A razão e a vontade são duas irmãs, e é preciso que estejam de acordo entre si, e que a vontade, como inferior, se submeta e obedeça à razão. Unidas, essas duas irmãs são fortes e invencíveis como uma cidadela poderosíssima. Se, ao contrário, estão em luta entre si, se a vontade se rebela contra a razão, surgem daí divisões internas que consomem as forças de ambas.
Necessidade da concórdia consigo mesmo… Necessidade da concórdia com os outros… A concórdia é a cal que cimenta as pedras de um muro; retire-se a cal, e o muro logo desmorona. A concórdia é o vínculo que une e mantém unidos os membros da família e da sociedade. Retire-se a concórdia, e os homens se despedaçam uns aos outros como feras; não resta sequer sombra de caridade, de justiça, de indulgência, de perdão… O centro reúne todos os raios do círculo; e nem sequer se pode conceber um círculo sem centro; ora, a concórdia é o centro das famílias, das cidades e das nações. Consulte-se a história da decadência de repúblicas florescentíssimas e de povos poderosíssimos, e verificar-se-á que a discórdia não foi a última causa de sua ruína.
A concórdia é a verdadeira fraternidade. Ser irmão de alguém significa ser outro ele mesmo. — “Três coisas me agradam, diz o Eclesiástico, as quais são aprovadas por Deus e pelos homens: a concórdia entre irmãos, o amor ao próximo, e um marido e uma mulher bem unidos entre si” (Eclo 25,1-2).
“A concórdia entre irmãos é a paz, escreve Santo Agostinho; é a vontade de Deus, a alegria de Jesus Cristo, a perfeição da santidade, a regra da justiça, a matéria da doutrina, a guardiã dos costumes e uma disciplina louvável em todas as coisas. A concórdia é a mãe do amor, o manifesto indício de uma alma pura; ela pede a Deus tudo o que lhe apraz e obtém tudo o que pede (1)”.
São Gregório Nazianzeno observa que a base e as belezas do universo consistem no acordo dos diferentes elementos, que se combinam por meio de qualidades contrárias. Enquanto o universo, esta obra de Deus, está calmo e tranquilo, enquanto seus elementos se harmonizam e permanecem conformes à sua natureza, enquanto nenhum deles entra em luta com os outros, mas conserva aqueles vínculos de relação com os quais a poderosa mão do Criador os uniu, o universo está verdadeiramente em ordem, e sua beleza é incomparável. Mas, se cessa a calma, se entre seus elementos se estabelece a guerra, ele deixa de existir. A razão disso é que Deus é a concórdia suma, incriada e suprema, e ama infinitamente, como algo semelhante a ele e obra sua própria e perfeita, aquilo que se mantém unido e em acordo. A Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, é infinitamente concorde, não acidentalmente, mas de maneira essencial; e sua concórdia comunicou-se aos céus, aos elementos e a todas as coisas. Deus chamou toda criatura a participar de sua trindade na unidade; ordenou tudo segundo número, peso e medida (Sb 11,21). O mesmo se verifica na Sagrada Família do Verbo encarnado, composta de três pessoas santíssimas: Jesus Cristo, sua divina mãe Maria e seu pai putativo, São José. Nela se encontram a concórdia perfeita, o respeito mútuo, o amor e a santidade mais sublimes. É dever dos esposos e das famílias contemplar assiduamente esses divinos modelos e reproduzi-los em si mesmos. Disso depende a sua felicidade (In Distich.).
Onde há concórdia, aí está Jesus Cristo, aí está Deus, aí está a Santíssima Trindade, que forma naqueles que vivem bem unidos uma trindade na unidade e lhes concede a união dos espíritos, dos corações e das obras.
O irmão que vive em concórdia com o irmão assemelha-se, segundo a expressão dos Provérbios, a uma fortaleza inexpugnável (Pr 18, 19).
Esta sentença sagrada encontra confirmação num apólogo narrado por Plutarco (In Apoph. Reg.). Siluro tinha oitenta filhos; ora, vendo-se próximo do fim da vida, chamou-os ao seu redor e apresentou a cada um um feixe de lanças para que o quebrasse; todos se recusaram, dizendo que era impossível. Então Siluro desatou o feixe e, tomando as lanças uma a uma, quebrou-as todas; depois disse: Meus filhos, enquanto reinar entre vós a concórdia e vos mantiverdes unidos, sereis fortes e invencíveis; mas, assim que vos separardes, tornar-vos-eis fracos e sereis facilmente vencidos. Antístenes, segundo Laércio, dizia que os irmãos que vivem em boa harmonia são mais firmes que os mais fortes baluartes. E era máxima do rei Micipsa, transmitida por Salústio, que “as pequenas coisas se tornam grandíssimas pela concórdia; e as grandes são reduzidas a nada pela discórdia (2)”. A verdade destas palavras resplandece evidentíssimamente nos apóstolos, nos religiosos, nos claustros. O contrário se vê entre os hereges.
“Eu vos dou a minha palavra, dizia Jesus Cristo, que, se dois de vós concordarem na terra em pedir qualquer coisa, ela lhes será concedida por meu Pai que está nos céus; pois onde quer que duas ou três pessoas estejam congregadas em meu nome, aí estou eu no meio delas” (Mt 18, 19-20).
“Um cordão de três fios dificilmente se rompe” (Ecl 4, 12), lemos no Eclesiastes; e os Atos dos Apóstolos nos atestam que os primeiros cristãos tinham um só coração e uma só alma (At 4, 32), e por isso nada pôde vencê-los: nem as ameaças, nem as perseguições, nem as cadeias, nem as prisões, nem tormento algum…
A concórdia robustece e fortalece as famílias, as cidades, os reinos; a discórdia os abala e destrói, causa conflitos, lutas, guerras exterminadoras… A discórdia é infernal e diabólica, porque tem origem em Lúcifer, primeiro autor da discórdia, que se levantou entre os anjos no céu e que, precisamente por isso, foi precipitado no mesmo instante, com a rapidez do raio, no inferno, lugar de eternas discórdias. Por isso, pode-se dizer que a discórdia fez o inferno e os demônios, enquanto a concórdia, vinda do céu, faz da terra um paraíso e conduz ao paraíso na eternidade. A discórdia fez os réprobos; a concórdia faz os santos e os eleitos… Observai as maravilhas que a concórdia opera entre os astros…; entre as árvores e as plantas…; entre as formigas e as abelhas…; no seio de uma família…; no meio de um exército. O homem agrada a Deus pela concórdia… A concórdia assegura a vitória, e a discórdia, a derrota. Perguntando-se certo dia a Agesilau por que Esparta não era cercada de muralhas, ele, apontando para todos os cidadãos armados e perfeitamente unidos, disse: Eis os baluartes da cidade (3).
O abade Onofre ensinou um modo engenhoso de praticar a concórdia. Todas as manhãs, durante várias semanas, apedrejava uma estátua; depois, à tarde, dizia-lhe: Perdoa-me. Interrogado pelos irmãos sobre o motivo de assim proceder, respondeu: “Fiz isso por vós: vistes-me lançar pedras contra esta estátua; por acaso ela me disse alguma palavra, ou me insultou, ou se irritou? — Não, responderam todos a uma só voz. — E, quando lhe pedi perdão por tê-la ultrajado, acaso ela se comoveu? Porventura me respondeu: Não te perdoo? — Não. — Pois bem, se nós, que somos sete irmãos, pretendemos viver juntos, devemos assemelhar-nos a esta estátua”. Todos fizeram essa promessa e a cumpriram, e assim passaram os seus dias em perfeita união e doce paz (Vit. Patr.).
Quando entrei na vida religiosa, diz o abade Nestero, disse a mim mesmo: Tu deves assemelhar-te a um animal de carga: se outro o golpeia, nada responde e suporta pacientemente a injúria; comporta-te desse modo, ó minha alma, medita continuamente as palavras do rei-profeta (Sl 72,22): “Tornei-me como um animal de carga diante de vós, ó Senhor, e nunca deixei de estar em vossa companhia” (Vit. Patr.).
Tomai exemplo da pomba, dizia o abade Agatão: se é insultada, não se ressente; se é louvada, não se ensoberbece (Vit. Patr.).