“Circuncidareis a vossa carne como sinal da aliança entre mim e vós” (Gn 17,11), disse o Senhor a Abraão.
A circuncisão era: 1° o sinal da aliança firmada por Deus e Abraão; 2° a prova da fé de Abraão; 3° o sinal que distinguia os fiéis dos infiéis; 4° o sinal, segundo dizem os Padres, da existência do pecado original e de sua expiação por meio de Jesus Cristo; 5° a figura do Batismo, pois um novo nome era imposto ao circuncidado, assim como é imposto ao batizado. Em suma, a circuncisão era o sinal característico do povo de Deus, o sinal figurativo do Messias e da participação na redenção por meio de Jesus Cristo, porque o Messias e o Evangelho foram prometidos e revelados a Abraão, o primeiro circuncidado.
No sentido alegórico, a circuncisão foi tipo do batismo e da penitência. No sentido tropológico, foi símbolo da mortificação da carne e de todos os vícios. No sentido anagógico, este rito, que se cumpria no oitavo dia, figurava a ressurreição que terá lugar na oitava idade do mundo, na qual serão eliminadas a corrupção da carne e de toda a natureza.
Se o menino morresse antes do oitavo dia, poderia salvar-se, assim como o sexo feminino, pelos remédios e ritos da lei natural.
Ao ordenar a circuncisão, Deus visou especialmente distinguir dos demais povos a posteridade de Abraão; ora, essa distinção se dava no homem, não na mulher; eis por que a circuncisão foi estabelecida como preceito para o homem, não para a mulher.
Decorridos os oito dias após os quais o menino devia ser circuncidado, foi-lhe imposto o nome de Jesus (Lc 2, 21). A circuncisão era o sinal, ou, diríamos, o selo do pecado; ora, não havendo em Jesus Cristo nem pecado nem concupiscência, vê-se claramente que o Salvador se humilhou mais profundamente em sua circuncisão do que em seu próprio nascimento: neste, recebeu a forma de homem; naquela, revestiu a aparência do pecador. Ele quis ser circuncidado por efeito de profundíssima humildade.
São oito, segundo São Cipriano, Santo Agostinho, São Tomás, o Venerável Beda e outros Doutores da Igreja, as principais razões pelas quais Jesus Cristo quis ser circuncidado: 1° para provar a realidade de sua carne contra os maniqueus, que diziam que ele havia assumido um corpo fantástico; contra Apolinário, que sustentava que o corpo de Jesus Cristo era consubstancial à divindade; contra Valentino, que ensinava que Jesus Cristo trouxera consigo do céu o próprio corpo; 3° para aprovar a circuncisão já estabelecida por Deus; 3° para deixar claro que ele era da estirpe de Abraão; 4° para tirar dos judeus o pretexto de não o receberem, caso não tivesse sido circuncidado; 5° para recomendar-nos, com seu exemplo, a virtude da obediência; 6° como ele havia aparecido revestido da carne do pecado, quis ser circuncidado para provar que não desdenhava o remédio pelo qual essa carne era curada; 7° para aliviar os outros do pesado fardo da lei, tomando-o sobre si; 8° para ocultar, diz São Leão, sua divindade ao demônio. Santo Agostinho apresenta uma nona razão, observando que Jesus Cristo quis ser circuncidado para substituir à circuncisão material a espiritual, que consiste na mortificação e no desarraigamento dos vícios. “Jesus Cristo, diz o citado Padre, recebeu a circuncisão para destruir a própria circuncisão; recebeu a figura para realizar a realidade (1)”.
Além disso, a circuncisão de Jesus Cristo foi o princípio de sua paixão, pela qual resgatou e salvou o mundo… Eis por que recebeu naquele momento o nome de Jesus… A circuncisão foi muito mais dolorosa para Jesus Cristo do que para todas as outras crianças, porque ele tinha o uso da razão e conhecia o motivo de sua instituição…