“Como incenso fragrante nos dias de verão”.
Sermão em louvor da bem-aventurada Virgem: “Bendita és tu entre as mulheres”.
A construção da tenda e o cesto de Moisés: o simbolismo dessas duas coisas.
Sermão em louvor da bem-aventurada Virgem: “A quem pedia água, deu leite”; a natureza da pomba e da rola; os três elementos que compõem a vela e os quatro versículos do cântico “Agora, Senhor, podes deixar teu servo partir”; o significado de tudo isso.
1. “Como incenso fragrante nos dias do verão; como fogo resplandecente e incenso ardente no fogo” (Eclo 50,8-9).
Cristo diz no Eclesiástico: “Eu, como o rio Dorix, e como um aqueduto, saí do paraíso” (Eclo 24,41). Dorix interpreta-se como “medicina da geração” e significa Jesus Cristo, que é a medicina do gênero humano corrompido em Adão. Do paraíso, isto é, do ventre virginal, Jesus Cristo saiu “como o rio Dorix e como um aqueduto”, porque, pelo fato de ter recebido a carne da Virgem, se tornou para nós “como um rio” quanto à fé, por meio da água do batismo; Dorix quanto à Paixão, na qual derramou o seu sangue, com que curou as nossas feridas; aqueduto quanto à infusão da graça. Por meio dele, com efeito, como por um aqueduto, o Pai infunde em nós a graça. Por isso, no fim da oração, dizemos: “Por nosso Senhor” etc.
Diz-se no Gênesis: “O Senhor Deus plantara desde o princípio um paraíso de delícias, no qual colocou o homem para que o cultivasse e o guardasse” (Gn 2,8.15). Mas ele o cultivou mal e o guardou mal. Foi, portanto, necessário que o Senhor Deus plantasse outro paraíso, muito melhor, a saber, a bem-aventurada Maria, para o qual retornassem os exilados do primeiro. Nesse paraíso foi colocado o segundo Adão, que o cultivou e o guardou. Fez grandes coisas, como ela mesma diz: “Aquele que é poderoso fez em mim grandes coisas, e santo é o seu nome” (Lc 1,49). Aquilo que nós chamamos “santo”, os gregos chamam “agion”, que significa “sem terra”, porque aqueles que são consagrados ao seu nome não devem ter sua vida na terra, mas nos céus. Guardou-o, conservando-o íntegro; cultivou-o, fecundando-o; guardou-o, não lhe tirando a flor. No princípio, a terra, amaldiçoada na obra de Adão, depois do trabalho produziu espinhos e abrolhos. A nossa terra, isto é, a bem-aventurada Virgem, sem obra de homem, produziu o fruto bendito, que hoje ofereceu a Deus Pai no templo; por isso se diz: “Como incenso fragrante nos dias do verão” etc.
2. Incenso, em latim thus, deriva de tundo, triturar, porque os grãos de incenso, antes de serem queimados, são triturados e reduzidos a pó; por isso alguns o escrevem tus, sem aspiração. Outros afirmam que deriva do grego theos, isto é, Deus, a quem é oferecido, e por isso o escrevem com aspiração: thus. A bem-aventurada Virgem diz no Eclesiástico: “Como o olíbano não inciso, enchi de perfume a minha habitação” (Eclo 24,21). O Líbano é uma árvore da Arábia, imensa, que produz uma seiva aromática, e é chamada assim por causa de um monte da Arábia. Com efeito, chama-se Líbano o monte onde se recolhe o incenso. Este é recolhido duas vezes por ano, no outono e na primavera. “O olíbano não inciso” é a bem-aventurada Maria, que jamais foi ferida pelo ferro de qualquer concupiscência. Ela, por meio do amor, evapora a mente na qual habita, isto é, enche-a com o perfume das virtudes. Dessa emanação, aquela habitação exala o odor da humildade e da castidade. A bem-aventurada Maria, que, pelo candor de sua vida, é chamada Líbano, que se interpreta como brancura, emanou de si o incenso perfumado, isto é, a humanidade de Jesus Cristo, cujo perfume encheu o mundo inteiro.
Na dupla colheita do incenso é figurada a dupla oblação de Cristo. Primeiro, a Mãe o ofereceu, “segundo a lei de Moisés” (Lc 2,22), no templo; depois, ele próprio se ofereceu em sacrifício a Deus Pai, para a reconciliação do gênero humano. Na primeira oblação foi thus, incenso, derivado de theos, Deus, isto é, oferecido a Deus; na segunda foi tus, incenso, derivado de tundo, triturado, porque foi triturado por causa de nossos pecados; e então foi “incenso fragrante nos dias de verão”, isto é, no ardor da perseguição judaica. Sobre a primeira oblação, que hoje celebramos, façamos algumas considerações em louvor da gloriosa Virgem Maria.
3. Lê-se no Livro dos Juízes, onde Débora diz: “Bendita entre as mulheres seja Jael, mulher de Héber, o quenita; seja bendita em sua tenda. A quem lhe pedia água, deu leite, e numa taça de príncipes ofereceu manteiga. Estendeu a mão esquerda ao cravo da tenda, e a direita ao martelo dos ferreiros; golpeou Sísara, procurando na cabeça o lugar da ferida, e perfurou-lhe profundamente a têmpora” (Jz 5,24-26). Ele, unindo o sono à morte, “desfaleceu e morreu” (Jz 5,27). Jael interpreta-se “corça” e significa a bem-aventurada Maria. Procura isso no sermão: “Uma mulher, levantando a voz” (“Dom. III in Quadrag., V”). Foi isso que disse a mulher de Héber, o quenita. Héber interpreta-se “participante”, e quenita, “possessão”; e significa Jesus Cristo, que, participante de nossa natureza, diz nos Provérbios de Salomão: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos” (Pr 8,22).
Os caminhos do Senhor são suas obras, no princípio das quais possuiu a sabedoria, porque, no princípio da criação que estava para nascer, teve consigo o Filho, para dispor com ele todas as coisas. Outra tradução traz o seguinte: “O Senhor me criou como princípio de seus caminhos, em sua obra”. É o que se lê acerca da Encarnação do Senhor: “Deus me criou” segundo a carne. A carne reconhece Deus; a glória significa o Pai; a criatura confessa o Senhor; a caridade conhece o Pai, “princípio”, ou, no princípio, “de seus caminhos”, como ele mesmo diz: “Eu sou o caminho” (Jo 14,6), que conduz a Igreja à vida. Em sua obra, isto é, para ser redimida, foi criado da Virgem. Sua carne, portanto, foi por causa da obra; sua divindade existia antes da obra. A bem-aventurada Maria é, portanto, chamada sua esposa, porque ele repousou em seu tálamo e dela recebeu a carne. Seja, pois, “bendita em sua tenda. Todas as gerações”, diz ela, “me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48). É bendita em sua tenda, porque nela repousou aquele que a criou. Em seu louvor, que está acima de todo louvor, esgota-se todo assunto, e em seu louvor toda língua balbucia, porque a matéria se oferece, e a devoção, por pequena que seja, deseja narrar algo a seu respeito; por isso, acerca da tenda, proponhamos algumas considerações, como que tateando com a mão.
4. “Seja bendita Jael em sua tenda.”
O Senhor falou a Moisés no Êxodo, dizendo: “Farás a tenda deste modo: farás dez cortinas de linho retorcido, de jacinto, de púrpura e de carmesim duas vezes tingido, variadas com trabalho de bordado. Farás também onze cobertas de pelos de cabra, para cobrir o teto da tenda. Farás ainda outra cobertura de peles de carneiros tingidas de vermelho, e, sobre esta, novamente outra cobertura de peles de jacinto. Farás também as tábuas verticais da tenda, de madeira de setim” (Ex 26,1.7.14-15). Observa que, a respeito deste trecho, se diz nas Histórias Escolásticas: A tenda era uma casa dedicada a Deus, quadrangular e oblonga, fechada por três paredes: a setentrional, a meridional e a ocidental. A entrada permanecia aberta a oriente, para que, ao nascer do sol, fosse iluminada por seus raios. Seu comprimento era de trinta côvados, sua largura de dez e sua altura de dez. No lado meridional havia vinte tábuas verticais de madeira de setim; cada uma tinha dez côvados de comprimento, quatro dedos de espessura e um côvado e meio de largura. Eram unidas umas às outras por encaixes, para que não houvesse ali nenhuma fresta nem desigualdade no plano da parede; e eram douradas de ambos os lados. Cada uma era colocada sobre duas bases de prata perfuradas, em cujos orifícios eram introduzidos pinos de ouro. A parede setentrional era feita pelo mesmo modelo. A ocidente havia sete tábuas, em tudo semelhantes às outras e colocadas do mesmo modo sobre suas bases. Estando assim ordenadamente erguidas as tábuas, foi feito o teto com as quatro coberturas acima mencionadas, a saber: as cortinas, as cobertas de pelos de cabra, as peles tingidas de vermelho e as peles de jacinto.
A tenda significa a bem-aventurada Maria, na qual Cristo se armou com a couraça da justiça e o capacete da salvação, para combater contra as potências do ar. Sobre essas armas, procura no evangelho: “Quando um homem forte e armado” (“Dom. III in Quadrag., II”) etc. Esta é a casa dedicada a Deus, ungida pela consagração do Espírito Santo, quadrangular pelas quatro virtudes principais, oblonga pela perseverança final, fechada por três paredes de virtudes contra o setentrião, o meridião e o ocidente. No setentrião é designada a tentação do diabo; no meridião, a falsidade do mundo; no ocidente, o ocaso do pecado. Foi fechada contra o setentrião, conforme se lê no Gênesis: “Ela te esmagará a cabeça, e tu lhe armarás ciladas ao calcanhar” (Gn 3,15). A bem-aventurada Maria esmagou a cabeça, isto é, o princípio da sugestão diabólica, quando fez o voto de virgindade. Mas ele pôs ciladas ao seu calcanhar quando, no fim, fez que seu Filho fosse capturado e crucificado pelos judeus.
Do mesmo modo, foi fechada contra o meridião. Por isso, em Lucas: “E, entrando o anjo junto dela, disse: Salve, cheia de graça” (Lc 1,28) etc. Ela estava dentro, estava fechada aquela junto da qual entrou o anjo. Porque estava dentro, mereceu ser bendita. Com efeito, os que estão fora não são considerados dignos da saudação angélica, nem de que lhes seja dito: “Salve”; mas, antes, como diz Amós: “A todos os que estão fora será dito: Ai, ai!” (Am 5,16). Pois não é agradável a Deus a saudação que está fora. Por isso, em Mateus, o Senhor repreende aqueles que procuram ser saudados na praça (cf. Mt 23,7). Quem está fora, na praça ou em público, não merece ser saudado por Deus ou pelo anjo, que amam o segredo. Por isso, em Mateus, ao enviar os apóstolos, diz: “A ninguém saudeis pelo caminho”, mas: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei: Paz a esta casa” (Lc 10,4-5); isto é, ordenou que fossem saudados não os que estavam no caminho, nem os que trabalhavam fora, no campo, mas os que estavam em casa. Portanto, os que estão fora são privados da saudação divina.
5. Do mesmo modo, foi fechada contra o ocidente. Por isso se diz no Êxodo que Moisés esteve escondido durante três meses. E, quando já não podia mais ser ocultado, sua mãe tomou um cesto de juncos, untou-o com betume e piche, colocou dentro o menino e o expôs no caricedo (cf. Ex 2,2-3), à margem do rio. Vejamos o que significam Moisés e os três meses, o que significam o cesto de juncos, o betume e o piche, e o que significa o rio. Moisés é Jesus Cristo, que esteve escondido durante três meses, isto é, durante três períodos: antes da criação do mundo; desde a criação do mundo até Moisés; e desde Moisés até a Anunciação da bem-aventurada Maria, que foi como um cesto de juncos, fechado por todos os lados com betume e piche.
O cesto é um recipiente de vime, delgado. Observa que, nesses três elementos de que foi construído o cesto, são significadas as três principais virtudes da bem-aventurada Maria. No vime é designada a humildade; no betume, a virgindade; no piche, a pobreza. Observa: o vime é assim chamado porque possui grande força de verdor; é de tal natureza que, mesmo depois de seco, se for molhado, torna a verdejar; depois, cortado e fixado na terra, lança suas próprias raízes. Esta é a humildade, que tem tamanha força de verdor que, mesmo quando é desprezada e rejeitada como seca, contudo, fincada na terra, para a qual o humilde sempre olha, lança mais profundamente as raízes da humildade. Na bem-aventurada Virgem, portanto, como num cesto, foi colocado Jesus Cristo, e ele foi exposto à correnteza do rio, isto é, a este mundo; a filha do rei, isto é, a santa Igreja, adotou-o como filho.
O caricedo
6. Do mesmo modo, acerca desta tríplice clausura e do oriente, pelo qual o tabernáculo é iluminado, tens uma concordância em Ezequiel: “Voltei-me para o caminho da porta externa do santuário, que olhava para o oriente, e ela estava fechada; e o Senhor me disse: Esta porta permanecerá fechada, não será aberta, e homem algum passará por ela, porque o Senhor Deus de Israel entrou por ela; e permanecerá fechada para o príncipe. O próprio príncipe se sentará nela, para comer o pão diante do Senhor” (Ez 44,1-3). Chama-se porta porque por ela se pode levar ou retirar alguma coisa, e significa a bem-aventurada Maria, por meio da qual retiramos os dons das graças. Esta foi a porta do santuário exterior, não do interior. O santuário interior é a divindade; o exterior é a humanidade. O Pai deu a majestade; a Mãe, a enfermidade. O caminho desta porta foi a humildade, para a qual cada um deve voltar-se com o Profeta. A humildade da Virgem voltou-se para o oriente, para ser iluminada por seus raios. Diz-se que esta porta foi fechada três vezes, porque a bem-aventurada Maria, como foi dito, esteve fechada ao aquilão, ao sul e ao ocidente; e abriu-se humildemente ao oriente, isto é, a Jesus Cristo, que veio do céu. Por isso acrescenta-se: “Homem algum passará por ela”, isto é, José não a conhecerá; “e permanecerá fechada para o príncipe”, pelo qual se entende o diabo, príncipe deste mundo, a cujas sugestões ela esteve fechada, porque sua mente não se abriu a tentação alguma, assim como sua carne não conheceu o contato de homem. Somente o Príncipe, isto é, Cristo Jesus, sentou-se nela, pela humildade da carne assumida, para comer o pão diante do Senhor, isto é, para fazer a vontade do Pai, que o enviou (cf. Jo 4,34). Dispostas assim as tábuas das virtudes, sobrepõe-se um teto de cortinas, de panos de lã de cabra, e de peles tingidas de vermelho e de azul. Somente na Virgem se reflete a vida de todos os santos; ela é capaz de todas as virtudes.
Nota que a Igreja de Cristo se divide em militante e triunfante. A Igreja militante tem cortinas e panos de lã de cabra; a Igreja triunfante, peles tingidas de vermelho e de azul. Nas cortinas distinguidas por bordados, isto é, por tecido multicolorido, composto com agulha de modo fino e variado, são representados todos os justos da Igreja militante. No linho retorcido, os bons religiosos, que se dedicam à pureza da castidade e à abstinência corporal. Na seda, aqueles que, tendo deixado de lado todas as coisas terrenas, estão suspensos unicamente à doçura da contemplação. Na púrpura, aqueles que se crucificam na memória da Paixão do Senhor e, como se estivessem diante do Crucificado, contemplando com os olhos da mente aquele que pende do patíbulo, que derrama água e sangue do lado e que, inclinada a cabeça, entrega o espírito, derramam-se em lágrimas irreprimíveis. No escarlate tingido duas vezes, são representados aqueles que ardem de amor a Deus e ao próximo. Nos panos de lã de cabra, os penitentes, que expiam na cinza e no cilício as faltas cometidas. Sobre esses panos, procura no Evangelho da Páscoa, perto do fim.
Do mesmo modo, nas peles tingidas de vermelho são representados todos os mártires, que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,14), e que, triunfando sobre o mundo, chegaram coroados de louros à Igreja triunfante. Nas peles azuis, são representados todos os confessores, cuja vida esteve nos céus e que, por isso, passaram da esperança à visão. A bem-aventurada Maria, enquanto esteve nesta Igreja militante, possuiu as virtudes de todos os justos. Por isso diz no Eclesiástico: “Em mim está toda a graça do caminho e da verdade; em mim, toda a esperança da vida e da virtude” (Eclo 24,25). Teve também imensa compaixão pelos penitentes. Por isso disse: “Não têm vinho” (Jo 2,3), como se dissesse: Derrama, ó Filho, sobre os penitentes a graça do teu amor, porque não têm o vinho da compunção. Agora, porém, reina na glória, na qual possui as recompensas de todos os santos, porque foi exaltada acima dos coros dos anjos. Eis o “tabernáculo não feito por mãos, isto é, não pertencente a esta criação” (Hb 9,11), mas construído e consagrado pela graça do Espírito Santo. Digamos, portanto: “Seja bendita Jael em seu tabernáculo!”. Amém.
7. Segue-se: “Ele pediu água, ela lhe deu leite e, numa taça de príncipes, ofereceu manteiga” (Jz 5,25). Sísara interpreta-se como “exclusão da alegria” e significa o diabo, que, excluído da alegria da vida eterna, tenta também excluir dela os fiéis. A este, que pedia a água da concupiscência, nossa Jael deu leite. Foi por um desígnio divino que o mistério da Encarnação do Senhor permanecesse oculto ao diabo. Ao ver que a bem-aventurada Maria estava desposada com um homem, grávida, dando à luz um filho e amamentando-o, ele julgou que ela estivesse corrompida; e assim pediu a água da concupiscência como preço, julgando-a corrompida. Mas, enquanto a Virgem amamentava o Filho, enganou-o e, desse modo, matou-o com a estaca do tabernáculo e o martelo. Na estaca do tabernáculo, que é fechada com a estaca, está figurada a virgindade da bem-aventurada Maria; no martelo, que tem a forma de um “tau” (T), é figurada a cruz de Cristo. Jael, portanto, isto é, a bem-aventurada Maria, matou o diabo com a estaca do tabernáculo, isto é, com a virgindade de seu corpo, e com o martelo, isto é, com a Paixão de seu Filho. Por isso se diz no livro de Judite: “Uma só mulher hebreia lançou a confusão na casa de Nabucodonosor, o rei: eis que Holofernes jaz por terra, e sua cabeça não está nele” (Jt 14,16). Adonai, Senhor, Deus grande e admirável, a ti o louvor, a ti a glória, porque nos deste a salvação pela mão de tua Filha e Mãe, a gloriosa Virgem Maria.
Mas deve-se notar que, no meio da passagem citada, vem antes: “E numa taça de príncipes ofereceu manteiga”. Por causa desta palavra expusemos tudo o que foi dito anteriormente. Vejamos, portanto, o que significam a taça, os príncipes e a manteiga. Na taça, a humildade da pobreza; nos príncipes, os apóstolos; na manteiga, é significada a humanidade de Jesus Cristo. Em sua humildade de pobreza, que haveriam de possuir os príncipes ricos na fé e pobres neste mundo, ofereceu hoje no templo a manteiga, isto é, o Filho que havia gerado, do qual Isaías diz: “Comerá manteiga e mel” (Is 7,15). No mel, a divindade; na manteiga, a humanidade. Comeu manteiga e mel quando uniu a natureza divina à natureza humana e, por isso, soube, isto é, fez-nos saber, “rejeitar o mal e escolher o bem” (Is 7,15). Em sua pobreza, ofereceu o Filho e, com ele, a oferta dos pobres, isto é, “um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2,24). Como está escrito na lei do Senhor, isto é, no Levítico, onde se diz: “A mulher que, tendo recebido a semente, der à luz um menino, será impura durante sete dias” (Lv 12,2), para distingui-la daquela que deu à luz permanecendo virgem. Portanto, nem o Filho nem a Mãe precisavam ser purificados por meio de sacrifícios, mas o fizeram para que fôssemos libertados do temor da lei, isto é, da observância da lei, que era observada por temor. E ali se acrescenta: Quando se completarem os dias, isto é, quarenta dias, de sua purificação, oferecerá um cordeiro à entrada do tabernáculo. Mas, se sua mão não encontrar um cordeiro, nem puder oferecê-lo, oferecerá duas rolas ou dois pombinhos (cf. Lv 12,6.8). Esta era a oferta dos pobres, que não podiam oferecer um cordeiro, para que em tudo se manifestassem a humildade e a pobreza do Senhor. Os que são verdadeiramente pobres oferecem esta oblação ao Senhor.
8. Observa que, se a rola perder o companheiro, ficará para sempre sem ele; anda solitária, não bebe água clara, não sobe a um ramo verdejante. Do mesmo modo, a pomba é simples; tem o ninho mais áspero e pobre que os demais; não fere ninguém com o bico nem com as garras; não vive de rapina; alimenta os filhotes com o bico, daquilo de que ela mesma se alimentou; não come carniça; não ataca outras aves, nem mesmo as menores; alimenta-se de puro grão; aquece sob as asas os filhotes alheios como se fossem seus; permanece sobre as correntes de água, para precaver-se do falcão; faz o ninho na pedra; quando sobrevém a tempestade, foge para o ninho; defende-se com as asas; voa em bando; dá um gemido em vez de canto; é fecunda e alimenta gêmeos. Observa também que, quando a pomba tem filhotes e eles crescem, o macho vai e suga a terra salgada, e põe na boca dos filhotes aquilo que sugou, para que se acostumem ao alimento. E, se a fêmea demora a vir até os filhotes, por causa da dor do parto, o macho a golpeia e à força a põe para dentro.
Assim, os pobres de espírito, isto é, os verdadeiros penitentes, porque, pecando mortalmente, perderam o seu companheiro, isto é, Jesus Cristo, vivem sozinhos na solidão da mente e também do corpo, afastados do tumulto dos mundanos; não bebem a água clara da alegria mundana, mas a turva água da dor e do pranto. “A minha alma”, diz o Senhor, “está turbada. E que direi?” (Jo 12,27). Não sobem ao ramo verdejante da glória temporal, acerca do qual Ezequiel diz: “Aplicam o ramo às suas narinas” (Ez 8,17). Com efeito, os carnais aplicam às suas narinas o ramo da glória temporal, para não sentirem o fedor do pecado nem do inferno.
Do mesmo modo, são simples como as pombas. Têm áspero e pobre o ninho de sua conduta e também o próprio leito em que dormem corporalmente. Não fazem mal a ninguém; antes, perdoam àquele que lhes faz mal. Não vivem de rapina; pelo contrário, distribuem os seus bens. Reanimam com a palavra da pregação aqueles que lhes foram confiados e repartem de bom grado com os outros a graça que lhes foi concedida. Não incorporam em si a carniça, isto é, o pecado mortal. Diz o verso: “As carniças caem pela espada, as carniças pela morte.” Não escandalizam nem o grande nem o pequeno. Alimentam-se de puro grão, isto é, da pregação da Igreja, e não da dos hereges, que é imunda. Tornando-se tudo para todos, zelam pela salvação dos outros como pela sua própria; amam a todos nas entranhas de Jesus Cristo. Permanecem sobre as correntes da Sagrada Escritura, para preverem de longe a tentação do diabo, que trama arrebatá-los, e precaverem-se daquela que já previram. Fazem o ninho no buraco da pedra, isto é, no lado de Jesus Cristo; e, se sobrevém alguma tempestade de tentação da carne, fogem para o lado de Cristo e ali se escondem, dizendo com o Profeta: “Sê para mim, Senhor, uma torre de fortaleza diante do inimigo” (Sl 60,4). E ainda: “Sê para mim um Deus protetor” (Sl 70,3) etc. Não se defendem com as garras da vingança, mas com as asas da humildade e da paciência. Diz o Filósofo: “O melhor modo de vencer é a paciência.” E ainda: “A paciência é o porto das misérias.” Na unidade da Igreja, na congregação dos fiéis, voam juntamente com eles para as realidades celestes. O canto deles é um gemido. Sua melodia são as lágrimas e os suspiros. Fecundos pelo fruto da boa vontade, alimentam diligentemente dois filhotes, isto é, o amor de Deus e do próximo.
Observa também que todo penitente deve ter duas coisas: a misericórdia e a justiça. A misericórdia é, por assim dizer, a fêmea que guarda os filhotes; a justiça é o macho. A terra salgada é a carne de Jesus Cristo, cheia de amargura; dela o penitente deve sugar a amargura e a salinidade, e pô-las na boca dos filhotes, isto é, de suas obras, para que, acostumados a tal alimento, vivam sempre na dor e na amargura, crucificando a própria carne com seus vícios e concupiscências (cf. Gl 5,24). Mas, porque a discrição é a mãe de todas as virtudes, sem a qual não se deve oferecer o sacrifício, se a pomba, isto é, a misericórdia, demora a vir aos filhotes, por causa da dor do parto, isto é, da compunção e do gemido, a justiça, como macho, deve corrigi-la e, com certa força, introduzi-la para dentro, a fim de que alimente os filhotes e, alimentando-os, os guarde. Assim, o penitente deve doer-se do pecado, mas sem privar-se daquilo de que necessita e sem o qual não pode viver.
Quem oferecer semelhantes rolas e pombas, o sumo sacerdote, Jesus Cristo, purificá-lo-á de todo fluxo de sangue, isto é, de toda impureza do pecado. Voltemos, portanto, ao assunto, do qual nos afastamos um pouco, e digamos: “Como incenso fragrante nos dias do verão.”
9. Segue-se: “Como fogo resplandecente e incenso ardente no fogo.” Observa que hoje os fiéis da Igreja levam o fogo resplandecente na vela, que é composta de estopa e cera. No fogo é simbolizada a divindade; na cera, a humanidade; na estopa, a aspereza da Paixão do Senhor. A bem-aventurada Virgem hoje levou e ofereceu no templo o Filho de Deus e seu próprio Filho; em figura desse acontecimento, os fiéis hoje levam e oferecem o fogo na vela. Nesses três elementos é representada a verdadeira penitência: no fogo, o ardor da contrição, que extirpa todas as raízes dos vícios; na cera, a confissão do pecado. Assim como a cera se derrete diante do fogo (cf. Sl 67,3), assim, pelo ardor da contrição, a confissão flui da boca daquele que confessa, enquanto correm as lágrimas; na estopa, a aspereza da satisfação. Nesses três atos está Jesus, isto é, a salvação do homem; e quem os oferecer a Deus poderá dizer com o justo Simeão: “Agora, Senhor, deixas o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para revelação das nações e glória do teu povo de Israel” (Lc 2,29-32).
Observa que, nestes quatro versículos, são designadas quatro bem-aventuranças do penitente. A primeira está na remissão plena dos pecados e na tranquilidade da consciência, onde se diz: “Agora, Senhor, deixas o teu servo partir” etc. A segunda, na separação da alma do corpo, na qual verá aquele em quem creu e a quem desejou; daí: “Porque os meus olhos viram”. A terceira, no exame do juízo final, no qual se dirá: “Dai-lhe do fruto de suas mãos, e louvem-no às portas as suas obras”; daí: “Que preparaste” etc. A quarta, na luz da glória eterna, na qual verá face a face e conhecerá assim como é conhecido; daí: “Luz para revelação” etc. “Diz-se, portanto, muito bem: Como fogo resplandecente e como incenso ardente no fogo.”
Jesus Cristo resplandeceu como fogo, em seu nascimento, para os pastores; em sua manifestação, para os três Magos; na Purificação de sua Mãe, para Simeão e Ana, que profetizavam. Em sua Paixão, porém, ardeu como incenso no fogo; de sua fragrância foram preenchidos os céus, a terra e os infernos; os anjos no céu alegraram-se com a redenção do gênero humano; os mortos na terra ressuscitaram; os cativos no inferno foram libertados.
Rogamos-te, portanto, ó nossa Senhora, eleita Mãe de Deus, que nos purifiques do sangue dos pecados; que nos faças levar o fogo resplandecente da contrição, na cera da confissão e na estopa da satisfação, para que mereçamos chegar à luz e à glória da Jerusalém celeste. Conceda-nos isso aquele que hoje ofereceste no templo, a quem pertencem a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.