Tesouro n.º 12 · Volume I

ARBÍTRIO (LIVRE) ARBITRIO (LIBERO)

5 seções · 52 parágrafos · pp. 123–134 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O HOMEM POSSUI LIVRE-ARBÍTRIO

“Operai a vossa salvação com temor e tremor”, diz São Paulo (Fl 2, 12). Este texto prova: 1° que o homem possui o livre-arbítrio também naquilo que diz respeito à graça e à salvação…; 2° que ninguém está seguro da graça e da perseverança…

Lemos no Eclesiástico que “Deus, desde o princípio, criou o homem e o deixou em poder de seus próprios conselhos” (Eclo 15, 14). Deu-lhe, porém, seus preceitos e mandamentos, os quais, se ele quiser cumpri-los e jamais faltar à fé dada, serão para sua salvação. Deus colocou diante de nós a água e o fogo: podemos escolher aquilo que quisermos. Diante de nós estão a vida e a morte, o bem e o mal; cabe a nós escolher o que quisermos, e isso nos será dado (Ibid. 15-18).

No Deuteronômio está escrito que Moisés disse ao povo hebreu: Considera que hoje pus diante de ti a vida e os bens, a morte e os males, para que ames o Senhor teu Deus, andes em todos os seus caminhos, observes os seus preceitos, os seus estatutos e os seus ritos, e vivas, e Ele te multiplique e te abençoe na terra que vais possuir. Mas, se o teu coração se afastar dele e não te importares em obedecer-lhe… eu te declaro desde já que perecerás. Chamo hoje o Céu e a terra por testemunhas de que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, portanto, a vida, para que vivas tu e a tua posteridade (Dt 30, 15-19). Não são estas provas evidentes do livre-arbítrio?

A ordem que Deus dá a Adão de não tocar no fruto que lhe indicara, e a ameaça de que será ferido de morte quando transgredir este preceito, não dizem abertamente que Deus criou o homem com a faculdade do livre-arbítrio? O Senhor, diz o Gênesis, deu ao homem um mandamento e lhe disse: Tu és livre para comer de toda espécie de fruto que o jardim produz, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, porque no dia em que dele provares, morrerás (Gn 2, 16-17). A solicitação da serpente para induzir nossos primeiros pais a tocar na maçã proibida nos dá outra prova do livre-arbítrio do homem.

“Eu te advirto, escreve São Paulo a Timóteo, que reacendas em ti a graça de Deus, que te foi comunicada pela imposição de minhas mãos” (2Tm 1, 6).

“Ninguém no mundo, acrescenta Santo Agostinho, pode criar uma árvore, mas cada um tem o poder e a liberdade de escolher o que é bom e ser uma árvore boa, ou o que é mau e ser uma árvore má. Eles se desviaram do caminho da verdade e caíram porque assim quiseram (1)”.

“Porventura, se te comportares bem, não receberás recompensa? disse Deus a Caim; e, se mal, não verás logo o pecado entrar em teu coração? Mas a inclinação que te conduz a ele dependerá de tua vontade, e tu poderás, querendo-o, subjugá-la” (Gn 4, 7). Tu poderás; portanto, deverás dominá-la. Tu poderás; portanto, tens o livre-arbítrio. Notai aqui como a vontade é poderosa não somente sobre as ações e os movimentos exteriores, mas também sobre as paixões e os apetites interiores. Quando sentis as funestas sugestões da concupiscência, podeis, armados de uma vontade forte e constante, não consentir nelas… “Ah, sim, exclama o Crisóstomo, tão grande é o poder da vontade, que nos torna possível aquilo que queremos e nos faz rejeitar aquilo que não queremos (2)”.

Sêneca também compreendeu o livre-arbítrio, pois é sua opinião que não há nada tão árduo e difícil que o espírito humano não possa vencer, e que uma meditação prolongada não consiga resolver. Não há afeto ou inclinação tão poderosa que não possa ser refreada pela disciplina. O espírito obtém tudo aquilo que decidiu firmemente querer; vários, por exemplo, fizeram para si o dever de não mais rir e mantiveram-se firmes nesse propósito; outros quiseram proibir-se absolutamente o uso do vinho e dos prazeres carnais, e conseguiram fazê-lo (De Ira, lib. 2, c. 12).

Tudo quanto alguém quer real e eficazmente, e com toda a alma, obtém. Quereis ser, na realidade e decididamente, humildes, castos, pacientes, obedientes, moderados etc.? Assim sereis certamente…

“É-vos permitida a escolha, diz Josué ao povo de Deus; escolhei hoje aquilo que vos agrada e a quem quereis servir. E o povo respondeu: Nós serviremos ao Senhor, porque Ele é o nosso Deus” (Js 24, 15-18). “Caminha direito, dizem-nos também os Provérbios, e em todo o teu proceder terás estabilidade. Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda; retira o teu pé do mal” (Pr 4, 26-27). Portanto, o homem goza do livre-arbítrio; de outro modo, não poderia caminhar como lhe ordena o Senhor.

A Escritura nos ensina qual foi a origem do mal e como este proveio da vontade do homem; pois diz claramente que Deus fez o homem livre, para que pudesse escolher o bem ou o mal e fosse capaz de mérito ou de demérito. A origem da liberdade está na faculdade de conhecer. Com efeito, quando o intelecto põe na balança da vontade razões prováveis a favor de uma coisa e da outra, a liberdade faz com que a vontade possa escolher, porque há, como dissemos, de ambos os lados razões que tornam a coisa boa, amável e elegível, ou que ao menos a apresentam sob esse aspecto. O livre-arbítrio encontra-se, portanto, em princípio no intelecto e, em ação, na vontade; pois do exame da mente nasce no homem a liberdade de decidir e de querer. Por isso, os irracionais, privados de razão, também são privados do livre-arbítrio. Seu apetite é guiado pela fantasia e, quando de dois objetos um é melhor, ou assim se apresenta à sua fantasia, dirige-se para ele, atraído pela necessidade da natureza…

“Deliberamos acerca das coisas que devemos fazer e que estão em nosso poder, diz Aristóteles (3), mas ninguém, exceto o insensato, delibera acerca daquelas que dependem da natureza, do acaso ou da necessidade. Como a faculdade de escolher não é coisa diversa da faculdade de examinar e deliberar qual de duas coisas que estão em nosso poder é preferível, resulta que, afinal de contas, a escolha é um desejo motivado; pois a deliberação vem depois do juízo, e o desejo segue a deliberação”.

Tirai do homem o livre-arbítrio, e lhe tirareis a natureza de homem, igualando-o aos irracionais. Há nele a liberdade de querer ou não querer, que se chama liberdade de oposição; e há aquela de escolher entre duas coisas, tomando uma e deixando a outra, o que as escolas chamam liberdade de contrariedade.

“Deus nos ordena observar seus preceitos, diz Santo Agostinho; ora, como no-los ordenaria, se o homem não tivesse o livre-arbítrio? (4)”; Tertuliano observa que o homem recebeu em sua alma, feita à imagem de Deus, o poder do livre-arbítrio, como o demonstra o mandamento que lhe foi dado pelo Senhor; com efeito, não se pode dizer que Ele teria imposto uma ordem ao homem, se o homem não tivesse a faculdade de cumpri-la; e muito menos lhe teria ameaçado com a morte como pena da transgressão, se o homem não tivesse sido plenamente livre tanto para obedecer como para calcar aos pés a lei que lhe fora imposta. Eis a razão por que, todas as vezes que Deus deu leis ao homem, sempre lhe deixou a faculdade de escolher entre o bem e o mal, a vida e a morte; coisa que Deus certamente não teria feito, se não houvesse o livre-arbítrio (Cont. Marc. lib. 2, c. 5).

A Escritura diz que Deus pôs à escolha do homem a água e o fogo, e que lhe será dado aquilo que mais lhe agradar. Sob o nome de água e fogo devem entender-se as coisas contrárias entre as quais o homem tem a faculdade de escolher. O fogo representa ainda o Inferno, assim como a água representa o refrigério da graça e da glória…

Diante do homem encontram-se a vida e a morte, o bem e o mal, e ele terá aquilo que mais lhe agradar. Mas os filhos dos homens, diz o Salmista, não passam de vaidade; os filhos de Adão são mentira; ponde-os todos juntos numa balança, e serão mais leves que o nada (Sl 61, 9). Pesam mal, pesam como cegos… não escolhem a água, mas o fogo; preferem o mal ao bem, a morte à vida…

“Deus, deixou escrito Santo Agostinho, dá mal por mal, porque é justo; bem por mal, porque é bom; bem por bem, porque é bom e justo; mas não dá mal por bem, porque não é injusto (5)”.

Ora, sem o livre-arbítrio não haveria nem bem a recompensar, nem mal a punir, porque fora dele não haveria nem bem nem mal…

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DO LIVRE-ARBÍTRIO

Quão rico e precioso, honroso e vantajoso dom seja o livre-arbítrio, facilmente se compreenderá, se se considerar que, por meio dele, o homem: 1º é semelhante a Deus e aos Anjos, porque Deus é a suma liberdade e os Anjos gozam de uma liberdade confirmada no bem…; 2º é superior a todas as criaturas corporais…; 3º é senhor de si mesmo e de suas ações…; 4º é apto para toda virtude…; 5º é capaz de merecer…; 6º adquire a graça no tempo…; 7º assegura para si a vida e a glória eterna no Céu… Por isso, com razão, São Bernardo escrevia que considerava uma grande dignidade no homem o livre-arbítrio, por meio do qual lhe é dado não somente elevar-se acima das obras da criação, mas também dominar os animais. O livre-arbítrio é um dom divino que resplandece na alma como um diamante engastado no ouro. Por meio dele, o homem tem o poder de escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas (De dilig. Deo).

“Se quiserdes, diz o Senhor pela boca de Isaías, e se derdes ouvidos às minhas palavras, sereis repletos dos bens da terra” (Is 1, 19). E no Apocalipse ele nos faz ouvir que àquele que vencer reserva, como prêmio, fazê-lo sentar-se junto de si em seu trono, assim como ele também venceu e se sentou no trono de seu Pai (Ap 3, 21).

“A alma é livre, diz Platão; ela pode dominar suas paixões e vencer a si mesma, e esta é a primeira e mais perfeita de todas as vitórias; assim como a derrota mais vergonhosa e infame é deixar-se vencer por si mesmo (6)”.

“Por meio de nosso consentimento voluntário, unimo-nos à vontade de Deus”, acrescenta São Bernardo (7).

3. NECESSIDADE DE USAR BEM O LIVRE-ARBÍTRIO

“Aquele que nos criou, diz Santo Agostinho, sem nos consultar, não nos salva sem que o queiramos (8)”. Sim, Deus criou o homem livre, mas não para que ele estivesse fora do domínio de sua providência; dotando-o de liberdade, não pretendeu permitir-lhe, como a uma fera, ir para onde quer que o impulsione o capricho e subtrair-se aos preceitos divinos. Como soberano senhor de todas as coisas, como legislador, senhor, rei, juiz e vencedor, impôs-lhe a lei, tanto natural como revelada, para que a observe.

Três coisas fez o Senhor: 1º deu ao homem o livre-arbítrio; 2º fez-lhe conhecer a sua lei; 3º prometeu-lhe uma recompensa, se ele a observasse.

Deus, observa São Basílio (Homil. in Psalm. LXI), colocou fora de nós uma balança, com a qual podemos pesar todas as coisas. Sirvamo-nos dela para pesar cada uma de nossas ações e ver o que nos é mais útil. E será talvez melhor saborear um prazer passageiro e vil, que traz consigo a morte eterna, do que exercitar-se na virtude? Ouvi, ó cegos, que escolheis a mentira e a corrupção, como Isaías vos amaldiçoa: “Ai de vós, que chamais o mal de bem e o bem de mal; que pondes a luz onde estão as trevas e as trevas onde está a luz; que chamais doce ao amargo e amargo ao doce” (Is 5, 20).

“Eu quero”, dizeis, “as coisas presentes, pois quem conhece as futuras?” Ah, insensatos! Usais mal da vossa balança, preferindo o mal ao bem, as coisas vãs às reais, o temporal ao eterno, um prazer que foge a uma alegria que jamais acabará…

Devemos empenhar-nos com todas as nossas forças, escreve São Bernardo, em conservar o nosso livre-arbítrio para fazer o bem: Deus no-lo deu para esse fim e para que, por meio dele, merecêssemos a felicidade eterna. Mas, para isso, é preciso que sujeitemos o nosso livre-arbítrio à vontade de Deus, que lho ofereçamos e consagremos sem reserva e que renovemos frequentemente a resolução de obedecer em tudo a Deus; pedindo-lhe assiduamente que se digne guardar-nos ele mesmo como propriedade sua, conduzir-nos com a sua graça à prática de todas as virtudes e, daí, ao porto da eterna salvação; porque, se a concupiscência, o pecado e o Demônio se tornam senhores do nosso livre-arbítrio, ele não fará senão o mal e nos precipitará no Inferno (Tractatus De dilig. Deo).

Por isso dizia Santo Agostinho que “o homem que faz mau uso de seu livre-arbítrio perde-o, e perde-se com ele (9)”; e em outro lugar: “pecando-se pelo livre-arbítrio, lança-se fora o livre-arbítrio (10)”. Não que ele se perca em si mesmo, mas perde-se porque é consagrado ao mal e enfraquecido por causa de sua revolta contra Deus. Pois, como bem observa o citado santo Padre, “é livre para pecar aquele que é escravo do pecado (11)”.

Deus não rejeita ninguém, negando-lhe a sua graça; ele rejeita o pecador porque este, vendo diante de si o bem e o mal, entregou-se ao mal. Se o pecador é condenado ao fogo eterno, não é porque lhe tenha faltado a graça, mas porque ele faltou à graça e cometeu voluntariamente o pecado. Cada um pode, se quiser, evitar a ofensa a Deus; que todos assim procedam, e o Inferno estará fechado. O homem terá aquilo que escolheu: se quer o pecado, terá o pecado e a pena do pecado; pois não se pode querer aquele sem esta, sob o governo de um Deus justo… Não vos iludais, portanto, em vossa impiedade, como se tivésseis de receber algo diferente daquilo que escolhestes: “A tua perdição vem de ti, ó Israel”, declara Oseias (Os 13, 9). Não Deus, mas a nossa má vontade é que nos perde. “Cesse, pois, conclui São Bernardo, a vontade própria, e não haverá mais Inferno (12)”. E Santo Agostinho assim nos exorta: “Não abuseis da liberdade para pecar livremente, mas servi-vos dela para não pecar: livre será a tua vontade, se for piedosa; tu serás livre, se te fizeres servo; livre do pecado, servo da justiça (13)”.

4. O LIVRE-ARBÍTRIO NÃO BASTA; É PRECISO TAMBÉM A GRAÇA

“Consentir ao chamado divino ou não lhe dar ouvidos está no poder da vontade, diz Santo Agostinho; a alma não pode receber nem possuir dons, senão consentindo neles; por isso, tudo quanto recebe ou possui é de Deus; mas o receber e o possuir pertencem àquele que recebe e possui (14)”. “E tanto está longe, diz São Bernardo, de que aquilo que Deus dá ao livre-arbítrio possa existir sem o consentimento de quem recebe, quanto está longe de existir sem uma graça daquele que dá (15)”.

“Pela graça de Deus, confessava de si São Paulo, sou o que sou; e a sua graça não foi estéril, mas trabalhei mais do que todos; não eu, porém, por mim mesmo, mas a graça de Deus comigo” (1Cor 35, 10). A graça é, pois, necessária, mas não menos necessária é a cooperação com a graça: aquela provém de Deus; esta, do livre-arbítrio. Uma pessoa exausta de forças não pode dar um passo sozinha, mas, sustentada, caminha. O sustento é a graça; alguém se apoia nela quando o livre-arbítrio age sob o impulso dela. É necessária a união entre a graça e o livre-arbítrio; é preciso que essas duas cordas se harmonizem em uníssono. Sem a chuva, a terra permanece estéril; sem a terra, a chuva não produz efeito…

Segundo a doutrina do Apóstolo, não somos capazes de produzir coisa alguma por nós mesmos, mas toda a nossa capacidade vem de Deus (2Cor 3, 5). Dessas palavras se conclui que o livre-arbítrio é, por si mesmo, insuficiente, mas não que não tenha força alguma. O livre-arbítrio é demasiado fraco, lânguido e enfermo para poder realizar sozinho as boas obras; contudo, é suficientemente forte e vigoroso quando impelido, ajudado e sustentado pela graça preveniente e concomitante.

“Que ninguém, diz São Gregório, julgue valer alguma coisa, ainda depois de já ter dado provas de força; pois, se a proteção divina o abandona, ele cairá prontamente prostrado no mesmo terreno sobre o qual se vangloriava de manter-se firme por sua própria vontade (16)”.

E Santo Agostinho escreve: “Ninguém é forte por suas próprias forças, mas mantém-se seguro pela indulgência e misericórdia de Deus (17)”; por isso o Profeta exclama: “Em vós, ó Senhor, conservarei a minha força” (Sl 58, 10); e Santo Agostinho explica assim estas palavras: “Conservarei por vosso meio, ó Senhor, a minha força, a vós a atribuirei e vos serei grato por ela (18)”.

Se fosse verdade, observa o Crisóstomo, que Deus opera sozinho todas as coisas em nós, em vão me exortaríeis, em vão procuraríeis inspirar-me temor e terror, em vão me ordenaríeis obedecer. Mas ouvi a Escritura, que diz: Deus criou o homem no princípio e deixou-o árbitro de seus próprios conselhos (Eclo 15, 14); e concluí daí que Deus não opera sozinho, mas é preciso que o homem opere de acordo com Deus. É necessária a graça, mas também a correspondência à graça (Serm. de Zachaeo).

A graça acaricia e atrai a vontade do homem, para que esta lhe corresponda e coopere livremente com ela… Deus opera em nós o querer, porque, segundo dizem os santos Padres, ele socorre, fortalece e faz avançar a nossa vontade, levando-a a praticar o bem… “Deus move o homem e o leva a querer arrepender-se livremente, amar e fazer o bem (19)”. Deus nos estimula e nos dá a graça para fazer queiramos; cabe depois a nós unir-nos para cooperar com a graça…

A Igreja ensina, com Santo Agostinho, que todo início de boa vontade, de fé e de salvação tem origem na graça preveniente. O Apóstolo quer que pratiquemos o bem com temor, porque Deus opera o querer. Deus faz com que queiramos e que realizemos aquilo que queremos. “Deus opera em nós o querer e o realizar, segundo aquilo que lhe agrada” (Fl 2, 13). Opera o querer, ajudando a vontade; opera o realizar, continuando a conceder-nos aquela mesma graça pela qual opera o querer. Quando, porém, um ato exterior é difícil, como o martírio, então ele opera o realizar por meio de uma nova graça que anima e fortalece o homem.

São Bernardo, tratando da graça e do livre-arbítrio, explica de que modo Deus opera em nós estas três coisas: o pensar, o querer e o realizar.

“Ele opera em nós a primeira coisa, que é o pensar, escreve este santo Doutor, sem nós; a segunda, isto é, o querer, conosco; a terceira, que é o realizar, por meio de nós. Quando, porém, sentimos que tais maravilhas acontecem em nós e conosco, devemos cuidar muito para não atribuí-las nem à nossa vontade, que é enferma, nem a um constrangimento da parte de Deus, que não ocorre; mas somente à graça, da qual Deus é pleno. Ela estimula o livre-arbítrio, inspirando-lhe o desejo; cura-o, mudando-lhe o afeto; fortalece-o, para conduzi-lo à ação; conserva-o, para que não desfaleça. O modo, porém, como opera com o livre-arbítrio é este: ela o previne, inspirando-lhe o pensamento; em todo o restante, caminha junto com ele, e o previne precisamente para que depois coopere com ela. O começar pertence somente à graça; o prosseguir até o cumprimento da obra faz-se por meio da graça e do livre-arbítrio unidos, não tomados separadamente, mas operando ambos ao mesmo tempo, não alternadamente. Não é a graça em uma parte e o livre-arbítrio em outra; mas um e outro juntos, por uma ação singular, operam (20)”.

Deus opera em nós o querer e o fazer, não segundo o beneplácito do homem, mas segundo o seu, como diz o Crisóstomo (21), para que a sua vontade se cumpra em nós e por meio de nós, e vivamos santamente.

«Eis que estou à porta, diz Jesus no Apocalipse, e bato; se houver alguém que ouça a minha voz e me abra, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo» (Ap 3, 20).

É doutrina de Santo Agostinho que Deus opera primeiro, para que nós queiramos; e, uma vez decidida a nossa vontade, coopera na realização da ação. Ele nos previne, para nos curar; acompanha-nos, para que nos desenvolvamos em saúde; previne-nos, para que sejamos chamados; acompanha-nos, para que alcancemos a glória; previne-nos, para que vivamos piedosamente; acompanha-nos, para que vivamos sempre com Ele (22). Por isso, a Esposa dos Cânticos exclama: «Atrai-me, e correrei atrás de ti, ao odor dos teus perfumes» (Ct 1, 3).

«Deus, diz São Gregório, dá-nos, por meio da graça, os bons desejos; nós, depois, por meio dos esforços do livre-arbítrio, servimo-nos dos dons da graça, para que as virtudes reinem em nós (23)».

«A graça preveniente é necessária, acrescenta Santo Agostinho, mas não se deve excluir a cooperação do livre-arbítrio; pois, se somente Deus operasse, seria inútil dizer aos homens: Convertei-vos; e, se os homens pudessem operar sozinhos, sem a graça, seria zombar de Deus dizer-lhe: Ó Deus, convertei-nos. Se Deus preparasse a nossa alma sem o nosso concurso, seria falso que o homem prepara a sua alma; e, se nós preparássemos os nossos corações sem o auxílio do Senhor, não se poderia dizer que Deus prepara a nossa vontade. Por isso, Deus realiza muitas coisas boas no homem, sem a intervenção do homem; mas o homem não realiza absolutamente nada sem que Deus o ajude a fazê-lo (24)».

O livre-arbítrio não exclui, como pretende Pelágio, a graça de Deus, assim como a causa segunda não exclui a causa primeira; ao contrário, aquela está subordinada a esta e dela depende essencialmente. O concurso da causa segunda é nulo, ou melhor, não existe de modo algum, sem a ação da causa primeira.

«Para entender, retoma Santo Agostinho, aquelas palavras da Escritura: Se quiseres, observarás os mandamentos, é preciso dar-lhes este sentido: que o homem que quer e não pode compreenda e se convença de que ainda não quer plenamente, e reze para que lhe seja concedida tanta vontade quanta lhe é necessária para cumprir os mandamentos. Desse modo, receberá o auxílio de que necessita para fazer o que lhe é ordenado; pois o querer só é útil quando queremos. Do contrário, de que serve querer aquilo que não podemos, ou não querer aquilo que podemos? (25)».

Deus prepara e dá aos ímpios uma graça suficiente, com a qual podem, se quiserem, evitar o pecado e fazer o bem. Essa graça é chamada suficiente porque aquele que quer cooperar com ela a torna eficaz. A graça eficaz recebe esse nome porque certamente alcança o seu efeito. Não está em nosso poder obter de Deus a graça eficaz, em vez da simples graça suficiente; entretanto, Deus, em sua liberalidade e por seu beneplácito, concede a todos a sua graça. Se os ímpios querem cooperar com ela, tornam-na eficaz, como fazem as almas piedosas; mas, como não querem, e Deus comprovou essa resistência, não lhes dá senão a graça suficiente, que Ele sabe haver de lhes ser inútil. Deve-se, aliás, observar que se deve atribuir à negligência ou à malícia deles o fato de a graça não produzir efeito, ou de se tornar ineficaz, embora Deus queira e sinceramente deseje que cooperem com ela e que ela se torne frutuosa e eficaz; pois Deus não fica procurando e escolhendo graças ineficazes para dá-las aos ímpios; de sua parte e segundo o seu desígnio, toda graça é eficaz quanto ao primeiro ato, o que significa que possui a força e a eficácia necessárias para produzir a ação e mover a agir aquele que a recebe, se a sua vontade quiser corresponder-lhe. Nisto consiste o objetivo a que Deus visa; é isto que Ele quer. Deus concede a graça suficiente com sincero desejo de que o homem lhe corresponda e que, por meio dela, comece a agir; Deus não a concede senão para esse fim; e todos os teólogos concordam em declarar que não se poderia atribuir a Ele outra intenção.

5. DEUS NÃO VIOLENTA O LIVRE-ARBÍTRIO

A vontade de Deus se comporta com o livre-arbítrio de modo bem diverso daquele com que se comporta com o céu, a terra e o universo. Ao criar o céu e a terra, impôs-lhes a necessidade de existir; mas deixa livre a vontade do homem, persuadindo-o interiormente a agir, acariciando-o, atraindo-o, lisonjeando-o, ameaçando-o, fortalecendo-o… Somos atraídos a Deus não com correntes retorcidas, mas com a força do amor, como diz o profeta Oseias: «Eu te atrairei com laços que seduzem os corações, com vínculos de amor» (Os 1, 4).

«Crede, prega-nos Santo Agostinho (26), e vereis; amai, e sereis atraídos. Não imagineis que seja dura e penosa a violência que Deus exerce sobre o homem; ela é, ao contrário, doce e agradável; e como não o seria, se é a própria suavidade que vos atrai? Porventura não se atrai a ovelha faminta oferecendo-lhe erva? E, contudo, penso que ninguém dirá que ela é impelida pela necessidade, mas é o seu desejo que a prende. Assim acontece convosco: vinde a Jesus; não andeis buscando longos rodeios: ide por onde quiserdes, porque se chega a Deus não navegando, mas amando. Como posso crer por minha própria vontade, se sou atraído? — dizeis-me; e eu vos respondo: é pouco serdes atraídos por vossa própria vontade; sois atraídos ainda mais com prazer. Ora, que é ser atraído com prazer? É alegrar-se no Senhor, que nos dará tudo o que o nosso coração desejar. Não é isto suportar uma necessidade, mas obedecer a uma atração; não é ser constrangido, mas experimentar deleite. Devemos dizer que é atraído a Cristo aquele que se compraz na verdade, na felicidade, na justiça e na vida eterna, e tudo isso reunido é Jesus Cristo».

Cada um vai para onde o atrai o seu deleite, mas isso acontece livremente, e não por necessidade.

Somos atraídos pelos avisos do Senhor, pela revelação, pela doutrina evangélica… «Não penseis, diz em outra passagem Santo Agostinho, que sois atraídos pela força; a alma também cede ao amor. Essa espécie de violência exerce-se sobre o coração, não sobre o corpo (27)».

A ação de atrair significa a força e a eficácia da graça de Deus, mas doce e agradável é essa força: ela não violenta o livre-arbítrio, mas o estimula, acaricia-o, impele-o a crer, tornando-o feliz, dando-lhe a paz e a tranquilidade… Por isso, o santo Padre citado assim nos exorta: “Se ainda não fostes atraídos, pedi para sê-lo. Por que este é atraído e aquele não, tende o cuidado de não procurar saber por curiosidade, se vos importa não cair em erro (28)”.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.