“Sê um Deus para o desventurado”, diz o Nazianzeno (1); e São Paulo atestava de si mesmo, falando aos anciãos de Éfeso: “Durante três anos não cessei, dia e noite, de admoestar com lágrimas cada um de vós. E agora vos recomendo a Deus e à palavra de sua graça, que é poderosa para” (At 20,31-38). Outra vez, depois de dizer aos Coríntios que “quando um membro sofre, todos os outros também sofrem” (1Cor 12,26), prossegue assim: “Quem está enfermo, sem que eu também esteja enfermo com ele?” (2Cor 11,29).
Reine entre todos vós, escrevia São Pedro, uma perfeita união, uma bondade compassiva, uma amizade fraterna, uma caridade indulgente, doce e humilde (1Pd 3,8),
“Não deixes de consolar os que choram, e não te recuses àquele que soluça no luto” (Eclo 7,38), ensina o Eclesiástico. Esta máxima era praticada por Jó, que dizia: “Eu derramava lágrimas sobre o aflito e sentia-me movido de compaixão pelo pobre” (Jó 30,25).
A razão que deve impelir-nos a compadecer-nos das quedas espirituais do próximo encontra-se nesta sentença de Santo Agostinho: “Não há pecado cometido por um homem que outro não possa cometer, se lhe faltar o amparo daquele que fez o homem (2)”.
“O Pontífice que temos”, diz São Paulo, falando de Jesus Cristo, “não é tal que não possa compadecer-se de nossas misérias, tendo sido provado como nós em toda espécie de males” (Hb 4,15).
A compaixão alivia a dor do aflito; pois 1º quem se compadece tira um peso do coração daquele que sofre. Esse coração estava fechado e oprimido pela dor; a compaixão, de certo modo, o faz sair de si. Por isso disse Santo Ambrósio: “O verdadeiro consolo nesta vida miserável consiste em encontrar um coração compassivo no qual possas, em toda ocasião, derramar o teu (3)”. 2º Quem se compadece sugere ao atribulado sábios conselhos que aliviam sua dor e que ele não saberia encontrar em si mesmo, por estar entorpecido pela angústia. 3º A compaixão e uma terna amizade são um bem que contrabalança o mal causado pelo sofrimento. Quem se compadece proporciona ao coração sofredor um alívio proporcional às suas angústias. Toma sobre si metade das aflições que pesam sobre o desventurado, e este, fortalecido, suporta com mais facilidade e resignação as provações às quais está submetido. Um fardo levado por dois pesa menos. 4º O infeliz encontra-se como que afogado e submerso na torrente das tribulações, da qual não pode sair sozinho; ora, o homem compassivo estende-lhe uma mão benigna e robusta, com a qual o retira do abismo em que estava afundado e lhe conserva a vida. A compaixão eleva o aflito até a paciência, e até mesmo à coragem e à esperança de um futuro melhor…