Em si mesma, a concupiscência é o apetite dos sentidos, ou a inclinação natural aos bens sensíveis; esse apetite, essa inclinação não são maus, contanto que não se oponham à razão e à lei de Deus.
A concupiscência não é uma substância má produzida pelo demônio; pois nenhuma substância pode ser má em si mesma, nem proceder do demônio. Tampouco é o pecado original, porque este é destruído pelo batismo, ao passo que a concupiscência permanece no homem mesmo depois do batismo. Finalmente, não é, como sustenta Calvino, uma espécie de coisa corrompida pelo pecado original e semelhante a uma fornalha sempre acesa que vomita o pecado.
A concupiscência, nascida do pecado original e por ele propagada, não é o pecado, mas a pena do pecado. Ela é uma contínua ocasião de combate, de luta, de vitória; e só então se torna pecado, quando a vontade consente nela. Ainda que um homem seja justo, não deixa por isso de estar sujeito à concupiscência como a um tirano; entretanto, não se pode dizer, em sentido absoluto, que seja escravo do pecado, porque a concupiscência de modo algum nos obriga a pecar. “Sentir os movimentos da concupiscência, diz São Bernardo, não é pecado; mas comprazer-se neles voluntária e deliberadamente, isso é pecado (1)”.
“Sinto, testemunhava de si mesmo São Paulo, nos membros do meu corpo outra lei, que se opõe à lei do meu espírito e tenta sujeitar-me à lei do pecado” (Rm 7,23). Isto é, experimento em mim uma inclinação que me tiraniza, não me constrangendo a vontade a submeter-se a ela, mas solicitando-a contra a minha vontade e não obstante a minha resistência, ainda que vigorosa. Sou obrigado a sentir os movimentos que ela suscita no fundo do meu coração, mas não a comprazer-me neles. Estamos, pois, sob o jugo da concupiscência, mas não sob o do pecado.
A concupiscência faz-se sentir em nós, mas, entretanto, não a escutamos nem lhe obedecemos, a não ser na medida em que consentimos nela. Os movimentos da concupiscência não são pecados quando involuntários. “Não é condenado, escreve Santo Agostinho, senão aquele que inclina a sua vontade à concupiscência da carne (2).” Não está em nosso poder evitar ou afastar inteiramente os movimentos da concupiscência; o que depende de nós e de nossa vontade é consentir neles; se o fazemos, há pecado… “Sentir a concupiscência, sentencia o Crisóstomo, é próprio da natureza; mas desejar o mal é próprio somente da vontade (3).”
O pecado está inteiramente na vontade… “Não mancha de modo algum a nossa alma, acrescenta São Gregório, aquele pensamento imundo que se apresenta à nossa mente e a solicita, mas mancha-a aquilo que a submete, fazendo-a consentir nele (4).” Se a concupiscência fosse um pecado em si mesma, Deus certamente teria atendido a São Paulo, quando este lhe pedia que o libertasse dela; ora, Deus não cedeu ao seu pedido, mas respondeu-lhe que a virtude se fortalece na fraqueza (2Cor 12,9).
Quando digo os afetos da carne, falo impropriamente, escreve São Cipriano; pois esses afetos, na verdade, pertencem à alma, que é a única que sente, move-se e vive, e à qual o pecado é imputado, porque somente a ela foram dados o livre-arbítrio, a razão, a ciência e o poder. Por meio dessas faculdades, ela está em condição de condenar o mal, rejeitá-lo e escolher o bem. A alma serve-se do corpo como o ferreiro se serve da bigorna e do martelo para moldar, nas formas mais impudicas que deseja, os seus ídolos e fabricar falsos deuses segundo o seu capricho. Não é a carne que arrasta ao pecado; não é ela que o sugere nem que concebe as obras más; ela não é senhora do pensamento, mas o arsenal onde se encontram os instrumentos do pensamento. É o espírito que faz e consuma nela e por ela tudo o que decidiu fazer. Que a carne seja insensível é coisa evidente, se se observa o que acontece quando a alma dela se aparta: a partir desse instante, a carne já não é apta para nada; não resta senão uma massa de corrupção. Tudo o que no homem compreende e sente é, por natureza, estranho ao corpo… Falando impropriamente, diz-se que a carne combate contra o espírito, que o espírito luta contra a carne e que entre eles há oposição, pois esse combate ocorre somente na alma, que guerreia contra si mesma e luta contra a sua própria vontade. Ela conhece muito bem, nessa luta, o que é mau e o que é bom, mas, entorpecida pelo veneno de seu desejo, abandona o seu corpo à ignomínia; abraçando-se e unindo-se a ele, mergulha na volúpia debilitante, e ali ambos adormecem. Ao despertar, a confusão traz consigo um tardio arrependimento, e a alma culpada e corrompida dá-se conta do horror das imundícies (Prolog. Tract, ad. I. C.).
A concupiscência e a tentação não são pecados, mas os geram se a vontade consente nelas. “O pecado, diz Santo Agostinho, exige de tal modo, por sua natureza, o consentimento da vontade que, se este falta, deixa de ser pecado (5).” E São Bernardo observa que o bem e o mal são coisas que não pertencem ao corpo (6). Gersônio chama a concupiscência de embaixadora de Satanás junto à vontade, para levá-la a prestar o seu consentimento… Mas, se esta se recusa, nenhuma força ou poder tem a embaixadora: ela se assemelha, segundo a comparação de São Tomás (De Peccat.), a um homem que quisesse incendiar uma floresta sem fogo.
A concupiscência, diz Santo Efrém, é chamada semente do demônio, ferida da alma, chaga do coração, árvore que produz o mal, víbora (T. II Paraen). É a mãe do pecado, cujo pai é o livre-arbítrio; a sugestão, de um lado, e o consentimento da vontade, de outro, tornam fecunda a sua união e dela fazem nascer todos os delitos. A causa real e mais poderosa da tentação e, por conseguinte, do pecado, é a concupiscência, porque leva a vontade, o espírito e a imaginação a consentir no pecado. Dela nascem a irreflexão, a ignorância, a paixão, o mau hábito e a cegueira; ela encobre e oculta a malícia do pecado. Com razão, portanto, é chamada o foco, o princípio e a escola do pecado, e São Paulo chama-a lei dos membros, que repugna à lei do espírito.
“Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e seduz”, escreve o apóstolo São Tiago (Tg 1,14). E São Gregório Nazianzeno diz que a concupiscência é um fogo cuja chama o demônio suscita (7).
A concupiscência nos tenta: 1° como a serpente tentou Eva, e Eva, Adão; 2° impele-nos a fazer o mal, como a febre nos estimula a beber água, o que é nocivo.
Perdemos o freio da justiça original, com o qual Adão reprimia e continha de tal modo os movimentos da concupiscência que eles não podiam surgir senão quando lhe parecia e agradava; por isso, a concupiscência está em nós como uma úlcera viva que continuamente exala um fedor nauseabundo; assemelha-se a uma cloaca, de onde continuamente partem vapores corrompidos e pestilenciais, a uma fornalha ardente, da qual se desprendem sem interrupção fumaça e chama. A concupiscência sugere, noite e dia, pensamentos maus e ignominiosos, e estimula ao desabafo de vergonhosas paixões. É um vulcão que não se extingue e cuja cratera sempre aberta lança ao longe e ao redor lava incandescente…
Pode diminuir, se for severa e continuamente refreada, mas nunca morre inteiramente, enquanto o homem vive… E se o grande Apóstolo, esse vaso de eleição, esse homem escolhido por Deus para levar o seu santo nome a todo o mundo, sentia-se molestado por essa maldita inimiga, que não deveremos nós temer dela, miseráveis pecadores, frágeis caniços?
“Não ameis o mundo, ensina São João, nem as coisas que estão no mundo. Quem ama o mundo demonstra não ter em si o amor do Pai; porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida” (1Jo 2,15-16).
A serpente tentou Adão e Eva com estas três concupiscências: com a concupiscência da carne, estimulando-os a comer do fruto proibido; com a concupiscência dos olhos, prometendo-lhes falsamente que os seus olhos se abririam; com a concupiscência do orgulho, seduzindo-os ao dizer: Vós sereis como deuses. O demônio tentou Jesus Cristo no deserto com estas três concupiscências: com a concupiscência carnal, sugerindo-lhe que ordenasse que aquelas pedras se convertessem em pães…; com a concupiscência dos olhos, dizendo-lhe: Dar-te-ei todas estas coisas se te prostrares para me adorar…; com a concupiscência do orgulho, solicitando-o a precipitar-se do pináculo do templo, na certeza de que os Anjos o acolheriam entre os seus braços.
Esta tríplice concupiscência é contrária à santíssima Trindade; a dos olhos, que é a avareza, a Deus Pai, que é liberalíssimo e comunica sua essência e tudo o que possui ao Filho e ao Espírito Santo e, por participação, às criaturas. A concupiscência da carne opõe-se ao Filho, cuja geração nada sabe de carne… O orgulho da vida é contrário ao Espírito Santo, espírito de humildade e de doçura…
A concupiscência da carne é o amor dos prazeres dos sentidos; esses deleites nos prendem a este corpo mortal, do qual São Paulo dizia: “Ó pobre de mim! quem me libertará deste corpo de morte?” (Rm 7,24); mais ainda, tornam-nos escravos dele, vendem-nos a este corpo de pecado, como se exprime o mesmo Apóstolo (Rm 7,14). Jugo pesadíssimo… e funestíssimo, porque nos conduz à gula, à luxúria, a todo gênero de excessos assustadores…; atraiu sobre o mundo todos os males, todas as enfermidades, todas as doenças, o dilúvio, a morte… causou a destruição de Sodoma etc…. A concupiscência carnal é uma planta envenenada que estende seus ramos por todos os sentidos e abraça o corpo inteiro… Serpeia em nossa carne uma secreta tendência a uma geral rebelião contra o espírito; e por isso São Paulo a chama carne de pecado (Rm 6,6).
O homem se rebela contra Deus; e então o corpo deixa de estar sujeito ao rebelde; o homem já não é senhor de seus movimentos. A insurreição de seus sentidos lhe faz conhecer sua queda, porque Deus o havia feito reto, isento das misérias da concupiscência e senhor de si mesmo; mas, tendo o homem recusado submeter-se a Deus, a carne recusou submeter-se ao espírito. Depois da queda do homem, as paixões da carne se tornaram, por justo castigo de Deus, vitoriosas e tirânicas; e o homem que, por sua imortalidade e pela perfeita sujeição do corpo ao espírito, deveria ser espiritual também na carne, tornou-se, diz Santo Agostinho, carnal até mesmo no espírito (8).
Outra fonte de corrupção é a concupiscência dos olhos, a qual, como diz Bossuet, consiste principalmente em duas coisas, uma das quais é o desejo de ver, de experimentar, de conhecer — em uma palavra, a curiosidade; a outra é o deleite que os olhos experimentam ao contemplar objetos capazes de deslumbrá-los e seduzi-los.
A vontade de conhecer e experimentar chama-se concupiscência dos olhos porque, entre todos os órgãos dos sentidos, os olhos são os que mais ampliam o círculo de nossos conhecimentos. Nos olhos, isto é, na visão, estão de certo modo compreendidos os outros sentidos, e no uso da linguagem humana ver e sentir têm frequentemente o mesmo significado. Não se diz apenas — vede como isto é bom —, mas também — vede como esta flor é perfumada, como este instrumento é manejável, como esta música é agradável de ouvir. Por isso, toda curiosidade se refere à concupiscência dos olhos (Traité de la Concup.).
Pela concupiscência dos olhos, quer-se ver…, deseja-se ser visto…; anseia-se pela riqueza…, esta concupiscência gera a avareza…, a vaidade…, o luxo…, os gastos irrefletidos etc…. Tudo isso fascina e engana os olhos… Não ameis, pois, o mundo nem as coisas do mundo.
O orgulho é uma profunda depravação, porque, onde ele impera, o homem, abandonado à sua tirania, considera-se como um deus, tal é o excesso de seu amor-próprio. O orgulho é o vício que instilou no fundo de nossas entranhas a palavra da serpente a Eva: “Vós sereis como deuses” (Gn 3,5). “Aquilo que temos por mais caro, aquilo que sobretudo admiramos e cultivamos, torna-se nosso deus”, diz Orígenes (9).
“Cada um forma para si um deus cruel da paixão à qual se abandona”, canta Virgílio (10), e outro poeta observava que o mundo tem três deuses: a honra, as riquezas, os prazeres.
Do orgulho da vida nasce o amor-próprio, o amor de si mesmo. O orgulhoso não se ocupa senão de si mesmo, de sua vontade, de seu prazer; já não é, nem quer mais estar sujeito à vontade de Deus. Não amando senão a si mesmos, tornam-se intratáveis com o próximo… Em vez de levar o amor de Deus até o desprezo de si mesmo, leva-se o amor de si mesmo até o desprezo de Deus. Então adora-se o nada… Mas degrada-se acaso a Deus? De modo algum; degrada-se a si mesmo: nada se tira a Deus, mas tira-se tudo a si mesmo, privando-se do apoio, da luz, da força e da fonte de todo bem; torna-se cego, ignorante, fraco, injusto, malvado, escravo do prazer, inimigo da verdade… Quer-se ser livre, e torna-se livre à maneira dos animais, que não têm outra lei senão a de seus apetites… Tudo isso é obra do demônio.
Eis a loucura, o erro do homem. Deus o havia feito feliz e santo; esse bem era, por sua própria natureza, imutável, e, se o homem não tivesse mudado, teria permanecido em uma condição imutável; ele mudou voluntariamente, e disso resultou a tríplice concupiscência: tornou-se orgulhoso, curioso, sensual. Para nos curar desses males, Deus nos enviou um Salvador humilde, um Salvador que busca somente a salvação dos homens, um Salvador submerso em tal mar de penas que, por antonomásia, é chamado o homem das dores, como o chama Isaías (BOSSUET, Traité de la Concupisc.).
Somos vendidos à concupiscência, diz São Paulo (Rm 7,14); e, como que oprimido pelo peso dela, exclama: “Ó miserável de mim! quem me libertará deste corpo de morte?” (Ib. 24).
“Escuta, minha alma — assim fala consigo mesmo Hugo de São Vítor —, escuta o que és: estás carregada de pecados, presa pelos vícios, enfeitiçada pelas seduções, escrava dos membros, ocupada pelos negócios, estimulada pelas preocupações, dilacerada pelos temores, afligida pelas dores, exposta aos erros, agitada pelas suspeitas, atormentada pelas ansiedades, estrangeira em terra inimiga, conspurcada por tuas relações com os mortos, e apresentas o aspecto daqueles que habitam o inferno (11)”.
A carne se rebela contra o espírito, e o espírito luta contra a carne, de modo que não fazemos o que quereríamos fazer, diz São Paulo aos Gálatas (Gl 5,17).
A concupiscência é comparada à sanguessuga; porque 1° a sanguessuga vive na água lamacenta e procura ardentemente sugar o sangue; a concupiscência vive no lodo das paixões, mergulha na carne e no sangue e busca somente aquilo que macula… 2° A sanguessuga e a concupiscência são ambas insaciáveis; não suportam que se demore em satisfazer-lhes o apetite, mas pretendem ser satisfeitas sem demora. 3° Ambas são moles e fracas. 4° A sanguessuga apetece e saboreia o sangue corrompido; a concupiscência encontra todas as suas delícias no seio dos pensamentos impuros, dos desejos perversos, das ações vergonhosas. Quereis exemplos? O colérico só pensa no modo de dar vazão ao ódio e à vingança que está meditando; o guloso não procura senão satisfazer a gula; o luxurioso não deseja outra coisa senão prazeres sensuais… 5° As sanguessugas, ao sugarem o sangue de um homem, acabam por enfraquecer-lhe as forças e deixá-lo exangue; a concupiscência priva de forças a alma e o corpo e causa a morte temporal e a eterna. 6° A sanguessuga apega-se com tenacidade, e assim também faz a concupiscência. 7° A sanguessuga tem veneno; a concupiscência perverte a alma, envenena-a e mata-a. 8° A sanguessuga é armada de uma espécie de lâmina com a qual perfura a pele; a concupiscência tem um aguilhão com que fura e fere a consciência. 9° A boca da sanguessuga é triangular e produz uma ferida de três faces; uma tríplice ferida também causa a concupiscência: no corpo, no coração e no intelecto.
“São manifestas, diz São Paulo, as obras da carne, que são o adultério, a fornicação, a impureza, a luxúria, a idolatria, os malefícios, as inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as discórdias, as facções, as invejas, os homicídios, as bebedeiras, as orgias e coisas semelhantes; por isso vos advirto, como já vos disse, que aqueles que fazem tais coisas não alcançarão o reino de Deus” (Gl 5,19-21). Eis as obras do homem velho e da concupiscência, quando a vontade se lhes submete…
“Quando a concupiscência concebe, diz o apóstolo São Tiago, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1,15). “E de onde vêm as dissensões e as rixas que se veem entre vós? Não vêm porventura das vossas concupiscências, que combatem em vossos membros? Ah! estais cheios de desejos e não tendes o que desejais” (Id. 4,1-3).
“Aquele sobre quem cai o fogo da concupiscência, diz São Gregório, já não pode ver o sol da inteligência (12).” E se a concupiscência não fosse fogo, acrescenta o Crisóstomo, não incendiaria a casa (Homil. ad pop.).
“Toda paixão é uma tempestade, escreve Santo Agostinho, para quem a alimenta. Amas tu o oceano do século? Ele te tragará; porque pode afogar, mas não transportar os seus (13).”
Embora Adão e sua descendência tenham sido feridos no intelecto, na memória, na vontade e no apetite irascível, foram, contudo, feridos muito mais profundamente no apetite concupiscível. Assim como uma fera faminta se lança sobre a presa para despedaçá-la, assim a concupiscência se atira sobre o homem para agarrá-lo, arrastá-lo aos prazeres animalescos e cruéis e abandoná-lo à mercê do pecado.
“Se dás à tua alma o que ela deseja em suas concupiscências, adverte-nos o Eclesiástico, darás motivo de alegria aos teus inimigos” (Eclo 18,31).
“O corpo que se corrompe agrava a alma”, está escrito na Sabedoria (Sb 9,15); e, portanto, o homem que se deixa vencer e dominar pela concupiscência pode aplicar a si mesmo aquelas palavras do Salmista: “Não há saúde em minha carne, nem paz em meus ossos, por causa dos meus pecados. Pois minhas iniquidades ultrapassam minha cabeça e, como pesado fardo, me oprimem. Minhas chagas se corromperam por causa da minha insensatez. Tornei-me miserável e estou excessivamente encurvado; andava todo o dia carregado de tristeza. Porque meus rins estão cheios de ilusões, e não há saúde em minha carne. Estou abatido e reduzido ao extremo; soltava em rugidos os gemidos do meu coração. Senhor, diante de teus olhos está todo o meu desejo, e não te está oculto o meu gemido. Meu coração está perturbado, minha força me abandonou, e até a luz dos meus olhos já não está comigo” (Sl 37,3-10).
“Passa o mundo e a sua concupiscência” (1Jo 2,17), diz São João, e o apóstolo São Tiago nos adverte de que jamais chegaremos a saciar o apetite que nos estimula (Tg 4,2).
A concupiscência reduz sua desventurada vítima à deplorável condição do filho pródigo do Evangelho. Condu-la a uma terra estrangeira, onde a faz dissipar todos os seus bens em meio a uma vida voluptuosa. Reduzida depois à miséria, sobrevém a fome a essa alma, joguete das paixões, e ela cai na indigência. Nesse ponto, o tirano a quem se vendeu manda-a cuidar dos porcos, onde nem sequer lhe é permitido saciar-se com o alimento desses animais imundos (Lc 15,13-16). Ah, sim! A concupiscência é um mal que tortura a alma, fazendo-a desejar as coisas daqui de baixo, incapazes de saciá-la ou de matar-lhe a sede. Entrega-a à mercê do tédio, dos desgostos, dos enganos, dos temores e de mil dores.
Desejais e não chegais a possuir aquilo que cobiçais: Concupiscitis et non habetis. 1° Desejais porque não tendes, e esse desejo prova que sois pobres e infelizes…; 2° desejais e não tendes, porque a concupiscência é insaciável…; 3° desejais e não tendes, porque aquilo que possuís já não vos basta, tornou-se para vós coisa insípida e nauseante…; 4° desejais e não tendes, porque no mesmo instante em que um objeto, ardentemente buscado por vós, vos proporciona um prazer efêmero, esse prazer rapidamente desaparece…; 5° desejais e não tendes, porque não sois propriamente vós que possuís a coisa cobiçada, mas é ela que vos possui; ela vos agarra, e vós não a possuís; 6° acontece muitas vezes que não podeis desfrutar da coisa desejada; 7° frequentemente, ainda, não ousais servir-vos dela depois de tê-la suspirado por longo tempo. O avarento, por exemplo, amontoando riquezas, vive miseravelmente, priva-se daquilo que adquiriu e sofre fome; enquanto não possui, espera; quando chega a possuir, não tem coragem de desfrutar daquilo que possui; eis como a concupiscência zomba de suas vítimas e as torna infelizes…
A concupiscência é um sonho que atormenta, e quem se faz escravo dela é castigado pelas mesmas coisas pelas quais peca (Sb 11,17). O avarento cobiça as riquezas, e elas serão o seu tormento… O impudico cobiça os prazeres carnais, e estes formarão o instrumento de seu suplício; ele se envergonhará de si mesmo e, por algumas gotas de mel silvestre, amargará todo o cálice ao qual aproxima os lábios sedentos.
Quem cede ao império da concupiscência encontra, na satisfação de seus desejos, a perda da razão, da memória, da vontade, da liberdade, da saúde, da beleza, da fama e da vida; encontra as trevas, a escravidão, as doenças, os remorsos, o embrutecimento, o desespero, uma morte prematura e cruel, a maldição de “Deus e dos homens e, finalmente, o inferno eterno.
“No inferno, diz São Cipriano, os condenados serão queimados em chamas alimentadas por suas ‘mesmas paixões luxuriosas; dentro de prisões inflamadas arderão seus miseráveis corpos, em castigo dos ardores da concupiscência aos quais se entregaram na terra (14). Da fonte de onde nasce o pecado brota também a punição, escreve o Crisóstomo (15); e Santo Agostinho exclama: “É vosso desígnio, ó Senhor, e ele não muda: que todo espírito desregrado seja castigo para si mesmo (16)”.
“Eles se entregaram à concupiscência no deserto, diz o Salmista; a terra se abriu e os tragou vivos” (Sl 105,15-18).
São Paulo, falando dos movimentos de concupiscência que sentia involuntariamente, dizia: “Não compreendo o que faço; pois não faço o bem que amo, mas faço o mal que odeio… Agora, porém, não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7,15-17).
“A fim de que a excelência das revelações não me encha de orgulho, diz em outra passagem o mesmo Apóstolo, foi-me dado um aguilhão na carne, como um anjo de Satanás para me esbofetear. Por isso, roguei três vezes ao Senhor que me livrasse dele; mas, tendo ele me respondido: Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a força se aperfeiçoa, eu me gloriarei de bom grado das minhas fraquezas, para que a virtude de Jesus Cristo triunfe em mim” (2Cor 12,7-9).
“Excelente autor da virtude, diz São Gregório, é o sentimento da própria fraqueza diante das adversidades e das tentações; às quais, depois, se está sujeito até certo ponto, para que a alma fiel, que interiormente se eleva às virtudes mais sublimes, mas exteriormente é tentada, não tenha motivo nem para desesperar nem para se ensoberbecer. Assim chegamos a conhecer o que recebemos de Deus no caminho de nosso progresso e, por nossas faltas, aprendemos o que somos por nós mesmos (17)”.
Deus permite, diz São Bernardo, que a concupiscência viva em nós e nos aflija profundamente para nos humilhar e para que, conhecendo por experiência aquilo que a graça nos proporciona, sejamos impelidos a pedi-la incessantemente. Assim Deus procede conosco nas faltas leves, das quais jamais somos inteiramente livres, para que aprendamos que, se não nos é dado evitar todos os pecados veniais, muito menos evitaremos, com nossas próprias forças, os pecados mortais; e para que, mantendo-nos sempre na vigilância e no temor, empreguemos todo cuidado e precaução para não perder a graça, cuja indispensável necessidade conhecemos por contínua experiência (Serm. in Coena Dom.).
“Eu me comprazo em minhas fraquezas, dizia São Paulo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). “Vede, diz São Bernardo, como a fraqueza da carne aumenta e fortalece as forças da alma? Ao contrário, a força da carne enfraquece o espírito. E que maravilha se, enfraquecido o inimigo, vos tornardes mais fortes? A menos que trateis insensatamente como amiga essa carne que nunca cessa de conspirar e rebelar-se contra o espírito (18)”.
Tertuliano demonstra que é também muito vantajoso para a carne que a alma resista às suas concupiscências, para que a própria carne seja igualmente purificada de seus vícios. “A carne não é nossa inimiga e, quando se resiste às suas lisonjas, então ela é amada, porque é curada”. A continência e a mortificação dos sentidos, diz ainda este grave autor, têm algo de infinitamente mais doce do que todas as pretensas doçuras da concupiscência; essa mortificação detém e cura a concupiscência que se opõe à caridade e à sabedoria. Ela põe a pessoa em condições de repetir com o grande Apóstolo: Eu vivo, mas já não sou eu; é Jesus Cristo que vive em mim. “Pois, se já não sou eu que vivo, sou mais feliz; e, quando se manifesta fora de mim algum movimento conforme ao homem velho, e eu, submetendo o espírito à lei de Deus, não consinto nele, bem posso dizer com o mesmo Apóstolo: esses movimentos não são meus, não me pertencem, não sou eu o seu autor (19)”.
Que contentamento não experimentam o espírito, a carne, o coração e a consciência ao combater e vencer a concupiscência! … Então a carne está submissa ao espírito, o espírito a Deus, e Deus abençoa a ambos. Jesus Cristo faz do corpo seus membros, e o Espírito Santo dele forma o seu templo; este espírito de amor estabelece sua morada na alma; diviniza-a…
“A suma da profissão cristã, escreve São Lourenço Justiniani, não consiste em fazer milagres, em predizer o futuro, em falar eloquentemente, em conhecer profundamente as Sagradas Escrituras e explicá-las doutamente, mas em combater e subjugar as próprias concupiscências (20)”.
Diz Tertuliano: “A trombeta apostólica inflama para a batalha os soldados cristãos, fazendo ressoar aos seus ouvidos estas palavras: Não reine o pecado em vossos membros mortais, de modo que vos deixeis arrastar por seus apetites” (Rm 6, 12). Combatamos com fortaleza para abater os nossos inimigos e para não sermos vencidos por eles. Nesta luta, toda a vitória consiste em não permanecer ferido (21).
Os meios para vencer a concupiscência são: 1° O temor de Deus. “Transpassai a minha carne com o vosso temor, ó Senhor” (Sl 118, 120), dizia o Salmista. Este salutar temor é uma espada poderosíssima para matar todo desejo desordenado da concupiscência…
O 2° meio é indicado por São Paulo nestas palavras aos Gálatas: “Caminhai segundo o espírito” (Gl 5, 16).
Vós estais empenhados em uma guerra assim, diz Santo Agostinho, na qual deveis combater não somente contra as sugestões diabólicas, mas principalmente contra vós mesmos. — Como, direis, contra nós mesmos? — Sim, contra as vossas antigas concupiscências, contra os maus hábitos que vos arrastam e vos impedem de vos entregardes a uma vida nova. Uma vida nova se oferece diante de vós, e vós envelhecestes no mal. Suspensos entre a alegria que acompanha a vida do espírito e os atrativos da vida sensual, deveis lutar dentro de vós e contra vós mesmos. Mas, a partir do instante em que vos desagradardes a vós mesmos, estareis unidos a Deus, estareis em condições de vencer-vos, porque Aquele que tudo vence estará convosco.
Ouvi o que diz o grande Apóstolo: sirvo à lei de Deus pelo espírito e sirvo à lei do pecado pela carne. Ora, como servis pelo espírito? Detestando a vossa vida perversa. Como servis pela carne? Porque em vós abundam as más inclinações e as paixões desregradas; mas, unindo-vos a Deus, triunfareis da rebelião da concupiscência. Ah! Voltai-vos para Aquele que vos eleva. Mas por que motivo ele permite este longo combate, no qual deveis lutar contra vós mesmos? Para que compreendais que esta pena provém de vós. Vós sois os autores do flagelo que suportais: combateis contra vós mesmos. Deus se vinga daquele que se rebelou contra ele, permitindo que, já que não quis ter paz com Deus, se torne para si mesmo um foco de guerra. Ponde os vossos membros em guarda contra as vossas paixões perversas. A cólera, por exemplo, inflama-se; sufocai-a, unindo-vos a Deus; ela pôde surgir, mas ao menos não encontrará armas: quererá lançar-se impetuosamente, mas não terá armas com que ferir, porque a deixareis desarmada. E então esse movimento, sem força e sem efeito, será como se não tivesse acontecido (In Psalm. LXXV). O mesmo acontecerá com toda e qualquer outra paixão: obedecendo ao espírito, reduzireis à impotência as paixões…
Regulai-vos segundo o espírito, diz São Paulo, e não cumprireis os desejos da carne. “Porque a carne deseja contra o espírito, e o espírito contra a carne; de maneira que não fazeis aquilo que desejais” (Gl 5, 17).
“As paixões, escreve Santo Anselmo, não vos deixam fazer o que quereis, e vós, por vosso lado, impedis que elas façam o que desejam; e assim nem vós nem elas fareis o que quereis. Ainda que haja em vós concupiscências, elas não serão vitoriosas, porque não consentireis em fazer o que vos sugerem. Mas as boas obras do espírito às quais vos dedicardes não poderão ser levadas a termo senão sofrendo, combatendo e resistindo à concupiscência, e não podem ser realizadas na alegria e no repouso (22)”.
“Levanta-se em ti a concupiscência? diz Santo Agostinho; não lhe obedeças; não a sigas; ela é culpada, é lasciva, é torpe; afasta-te de Deus (23)”.
3° Fugir. “Fugi, diz São Pedro, da corrupção da concupiscência que há no mundo” (2Pd 1, 4). Não vos afeiçoeis ao mundo, escreve São João, nem a coisa alguma do mundo, porque quem ama o mundo mostra que o amor do Pai não está nele (1Jo 2, 15).
4° Recorrer a Jesus Cristo. “Para vencer a vossa paixão, quando ela se agita em vosso coração, é preciso invocar o poder divino de Jesus Cristo”, sugere Santo Agostinho (24).
5° Esperar e confiar em Deus. “Em Deus pus as minhas esperanças, dizia o Profeta, e não temerei o poder da carne” (Sl 55, 4),
6° “Não andeis atrás dos vossos apetites”, lemos no Eclesiástico (Eclo 18, 30). A concupiscência é uma sereia que, emitindo certo canto doce, efeminado e sedutor, procura atrair para si os homens, a fim de devorá-los. Sigamos, pois, o conselho de Santo Agostinho: “A concupiscência se rebela contra ti? Rebela-te também tu contra ela; ataca-te? E tu assalta-a; sitia-te? E tu sitia-a; cuida apenas para que ela não te vença (25)”.
7º Quando a concupiscência vos assediar com importuna insistência, lembrai-vos de que ela não é, como finge ser, vossa amiga, mas vossa inimiga capital, e comportai-vos como soldados valentes diante da aproximação do inimigo.