Tesouro n.º 36 · Volume I

CONTRIÇÃO CONTRIZIONE

7 seções · 46 parágrafos · pp. 400–412 do PDF · português, com o original italiano a um clique

4. O QUE É A CONTRIÇÃO

A contrição é o pesar de haver pecado. Esta palavra vem do latim conterere, que significa romper, quebrar, triturar, e exprime o estado de uma alma penetrada e dilacerada pela dor de haver ofendido a Deus, e que ardentemente deseja reconciliar-se com ele e recuperar a sua graça. O santo Concílio de Trento (Sess. 14, can. IV) define a contrição: “Uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, unida a um firme propósito de não mais pecar no futuro”. — Esta contrição deve estar unida ao desejo de cumprir tudo o que foi ordenado por Jesus Cristo para a remissão dos pecados; implica, por conseguinte, a vontade de confessá-los e de satisfazer à justiça divina. Por isso, os teólogos, depois de São Tomás, definiam a contrição como a dor de haver pecado, acompanhada da vontade de confessar-se e de satisfazer…

“As lágrimas dos penitentes são vinho delicioso para os anjos”, diz São Bernardo (1). Somente a contrição elimina o pecado: as demais dores têm efeito inteiramente diverso, escreve o Crisóstomo. Por exemplo, perdestes todos os vossos bens; experimentai um pouco: acaso, desesperando-vos, conseguireis recuperá-los? A morte vos arrebatou uma pessoa querida; ainda que chorásseis até o fim do mundo, todas as vossas lágrimas não poderiam fazê-la ressurgir do sepulcro. Vítima de uma injúria sanguinária, consumis-vos interiormente de raiva e tristeza; poderá acaso a vossa angústia fazer com que não a tenhais recebido? Afligis-vos porque estais enfermo; porventura afligir-vos vos cura? Antes, agrava a doença. Mas, se estais contristado por haver ofendido a Deus, o vosso arrependimento destrói os vossos pecados. As vossas lágrimas, quando caem sobre as vossas culpas, apagam-nas; dizendo com Jeremias: “Caiu a coroa de nossa cabeça; ai de nós, porque pecamos” (Lm 5, 16); repomos sobre esta cabeça despojada da coroa o glorioso diadema que antes trazia; deplorando a insensata audácia que nos fez perder a santidade recebida em nosso batismo, preparamo-nos para um novo batismo (Homil. 5, ad pop.). Pois, como diz São Bernardo, “a compunção do coração e as lágrimas sinceras são um verdadeiro batismo (2)”. O sacrifício que Deus pede, diz o real profeta, e no qual se compraz, é o gemido de uma alma apertada e quebrantada pela dor; ele jamais olhará com indiferença para o coração contrito e humilhado (Sl 50, 18).

“A dor sincera de haver pecado, escreve São Bernardo, é um tesouro infinitamente desejável: ela traz ao espírito do homem uma alegria inefável. A contrição do coração é a cura da alma, é a remissão dos pecados; ela reconduz o Espírito Santo, porque, quando o homem é visitado pelo Espírito Santo, imediatamente chora as suas faltas (3).” Com ele concorda Santo Efrém, que chama a contrição de saúde da alma, iluminação da mente, meio para obter a remissão dos pecados (4). Por isso, São Jerônimo exclama: “Ó feliz penitência, que conquista os olhares de Deus! (5)”.

Vede quais são as excelências da compunção: 1° é santa e reconcilia a alma com Deus, que é o princípio de uma felicidade imensa…; 2° vem do amor de Deus; com efeito, o penitente se entristece por haver ofendido a Deus, porque vê quão grande bem é esse Deus que ousou ofender e quão amável ele é, tanto em si mesmo como para com todas as suas criaturas: ora, somente o amor de Deus dá a verdadeira alegria…;

3° o penitente deseja arrepender-se e se alegra com isso; nutre-se da compunção e das lágrimas como de deliciosos alimentos. Enquanto todo outro arrependimento é amargo, penoso, impaciente, insuportável, aquele que se experimenta por haver pecado é doce, humilde, etc.… “Uma consciência culpada é o inferno e a prisão da alma”, deixou escrito São Bernardo (6); ora, a contrição destrói a culpa do homem; por isso, a consciência repousa na paz, as lágrimas purificam e formam, por assim dizer, um rio sobre o qual a alma embarca em direção a Deus e chega ao porto da salvação eterna. Todos os santos saborearam nas lágrimas da compunção uma suavidade inefável; é fácil percebê-lo na majestosa serenidade que resplandece em seu rosto.

Quando ouvis falar de lágrimas de compunção, não imagineis, dizia o Crisóstomo, aflições, sofrimentos, angústias; ah, não! Elas vencem em doçura todas as delícias de que se pode gozar no mundo. Há mais deleite em uma só lágrima de arrependimento do que em todas as pretensas alegrias das volúpias terrenas (De Computict. cordis). O pródigo, que derramava uma torrente de lágrimas aos pés de seu pai, experimentava uma felicidade incomparavelmente maior do que aquela que o embriagara quando, como um dissoluto, dissipava na devassidão a saúde e a fortuna. Madalena, prostrada aos pés de Jesus, beijando-os e lavando-os com o seu pranto, experimenta naquele instante mais consolação do que em todo o curso de sua vida escandalosa.

As lágrimas do arrependimento e da devoção, diz Santo Agostinho, têm tamanha doçura que em vão se procura nas alegrias tumultuosas dos teatros (Confess.).

São João Clímaco desenvolve maravilhosamente as vantagens e os frutos das lágrimas que derramam os servos de Deus. “Fico maravilhado de assombro”, diz ele, “quando considero a felicidade que a compunção proporciona. Como pode ser, pois, que os homens carnais nela não vejam senão aflição?” Semelhante à cera que contém o mel, ela encerra uma fonte inesgotável de doçuras espirituais. Deus visita e consola de modo visível, mas inefável, os corações quebrantados por uma santa dor (Grad. V).

Encontra-se muito mais satisfação em chorar os próprios pecados do que em cometê-los. Para saborear a paz de uma boa consciência, diz Bossuet, é preciso que essa consciência seja pura e purificada, e nenhuma água pode fazê-lo senão a das lágrimas do coração. Correi, pois, ó lágrimas da compunção, correi como uma torrente, lavai esta consciência manchada, este coração profanado, e devolvei-me aquela alegria divina que é fruto da justiça e da inocência (Sl 50, 13). Quem nos dará saber saborear a sublime alegria da compunção, que deriva não da aflição da alma, mas de sua tranquilidade, não de sua enfermidade, mas de sua saúde, não de suas paixões, mas de seu dever, não do fermento de seus desejos inquietos, mas da reta consciência: alegria verdadeira que não agita a vontade, mas a acalma; não surpreende a razão, mas a ilumina; não acaricia exteriormente os sentidos, mas atrai o coração para Deus… Não há senão a compunção que possa abrir o coração a essas alegrias divinas. Ninguém é digno de ser admitido a saborear esses castos e sinceros deleites se antes não deplorou e chorou o tempo que consumiu em prazeres falazes. Teria o pródigo saboreado as inebriantes doçuras da bondade do pai, a abundância de sua casa, as iguarias de sua mesa, se antes não houvesse chorado amargamente os seus desvarios, os seus amores ilícitos, as suas alegrias dissolutas? (Serm. sur l’Amour des plaisirs). 4° A contrição oferece a esperança da bem-aventurança eterna; é dela o penhor e a garantia. 5° A compunção alegra a Deus, os anjos e os santos; ora, como não encherá ela a alma de alegria? Ouvi a palavra de Jesus Cristo: Faz-se no céu maior festa por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de penitência (Lc 15, 7).

6° A contrição obtém para o pecador a paz e o perdão de todos os seus pecados; expulsa os demônios, fecha o inferno, dá a vitória sobre Satanás, sobre o mundo e sobre a concupiscência; abre o céu e para lá nos conduz…

Onde correm as lágrimas da compunção e da humildade, já não se vê vestígio de perversidade nem de degradação; reina ali a mais perfeita ordem, e o coração é inundado de bens; ao contrário, onde elas faltam, tudo é desordem e ruína. A compunção gera: 1° a humildade; pois quem ousaria ensoberbecer-se depois de ter merecido o inferno? 2° a paciência…; 3° o amor de Deus…; 4° o amor do próximo, do qual ela o preserva do pecado; 5° desprende a alma da terra…; 6° une-a a Deus… “Quem semeia entre lágrimas colherá com alegria”, canta o Salmista; “iam andando e chorando enquanto lançavam as sementes; voltarão exultantes, trazendo os seus feixes” (Sl 125, 6-8). “O Senhor”, diz ainda o rei profeta, “cura os corações feridos e trata-lhes as chagas” (Sl 146, 3). Deus, lemos em Isaías, habita com as pessoas de espírito humilde e contrito; ele lhes restitui a vida (Is 57, 15). “Sobre quem repousarei o meu olhar”, diz Deus pela boca do profeta citado, “senão sobre o pobre que tem o espírito contrito?” (Id. 61, 1). E, de fato, Jesus Cristo aplicou a si mesmo aquelas palavras: “O Senhor enviou-me para curar os corações contritos e pôr em liberdade os cativos” (Lc 4, 18-19).

2. HÁ DUAS ESPÉCIES DE CONTRIÇÃO

Os teólogos distinguem duas espécies de contrição: a perfeita e a imperfeita, que chamam atrição.

A contrição perfeita é aquela que tem por motivo o amor de Deus. Ela reconcilia o pecador com Deus mesmo antes que ele receba o sacramento da penitência, mas deve conter o desejo de recebê-lo.

Assim se exprime o citado concílio (Sess. 14, can. IV).

A contrição imperfeita, segundo o mesmo concílio, é geralmente concebida pela consideração da fealdade do pecado e pelo temor das penas do inferno. O santo concílio declara que, quando ela exclui a vontade de pecar e está unida à esperança do perdão, dispõe o pecador a obter misericórdia no sacramento da penitência. Define, além disso, que esta atrição é um dom de Deus, um movimento do Espírito Santo que, na verdade, ainda não habita na alma do penitente, mas o excita a converter-se; que ela, por si só, sem o sacramento, não justifica, mas lhe serve de preparação e disposição (Id. Ib. ).

3. NECESSIDADE DA CONTRIÇÃO

Jesus Cristo chorou, diz Santo Agostinho; é, pois, justo que o homem chore por si mesmo; com efeito, por que teria Jesus chorado, senão para ensinar ao homem a chorar os seus pecados? É preciso que o pecado e o hábito do pecado sucumbam sob o pesar de havermos caído (Confess.).

Inflamados de amor divino, os maiores santos choram continuamente as suas fragilidades; como, pois, não chorarão os grandes pecadores os enormes pecados de que se tornaram culpados? A voz da rola se fez ouvir em nossa terra, dizem os Cânticos; se as almas fiéis e inocentes, representadas pela rola, fazem ressoar o deserto com os seus gemidos e amargos lamentos, que deveriam fazer as almas que a cada instante se mancham com novas iniquidades? Se pensássemos em nossas culpas, não comeríamos um pedaço de pão que não estivesse banhado por nossas lágrimas! …

Enquanto Santo Antônio estava morrendo, São Pemenio começou a dizer: Feliz Arsenio, que chorou por si mesmo enquanto esteve nesta terra! Aqueles que aqui embaixo não choram, chorarão eternamente na outra vida (Vit. Patr.). Santa Taís dizia a São Pafnúcio que, desde a sua entrada no mosteiro, sempre se mantivera diante dos olhos e não cessara de chorar os seus pecados. Por isso, respondeu-lhe o santo, Deus os apagou (Vit. Patr.).

A contrição é tão essencial ao sacramento da penitência que não pode ser suprida de outro modo, e o pecador jamais pode ser absolvido se não se mostrar tocado por um sincero arrependimento de haver ofendido a Deus… A contrição foi necessária em todos os tempos para obter o perdão dos pecados. Isto é provado pelos exemplos de Davi penitente, dos ninivitas, de Acab, de Manassés, da Madalena, do publicano, do filho pródigo, de Pedro etc…

A necessidade da contrição é de direito natural e de direito divino… Ela é para o pecador como o sol para a terra, a água para o peixe, o ar para os pulmões… Por mais onipotente que seja, Deus não pode perdoar os pecados àquele que deles não se arrepende.

4. O QUE É A CONTRIÇÃO

A contrição é o pesar de haver pecado. Esta palavra vem do latim conterere, que significa romper, quebrar, triturar, e exprime o estado de uma alma penetrada e dilacerada pela dor de haver ofendido a Deus, e que ardentemente deseja reconciliar-se com ele e recuperar a sua graça. O santo Concílio de Trento (Sess. 14, can. IV) define a contrição: “Uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, unida a um firme propósito de não mais pecar no futuro”. — Esta contrição deve estar unida ao desejo de cumprir tudo o que foi ordenado por Jesus Cristo para a remissão dos pecados; implica, por conseguinte, a vontade de confessá-los e de satisfazer à justiça divina. Por isso, os teólogos, depois de São Tomás, definiam a contrição como a dor de haver pecado, acompanhada da vontade de confessar-se e de satisfazer…

“As lágrimas dos penitentes são vinho delicioso para os anjos”, diz São Bernardo (1). Somente a contrição elimina o pecado: as demais dores têm efeito inteiramente diverso, escreve o Crisóstomo. Por exemplo, perdestes todos os vossos bens; experimentai um pouco: acaso, desesperando-vos, conseguireis recuperá-los? A morte vos arrebatou uma pessoa querida; ainda que chorásseis até o fim do mundo, todas as vossas lágrimas não poderiam fazê-la ressurgir do sepulcro. Vítima de uma injúria sanguinária, consumis-vos interiormente de raiva e tristeza; poderá acaso a vossa angústia fazer com que não a tenhais recebido? Afligis-vos porque estais enfermo; porventura afligir-vos vos cura? Antes, agrava a doença. Mas, se estais contristado por haver ofendido a Deus, o vosso arrependimento destrói os vossos pecados. As vossas lágrimas, quando caem sobre as vossas culpas, apagam-nas; dizendo com Jeremias: “Caiu a coroa de nossa cabeça; ai de nós, porque pecamos” (Lm 5, 16); repomos sobre esta cabeça despojada da coroa o glorioso diadema que antes trazia; deplorando a insensata audácia que nos fez perder a santidade recebida em nosso batismo, preparamo-nos para um novo batismo (Homil. 5, ad pop.). Pois, como diz São Bernardo, “a compunção do coração e as lágrimas sinceras são um verdadeiro batismo (2)”. O sacrifício que Deus pede, diz o real profeta, e no qual se compraz, é o gemido de uma alma apertada e quebrantada pela dor; ele jamais olhará com indiferença para o coração contrito e humilhado (Sl 50, 18).

“A dor sincera de haver pecado, escreve São Bernardo, é um tesouro infinitamente desejável: ela traz ao espírito do homem uma alegria inefável. A contrição do coração é a cura da alma, é a remissão dos pecados; ela reconduz o Espírito Santo, porque, quando o homem é visitado pelo Espírito Santo, imediatamente chora as suas faltas (3).” Com ele concorda Santo Efrém, que chama a contrição de saúde da alma, iluminação da mente, meio para obter a remissão dos pecados (4). Por isso, São Jerônimo exclama: “Ó feliz penitência, que conquista os olhares de Deus! (5)”.

Vede quais são as excelências da compunção: 1° é santa e reconcilia a alma com Deus, que é o princípio de uma felicidade imensa…; 2° vem do amor de Deus; com efeito, o penitente se entristece por haver ofendido a Deus, porque vê quão grande bem é esse Deus que ousou ofender e quão amável ele é, tanto em si mesmo como para com todas as suas criaturas: ora, somente o amor de Deus dá a verdadeira alegria…;

3° o penitente deseja arrepender-se e se alegra com isso; nutre-se da compunção e das lágrimas como de deliciosos alimentos. Enquanto todo outro arrependimento é amargo, penoso, impaciente, insuportável, aquele que se experimenta por haver pecado é doce, humilde, etc.… “Uma consciência culpada é o inferno e a prisão da alma”, deixou escrito São Bernardo (6); ora, a contrição destrói a culpa do homem; por isso, a consciência repousa na paz, as lágrimas purificam e formam, por assim dizer, um rio sobre o qual a alma embarca em direção a Deus e chega ao porto da salvação eterna. Todos os santos saborearam nas lágrimas da compunção uma suavidade inefável; é fácil percebê-lo na majestosa serenidade que resplandece em seu rosto.

Quando ouvis falar de lágrimas de compunção, não imagineis, dizia o Crisóstomo, aflições, sofrimentos, angústias; ah, não! Elas vencem em doçura todas as delícias de que se pode gozar no mundo. Há mais deleite em uma só lágrima de arrependimento do que em todas as pretensas alegrias das volúpias terrenas (De Computict. cordis). O pródigo, que derramava uma torrente de lágrimas aos pés de seu pai, experimentava uma felicidade incomparavelmente maior do que aquela que o embriagara quando, como um dissoluto, dissipava na devassidão a saúde e a fortuna. Madalena, prostrada aos pés de Jesus, beijando-os e lavando-os com o seu pranto, experimenta naquele instante mais consolação do que em todo o curso de sua vida escandalosa.

As lágrimas do arrependimento e da devoção, diz Santo Agostinho, têm tamanha doçura que em vão se procura nas alegrias tumultuosas dos teatros (Confess.).

São João Clímaco desenvolve maravilhosamente as vantagens e os frutos das lágrimas que derramam os servos de Deus. “Fico maravilhado de assombro”, diz ele, “quando considero a felicidade que a compunção proporciona. Como pode ser, pois, que os homens carnais nela não vejam senão aflição?” Semelhante à cera que contém o mel, ela encerra uma fonte inesgotável de doçuras espirituais. Deus visita e consola de modo visível, mas inefável, os corações quebrantados por uma santa dor (Grad. V).

Encontra-se muito mais satisfação em chorar os próprios pecados do que em cometê-los. Para saborear a paz de uma boa consciência, diz Bossuet, é preciso que essa consciência seja pura e purificada, e nenhuma água pode fazê-lo senão a das lágrimas do coração. Correi, pois, ó lágrimas da compunção, correi como uma torrente, lavai esta consciência manchada, este coração profanado, e devolvei-me aquela alegria divina que é fruto da justiça e da inocência (Sl 50, 13). Quem nos dará saber saborear a sublime alegria da compunção, que deriva não da aflição da alma, mas de sua tranquilidade, não de sua enfermidade, mas de sua saúde, não de suas paixões, mas de seu dever, não do fermento de seus desejos inquietos, mas da reta consciência: alegria verdadeira que não agita a vontade, mas a acalma; não surpreende a razão, mas a ilumina; não acaricia exteriormente os sentidos, mas atrai o coração para Deus… Não há senão a compunção que possa abrir o coração a essas alegrias divinas. Ninguém é digno de ser admitido a saborear esses castos e sinceros deleites se antes não deplorou e chorou o tempo que consumiu em prazeres falazes. Teria o pródigo saboreado as inebriantes doçuras da bondade do pai, a abundância de sua casa, as iguarias de sua mesa, se antes não houvesse chorado amargamente os seus desvarios, os seus amores ilícitos, as suas alegrias dissolutas? (Serm. sur l’Amour des plaisirs). 4° A contrição oferece a esperança da bem-aventurança eterna; é dela o penhor e a garantia. 5° A compunção alegra a Deus, os anjos e os santos; ora, como não encherá ela a alma de alegria? Ouvi a palavra de Jesus Cristo: Faz-se no céu maior festa por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de penitência (Lc 15, 7).

6° A contrição obtém para o pecador a paz e o perdão de todos os seus pecados; expulsa os demônios, fecha o inferno, dá a vitória sobre Satanás, sobre o mundo e sobre a concupiscência; abre o céu e para lá nos conduz…

Onde correm as lágrimas da compunção e da humildade, já não se vê vestígio de perversidade nem de degradação; reina ali a mais perfeita ordem, e o coração é inundado de bens; ao contrário, onde elas faltam, tudo é desordem e ruína. A compunção gera: 1° a humildade; pois quem ousaria ensoberbecer-se depois de ter merecido o inferno? 2° a paciência…; 3° o amor de Deus…; 4° o amor do próximo, do qual ela o preserva do pecado; 5° desprende a alma da terra…; 6° une-a a Deus… “Quem semeia entre lágrimas colherá com alegria”, canta o Salmista; “iam andando e chorando enquanto lançavam as sementes; voltarão exultantes, trazendo os seus feixes” (Sl 125, 6-8). “O Senhor”, diz ainda o rei profeta, “cura os corações feridos e trata-lhes as chagas” (Sl 146, 3). Deus, lemos em Isaías, habita com as pessoas de espírito humilde e contrito; ele lhes restitui a vida (Is 57, 15). “Sobre quem repousarei o meu olhar”, diz Deus pela boca do profeta citado, “senão sobre o pobre que tem o espírito contrito?” (Id. 61, 1). E, de fato, Jesus Cristo aplicou a si mesmo aquelas palavras: “O Senhor enviou-me para curar os corações contritos e pôr em liberdade os cativos” (Lc 4, 18-19).

5. QUALIDADES DA CONTRIÇÃO

1° interna. — A contrição deve ser interna, sobrenatural, suma e universal. A dor da penitência deve brotar do fundo do coração; não se assemelha em nada àquelas fontes de água que se fazem jorrar artificialmente, mas é um rio que nasce da fonte, transborda, arranca e arrasta tudo o que encontra; realiza uma santa devastação, que repara os estragos causados pelo pecado; nenhuma culpa lhe escapa. “Eles amavam chorar”, diz São Bernardo, “e choravam amargamente, porque se arrependiam amargamente (7).” Pedro chorou amargamente a sua queda (Lc 22, 62). Eis a contrição do coração: Madalena, aos pés do Divino Mestre, tinha a contrição interna… O mal do pecado está no coração, e não em outro lugar, porque é somente o coração que peca; é somente o coração que se embriaga com o veneno da desobediência… Portanto, somente o coração está enfermo e, por consequência, é ao coração que se deve aplicar o remédio da contrição…

O profeta diz: “Senhor, vós não rejeitais um coração contrito…” (Sl 50,18); e Deus nos diz pela boca de Joel: “Rasgai os vossos corações, e não as vossas vestes” (Jl 2,13). Deus pede ao pecador um coração contrito e humilhado; fora disso, todas as demonstrações exteriores de arrependimento são inúteis, quando não são propriamente erro, mentira e hipocrisia. O homem pode muito bem enganar a si mesmo, mas não a Deus, que sonda o coração e os rins.

Não se deve contentar-se em recitar um ato de contrição apenas com os lábios. Não basta imaginar, pensar ou dizer que nos arrependemos de ter ofendido a Deus. No coração está o princípio de todos os pecados, inclusive dos exteriores; é palavra de Jesus Cristo, que disse: “O que sai da boca vem do coração, e é isso que torna o homem impuro. Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos e as blasfêmias” (Mt 15,18-19). — É, pois, no coração que deve encontrar-se o arrependimento… No coração deve penetrar a espada da contrição e atravessá-lo de lado a lado. Então, ó maravilha! por onde entrou a espada, penetra a graça e purifica; e por onde saiu, sai a corrupção do pecado.

Eis por que os santos Padres chamam à contrição compunção do coração. Todo desgosto que não elimina nem a vontade de pecar, nem o afeto que se tem pelo pecado, não é verdadeira contrição; merece esse nome somente enquanto reside no coração.

A ordem deve ser restabelecida onde foi perturbada: portanto, as lágrimas puramente exteriores, os protestos, os gemidos e os gritos não passam de mentiras, quando a vontade não mudou, e a vontade é o coração… Mas observai que não há contrição sem humildade e sem mortificação da carne… “Vinde, diz o profeta, adoremos, prostremo-nos e choremos diante do Senhor” (Sl 94,6). Sim, ó Senhor, vós aceitareis, purificareis e abençoareis um coração contrito e humilhado.

2° Sobrenatural. — A contrição deve ser sobrenatural, isto é, suscitada em nosso coração pelo Espírito Santo e fundada em considerações e motivos sugeridos pela fé. Ela deve levar-nos a detestar o pecado porque é uma ofensa a Deus. Quem chora o próprio pecado por vergonha ou pelo castigo que dele lhe advém entre os homens, ou ainda pela oposição que nele percebe à lei natural, não tem senão uma contrição natural e insuficiente.

O filho pródigo do Evangelho manifesta uma contrição sobrenatural quando diz: “Pai, pequei contra o céu e contra vós” (Lc 15,21). Pequei contra o céu, isto é, gravissimamente; meus pecados subiram até Deus e clamam por vingança… Pequei contra o céu, preferindo a terra ao céu, a carne ao espírito, a morte à vida, o inferno ao paraíso, Barrabás a Jesus Cristo, o demônio a Deus… Pequei contra o céu, porque perdi, porque desperdicei os dons celestes… Pequei contra o céu, porque calquei aos pés o sangue de Jesus Cristo; como Judas, vendi o Salvador; como o povo judeu, pedi a sua morte; como Pedro, reneguei-o; como Pilatos, condenei-o; como Herodes, ridicularizei-o e escarneci dele; como os soldados e os algozes, coroei-o de espinhos, carreguei-o com o pesado lenho da cruz, crucifiquei-o entre dois ladrões, que são o demônio e as minhas paixões, dei-lhe de beber fel, entreguei-o à morte e transfixei-o… Pequei contra o céu, porque matei a minha alma, criada para Deus e feita à imagem de Deus… Pequei contra vós, ó meu Deus, diante de vós, sob os vossos olhos, enquanto estava em vosso poder; servi-me, para ultrajar-vos, dos dons naturais e sobrenaturais com que me cumulastes… Pequei na presença do meu Anjo da Guarda, não obstante o remorso da consciência.

“Vós crucificastes Jesus Cristo”, disse São Pedro aos judeus. Diante dessa fulminante repreensão, eles se arrependeram de todo o coração e clamaram, dirigindo-se ao apóstolo: “Que faremos nós para obter misericórdia?” “Fazei penitência”, respondeu-lhes; arrependei-vos sinceramente (At 2,36-38). Os motivos da contrição sobrenatural são: 1° os pecados por nós cometidos…; 2° os pecados que fizemos os outros cometerem,

Três exercícios podem ajudar-nos a obter uma contrição sobrenatural: 1° fazer, em espírito, uma estação no Calvário…; 2° descer em pensamento ao inferno, que merecemos pelo pecado…; 3° transportar-nos ao céu, do qual nos tornamos indignos… De tudo isso concluímos que a contrição é um dom de Deus. O homem não pode arrepender-se como deve, sem a inspiração e a assistência do Espírito Santo. O pecador, tendo matado, pelo pecado mortal, a sua alma, e tendo-a matado para toda a eternidade, não pode ressurgir sem o auxílio de Deus, que é o autor da vida…

3° Suma. — A contrição deve ser um desgosto tal que vença todos os demais. E por quê? Porque o pecado é o maior de todos os males, o único, o mal por excelência. Somente o pecado ataca a Deus e à alma… O pecado é o sumo mal em relação a Deus…; o sumo mal em relação ao homem…

A nossa dor deve ser, como diz Jeremias, vasta e profunda como o mar (Lm 2,13). “Quanto mais profunda e perigosa é uma ferida, tanto mais poderoso remédio exige”, diz Santo Ambrósio; ora, sendo o pecado uma ofensa incomparavelmente mais grave que qualquer outra, exige uma satisfação que não tenha igual (8). Davi nos apresenta um modelo de contrição suma. Conhece o seu pecado, humilha-se, arrepende-se, confessa-se, chora, depõe a coroa e as vestes reais, jejua, veste o cilício e retira-se para a solidão. Outro exemplo nos oferece São Pedro, do qual está escrito que chorou amargamente até a morte a culpa de ter renegado Jesus Cristo. Um terceiro encontramos no povo judeu que, sitiado por Holofernes em Betúlia, entregou-se a chorar, a emitir gemidos e suspiros, e a clamar, voltado para o Senhor: “Nós pecamos, procedemos injustamente, cometemos a iniquidade” (Jt 7,18-19).

É preciso que o pecado, sobretudo o mortal, nos desagrade mais do que qualquer outro mal que nos possa acontecer. A razão disso é evidente: pelo pecado mortal, assaltamos, combatemos e perdemos a Deus; mas Deus é o maior dos bens, o único e sumo bem; importa, portanto, necessariamente, que nos doa mais essa perda do que qualquer outra. Se fosse de outro modo, a nossa contrição não seria suma.

Entretanto, não é necessário, para que a dor seja suma, que seja a mais sensível das dores; isto é, não se requer que experimentemos o mesmo desgosto sensível, que derramemos lágrimas tão abundantes, que emitamos aqueles mesmos gemidos dos quais talvez não pudéssemos conter-nos por ocasião da perda do pai, por exemplo, ou de um amigo querido. Por quê? Porque, enquanto a alma está unida ao corpo, é mais movida pelos objetos sensíveis do que por aqueles que não caem sob os sentidos. Basta que estejamos interiormente resolvidos, com a graça de Deus, a sofrer antes qualquer mal do que tornar a cometer um só pecado mortal. A contrição pode ser verdadeira sem essa impressão sensível, que não está em nosso poder.

4. Universal. — A contrição deve ser universal, isto é, estender-se a todos os pecados mortais cometidos, sem excetuar sequer um, pois não há nenhum que não ofenda a Deus, não torne a alma inimiga de Deus, escrava de Satanás e merecedora do inferno. A verdadeira contrição não imita Saul, que, levando a mortandade aos amalecitas, poupa aqueles que lhe agradam.

Observai, diz Bossuet, que muitas vezes há no coração pecados que são sacrificados, mas nele se encontra também o pecado predileto, a paixão favorita; e, quando se trata de arrancar esse pecado, de renunciar a essa paixão, o coração suspira em segredo e não consegue decidir-se senão com grandíssima pena. A contrição universal traspassa esse pecado, desfere o machado contra essa paixão e a corta sem misericórdia; ela entra na alma como Josué entre os filisteus, e põe tudo a ferro e fogo. E por que executa tão sanguinária sentença? Porque teme a compunção de um Judas, de um Antíoco, de um Balaão: compunções falsas e hipócritas, que enganam a consciência com a aparência de uma dor superficial. A dor da penitência tende a mudar a Deus, mas é preciso primeiro mudar o homem, e Deus nunca se muda senão pelo esforço desse contragolpe. Vós temeis a mão de Deus e os seus juízos; esta é uma santa disposição; o Concílio de Trento quer ainda que esse temor vos leve a detestar todas as vossas culpas (Serm., sur l’Intégr. de la Pénit.).

6. DO PROPÓSITO E SUA NECESSIDADE

A contrição é uma dor pelos pecados cometidos, unida ao firme propósito de não tornar a cair neles. Portanto, ela abraça o passado e o futuro: o passado, para detestar as quedas; o futuro, para preveni-las. A vontade sincera e formal de não mais pecar mortalmente no futuro é tão necessária, para quem deseja obter o perdão dos pecados, quanto é necessário o arrependimento dos pecados cometidos. Não se pode chamar verdadeira a dor de haver ofendido a Deus, se não estiver unida a uma resolução sincera de não mais pecar, tanto quanto o comporta a fragilidade humana. Com efeito, se é zombar de Deus confessar, sem pesar, que o ofendemos, é iludir-se dizer que nos dói haver cometido aquilo que, entretanto, ainda temos a intenção de cometer; que nos pesa ter feito aquilo que ainda queremos fazer. A contrição sincera deve excluir todo afeto ao pecado; ora, quem não estivesse resolutamente determinado a não tornar a cair no pecado ainda o amaria…

“Encontram-se muitos, escrevia outrora Santo Agostinho, que confessam a todo instante ser pecadores e, entretanto, deleitam-se em pecar. Suas palavras são uma confissão, não uma mudança; descobrem as feridas de sua alma, mas não as curam; confessam a ofensa, mas não a apagam. Somente o ódio ao pecado e o amor de Deus constituem uma verdadeira contrição (9)”.

A resolução de não mais ofender a Deus chama-se bom propósito; ele é parte essencial da contrição e deve possuir as mesmas qualidades que ela, isto é, deve ser interno, sobrenatural, sumo e universal. Em substância, não é coisa diversa da contrição, enquanto esta diz respeito ao futuro. A resolução de não mais ofender a Deus é absolutamente necessária; sem ela, o homem engana a si mesmo e procura enganar a Deus: é, ao mesmo tempo, uma cegueira e um delito.

Quando Jesus Cristo curava os enfermos, sempre os despedia dizendo: “Não pequeis mais, para que não vos aconteça coisa pior” (Jo 5, 14).

7. POR QUAIS INDÍCIOS SE RECONHECE O BOM PROPÓSITO

O homem pode reconhecer se é verdadeiro o seu propósito por estes três sinais principais: 1° pelos esforços que fez para corrigir-se; 2° pela fuga das ocasiões próximas de pecado; 3° pela mudança de vida.

1° Pelos esforços feitos para corrigir-se. Vossos desejos tendem para o céu? Esforçais-vos por sujeitar a carne ao espírito e o espírito a Deus? Afastai-vos do mundo para vos ocupardes de Deus… Se assim é, fazeis esforços para vos emendardes e podeis dizer que tendes um bom propósito. Mas, se não vos empenhais em refrear a concupiscência, se conservais apego ao mundo, se não vos aplicais a tornar-vos melhores, não tendes um bom propósito.

2° Pela fuga das ocasiões próximas de pecado. Nutris os sentimentos do rei profeta quando exclamava: “Aborreci e abomino a iniquidade” (Sl 118, 163). Nesse caso, tendes um bom propósito; mas observai que quem sente vivo horror por alguma coisa foge dela com todas as suas forças. Vós aborreceis um assassino e o evitais; aborreceis o veneno e não o usais; tendes horror de um cão raivoso e temeis encontrá-lo, pondes-vos a salvo…

Quando Deus quis criar o firmamento, disse: “Faça-se o firmamento no meio das águas e separe águas de águas, isto é, as águas superiores das inferiores” (Gn 1, 6). Uma prova de bom propósito é afastar-se das águas lamacentas da concupiscência e aproximar-se das águas límpidas e puras da graça. “Está convertido e seguro do perdão, diz São Gregório, aquele que chora o seu pecado e nada omite para não tornar a cair nele (10)”.

Santo Agostinho acrescenta que aquele que reabre as antigas feridas não está convertido. Quando um doente é curado, afasta-se do médico; mas, quando alguém é curado do pecado, deve voltar-se para Deus, apegar-se estreita e constantemente a Ele e dizer com o profeta: “Para mim, o meu bem é estar unido a Deus e pôr n’Ele o meu espírito”. A presença de Deus nos ilumina, purifica e beatifica; Deus age naquele que lhe está sujeito e obediente; Ele o olha e conserva; ao contrário, quando Deus está ausente, recai-se (In Psalm).

3° O primeiro movimento que sente um homem tocado por Deus e verdadeiramente contrito é afastar-se do século. A voz que nos chama à contrição chama-nos também à fuga, à vigilância, ao abandono das ocasiões próximas de pecado. O homem contrito e cheio de boa vontade já não é o homem mundano de antes; a mulher que verdadeiramente se arrepende e nutre um bom propósito já não é a mulher delicada e complacente, a mediadora astuta, a amiga afável que permitia correspondências secretas; já não encontra expedientes sedutores nem facilidades lisonjeiras; aprende outra linguagem e sabe, quando necessário, dizer resolutamente: Não, já não posso; sabe responder ao mundo com recusas prontas e sérias. O penitente já não vive à maneira dos outros, já não procura agradar aos outros; antes, desagrada a si mesmo. Sente o seu mal, desgosta-se, ao mesmo tempo, do mundo que o enganou e de si mesmo, que se deixou apanhar no anzol de prazeres tão grosseiros.

Um jovem que mantivera relações pecaminosas com uma mulher, tendo-se convertido, deixou completamente de ver aquela que o fazia perder-se e era conduzido à perdição. Um dia, encontrou-a por acaso na rua, mas continuou seu caminho sem parar. Então ela lhe dirigiu a palavra e disse: — Já não me conheceis? Sou fulana. — Podeis muito bem ser fulana, respondeu o rapaz, mas eu já não sou o mesmo. Jurei não mais ofender a Deus e salvar a minha alma: imitai-me. Eis o que todo pecador deveria fazer: ser irremovível na resolução de não mais pecar.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.