Tesouro n.º 34 · Volume I

CONFISSÃO CONFESSIONE

10 seções · 123 parágrafos · pp. 362–391 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. DIVINDADE DA CONFISSÃO

No dia de sua ressurreição, Jesus Cristo apareceu no meio de seus discípulos e, tendo dito por duas vezes: A paz esteja convosco, acrescentou: Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio; em seguida, soprou sobre eles e acrescentou: Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos (Jo 20, 21-23).

São Mateus (16, 19) refere que Jesus Cristo assim falou a São Pedro: “Eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.

Ora, quem não vê que, para perdoar e reter os pecados, para ligar ou desligar as consciências, é necessário que se conheçam as faltas cometidas, as culpas de que são responsáveis? E como conhecê-las sem a confissão? … As palavras formais de Jesus Cristo estabelecem do modo mais claro, absoluto e peremptório a confissão: ela é, portanto, divina…

Também São Paulo, escrevendo aos Coríntios, emprega estas expressões tão significativas: “Jesus Cristo confiou a nós o ministério da reconciliação; pôs em nossa boca a palavra da reconciliação” — (2Cor 5, 18-19).

Se a confissão não fosse de instituição divina, certamente ninguém se confessaria… O uso da confissão prova a divindade de sua origem. A confissão é um dogma católico fundado sobre palavras precisas de Jesus Cristo: é a crença de toda a Igreja, de todos os séculos, de todos os Padres, de todos os concílios, de todos os teólogos, de todos os santos…

O próprio Voltaire afirmava ser a confissão uma instituição divina; que ela não tivera outra origem senão a misericórdia de seu autor. A obrigação de arrepender-se data do dia em que o homem se tornou culpado: ora, para que se veja o arrependimento, é necessário que se confessem as culpas.

2. ANTIGUIDADE DA CONFISSÃO

Adão foi o primeiro penitente; confessou-se quando disse: Comi do fruto proibido (Gn 3, 12). Eva confessou-se dizendo: A serpente me enganou (Ib. 13). Caim confessou-se, embora em vão, porque se confessou como desesperado, quando disse: “Minha iniquidade é grande demais para que eu possa esperar perdão” (Gn 4, 13). Feridos pela peste, os hebreus no deserto confessam seus pecados… O próprio Faraó confessa seus delitos, embora não se arrependa deles… Davi denuncia sua culpa ao profeta Natã. O filho pródigo humilha-se aos pés do pai e lhe diz: “Pai, pequei contra o céu e diante de vós” (Lc 15, 18). O Centurião, a Samaritana e Madalena confessam-se a Jesus Cristo. Pedro exclama: “Afastai-vos de mim, ó Senhor, porque sou um pecador” (Lc 5, 8). O bom ladrão faz sobre a cruz uma confissão pública (Lc 23, 41).

Encontram-se na Sagrada Escritura exemplos de confissão tanto pública como privada. Nos Atos dos Apóstolos, por exemplo, lemos que um grande número de fiéis ia aos pés dos Apóstolos para confessar seus pecados (At 19, 18). Trata-se aqui de uma confissão feita a homens, de uma confissão que tem por fim obter o perdão dos pecados. Ora, não é esta a confissão sacramental?

No primeiro século da Igreja, São Clemente, sucessor de São Pedro, escrevia aos coríntios que aqueles a quem importava a salvação da própria alma não se envergonhassem de confessar seus pecados ao presidente da assembleia, para obter deles o perdão; e acrescentava que São Pedro ordenava que se revelassem aos sacerdotes até mesmo os maus pensamentos. “Reconciliemo-nos”, exclamava, “enquanto estamos sobre a terra, porque na eternidade não nos será mais dado confessar-nos nem fazer penitência” (Epist. II Cor.),

No segundo século, Tertuliano repreendia aqueles que, mais cuidadosos de sua honra do que de sua salvação, fugiam de manifestar suas culpas; e comparava-os àqueles que, acometidos de alguma doença secreta, não a manifestam ao médico e, por isso, deixam-se morrer. Depois concluía: É, pois, melhor condenar-vos, escondendo os vossos pecados, do que salvar-vos, confessando-os? (De Poenit.).

O célebre Orígenes, no século III, escrevia: Se nos arrependemos de nossos pecados e os confessamos não somente a Deus, mas também àquele que pode curar as feridas que os pecados nos fizeram, eles nos serão perdoados (Homil. II in Psalm. XXXVII).

No século IV, Santo Atanásio assim se exprime: Assim como o homem batizado é iluminado pelo Espírito Santo, também aquele que confessa os seus pecados obtém, por meio da penitência, a remissão deles do sacerdote (Selecta Ss. Patrum). E, no mesmo século, São Basílio escreve: É absolutamente necessário revelar os próprios pecados àqueles que receberam a administração dos mistérios de Deus.

No século V, sabemos por Santo Ambrósio e São Paulino que, quando um penitente se prostrava a seus pés para confessar-se, eles choravam de tal modo que faziam chorar também o pecador. Santo AGOSTINHO pregava assim: Ninguém diga: “Faço penitência secretamente diante de Deus, e basta que Aquele que deve perdoar-me conheça a penitência que faço no fundo do meu coração”. Se assim fosse, em vão teria dito Jesus Cristo: “O que vós desligardes na terra será desligado no céu”; em vão teria dado à Igreja as chaves do paraíso. Portanto, não basta confessar-se a Deus; é preciso confessar-se àqueles que dele receberam o poder de desligar e ligar (Serm. II in Psalm. c. I).

Jamais se ouviu, afirma São João Clímaco no século VI, que os pecados confessados no tribunal da penitência tenham sido divulgados; assim Deus dispôs, para que os pecadores não fossem afastados da confissão e privados da única esperança de salvação que lhes resta (Vit. Patr.).

Quanto aos séculos seguintes — VII, VIII, IX e X —, são tantas e tão certas as provas da existência da confissão auricular, que nos dispensamos de apresentar os documentos, limitando-nos a recordar que, no século XI, Santo Anselmo dizia: Revelai fielmente, por meio de uma humilde confissão, ao sacerdote todas as manchas da lepra que vos desfigura o interior, e sereis purificados (Homil. in decem. lepr.). E, no século XII, São Bernardo assim falava: Que proveito há em manifestar uma parte dos próprios pecados e calar a outra? Porventura não está tudo aberto aos olhos de Deus? Como ousais ocultar alguma coisa àquele que faz as vezes de Deus em tão grande sacramento! (Opusc. in 7° grad. Confess.).

Em suma, em todos os tempos, desde Jesus Cristo até nós, a existência da confissão auricular é atestada de modo inegável…

A confissão sacramental e auricular esteve e estará sempre em vigor, porque é de origem divina; a confissão pública, ao contrário, sendo apenas de instituição eclesiástica, já não tem lugar, pois cessaram as causas pelas quais fora introduzida.

Quando Jesus Cristo veio à terra, diz o autor das Recherches etc., encontrou a confissão já em uso; e, ao impor a seus discípulos a obrigação de confessar-se, não promulgou uma lei nova, mas confirmou e aperfeiçoou uma lei antiga (Mt 5, 17). Assim como elevou o rito do matrimônio à dignidade de sacramento, também elevou a semelhante dignidade o rito da confissão e lhe atribuiu graças especiais, fazendo dele uma parte essencial do sacramento da penitência. Isso explica como o preceito da confissão não suscitou murmurações nem entre os judeus nem entre os gentios; estavam acostumados a ela, consideraram-na coisa natural; uma tradição contínua e universal mostrava a sua indispensável necessidade.

3. NECESSIDADE DA CONFISSÃO

“Os pecados serão perdoados àqueles a quem vós os perdoardes”, disse Jesus Cristo aos seus apóstolos (Jo. 20, 33). Por conseguinte, quem quer obter o perdão dos próprios pecados deve confessar-se; Jesus Cristo não promete nem a sua graça nem o céu senão sob esta condição… “O que vós desligardes na terra será desligado no céu”… Não há outro meio de desatar senão a confissão, porque a esta linha Jesus Cristo atou a liberdade da alma; ela é, portanto, necessária. É necessária para humilhar-se, para rejeitar de si o pecado, para expiá-lo…

Aos sacerdotes, segundo São Paulo, Deus confiou o ministério da reconciliação; a eles, portanto, deve dirigir-se quem deseja reconciliar-se com Deus.

Se confessarmos os nossos pecados, diz o Apóstolo São João, Deus, sendo fiel e justo, no-los perdoará (1Jo 1, 9). Se confessarmos os nossos pecados; é preciso, portanto, confessar-se.

O apóstolo não diz: — se rezardes, se jejuardes —, mas: — se confessardes as vossas culpas, Deus vos perdoará; consequentemente, somente à confissão Deus vincula a remissão dos pecados… (Sl 99, 4). Entrai pela porta que conduz a Deus mediante a confissão, diz o Salmista.

Santo Agostinho comenta estas palavras, dizendo que ninguém pode chegar à porta da misericórdia divina por outro caminho senão o da confissão dos próprios pecados (1). E, em outro lugar, o mesmo Doutor diz: Deus criou o justo; o homem produziu o pecador. Destruí, ó pecadores, aquilo que vós fizestes, para que Deus salve aquilo que ele fez. É preciso que detesteis em vós a vossa obra, para que ameis em vós a obra de Deus. Quando começardes a detestar aquilo que fizestes, o bem nascerá em vós pela confissão dos vossos pecados: o princípio das boas obras está na confissão das más (Tract. XII in Ioann.).

“Depois do batismo, diz São Bernardo, não há mais para o homem outro remédio senão recorrer à confissão (SÃO BERNARDO) (2)”.

Para subjugar Betúlia, Holofernes ordenou que fossem cortados todos os canais que conduziam a água para a cidade (Jt 7,6). Bela imagem para expressar como, abolida a confissão, único canal pelo qual vem do céu ao homem a água da graça e do perdão, a alma permanece em poder do demônio, e já não há para ela nem graça, nem perdão, nem salvação, nem paraíso…

Jesus Cristo disse à sua Igreja: Ide, ensinai todas as nações; quem vos ouve, ouve a mim; quem vos despreza, despreza a mim, e quem não obedece à Igreja seja tido por pagão e idólatra, porque eu mesmo estarei convosco até a consumação dos séculos (Mt 28,19-20 ― Lc 10,16 ― Mt 18,17). Dessas palavras resulta que a Igreja, sagrada esposa de Jesus Cristo, recebeu de seu divino esposo todos os poderes de que ele mesmo está revestido e, por conseguinte, o poder de fazer leis. Ora, eis uma lei que ela ordena observar sob pena de culpa mortal: Confessarás todos os pecados ao menos uma vez por ano.

O Concílio de Trento afirma que “o sacramento da penitência é tão necessário àqueles que caíram em pecado depois do batismo quanto o batismo é necessário àqueles que ainda não o receberam (3)”; e pronuncia anátema contra qualquer um que “negue que a confissão sacramental é necessária à salvação, por direito divino (4)”. A confissão é, pois, necessária, e quem não obedece a este preceito despreza a Igreja: seja ele anátema.

A confissão, diz o abade Gaume, foi e será sempre considerada como o único meio de obter a remissão dos pecados; mais ainda, é absurdo supor que exista outro. Com efeito, se houvesse na religião outro meio de voltar à graça de Deus, se bastasse, por exemplo, humilhar-se diante dele, jejuar, rezar, dar esmola, confessar as próprias faltas no coração, o que aconteceria? Ninguém se confessaria. E quem seria tão insensato a ponto de ir pedir, suplicando aos pés de um homem, uma graça fácil de obter sem ele e apesar dele? Entre os dois meios, os homens escolherão sempre aquele que é mais fácil e, ao mesmo tempo, concilia os interesses da salvação e do amor-próprio. Em que se transforma então a confissão instituída por Jesus Cristo? Ela cai e permanece no mundo sem respeito e sem efeito. Em que se transforma o sublime poder por ele conferido aos seus ministros, de perdoar e reter os pecados? Não é evidente que esse poder tão divino e surpreendente se torna um poder ridículo e inteiramente ilusório, porque eles jamais poderiam exercê-lo? Portanto, resulta daí que ou há obrigação para todos os pecadores de confessar suas culpas aos sacerdotes, ou Jesus Cristo zombou de seus apóstolos e de seus sacerdotes ao dizer-lhes: “Serão perdoados os pecados daqueles a quem vós os perdoardes, e serão retidos os daqueles a quem os retiverdes”. Teria ainda zombado deles quando disse: “Eu vos darei as chaves do reino dos céus”. De que lhes serviria ter as chaves do paraíso, se fosse possível entrar nele sem que ele nos fosse aberto por meio de seu ministério?

Vedes que, se a confissão não fosse o único, o indispensável meio de obter o perdão dos pecados, as palavras do Filho de Deus seriam insignificantes, falsas e mentirosas; horrível blasfêmia, que equivale a negar a própria divindade de Jesus Cristo. Quem quer subtrair-se à lei da confissão deve calcar aos pés não somente a autoridade de Jesus Cristo e da Igreja, mas também a do senso comum, sufocar a voz da natureza, que grita a todo culpado: Não há perdão sem arrependimento, nem arrependimento sem confissão da culpa (GAUME, Catéch. de persév., Part. 2, lect. XXXIX),

Em conclusão, o sacramento da penitência é necessário, por necessidade de meio e por direito divino, a todos aqueles que perderam a inocência batismal ao cometer uma culpa grave; é o único, o exclusivo meio que Deus deixou à sua Igreja para reconciliá-los consigo.

4. FACILIDADE DA CONFISSÃO

“Meu jugo é suave, meu peso é leve”, disse o Salvador; estas palavras verificam-se especialmente na confissão, continua o citado autor Gaume. Poderia Nosso Senhor Jesus Cristo mostrar-se mais indulgente para conosco? Depois de um pecado mortal, merecemos o inferno, isto é, suplícios eternos, inauditos, sem alívio. Ele poderia subordinar o nosso perdão à condição que mais lhe aprouvesse e, tratando-se de evitar o inferno, nenhuma condição pareceria demasiado dura. Posto isso, não seríamos injustos se pretendêssemos que, obrigando-nos a confessar os nossos pecados ao seu ministro, Deus tivesse colocado o próprio perdão a preço demasiado alto? Julguemo-lo pela seguinte hipótese:

Um homem do povo foi admitido à corte de um poderoso príncipe. Nada faltava à sua felicidade: honras, riquezas, prazeres, tudo lhe era concedido. Tantos benefícios deveriam inspirar-lhe uma afeição sem limites, um apego inviolável por seu senhor, e, no entanto, não foi assim. Arrastado por uma paixão abjeta, o ingrato cometeu contra o próprio benfeitor um enorme crime que, é verdade, não foi conhecido pelo público, mas chegou ao conhecimento do príncipe com provas suficientes para que não restasse sombra de dúvida. Então o rei, usando do direito que tinha de puni-lo, pronunciou a condenação do culpado. Pálido, trêmulo, com os olhos voltados para o chão, o desventurado é conduzido ao suplício. Já o executor mantém erguido sobre sua cabeça o machado, e o ingrato está a ponto de expiar com a morte o próprio crime. Mas, de repente, ressoa um grito: Graça! Graça! em nome do rei!!! Vedes esse homem renascer para a vida? Ele mal ousa acreditar no que ouvem seus ouvidos; seu coração se dilata de alegria. O enviado do rei chega junto do culpado e lhe diz: “Meu senhor é bom; ele te concede o perdão, mas com a condição de que confesses o teu crime a um de seus ministros, sem calar a mínima circunstância. Esta é a única condição que sua generosidade te impôs; escolhe entre o suplício e este meio de salvação”. Então o culpado, jubiloso, exclama: “Enviai-me esse ministro; estou pronto para confessar tudo; resta-me apenas o temor de que meu rei possa voltar atrás”. Ele ainda não terminou, e eis que chega um segundo enviado que, gritando “Graça em nome do rei!”, aproxima-se do réu e lhe diz: “Meu senhor é bom; não somente deixa à tua escolha o ministro a quem declararás o teu delito, mas, além disso, ordena ao ministro que escolheres absoluto silêncio sobre tudo o que lhe tiveres confiado, sob pena de vir tomar o teu lugar no cadafalso. Se aceitares, o rei, meu senhor, esquece para sempre a tua culpa, readmite-te em sua graça, restitui-te as tuas honras e dignidades”. Imaginai os novos transportes de alegria do condenado e as bênçãos que a multidão dirige ao generoso monarca. A aplicação é fácil. Eis toda a história da confissão. Quem ousará chamá-la de jugo penoso?

Buscai quanto quiserdes nos livros dos sábios e nos costumes das nações; não encontrareis nada tão comovente, tão paternal, tão eficaz para reformar os costumes quanto a maneira como, no tribunal da penitência, se realiza a reconciliação do homem com Deus. Aqui verdadeiramente, como diz o Profeta, “encontram-se a misericórdia e a verdade; aqui se abraçam (como duas irmãs há muito separadas) a justiça e a paz” (Sl 84,11). Quereis saber quanto há de ternura naquele beijo de reconciliação que o Criador se digna dar à sua criatura? Comparai os tribunais humanos com o tribunal de Deus. Quando alguém é acusado de algum delito, a justiça manda que os esbirros o procurem; esse desventurado já não goza de um dia feliz nem dorme um sono tranquilo. É obrigado a esconder-se nas florestas, tremendo ao sussurro de cada folha, até que finalmente é preso e carregado de ferros. Conduzido ignominiosamente de prisão em prisão, chega ao lugar onde sua sentença será pronunciada. No tribunal diante do qual é chamado a comparecer, estão escritas estas palavras tremendas: justiça, castigo. Chega o dia do julgamento: diante do réu sentam-se juízes que têm somente o poder de punir, não de perdoar; ao lado estão testemunhas e acusadores; sobre sua cabeça vê-se suspenso, caso seja declarado culpado, um machado sanguinário. Se escapa da morte, vai ao encontro de penas infamantes, de cadeias que se desgastarão juntamente com a vida, da separação temporária ou perpétua de tudo o que ele tem de mais caro no mundo. E tudo isso talvez o tornará melhor? Ai de mim! Não — tal é a justiça humana.

Muito diferente se mostra a justiça divina. Ao punir na terra, Deus jamais se despe de seu caráter de Pai. Por isso, quando um homem, isto é, um de seus filhos, o ultraja, envia-lhe o remorso.

Esse arauto de Deus penetra no coração do pecador, nele se estabelece, atormenta-o e o inquieta sem trégua. Pouco a pouco, o pecador, cansado, detém-se e retorna a si mesmo. Faz-se ouvir uma voz mais suave: é a voz do arrependimento. Ternas lembranças sobrevêm, misturadas ao triste pensamento do estado presente. A vergonha e o temor apoderam-se de sua alma e preparam a chegada da esperança.

De repente, palavras doces como as de uma mãe, de uma mãe que geme, ressoam em seu coração: “Vinde a mim, vós que estais aflitos, e eu vos consolarei”. E estas palavras saem da própria boca de seu juiz. Ele já não teme e, por isso, põe-se a caminho, conduzido pelo remorso, pelo arrependimento e pela esperança, em direção à casa de Deus.

Diante dele há um tribunal sobre o qual a fé lê esta consoladora inscrição: À misericórdia. Ali não há pena infamante, nem patíbulo, nem galera, nem prisão. Nesse tribunal está sentado um juiz que é mais que um homem, mas que não é um anjo; ele próprio necessita de misericórdia. É o vigário da caridade de Jesus Cristo, revestido de suas entranhas de compaixão. Não tem nos lábios senão palavras de encorajamento, bênçãos e orações, e de seus olhos logo correrão lágrimas sobre o pecador arrependido. Ali não há testemunhas estranhas, nem acusadores preconceituosos; o próprio réu será o acusador e a testemunha. A questão é posta em suas mãos; se confessar sua falta, terá não punição, mas perdão (GAUME, op. cit., Lect. XL),

Lei doce! … Deus não pede senão uma confissão… Lei sublime! nenhuma violência, nenhuma tortura; o penitente é seu próprio acusador, juiz, testemunha, executor… Lei misericordiosa! A justiça humana não espera senão uma confissão para condenar; Deus, ao contrário, não espera senão uma confissão para absolver… Pensamento comovente! se eu tivesse ofendido um homem, não teria de esperar dele perdão; e o meu Deus, por mim tão ultrajado, me reergue, abraça-me, cumula-me de favores, abre-me o céu e me faz entrar nele; e todas estas graças incomparáveis me são dadas pelo preço de uma simples confissão! …

“Nos tribunais humanos, escreve o Crisóstomo, a confusão e o castigo vêm depois da confissão; mas no tribunal da penitência, que é o tribunal de Deus, depois da confissão vêm a justiça, o perdão, a recompensa (5)”.

Para vencer uma demanda, quantos recursos, quantas viagens, quantos suores, quantas penas, quantos cuidados! … e muitas vezes perde-se! Para obter o perdão dos próprios pecados, reconciliar-se com Deus, pagar-lhe as dívidas enormes contraídas para com ele, não se exige senão uma confissão! Se houvesse um credor que se contentasse com que se confessasse a dívida contraída para com ele, qual seria o devedor que ousaria queixar-se disso? Ora, esta é a conduta inefável de Deus para com os pecadores; e eles se queixarão dela como sendo demasiado dura e exigente! Se a um náufrago parecesse demasiado penoso subir à tábua que é a única capaz de salvá-lo, não o julgaríamos louco? A confissão é uma tábua de salvação depois do naufrágio…

A confissão é demasiado penosa, diz-se; mas note-se que se trata com um pai, um amigo… Abençoai-me, meu padre, porque pequei… A confissão é demasiado penosa? mas ela é feita a um pobre pecador que ele próprio necessita de indulgência; como poderia ele negá-la? Confessam-se as próprias culpas a um só homem e se está seguro do segredo… A quem parecerá penoso aliviar a própria consciência, reconciliar-se com Deus, reparar as próprias perdas, saldar as dívidas, encontrar a paz, subir ao céu, obter tantas riquezas e tantos bens, em troca de uma simples confissão! … Ah! Não é aqui que está a pena: ela está na perda da graça, da alma, de Deus, da eternidade. Mas basta confessar que se perdeu tudo isso por causa dos próprios pecados, para voltar à posse de todos esses bens inestimáveis…

5. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA CONFISSÃO

1° testemunho dos ímpios. — Talvez não haja, diz Voltaire, instituição mais sábia que a confissão. A maior parte dos homens, quando caíram em grandes delitos, sente naturalmente remorso… A confissão é algo excelente, um freio aos delitos inveterados; na mais remota antiguidade costumava-se a confissão na celebração dos antigos mistérios. Os cristãos santificaram esta sábia prática; ela é muitíssimo apropriada para levar ao perdão os corações exacerbados pelo ódio e para induzir os ladrões a restituir aquilo que possam ter roubado… Os inimigos da Igreja Romana que se insurgiram contra uma prática tão salutar parecem ter privado os homens do maior freio que jamais se poderia impor a seus delitos.

Ouvi ainda o que, a propósito da confissão, escreve o autor da História filosófica e política das Índias, acérrimo inimigo de toda religião: “Os jesuítas estabeleceram no Paraguai um governo teocrático, mas com uma vantagem que é própria da religião que lhe serve de base, isto é, a prática da confissão. Ela, sozinha, faz as vezes de leis penais e vela pela pureza dos costumes. No Paraguai, a religião, mais poderosa que a força das armas, conduz o culpado aos pés do magistrado. Ali, em vez de esconder os próprios delitos, o arrependimento faz com que sejam agravados; em vez de fugir à pena, vem-se pedir por ela de joelhos; quanto mais severa e pública ela é, mais acalma a consciência do réu. Assim, o castigo que em toda parte assusta o culpado, aqui se torna sua consolação, sufocando-lhe os remorsos por meio da expiação. Os povos do Paraguai não têm leis… criminais, porque cada um se acusa e se pune espontaneamente; todas as suas leis são preceitos de religião. O melhor governo entre todos seria uma teocracia na qual estivesse instituído o tribunal da confissão”.

2° Arrependimento dos protestantes por terem abolido a confissão. — Muitas vezes os protestantes se arrependeram de ter abolido o uso da confissão. Os de Nurembergue enviaram uma embaixada a Carlos V, suplicando-lhe que a restabelecesse entre eles, como único meio de impedir a ruína total de sua república. Os de Estrasburgo teriam querido restaurá-la, e tinham razão. Seriam necessários volumes se se quisessem escrever todas as desordens prevenidas ou reparadas pela confissão, as paixões perversas que corroem surdamente a sociedade, sufocadas em seu germe, os ódios extintos, as restituições feitas. E hoje, que grande número de cristãos se esquiva ao cumprimento deste dever social, o que vemos? Delitos, horríveis crimes inauditos, velhacarias que todos os dias se cometem, se imprimem, se leem sem repugnância, antes com indiferença, como novelas ordinárias; suicídios, falências, desordens de toda espécie; vemos, enfim, entre os fiéis que não se confessam, aqueles males que faziam os protestantes desejar o restabelecimento da confissão, como também, ainda nestes últimos tempos, desejaram e em parte procuraram fazê-lo os puseístas na Inglaterra.

3° Os indiferentes rendem homenagem à confissão. — Sabemos hoje, escreve o citado Gaume, o que devemos pensar das virtudes e das pessoas honestas sem religião, isto é, sem confissão. Essas pessoas honestas são as que constituíram e constituem atualmente a sociedade moderna. Julgai a árvore por seus frutos. Além disso, é algo digno de observação que todos, protestantes, ímpios e indiferentes, rendem unanimemente homenagem à confissão. Aos olhos dos indiferentes que de modo algum a praticam, ela é eminentemente social. Observai, com efeito: eles se alegram que suas esposas, seus filhos, seus criados e seus lavradores se confessem. Seu afastamento da confissão é uma homenagem que prestam à sua perfeição. Em que idade, com efeito, eles a abandonaram? Talvez depois de se terem tornado mais virtuosos, mais probos, mais puros em seus costumes? E quem ignora que só se abandona a confissão quando se quer viver à mercê das próprias paixões, sem jugo e sem freio? (Lugar cit., Lect. LX).

4° Vantagens sociais e morais da confissão. — De onde credes vós, continua o citado autor, que procedam os delitos que mancham a terra, perturbam as famílias, transtornam os reinos? não será porventura do coração do homem? não é porventura ali que se estudam, se tramam e amadurecem todos os crimes dos quais somos testemunhas ou vítimas? Portanto, para salvar a sociedade, para fazer reinar nela a boa-fé, a justiça, o desinteresse e a pureza dos costumes, é preciso fazer com que essas virtudes reinem no coração do homem. Mas quem poderá apoderar-se dele? Quem poderá penetrar até o seu íntimo para purificá-lo e torná-lo bom? As leis humanas podem opor algum dique à torrente, mas jamais poderão secar-lhe a fonte: podem exercer algum poder sobre as ações, mas os pensamentos e os desejos, que são os focos das ações, subtraem-se inteiramente à sua influência; somente à religião está reservado esse poder. Mas como poderá ela exercê-lo? por que caminho penetrará no abismo do coração humano?

Sem dúvida, a pregação é, para a religião, um meio de chegar ao coração humano, mas o discurso dirigido a todos em geral não se dirige particularmente a ninguém. Cada um dele toma ou deixa segundo suas disposições e suas faculdades intelectuais. Além disso, o amor-próprio, tão hábil em iludir, muitas vezes nos impede de reconhecer nele aquilo que nos diz respeito; mais frequentemente ainda, falta-nos a coragem de fazer dele uma aplicação generosa a nós mesmos. Daí a pouca utilidade dos sermões para a reforma dos costumes. Que meio resta então à religião para aplicar um remédio à ferida? … Esse remédio é a confissão. Ali, no segredo do sagrado tribunal, o coração se abre inteiramente. Ali, o sacerdote, homem de Deus, defensor incorruptível de seus direitos, amigo seguro e sincero do culpado, médico caridoso, reúne, com todos os meios de conhecer o enfermo, toda a autoridade para aplicar o remédio às suas chagas. Ele queima, corta, extirpa, sem respeito humano e sem piedade, tudo o que está gangrenado; não poupa sequer a fibra delicada, a paixão predominante que, para escapar à destruição, se oculta até nos mais recônditos segredos da consciência.

Conhecido e confessado o mal, o confessor pensa na cura; e ei-lo substituindo os pensamentos falazes, as afeições desregradas e, por conseguinte, antissociais do homem velho, pelos pensamentos verdadeiros, pelas afeições santas do homem novo; numa palavra, ele comunica ao espírito e ao coração uma vida nova, virtuosa e, por isso mesmo, social. Vêm então conselhos perfeitamente adequados ao estado atual do penitente, porque o confessor o conhece, e que premunem aquele coração, todavia tão débil, contra novas quedas. Desse modo, a confissão aplica e adapta a religião às necessidades de cada indivíduo; desse modo, no tribunal da penitência, o sacerdote é o homem da sociedade, o mais útil defensor dos interesses dela, o maior reparador de seus males.

Encontrai um só interesse público ou privado, moral ou material, que a confissão não proteja, e mil vezes mais eficazmente do que os magistrados armados de toda a autoridade das leis. Ela protege a santa autoridade dos pais e dos príncipes contra a insubordinação dos filhos e dos povos; a vida moral e também física dos filhos contra a negligência e a má índole dos pais; a inocência, a reputação, a propriedade, a vida, a tranquilidade de todos, contra as paixões perversas que as ameaçam, paixões cujo germe se encontra no coração de todos os filhos de Adão. Sim, homens cegos, que tendes a desgraça de já não vos confessar, pais, mães, negociantes, ricos, pobres, jamais sabereis quanto deveis à confissão. Há muito tempo, talvez, a desonra já teria maculado aquilo que tendes de mais precioso; a calúnia teria denegrido o vosso nome, a injustiça vos teria lançado na miséria, a amargura e a melancolia teriam envenenado a vossa existência, não fosse a confissão. Que mais? Sem a confissão, talvez muitos daqueles que a ridicularizam e desprezam jamais tivessem visto a luz. Em suma, não há sociedade sem crença e sem costumes; não há crença nem costumes sem religião; não há religião verdadeiramente eficaz sem aplicação à sociedade; não há aplicação real e eficaz da religião à sociedade sem confissão. Prova disso é que o primeiro dever rejeitado, quando se quer sacudir o jugo da religião, é a confissão. Sabemos que ela põe o cristianismo em contato real e eficaz com o nosso coração. Ora, em nosso coração reside a fonte da felicidade e da infelicidade da sociedade. A confissão, que é tão poderosa — ousamos dizer, a única poderosa — para curá-lo, é, pois, supremamente, sumamente social (Id. Ib.).

5° A confissão cura o orgulho. — O orgulho é o primeiro de nossos vícios, é a nascente de todo outro pecado, a fonte de nossas desgraças. O orgulho não pode ser curado senão pela humildade, e a humildade não pode ser produzida senão pela humilhação. O ato mais humilhante para o homem degradado é a narração franca e inteira de sua vida, de seus pensamentos, olhares, desejos, de suas palavras, obras e omissões. Ora, a confissão é tal narração; portanto, entre todos os meios para subjugar o nosso orgulho, o mais eficaz é a confissão. Jesus Cristo nos amava demasiadamente, queria com ardor demasiado a nossa regeneração, para que nos poupasse este remédio salutar: eis por que estabeleceu a confissão.

6° A confissão instrui o homem. — No confessionário, o homem aprende a sua nobreza e a sua baixeza, instrui-se sobre os seus deveres e as obrigações do seu estado…; no segredo do sagrado tribunal, o confessor, amigo sábio, firme, incorruptível e experiente, lança o olhar, iluminado pela fé, até os últimos recessos do coração da criança, do jovem, do homem maduro e do ancião; pois tem lições de sabedoria para todas as idades e remédios para todos os males. Ele vê, conhece e revela os artifícios das paixões, indica ao penitente um ninho de víboras nascentes, que o amor-próprio, a inexperiência, a leviandade e o preconceito o impedem de perceber, mas que em breve cresceriam e lhe dilacerariam as entranhas. Ele o põe em guarda, qualquer que seja a idade do penitente, contra uma multidão de ilusões e máximas perigosas. Com mão firme, traça para cada estado o caminho dos próprios deveres; dirige, consola e fortalece no caminho da virtude, que é também, já aqui embaixo, o caminho da felicidade. Quem mais pode, dizei-me, substituir o confessor em lições tão salutares? Nem o pai, nem a mãe, nem um amigo, ainda que íntimo, penetram o último segredo do coração de seu filho ou amigo. Há segredos que o homem não pode nem quer confiar a outro senão a Deus. Por isso, cheio de admiração pelos benéficos efeitos da confissão, Marmontel exclamava: Que defesa eficaz não é para os costumes da adolescência o uso e a obrigação de confessar-se todos os meses! … Quão grande é o poder da confissão entre os católicos!, dizia o protestante e famoso médico Tissot.

“O Senhor ilumina os cegos” — dizia Davi (Sl 145, 6); e, se há lugar onde estas palavras se realizem plenamente, é o tribunal da penitência. Por isso, São Gregório escrevia: “Aqueles que procuram a luz, apressem-se a mergulhar nas ondas salutares da penitência (6)”. Ali, com efeito, vê-se o mal que se fez…, o bem que se omitiu…; ali se encontra o remédio para toda ferida, a cura de toda enfermidade.

7° A confissão reabilita o homem. — A confissão, retoma o citado Gaume, não apenas instrui o homem na arte de combater os próprios inimigos, mas o reabilita aos seus próprios olhos, quando se tornou culpado, e lhe restitui a coragem e a virtude. Observai o que acontece com o jovenzinho, especialmente no momento em que comete o seu primeiro pecado: quão amargo, meu Deus, é o fruto provado! — Eis-me manchado! Faltei a todas as minhas promessas; a veste do meu batismo está manchada, rompida a aliança da minha primeira comunhão; Jesus Cristo já não está em meu coração, já não sou seu filho, estou desonrado aos olhos dos anjos. — Infeliz! Ele o é também aos seus próprios olhos; já não pode examinar-se sem corar. E ei-lo tornando-se melancólico, angustiado, cansado dos outros e de si mesmo; ao chegar da noite, teme morrer, teme o dia, e os remorsos o oprimem. Eis o que acontece ao homem na primeira vez que comete uma falta grave, especialmente depois da primeira comunhão. Quão digno de compaixão!

Que será dele? O espírito tentador, que lhe havia prometido a felicidade para induzi-lo à culpa, muda instantaneamente os seus ataques. Para retê-lo no mal, aumenta aos olhos do desgraçado a enormidade da falta e lhe acrescenta a vergonha; exagera-lhe a dificuldade do perdão e, especialmente, demonstra-lhe a impossibilidade de recuperar toda a virtude que possuía antes. Então, uma grande aflição invade-lhe o coração; ele se desanima; sobrevêm novos pecados, desespera de poder romper as próprias cadeias e, renunciando às defesas, abandona-se a todo o ímpeto de suas paixões; daí, lágrimas na família, escândalos na sociedade, enfermidades vergonhosas, velhice precoce e, bem depressa talvez, um novo suicídio. Percorrei as cidades e os campos, penetrai no segredo da vida e dizei-me se esta não é a história de cada dia. Ora, o que reduz o homem a tal estado deplorável? O pouco ou nenhum esforço que faz para reconquistar a virtude, o desespero de já não poder corrigir-se e converter-se. Mas oferecei-lhe um meio seguro e fácil de reabilitação, e vós lhe restituireis a coragem e o salvareis; esse meio é a confissão. Desde o momento em que dela se serviu, as paixões jazem abatidas, os seus costumes mudaram, o seu coração está contente: ele é outro. Oh, que magníficos milagres da graça não se veem na confissão! (Id. Ib.).

8° A confissão vence o demônio. — A confissão desmascara todas as baterias do demônio, põe a descoberto as suas artes ocultas e a sua malícia, discute e desfaz as dúvidas por ele sugeridas, torna impotente a sua força… “Que é a confissão, diz São Gregório, senão a abertura das chagas? O demônio, pela virtude da confissão, exposto à luz do dia e envergonhado, foge (7).” Podem aplicar-se à confissão aquelas palavras do Gênesis referentes à Santíssima Virgem: Ela esmagará a cabeça da serpente (Gn 3, 15).

9° A confissão liberta da escravidão. — Quem faz uma boa confissão pode dizer a Deus com o Salmista: “Vós quebrastes, ó Senhor, as minhas cadeias” (Sl 115, 17), “e a minha alma foi como pardal libertado do laço do caçador; a rede rompeu-se, e eu me vi salvo” (Sl 123, 6-7).

“Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11, 44), disse Jesus Cristo aos apóstolos, falando de Lázaro; as mesmas palavras repete e este milagre renova no pecador que se aproxima da confissão… “Tudo o que desligardes na terra será desligado nos céus”, disse o Salvador aos Apóstolos ao instituir o sacramento da penitência. Portanto, neste sacramento as cadeias são rompidas, a prisão é aberta, a escravidão é destruída e é concedida a verdadeira liberdade. Aqui, “o Senhor solta os laços dos prisioneiros” (Sl 145, 6).

A mesma coisa também alude São Paulo com estas palavras aos Hebreus: “Desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que nos envolve, corramos com perseverança na carreira que nos é proposta” (Hb 12, 1).

10° Pela confissão obtém-se o perdão de todos os pecados. — “Se confessarmos os nossos pecados, escreve o apóstolo São João, Deus, que é justo e fiel, no-los perdoará” (1Jo 1, 9). O Profeta Davi dizia: “Vós, ó Senhor, perdoastes as culpas do vosso povo; lançastes um véu sobre as suas iniquidades; a vossa cólera se desarmou e extinguiu-se o ardor da vossa ira” (Sl 84, 2-3).

“Pela confissão, escreve São Cipriano, o pecador, fazendo para consigo mesmo o ofício de juiz e de executor, ao examinar-se e punir-se por si mesmo, obtém o perdão de Deus; pois Deus não julga duas vezes a mesma coisa (8).” “Pela confissão, diz o Venerável Beda, Deus remite as culpas cometidas; ajuda o penitente a não recair nelas e o conduz a uma vida em que será impossível pecar (9).” “A confissão cura, lemos em Santo Isidoro; a confissão justifica e perdoa todo pecado, e não há culpa tão horrenda que, pela confissão, não obtenha remissão (10).” Davi diz ao profeta Natã: “Pequei contra o Senhor”; e prontamente Natã lhe responde da parte de Deus: “O Senhor te perdoou; não morrerás” (2Sm 12,3). Hugo de São Vítor chega a dizer: “Se o demônio se confessasse, obteria o seu perdão” (Lib. de Claustro animae). Mas aquilo que não é permitido ao demônio é possível ao pecador, que tem a certeza de obter a graça…

11° A confissão purifica. — A confissão purifica a alma de toda sujeira (Hb 1,3). “O sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado”, diz o apóstolo São João (1Jo 1,7). E São Paulo exortava os hebreus a se aproximarem de Jesus Cristo com coração sincero e fé perfeita, com a alma lavada das impurezas da má consciência por meio de uma aspersão interior, e o corpo lavado em água pura (Hb 10,22). Esta aspersão, este banho de água pura é a confissão. Ela é ainda figurada naquelas fontes de águas vivas às quais, diz o Apocalipse, Deus conduzirá os eleitos (Ap 7,17). “Bem-aventurados os que lavam suas vestes no sangue do Cordeiro”, lemos ainda no Apocalipse (Ap 22,14). É precisamente no sagrado banho da penitência que nos lavamos com o sangue do Cordeiro…

Segundo os intérpretes sagrados, há duas fontes na Igreja: uma é aquela fonte que a Escritura chama de selada (Ct 4,12), e é símbolo do batismo, o qual, uma vez lavados nele, fecha-se e não podeis mais voltar a ele. A outra é aquela da qual diz Zacarias: “Naquele dia (isto é, no dia do Salvador, naquele dia em que a misericórdia se manifestará ao mundo) haverá, na casa de Davi, uma fonte sempre aberta aos habitantes de Jerusalém para a purificação dos pecadores” (Zc 13,1).

Oh, sim: eis a confissão. Ela não é uma fonte fechada, à qual já não pode aproximar-se aquele que uma vez dela tirou água; mas uma fonte não somente pública, como também sempre aberta a todos os que se apresentam; os pecadores podem vir a ela a qualquer hora, a qualquer momento; os leprosos podem lavar-se nela quando lhes aprouver; ela jamais deixa de ser benéfica. Aqui se renova milhares de vezes por dia o milagre da cura dos leprosos aos quais, tendo Jesus Cristo dito: “Ide e apresentai-vos aos sacerdotes”, enquanto iam, ficaram purificados (Lc 17,14).

Havia em Jerusalém uma piscina em torno da qual jazia sempre uma grande multidão de enfermos, cegos e paralíticos, esperando que a água se movesse. Pois um anjo do Senhor descia, no tempo determinado, à piscina e agitava a água; e aquele que primeiro descia depois que a água era movimentada ficava curado de qualquer doença (Jo 5,2-4). Esta piscina é a confissão, com esta diferença, porém: a piscina de Jerusalém não curava mais que o corpo de um enfermo e apenas uma vez por ano; ao passo que a piscina da confissão cura em todo tempo, todo enfermo e todas as chagas da alma, que são muito mais perigosas e terríveis do que as do corpo.

12° A confissão dá beleza. — Confessando-vos, vós vos revestis de beleza, diz o Salmista (Sl 103,2); e São Bernardo, escrevendo a Sofia, advertia-a de que, se lhe agradava possuir beleza, fizesse grande caso da confissão; pois a graça e a beleza andam juntas com ela. Onde se pratica a confissão, há beleza (11).

A confissão, que lava a alma, purifica-a de toda mancha de culpa e a enche de graça, faz refletir sobre ela a própria beleza de Jesus Cristo.

13° A confissão é uma ressurreição. — O pecado mortal dá morte à alma; ora, a confissão o remite, apaga-o e, portanto, restitui a alma à vida. Por isso, quem se confessa pode aplicar a si mesmo aquela passagem do Apocalipse: “Eu estava morto e eis que ressuscitei, tendo nas mãos as chaves do inferno e da morte” (Ap 1,18). “Lázaro, vem para fora”, disse Jesus Cristo, e eis que a morte fugiu (Jo 11,43-44). Com a absolvição, o sacerdote realiza o mesmo milagre.

14° A confissão fecha o inferno e abre o paraíso. — Quem se confessa tem nas mãos as chaves do inferno e do paraíso; fecha aquele e abre este à sua vontade. “A confissão extingue o fogo do inferno”, diz Tertuliano (12), porque destrói, aniquila o pecado, o qual, sozinho, cavou o inferno e precipita nele os homens.

“A confissão resume e compendia em si todo castigo”, diz Santo Ambrósio (13)… Ela nos livra da pena eterna, castigo devido à transgressão. Quem não se confessa desce ao inferno; mas quem se confessa dele sai para nunca mais voltar, se perseverar no caminho do bem…

A confissão é a chave do paraíso… Quando Jesus Cristo dizia aos apóstolos: “Eu vos darei as chaves do reino dos céus”, aludia à confissão e lhe comunicava este poder sobre-humano. Sim, a confissão conduz o pecador à porta do paraíso, abre-a e nela introduz o penitente.

15° A confissão proporciona a paz. — Efeito da confissão é dar ao pecador a consoladora certeza de que a amizade de Deus lhe foi restituída: ora, não é isto restabelecer a calma na alma agitada e transtornada pelos remorsos? E a vida que se apresentava sob o aspecto de um longo suplício torna-se doce e tranquila, e a própria morte perde o seu terror. Oh! Quanto é doce poder confiar a um amigo fiel, incorruptível e afetuoso os penosos segredos da própria consciência, as dúvidas, as perplexidades, os temores, as ansiedades e todos os tormentos do coração, que o mundo não saberia compreender nem aliviar! Vergonha para os católicos que negligenciam a confissão! Eles dão adeus à paz e à felicidade.

16° A confissão torna vigilantes e proporciona todo bem. — A confissão coloca o homem na feliz necessidade de vigiar sobre seus costumes, e essa vigilância previne o mal. Com efeito, desde que alguém decide ir confessar-se, vigia sobre si mesmo, observa-se, corrige-se…; depois de se ter confessado, persevera ao menos por algum tempo no caminho do bem; e, se se confessasse com muita frequência, jamais, ou quase jamais, cairia em culpas graves; e, se por desgraça isso acontecesse, prontamente se levantaria…

Em suma, grandíssimos e preciosíssimos são os bens que a confissão proporciona… Ela acalma a cólera de Deus; traz a graça santificante; é remédio contra as tentações e os pecados de toda espécie; comunica luz, força, fervor, alegria, vida… A confissão, diz São Bernardo, lava e purifica; dá origem às boas obras; limpa a alma e a torna cada vez mais bela; é a vida do pecador, a alegria do justo (Epist.). A penitência, diz Tertuliano, nasce da confissão, e, pela penitência, Deus é desarmado. A confissão é a disciplina que humilha e prostra o homem altivo; e então a misericórdia sucede à maldição (De Poenitentia c. IX)

“Todas as manchas que desfiguram a consciência permanecem lavadas e removidas pela confissão, escreve São Bernardo; a tristeza se dissipa, o pecado foge, a tranquilidade retorna, a esperança reverdece, a alma se alegra (14)”.

O pecado produz na alma três desordens; a primeira, fonte de todas as outras, é que separa o homem de seu Criador e rompe a feliz união que deve existir entre ambos: “Vossos pecados, diz Deus pela boca de Isaías, levantaram um muro de separação entre mim e vós”. Daí nasce a segunda desordem, isto é, a perda que a alma sofre de suas próprias forças, tão logo é separada de Deus. Ora, como a alma, em união com Deus, é santificada por meio de uma espécie de consagração, segue-se, como terceira desordem, que o pecado, rompendo essa união, lhe traz uma mancha, uma profanação. É uma lepra espiritual que não somente destrói as forças do homem, mas o torna semelhante às coisas imundas. Ora, a confissão remedia esses três grandes males, frutos do pecado; reconcilia-nos com Deus e nos une a ele: cura-nos, santifica-nos e consagra-nos… Por meio de uma boa confissão, caem despedaçadas as cadeias do pecado, o demônio é posto em fuga, o inferno se fecha, o céu se abre, o nome do penitente é novamente escrito em letras de ouro no livro da vida, é-lhe restituída a branca estola do batismo; a augusta Trindade o contempla com olhar benigno, os anjos exultam de alegria, e a alma se encontra bela, pura, esplêndida, adornada como no dia de seu batismo. Tudo lhe é permitido esperar. Com os olhos marejados de lágrimas, o penitente vê a poucos passos de si o banquete eucarístico e, um pouco mais adiante, o eterno festim das bodas do Cordeiro, para o qual é chamado e no qual tem o direito de se sentar…

6. QUALIDADES DA CONFISSÃO

1° Humilde. — A confissão deve ser humilde. Pois que é a confissão? Não é um relato nem uma história indiferente, mas uma declaração que alguém faz de ser culpado; e culpado de quê? de tudo aquilo que há de mais próprio para causar vergonha e confusão… O penitente deve ser humilde no exterior; apresentar-se ao sagrado tribunal com porte decente e modesto, de joelhos, em atitude de culpado… Deve ser humilde no modo de declarar seus pecados, não culpando os outros, mas unicamente sua própria malícia, e aniquilando-se diante de Deus no conhecimento de sua miséria e da necessidade que tem da infinita misericórdia. Considerando a enormidade e o número dos pecados, sua ingratidão para com Deus etc.…, o penitente deve humilhar-se exterior e interiormente.

Belíssimo exemplo de confissão humilde nos deixaram o Publicano e Madalena, e ambos obtiveram instantaneamente o perdão de seus pecados… Observai Davi: confessa sua culpa, pede graça; prostrado por terra, reconhece e deplora sua desgraça; jejua e reza; por efeito de uma profunda humildade, transmite a todas as gerações o testemunho de suas faltas. Não confessa São Paulo humildemente ao universo as suas culpas? … E o admirável livro das Confissões, no qual Santo Agostinho declara diante do céu e da terra os seus pecados, permanecerá monumento perpétuo de sua profundíssima humildade.

A confissão humilde exclui toda desculpa e pretexto… “Se vos desculpais, diz Santo Agostinho, Deus vos acusa; se vos acusais, Deus vos desculpa (15)”.

2º Sincera. — A segunda qualidade da confissão é a sinceridade. É preciso confessar a culpa tal como ela é, sem aumentá-la, diminuí-la ou dissimulá-la em coisa alguma… Pater, peccavi; “Meu pai, pequei”, disse o filho pródigo. Eis, comenta Santo Ambrósio, a verdadeira confissão feita a Deus, autor da natureza, modelo da misericórdia, juiz da falta: Deus conhece tudo e, contudo, espera e exige a confissão sincera de vossos desvarios. Todo aquele que manifesta os pecados sob cujo peso geme livra-se deles; impede toda outra acusação, por mais justa que seja, porque ele mesmo se antecipa a todo acusador. Em vão tentaríeis enganar Aquele que tudo vê; não correis perigo algum ao mostrar-lhe aquilo que sabeis já ser conhecido por Ele (De Poenitentia).

Para ressuscitar Lázaro, Jesus Cristo bradou: — Lazare, veni foras — Lázaro, sai para fora e mostra-te ao ar livre. Enquanto o pecador mantém secretas as suas culpas, diz São Gregório, não sai do sepulcro; mas ressuscita para a vida quando as traz à luz pela confissão. Por que esconder em vós o vosso pecado? Rejeitai esse veneno que vos consome, essa víbora que vos devora; renunciai a essa iniquidade que vos sufoca, e então o confessor vos desatará e vos tornará livres (Moral. lib. VII). Quem foi mordido secretamente pela serpente, diz São Jerônimo, e foi infectado por seu veneno, deve manifestar a sua ferida; do contrário, está perdido. Para ser curado, o enfermo deve revelar a sua doença ao médico. Não há coisa que frustre melhor os esforços de Satanás do que pôr às claras as suas manobras, e de nada ele se alegra tanto quanto de vê-las mantidas ocultas e disfarçadas (In Eccle. c. X). Tão repugnante, tão horrendo de se ver é o demônio, que ele nada ama senão as trevas; o dia o põe em fuga. O mesmo se dá com o pecado: filho do demônio e, como ele, disforme, procura esconder-se; se é descoberto, desaparece…

Quem oculta os seus pecados, lemos nos Provérbios, permanecerá no erro; mas quem os confessa obterá misericórdia (Pr 28,13). As feridas fechadas, observa São Gregório, são muito mais dolorosas e cruéis do que aquelas das quais o pus escorre por alguma abertura (Moral, lib. VII). Por isso, o Salmista exclamava: “Senhor, a vós declarei o meu delito; e confessarei a minha iniquidade diante do mundo” (Sl 31,5; 37,18). Assim comenta Santo Agostinho: “Não ocultei o meu pecado, mas o descobri para que o fizésseis desaparecer; não o escondi para que vós o escondêsseis, porque, quando o homem o descobre, Deus o cobre; quando o oculta, Deus o manifesta; quando o confessa, Deus o esquece (16)”.

Quem esconde a sua falta, diz Orígenes, conserva-a, e ela se torna seu carrasco; quem, ao contrário, dela se acusa, rejeita-a e obtém a cura (Homil. 2, in Psalm., XXXVII). Santo Ambrósio nos adverte de que Deus espera que confessemos candidamente os nossos desvios, não para nos punir, mas para nos perdoar; ele não quer que o demônio nos insulte e nos repreenda por havermos ocultado as nossas culpas. Antecipai-vos a esse acusador; se vós mesmos vos acusais, ele não ousará apresentar-se. Quem confessa os próprios pecados com sinceridade, ainda que estivesse morto, retorna à vida. Fazer-se próprio acusador é tirar ao demônio todo apoio para a acusação; é quebrar os dentes desse leão furioso, pronto a lançar-se sobre a sua presa (Lib. de Poenitentia, c. 8). “Por mais pecador que seja aquele que se acusa, escreve em outro lugar o mesmo santo, a partir desse momento começa a ser justo, porque não se perdoa a si mesmo. O pecado mantido oculto é chama que devora; o pecado tornado manifesto pela confissão é fogo que se extingue (17)”. Ouvi ainda Tertuliano: “A confissão sincera faz as vezes de Deus: pois faz com que o penitente, ao confessar a sua culpa, julgue e castigue a si mesmo; e, ao condenar e punir a si mesmo, detém a cólera de Deus e nada mais lhe deixa para julgar e castigar (18)”.

Além disso, a confissão sincera é a retratação do pecado e, por conseguinte, a melhor disposição para obter o perdão. O pecador, ao confessar sinceramente o seu pecado, revoga-o, condena-o, destrói-o e, tanto quanto dele depende, o abole, porque dele se arrepende, rejeita-o e detesta-o. Por isso merece que Deus lho perdoe e o apague com a sua graça; o contrário acontece se o oculta ou o disfarça…

Humilde e sincera, a confissão elimina o pecado e restabelece a virtude; a dissimulação, ao contrário, deixa o pecado viver e destrói toda virtude. “A confissão de um homem que se arrepende é poderosíssima junto à misericórdia divina, porque o pecador torna Deus propício a si; se negasse o pecado, de modo algum impediria que Deus o conhecesse (19). E a confissão é sincera quando a língua exprime os sentimentos do coração (20)”.

Enquanto se oculta o pecado, permanece-se escravo de Satanás… A confissão sincera das próprias faltas traz consigo uma leve amargura; mas é melhor experimentá-la do que conservar um tormento eterno no fundo do coração.

“A confissão sincera põe o demônio em fuga”, diz Hugo de São Vítor (21); e, se ocultamos nossos pecados, diz São Bonifácio, bispo de Mogúncia, Deus os divulgará contra a nossa vontade. É melhor confessá-los a um homem obrigado ao segredo do que expor-se a ser coberto de vergonha e desprezo diante dos habitantes do céu, da terra e do inferno…

3° Prudente. — A confissão deve ser prudente tanto na escolha das expressões quanto no que diz respeito à honra do próximo; de modo que o penitente acuse as próprias culpas, e não as alheias, e as declare em termos que não permitam conhecer os cúmplices. Manifestar, sem absoluta necessidade, os pecados dos outros não é somente uma imprudência, mas também falta de caridade e maledicência.

4° Inteira. — Tratando da integridade da confissão e de sua necessidade, o Concílio de Trento assim se exprime: “Se alguém afirmar que, no sacramento da penitência, não é necessário, para a remissão dos pecados, e é necessário por direito divino, confessar todos e cada um dos pecados mortais de que se recorda depois de um exame diligente, e também os pecados secretos, bem como as circunstâncias que mudam a espécie do pecado, seja anátema” (Sess. 14, de Poenitentia, can. VIII). Isto é de fé. Calar voluntariamente um pecado grave na confissão é cometer um horrível sacrilégio, é transformar o remédio em veneno.

Embora os pecados veniais não sejam matéria necessária para a acusação, são, contudo, matéria suficiente para a absolvição; e é mais útil e seguro declará-los, tanto porque assim se obtém mais facilmente o perdão, quanto porque pode acontecer que se julgue venial aquilo que, na realidade, é mortal.

7. DA CONFISSÃO FREQUENTE

A confissão frequente é um excelente meio para evitar o pecado. “Assim como nunca podemos estar inteiramente livres das feridas do pecado, também não devemos negligenciar o remédio da confissão frequente”, diz Santo Agostinho (23). E por que, diz Tertuliano, não empregais frequentemente o remédio da confissão, quando ele é tão seguro e vós estais tão frequentemente enfermos? Ah, infelizes! Fugi da confissão estabelecida por Jesus Cristo para vos curar! (De Poenitentia).

“Vai”, respondeu o profeta Eliseu ao leproso Naamã, que viera expressamente a ele para obter a cura, “vai e lava-te sete vezes no rio Jordão, e a tua carne ficará limpa e curada”. Naamã afastava-se irritado, mas seus criados lhe disseram: “Senhor, se o profeta vos tivesse prescrito uma coisa árdua e difícil, deveríeis certamente fazê-la; por que, agora, não lhe obedecer quando vos diz: Lava-te e serás purificado?”. Naamã fez a experiência, desceu ao Jordão, lavou-se nele sete vezes e saiu totalmente curado (2Rs 5, 10-14). Se nos confessássemos de tempos em tempos e com boas disposições, obteríamos para a alma aquilo que Naamã obteve para o corpo: se ele não tivesse se lavado sete vezes, sua lepra não teria sido curada; quem não se confessa senão rarissimamente expõe-se a não obter a cura. A confissão frequente é, além disso, a fonte de muitíssimos favores celestes.

Vai confessar-te frequentemente, dizia São Luís, rei da França, a Filipe, seu filho; escolhe um confessor douto e prudente, que te ensine com segurança o que deves fazer e evitar, que ouse repreender-te por teus vícios e mostrar-te tuas faltas.

São Pedro perguntou um dia a Jesus Cristo: “Quantas vezes, Senhor, deverei perdoar a meu irmão que me ofendeu? Talvez até sete vezes?”. E Jesus lhe respondeu: “Não te digo que lhe perdoes sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mt 18, 21-22); e em São Lucas o mesmo Jesus Cristo disse: “Se teu irmão te ofende sete vezes num dia, e sete vezes ele voltar a ti arrependido, dizendo: Eu me arrependo; perdoa-lhe” (Lc 17, 4). Essa multiplicidade de perdões indica a multidão das misericórdias de Deus, mas prova também a necessidade que temos de recorrer frequentemente à confissão; prova que é vontade de Jesus Cristo que nos aproximemos muitas vezes da confissão… A experiência nos mostra as vantagens da confissão frequente e as desgraças que atraem sobre si aqueles que permanecem tempo demais afastados do confessionário…

8. DO EXAME DE CONSCIÊNCIA

O remédio do pecado, escreve Santo Hilário, consiste em aplicar-se a conhecê-lo, para destruí-lo por meio de uma acusação exata. Cura-se da mordida terrível e venenosa da serpente aquele que a estuda atentamente, examinando a própria consciência (Homil. V). Com o exame das próprias culpas, diz Santo Agostinho, começa-se a ver o mau caminho por onde se anda, os hábitos perversos que se contraíram; e então o pecador sente desgosto de si mesmo e resolve mudar de vida (Confess.).

E é justamente o caso de fazer aquilo que Sêneca sugeria: “Condenai-vos a vós mesmos tanto quanto puderdes: revolvei a vossa consciência; começai a desempenhar contra vós o papel de acusador e, depois, o de juiz (23)”.

O exame de consciência que precede a confissão deve ser: 1º exato. Pensamentos, palavras, olhares, ações, omissões, mandamentos de Deus e da Igreja, deveres do próprio estado: nada deve ser esquecido… 2º deve ser imparcial… 3º é preciso fazê-lo como Deus o fará na hora do nosso juízo… Por isso, é preciso preparar-se para ele com a oração; depois, empreendê-lo com fé, com recolhimento, com pesar por ter ofendido a Deus…

9. VÃOS PRETEXTOS PARA NÃO SE CONFESSAR

Esses desgraçados que se afastam da confissão pretendem encontrar razões que justifiquem ou, pelo menos, desculpem sua conduta. Mas devem ser chamados vãos pretextos, e não razões, os argumentos que apresentam. Com efeito, eles dizem:

a) «Eu não creio na confissão». Se dizeis isso por ignorância, é preciso ter compaixão de vós e instruir-vos, e então crereis… Se o dizeis por impiedade, vossa linguagem prova que Deus vos abandonou e amaldiçoou, e que sois infelizes e desprezíveis.

b) «A confissão é uma invenção dos homens». A isso respondemos provando a divindade da confissão…

c) «Os sacerdotes são homens como os outros». Um rei, um ministro, um juiz também são homens como os outros; contudo, quando decidem e ordenam alguma coisa, por acaso suas ordens e decisões são tidas na mesma consideração em que se teriam os comandos e as decisões de homens não revestidos de nenhum caráter ou autoridade? Não a todos os homens, mas somente aos seus ministros legítimos, Jesus Cristo disse: Tudo o que ligardes ou desligardes na terra será desligado ou ligado nos céus. Esse poder faz com que, em matéria de religião e de sacramentos, os sacerdotes não sejam homens como os simples fiéis…

d) «Somente Deus pode perdoar os pecados». Isso é verdade; mas não prova outra coisa senão que os sacerdotes absolvem não em seu próprio nome, mas em nome de Deus, de quem receberam o mandato e o poder…

e) «Eu me confesso a Deus». Bela e boa coisa; mas não basta. Desde o momento em que Deus ordenou que aquela confissão que quereis fazer a ele a façais aos seus vicegerentes, aos juízes por ele designados, não há perdão para vós, senão sob esta condição.

f) «Ter de se confessar é coisa demasiado penosa». Nós respondemos a esse preconceito, demonstrando a facilidade e a utilidade da confissão.

g) «Somente os ignorantes se confessam». Dizei antes que os únicos que não se confessam são os ignorantes do maior e mais importante de seus deveres, ou os ímpios. Ora, nenhum homem sensato terá a ignorância e a impiedade como argumentos sólidos. Os Santos Padres se confessavam, e de tais personagens devemos dizer que certamente sabiam alguma coisa. Os Papas, os bispos, os teólogos não eram todos tolos; no entanto, esses homens, luminares da Igreja, se confessavam e ainda se confessam nos dias de hoje.

h) Que dirá, que pensará meu confessor de minha vida semeada de quedas, manchada de delitos, tecida de fraquezas? Que dirá o vosso confessor? Dirá que cair é coisa natural e frequente; que todos somos inclinados ao mal, cercados de inimigos; ficará edificado com a vossa humildade e sinceridade; pensará e dirá que, se Deus não vos tivesse socorrido, teríeis avançado muito mais no caminho do mal, e que, se não fosse por sua graça, ele não vos veria fazer, aos seus pés, a confissão de vossas culpas e depor o pesado fardo que vos oprime: bendirá a Deus e vos encorajará a abandonar-vos nos braços de sua misericórdia. O confessor também é um pobre pecador e terá compaixão de vós. Estará convencido de que sois uma alma generosa, que não levais em conta o respeito humano, e que é muito maior a coragem que demonstrais ao vos levantardes do que foi a fraqueza que mostrastes ao ir de culpa em culpa.

i) Eu não ouso, tenho vergonha de me confessar. Vergonhoso é cair, mais vergonhoso ainda é esconder a queda, ocultar o pecado no coração; mas levantar-se, por meio da confissão e do arrependimento, é coisa honrosa diante de Deus e diante dos homens… Quem diz que Davi, Madalena, São Pedro, São Paulo, Santo Agostinho etc. se desonraram ao fazer uma confissão pública? E a vossa se realiza no mais profundo segredo…

j) E se o meu confessor violasse o segredo da confissão? Tão estrita e abrangente é a lei do segredo da confissão, que um confessor pode dizer com Santo Agostinho: “O que sei por meio da confissão, sei menos do que aquilo que absolutamente ignoro”. — E São João Clímaco já fazia observar, desde os seus tempos, que Deus vela de modo especial sobre sua Igreja a esse respeito. É coisa inteiramente inaudita, escreve ele, que os pecados confessados no tribunal da penitência tenham sido divulgados. E assim Deus dispõe as coisas para que os pecadores não sejam afastados da confissão e não fiquem privados da única esperança de salvação que lhes resta. Com efeito, se o segredo do tribunal da penitência não tivesse sido sempre inviolável e inviolado, a prática da confissão já teria desaparecido. O segredo da confissão é de direito natural. Viu-se alguns sacerdotes perderem a razão, apostatarem etc.; entretanto, jamais aconteceu que esses ministros desafortunados ou indignos violassem o selo da confissão.

k) Mas eu recaio todos os dias. A confissão de modo algum torna impecável. Além disso, quem vos assegura que não cairíeis, e com mais frequência e mais profundamente, se não vos confessásseis? Antes, isto é certo… Confessai-vos, e ainda mais frequentemente; a vossa negligência a esse respeito é a principal causa de vossas recaídas…

1) Aqueles que se confessam não valem, quanto à pureza dos costumes, mais que os outros; seu caráter e sua linguagem são tão pouco estimáveis quanto o caráter e a linguagem daqueles que não se confessam. Isso é falso. Todos os que caem na desordem começam por abandonar a confissão e a ela retornam quando pretendem mudar de vida. O motivo que mais de uma vez levou os protestantes a desejar o restabelecimento da confissão em sua Igreja foi a assustadora desregradação dos costumes que se viu suceder à abolição dessa santa prática. Muitos dos mais famosos entre seus escritores concordam quanto a esse fato e confessaram que sua reforma teria grande necessidade de ser reformada… Que será de um jovem ou de uma donzela quando negligenciam a confissão? … Todos podem vê-lo…

É verdade que às vezes acontece de esta ou aquela pessoa que se confessa não se conduzir melhor que outra que não se confessa, mas não se deve confundir a confissão com o abuso dela. Não culpemos a confissão por aquilo que deve pesar sobre o penitente que abusa de tão preciosa graça.

Que nos diz a experiência? Que, se há pais edificantes, filhos obedientes e respeitosos, estes se encontram somente entre aqueles que se confessam, e tanto mais entre os que se confessam com frequência… Exigindo de vossas esposas, de vossos filhos, de vossos criados que se confessem, vós prestais homenagem, sem o querer, à confissão e reconheceis que ela é boa. Ora, se ela é boa e útil para eles, por que não o será também para vós? Ademais, vós mesmos a julgastes excelente no tempo de vossa primeira comunhão: agora, quem mudou, quem se tornou mau, entre vós e ela? Ah! vós sabeis muito bem que a confissão não é menos perfeita hoje, quando a desprezais, do que o era então; e, se agora ela já não vos agrada, é porque vos tornastes maus e quereis permanecer assim.

m) Já me confessei e ainda estaria pronto a confessar-me, mas meu confessor é demasiado severo; não me concede a absolvição quando a desejo. — Quereis fazer uma boa confissão? Não vos erijais em juízes de vosso pai espiritual. O remédio aplicado demasiado depressa àqueles que caíram, respondia a corte de Roma a São Cipriano, que a consultara acerca da absolvição a ser concedida, não lhes pode ser vantajoso. Uma compaixão mal compreendida agravaria a ferida que os atingiu e lhes seria funestíssima, privando-os das vantagens que lhes oferece uma verdadeira penitência. Como é possível que a graça medicinal do perdão produza seu efeito, se aquele que é seu dispensador concorre para aumentar o perigo, abreviando o tempo das provas próprias para evitá-lo? Contentar-se em paliar o mal, em vez de esperar o tempo favorável à aplicação do remédio e de usar uma sábia lentidão para consolidar com maior segurança a ferida, isso se chama matar, não curar o enfermo. É consolador que os penitentes batam à porta da Igreja, mas não devem usar da força para que ela lhes seja aberta. As lágrimas e os soluços, provenientes do fundo de seu coração, sejam os advogados de sua causa e exprimam a dor e a confusão que sentem por suas faltas. É dever confiar na misericórdia de Deus, mas é preciso não esquecer sua justiça. Se há um paraíso, há também um inferno (Storia eccl.). O próprio São Cipriano manteve-se firme contra aqueles que pediam uma reconciliação demasiado precipitada (Epl. ad Martyr.).

É preciso abrir a chaga, cortar, queimar, sem dar atenção aos gritos do enfermo: com o passar do tempo, ouvir-se-á agradecer e bendizer aquele que antes era acusado de crueldade. Uma absolvição dada sem reflexão é perigosa para quem a dá, inútil e até nociva para quem a recebe. Meu confessor é demasiado severo. Ah! Dizei antes que demasiado severos são o demônio, vossas paixões, vossos maus hábitos, pois somente neles está a causa da recusa da absolvição. Meu confessor é demasiado severo; mas o mal em vós é profundo, inveterado; como vos curar com um remédio demasiado brando e suave? Meu confessor é demasiado severo; mas tendes vós as disposições requeridas para serdes absolvidos imediatamente? Tendes vós, na realidade, a contrição e o verdadeiro propósito? Dais provas de uma mudança de vida? Fizestes ao menos esforços generosos para abraçar uma conduta melhor? Sede humildes, obedientes, profundamente penetrados da gravidade do pecado, e já não achareis vosso confessor demasiado severo…

As principais causas do desgosto que se sente pela confissão e do consequente abandono dela são a ignorância…; a perda da fé…; as paixões…; os maus hábitos e a vontade de não renunciar a eles.

10. A QUEM SE DEVE NEGAR A ABSOLVIÇÃO

Os confessores são obrigados a negar ou adiar a absolvição:

1° àqueles que ignoram os principais mistérios da fé ou os mandamentos de Deus e da Igreja.

2° Aos pais, às mães, aos patrões e às patroas que não instruem nem mandam instruir, ou impedem que sejam instruídos, seus filhos e seus dependentes nas coisas necessárias à salvação, ou que não vigiam sua conduta.

3° Àqueles que exercem profissões, artes ou ofícios maus por sua natureza, ou que não podem ser exercidos sem pecado, como os de atores, de espíritas, de escritores ímpios ou imorais.

4° Àquele que conserva ódio, que se recusa a perdoar e a reconciliar-se.

5° Àquele que tiver lesado ou causado dano ao próximo, seja em seus bens, seja em sua reputação, e não quiser repará-lo segundo as suas possibilidades, nem prometer fazê-lo quando estiver em condições.

6° Àqueles que vivem no hábito de um pecado mortal, se não se empenharem sincera e inteiramente em dele se despojar.

7° Àqueles que voluntariamente se expõem ao pecado mortal, se não afastarem a ocasião; como também àqueles que não quiserem deixar de constituir ocasião próxima de pecado.

8° Os pecadores públicos não podem ser admitidos aos sacramentos enquanto não tiverem reparado, por meio de conveniente satisfação, o escândalo dado; uma simples promessa não basta, requer-se uma verdadeira reparação.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.