Tesouro n.º 9 · Volume I

AMOR AO PRÓXIMO AMORE DEL PROSSIMO

9 seções · 52 parágrafos · pp. 98–109 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É A CARIDADE E SUA NECESSIDADE

A caridade não é outra coisa, segundo Santo Agostinho, senão a boa vontade (1); sua essência, segundo São João Clímaco, é uma semelhança com Deus, na medida em que os homens podem tê-la; sua eficácia é uma espécie de embriaguez da alma; suas propriedades, enfim, são ser o fundamento da fé e o sustento de uma alma paciente (Scala, grad. 5).

Se o primeiro mandamento é amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todas as forças, imediatamente depois deste, e semelhante a ele, é, segundo o testemunho do próprio Jesus Cristo, o de amar o nosso próximo como a nós mesmos (Mt 22, 39); e divide com aquele primeiro a honra de ser a expressão perfeita de todos os Profetas e de toda a lei (Ibid. 40), tanto que Jesus Cristo o chama de seu preceito, isto é, o preceito que mais lhe está no coração e cuja observância mais recomenda (Jo 15, 12).

“Toda a lei, escreve São Paulo aos Gálatas, resume-se nesta única sentença: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 16); e, por isso, esta era a saudação que o mesmo Apóstolo dirigia aos Hebreus: “Que o amor de vossos irmãos se mantenha sempre vivo em vossos corações” (Hb 12, 1).

Também São Pedro nos recomenda que, antes de qualquer outra coisa, cuidemos de ter em nós uma caridade perseverante uns para com os outros, porque a caridade faz perdoar a multidão dos pecados (1Pd 4, 8). “Praticai ainda, diz ele, a hospitalidade uns para com os outros com alegria. Cada um, segundo o dom que recebeu, faça-o circular entre os outros, como bons dispensadores da multiforme graça de Deus” (Ibid. 9-10).

Falando São João, em sua primeira Epístola, do mandamento de amar a Deus e ao próximo, diz que não escreve um preceito novo, mas um mandamento antigo (II, 7), porque já fora dado a Adão e a todos os homens na lei natural, assim como também aos Anjos desde o princípio de sua criação; e depois, pouco mais adiante, chama-o de mandamento novo, como já o havia chamado o próprio Jesus Cristo (Jo 13, 34).

Ora, ele o chama assim:

1° Por causa do novo valor que adquire da autoridade do novo legislador, Jesus Cristo, e da nova efusão da caridade e da graça operada pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes.

2° Por respeito ao novo povo que é chamado a praticá-lo em grau mais perfeito: isto é, o povo cristão, que antes jazia entre as sombras da morte.

3° Porque um novo mistério é proposto ao nosso amor: o mistério, isto é, da Encarnação do Verbo e da nova união dos fiéis com Ele. União que, por sua natureza, pela graça e pelos Sacramentos, nos estreita a amar os cristãos, não somente como nosso próximo por causa de Deus, mas como nossos irmãos e membros do mesmo chefe, Jesus Cristo feito homem. E, assim como o amor de Jesus Cristo por nós foi imenso, novo, jamais conhecido, assim também seu mandamento foi novo, grande, jamais conhecido, pois Ele disse: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Ib. 13, 34).

Por meio da Encarnação de Jesus Cristo, estamos obrigados a um amor novo, a um amor maior que antes, tanto porque estamos unidos mais intimamente a Deus e aos nossos irmãos, quanto pelos novos e infinitos benefícios dos quais a Encarnação foi para nós o princípio. Com efeito, pela Encarnação contraímos relações e estreitamo-nos com novo vínculo, primeiro com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, depois entre nós; temos, pois, novos motivos de amar, antes nunca conhecidos. Por meio da Encarnação, o Verbo encarnado revestiu-se da nossa carne e tornou-se nosso irmão; o Pai também se tornou Pai de uma nova maneira, tanto de Jesus Cristo feito homem quanto dos cristãos, seus irmãos; finalmente, o Espírito Santo derramou-se inteiramente sobre nós, e Jesus Cristo deu um novo preceito de amor, para que os homens se amem mutuamente, não somente como parentes em Adão, mas como membros do corpo de Jesus Cristo.

4° O preceito da caridade fraterna é chamado novo por causa do novo modelo de amor apresentado ao mundo na pessoa de Jesus Cristo, o qual, por amor, derramou o sangue, deu a vida e entregou todo o seu ser para salvar os seus. Ponderai quão poderosos são os motivos de caridade que Jesus Cristo nos ofereceu ao longo de toda a sua vida, fazendo-se homem, nascendo num presépio, trabalhando, pregando, sofrendo e morrendo por todos.

5° O mandamento do amor é novo em razão do novo fim que nos foi proposto; pois Jesus Cristo quis, por meio dele, fazer de nós homens novos, homens celestes, já não terrenos. Ouvi, a este respeito, São Bernardo: Eu vos dou, diz Jesus Cristo, um mandamento novo. Mas como novo? Talvez por ter sido novamente inventado? Não, porque esse amor já era prescrito no Antigo Testamento. Em que sentido, então, é novo? Chama-se novo porque renova o que é antigo e transforma em homens novos os homens do passado. É novo porque nos despoja do homem velho e nos reveste do homem novo, que foi criado segundo Deus na santidade, na justiça e na verdade. É novo porque o gênero humano, que pouco antes vagava errante, banido do Paraíso, por seu meio entra todos os dias no Céu (Serm. 5, In Coena Domini). A caridade nos renova, diz Santo Agostinho, para que sejamos homens novos, herdeiros do Novo Testamento, cantores de um novo cântico, e, ao mesmo tempo, nos congrega como um novo povo (2)”. O novo preceito, acrescenta São Gregório, mudou a antiga vida de vícios em uma nova vida de virtudes (Hom. XXXII, in Evang.).

6° O preceito do amor é um preceito novo porque nos foi dado por último, isto é, no momento em que Jesus Cristo se separou dos discípulos para ir à morte.

7° É novo por seus efeitos, pois produz obras novas, a conversão do mundo pagão, etc., etc.… Distingue o Novo Testamento do Antigo; este era uma lei de temor, ditada para escravos, aquele, um código de amor feito para filhos.

“O mandamento de Jesus Cristo consiste em amarmo-nos uns aos outros”, diz o discípulo amado: “Amemo-nos, pois, uns aos outros, porque a caridade vem de Deus; e, se Deus nos amou tão grandemente, quanto não somos nós obrigados a levar-nos mutuamente amor?” (1Jo 3, 23). Diligamus nos invicem, quia charitas ex Deo est (ibid. 4, 7; 4, 11).

“O Senhor ordenou a cada um que cuidasse de seus semelhantes”, já havia dito o Eclesiástico (Eclo 17, 12); e em outro lugar havia observado que “todo animal ama o seu semelhante” (Eclo 13, 10).

“Cada um está obrigado a socorrer o seu próximo”, encontramos em Isaías (Is 41, 6). E esse dever é tão certo e indeclinável, acrescenta São João, que, se alguém diz que ama a Deus, mas não ama o próximo, mente, porque a ordem de Deus impõe que aquele que ama a Deus ame também o seu irmão (1Jo 4, 20-21).

A caridade é para os homens como um piloto para um navio, um governador para um país, o sol para a terra. Assim como o corpo se desagrega quando dele sai a alma, assim também as virtudes abandonam uma alma quando dela se afasta a caridade. Uma casa cujas paredes se desfazem desmorona; uma alma à qual falta a caridade vê suas virtudes arruinarem-se, porque o cimento das virtudes é o amor.

2. EXCELÊNCIA DA CARIDADE

“Se nos amarmos mutuamente, Deus está conosco”, assegura-nos São João (1Jo 4, 12). “Ora, se quem tem caridade possui Deus, comenta São Basílio, segue-se que aquele que alimenta ódio nutre em seu coração o Demônio (3)”.

“Vale mais uma onça de caridade, diz Belarmino, que uma libra de vitória” (In. Psalm.).

“A caridade tem dois pés, escreve Santo Agostinho, que são os dois preceitos do amor de Deus e do próximo. Cuida para não manquejar, mas corre com ambos os pés para Deus (4)”.

“Quando amais os membros de Jesus Cristo, amais o próprio Jesus Cristo, diz o Doutor citado; quando amais Jesus Cristo, amais o Filho de Deus e amais o Pai. Escolhei aquilo que quereis amar, e o restante virá por si mesmo (5)”.

O mesmo santo Padre convidava seu povo a observar como, enquanto aquela viúva de quem se fala no livro IV dos Reis teve óleo em seu vaso, este não bastava nem para ela nem para seus credores; mas, assim que derramou o óleo da caridade nos recipientes dos outros, eis que não somente passou a ter o quanto lhe era necessário, mas também um excedente com que podia saldar todas as suas contas. Assim, quem não ama a ninguém além de si mesmo não pode bastar a si próprio nem pagar a Deus as dívidas de seus pecados; mas, se seu amor se estende ao próximo, tal é a natureza da caridade fraterna cristã, que ela aumenta ao ser doada e, quanto mais se espalha, tanto mais recolhe e se enriquece. Se dais o pão da caridade, ele permanecerá inteiro para vós, e, ainda que o repartísseis com o mundo inteiro, não vos faltaria sequer uma migalha; antes, aquilo que derdes aos outros frutificará em vosso benefício; pois a caridade é um bem tão grande que pode pertencer a cada um e, ao mesmo tempo, conservar-se inteiro para todos. Vós destes aos outros, mas nem por isso vosso tesouro diminuiu; ao contrário, recebereis centuplicado aquilo que destes aos outros (6).

“Três coisas amo sobretudo, diz Deus pela boca do Eclesiástico: a concórdia entre os irmãos, o amor do próximo e os cônjuges perfeitamente unidos (7)”.

A caridade, escreve Ricardo de São Vítor, é a vida da fé, a força da esperança, a mola propulsora de todas as virtudes. Ela rege a vida, inflama o coração, dirige as ações, corrige os excessos, estabelece os costumes; é útil para tudo e domina tudo, até mesmo Deus. É corajosa nas adversidades, mas ainda mais animosa nas prosperidades; despreza as carícias e, ao mesmo tempo, faz saborear doçuras inefáveis e incomparáveis. Não conhece defeitos nem corrupção; não se deixa abalar, mas subjuga os sentidos; é o princípio das boas ações, o fim dos preceitos divinos, a morte dos pecados, o vigor dos combatentes, a palma dos triunfantes, a arma das almas santas, a razão do mérito, a recompensa dos justos. É proveitosa aos penitentes, doce e amável aos que progridem, princípio de glória para os perseverantes, de vitória para os Mártires, útil a todos os homens, dá vida a tudo o que é bom (Lib. Animae).

3. FORÇA DA CARIDADE

“O irmão a quem o irmão presta auxílio assemelha-se a uma fortaleza; um cordão de três fios dificilmente se rompe” (Ecl 4, 12), diz o Eclesiastes; e o Salmista proclama feliz aquele homem que se compadece de quem geme nas aflições e lhe faz a esmola de sua compaixão; ele jamais vacilará (Sl 111, 5).

A caridade é uma flecha agudíssima que fere o inimigo, prostra-o e faz dele vosso amigo. A sabedoria do mundo engana-se ao querer vencer um inimigo com o ódio, com as ameaças, com as injúrias; isso é antes reavivar-lhe o ardor e incitá-lo a novas agressões: o verdadeiro modo de subjugá-lo consiste em amá-lo e cumulá-lo de benefícios. São João Crisóstomo, comentando aquelas palavras de Jesus Cristo: Fazei aos outros tudo aquilo que desejais que os outros vos façam, escreve assim: “Desejais receber benefícios? Sede benfeitores. Apreciais o louvor? Louvai o vosso próximo. Quereis ser amados? Amai. Apreciais os primeiros lugares? Sede os primeiros a cedê-los (8)”.

A propósito das palavras do Cântico dos Cânticos: O amor é forte como a morte, Santo Agostinho observa que é impossível exprimir com maior magnificência a força da caridade. Com efeito, quem jamais resiste à morte? Ao fogo, à água, à espada, ao poder e aos reis pode-se resistir e encontrar proteção; mas chega a morte, e quem a detém? Ela tudo derruba, supera e abate, porque é mais forte que tudo (De Laude Charit.). Por isso o amor do próximo lhe é comparado. Ele, com efeito, aniquila aquilo que éramos, para nos tornar aquilo que não éramos: de uma pessoa triste e detestável, forma um homem bom e amável. “A caridade, diz São Lourenço Justiniano, deve estar revestida de uma couraça impenetrável: não baixa os olhos diante da espada, quebra as flechas, zomba dos perigos, triunfa da morte, supera tudo (9)”.

4. A CARIDADE UNE OS HOMENS

“Revesti-vos, diz São Paulo, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de bondade, de humildade, de modéstia, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver motivo de queixa contra outro… E, sobretudo, conservai a caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3, 12, 13, 14).

O nome de irmão não deve ser palavra vã. Por isso São Paulo nos exorta “a conservar com todo o empenho a unidade de um mesmo espírito por meio do vínculo da paz; como se formássemos todos um só corpo e uma só alma, assim como todos somos chamados a uma só esperança” (Ef 4, 3-4). Mas num corpo, prossegue dizendo o mesmo Apóstolo, “quando um membro sofre, todos os outros sofrem, e quando um membro é honrado, também os outros participam da honra. Vós sois o corpo de Jesus Cristo e membros de seus membros” (1Cor 12, 26-27). Devemos, portanto, alegrar-nos com quem está alegre e compadecer-nos de quem sofre; desse modo, os corações permanecem unidos. A caridade une os homens entre si como o corpo está unido à alma e como os membros do corpo estão unidos entre si. No corpo humano há muitos membros, cada um dos quais tem sua aptidão particular e sua função particular; nenhum trabalha somente para si, mas ajudam-se mutuamente, porque pertencem a um mesmo corpo. Cada um está contente com seu ofício e não procura outro; o mais vil não inveja o mais nobre, a mão não tem ciúme dos olhos, os pés não pretendem ocupar o lugar da cabeça. Mas existe entre eles uma união perfeita: vivem em paz, sofrem juntos e juntos se alegram. Efeitos semelhantes a esses produz na sociedade o amor do próximo.

“Meus irmãos, dizia São Bernardo, decidi amar-vos sempre, aconteça o que acontecer, ainda que não me ameis. Eu me apegarei a vós mesmo contra a vossa vontade. Uma cadeia indissolúvel me liga a vós: a cadeia de uma caridade pura e sincera, daquela caridade que permanece para sempre. Se me insultardes, serei paciente; se me injuriardes, inclinarei a cabeça. Vencer-vos-ei com benefícios, irei em socorro dos mesmos que recusarem minhas atenções, farei o bem aos ingratos, respeitarei aqueles que me desprezam; pois somos membros uns dos outros, como diz o Apóstolo (10)” (Ef 4, 25).

“Faça Deus, escrevia São Paulo aos Filipenses, que, durante minha ausência, eu ouça dizer de vós que vos conservais todos num só propósito e trabalhais unânimes para difundir a fé” (Fl 1, 27).

“Completai a minha alegria, sendo concordes, tendo a mesma caridade, uma só alma e o mesmo sentimento. Nada façais por espírito de rivalidade ou por vanglória, mas, por humildade, cada um considere o outro superior a si mesmo. Cada qual cuide não do que lhe seja vantajoso, mas do que seja útil aos outros” (Fl 2, 2-4).

O cimento mantém unidas as pedras de um edifício; o cimento que mantém unidos os homens é a caridade. Por ela cumprimos a palavra de São Paulo aos Gálatas: “Levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2). Levar os fardos significa carregar os pecados e as misérias do próximo e aliviá-lo com a compaixão, a oração e a esmola. “Não sejais lentos em visitar o enfermo, diz o Eclesiástico, e vos firmareis na caridade” (Eclo 7,39). Sob a inspiração da caridade, facilmente se desculpam os defeitos alheios e se pratica a exortação de São Paulo, de perdoarmo-nos mutuamente, como Jesus Cristo nos perdoou (Ef 4,32); tendo diante dos olhos o dito de Santo Agostinho: não há defeito humano que alguém não possa cometer, se for abandonado por seu Criador (11).

“Irmãos, escrevia o Apóstolo aos Gálatas, se virdes alguém cair em pecado, vós que viveis segundo o espírito, procurai reerguê-lo com toda mansidão, considerando a vós mesmos e temendo ser tentados como ele” (Gl 6,1).

5. A CARIDADE NOS IMPULSIONA A GRANDES COISAS

Pelas palavras de São Paulo podemos conhecer a que o impelia a sua caridade heroica. Ele escreve aos Romanos: “Eu desejaria que Jesus me tivesse feito anátema em lugar de meus irmãos” (Rm 9,3); e aos Colossenses: “Alegro-me por sofrer por vós” (Cl 1,24); e aos Tessalonicenses: “Era meu ardente desejo não somente anunciar-vos o Evangelho, mas dar a vida por vós” (1Ts 2,8).

O santo Tobias visitava todos os dias, no exílio, os seus compatriotas; consolava-os e prestava-lhes todos os auxílios de que podia dispor; saciava o mendigo, vestia o pobre e sepultava os mortos; e tudo isso fazia sem se importar com a sentença de morte pronunciada contra ele e provocada por sua caridade heroica (Tb 1,20).

O povo de Deus provocou contra si, com um crime enorme, a justiça divina, a tal ponto que esta ordena o seu extermínio. Eis que imediatamente Moisés, impelido pela caridade que o move, se desfaz em lágrimas e orações, enfrenta a justiça divina e oferece a si mesmo como vítima de expiação pelo povo, exclamando: Perdoai, Senhor, a este povo, ou apagai-me do livro dos vivos (Ex 33). “Quem dará aos meus olhos”, exclama Jeremias, “uma fonte de lágrimas, para que eu chore noite e dia aqueles do meu povo que estão mortos?” (Jr 9,1).

“Participo de vossas angústias, ó irmãos, como um de vós, escrevia São Cipriano; bato no peito com cada um, e com aqueles que caíram considero-me caído, e jazo, com o afeto prostrado por terra, junto daqueles que estão por terra (12).”

Nem o afastamento, nem os trabalhos, nem os perigos, nem os sacrilégios, nem as ameaças, nem os tormentos, nem a morte são capazes de deter a verdadeira caridade. Vede aqueles missionários que abandonam parentes, pátria e família para ir a regiões longínquas, desconhecidas e bárbaras, expondo-se a mil perseguições, a cem mortes e a toda espécie de privações para salvar almas. O que os impele a sacrifícios tão nobres? A caridade… Observai-os nos tempos da fome… nos dias terríveis da peste… Considerai as Irmãs de São Vicente e tantas outras nos hospitais, nas prisões, nas galés etc.

A elas se aplica o que São Ful­gêncio pregava a respeito de Santo Estêvão: que ele tinha a caridade como arma e, por meio dela, alcançou a vitória. Pela caridade, resistiu aos judeus que o apedrejavam; pela caridade, rezou por seus assassinos; pela caridade, venceu Saulo, seu cruel perseguidor, e mereceu tê-lo como companheiro no Céu (Serm. in S. Steph.). Que mais? Não foi acaso a infinita caridade de Deus para com os pecadores a causa da Encarnação, dos sofrimentos e da morte de Jesus Cristo?

6. A CARIDADE APAGA OS PECADOS E É A LEI SUPREMA

“A caridade apaga a multidão dos pecados”, diz o Apóstolo São Pedro (1Pd 4,8), e antes dele já havia dito o autor dos Provérbios: “A caridade sepulta todas as iniquidades” (Pr 10,12); e Santo Agostinho deixou escrito: “Crescendo a cobiça, desapareceu a caridade; a caridade retorna, e a iniquidade desaparece (13).”

Se cumpris, acrescenta São Tiago, a lei que, segundo as Escrituras, é lei régia, isto é, se amais o próximo como a vós mesmos, fazeis uma obra excelente acima de todas as outras (Tg 2,8).

A lei rainha de todas as demais é a caridade. 1° Porque está à frente de todas as virtudes, superando-as em esplendor e magnificência e sendo a mais perfeita de todas. 2° Porque deve reinar sobre todos os homens e constitui o seu mais rico e glorioso ornamento. Por isso Jesus Cristo faz a Pedro uma única pergunta, e é esta: “Tu me amas, ó Pedro?” A caridade estreita a todos, também os pobres, os bárbaros e os inimigos. Assim como o firmamento circunda toda a terra, ilumina-a, aquece-a, fecunda-a e vivifica-a por meio do sol, refresca-a com chuvas benéficas e suaves orvalhos; assim a caridade tudo abraça e contém: faz o bem a todos, ilumina, inflama, fecunda e vivifica os corações, ainda que estejam cheios de vícios e de ódio; com a sua bondade e doçura, abranda e fecunda os corações mais ingratos, áridos e estéreis. Ela segue uma via régia e reta, sem se inclinar nem para a direita nem para a esquerda. Por ela, todos os justos e todos os santos chegam ao Céu. 3° Porque é a primeira e principal lei de Jesus Cristo, Rei dos reis. 4° Porque é superior aos reis e aos tiranos, às ameaças e aos suplícios. Ó caridade, a maior das virtudes, virtude real, mais poderosa que todos os potentados do universo! Tu reparas, sem armas e sem derramamento de sangue, os danos causados pelas armas, pelas guerras, pelos ódios, pela soberba, pela ambição e pela barbárie. Tu praticas, morrendo, aquilo que os tiranos proíbem sob pena de morte: triunfas imolando os teus e convertes os perseguidores e os próprios algozes! 5° Porque é inviolável e eterna (1Cor 13,8). 6° Porque, diz São Bernardo, conquista e submete todas as afeições, como um rei amado que manda em toda a nação e a subjuga com suas generosidades e seus muitos benefícios (Serm. in Cant.). 7° Porque jamais obedece à pena e ao trabalho como serva, mas os escolhe a seu arbítrio como senhora; e somente desse modo se expõe aos sofrimentos, às fogueiras, às machadinhas e à morte. Ela facilita e suaviza tudo aquilo que é difícil e amargo. 8° Porque constitui rei aquele que a possui, fazendo-o reinar sobre o próximo, sobre si mesmo e sobre Deus. 9° Porque nela se encontram todo bem, toda dignidade e toda grandeza.

“Quem quer que, diz o Apóstolo São Tiago, tendo observado integralmente toda a lei, a transgredir em um só ponto, é culpado como se a tivesse violado por inteiro” (Tg 2,10). Ora, por quê? Porque, responde Santo Agostinho, fere a caridade, da qual depende toda a lei; sendo a caridade o princípio e o fundamento de todas as leis e de todas as virtudes (In Psalm.); e, como se exprime São Gregório, porque todos os preceitos brotam da raiz da caridade (14). Assim como um herege que não crê em qualquer artigo da fé perde o mérito da fé não somente no que diz respeito àquele artigo, mas também a todos os outros, assim aquele que viola um só preceito viola todos, porque ofende a caridade, fundamento de toda lei.

7. FELICIDADE DAQUELES QUE PRATICAM A CARIDADE

A caridade forma de todos os homens uma só e mesma família perfeitamente feliz.

“Quão bom, exclama o Profeta, quão doce é que os irmãos habitem juntos e unidos” (Sl 132,1). A caridade é como o unguento sobre a cabeça de Aarão, que lhe escorre pelo rosto e se derrama sobre as suas vestes; como o orvalho do Hermon, que cai sobre o monte Sião; porque sobre ela desce a bênção do Senhor, e o dom da vida se prolonga para ela por toda a eternidade (Ibid., ibid.).

A caridade é uma luz divina que impede as quedas, tanto secretas como públicas, diz São João (1Jo 2,10).

Quem pratica a caridade fraterna vive em paz com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Ele é abençoado pelo Céu e pela terra.

8. QUALIDADES DA CARIDADE

A caridade deve ser: 1° universal…; 2° contínua…; 3° forte e ativa…; 4° liberal e abundante…; 5° cordial e sincera…; tal era a caridade de Jesus Cristo para conosco.

São Paulo, por sua vez, dá à caridade os seguintes caracteres: 1° é paciente; 2° é doce e benfazeja; 3° não é invejosa; 4° não é temerária nem precipitada; 5° não é soberba; 6° não é desdenhosa nem egoísta; 7° não é suscetível nem irritável; 8° não pensa mal; 9° não se alegra com a injustiça, mas rejubila-se com a verdade; 10° tudo sofre; 11° tudo crê; 12° tudo espera; 13° tudo suporta; 14° nunca deixa de existir (1Cor 13,4-8).

9. MEIOS PARA TER A CARIDADE

O primeiro meio para alcançar a caridade é a humildade…; o segundo encontra-se na abnegação da própria vontade…; o terceiro consiste em preferi-la a todas as coisas…; o quarto funda-se na paciência…; o quinto está em empenhar-se em acalmar as impaciências e iras alheias, e em acostumar-se a suportá-las.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.