Tesouro n.º 29 · Volume I

COMPANHIAS MÁS E BOAS COMPAGNIE CATTIVE E BUONE

4 seções · 47 parágrafos · pp. 330–340 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. DANOS DAS MÁS COMPANHIAS; PERIGOS AOS QUAIS EXPÕEM A INOCÊNCIA

Onde foi que Pedro renegou Cristo? pergunta Santo Ambrósio; e responde: No pretório dos judeus, na assembleia dos ímpios (1). “Ó quão nociva deve ser a convivência dos ímpios, exclama o Venerável Beda, se o próprio Pedro negou conhecer, em meio aos servos do sumo pontífice, como homem Aquele que, em meio aos seus companheiros, havia confessado reconhecer como Filho de Deus! (2)”.

“Não vos ligueis aos infiéis, escrevia São Paulo aos coríntios; pois que vínculo pode haver entre a justiça e a injustiça? que relação entre a luz e as trevas? que aliança entre Cristo e Belial? que comércio entre o fiel e o infiel? que afinidade entre o templo de Deus e os ídolos? Pois vós sois o templo do Deus vivo, conforme diz o próprio Deus: Eu caminharei e habitarei no meio deles, e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Por isso, afastai-vos deles e separai-vos, diz o Senhor, e não toqueis em coisa impura; e eu vos acolherei e serei vosso pai, e vós sereis meus filhos e minhas filhas” (2Cor 6, 14-18). “Os discursos dos maus, diz ainda o mesmo Apóstolo a Timóteo, penetram no coração e o corroem à maneira de um câncer” (2Tm 11, 17). “Guardai-vos dos maus e dos sedutores, porque estes andarão sempre errando de mal a pior e arrastando os outros para o erro” (2Tm 3, 13).

“Os ímpios, prega São Leão, introduzem-se sorrateiramente, surpreendem-nos com lisonjas, prendem-nos com adulações, matam-nos sem que o percebamos, sorrindo (3)”.

“Somos facilmente arrastados pelo exemplo dos maus, escreve São Jerônimo, e bem depressa adotamos os vícios daqueles cujas virtudes jamais saberíamos decidir-nos a seguir (4)”.

“Que o orgulho, a ira e qualquer outro vício de um homem se reproduzam na alma daqueles que convivem com ele, é coisa que anda com os próprios pés, adverte São Cipriano; e eles penetram nela não somente sem que se perceba ou se consinta nisso, mas também apesar da resistência (5)”. Mais ainda: muitas vezes acontece aquilo que observa Santo Agostinho, isto é, que aquele que convive com os maus envergonha-se de não poder deixar de envergonhar-se (6).

Quereis o retrato daqueles que formam as más companhias? Ei-lo nas seguintes frases do Salmista: “Brandirá a sua espada e empunhará o arco, encherá de instrumentos de morte a sua aljava e disparará flechas de fogo. Concebeu a injustiça e deu à luz a iniquidade. Abriu e cavou um precipício, e caiu no abismo que ele mesmo abriu. Recairá sobre a sua cabeça o mal que praticou, e sobre ela pesará a iniquidade que cometeu (Sl 7, 12-16). A garganta dos maus é um sepulcro aberto, a sua língua é um instrumento de sedução e os seus lábios destilam veneno de víbora. Cheia de amargura e de maldição está a sua boca; os seus pés correm velozes para causar dano aos outros. Por onde passam, semeiam massacres e infelicidade; não conheceram o caminho que conduz à segurança, não tiveram diante dos olhos o temor de Deus. Esses obreiros da iniquidade devoram os servos de Deus como um bocado de pão (Sl 13, 3-4). Armaram laços aos meus pés, curvaram a minha alma sob o peso da dor; cavaram diante de mim um precipício e foram os primeiros a lançar-se nele (Sl 56, 6). Se vos associardes a eles, também vós sereis pervertidos em breve” (Sl 17, 26).

“Se frequentardes os maus, escreve Sêneca, sereis levados ou a imitá-los ou a odiá-los; mas, se os odiardes, afastar-vos-eis deles. Não podereis abandonar a altivez do orgulho enquanto mantiverdes trato familiar com o orgulhoso; fareis boa aparência à avareza enquanto fordes amigos do avarento; acendereis em vós o fogo da luxúria, se amardes a companhia dos libertinos (7)”.

A quem frequenta más companhias acontece como aos madianitas que, apavorados com o súbito clarão das lâmpadas levadas pelos soldados de Gedeão, puseram-se a trucidar-se uns aos outros (Jz 7, 22).

A convivência com pessoas escandalosas deposita na alma um germe de corrupção, diz São Cipriano; gera desejos malvados, excita a cólera, acende o furor, alimenta a luxúria, provoca quedas, acumula ruínas, cobre de ignomínia; compraz-se em perder as almas, oprime sob o peso da confusão, favorece a morte, amontoa o opróbrio como um tesouro, exagera as acusações e as torna mais violentas, é mestra de enganos, destrói os costumes puros e simples e transforma os homens em monstros (De singularit. Cleric.).

“Não é pequena prova de perfeita virtude, escreve São Bernardo, ser bom em meio aos maus e conservar o candor da inocência em meio aos malfeitores (8).” Pois, acrescenta o Nazianzeno, “saibam muito bem quanto mais facilmente a malícia alheia se comunica a nós do que a nossa virtude aos outros; do mesmo modo que é mais fácil contrair uma doença do que curá-la (9)”; e “dificilmente se corrige um vício, acrescenta São Gregório, que é fomentado pelas línguas dos maus (10)”.

“Quem frequenta homens manchados manchar-se-á”, sentencia Epicteto (11); e o poeta Teógnis cantava: “Não traves amizade com o ímpio, mas une-te aos bons e deles aprenderás muitíssimas coisas boas; vivendo, porém, com os maus, também tu te tornarás mau (12).

Os enganos podem conduzir ao delito; ora, as más companhias não se ocupam senão de preparar emboscadas e, o que é pior, prepará-las em segredo. O vício foge da luz e ama as trevas; despojando o homem de suas virtudes, age como um ladrão. Vinde, parecem dizer entre si os maus, vinde, armemos ciladas, lancemos laços ao inocente, devoremo-lo, como o inferno, vivo e palpitante: (Pr 1, 12).

Os ímpios podem ser comparados aos lobos… “A boca deles, diz o Crisóstomo, assemelha-se à garganta das feras; mas é ainda mais insaciável, porque devora com maior avidez, dilacera com mais crueldade e morde com maior furor (13)”.

As más companhias bebem o sangue de suas vítimas… Devoremos o justo, dizem elas, isto é, despojemo-lo de sua virtude, tiremos dele o amor de Jesus Cristo, abatamo-lo e tornemo-lo semelhante a nós, de modo que não prove, procure nem deseje outra coisa senão aquilo que é terreno, carnal, infernal. Apanhemo-lo vivo e, à imitação do inferno, forcemo-lo a conhecer e querer o mal… Com efeito, os maus pensam, falam ou fazem porventura coisas diferentes daquelas que pensam, falam e fazem os demônios? … Procuraremos, dizem eles, as riquezas do inocente, aqueles tesouros que lhe proporcionaram o batismo, a primeira comunhão, a educação cristã, o recato e a virtude, e com seus despojos encheremos nossa casa (o inferno) (Pr 1, 13). Tiremos dele seus méritos, o céu que deve ser sua recompensa, roubemos-lhe Deus: enriqueceremos o inferno… Ponde, sugerem eles àquele jovem, àquela moça, vossa herança em comum conosco; seja uma só a nossa bolsa (Pr 1, 14). Essa herança, esse tesouro reservado na bolsa, é a cólera, a vingança divina, a condenação eterna. Assim os pecadores se animam e se encorajam a cometer a iniquidade! Ai daquele que encontra más companhias e não se livra delas: está perdido! …

“Os perversos, dizem os Provérbios, não dormem se não conseguem cometer alguma perversidade ou apanhar alguém em seus laços” (Pr 4, 16). “O pão de que se alimentam é a impiedade; o vinho que bebem, a iniquidade” (Ib. 17). Essas palavras indicam com que avidez os maus procuram o mal, com que cuidado preparam o delito. Passam parte da noite e, muitas vezes, noites inteiras preparando suas redes e estudando a execução de seus culpáveis desígnios; fazem festa com sua presa. Podem ser comparados àquelas serpentes de que trata Plínio, as quais permanecem despertas durante todo o verão, quando seu veneno tem a maior força, até que, depois de o terem exaurido todo, sentem os efeitos do frio, entorpecem-se e dormem durante todo o inverno. São como as feras do deserto, que ficam escondidas durante o dia e à noite saem à procura de presa. O alimento dos maus é o mal, e para eles este banquete é tão apetitoso que não procuram outra coisa. Tão ardente é sua sede de fazer o mal que não podem saciá-la e, quanto mais delitos cometem, mais ela cresce: é a sede dos demônios e dos condenados. Aos embriagados de paixão acontece como aos embriagados de vinho: quanto mais o engolem, tanto mais o desejam.

Ah! infelizmente, quem tem a desventura de conviver com maus companheiros pode repetir, gemendo, com os Provérbios: “Fui precipitado num abismo de males diante do povo” — (Pr 5, 14). Cobri-me de delitos por ter frequentado aqueles seres degradados… Quando se vive na companhia de libertinos, vive-se em meio a seres impuros e corrompidos, que exalam o fedor do vício: são demônios encarnados, vivos, mas que já têm um pé no inferno… É já por si mesmo um delito, observa São Cipriano, aproximar-se das más companhias (Epl. XI), e o amigo dos insensatos, como lemos nos Provérbios, tornar-se-á semelhante a eles (Pr 13, 20).

Uma convivência frequente influi insensivelmente nos juízos, nos afetos e nos costumes de quem a escuta. O homem que passeia nas horas quentes do verão e nos dias frios do inverno sente, mesmo sem percebê-lo, a ação do sol e do frio, porque a atmosfera se infiltra em nossas entranhas por meio da respiração e comunica ao nosso corpo o grau de calor que nela se encontra. Assim acontece àquele que vive em meio a maus companheiros: encontra-se cercado por uma atmosfera pestilenta, sob cuja influência o veneno da iniquidade penetra na alma e no coração. Quando se convive com um companheiro de quem se gosta, facilmente se adota sua maneira de ver, de sentir e de julgar; imita-se sua conduta, adotam-se suas inclinações e seus afetos; se ele é bom, permanece bom quem vive com ele; se é corrompido, também o outro se torna tal: o mal comunica-se muito mais depressa que o bem; o vício encontra-nos muito mais inclinados do que a virtude. Uma ovelha sarnenta infecta todo um rebanho; um fruto estragado apodrece todos quantos toca. Assim, o glutão, o beberrão, o maledicente, o impudico, o indolente, o vaidoso, o ladrão e o ímpio tornam semelhantes a si aqueles que os frequentam, tanto mais se o fazem assiduamente. Ao contrário, uma companhia de pessoas humildes, castas e moderadas encontrará não pouca dificuldade para reconduzir ao bom caminho até mesmo um só libertino, ou insinuar a humildade a um só orgulhoso, e assim por diante quanto a todas as outras virtudes… Uma gota de fel basta para tornar amargo um vaso inteiro de vinho, de leite ou de mel, ao passo que um vaso de mel não tira inteiramente a amargura de uma só gota de fel. O vício é fel; a virtude é mel. Da sociedade que se frequenta, das conversas que se cultivam, depende em grande parte o hábito da virtude ou o do vício e, por conseguinte, a vida ou a morte, a salvação ou a condenação.

Esta é a razão pela qual os pastores, os pais, os patrões, os educadores e os confessores nada devem deixar de fazer para manter afastados daqueles que lhes estão confiados os maus companheiros, e devem colocá-los em contato com pessoas edificantes, sendo tal convivência um meio poderosíssimo de salvação…

A noite não se une ao dia, nem o bom ao mau. Quereis ser sábios? Frequentai o sábio e prendei-vos a ele por amizade. Tão fácil é que o vício se una à virtude quanto o lodo ao ouro. Ninguém brinca com as serpentes sem perigo. Basta um pouco de fermento para pôr em fermentação uma massa de farinha. De uma má companhia não se tira senão dano, e nenhuma outra coisa causa perdas tão rápidas e funestas quanto ela. “Não é o campo que nos torna bons, dizia Crates, nem a cidade que nos corrompe, mas a convivência com os bons ou com os maus (14)”.

“Quem pratica a iniquidade, dizem os Provérbios, seduz o seu amigo e o arrasta a trilhar caminhos tortuosos… e os caminhos dos malvados estão eriçados de armas e de espadas” (Pr 16, 29; 22, 5). “Sabe, diz o Eclesiástico, que entras em comunhão com a morte, pois te preparas para avançar por entre ciladas e porás o pé sobre as armas daqueles que te enganam” (Eclo 9, 20).

Um exemplo espantoso dessa comunhão com a morte foi visto no suplício que o cruel Mezêncio costumava infligir às suas vítimas: mandava amarrar juntos um vivo e um morto, de modo que os membros correspondentes de ambos se ajustassem, a fim de que aquele que ainda respirava fosse morto pelo pestilento fedor do cadáver em putrefação e roído pelos vermes que dele fervilhavam. Dessa crueldade nos transmitiu a lembrança Virgílio, naqueles versos da Eneida: “… Os corpos mortos — Misturava aos vivos (ó tormento!) — Fazendo que mãos se unissem a mãos, boca a boca, — Em tão miserável abraço — De podridão e de fedor — Os vivos, enfim, morrerem de longa morte (15)”. A mesma sorte aguarda aqueles imprudentes que fazem aliança e mantêm comércio com os ímpios e os malvados.

“Quem manuseia a pez se suja, lemos no Eclesiástico, e quem convive com o soberbo ficará manchado de soberba” (Eclo 13, 1).

“Os maus exemplos subjugam a alma, diz São Cipriano, impelem-na, mudam-na e transformam-na; seria um prodígio permanecer entre as chamas e não se queimar, ou pelo menos não se chamuscar (16)”.

“Poderá o justo frequentar o pecador, quando se virá o cordeiro junto do lobo?” (Eclo 13, 21). Com razão a Escritura compara o mau ao lobo, por sua rapacidade e crueldade, e o bom ao cordeiro, por sua mansidão, pela inocência e pureza de seus costumes e por sua semelhança com Jesus Cristo; ora, as relações do mau com o bom são figura das relações do lobo com o cordeiro.

“O fogo do mal arderá no meio da assembleia dos pecadores”, lemos no Eclesiástico (16, 7).

O homem de bem torna-se vicioso na companhia dos viciosos e acaba tornando-se como eles. Quem poderia não ver todas as suas virtudes naufragarem e perderem-se na turva e espantosa torrente da impureza, entre cujas ondas são sepultadas as más companhias? Os conselhos dos pecadores, suas conversas, o riso, o olhar, os movimentos, as ações etc., tudo comunica a peste.

Quem abandona a Deus e a virtude deixa de ser homem, torna-se um animal selvagem, uma fera. Grande miséria é querer o mal, mas maior ainda é poder fazê-lo e praticá-lo; ora, o triste destino das más sociedades consiste nestas três coisas: querer, poder e cometer o pecado.

“Estenderam a língua como um arco que dispara a mentira, diz Jeremias; foram de mal a pior.” — E quem caminhava entre leões tornou-se ele próprio um leão, aprendeu a arrebatar a presa e a devorar os homens (Jr 9,3; Ez 19,6).

Lemos em Oseias esta sentença: “Os estrangeiros consumiram a sua robustez” (Os 7, 9). Os estrangeiros de que fala o profeta são as pessoas que compõem as más companhias, as quais são, de fato, estrangeiras a todo dever e a toda boa obra; nada conhecem senão a licença e o mal, e roubam àqueles que as frequentam todos os bens espirituais, os únicos bens verdadeiros.

Se vos encontrais no meio do fogo, diz Santo Isidoro, ainda que fôsseis de ferro, teríeis de derreter; se tratais longamente com maus companheiros, ser-vos-á impossível não correr perigo. A familiaridade acorrenta e a ocasião arrasta às quedas. Com o passar do tempo, a pessoa se acostuma àquilo que, no princípio, lhe causava repugnância. É melhor atrair o ódio dos perversos do que o seu amor. Assim como a companhia dos bons traz grandes vantagens, também a sociedade dos maus acarreta grandes males. A convivência com uns e com outros exerce poderosa influência (De Soliloq. lib. II).

“Entre os maus, os melhores se assemelham à marruca, e os bons, à sarça”, diz Miqueias (Mq 7,4). O melhor deles fere e faz correr sangue, ferindo o próximo; o menos perverso despoja e dilacera o homem justo e piedoso. “Assim como as exalações que partem de lugares pestilentos espalham doenças, acrescenta São Basílio, assim as más conversas inoculam o amor ao pecado, embora logo não percebamos isso (17)”.

Os maus companheiros imitam os demônios. Em que se ocupam esses espíritos malignos e cruéis? O que desejam? Em que se deleitam? … Em fazer guerra a Deus…; em prejudicar a herança de Jesus Cristo…; em arrebatar às almas a vida da graça e perdê-las eternamente. Não seguem outro caminho, não visam a outra meta as más companhias.

2. AS MÁS COMPANHIAS SÃO MALDITAS

O caminho que os maus percorrem é escorregadio, cercado de precipícios, sepultado nas trevas e conduz ao abismo; semeado de penas, aflições, angústias, ilusões e dores. Os infelizes são duplamente castigados pelas infâmias que cometem; 1° cercam-nos desgostos e contrariedades que os ferem e dilaceram como espinhos…; 2° ficam de tal modo enredados nelas que não conseguem libertar-se… São, para si mesmos e para aqueles que os frequentam, espadas afiadas.

“Quem atrai o justo para o mau caminho cairá ele mesmo e perecerá em seu caminho”, lemos nos Provérbios (Pr 28,10). A assembleia dos malvados é como um monte de palha, diz o Eclesiástico, e será devorada pelo fogo (Eclo 21,10). “Eu os abandonarei a si mesmos, porque são corruptos e formam uma assembleia de prevaricadores” (Jr 9,2).

O ímpio será amaldiçoado por Deus e pelos homens; amaldiçoado em vida, amaldiçoado no momento da morte e, na eternidade, pelos demônios e pelas almas que ele conduziu à condenação…

3. É PRECISO FUGIR DAS MÁS COMPANHIAS

Guardai como tesouro este excelente conselho de Sêneca: “Se vos importa estar livres do vício, evitai aqueles que vos dão o exemplo do mal (18)”.

“Afastai-vos das casas dos ímpios, diz o Senhor, e não toqueis em nada que lhes pertença, para que não vos aconteça ficar envolvidos em seus pecados” (Nm 16,26). “Não comas nem bebas com os pecadores”, dizia Tobias a seu filho (Tb 4,18).

“Meu filho, diz ainda Deus nos Provérbios, não andes com eles e não sigas as pegadas de seus pés” (Pr 1,15). Porque, 1° o caminho deles conduz ao delito; 2° segui-los desonra e infama; 3° em pouco tempo a pessoa se torna semelhante a eles… “Guardai-vos de encontrar prazer na vida dos ímpios, e não vos seduza a convivência com os malfeitores” (Pr 4,14). “Não te atraia o caminho dos maus, diz Hugo de São Vítor, pois o dos impudicos é lamacento, o dos iracundos, tenebroso; o dos avarentos, espinhoso; o dos caluniadores, pedregoso; o dos hipócritas, cavernoso; e o dos soberbos, escarpado (19)”.

“Mantende-vos longe do caminho dos perversos, lemos ainda nos Provérbios; nunca ponhais nele os pés, mas fugi dele” (Pr 4,15).

“Saí do meio deles, diz São Paulo, e separai-vos deles, diz o Senhor, e não toqueis no que é imundo” (2Cor 6,17); e advertia os efésios que não se deixassem seduzir por palavras vãs, pois é por isso que a ira divina atinge os filhos da desobediência; que não tivessem trato com eles; que não participassem das obras infrutíferas das trevas, mas, antes, as censurassem (Ef 5,6,7,11). E como censurá-los? Condenando-os com um olhar severo, com o rubor de vosso rosto, com vossos exemplos, com a fuga e com a vossa tristeza.

Também aos tessalonicenses escrevia: “Nós vos ordenamos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que vive desordenadamente (2Ts 3,6).

O Eclesiástico nos ordena que nos afastemos do homicida. Ora, quem mais prontamente priva uma alma da vida da graça do que um mau companheiro? “A vida dos malvados está eriçada de estiletes e espadas, dizem os Provérbios, e quem ama a própria alma se afasta deles” (Pr 22,5). “Afasta-te, diz-nos ainda o Eclesiástico, daquele que pratica a iniquidade, e os males se afastarão de ti” (Eclo 7,2). Aquele que nunca está só jamais foi bom… Quem evita as ocasiões de pecado evita o pecado… Por isso ouvimos o Eclesiástico exortar-nos a não falar longamente com o imprudente, a não nos associarmos ao insensato, mas a nos guardarmos dele e evitá-lo, se não quisermos sofrer a vergonha dele e macular-nos com o seu pecado (Eclo 22,14-16).

Movido pelo perigo que se corre nas más companhias, o Crisóstomo exortava os pais a manterem seus filhos afastados delas. Nenhum de nós, certamente, dizia este Padre, se visse um servo levar na mão uma tocha acesa, deixaria de adverti-lo a não ir a lugares onde houvesse palha ou feno, ou outra matéria inflamável, por temor de que, não prestando atenção, alguma fagulha viesse a cair e incendiasse toda a casa. Tenhamos a mesma cautela em favor de nossos filhos e não permitamos que se unam a companhias perigosas. Se pessoas próximas de nós as frequentam, proibamos a nossos filhos qualquer relacionamento com elas, para que não suceda que alguma centelha de fogo provoque o incêndio em suas almas e lhes cause o dano irreparável de uma destruição geral (Homil. Ad pop.).

4. DAS BOAS COMPANHIAS

“Com os santos serás santo, e com os inocentes serás inocente”, diz o Salmista (Sl 17,25). E atestava de si mesmo que “seus olhos procuravam aqueles que, sobre a terra, haviam permanecido fiéis ao Senhor, para fazê-los sentar-se perto de si, e chamava a servi-lo aqueles que trilhavam o caminho do bem, expulsando de sua casa o orgulhoso e afastando de sua presença quem falasse torpezas” (Sl 100,6-7).

“Quem convive com os sábios aprenderá a sabedoria”, lemos nos Provérbios (Pr 13,20). E Tobias, ao despedir-se de seu filho, que ia percorrer terras estrangeiras, aconselha-o a procurar alguma pessoa fiel que o acompanhe (Tb 5,4). Quando, depois, tendo voltado para casa, o pai, perguntando ao filho que recompensa deveriam dar àquele santo homem, este respondeu: “Que recompensa lhe daremos nós, meu pai, que seja igual aos benefícios que ele me fez? Conduziu-me e reconduziu-me são e salvo, recuperou o dinheiro de Gabelo, fez com que eu obtivesse uma esposa, expulsando o demônio, levou alegria aos parentes dela, livrou-me do peixe que estava prestes a devorar-me, fez com que recuperásseis a vista e cumulou a todos nós de todo bem. Que poderemos nós dar-lhe, em digna recompensa de tantos serviços?” (Tb 12,1-3). Uma boa companhia proporciona uma infinidade de bens…

“Sê assíduo em frequentar o homem virtuoso”, diz o Eclesiástico; “se conheceres uma pessoa temente a Deus e cuja alma esteja em harmonia com a tua, estreita amizade com ela, e, quando lutares nas trevas, terás um amigo que tomará parte em tuas dores” (37,15-16).

Um bom conselheiro, um companheiro virtuoso, escreve Hugo de São Vítor, é útil a todos, sem ser pesado a ninguém; pois quem é piedoso para com Deus é bom para com o próximo e moderado para com o mundo; é servo de Deus, amigo de seus irmãos, senhor de quantos o conhecem. Seus superiores empenham-se em satisfazê-lo, seus iguais amam sua companhia, e seus inferiores consideram-se felizes por servi-lo (De Anima, lib. III).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.