Tesouro n.º 22 · Volume I

QUEDAS E RECAÍDAS CADUTE E RICADUTE

7 seções · 24 parágrafos · pp. 209–213 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. DESGRAÇA DA QUEDA NO PECADO

“Errar é coisa fácil, considerando-se a fragilidade humana, diz São Bernardo, mas permanecer na culpa é coisa diabólica (1).” Antes, São Gregório acrescenta que “ordinariamente é mais agradável a Deus uma vida de fervor depois de uma queda do que a inocência que vive segura na tibieza (2).” De qualquer modo, porém, deplorável é a queda, não menos que a tibieza…

“Como foi possível, exclama Isaías, que a cidade fiel se tenha tornado uma cortesã? A justiça reinava dentro de seus muros; agora ela não passa de um covil de ladrões; sua prata transformou-se em escória…” “Como se escureceu o ouro, acrescenta Jeremias, como se extinguiu o esplendor! Como as pedras do santuário foram dispersas pelas esquinas de todas as ruas!” (Is 1,21-22; Lm 4,1). “Belos e revestidos do mais puro ouro apareciam os filhos de Sião, e agora são tratados como vasos de barro” (Ib. 4,2).

2. CAUSAS DAS QUEDAS

Quem não dá atenção às faltas leves cairá pouco a pouco nas graves, diz o Eclesiástico (Eclo 19,1). E São Gregório adverte que aquele que não se preocupa em chorar os próprios pecados nem se esforça por evitá-los, no futuro não cai de repente, mas pouco a pouco, do estado de justiça (3).

“Cuidado, exclama Santo Agostinho: há um precipício onde vedes que outro caiu.”

Feliz aquele que aprende com as quedas alheias a manter-se vigilante e cauteloso! Quem não vigia sobre si mesmo, quem confia nas próprias forças, certamente cairá.

3. É PRECISO LEVANTAR-SE PRONTAMENTE DAS QUEDAS

“Porventura, quem cai não se levanta?”, diz Jeremias (Jr 8, 4). Quem escorrega e cai por terra deseja, esforça-se quanto pode e tenta de todos os modos levantar-se; assim também quem caiu, caminhando pela estrada da salvação, deve fazer quanto puder para se levantar. Que loucura é, pois, a do pecador que quer permanecer no pecado! Ó! Quantos, diz São Cipriano, são dignos de compaixão, porque, quando convinha estar de pé, caíram e, quando era preciso levantar-se, não quiseram! (Serm.).

4. CAUSAS DAS RECAÍDAS

“Um abismo chama outro abismo” (Sl 41, 8), diz o Profeta; o que significa, como explica São Gregório, que “um pecado que não seja imediatamente apagado pela penitência arrasta em breve, pelo seu próprio peso, a outro pecado (5)”. O pensamento sucede ao olhar, a complacência ao pensamento, o consentimento à complacência, a ação ao consentimento, o hábito à ação; depois, o hábito se transforma em necessidade, a necessidade conduz ao desespero, ao qual se segue a impenitência final e a condenação, justo castigo da impenitência.

O vício gera o vício, diz Santo Isidoro; Davi passa do adultério ao homicídio (Lib. de Sum. bono, c. XXIII). Pela recaída, acrescenta-se culpa a culpa, delito a delito; multiplicam-se e se reforçam os elos da cadeia que prende, aperta, envolve e sufoca por toda a eternidade.

5. ESTADO ASSUSTADOR A QUE CONDUZ A RECAÍDA

“Quando o espírito imundo — são palavras de Jesus, o triste — sai de uma pessoa, anda errante por lugares desertos, à procura de repouso, e, não o encontrando, diz: voltarei para a casa de onde saí; e, ao voltar, encontra-a desocupada, varrida e adornada. Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando com eles, ali se instala; e o último estado daquele homem se torna muito pior que o primeiro” (Mt 12, 43-45). Esta passagem evangélica deve ser meditada com temor, em vez de comentada, diz o Venerável Beda (In Evang.).

Depois da cura do paralítico, encontramos que o divino Salvador o admoestou a não pecar mais dali em diante, para que não lhe acontecesse algo pior (Jo 5, 14). Este aviso, aliás, já havia sido dado a todos pelo mesmo Salvador com aquela sentença: “Não é apto para o reino dos céus aquele que, depois de ter posto a mão no arado, volta-se para olhar para trás” (Lc 9, 62). Daí aquela exclamação de Santo Agostinho: “Ó! que desgraça espantosa é olhar para trás! (6)”

“Teria sido melhor para eles, diz São Pedro, que jamais tivessem conhecido o caminho da justiça, do que, depois de conhecê-lo, dele se desviarem e renegarem a santa lei que lhes fora dada” (2Pd 2, 21).

“Os homens maus e impostores irão de mal a pior, enganados e enganadores” (2Tm 3, 13), dizia o Apóstolo a Timóteo; e escrevia aos Hebreus que é impossível que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom do Céu e receberam o Espírito Santo, alimentaram-se da santa palavra de Deus e das maravilhas do século futuro, e depois caíram, retornem outra vez à penitência; porque, quanto deles depende, crucificam novamente o Filho de Deus e o expõem à ignomínia. Pois a terra que bebe a chuva que frequentemente cai em seu seio e produz ervas úteis para quem a cultiva recebe a bênção de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é reprovada, amaldiçoada e destinada ao fogo (Hb 6, 4-8).

É impossível, isto é, dificílimo; e sabeis por quê? Porque, continua o mesmo Apóstolo, se pecamos voluntariamente depois de termos conhecido a verdade, já não há vítima que expie os nossos pecados, mas somente a espera do terrível juízo e do ardor do fogo que consumirá os inimigos de Deus (Hb 10, 26-27).

É verdade que aqui se faz alusão especialmente ao pecado de apostasia, mas também se pode dizer, proporcionalmente, da recaída em qualquer outro pecado. O vento leva a palha, não o trigo; o furacão derruba a casa sem alicerces, não aquela que está profundamente fundada. Ora, a quem compararemos nós aqueles que facilmente recaem no pecado? Não será talvez às palhas, às paredes sem alicerces? A recaída faz, diz São Bernardo (Serm. in Psalm.), que o pecador se torne temerário, desavergonhado, corrompido e sem recato. Cai-se da terra firme na lama, do trono numa cloaca, do Céu no Inferno. Depois, em outro lugar, acrescenta que aquele que recai depois de ter obtido o perdão dos pecados se torna filho do Inferno tantas vezes quantas são as suas recaídas.

“Temei, diz ele, pela graça recebida; temei ainda mais pela graça perdida; mas temei sobretudo pela graça recuperada (7)”.

O Crisóstomo pregava: Não pequeis mais depois de terdes obtido o perdão; não vos deixeis ferir novamente depois de terdes sido curados; não vos mancheis depois de terdes recebido a graça. Pensai que mais grave se torna a culpa já uma vez perdoada; que a reabertura de uma ferida é mais dolorosa depois da cura; que a mancha é muito mais horrenda quando se cai do estado de graça. Não merece indulgência aquele que peca depois do perdão; não merece ser curado novamente aquele que se fere a si mesmo depois de ter sido curado; não é digno de receber novamente a graça aquele que se lança na lama depois de ter sido purificado por meio da graça. Grave culpa é pecar, mas mais grave é recair no pecado depois da absolvição. O servo que insulta seu senhor depois de ter recebido dele a liberdade é indigno até mesmo de levar o nome de servo. (Serm. in prim. hom. Lapsu). A este propósito aplica-se aquela sentença do Eclesiástico: “Aquele que se lava por causa de um morto e o toca novamente, de que lhe serve ter-se lavado? Assim, o homem que jejua por seus pecados e os comete novamente, que proveito tira de sua mortificação? Quem ouvirá a oração dele?” (Eclo 34, 30-31).

Aprendei, portanto, que a recaída no pecado é mais grave e mais perigosa que o próprio pecado, tanto por causa da ofensa quanto pela ingratidão que comete o homem já perdoado outra vez, como porque renova e aumenta a primeira culpa. Quem recai, precipita-se; porque Deus aborrece aquele que recai, abandona-o e despreza-o; mais ainda, castiga-o com particular rigor. Eis por que Jesus Cristo recomenda ao paralítico curado que não peque mais, para que não lhe aconteça ver, por isso, piorada a sua condição. Eis por que, ao absolver a mulher adúltera, adverte-a de nunca mais pecar no futuro (Jo 14, 11). E, além disso, considerai o próprio corpo: porventura não são as recaídas muito mais terríveis e perigosas que a primeira doença?

Se recairmos, veremos cumprido aquilo que Jeremias dizia aos hebreus: dormiremos, isto é, em nossa confusão, e seremos cobertos de nossa ignomínia; porque pecamos, nós e nossos pais, contra o Senhor, nosso Deus, desde nossa adolescência até este dia, e não ouvimos a voz do Senhor, nosso Deus (Jr 3,25).

“Ó gálatas insensatos!, exclama São Paulo; quem vos fascinou a tal ponto que não obedeçais à verdade? … Vossa insensatez é tão grande que, depois de haverdes começado pelo espírito, agora terminais na carne?” (Gl 3,1, 3). O imprudente que recai em suas loucuras é comparado pelo Espírito Santo ao cão que volta a alimentar-se de seu próprio vômito (Pr 26,11).

Quase todos aqueles que têm a desgraça de viver na recaída e no hábito do pecado morrem em tal estado; sendo infelizmente verdadeiro o dito de Santo Agostinho: O pecado põe na prisão; a recaída a fecha; o hábito a mura (Confess.); ou, como já disse jocosamente um poeta: Enquanto o diabo se sentia mal das pernas, fez-se monge, mas, assim que lançou fora as muletas, ficou sendo o que era antes (8).

Não é porventura este o espetáculo que nos apresentam aqueles que são acometidos de grave enfermidade, quando sua vida está cheia de iniquidades? O mal os assusta, não querem morrer como viveram, e parece que retornam sinceramente a Deus; mas, fazei que recuperem a saúde de antes, e ei-los recaindo nas faltas habituais.

6. CASTIGOS QUE SEGUEM ÀS RECAÍDAS

“Escureçam-se os olhos deles, para que não mais vejam, diz deles o Salmista, e encurve-se suas costas sob o peso da escravidão; derramai, ó Senhor, sobre eles o vosso furor, e o fogo de vossa ira os alcance. Acrescentai iniquidade à iniquidade deles, e fiquem para sempre fora de vossa clemência. Sejam apagados do livro dos vivos e não sejam inscritos entre os justos” (Sl 68, 34-25, 28-29). E no Livro I dos Reis (1Sm 12,25) lemos: Se persistirdes em vossa maldade, perecereis.

7. MEIOS PARA EVITAR AS RECAÍDAS

“Permanecei firmes em vossos propósitos, escrevia São Paulo aos gálatas, e não torneis a submeter o pescoço ao jugo da escravidão” (Gl 5,1).

Tentados a recair, digamos como a Esposa dos Cânticos: “Já depus minha túnica; por que a vestirei de novo? Já lavei meus pés; agora, por que os sujaria novamente?” (Ct 5,3). “Pecaste, meu filho?, diz o Eclesiástico; não acrescentes outros pecados, mas roga para que te sejam perdoadas as primeiras culpas” (Eclo 21,1).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.