Como era feliz no dia da minha primeira comunhão e durante todo o tempo em que continuei a aproximar-me da sagrada mesa, etc. … Ao contrário, como me tornei infeliz desde que, abandonando o meu Deus, negligenciando os sacramentos e deixando a oração, enveredei pelo triste caminho das paixões enganadoras! … (Ib, 18). Levantar-me-ei e retornarei ao pai…

12. DEPOIS DA CONVERSÃO É PRECISO PERSEVERAR

“Senhor, cantava o real profeta, quebrastes as minhas cadeias; oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor e invocarei o vosso nome” (Sl 145,7).

Escreve o Apóstolo aos Romanos: “Não esqueçamos que Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, já não morre: a morte não terá mais domínio algum sobre ele” (Rm. 11, 9). Seja este o nosso modelo; e, tendo-nos sido dado cantar uma vez, sobre a derrota da morte, aquele cântico de ressurreição: “Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão, ó inferno?” (1Cor 4,55), jamais devemos voltar a submeter-nos ao seu império, entregando-nos ao pecado… “Libertados da culpa, tornamo-nos servos da justiça” (Rm. 6, 18). E aos Colossenses: “Se ressuscitastes verdadeiramente com Jesus Cristo, aspirai ao que está no céu, onde Jesus Cristo está sentado à direita do Pai; apreciai as coisas celestes, e não mais as terrenas” (Cl 3, 1-2).

“Outrora éreis trevas; agora vos tornastes luz no Senhor, pelo vosso retorno a Deus! Vivei, portanto, como convém aos filhos da luz” (Ef. 5, 8). “Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não pertencemos de modo algum nem à noite nem às trevas; não nos entreguemos, pois, ao sono, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts. 5, 5-6). “Comecemos com passo firme o caminho reto; e, se alguém vacilar, cuide para não se desviar, mas procure curar-se” (Hb. 12,13).

“Aquele que perseverar não será atingido pela segunda morte” (Ap. 2, 11).

13. DEVERES DOS PASTORES E DOS CONFESSORES PARA COM OS PECADORES

“Poderá esperar chegar a destruir os pecados aquele que atrair os pecadores com grandes exemplos de humildade, de afeto e de amor (18).” Pastores e confessores, abri o vosso coração, para que os pecadores nele entrem e dele saiam convertidos, e, por vosso ministério de paciência e caridade, sejam dissipados todos os erros. Vai, disse o Senhor a Jeremias, e clama para o norte estas palavras: Eis o que diz o Senhor: Vem, Israel, povo rebelde, e não voltarei o meu rosto contra ti, porque sou misericordioso e não me irritarei para sempre (Jr 3,12). Quantas vezes se deve perdoar ao pecador, pergunta Pedro ao divino Mestre: talvez sete? Perdoarás setenta vezes sete, respondeu-lhe Jesus Cristo (Mt 18, 21-22), isto é, toda vez que o pecador estiver disposto a corrigir-se e a converter-se.

14. POR QUE DEUS PERDOOU AO HOMEM E NÃO AO ANJO

Cinco motivos assinalam os Santos Padres pelos quais Deus perdoou ao homem, mas não ao anjo. O 1º é que o homem pecou por fragilidade da carne; por isso encontrou compaixão. O 2º é que o anjo pecou sem ser tentado por pessoa alguma, enquanto o homem pecou por sugestão da serpente. O 3º é que nem todos os anjos caíram, mas somente uma parte, ao passo que, na pessoa do primeiro homem, toda a natureza humana e toda a humanidade foram perdidas. Segundo a opinião de São Gregório, embora Adão tenha pecado, sua posteridade não foi totalmente indigna de perdão, porque não foi sua cúmplice. O 4º é que, tendo o anjo recebido uma grande inteligência, pecou por sua plena vontade e por malícia; ao passo que tal malícia não se encontrava no pecado do homem, cuja vontade fora lisonjeada e seduzida. O 5º é que o anjo recebeu, na sua criação, o mais excelso grau de honra que poderia receber e, pela contemplação de seu Criador, devia ser confirmado na graça e tornar-se impecável. Eis por que, tendo caído de tão alto, já não lhe foi concedido levantar-se de sua queda pela penitência. Ao contrário, colocado sobre a terra, com um corpo formado do barro, o homem, que devia reproduzir-se antes de passar, sem morrer, a uma vida melhor, foi posto num estado mais distante da bem-aventurança do que o anjo; por isso também lhe foi concedido, para fazer penitência, um período de tempo negado ao anjo.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.