O amor do homem para com Deus é de duas espécies: o amor de concupiscência, ou imperfeito; e o amor de pura caridade, isto é, perfeito. Com o amor de concupiscência, procuramos agradar a Deus, para que ele nos dê como recompensa a vida eterna: esse amor é bom, mas, mais que um ato de caridade, deve ser chamado um ato de esperança. O amor perfeito, porém, pelo qual nos empenhamos em agradar a Deus e fazer aquilo que lhe é agradável, consiste em amá-lo exclusivamente por si mesmo, sem ter em vista a recompensa; esse amor é propriamente aquilo que se chama caridade perfeita.
“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas faculdades” (Dt 6, 5). Deus dava este preceito aos hebreus e, para que estivessem bem persuadidos de sua alta importância, acrescentava que gravassem essas palavras no próprio coração, que as meditassem em casa e em viagem, de noite e de dia, que as repetissem e ensinassem aos filhos, que as atassem aos pulsos como uma lembrança, que as tivessem escritas diante dos olhos e que as escrevessem nas portas da casa (Ib. 7-9). Jesus Cristo repetia e inculcava esta obrigação na nova lei, referindo as mesmas palavras da antiga, e advertia que este era o primeiro e o mais excelente dos mandamentos (Mt 22, 27-28).
“Mas também dissera o Eclesiástico: com todo o teu poder, Aquele que te criou” (Eclo. 7, 32); e em outro lugar: “Ama a Deus por toda a tua vida e invoca-o para a tua salvação” (Ib. 13, 18).
O motivo que nos deve impelir a amar a Deus é que Deus constitui a alma e a vida de nossa alma. Ora, não é justo que a alma dê a Deus aquilo que o corpo dá à alma, e que façamos tudo por amor de Deus? Nada teme mais o corpo do que ser separado da alma; nada deve temer mais a alma do que ser separada de Deus; por isso, o Apóstolo São Judas nos impõe a obrigação de nos conservarmos no amor de Deus (Jd. 21).
O cavalo nasceu para correr, e este é o seu fim, assim como o fim do pássaro é voar, o do boi, lavrar, o do cão, ladrar, o do fogo, aquecer, o da água, dessedentar…; o homem nasceu para amar a Deus: este é o seu último fim.
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, escrevia São Paulo aos Coríntios, se não tiver a caridade, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. E ainda que tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; e ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver a caridade, nada sou. E ainda que distribuísse para alimento dos pobres todos os meus bens, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver a caridade, de nada me aproveita” (1Cor 13, 1-3).
O mesmo Apóstolo diz ainda: “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14). “Jesus Cristo morreu por todos, a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por eles” (2Cor 5, 15).
O amor de Deus é coisa tão grande, diz Santo Agostinho, que, para aquele que dele está privado, nada aproveita possuir todo o restante; e quem dele está provido nada carece (1). E acrescenta em outro lugar: “A fé pode encontrar-se sem a caridade, mas, sem a caridade, não pode ser nem frutuosa nem útil (2)”.
Ouvi também São Bernardo: “A castidade sem a caridade é uma lâmpada sem óleo; tirai o óleo, e a lâmpada não ilumina; tirai o amor de Deus, e a castidade perde o seu valor (3)”.
“O fim dos mandamentos é a caridade”, diz São Paulo a Timóteo (1Tm 1, 5); e no preceito do amor de Deus tudo se resume, segundo a palavra de Jesus Cristo, a lei e os profetas (Mt 22, 40).
“Ó minha alma, exclama Santo Agostinho, criada à imagem de Deus, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo, esposa da fé, enriquecida pelo Espírito, ornada de virtudes, feita igual aos Anjos, ama Aquele que tanto te amou; pensa n’Aquele que jamais se esquece de ti; busca Aquele que te busca; entrega-te inteiramente Àquele que se entrega todo a ti. Este grande Deus ocupa-se somente de ti, e tu não te ocupes de outro senão d’Ele; Ele deixa, de certo modo, todas as coisas por ti, e tu deixa todo outro negócio por Ele: Ele é a santidade por essência, e tu sê santa; Ele é a pureza em pessoa, e tu sê pura… Ah! que o céu, a terra e tudo quanto neles está contido não cessam por um instante de me clamar que Vos ame, meu Deus; e aquilo que dizem a mim, pregam-no sem cessar a todos, para que sejam indesculpáveis se não Vos amarem (4)”.
É preciso amar a Deus, antes de tudo, porque Ele é sumamente amável.
Deus é todo amor, diz São João (1Jo 4, 8); Deus é uma fornalha ardente que tudo inflama, proclama São Paulo (Hb 12, 29). “Que é Deus? acrescenta São Bernardo: Deus é a vontade onipotente, a virtude amantíssima, a luz eterna, a razão imutável, a suprema bem-aventurança (5)”.
Deus é a eternidade, a medida, a ordem, a causa, o fim de todas as coisas. Ele é o princípio e o termo de todas as criaturas: é o sumo, imenso, incriado Bem… Ah, sim, exclama Santo Agostinho, é pobreza e indigência toda abundância e toda riqueza que não seja o meu Deus (6).
Infinito em sua essência, Deus é igualmente tal em seus atributos divinos e em cada um deles. Deus possui uma santidade infinita, uma potência infinita, uma sabedoria infinita, uma misericórdia infinita, uma ciência infinita, uma bondade infinita, e assim por diante, em relação a qualquer outro atributo. Deus supera infinitamente não somente tudo o que existe, com todas as suas perfeições e qualidades, mas também todas as coisas possíveis e imaginárias; e supera-as não em cem, não em mil, não em milhões de graus, mas infinitamente acima de todo cálculo. Contemplai quanto puderdes a sabedoria, a potência, a bondade, a beleza, a riqueza etc., e elevai com a imaginação essas perfeições ao infinito; quando tiverdes chegado a esse ponto, sabei que todos os vossos pensamentos e cálculos, não somente os vossos, mas todos os pensamentos e cálculos de todos os homens e de todos os Anjos, não se aproximaram um passo sequer da infinitude das perfeições de Deus: sabei que, longe de haverdes alcançado o ser divino, ainda vos encontrais a uma distância infinita dele. Calem-se, exclama Isaías, todos os espíritos, emudeçam todas as línguas e todas as vozes, cubram-se de véus, por reverência, e aniquilem-se os Querubins e os Serafins… porque todos os Anjos reunidos, com todas as suas chamas de amor, não são capazes nem de compreender, e muito menos de penetrar, o mais baixo grau da vossa glória, ó meu Deus…
Exclamemos também nós com o Salmista: “Grande é o Senhor e digno de todo louvor; sua grandeza não conhece limites” (Sl 144, 3). E com o Profeta Baruc: “Deus é grande, eterno, elevado, infinito” (Br 3, 25).
Em segundo lugar, devemos amar a Deus porque Ele nos amou sumamente, como já havia dito o Senhor pela boca de Jeremias: “Eu vos amei com amor eterno; por isso vos atraí a mim em minha misericórdia” (Jr 31, 3); e São João no-lo repete: “Amemos, pois, a Deus, porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4, 13).
No amor infinito que Deus dedica ao homem, devemos admirar: 1° o amor que Ele nos teve desde toda a eternidade, sem que tivesse necessidade de nós, porque possui em si mesmo todas as coisas; 2° considerar que não nos ama por alguma necessidade, mas de modo inteiramente livre e liberal; 3° que nos ama sem proveito algum para si; 4° que ama o homem antes que este tenha razão, ou algum mérito e dignidade que possa cativar-lhe o amor; antes, ama-o quando o vê carregado de muitos e graves deméritos, pelos quais mereceria não amor, mas ódio; 5° que amou também aqueles que previu que se tornariam ingratos e inimigos d’Ele; 6° que esse amor de Deus pelos homens não provém da ignorância ou da paixão, como acontece com a maior parte das pessoas, mas é inseparável de uma justa equidade e de uma grande sabedoria.
Mas que sabedoria, direis vós, pode haver em Deus ao amar homens miseráveis e pecadores? Isto certamente não é um objeto amável em si mesmo. Mas, em Deus, a razão de amar não provém, como nos homens, da amabilidade do objeto, mas do próprio Deus. Com efeito, Deus nos ama por si mesmo, porque é infinitamente bom; por isso quer derramar sobre nós a sua liberalidade e os seus benefícios, não obstante a nossa indignidade. A bondade infinita de Deus é, portanto, a base e a razão do seu amor pelos homens, da comunicação dos seus dons e de si mesmo. Em Deus há uma vontade infinita e um desejo imenso de comunicar-se, os quais nascem da perfeição e da plenitude infinita da sua essência; e esta é tal que o leva a dar-se, por grandes que sejam as suas liberalidades. Deus nada perde da sua plenitude. Ele é como uma fonte da qual brotasse continuamente tanta água quanta dela se tirasse… Deus é para as coisas espirituais aquilo que o sol é para as corporais, diz São Gregório Nazianzeno. Assim como o sol irradia por toda parte os seus benéficos raios, para iluminar, aquecer, vivificar e fecundar a natureza, assim Deus derrama sobre todas as criaturas, mas especialmente sobre os Anjos e os homens, os raios divinos da sua beneficência, para iluminá-los com a luz da sua sabedoria, aquecê-los com o fogo do seu amor, vivificá-los com a vida da graça e da glória (Distich.).
Essa liberalidade de benefícios da parte de Deus é imensa e nos parece maravilhosa se considerarmos: 1° a majestade daquele que ama, daquele que dá; 2° a condição daqueles a quem Ele dá, pois, se observardes a sua natureza, são homens e ocupam o último grau entre os seres inteligentes; se considerardes as qualidades da alma, são pecadores, inimigos de Deus, orgulhosos, ingratos, carnais, fracos no bem, ardorosos no mal; se olhardes para o corpo, são mortais, enfermiços, vis, repugnantes e destinados a servir de alimento aos vermes.
Deus poderia ter-nos deixado no nada… Criando-nos, poderia ter-nos deixado no estado dos minerais, dos vegetais ou dos brutos… E, contudo, não; mas criou-nos racionais, feitos à sua imagem, capazes de conhecê-lo, servi-lo e amá-lo… Criou-nos imortais e destinados à imortalidade bem-aventurada… Ele se compraz e se deleita em conversar entre os homens (Pr 8, 31); 1° porque tem especialíssimo cuidado de todos e de cada um, vendo neles a sua viva imagem e o selo da divindade; para eles criou o mundo e tudo quanto o mundo contém; 2° porque não comunica a sua sabedoria a ninguém senão somente ao homem: instrui-o na verdadeira doutrina, na sã moral, para que possa servir santamente a Deus e viver feliz…; com ele se digna manter um íntimo comércio.
E notai, antes de tudo, que Deus se comunica aos homens não como a servos ou escravos, mas como a filhos chamados seus herdeiros e coerdeiros de Jesus Cristo.
Em segundo lugar, a sua bondade encontrou o meio de descer até o fraco, curar o enfermo, recolher o abandonado, elevar aquele que era pequeno, enriquecer abundantemente o mendigo e socorrer-nos a todos. Deus demonstrou ser a bondade e o amor por essência, escreve São Bernardo, criando os espíritos, para que gozassem d’Ele; dando a vida, para fazê-los sentir e compreender o seu amor; atraindo-nos, para que O desejemos; dilatando o homem, para que albergue Deus; justificando-o, para que mereça a graça e a glória; inflamando-o, para conduzi-lo ao zelo; fecundando-o, para que produza frutos de vida; dirigindo-o para a justiça; formando-o para a beneficência; moderando-o, para que se torne sábio; fortalecendo-o, para que adquira a virtude; vivificando-o, para consolá-lo; iluminando-o, para que veja; conservando-o, para a imortalidade; enchendo-o, para fazê-lo feliz; circundando-o, para que habite em segurança (Serm. in Cantic.).
Em terceiro lugar, Deus se comunica conosco muitíssimas vezes antes que pensemos n’Ele, O desejemos ou O procuremos. Assim faz em todas as graças prevenientes, para nos estimular a solicitar as graças subsequentes, as quais também são sempre, como observa Santo Ambrósio, mais abundantes do que aquilo que pedimos (7). Oh, sim, quantas vezes não vos aconteceu pedir a Deus uma graça especial, e Ele vo-la conceder, mas acompanhada de tantas outras que de modo algum havíeis pedido? O rei Ezequias implora apenas a saúde; Deus concede-lha e acrescenta quinze anos de vida, uma vitória milagrosa e a mortandade de cento e oitenta e cinco mil assírios (Is 38). Salomão pede a sabedoria; obtém-na e, além disso, recebe imensas riquezas e glória resplandecente (1Rs 3). Daniel suplica pela libertação do povo escravizado na Babilônia; Deus o atende e, além disso, faz-lhe a promessa da vinda do Messias, que deve resgatar o mundo inteiro da escravidão do Demônio (Dn 9, 14). Davi pede um filho, e esse filho é o Messias (2Sm 7, 12).
“Deus amou tanto o mundo, diz São João, que deu o seu Filho Unigênito (Jo 3, 16).
A tal ponto, isto é, amou o mundo com um amor tão grande, tão excessivo, que não hesitou em dar-lhe o seu Filho Unigênito. Não é um rei, nem um Anjo, aquele que tanto nos amou primeiro e gratuitamente, sem que nós não apenas tivéssemos merecido, mas sequer desejado tão grande dom. Amou o mundo, seu principal inimigo, o mundo digno da eterna reprovação, e amou-o a ponto de dar-lhe não um estrangeiro, não um filho adotivo qualquer, mas o seu próprio Filho; e Filho não escolhido entre muitos, mas Unigênito. Deu-lho não a preço de ouro ou de prata, mas gratuitamente; não lho deu para que subisse a um trono ou alcançasse triunfos, mas para que fosse condenado à morte e crucificado. Assim fez não para seu próprio proveito ou para vantagem de seu Filho, mas para que a morte desse único Filho nos desse a vida e nos elevasse na mesma medida das humilhações sofridas por Jesus Cristo e do aniquilamento a que se submeteu, a fim de nos cumular de riquezas, de bens imensos e, finalmente, de uma glória eterna.
“Não, acrescenta ainda o evangelista São João, Deus não enviou aqui o seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio do Filho Unigênito de Deus” (Jo 3, 17). Ah! exclama o grande Apóstolo, num ímpeto de amor e reconhecimento: se Deus Pai não poupou o seu próprio Filho e O entregou à morte por nós, que coisa não podemos esperar d’Ele depois de tão grande dom? (Rm 8, 32). Sim, retoma o Apóstolo predileto: “Nisto se manifestou claramente a grande caridade de Deus para conosco: Ele enviou ao mundo o seu Filho Unigênito, para que vivamos por meio d’Ele” (1Jo 4, 9).
Aqui se encontram o comprimento, a largura, a altura e a profundidade do amor divino; aqui devemos exclamar com São Paulo: — Ó mistério impenetrável do mais sublime e do maior amor! Um Deus se faz homem (Jo 1, 14); morre na cruz; e é o seu amor que O impele a encarnar-se e a morrer. Ó amor! … Deus nos amou desde toda a eternidade, mas para isso Lhe bastou um pensamento; amou-nos na criação, mas bastou-Lhe uma palavra; na Redenção, amou-nos até morrer por nós. Calculai a força e a imensidade do seu amor pela sua Encarnação, pela sua vida de sofrimentos e dores, pela sua morte. O Filho de Deus amou-nos com o amor mais terno e mais eficaz, que não se demonstrou em palavras, mas em fatos. Impelido por esse amor, Ele voluntária e livremente não nos deu riquezas terrenas, como a irmãos ou amigos seus, mas deu-se a si mesmo a nós, pecadores e seus inimigos, para pagar as nossas dívidas, expiar os nossos crimes, destruir a morte e dar-nos a vida. “A graça de Nosso Senhor transbordou”, diz São Paulo (1Tm 1, 14). Ah! digamos também nós com Zacarias: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou o seu povo e efetuou a sua libertação. Ergueu o estandarte da salvação, retirou-nos dos nossos inimigos e arrancou-nos das mãos daqueles que nos odiavam. Deus, impelido pela sua misericórdia, desceu do alto e visitou-nos” (Lc 1, 67-78).
Os efeitos do amor divino para conosco, amor perfeito e evidente, são sua Encarnação no seio de uma Virgem, suas pregações, suas viagens, seus trabalhos, suas humilhações, seus milagres, sua paixão, sua morte, seus Sacramentos, a descida do Espírito Santo, o cuidado todo especial que Ele tem da Igreja e de cada fiel.
Sabeis, diz Teodoreto, onde se encontra o mais excelso, o supremo grau da bondade divina, da inefável misericórdia, da imensa clemência, da inenarrável caridade do autor e consumador de todo bem? Encontra-se nisto: que o Criador e Senhor de todas as coisas, o Príncipe soberano, o Deus forte, o Ser imutável, tenha libertado da morte e da escravidão do Demônio aquele átomo, aquele ser sujeito à morte, corruptível, ingrato, inútil, que se chama homem; que lhe tenha dado tal liberdade, pela qual foi absoluta e completamente emancipado, e o tenha adotado como filho; que enfim se tenha tornado amigo dos homens, pão deles, vinho deles, vida deles, porta deles, caminho deles, luz deles, ressurreição deles (In Evang.).
Oh! bem podemos dizer com a Esposa dos Cânticos: “Voz do meu Amado: eis que Ele vem saltitando pelas montanhas, transpondo as colinas. Eis que o meu Amado me fala: Levanta-te, apressa-te, ó minha Amada, minha pomba, minha formosa, e vem: — O meu Amado, que se apascenta entre os lírios, é todo para mim, e eu sou toda para Ele” (Ct 2, 8, 10, 16).
Quanto mais se considera o amor infinito de Jesus Cristo, tanto mais se fica estupefato de assombro. O objeto, o motivo do amor é o bem, e os homens são levados a amar os homens porque são belos, sábios, ricos, delicados, nobres e verdadeiramente bons. Ora, que encontrastes em nós, ó divino Salvador, de bom ou de belo que pudesse conquistar o vosso amor? Nós, pobres, abjetos, mendigos, estultos, miseráveis, corrompidos, repugnantes? Ah! parece que vos ouço responder: amei a tua fealdade, para absorvê-la e transformá-la em beleza; amei inimigos, para deles fazer amigos; estultos, para deles fazer sábios; miseráveis, para enobrecê-los; mendigos, para enriquecê-los; infelizes, para torná-los bem-aventurados e gloriosos. A grandeza do amor de Jesus Cristo, que vence todo amor criado, deduz-se especialmente disto: que não se dirige a um objeto amável, mas o torna amável ao amá-lo. Ele ama para comunicar suas graças aos miseráveis, fazê-los participar de seu amor, torná-los seus amigos e, mais ainda que amigos, filhos e herdeiros.
O Verbo eterno, que é a Sabedoria do Pai, quis fazer-se homem para salvar o homem e ensinar-lhe, por palavras e obras, a verdadeira sabedoria; desejando ardentemente possuir-nos, encarnou-se para repousar em nossas almas, para habitar nelas como em seu templo e tabernáculo; para enxertar nelas e fazê-las germinar suas virtudes, seus méritos, o fruto de seus preciosos trabalhos, a fim de que, imitando-o, mereçamos vê-lo e possuí-lo.
A grandeza do amor de Jesus Cristo transformou em mel todo o fel das misérias humanas, e em delícias todas as dores e cruzes. Ele tomou sobre si todas as nossas misérias, exceto o pecado, para cumular-nos de todos os seus bens. O amor de Jesus Cristo, que encontrou suas delícias em habitar conosco, operou este prodígio de converter em nossa felicidade a fome, a sede, o trabalho, o padecimento, a dor, a morte e todos os sofrimentos. Estudai os Mártires, e tereis as provas disso… Se observardes, diz São Bernardo, reconhecereis como Jesus Cristo, a alegria por essência, se entristece e se perturba; que Ele, nossa salvação, sofre; que Ele, força suprema, é fraco; que Ele, nossa vida, morre. E, coisa não menos prodigiosa, sua tristeza produz a alegria; seu temor, a força; sua paixão, a salvação; sua fraqueza, a coragem; sua morte, a vida. Por isso, Jesus Cristo submeteu-se voluntária e alegremente às nossas desgraças, para que sua felicidade se tornasse nossa delícia (Serm. in Epiph.).
“Jesus Cristo, acrescenta o Crisólogo, veio experimentar nossas enfermidades, para armar-nos de sua força; revestir a humanidade, para comunicar-nos a divindade; receber os ultrajes, para tornar-nos dignos das honras; suportar os incômodos, para merecer-nos a paciência; pois o médico que não se compadece das enfermidades não sabe curá-las, e quem não sabe ser enfermo com o enfermo não pode curá-lo (8).
“Ó doçura, ó graça, ó força do amor de Jesus Cristo! exclama São Bernardo; o maior de todos os seres fez-se o menor, o último de todos. Quem operou maravilhas tais? O amor de Jesus Cristo, amor que não leva em conta a dignidade, cheio de misericórdia, poderoso no afeto, eficaz na persuasão. Haverá porventura algo mais forte que o amor, que triunfa do próprio Deus? O amor triunfa de Deus para triunfar de nós e impelir-nos a retribuir amor com amor, a consagrar-nos inteiramente ao amor de Cristo, assim como Jesus Cristo se entregou todo ao nosso amor (9)”.
Por que razões Jesus Cristo prefere habitar com os homens em vez de com os Anjos? Eis duas: 1° Ele revestiu não a natureza angélica, mas a humana. 2° Como a virtude é coisa mais árdua e penosa para os homens, por causa de sua natureza degradada, Ele os fortalece com suas consolações e graças, sustenta-os para que a prática da virtude lhes seja fácil e agradável. Assim, Ele transformou para São Pedro e Santo André a cruz em delícia; São Lourenço encontrou sua felicidade sobre a grelha ardente; as flechas trouxeram refrigério e doçura a São Sebastião; todos os gêneros de tormentos foram deleitosos para São Vicente, e os estigmas, caros a São Francisco de Assis, etc. Que alegria não terá experimentado Jesus Cristo em seus maiores Santos, por exemplo, em um São Paulo, em um Santo Antônio, em uma Santa Inês, ou Cecília, ou Ágata, ou Catarina de Sena, ou em tantas outras Virgens e Mártires! O amor de Jesus Cristo pelos homens o inebria. E não está acaso embriagado de amor quando desce do Céu ao seio de uma Virgem; quando do seio de Maria passa a repousar numa manjedoura, e desta sobe ao Calvário? Não é acaso um amor levado até à embriaguez aquele que o faz percorrer os burgos e as aldeias, as cidades e as choupanas, para pregar o reino de Deus; sofrer a fome, a sede, o frio, o calor, os insultos, as maldições, as zombarias e as blasfêmias pela salvação dos homens? E na cruz, não é acaso mais o amor que a dor aquilo que o atormenta? Ele consente em ser tido por um infame, deixa-se insultar, despir, cobrir de chagas e de sangue, pendurar no suplício dos ladrões como um malfeitor; enfrenta enfim a morte dos criminosos! O que se pode encontrar de mais forte? O amor triunfa de um Deus.
Deus é nosso pai, a humanidade de Jesus Cristo é nossa mãe; assim como uma mãe traz seu filho no seio, fornece-lhe os elementos da vida, dá-o à luz, alimenta-o, cria-o, deita-o, lava-o, distrai-o, instrui-o, não sem contínuas e graves penas, e forma nele um homem perfeito; assim Jesus Cristo, nossa mãe, entregou-se, ao longo de trinta e três anos, a trabalhos penosos e contínuos; sofreu dores atrozes, principalmente na cruz, e desse modo nos concebeu, gerou-nos para a vida da graça, amamentou-nos, alimentou-nos e nos criou. Eis por que Jesus Cristo, ao fazer-se homem, quis não dever a outro senão a uma mãe o seu corpo: para que tudo nele fosse entranhas maternas. O que se pode encontrar de mais forte? O amor triunfa de um Deus.
“Tendo Jesus Cristo amado os seus, diz São João, amou-os até o fim” (Jo 13, 1); e, de fato, lava-lhes os pés, institui o Sacramento eucarístico, no qual se dá como alimento aos seus discípulos antes de morrer por eles e por todo o universo.
Contemplai principalmente o amor de Jesus Cristo na cruz. A cruz é a cátedra da qual ressoa o ensinamento da bondade e do amor de Jesus Cristo. Ah! Vós me amastes, e infinitamente me amastes, ó meu Salvador; ainda que eu vos desse mil anos e mil vidas, que seria isso em comparação com a vossa vida, que é a vida de um Deus? “Aprendei de Jesus a amar Jesus”, exclama São Bernardino de Sena (10); “e pensa, acrescenta o Crisóstomo, que Ele te deu tudo, nada reservando para si (11)”; e São Bernardo diz: “Entrega-te todo a Ele, pois Ele, para salvar-te, deu todo a si mesmo” (12). “Não retenhais um fio sequer para vós”, sugere São Francisco de Assis, “para que Jesus Cristo, que nada reservou para si, vos receba inteiros” (São Boaventura, In Vita). Por isso Santo Agostinho exclamava: “Fazei, ó Senhor, que eu morra para mim mesmo, a fim de que somente Vós vivais em mim (13)”.
Houve acaso um tempo em que este Deus tivesse deixado de nos amar? Não, jamais. “Pobres órfãos, disse Ele, tende a certeza de que jamais vos abandonarei, mas virei a vós” (Jo 14,18). Não o abandonemos, pois, jamais, nós também, e digamos com o Apóstolo: “Quem ou o que terá força para me arrancar do amor de Jesus Cristo? Porventura as aflições, as angústias, a fome, a nudez, os perigos, as perseguições, a espada? Ah, não! Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a violência, nem aquilo que há de mais alto ou de mais profundo, nem criatura alguma poderá jamais separar-me e fazer-me renunciar ao amor de Deus em Jesus Cristo, meu Senhor” (Rm 8,35-39).
“Somente o amor, escreve Santo Agostinho, faz distinguir os filhos de Deus dos filhos do Demônio; este é o único sinal pelo qual podem ser reconhecidos. Aqueles em quem há caridade nasceram de Deus; não vem d’Ele quem não o ama (14). A caridade é a mais verdadeira, a mais plena e absoluta justiça (15).”
O mesmo Santo Agostinho chama o amor de Deus de “a cidadela de todas as virtudes (16)”, e, com ele, os demais Santos Padres disputam em exaltar a excelência da caridade. São Basílio chama-a de “raiz de todos os mandamentos (17)”. São Gregório Nazianzeno denomina-a “ponto capital da doutrina cristã” (Epi. XX), e Tertuliano, “o supremo segredo da fé, o tesouro do nome cristão” (De patient.). São Jerônimo chama-a de “mãe”; Santo Efrém, de “coluna de todas as virtudes (18)”. Para São Próspero, a caridade é a mais poderosa de todas as inspirações, é invencível em todas as coisas, é a regra suprema das boas ações, a salvaguarda dos costumes, o fim dos preceitos divinos, a morte dos vícios, a vida das virtudes (De vit. Contemp. lib. 3, c. 13). São Gregório proclama-a “mãe ou guardiã de todos os bens (19)”; São Bernardo exalta-a como “a mãe dos Anjos e dos homens, a pacificadora do Céu e da terra (20)”.
Ouvi ainda o Crisóstomo, que vos prega: quem arde de amor por Jesus Cristo vive como se estivesse sozinho sobre a terra. Não se inquieta nem com a glória, nem com a ignomínia. Despreza as tentações, os flagelos, as prisões, como se sofresse em um corpo que não fosse o seu, mas de outro, ou em uma carne de diamante. Ri-se dos prazeres do século e não sente por eles maior atração do que sentiria um morto. Assim como as moscas fogem do fogo, também as sensações da carne e da concupiscência se afastam daquele que tem a caridade (hom. LII in Act. Apost.).
No amor de Deus estão todos os tesouros; fora desse amor nada existe. Dele depende e nele consiste a felicidade do homem neste mundo; ele é o único caminho que conduz ao Céu; ele faz e fará eternamente a suprema bem-aventurança dos eleitos.
“Se tendes a caridade, diz Santo Agostinho, possuís a Deus, e, quando se possui a Deus, têm-se todas as riquezas (21).” E em outro lugar acrescenta que “o amor de Deus é o cúmulo da felicidade, o sumo grau da glória e da alegria, que iguala todos os bens” (De Civ. Dei). Desejais, diz Santo Anselmo, ser reis no Céu? Amai a Deus, e sereis tudo aquilo que desejais (Epist.).
A caridade é a maior entre as virtudes; e assim como o ouro supera os demais metais, o sol vence as estrelas e os Serafins excedem os Anjos, assim a caridade é superior às outras virtudes. Não há virtude onde não há caridade; todas se encontram onde ela está; a caridade é uma rainha à qual todas as outras virtudes formam cortejo. Ela é o ouro precioso e purificado com o qual se compra o Céu; é um fogo celeste que inflama os corações; é um sol que ilumina, fecunda e vivifica todas as coisas. É uma virtude angélica que transforma os homens em Serafins.
Quereis mais? Ouvi. 1° A caridade é a guia, a diretora, a rainha das virtudes. 2° É a sua nutriz, que as mantém, fortalece e conserva, como escreve São Lourenço Justiniano (Lib. arb. vitae). 3° A caridade faz de cada um de nós outros tantos amigos e filhos de Deus, seus herdeiros, coerdeiros de Jesus Cristo, templos do Espírito Santo. 4° É o distintivo entre os eleitos e os réprobos. 5° É a alma das virtudes, que dela recebem o seu mérito; por isso Santo Agostinho sustenta que somente a caridade conduz a Deus (In Psalm.). 6° É o vínculo que intimamente nos une a Jesus Cristo. “A nossa conformidade com o Verbo por meio da caridade, diz São Bernardo, une a Ele a nossa alma como esposa ao esposo (22).” 7° É um fogo inextinguível que amolece o rochedo e derrete os corações mais duros, porque o amor tudo supera, triunfando até mesmo de Deus. A caridade ordena ao ódio, à cólera, ao temor, à cobiça, ao fascínio dos sentidos etc., e tudo dirige para Deus. 8° Assim como a águia fixa a pupila no sol, assim, afirma Santo Agostinho, aquele que tem a caridade contempla a Deus e, sustentado sobre duas asas de fogo, que são o amor de Deus e do próximo, voa em direção ao Senhor (De Morib. Manich.).
Observai, por favor, o que a caridade opera em São Paulo: é São João Crisóstomo quem no-lo diz. Assim como o ferro posto no fogo se torna também ele fogo, assim Paulo, inflamado de amor, torna-se todo amor. Ora por meio de cartas, ora de viva voz, às vezes com orações, outras vezes com ameaças, aqui pessoalmente, ali por meio dos discípulos, empregava todos os meios para exortar os fiéis, manter firmes os fortes, reerguer os fracos e os que haviam caído no pecado, curar os feridos, reanimar os tíbios, repelir os inimigos da fé: excelente capitão, soldado intrépido, médico habilidoso, bastava para tudo. Oh! Se os nossos corações amassem a Deus como Paulo o amava, veríamos maravilhas jamais ouvidas (Serm. in Laud. Paul.).
“O amor e o temor de Deus conduzem a todas as boas obras, deixou dito Santo Agostinho, assim como o amor e o temor do mundo levam a todos os pecados (23).”
A caridade é coisa tão preciosa que supera o preço de qualquer outra; para obtê-la, devemos empregar nela todas as nossas forças, os nossos suores, a própria vida…
Uma obra excelentíssima realizada sem amor de Deus tem pouco ou nenhum valor; e outra, ainda que muito comum, como, por exemplo, um copo de água dado a um pobre, se realizada por espírito de caridade, tem grandíssimo valor aos olhos de Deus. Deus pesa os espíritos, dizem os Provérbios (Pr 16,2). Ora, o peso da alma e do coração é o amor de Deus. Quanto mais, portanto, a alma ama a Deus, tanto maior peso ela tem nas balanças de Deus; o amor lhe dá peso e valor. De que não é capaz o amor de Deus? O que não merece a caridade, fonte e princípio de todo mérito? Como poderia o Senhor abandonar aquele que o ama? Como poderia Ele mesmo não amá-lo? …
A alma fiel e santa encontra-se, em relação ao amor divino, na mesma condição em que se encontra um soldado valoroso em meio a uma batalha, ou um erudito em meio a uma biblioteca, ou um médico em meio a uma farmácia muito bem abastecida, ou um jurista armado da lei, ou um trabalhador munido de todos os instrumentos para o cultivo dos campos, ou um ourives dono de imensa quantidade de ouro. O amor divino é para essa alma a sua espada, o seu livro, o seu remédio, o seu código, o seu campo, a sua riqueza, a sua arte, o seu trabalho. Por meio do amor, mergulhamos em Deus, oceano sem margens, e nele nos encontramos à vontade, como o peixe na água e o pássaro no ar. Ah! Recebamos Deus com um coração inflamado de amor: que Deus o penetre, como os raios do sol penetram o ar; que nele se reflita, como num espelho limpíssimo se reflete o rosto do homem.
“Deus não olha o preço da oferta, diz Salviano (lib. 2, ad Cler.), mas a disposição da alma, isto é, o amor com que ela é oferecida”. “O verdadeiro amor, acrescenta São Bernardo, não busca a recompensa, mas a merece; e essa recompensa é o próprio Deus a quem se ama (24)”. “Senhor, concedei-me que vos ame, dizia Santo Inácio de Loyola, e eu serei rico sem medida” (In Vita).
São Paulo escreve aos Efésios: “Sede imitadores de Deus, como filhos caríssimos” (Ef. 5, 1). Mas como pode, ó grande Apóstolo, uma miserável criatura, como é o homem, imitar a Deus? Como isso é possível? Eis o meio: “Caminhai no amor de Deus” (Ib. 2). Deus é todo amor; portanto, aquele que ama de todo o coração imita a Deus. Deus é todo amor para conosco: sejamos todo amor para com Ele, e seremos seus imitadores.
Por meio do amor, unimo-nos a Deus tão intimamente que, de certo modo, formamos uma só coisa com Ele: o amor nos diviniza. Assim como o ferro na fornalha se transforma em fogo, conservando, contudo, a sua natureza, assim aquele que ama a Deus se transforma em Deus. Por meio do amor divino realiza-se em nós a palavra de Jesus Cristo ao Pai: “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me confiaste; para que sejam uma só coisa, como nós… Eu estou neles, e tu em mim, para que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 11, 23). O fim do amor, comenta São Bernardo, é, portanto, a consumação, a perfeição, a paz, a alegria no Espírito Santo, o silêncio no Céu (Serm. in Verb. Ev.).
O amor transforma aquele que ama naquele que é amado: a alma habita mais naquele a quem ama do que no corpo ao qual dá vida. Deus, por meio da graça, comunica-se e entrega-se ao homem justo e, por essa comunicação, eleva-o até si, une-o a si e o diviniza. Sim, nós, por meio do amor, como diz São Pedro, nos tornamos “participantes da natureza divina” (2Pd 1, 14). O amor divino transforma aquele a quem preenche; faz com que ele adira tão intimamente a Deus, que forma, por assim dizer, uma só coisa com Ele, para que viva, sinta e goze da vida, dos sentimentos e da alegria de Deus. Era precisamente isso que São Paulo experimentava em si mesmo quando dizia: Eu vivo, mas já não sou eu; é Jesus Cristo que vive em mim (Gl. 2, 20). Quem ama a Deus separa-se inteiramente de si mesmo; passa para Deus, une-se a Deus e não pensa, não compreende, não sente outra coisa senão Deus, vivendo somente de Deus, porque o bem é comunicativo por sua natureza e tende a difundir-se; ora, como Deus é o bem supremo e por essência, não pode deixar de comunicar-se e difundir-se no mais alto grau. A Esposa dos Cânticos saboreava as doçuras de tal união quando exclamava: “Ah! o meu Amado é todo para mim, e eu sou toda para Ele” (Ct. 2, 16). Eu, que sou o puro e perfeito amor, disse um dia Deus a Santa Gertrudes, escolhi-te para mim e, assim como o homem deseja viver e respirar, desejo que te unas a mim por um vínculo indissolúvel; acolhi-te no seio da minha bondade paterna, para que de mim obtenhas tudo quanto possas desejar.
A minha vida, a causa da minha vida, é Jesus Cristo, exclama São Paulo (Fl 1, 21); e isso por três motivos: 1° Jesus Cristo é a causa eficiente da minha vida espiritual e a conserva em mim; 2° é o princípio da minha vida por meio de seus exemplos; 3° é o seu fim último. “Eu sou, disse Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14, 6); e, por conseguinte, quem ama Jesus Cristo possui o caminho, a verdade e a vida, isto é, como explica Teofilacto, Jesus Cristo é o seu espírito, a sua luz, a sua vida, tanto natural como sobrenatural e bem-aventurada.
“Cada um de nós, escreve Santo Agostinho, é aquilo que é o seu amor; amas a terra? serás terra; amas a Deus? serás Deus (25)”: por isso São Paulo escrevia aos Gálatas: “Estou crucificado com Jesus Cristo” (Gl. 2, 19).
É sentença de Santo Agostinho que a cidade de Deus se funda, se eleva e se completa por meio do amor de Deus, e se mantém pelo ódio de si mesmo; ao passo que a cidade do Diabo começa com o amor de si mesmo e cresce até o ódio de Deus. Amar a si mesmo é odiar a nós mesmos. Não sei compreender como alguém possa amar a si mesmo em vez de a Deus; porque aquele que não pode viver por sua própria força certamente morre se amar a si mesmo; ao contrário, quando se ama aquele que somente dá a vida e se tem a si mesmo em ódio, então é que verdadeiramente se ama a si mesmo. Deve-se amar a Deus para que, com o auxílio do seu amor, possamos esquecer-nos de nós mesmos. Amar a Deus é amar a si mesmo; e quem prefere a si mesmo a Deus não ama nem a Deus nem a si mesmo. Além disso, não se ama a Deus senão por Deus e com Deus (26).
“Há tantas almas e tantos corações quantos são os homens, diz Santo Agostinho; mas, quando se unem a Deus pelo amor, entre todos já não têm senão um só coração e uma só alma (27)”. E esse é o sublime exemplo que nos deixaram os primeiros cristãos.
Já que não podemos fazer nada para tornar Deus feliz, empenhemo-nos ao menos, por meio da caridade, pelo bem do próximo, que é imagem de Deus: semeemos entre os nossos irmãos a sabedoria, a graça, o bom exemplo e todos os dons que recebemos de Deus. A esmola espiritual supera em valor a corporal, e quanto mais generosos formos para com o próximo, tanto mais generosamente receberemos de Deus.
Quanto mais uma fonte emite água, tanto mais recebe; mas, se a nascente não pudesse jorrar para fora ou, depois de cheio o reservatório, já não tivesse saída, então, em breve, a água se dispersaria por outros canais, e a fonte secaria. Assim acontece com os pregadores e com aqueles que, de algum modo, fazem a esmola espiritual etc.; quanto mais ajudam o próximo, tanto mais Deus os ajuda e os cumula de graças.
São Paulo, que foi mártir da caridade antes de ser mártir da espada, escrevia aos coríntios: “Morro todos os dias pela vossa glória, ó irmãos, que é minha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (1 Cor. 15, 31).
“Quem é infiel a Deus, diz Santo Agostinho, não pode ser fiel ao homem; e a piedade é a salvaguarda da amizade (28)”. O amor de Deus e o amor do próximo não devem ser separados; não constituem senão um único mandamento…
Uma viva pintura da força invencível do amor divino foi-nos deixada pelo grande Apóstolo naquelas palavras aos Romanos — Quem nos separará do amor de Jesus Cristo? Talvez a tribulação, ou a angústia, ou a fome, ou a nudez, ou os perigos, ou as perseguições, ou a espada? Ah, não! Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a violência, nem criatura alguma, ainda que dos Céus ou do Inferno, jamais poderá separar-nos do amor de Deus em Jesus Cristo (Rm 8, 35-39).
Instruída pelo Apóstolo, a virgem e mártir Santa Ágata também se exprimia nestes termos: Estou tão firme e inabalável no amor de meu Senhor Jesus, estou tão firmemente resoluta a manter fielmente o voto de virgindade que Lhe fiz, que espero, mediante a sua graça, ver faltar a luz ao sol, o calor ao fogo, a brancura à neve, antes que vacilar na minha vontade e nos meus propósitos (SURIO, In Vita).
“Nada há de tão duro, acrescenta Santo Agostinho, que não ceda ao fogo do amor divino (29)”.
Está escrito no Cântico dos Cânticos que “o amor é forte como a morte; que as muitas águas não puderam extinguir a caridade, nem os rios a submergirão” (Ct 8, 6-7). Sim, o amor é forte como a morte; 1° porque, assim como a morte subjuga tudo, é senhora de tudo, e nenhum vivente pode evitar o seu golpe, assim o amor de Jesus Cristo triunfou dos açoites, dos cravos, dos espinhos, das dores, da cruz, dos insultos, da fome, da sede, da nudez, em uma palavra, de todas as adversidades e de todos os obstáculos. Quem ama Jesus Cristo está pronto a sofrer por Ele todas as coisas. 2° O amor de Jesus Cristo é forte como a morte: pois esse amor a venceu, subjugou-a, matou-a, como diz o profeta Oseias: “Ó morte, eu serei a tua morte” (Os 13, 14). 3° O amor é forte como a morte: pois o amor experimenta e sente em si todos os males do objeto amado. Se este morre, o amante também morre de angústia.
O amor é forte como a morte. É impossível, observa Santo Agostinho, exprimir de modo mais belo, mais esplêndido, mais rico e mais vigoroso a potência do amor divino: com efeito, o que resiste à morte? Resiste-se ao fogo, à água, ao ferro, ao poder, aos reis; mas vem a morte, e não importa sob que aparência, e onde está quem possa enfrentá-la? Ela é senhora de tudo. Eis por que a potência do amor é comparada à da morte: com efeito, o amor de Deus mata e destrói em nós aquilo que somos, para transformar-nos naquilo que não somos. É uma morte, isto é, a morte do pecado, mas é, ao mesmo tempo, a ressurreição e a vida (30).
“Assim como a morte mata, escreve São Gregório, assim o amor da vida eterna nos faz morrer para as coisas deste mundo (31). O amor de Deus produz nas paixões da alma o mesmo efeito que a morte no corpo; leva-nos, vale dizer, a calcar aos pés todo afeto terreno; e a defuntos desse gênero dizia o Apóstolo: “Vós estais mortos, e a vossa vida está escondida com Jesus Cristo em Deus” (Cl 3, 3).
A caridade é forte como a morte, acrescenta Santo Ambrósio, porque a caridade mata e faz desaparecer todos os pecados. Morre-se para os vícios quando se ama o Senhor (In Psalm. CXVIII, Serm. XV).
E, visto que a morte nunca se cansa nem jamais repousa enquanto houver vida humana a ceifar, assim também o nosso amor dure até que tenha extirpado em nós todas as paixões e todos os vícios.
O amor é forte como a morte. Faz-nos morrer para o mundo, para o demônio, para nós mesmos, a fim de vivermos somente de Jesus Cristo; faz-nos desejar a morte e sacrificar a vida, pois quem ama verdadeiramente não poupa nem riquezas, nem filhos, nem a si mesmo.
O amor divino faz a alma viver no tempo e na eternidade; o amor do mundo mata a alma no tempo e na eternidade.
A alma é tão maravilhosamente elevada pelo amor celeste, diz o Crisóstomo, que considera sua suprema glória arrastar as cadeias de Jesus Cristo e ser perseguida por Ele. Ela se despoja de todo afeto terreno, assim como o ouro, no crisol, se purifica de toda escória. Onde o amor de Deus é grande, veem-se prodígios de coragem.
Infelizmente, essas verdades não nos impressionam, não nos dão gosto, porque somos tíbios e frios (32).
Santo Agostinho, falando da castidade de José, exprime este belo pensamento: Quem ama a Deus não pode ser vencido pelo amor de uma mulher: os encantos da juventude não atraem de modo algum uma alma casta, a qual nem sequer se rende à influência de um amor apaixonado. José é grande, porque, sendo escravo, recusa-se a obedecer; amado, recusa-se a amar; suplicado, não se dobra; agarrado, foge (De Civ. Dei, CXXIII).
O amor de Deus me abrasa, me devora, exclama São Francisco de Assis: respondi ao amor com o amor; o amor divino triunfa em meu coração sobre o amor que o homem naturalmente sente por si mesmo. Nem as tempestades, nem as chamas, nem a espada jamais mo arrebatarão (33). Ó Senhor! Que eu morra de amor por Vós, já que Vós morrestes de amor por mim!
“Buscai o Senhor por meio da caridade, e sereis fortalecidos”, diz o Salmista (Sl 104, 4).
Assim como vedes as moscas afastarem-se da água fervente e pousarem sobre a água morna, onde depositam sementes de pequenos vermes, assim os demônios fogem de uma alma abrasada pelo amor divino, e estreitam-se em torno das tíbias, atormentam-nas e transformam-nas em cloacas de corrupção.
O Demônio sofre mais dentro de si ao ver o amor divino num coração do que ao padecer o fogo do Inferno. Esse amor é, nas mãos do cristão, uma arma com a qual ele se defende das astúcias da antiga serpente e lhe decepa a cabeça. Com esse amor triunfa-se do Inferno e de todas as paixões.
Certamente inspirado por aquelas palavras de Jesus Cristo à Madalena: “Muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou” (Lc 7, 17), Santo Agostinho proferiu esta sentença: “o amor de Deus é a morte dos vícios e a vida das virtudes (34)”. Toda a ferrugem do pecado é devorada e removida pelo fogo do amor divino; e quanto mais ele se abrasa num coração, tanto mais o pecado nele é aniquilado.
“O vosso Deus é um fogo que consome”, está dito no Deuteronômio (IV, 24): “Deus é chamado fogo que consome, comenta aqui São Gregório, porque torna limpa e pura de todo pecado a alma que Ele enche de seu amor (35)”.
“Nenhuma sombra de maldade permanece num coração que arde no fogo da caridade”, diz São Cesário de Arles (36).
O amor de Deus torna a pessoa como que impecável; e, neste sentido, Santo Agostinho sentenciava: “Ama, e depois faze o que te agrada (37)”. Com efeito, aquele que ama a Deus jamais consentirá em ofendê-Lo, ultrajá-Lo, violar a sua lei etc.…
Tudo me parece lama, escrevia o grande Apóstolo aos Filipenses, se o comparo com a ciência de meu Senhor Jesus Cristo, por cujo amor estou decidido a desprezar tudo, contanto que chegue a possuí-Lo (Fl 3, 8). “A própria saúde do corpo tem pouco valor, acrescenta São Gregório, para aquela alma que é traspassada pelas flechas do amor divino (38)”.
Pode amar o mundo corrompido aquele que ama o Deus incorruptível? Ah! exclama ele, antes com São Francisco: “Como a terra me parece feia, quando volto o olhar para o Céu (39)”.
“É impossível, diz São Boaventura, que a acídia e o langor se apossem de uma alma que, impelida pelo desejo de amar a Deus, é levada a avançar dia após dia pelo caminho da perfeição (40).” O coração daquele que possui a caridade é como um pedaço de cera que, ao derreter-se, toma a impressão de Deus; ao passo que o coração daquele que dela está privado é como o barro que endurece ao sol. E, contudo, é o mesmo calor do sol que atua sobre a cera e sobre o barro!
São Paulo desejava aos efésios que Jesus Cristo habitasse neles, para que, estando bem enraizados e fundados no amor, fossem capazes de compreender, com todos os Santos, qual seja a amplitude e a largura, a altura e a profundidade do edifício de Deus, amor que excede todo entendimento, a fim de que fossem repletos segundo toda a plenitude de Deus (41).
Ninguém está tão perto de Deus quanto aquele que O ama; e quanto mais se ama a Deus, tanto mais perto dEle se está: ora, Deus é a luz das luzes, a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo (Jo 1, 9). Ah, sim! Ó meu Deus, “os que Vos amam resplandecem como o sol ao nascer” (Jz 5, 31).
“Sabemos, diz o Apóstolo, que, para aqueles que amam a Deus, todas as coisas concorrem para o bem” (Rm 8, 28). O amor divino torna tudo fácil…, dá valor a toda coisa, por mínima que seja, aos sofrimentos, à pobreza etc.
“Alegrai-vos com Jerusalém, exclama o profeta Isaías, exultai de alegria com ela, vós todos que a amais. Sereis repletos de suas consolações, inundados pela torrente de suas delícias; sobre vós se refletirá o esplendor de sua glória. É palavra do Senhor que a paz descerá sobre vós como as ondas de um rio, e a glória das nações como as águas de uma torrente. Sereis levados nos braços e mantidos sobre os joelhos como criancinhas. Eu vos consolarei como uma mãe que acaricia o filho” (Is 66, 11-13).
Jesus Cristo, prodigalizando às almas fiéis o delicioso vinho de seu amor, embriaga-as de amor, pois, como diz São Dionísio, o amor perfeito produz o êxtase e uma santa loucura (De celest. Hierar.).
Nada há de mais belo, de tão doce, de tão atraente quanto Deus. “Eu os atrairei, diz o Senhor, com laços que seduzem os homens, com vínculos de amor” (Os 11, 4). Eu os acorrentarei por meio do amor que lhes demonstrarei, de graças insignes, da doçura e da graça. E foi precisamente isso que Santo Agostinho experimentou depois de sua conversão. “Oh, como me foi doce, naquele instante, ver-me privado das alegrias falazes, dos vãos deleites!, dizia ele; e aquilo que, a princípio, eu temia perder enchia-me de alegria depois de havê-lo perdido. Sois Vós, ó meu Deus, Vós a verdadeira e suprema suavidade, que afastastes de meus lábios o cálice daquelas doçuras envenenadoras e Vos colocastes em seu lugar, Vós, mais doce que todos os prazeres do mundo (Confess.).” Quem não percebe, por estas palavras, que o amor divino é um vigoroso dardo com que Deus traspassa o coração?
Ah! Convence-vos disso ainda São Paulo, que exclama inflamado de amor: “Possuo tudo, encontro-me nadando na abundância; nada me falta” (Fl 4, 18).
Ouvi Orígenes, que comenta admiravelmente aquelas palavras do Cântico dos Cânticos: “Estou ferida de amor.” — “Quão bela e honrosa coisa é receber a ferida do amor divino! Uns oferecem o peito aos dardos do amor carnal, outros aos da avareza; mas vós oferecei-vos aos deliciosos dardos do amor divino, pois Deus é um arqueiro, e feliz aquele que é por Ele ferido (42).” Disso deram prova Santo Efrém, quando dizia: “Detende, ó Senhor, a torrente de vossas doçuras, porque não posso suportá-la (43)”; e São Francisco Xavier, cujo clamor era este: “Basta, ó Senhor, basta (44)”; e o Apóstolo Paulo, que dizia em meio às suas tribulações: “Transbordante é a alegria que me inunda o peito” (2Cor 7, 4).
Todo bem, todo dever do homem, toda a sua felicidade, seu fim e sua perfeição consistem no amor de Deus. O amor transforma o homem em Deus. “É bem justo, ó Senhor, exclama Santo Agostinho, que aquele que busca sua felicidade em outra parte, fora de Vós, Vos perca. Ah! fazei que tudo o que há aqui embaixo me seja amargo, para que somente Vós sejais doce à minha alma, Vós que sois a doçura inefável e que tornais suave toda aspereza (45).”
“Bem-aventurados os que Vos amam, ó Senhor”, dizia já Tobias (Tb 13, 18). Nada se encontra nas coisas humanas, segundo São Bernardo, que possa satisfazer uma criatura feita à imagem de Deus, senão o Deus caridade, que somente é maior do que ela (46).
Se amo algum objeto porque é bom, diz Santo Anselmo, devo, com muito maior razão, amar aquilo que é infinitamente bom. Por que, então, vais tu, ó homem, por aqui e por ali, buscando bens para a tua alma e para o teu corpo? Ama o único bem que é todo o bem, e isso basta (47). Somente em Deus está o mar de todo bem; fora dEle não correm senão riachos (48). O ápice e a perfeição da sabedoria, da felicidade, da virtude, do homem e do anjo estão em Deus; consistem em dirigir para Ele todo o nosso pensamento, toda a nossa intenção, toda a nossa obra; consistem em amá-Lo em todas as criaturas e amar as criaturas nEle (49). A alma atingida pelos raios de seu Criador e inflamada por seu amor, a alma que se une a Deus em dulcíssimos abraços, orienta tudo para Ele, tudo vê nEle e somente Ele vê em cada coisa; com Ele e depois dEle suspira e respira, dizendo: Todos os meus alentos e suspiros são por Vós e em Vós, ó meu Deus (50). Eis por que, em qualquer lugar em que esteja, qualquer coisa que faça, sempre contempla Aquele que ama e age por Aquele que a ama; vive, repousa e morre nEle pelo amor e pela contemplação.
Esta paz, este repouso, esta alegria, esta felicidade experimentava Jeremias quando dizia: “Acendeu-se em minhas entranhas, como um fogo ardente encerrado em meus ossos, e eu desfaleci, não podendo suportá-lo” (Jr 20, 9).
Deus pôs no coração do homem um desejo do infinito, que coisa alguma limitada pode saciar. “Para Vós nos fizestes, ó Senhor — exclama Santo Agostinho —, e inquieto estará o nosso coração até que descanse em Vós (51).” Desejais riquezas? Deus possui todas. Buscais uma fonte de água viva? E que água é mais pura que a água de sua graça? Embora seja verdade que Deus prova aqui embaixo os eleitos com a aridez, porque a felicidade constante está reservada no Céu. A Esposa dos Cânticos queixava-se disso com estas palavras: “Eu me levantei para abrir ao meu Amado; abri-Lhe, mas Ele havia se retirado e se afastado. Procurei-O e não O encontrei; chamei-O, e Ele não me respondeu (52).” Deus nos põe à prova; submetamo-nos: as provações são um penhor de amor e nós, esforçando-nos por obedecer à sua santa vontade, sempre O amaremos. Nada é tão doce e casto e, ao mesmo tempo, tão ardente quanto o amor de Deus: ele consome as entranhas e o coração; embriaga a alma até o esquecimento de si mesma.
Desta doçura, desta felicidade de amar a Deus, nasce naturalmente a facilidade de amá-Lo. “Todo mandamento de Deus parece leve a quem ama, e onde há amor, ali não há fadiga”, diz Santo Agostinho (53); “antes, é suavidade e doçura”, acrescenta São Bernardo (54); de modo que “o amante — retoma Santo Agostinho — nada encontra de difícil, nada de impossível (55)”. A alma amante eleva-se, de quando em quando, à Jerusalém celeste e percorre seus arredores: visita os Patriarcas e os Profetas; saúda os Apóstolos; admira o exército dos Mártires e dos Confessores; contempla os coros das Virgens e de todos os Santos.
Ó homens! — exclama Santo Agostinho —, que vos consumis servindo à avareza, o vosso amor vos crucifica, enquanto Deus é amado sem fadiga. A cobiça vos impõe trabalhos, perigos, vexações, privações, e vós lhe obedeceis: e para qual fim? Para encher os vossos cofres e perder a paz. Mais seguros e tranquilos éreis quando ainda nada possuíeis do que agora, que acumulastes riquezas sem fim. Tendes celeiros que transbordam, mas o coração agitado pelo temor dos ladrões; acumulastes ouro, mas perdestes o sono. Deus é adquirido e possuído sem fadiga, quando se ama (56).
Atraí-me, dizia a Esposa dos Cânticos, e correremos após Vós ao perfume de vossos aromas (Ct. 1, 4). Sim, amai — acrescenta o Padre citado —, e sereis atraídos. Não penseis que a violência feita por Deus à alma seja grave e penosa; ao contrário, ela é doce e suave; ou melhor, é a própria suavidade que vos acorrenta. Porventura não é atraída a ovelha faminta quando lhe mostram erva? Ela não é forçada, mas despertam-se seus desejos. E vós também vinde a Jesus Cristo: não vos assuste a extensão do caminho, porque a Cristo se vai amando, não navegando (57).
O amor é, segundo o mesmo Doutor, uma alavanca tão poderosa que eleva os mais pesados fardos, porque o amor é o contrapeso de todos os pesos. “Meu amor é meu peso; por ele sou levado aonde quer que me dirija (58).”
A alavanca da alma é a força do amor, que a eleva acima do mundo e a faz tocar o Céu, escreve São Gregório (Homil. In Ev.); e lhe faz eco São Bernardo, que diz: “Minha fadiga dura apenas uma hora; ainda que durasse mais tempo, eu não o perceberia, porque amo (59).” Jesus Cristo venceu, pela força de seu amor, todo o peso de sua Paixão e de sua cruz. O amor torna fácil e leve tudo quanto há de mais extenuante e penoso.
Se Deus habita numa alma fiel por meio de seu amor, produz nela os seguintes efeitos admiráveis: 1° purifica-a das cobiças terrenas, para que não deseje nem saboreie senão as coisas celestes. 2° Este amor dirige a Deus todos os sentimentos, as faculdades, os atos e as afeições da alma, para que ela não pense senão em Deus, não veja nem procure outra coisa senão Deus. E o que iria procurar fora, se Deus está nela? Ela se imerge e se aprofunda n’Ele, fonte de todo bem. 3° O amor impele a alma a desejar fazer coisas heroicas por Deus, sofrer por Ele e reproduzir em si Jesus crucificado. 4° Faz com que cresça cada dia na graça. 5° Leva-a a comunicar a quantos puder e, se fosse possível, ao mundo inteiro, o fogo de que está abrasada. Pois o amor, diz São Bernardo, não é outra coisa senão uma vigorosa vontade para o bem (60); e, por isso, quem não tem zelo não possui absolutamente amor, conclui o Padre citado (61). 6° A alma, por meio do amor, manda no próprio Deus; obtém tudo quanto pede e adquire uma espécie de onipotência. 7° Deus a une a Si, a assimila a Si, faz que participe de suas virtudes divinas, comunica-lhe seus segredos, revela-lhe o estado dos corações, dá-lhe conhecimento do que acontece em outros lugares e até do futuro, como aos Profetas e aos Apóstolos. 8° Concede-lhe tranquilidade e serenidade, ilumina-a, para que, intrépida, contente e alegre nas adversidades e nas prosperidades, sempre se regozije no Senhor, O louve e Lhe dê graças, cantando com o Salmista: “Bendirei o Senhor em todo instante; seus louvores estarão continuamente em meus lábios” (Sl 33, 1); e com Jó: “O Senhor mo havia dado, o Senhor mo tirou; aconteceu como Lhe agradou; bendito seja o seu santo Nome” (Jó 1, 21). Finalmente, o amante de Deus sucumbe, como a bem-aventurada Virgem Maria, vencido pelo peso do amor de Deus.
A arte de amar a Deus é a arte das artes, diz São Bernardo (62); ela faz tender ao amor todos os pensamentos do espírito e dirige ao desejo da eternidade todos os movimentos do coração. O homem que ama a Deus compraz-se em seu amor, nele repousa e dele se deleita; em breve, não podendo mais conter os sentimentos pelos quais é arrebatado, eleva-se acima de si mesmo, alcança o êxtase intelectual e penetra no pensamento de Deus, para aprender a não se preocupar mais com outra coisa senão com Ele, a não repousar em outro lugar senão n’Ele. O amor de Jesus arrebata-lhe todas as afeições; negligenciando e esquecendo a si mesmo, já não sente outra coisa senão Jesus e o que diz respeito a Jesus. Neste ponto, seu amor é perfeito; e, em tal estado, a pobreza não é para ele senão um incômodo; não sente as injúrias, ri-se dos ultrajes, não dá atenção às perdas, considera a morte como um ganho; antes, não crê que morra, porque sabe que passará da morte à vida eterna (São Bernardo, De natura divini amoris, c. II).
Quem consagra o amor às coisas terrenas, vis e vergonhosas, torna-se semelhante a elas; a alma, ao contrário, que ama a Deus e somente a Ele se apega, torna-se semelhante aos espíritos, aos Anjos e ao próprio Deus. Então, diz Santo Ambrósio, o Verbo divino a circunda, ilumina, inflama e abençoa; ela já não forma senão uma só coisa com Ele (Serm. II).
O amor divino aquece, inflama, funde o coração e o transforma inteiramente: basta lançar um olhar a São Paulo… O amor divino dá refrigério, luz e consolação à alma, e faz que ela deseje a posse de Deus; traz alívio e paz; torna-a paciente nas tribulações, remove o temor, inspira confiança e assegura a salvação. Eis o Paraíso, no qual nos é dado entrar sem sairmos da terra. “Quem sobe a Deus por meio do amor vai como que levado por asas agilíssimas”, diz Santo Agostinho (63).
“Se verdadeiramente Me amais, dai prova disso observando os meus mandamentos”, diz Jesus Cristo (Jo 14, 15); pois “a prova do amor, diz São Gregório, está na demonstração das obras (64)”.
«Quem me ama», repete ainda Jesus Cristo, «observará a minha palavra, e meu Pai o amará; e nós viremos a ele e nele faremos morada» (Ib. 14, 23). Santo Agostinho comenta assim estas palavras: «O Pai e o Filho, vindo habitar numa alma, dão-lhe o seu amor e, por fim, dar-lhe-ão o Céu. Eles vêm a nós quando nós vamos a eles: vêm socorrendo-nos, iluminando-nos, enriquecendo-nos; nós vamos a eles obedecendo, contemplando e recebendo (65)».
«Quem não me ama», diz ainda Jesus Cristo, «não leva em conta as minhas palavras» (Ib. 14, 24). E São João acrescenta que demonstra possuir perfeita caridade aquele que guarda a palavra de Deus (I, 2, 5); pois a caridade, diz o mesmo Apóstolo, «consiste em caminhar pelo caminho dos preceitos divinos» (II, 6). Ora, o primeiro dever da caridade é obedecer às ordens de Deus, submeter-se a elas e confiar nas promessas divinas. «Aqueles que amam a Deus», está escrito no Eclesiástico, «encher-se-ão da sua lei», isto é, estudá-la-ão, conhecê-la-ão e praticá-la-ão (Eclo 2, 19).
O Padre Alvarez, tratando da contemplação, indica quinze graus no amor divino: 1º intuição da verdade; 2º recolhimento; 3º silêncio espiritual; 4º repouso; 5º união; 6º ouvir a linguagem de Deus; 7º sono do espírito; 8º êxtase; 9º arrebatamento; 10º aparição corporal de Jesus Cristo; 11º aparição espiritual de Jesus Cristo e dos Santos; 12º visão intelectual de Deus; 13º visão de Deus através das nuvens; 14º manifestação positiva de Deus; 15º visão clara e intuitiva de Deus, como a teve, segundo dizem Santo Agostinho e outros Doutores, São Paulo, quando foi arrebatado ao terceiro Céu.
O amor de Deus deve ser: 1º inseparável; 2º insaciável; 3º invencível; 4º suave; 5º cheio de desejos; 6º anelante por Deus, procurando alcançá-lo, contemplando-o nas criaturas e impaciente por possuí-lo; 7º animado pelo desejo de morrer, não por tédio da vida, mas para estar com Jesus Cristo e gozá-lo; 8º liberal; 9º inteiro.
«Tarde demais vos amei, ó beleza sempre antiga e sempre nova; ah! tarde demais vos amei!», ia suspirando, com o coração cheio de tristeza, Santo Agostinho. «Oxalá fosse apagado do número dos dias aquele tempo em que não vos amei! Ai de mim, miserável, infelicíssimo, se algum dia deixasse de vos amar; preferiria não existir a existir sem vós ou fora de vós (66).» Façamos nossos os lamentos e o pranto de Agostinho…
«Quem não ama nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema», diz São Paulo (1Cor 16, 22). Ou, como se exprime o Apóstolo São João: «Quem não ama a Deus não o conhece, porque Deus é caridade, e permanece na morte» (1Jo 4, 8); e, antes dele, já havia expressado este sentimento o autor dos Provérbios nestas palavras: «Quem não me ama, ama a morte» (Pr 8, 36). E deles tirou Santo Agostinho esta sentença: «Quem não ama a Deus deixa de viver (67).» «Arrancai», diz-nos o mesmo Doutor, «o vosso coração ao amor da criatura, para conservá-lo ao Criador; pois, se abandonais Aquele que vos criou e vos apegais àquilo que Ele criou, sois adúlteros (68).» Tremam, portanto, conclui São Gregório, aqueles que não amam a Deus (69), e pensem, acrescenta São Bernardo, que até a sua linguagem é bárbara e estrangeira (70).
O amor de Deus pelos homens é tão grande que não somente se apresenta àqueles que o procuram, mas procura aqueles que não o procuram; vai atrás dos mesmos que dele fogem, que o odeiam e o perseguem: convida-os, atrai-os e docemente os arrasta. Quão infelizes, ingratos e perversos são, pois, aqueles que não se importam em amar a Deus, que tanto os ama! Que suprema desventura para eles desprezá-lo e combatê-lo! E, no entanto, oh! como é grande o número daqueles que não amam a Deus! Quantos podem dizer com São Pedro: «Vós, ó Senhor, que tudo conheceis, sabeis bem quanto eu vos amo?» (Jo 21, 17). Quem ousará exclamar com o Profeta: «Minha alma está apegada a vós, ó Senhor?» (Sl 62, 8). Ah! Choremos a triste sorte daqueles que não amam a Deus.
Jesus Cristo nos ensina o modo de amar a Deus com estas palavras: «Amareis o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração, com toda a vossa alma e com todas as vossas forças» (Mt 12, 37). Com todo o coração, isto é, consagrareis a vossa memória a recordar os seus benefícios etc. Com toda a alma, isto é, aplicareis a vossa inteligência a meditar como Ele é amável em si mesmo e quanto vos amou. Com todas as forças, isto é, com toda a vontade. Ouvi Santo Agostinho: Quando Deus nos diz: «Amareis de todo o coração, de toda a alma e de todo o vosso espírito», não nos permite esquecê-lo por um só instante nem gozar de qualquer outra coisa (Homil. ad pop.).
Amar a Deus implica: 1º dar-lhe o nosso coração inteiro e nada ao Demônio nem ao pecado; 2º ter Deus como objetivo de todas as nossas ações, preferindo-o a tudo como nosso sumo bem e único fim; 3º obedecer-lhe em tudo e sempre… Todos aqueles que deram o seu coração a Deus, diz São Bernardo, alegrem-se e exultem nas penas, nas angústias, nas tribulações, na fome, na sede, na nudez, no desprezo, entre as zombarias, as calúnias, as maldições, os insultos e as perseguições até à morte (Serm. in Psalm.).
São Tomás indica três meios de unir-se a Deus pelo amor: é preciso a coragem do espírito, isto é, a energia; uma grande severidade contra as cobiças; a bondade para com o próximo (1a p. 9, art. 13). Encontramos um quarto insinuado nestas palavras de São Gregório: «Se não morremos para o mundo, não somos capazes de viver do amor de Deus (71).» Outros meios nos sugere São Bernardo, a saber: as leituras devotas, que excitam o amor divino; a meditação, que o alimenta; a oração, que o ilumina e conforta (72).
Excelentes meios são estes para adquirir e conservar o amor de Deus numa alma. Quereis outros? Ei-los. Dai ouvidos à voz de Deus. «Não nos ardia o coração no peito, enquanto pelo caminho nos falava e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24, 32), diziam os discípulos de Emaús. «Meu coração se inflama de amor e sinto um fogo arder em meu peito quando medito», afirma o Salmista a seu respeito (Sl 38, 3).
A pureza do coração é um meio adequado de amar a Deus. «Meu Amado deleita-se entre os lírios», dizia a Esposa dos Cânticos (Ct 2, 16). Ela nos indica também como meio igualmente apropriado e eficacíssimo para fazer nascer e conservar em nós o amor divino o desejo que manifesta nestas outras exclamações suas: «Eu vos conjuro, ó filhas de Jerusalém, a anunciar ao meu Amado, se o encontrardes, que desfaleço e desfaleço de amor por Ele… oh! quem me dera encontrar-te e abraçar-te, ó meu Amado? Oh! então ninguém mais ousará insultar-me!» (Ib. 5, 8; 8, 1).
O temor do Senhor é um meio seguro para chegar a amá-lo. Com efeito, como observa São Basílio, é necessário que o temor preceda, para introduzir a piedade, e a ele seguirá o amor (73); este, segundo diz Santo Agostinho, cura as feridas que o temor causou, cujo efeito é estimular (74).
A fé nos leva a amar a Deus. “No presente, diz Santo Agostinho, amamos crendo aquilo que veremos; depois, no Céu, amaremos vendo aquilo em que teremos crido (75).” Mas, se a alma encontra a Deus pela fé, é pela esperança que o possui com a caridade: se Ele está ausente, encontra-o pelo desejo; se está presente, retém-no com a alegria; descobre-o e conserva-o com a paciência; possui-o com a consolação.
Finalmente, chega-se com toda a certeza a Deus, perseverando em procurá-lo e no desejo de amá-lo. “Buscai o Senhor, diz o real Profeta, e sereis fortalecidos e firmes, mas buscai-o sempre” (Sl 104, 4). “Sim, Deus deve ser buscado sem fim, sentencia Santo Agostinho, porque deve ser amado sem fim (76).” Desejamos nós verdadeiramente possuir a caridade? Voltemo-nos para pedi-la ao Espírito Santo, que é o Deus-Amor; pois a caridade, segundo diz São Paulo, foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5).