Durante os cem anos que Noé empregou para construir a arca, nunca deixou de advertir os homens para que fizessem penitência, porque haveria um dilúvio universal; mas os homens corrompidos zombavam dele e dele faziam escárnio…
Lot avisou os sodomitas de que um dilúvio de fogo estava prestes a sepultá-los, e foi objeto de escárnio.
Os Profetas falam e ordenam, exortam e ameaçam em nome do Senhor; mas os ímpios transformam suas palavras em objeto de escárnio…
Quando Jesus chegou à casa do Arquisinagogo e ouviu os tocadores de flauta e a multidão fazendo algazarra, disse: “Retirai-vos daqui, porque a menina não está morta, mas dorme”. Ao ouvirem esse anúncio, levantou-se um murmúrio universal, sarcástico e zombeteiro (Mt 9, 24).
“Nós somos, diz o Profeta, o opróbrio de nossos vizinhos, objeto de fábula e de escárnio na boca das nações que nos cercam” (Sl 78, 4); e, voltando-se para Deus, dizia: “Vós nos tornastes objeto de insulto para nossos vizinhos e de escárnio para nossos adversários” (Sl 79, 7). E Jesus Cristo dizia de si mesmo pela boca do Profeta: “Fui objeto de zombaria para eles” (Sl 73, 12).
E como foram tratados pelos malvados os Apóstolos? “Somos desprezados como gente sem valor, escrevia o grande Apóstolo; até o presente sofremos fome, sede e nudez; esbofeteados, expulsos, amaldiçoados, perseguidos, injuriados; somos considerados como a escória do mundo e o refugo da sociedade” (1Cor 4, 10-13).
Desde Jesus Cristo insultado no Gólgota até o presente, os maus sempre desprezaram os bons…
Aquele santo homem, Jó, em meio aos sofrimentos, coberto de chagas, até mesmo sobre o monturo é escarnecido pelos malvados, e também por seus pretensos amigos… Tobias fica cego, e eis que seus parentes, seus íntimos, zombam de sua conduta e lhe dizem: “Onde está a tua esperança, pela qual fazias tantas esmolas e sepultamentos?” (Tb 2, 16). Sua mulher também lhe censura que eram manifestamente vãs as suas esperanças, e vê-se, à prova dos fatos, de que lhe aproveitavam as suas esmolas (Tb 2, 32).
Porventura os maus não puseram Jesus Cristo em ridículo durante toda a sua vida? Zombaram de seus milagres, de seus benefícios, de sua doutrina divina, de sua sublime moral. Mas, no tempo de sua paixão, os insultos e as afrontosas zombarias chegaram ao cúmulo. Judas o ultraja, vendendo-o pelo preço de um escravo, trinta denários, e beijando-o. Os Apóstolos o ultrajam, abandonando-o; Pedro o ultrajou, desconhecendo-o e renegando-o. E as bofetadas, os escarros, a coroa de espinhos, o cetro de cana, o trapo de púrpura, o Ecce homo, os pontífices, os juízes, os reis, os soldados e a plebe, tudo concorre para lançar sobre ele o escárnio e o ridículo até seu último suspiro…
Os ímpios zombam da palavra de Deus, da religião, da piedade, da Igreja, dos Sacramentos, da lei de Deus, dos domingos e das festas, das sagradas cerimônias, do culto das coisas santas, de Deus, dos Santos, do dogma, da moral, da vida, da morte, do juízo, do Paraíso, do Inferno, do tempo, da eternidade; mordem, despedaçam, caluniam, blasfemam contra tudo aquilo que ignoram.
“Falam com arrogância e zombeteiramente de tudo, diz o Salmista, porque são obreiros da iniquidade” (Sl 93, 4).
Aos Apóstolos, que eram escarnecidos por seus compatriotas, Jesus anunciava que, se tivessem pertencido ao mundo, o mundo os teria amado como coisa sua; mas, não sendo eles do mundo, porque ele os havia escolhido do mundo, por isso o mundo os odiava e os insultava. O servo não é maior que seu senhor. Ora, se o mundo me perseguiu, também perseguirá a vós; mas tudo isso fará por causa do meu nome, porque não conhece Aquele que me enviou (Jo 15, 15-21).
“A simplicidade do justo é escarnecida”, diz Jó (Jó 12, 4).
Tão grande é a perversidade dos ímpios, que não têm paz enquanto não tiverem tornado os outros maus e perversos como eles; por isso escarnecem dos bons, chamando-os de falsos devotos, beija-pias, pescoços tortos, hipócritas etc.
Essa linguagem e essa conduta são provocadas pela diversidade dos costumes e da vida. Eles, os maus, veem que sua vida dissipada, suas desregramentos, são repreendidos e condenados pela vida virtuosa, apresentada como exemplo pelos bons; por isso riem deles, zombam deles, insultam-nos, ultrajam-nos, considerando-os censores de suas desordens, açoites que os flagelam.
E isso já observava São Próspero, que escrevia que todos aqueles que querem viver piedosamente em Jesus Cristo devem esperar insultos e escárnios da parte dos ímpios; serão chamados de loucos que lançam fora os bens presentes, aspirando e desejando somente os bens futuros. Deus permite isso para aumentar a coroa dos bons. Tais desprezos e escárnios recairão sobre a cabeça dos malvados quando a sua abundância se transformar em penúria, e o seu orgulho em confusão (In Sent. et Epigr. c. XXXII).
“Na boca do insensato está a vara da arrogância”, lemos nos Provérbios (Pr 14, 3). O orgulho torna o homem altivo e insolente. Os orgulhosos elevam-se acima dos outros, ridicularizam-nos, escarnecem deles, ultrajam-nos…
O malvado, carregado de pecados, comporta-se como se tivesse autoridade sobre os bons: pretende que lhe seja lícito maltratar e calcar aos pés a todos… “Os ímpios, dizem os Provérbios, detestam aquele que vive retamente” (Pr 21, 27).
As insolentes e injustas zombarias dos maus se voltam contra eles para humilhá-los e condená-los; pois põem em evidência a ignorância, o ódio, a maldade, a corrupção de seu coração… “Arruína-se a si mesmo aquele que maltrata o bom” (Pr 20, 25); e “está pronto o julgamento para o zombador, e o martelo que o deve golpear”, dizem os Provérbios (Pr 19, 29).
“Uma zombaria, uma maldição pacientemente suportada, recai sobre seu autor, diz Santo Agostinho, e permanece ileso aquele contra quem foi lançada (1)”; e Santo Ambrósio acrescenta que é condenado e punido como louco aquele que lança injúrias (2).
Deus das vinganças, Senhor Deus das vinganças, manifestai-vos, clama o Salmista. Levantai-vos, ó juiz da terra, dai aos soberbos zombadores a recompensa que merecem. E até quando, ó Senhor, e até quando os ímpios se vangloriarão? Até quando vomitarão insultos? Até quando falarão arrogantemente e se ensoberbecerão todos esses artífices da iniquidade? Eles calcam aos pés o vosso povo, ó Senhor, desolam a vossa herança. Estrangulam a viúva e o órfão, matam o estrangeiro, dizendo: “O Senhor não nos verá”. Ó homens insensatos, e quando enfim compreendereis? Aquele que formou o vosso ouvido não ouvirá? Ou aquele que formou o vosso olho não verá? Aquele que castiga as nações não vos punirá? Aquele que ensina aos homens a ciência não compreenderá? (Sl 93, 1-10).
“As injúrias e os escárnios são a porção daqueles a quem está reservada a glória”, diz Santo Ambrósio (3).
Compartilhar os ultrajes, as zombarias, as burlas com Noé, com os Patriarcas e os Profetas, com Jesus Cristo e seus Apóstolos, com os Mártires, os Confessores, as Virgens, os Santos de todos os séculos, com a Igreja, é a maior honra, a mais sublime glória, a mais bela recompensa que pode caber a um homem…
Sim, é coisa honrosa e gloriosa ser burlado, ridicularizado, criticado, mordido pelos maus, pelos homens corrompidos, impudentes, escandalosos, ímpios; porque isso prova que não os imitamos, e o fato de não imitá-los redunda em nossa suprema honra. Desgraçado daquele que é louvado por uma boca manchada! …
Os maus riem-se dos bons porque não percebem sua beleza interior, mas a verão no dia do juízo: então “conhecerão quem são os justos, os quais aparecerão aos seus olhos não mais obscuros, vis, desprezíveis, mas resplandecentes de glória e majestade, porque semelhantes a Deus e a Jesus Cristo… mas perceberão isso demasiado tarde…
Presentemente os maus veem e desprezam os bons, mas naquele dia o Senhor zombará deles, como diz a Sabedoria (Sb 4, 18): “Então os justos se levantarão corajosamente contra aqueles que os insultaram, ridicularizaram, atormentaram e lhes tiraram o fruto de seus trabalhos. À vista disso, os ímpios empalidecerão e tremerão de espanto. E, tocados pela dor, dirão com suspiros angustiados: Estes são aqueles que outrora considerávamos objeto de zombaria e dávamos como exemplo de opróbrio. Nós, insensatos, julgávamos a vida deles uma loucura, e o seu fim, desonrado; e eis que eles foram colocados entre os filhos de Deus e têm parte com os santos. Portanto, nós nos desviamos do caminho da verdade, não brilhou para nós a luz da justiça, nem se levantou o sol da inteligência. Cansamo-nos no caminho da iniquidade e da perdição, percorremos estradas desastrosas e não conhecemos o caminho do Senhor. De que nos serviu a soberba? E que proveito nos trouxe a ostentação das riquezas? Todas essas coisas se dissiparam como uma sombra e como um viajante que passa apressadamente. Como um navio atravessa as ondas agitadas sem deixar vestígio de sua passagem, nem sulco aberto por sua quilha nas vagas… Assim também nós, apenas nascidos, logo deixamos de existir, e não pudemos mostrar sinal algum de virtude, mas consumimo-nos em nossa maldade (Sb 5, 1-14).
Aqui os maus se declaram culpados de um tríplice erro: 1° por terem se desviado do caminho da verdade…; 2° por não terem visto a luz da justiça, da prudência e da caridade, porque a desprezaram, querendo permanecer nas trevas da concupiscência e das paixões…; 3° por não terem aberto os olhos para o sol que é Jesus Cristo, verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo; porque mantiveram fechado o coração… Insensatos zombadores, vós pensáveis que a vida dos justos não passava de um jogo (Sb 15, 13). Vede e observai agora onde eles se encontram e onde vós vos encontrais! …