Tesouro n.º 80 · Volume II

ALEGRIAS MUNDANAS GIOIE MONDANE

4 seções · 10 parágrafos · pp. 980–983 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. AS ALEGRIAS MUNDANAS SÃO VÃS

«Considerei o riso uma ilusão, e à alegria disse: Por que procuras enganar-me?» (Eclo. 2, 2). Esta sentença do Sábio está fundada na própria natureza das alegrias mundanas e tem por confirmação a experiência de todos os séculos. E, de fato, onde deposita o mundo o seu gozo? Nos bens, nas riquezas; ora, o que são os bens desta terra? Nos deleites da volúpia, nas orgias da mesa; mas o que são esses prazeres, senão o perfume de algo que, mal nasce, desaparece? Na maledicência, na calúnia, na vingança, nos bailes, nos teatros, nos festins; nas honras; mas o que são todas essas coisas? Ilusões que ofuscam e, às vezes, cegam ainda irreparavelmente… Por grandes e suaves que sejam, além de serem concedidas a poucos, por quanto tempo duram também para esses poucos? … São sombras, são fantasmas que desaparecem quando alguém crê alcançá-las; e quem se obstina em querer segui-las, entra num espinheiro do qual sai, quando consegue sair, ferido e ensanguentado…

«Vaidade é toda alegria do século, escreve Santo Agostinho; deseja-se com ardentíssimos votos e, uma vez obtida, desaparece sem deixar vestígio. Todas essas alegrias mundanas passam, dissipam-se como fumaça. Infelizes os que nelas põem o coração! (1)».

As alegrias mundanas são vazias…, insípidas…; não têm realidade, nem felicidade, nem consistência, nem duração, e quem delas goza, goza do nada (Am 6,14). A série das alegrias mundanas é uma tragédia que termina mal começa e sempre acaba no desprazer, no pranto, na morte. Ouvi novamente o filho de Santa Mônica: «Em vão choram os que choram pelas coisas vãs; e riem de seu dano aqueles que riem das coisas vãs. Tanto uns como outros estão enganados, porque se alegram quando deveriam afligir-se, riem quando seria preciso chorar, semelhantes àqueles meninos que brincam justamente no momento em que seus pais estão prestes a expirar (2)».

2. AS ALEGRIAS MUNDANAS SÃO AMARGAS

Não há alegrias mundanas sem dor e sem amargura. A amargura as precede…, acompanha-as…, põe-lhes fim…; as alegrias vão-se embora, a amargura permanece. «O riso é misturado ao pranto, dizem os Provérbios, e o auge da alegria termina no cúmulo da angústia» (Pr. 14,13). «Vê e compreende, ó homem, diz Jeremias, quão funesta e amarga coisa é para ti afastar-te do teu Deus» (Jr 2,19). Quem quer que tenha experimentado as doçuras mundanas deve repetir, com o mesmo Jeremias: «Tivemos fel por bebida, como castigo por havermos pecado contra o Senhor. Esperávamos a paz, e não tivemos dia sereno; julgávamo-nos seguros, e eis-nos no temor» (Jr 8, 14-15).

Ah! quão verdadeiro é que Deus embriaga os mundanos com um vinho de dor (Sl 59, 3) e os alimenta com um pão de lágrimas (Sl 79, 6).

«Deus mistura a amargura às alegrias terrenas, diz Santo Agostinho, para voltar o homem ao desejo daquela alegria cuja doçura não é enganosa e que só se encontra em Deus (3)». «Deus, diz São Jerônimo, oferece aos amantes das alegrias mundanas uma água amarga, a água da maldição: embriaga-os de amargura, para que aprendam pela experiência quão duro é haver abandonado o Senhor e haver irritado aquele Deus que é a doçura por essência» (Comment.).

A alegria mundana é uma gota de mel que se transforma num mar de fel… Observai o que acontece ao glutão…, ao intemperante…, ao vaidoso…, ao ambicioso…, etc….

3. AS ALEGRIAS MUNDANAS SÃO PERIGOSAS E CULPÁVEIS; TORNAM ESCRAVOS E CEGOS

É sabido que as alegrias mundanas geram o tédio e o remorso… E por quê? … Porque são perigosas e culpáveis… A que perigos, com efeito, não expõem os prazeres dos sentidos, a sensualidade, a gula, os olhos pouco modestos, os ouvidos pouco castos, a língua mal refreada? A quantos riscos não expõem as vaidades, o amor do mundo, as danças, as familiaridades suspeitas, os espetáculos? … As alegrias mundanas são culpáveis: 1° pelo escândalo que se recebe…, pelo escândalo que se dá…; 2° pela desobediência à lei de Deus…

Nem poderia ser de outro modo, pois, como diz São Gregório, quem vive das alegrias do mundo acorrenta seus sentidos interiores, seu espírito…, sua alma, sua inteligência…, sua memória…, sua vontade…, seu coração… (Homil. XXXVI in Evang.). Já não compreende as verdadeiras alegrias…, as coisas espirituais. Falai-lhe delas, e ele já não vos entende… não sente… Deus, religião, virtude, lei, deveres, tudo o fatiga e o abate… já não vê nem sonha com coisa alguma, senão com frivolidades e vaidades…

4. DESGRAÇAS DOS QUE AMAM AS ALEGRIAS MUNDANAS

Terrível é a maldição do Senhor: «Ai de vós que viveis no riso!» (Lc 6, 25). Por isso, o apóstolo São Tiago nos exorta a sentir e reconhecer nossa miséria, a chorar e gemer, para que o nosso riso não se transforme em luto e a nossa alegria não se converta em tristeza (Tg 4, 9). Dizem os Santos Agostinho, Basílio, Bernardo e outros doutores que Jesus Cristo chorou muitas vezes, mas nunca foi visto rir. «Ninguém, conclui São Jerônimo, pode gozar ao mesmo tempo as alegrias do mundo e as alegrias de Deus, ser feliz nesta terra e no céu, viver segundo o século e alcançar o paraíso» (Ep. 35, ad Iulian.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.