“Como o sol resplandecente”.
“Como o sol resplandecente”.
No mesmo sermão, sobre a natureza e a castidade do elefante.
Também contra a luxúria, onde diz: “Destruirei o nome da Babilônia”.
No mesmo sermão, diz-se por que as frondes ou folhas caem da árvore e sobre as quatro cores que existem no arco-íris.
“Serei como o orvalho”.
No mesmo sermão, sobre a lã da ovelha e a natureza da manteiga e do queijo.
Também no mesmo sermão, sobre o mesmo assunto, onde diz: “Eis um grande vento”.
No mesmo sermão, sobre a natureza do orvalho e a propriedade do lírio.
“Como a flor das rosas nos dias de primavera”.
No mesmo sermão, contra os prelados da Igreja, onde diz: “Encontrareis um menino”.
No mesmo sermão, encontrarás por que, na Natividade do Senhor, se celebram três missas, e sobre a propriedade do lírio e o seu significado.
1. “Como o sol resplandecente e como o arco-íris brilhante entre as nuvens de glória” (Eclo 50,7-8), etc.
Diz o Eclesiástico: “Vaso admirável é a obra do Altíssimo” (Eclo 43,2). A bem-aventurada Maria é chamada vaso, porque é o tálamo do Filho de Deus, a morada especial do Espírito Santo, o triclínio da Santíssima Trindade. Por isso diz o Eclesiástico: “Aquele que me criou repousou em meu tabernáculo” (Eclo 24,12). Este vaso foi “obra admirável do Altíssimo”, o Filho de Deus, que a fez mais bela que todos os mortais e mais santa que todos os santos, e nela ele próprio se fez. “O Verbo”, diz, “fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A respeito dessa obra admirável diz-se no terceiro livro dos Reis que Salomão esculpiu nas portas do templo querubins, figuras de palmeiras e baixos-relevos (cf. 3Rs 6,32). A porta do céu, a porta do paraíso, é a bem-aventurada Maria, na qual o verdadeiro Salomão esculpiu “querubins”, nos quais se representam a vida angélica e a plenitude da caridade; “figuras de palmeiras”, nas quais se representam a vitória sobre o inimigo, o verdor da perseverança e a sublimidade da contemplação; e “baixos-relevos”, que são esculturas salientes, nos quais se representam a humildade e a virgindade. Tudo isso foi esculpido na bem-aventurada Virgem pela mão da Sabedoria. Diz-se, portanto, com razão a seu respeito: “Como o sol resplandecente”, etc.
2. Observa que a bem-aventurada Maria foi como o sol resplandecente na anunciação do anjo, como o arco-íris brilhante na concepção do Filho de Deus, como a rosa e o lírio no nascimento dele. No sol há três coisas, a saber: esplendor, candor e calor, que correspondem às três partes das palavras de Gabriel. A primeira: “Ave, cheia de graça”; a segunda: “Não temas”; a terceira: “O Espírito Santo virá sobre ti”.
Quando diz: “Ave, cheia de graça; o Senhor está contigo; bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,28), eis o esplendor do sol. Isso pode ser relacionado às quatro virtudes, cada uma das quais resplandeceu em Maria de três modos. Da temperança, com efeito, teve a prudência do corpo, a modéstia das palavras e a humildade do coração. Teve prudência quando, perturbada, permaneceu em silêncio; compreendeu o que ouvira e respondeu ao que lhe era proposto. Teve justiça quando deu a cada um o que lhe era devido. Mostrou firmeza de coração em seu desponsório, na circuncisão do Filho e na purificação prescrita pela lei. Manifestou compaixão aos aflitos quando disse: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Teve comunhão com os santos quando perseverava na oração com os apóstolos e as outras mulheres (cf. At 1,14). Pela fortaleza, ou grandeza de ânimo, assumiu o propósito da virgindade, conservou-o e deu prova de fé em compromisso tão sublime.
Bernardo diz que as doze estrelas na coroa da mulher, como se lê no Apocalipse (cf. Ap 12,1), são doze prerrogativas da Virgem: quatro do céu, quatro da carne e quatro do coração, que sobre ela resplandeceram como estrelas do firmamento. As prerrogativas do céu foram: o nascimento de Maria, a saudação do anjo, a vinda do Espírito Santo e a inefável concepção do Filho de Deus. As prerrogativas da carne foram: ser a primícia das virgens, fecunda sem corrupção, grávida sem incômodo e parturiente sem dor. As prerrogativas do coração foram: a devoção da humildade, a mansidão do pudor, a magnanimidade da fé e o martírio do coração, pelo qual uma espada lhe atravessou a alma (cf. Lc 2,35). Às prerrogativas do céu pode ser referido o que se diz: “O Senhor está contigo”; às prerrogativas da carne: “Bendita és tu entre as mulheres”; e às do coração: “Cheia de graça”.
3. Além disso, quando diz: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e chamarás o seu nome Jesus” (Lc 1,31) etc., eis o esplendor do sol. Como poderia ela conceber o esplendor da luz eterna, o espelho sem mancha, se não fosse cândida? Por isso, acerca de seu candor, diz o Filho no Cântico dos Cânticos: “O teu ventre é de marfim, adornado de safiras” (Ct 5,14). O marfim, osso do elefante, é branco e frio; nele se designa uma dupla pureza: no candor da mente e na frieza do corpo; e essas duas coisas estiveram no leito nupcial da gloriosa Virgem. Lê-se nas coisas naturais que o elefante é o mais doméstico e obediente de todos os animais selvagens; recebe bem a instrução e compreende, e, por isso, é instruído a adorar o rei, além de possuir bom senso. E foge sobretudo do odor do rato, que, como dizem alguns, nasce da umidade da terra. Com efeito, mus significa terra, donde também ela se chama humus. Neste ponto, o elefante significa a bem-aventurada Virgem, que foi mais humilde e obediente que todas as demais criaturas e adorou o rei que gerou. O rato significa a luxúria, que nasce da umidade da terra, isto é, do prazer da gula; e a bem-aventurada Virgem não apenas não teve luxúria, mas também fugiu de seu odor, pois até com a entrada do anjo se perturbou. Assim, todos os que querem viver castamente em Cristo Jesus devem fugir não somente do rato da luxúria, mas também de seu odor. E não é de admirar que se deva fugir da fornicação, quando o elefante, que é quase uma grande montanha, foge do rato.
4. Por isso diz o Senhor por meio de Isaías: “Destruirei o nome da Babilônia, e os restos, a prole e a descendência” (Is 14,22). O homem justo, o nazireu do Senhor, deve destruir o “nome da Babilônia”, isto é, toda espécie de luxúria — donde: “Afastem-se de vossa boca as coisas antigas” (1Rs 2,3). “Não fale”, diz, “minha boca das obras dos homens” (Sl 16,4) —; e também “os restos”, isto é, as imaginações da luxúria, que costumam permanecer depois de perdoado o pecado; “a prole”, isto é, a lascívia errante dos olhos. A respeito dessa prole diz Isaías: “Da raiz da serpente sairá uma víbora, e sua descendência tragará o ser alado” (Is 14,29). “Da raiz da serpente”, isto é, da sugestão do demônio ou do consentimento da mente, “sairá uma víbora”, isto é, o olho luxurioso, porque, como diz Agostinho, o olho impudico é mensageiro do coração impudico; “e sua descendência”, isto é, a suavidade das palavras e a petulância do riso, “tragará o ser alado”, isto é, o homem justo. Ai! Quantos seres alados, por tão infeliz desfecho e excesso, foram tragados. E por isso “a descendência”, isto é, tudo o que cerca a luxúria, deve ser destruída e exterminada, para que o ventre, isto é, a mente, possa ser de marfim. Diz-se, portanto, com razão: “Seu ventre é de marfim, guarnecido de safiras”.
A safira é uma pedra de cor celeste; numa casa onde houver uma, o demônio não se aproximará. Na safira é designada a contemplação celeste; à mente que ela afeta, o demônio não se aproxima. E, porque não se deve dedicar todo o tempo à contemplação, diz-se “guarnecido de safiras”, como se dissesse: não há safiras em toda parte, porque tampouco se deve perseverar sempre na vida contemplativa. O ventre da gloriosa Virgem foi de marfim e guarnecido de safiras, porque sobressaía, quanto ao corpo, pelo candor da virgindade, e, quanto à alma, pela beleza da contemplação.
5. Além disso, quando diz: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (Lc 1,35), eis o calor. Observa que o calor é o alimento e o nutrimento de todos os seres vivos; faltando ele, sobrevêm o declínio e a morte. Com efeito, a morte é a extinção do calor natural no coração, por causa da falta de umidade e da chegada do que lhe é contrário. Observa, portanto, que a causa da queda das folhas é a retirada dos alimentos, isto é, dos calores. Quando, no inverno, o frio domina exteriormente as árvores e as ervas, o calor, fugindo do que lhe é contrário, esconde-se nas raízes; e, quando ali aumenta, atrai profundamente para si a umidade dos ramos superiores e das extremidades, a fim de temperar a intensidade do seu calor e impedir que as partes inferiores se incendeiem. Por isso, faltando nas partes superiores o seu alimento, é necessário que as folhas caiam. O calor é a graça do Espírito Santo; se ela se retirar do coração do homem, falta a umidade da compunção e, assim, a alma infeliz cai na morte do pecado. Com efeito, sobrevindo o frio da iniquidade, o calor do Espírito Santo foge do que lhe é contrário, e assim a alma fica despojada de todos os bens. A entrada do vício produz a saída da virtude. Por isso, lê-se no livro da Sabedoria: “O Espírito Santo, que ensina, fugirá da falsidade, afastar-se-á dos pensamentos insensatos e será expulso quando sobrevém a iniquidade” (Sb 1,5), isto é, será arrebatado juntamente com todos os seus bens, por causa da iniquidade que sobrevém. Quando, porém, chega o calor, a terra concebe, faz germinar a erva e produz o fruto. Assim, sobrevindo o Espírito Santo, a terra bendita concebeu e deu à luz o Fruto bendito, que afastou toda maldição. Diz-se, portanto, com razão: “O Espírito Santo descerá sobre ti” etc. Maria foi, pois, como o sol resplandecente na Anunciação do anjo.
6. Maria foi, além disso, como um arco-íris resplandecente na concepção do Filho de Deus. O arco-íris forma-se quando o sol entra numa nuvem, na qual há quatro cores: fuliginosa, azul, dourada e ígnea. Assim, neste dia, entrando o Filho de Deus, sol da justiça, na nuvem, isto é, na gloriosa Virgem, a própria Virgem tornou-se como um arco-íris resplandecente, sinal da aliança, da paz e da reconciliação, entre as nuvens da glória, isto é, entre Deus e os pecadores. Por isso, diz-se no Gênesis: “Porei o meu arco nas nuvens, e ele será o sinal da aliança entre mim e a terra” (Gn 9,13).
Observa que havia duas nuvens: a ira de Deus e a culpa do homem. Deus e o homem combatiam entre si. Deus, com a espada da ira, ferindo o homem e precipitando-o na morte; o homem, com a espada da culpa, pecando mortalmente contra Deus. Depois, porém, que o sol entrou na Virgem, fez-se a paz e a reconciliação, porque o próprio Filho de Deus e da Virgem, reparando diante do Pai a culpa do homem, conteve a ira deste, para que não ferisse o homem. Essas nuvens são chamadas de glórias, porque foram dissipadas por meio da gloriosa Virgem.
Observa que, no arco de cor fuliginosa, é indicada a pobreza da bem-aventurada Maria; no azul, a sua humildade; no dourado, a sua caridade; e, no ígneo, cuja chama não pode ser cortada nem ferida pela espada, a sua virgindade incorrupta. A respeito desse arco diz o Eclesiástico: “Contempla o arco e bendize aquele que o fez: ele é muito belo em seu esplendor; circundou o céu com o círculo de sua glória” (Eclo 43,12-13). Contempla o arco, isto é, considera a beleza, a santidade e a dignidade da bem-aventurada Virgem Maria, e bendize, com o coração, com a boca e com as obras, o seu Filho, que a fez assim. Com efeito, no esplendor de sua santidade, ela é muito bela, acima de todas as filhas de Deus; ela circundou o céu, isto é, envolveu a divindade, com o círculo de sua glória, isto é, com a sua gloriosa humanidade.
Eia, pois, nossa Senhora, única esperança! Suplicamos-te: ilumina as nossas mentes com o esplendor da tua graça, purifica-as com a candura da tua pureza, aquece-as com o calor da tua visita. Reconcilia-nos todos com o teu Filho, para que mereçamos chegar ao esplendor da sua glória.
Conceda-no-lo aquele que, hoje, ao anúncio do anjo, quis assumir de ti a carne gloriosa e habitar durante nove meses em teu seio; a ele, honra e glória pelos séculos eternos. Amém.
7. “Serei como o orvalho para Israel, e ele florescerá como um lírio; sua raiz brotará como o Líbano. Seus ramos se estenderão, sua beleza será como a da oliveira, e seu perfume como o do Líbano” (Os 14,6-7).
“Naquele dia, as montanhas destilarão doçura, e as colinas fluirão leite e mel” (Jl 3,18). O dia, que se diz de “dian”, isto é, claridade, significa o tempo da graça, no qual as “montanhas”, isto é, os pregadores, destilam a doçura da pregação; e as “colinas”, isto é, os ouvintes dos pregadores, fazem fluir leite e mel da Encarnação do Senhor. E observa que diz: “as montanhas destilam”, pois tudo quanto pregam é como uma gota em comparação com a misericórdia divina, que “não pelas obras de justiça”, isto é, pela nossa justiça, “nos salvou” (Tt 3,5); “e as colinas fluirão”: tendo recebido a gota da pregação, os ouvintes devem transbordar abundantemente de fé no Verbo encarnado, isto é, no Filho de Deus, que fala em Oseias, perto do fim, dizendo assim: “Serei como o orvalho” etc.
8. O Filho de Deus é comparado ao orvalho por causa de três propriedades. Com efeito, o orvalho desce pela manhã, cai suavemente e proporciona refrigério no calor. Assim também o Filho de Deus, pela manhã, isto é, no tempo da graça, desceu à Virgem. Por isso se diz no Êxodo: “Pela manhã apareceu no deserto um orvalho miúdo e como que triturado no pilão”, entende-se, o maná, “e semelhante à geada sobre a terra; e o seu sabor era como o da farinha fina com mel” (Ex 16,13.14.31). O deserto é a bem-aventurada Virgem, da qual diz Isaías: “Envia, Senhor, o cordeiro”, não o leão, “que há de dominar a terra”, não o devastador, “da pedra do deserto”, isto é, da bem-aventurada Virgem, “ao monte da filha de Sião” (Is 16,1), isto é, da Igreja, que é a filha de Sião, ou seja, da Jerusalém celeste. E observa que a bem-aventurada Virgem é chamada “pedra do deserto”. “Pedra”, porque não pode ser arada; sobre ela, a serpente, isto é, o diabo, que cultiva as sombras, como diz Salomão, não pôde encontrar caminho (cf. Pr 30,18-19). É chamada também “do deserto”, porque não cultivada e não semeada com semente humana, mas fecundada pela obra do Espírito Santo.
Diga-se, portanto: “Apareceu o orvalho”, isto é, o Filho de Deus, “no deserto”, isto é, na bem-aventurada Virgem. Ele foi o maná, feito “miúdo” na concepção e no nascimento; e “como que triturado no pilão” na Paixão, açoitado com varas, esbofeteado, coberto de escarros; e “semelhante à geada sobre a terra” na pregação dos apóstolos — “Por toda a terra se difundiu a voz deles” (Sl 18,5) etc. —; e o seu “sabor” nos será doce “como o da farinha fina com mel”, isto é, da humanidade unida à divindade, na bem-aventurança da pátria celeste. Diga, portanto, o Filho de Deus: “Serei como o orvalho”, que, na manhã do tempo da graça, desce à Virgem.
Serei também como o orvalho que desce suavemente, como diz o Profeta: “Descerá como a chuva sobre a relva e como gotas que caem sobre a terra” (Sl 71,6). Observa que a chuva cai de um modo, e o granizo, de outro. A chuva desce suavemente para fecundar; o granizo, porém, com violência, para esterilizar. Na primeira vinda, Cristo foi como a chuva que desceu sobre o velo, no seio da Virgem; na segunda, será como o granizo, golpeando os ímpios com a sentença de morte. Por isso diz Davi: “Fogo, granizo, neve, gelo, vento de tempestade, que executam” (Sl 148,8) etc. “Fogo” será aquele que queima sem consumir, do qual se diz: “Ide, malditos, para o fogo eterno” (cf. Mt 25,41); “granizo”, que golpeia, do qual Jeremias diz: “Uma tempestade que se precipita sobre a cabeça dos ímpios” (cf. Jr 30,23); “neve”, que absorve, da qual Jó diz: “Aquele que teme a geada”, isto é, a pena da penitência, “sobre ele cairá a neve” (cf. Jó 6,16) da morte eterna; “gelo”, que congela; “vento de tempestade”, que nunca cessa. Estas coisas serão “a parte do cálice”, isto é, do castigo, “deles” (Sl 10,7), que bebem do cálice de ouro da Babilônia, isto é, do mundo, que está na mão da meretriz, isto é, da concupiscência da carne. Mas o Filho de Deus, na primeira vinda, desceu como a chuva sobre o velo. Como se diz no livro dos Juízes, o orvalho desceu sobre o velo de Gedeão (cf. Jz 6,37-38). A esse respeito, diz o bem-aventurado Bernardo: O Filho de Deus derramou-se todo no velo, isto é, na Virgem, para depois irrigar a eira seca, isto é, o mundo.
9. Veio, portanto, o Filho para fazer para si uma veste com a lã da ovelha, isto é, da Virgem, que é chamada ovelha por causa de sua inocência. Ela é a nossa Raquel, que se interpreta ovelha, e que o verdadeiro Jacó encontrou junto ao poço da humildade, como se diz no livro do Gênesis. Ou a ovelha foi Adão, do qual se diz: “Andei errante como uma ovelha perdida” (Sl 118,176). Diz-se nos livros das coisas naturais que, se da lã de uma ovelha dilacerada pelo lobo se fizer uma veste, nela proliferam vermes. Assim, a lã da nossa carne, proveniente da ovelha, isto é, do primeiro pai, dilacerado pelo lobo, isto é, pelo diabo, que contraímos, prolifera em vermes dos primeiros movimentos e apodrece. Mas, para nos purificar da contaminação da carne e do espírito, Cristo tomou uma lã incorrupta, como a que a ovelha possuía antes de ser dilacerada pelo lobo. Por isso Isaías diz dele: “Comerá manteiga e mel” (Is 7,15). Observa que a ovelha produz duas coisas: manteiga e queijo. A manteiga é doce e gorda; o queijo, árido e seco. A manteiga significa a inocência da natureza, tal como era antes do pecado; o queijo significa a penalidade e a aridez que ela teve depois do pecado. “Maldita”, diz ele, “a terra”, isto é, a carne, “por causa da tua obra”, isto é, por causa do teu pecado; “espinhos e cardos”, isto é, dores maiores e menores, “ela produzirá para ti” (Gn 3,17-18). Cristo, porém, não comeu queijo, mas manteiga, porque assumiu a nossa natureza tal como Adão a tinha antes do pecado, e não tal como a teve depois do pecado: assumiu não apenas o saco, mas a realidade do saco; não o pecado, mas a pena do pecado.
Foi também a abelha pousada sobre a flor, isto é, sobre a bem-aventurada Virgem em Nazaré, nome que se interpreta flor. A respeito dessa abelha diz o Eclesiástico: “Pequena entre os seres alados é a abelha, mas o seu produto tem o primeiro lugar entre as coisas doces” (Eclo 11,3). Na primeira vinda, teve o mel da misericórdia; na segunda, ferirá com o aguilhão da justiça: “Misericórdia e juízo cantarei para ti, Senhor” (Sl 100,1), diz o Profeta. Eis que tens claramente como ele desceu suavemente, como a chuva sobre a relva.
10. De hac suavitate dicitur in tertio libro Regum: Ecce spiritus grandis et fortis, subvertens montes et conterens petras, sed non in spiritu Dominus. Et post spiritum, commotio; et ibi non fuit Dominus. Et post commotionem, ignis; nec ibi Dominus. Et post ignem, sibilus aurae tenuis; ibi Dominus (cf. 3Reg 19,11-12). In hodierno evangelio habes ista quattuor. Spiritus grandis fuit angelica salutatio, grandia promittens et a Gabriele, qui interpretatur fortitudo, mulieri fortissimae prolata. Haec salutatio subvertit montes superbiae et contrivit petras, idest duritiem mentis humanae. Quattuor quae in hac salutatione reperiuntur, quattuor lapidis sapphyri proprietatibus comparantur. Sapphyrus stellam videtur ostendere, cui proprietati convenit: "Ave, gratia plena "(Lc 1,28); aerei est coloris, et huic convenit: "Dominus tecum "(Lc 1,28); sanguinem restringit, et in hoc concordat: "Benedicta tu in mulieribus "(Lc 1,28), quae primae maledictionis sanguinem restrinxisti. Item, sapphyrus anthracem necat, et huic proprietati competit: "Benedictus fructus ventris tui "(Lc 1,42), qui diabolum interfecit. Bene ergo dicitur: "Ecce spiritus grandis" etc., et ibi non fuit Dominus, idest Verbi Incarnatio. Et post spiritum salutationis, commotio: "Turbata est," inquit, "in sermone eius, et cogitabat qualis esset ista salutatio "(Lc 1,29); et ibi non fuit Dominus, idest Verbi Incarnatio. Et post commotionem, ignis, idest Spiritus Sancti superventio et virtutis Altissimi
obumbratio (cf. Lc 1,35); nec ibi fuit Dominus. Et post ignem, sibilus aurae tenuis, scilicet: "Ecce ancilla Domini "(Lc 1,38); ibi fuit Dominus, idest Filii Dei Incarnatio. Cum enim dixit: "Fiat mihi secundum verbum tuum "(Lc 1,38), statim "Verbum caro factum est et habitavit in nobis "(Io 1,14).
11. Além disso, a rugiada proporciona refrigério. Assim, o Filho de Deus derrama água fresca sobre o gênero humano, submetido ao ardor da perseguição demoníaca. Dela diz Salomão: “Água fresca para a alma sedenta; uma boa notícia de terra distante” (Pr 25,25). O bom mensageiro, anunciador de boas-novas, foi Jesus Cristo, que derramou abundantemente a água fresca de sua Encarnação na alma de Adão e na de sua posteridade, sedentas no ardor da geena, quando as tirou do poço em que não havia água de refrigério, como diz Zacarias, pelo sangue de sua aliança (cf. Zc 9,11). Diz, portanto, o Filho em Oseias: “Serei como a rugiada”, que desce suavemente pela manhã e proporciona refrigério.
Segue-se: “Israel brotará como o lírio”. Israel, que se interpreta “aquele que vê Deus”, é a bem-aventurada Maria, que viu Deus, pois o alimentava em seu seio, amamentava-o com os seios e o levava para o Egito. Ela, sob a descida da rugiada, brotou como o lírio, cuja raiz é medicinal, cujo caule é sólido e ereto, e cuja flor é branca, com a corola aberta. A raiz da Virgem foi a humildade, reprimindo o inchaço da soberba; seu caule foi sólido pela renúncia às coisas temporais e ereto pela contemplação das coisas celestes; sua flor foi branca pela alvura da virgindade. Ela foi um lírio aberto, voltado para a raiz, quando disse: “Eis a serva do Senhor” etc. Esse lírio brotou quando, sem lesar a flor da virgindade, deu à luz o Filho de Deus Pai. Assim como o lírio não perde a flor por exalar o perfume, assim a bem-aventurada Virgem não perdeu a flor da virgindade por ter dado à luz o Salvador (Guerrico, abade).
Segue-se: “Sua raiz irromperá como a do Líbano. Seus ramos se estenderão.” A raiz do lírio é a intenção do coração; se ela for simples — como diz o Senhor: “Se o teu olho”, isto é, a intenção do teu coração, “for simples” —, isto é, sem a dobra da fraude, “seus ramos se estenderão”, porque suas obras crescem para o alto, e assim “todo o teu corpo”, isto é, a obra que se segue, “será luminoso” (Lc 11,34). Com efeito, a raiz, isto é, a intenção da bem-aventurada Virgem, foi puríssima e perfumada; dela procederam os ramos de suas obras, retos e crescentes para o alto. Observa também que a raiz da intenção é chamada do Líbano, porque da pureza da intenção procede o incenso, isto é, o perfume da boa reputação.
Segue-se: “E sua glória será como a oliveira”, que significa paz e misericórdia. A bem-aventurada Virgem Maria, nossa mediadora, restabeleceu a paz entre Deus e o pecador. Por isso se diz dela no Gênesis: “Porei o meu arco nas nuvens do céu” (Gn 9,13) etc. O arco-íris tem duas cores: a da água e a do fogo. Na água, que nutre todas as coisas, é simbolizada a fecundidade; no fogo, cuja chama não pode ser ferida pela espada, é designada a virgindade inviolável da bem-aventurada Maria. Este é o sinal da aliança e da paz entre Deus e o pecador. É também a oliveira da misericórdia. Por isso diz o bem-aventurado Bernardo: “Tens, ó homem, um acesso seguro a Deus, pois tens diante do Filho a Mãe, e diante do Pai, o Filho. A Mãe mostra ao Filho o peito e os seios; o Filho mostra ao Pai o lado e as chagas. Portanto, ali não haverá rejeição alguma, onde se apresentam tantos sinais de caridade”.
Segue-se: “E seu perfume será como o Líbano”. Líbano interpreta-se “brancura” e significa o candor da vida inocente da bem-aventurada Maria; seu perfume, difundido por toda parte, restitui a vida aos mortos, o perdão aos desesperados, a graça aos penitentes e a glória aos justos.
Por suas preces e méritos, portanto, a rugiada do Espírito Santo refrigere o ardor de nossa mente, perdoe os pecados, infunda a graça, para que mereçamos alcançar a glória da vida eterna e imortal. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
12. “Como a flor da rosa nos dias de primavera e como os lírios que estão junto à passagem das águas” (Eclo 50,8).
Diz o Eclesiástico: “Frutificai como as rosas plantadas junto às correntes das águas; como o Líbano, exalai o perfume da suavidade. Florescei, ó flores, como o lírio, exalai perfume e frondejai em ação de graças” (Eclo 39,17-19). Nesta autoridade se observam três coisas: a abundância das lágrimas, a insistência da oração e a pureza da vida. As rosas são as almas dos fiéis, ruborizadas pelo sangue de Jesus Cristo; devem ser plantadas junto às correntes das águas, isto é, em torrentes de lágrimas, para poderem produzir fruto digno de penitência. Devem também, como o Líbano, ter o incenso da oração devota, em odor de suavidade. E, como o lírio, brancas pela pureza da vida, devem exalar o perfume da boa reputação e frondejar em ação de graças. Se as almas dos fiéis tiverem essas coisas, poderão apresentar-se dignamente à festividade de hoje, isto é, ao nascimento do Senhor, ao parto da bem-aventurada Virgem, da qual se diz: “Como a flor das rosas nos dias de primavera” etc.
13. O parto da gloriosa Virgem é comparado à rosa e ao lírio, porque, assim como estes, ao exalarem um perfume suavíssimo, não têm sua flor corrompida, assim a bem-aventurada Maria, dando à luz o Filho de Deus, permaneceu Virgem. Por isso, quando a Virgem o dava à luz, o Pai podia dizer o que Isaac disse a Jacó, no Gênesis: “Eis o perfume de meu filho, como o perfume de um campo cheio de flores, que o Senhor abençoou” (Gn 27,27). O nascimento de Jesus Cristo foi como o perfume de um campo cheio de flores, porque conservou intacta a flor da virgindade materna quando ele saiu dela. Também a bem-aventurada Virgem foi um campo cheio de rosas e lírios, que o Senhor abençoou. Por isso: “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,28).
Observa que a bem-aventurada Maria ficou perturbada quando ouviu que era bendita entre as mulheres, ela que sempre desejara ser bendita entre as virgens; por isso, “refletia qual seria o sentido daquela saudação” (Lc 1,29), que desde o princípio lhe parecia suspeita. E, quando na promessa do Filho isso se tornou claro, já não pôde dissimular o perigo de sua virgindade, e disse: “Como acontecerá isso, pois não conheço homem?” (Lc 1,34), isto é, propus-me não conhecê-lo. Ou talvez se diga que ficou perturbada porque ouvia proclamar-se a seu respeito algo que absolutamente não lhe parecia ser. Virtude deveras rara: que a tua santidade manifesta seja conhecida somente por ti! Contra isso diz o bem-aventurado Bernardo: “Tu te deprecias em segredo, pesada na balança da verdade; e, fora, fingindo ter outro valor, vendes-te a nós por um preço maior do que aquele que recebeste”.
Falemos, portanto, do parto virginal desta Virgem: “Como a flor das rosas nos dias de primavera”. Primavera, em latim ver, é assim chamada porque verdeja. Então a terra se veste de ervas, pinta-se de flores diversas, o clima se torna ameno, as aves tocam a cítara e tudo parece sorrir. Damos-te graças, ó Pai santo, porque, em pleno inverno, em meio aos maiores frios, nos concedeste um tempo primaveril. Com efeito, neste nascimento de teu Filho, Jesus bendito, celebrado em pleno inverno e em meio aos maiores frios, concedeste-nos um tempo primaveril, repleto de toda beleza. Hoje a Virgem, terra bendita, que o Senhor abençoou, deu à luz a erva verdejante, alimento dos penitentes, isto é, o Filho de Deus. Hoje ela se enfeita com flores de rosas e lírios dos vales. Hoje os anjos tocam a cítara: “Glória a Deus nas alturas” (Lc 2,14). Hoje se restabelece na terra a tranquilidade da paz. Que mais dizer? Tudo sorri, tudo se alegra. Por isso, hoje o anjo disse aos pastores: “Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: hoje vos nasceu, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo Senhor. E este será o sinal para vós: encontrareis um menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,10-12).
14. Observai, caríssimos, que o Anjo aparece aos pastores de ovelhas, porque, como diz Salomão, “com os simples está a sua familiaridade” (Pr 3,32). Aqueles que guardam um rebanho de pensamentos simples e inocentes ouvem do Anjo: “Este é o sinal para vós”, pelo qual vos assinalareis; “encontrareis um menino”, eis a humildade; “deitado numa manjedoura”, não ao seio da mãe, eis a abstinência; “envolto em panos”, eis a pobreza. Com este sinal o Pai assinalou o Filho (cf. Jo 6,27) e o enviou ao mundo. Com este sinal também vós vos assinalai: “Encontrareis”, diz ele, “um menino”, isto é, alguém que não fala. Verdadeiramente não falou, pois diante daquele que o tosquiava, não digo apenas diante daquele que o tosquiava, mas diante daquele que o tosquiava e matava, permaneceu mudo e não abriu a boca (cf. Is 53,7).
“Encontrareis”, portanto, “um menino”. Verdadeiramente um menino, aquele que agora se cala, como se ignorasse os pecados dos homens; e, porque não se vinga, os pecadores julgam que ele não vê. Por isso o Senhor se queixa por meio de Isaías: “Mentiste e não te lembraste de mim, nem refletiste em teu coração, porque eu me calava e era como se não visse, e tu te esqueceste de mim. Eu anunciarei a tua justiça” (Is 57,11-12), e te retribuirei justamente segundo as tuas obras (cf. Pr 24,29). Sobre elas acrescenta: “E as tuas obras não te aproveitarão” (Is 57,12).
“Encontrareis”, portanto, “um menino”. Ai, ai! Não um menino, mas um que ladra e difama, murmura e adula, é o que encontro por onde quer que me volte; e tu dizes: “Encontrareis um menino”? Encontro alguém que fala, que põe a boca no céu e cuja língua percorre a terra (cf. Sl 72,9), isto é, que, ao difamar, não poupa nem o justo nem o pecador. Encontro alguém que fala, que chama o bem de mal e o mal de bem, que põe as trevas como luz e a luz como trevas, o amargo como doce e o doce como amargo (cf. Is 5,20).
Segue-se: “Deitado numa manjedoura”. Quase todos, como filhotes de jumentas, sugam os seios por trás, isto é, entregam-se à gula e à luxúria. O Senhor foi deitado numa manjedoura, e estes ficam pendurados nos seios da fornicária e da grande prostituta, que embriagou os habitantes da terra com o vinho de sua prostituição (cf. Ap 17,1-2), para serem suspensos na geena, para a ruína de sua alma.
“Encontrareis”, diz ele, “envolto em panos”. Em panos, não em peles, com as quais foram vestidos os primeiros pais, expulsos do paraíso. Os que se vestem de peles estão nas moradas dos demônios. As peles são assim chamadas de pellere, isto é, repelir ou expulsar; daí se diz pellex. Pellex, isto é, meretriz, vem de pellicere, porque, com a pele, isto é, com a sua beleza, engana os homens. Pellicere significa atrair lisonjeando. Os glutões e as meretrizes vestem-se de peles, porque se gloriam da aparência exterior. Que direi dos prelados efeminados do nosso tempo, que se enfeitam como mulheres destinadas ao casamento, vestem-se de peles variadas, e cujos excessos aparecem em selas pintadas, nos arreios dos cavalos e nas esporas, que avermelham com o sangue de Cristo? Eis a quem hoje é confiada a esposa de Cristo, ele que foi envolto em panos e deitado numa manjedoura, enquanto estes se entregam à luxúria em leitos de marfim e se vestem de peles. Elias e João tinham um cinto de pele ao redor dos lombos. Ó peles envelhecidas nos dias maus (cf. Dn 13,52), se quereis ter uma pele, tende um cinto, não uma túnica de pele; e isso ao redor dos lombos (cf. Mt 3,4), para mortificardes a pele do vosso corpo. “Pele por pele”, diz Jó, “dará o homem” (cf. Jó 2,4). Mortificai a pele do corpo destinado à morte, para que a recebais glorificada na ressurreição geral. Ó pastores da Igreja, este é o sinal para vós: “Encontrareis um menino” etc. Assinalai-vos com o sinal da humildade e da abstinência deste menino, e com o selo de sua áurea pobreza, vós que viveis de seu patrimônio.
15. “Como a flor da rosa nos dias de primavera.” Observai que, assim como Deus criou o mundo na primavera, isto é, em março, assim também, no nascimento de seu Filho, fez um mundo novo, renovando todas as coisas. No primeiro dia Deus disse: “Faça-se a luz. E fez-se a luz” (Gn 1,3). E hoje o Verbo do Pai, por meio do qual tudo foi feito, fez-se carne (cf. Jo 1,3.14). Esta Luz, que disse: “Faça-se a luz”, hoje veio a ser. Por isso hoje se canta a seu respeito na Missa da Luz: “A luz resplandecerá” (cf. Is 9,2) etc.
Observai que neste dia se celebram três missas: a missa da noite, na qual se canta: “O Senhor me disse” (Sl 2,7), e que representa a geração oculta da divindade, que ninguém pode narrar; a missa da luz, que representa a geração de hoje a partir da Mãe; e a missa da terça, que representa simultaneamente a geração da Mãe e do Pai. Por isso, em seu intróito, canta-se: “Nasceu para nós um menino” (cf. Is 9,6), o que diz respeito à geração a partir da Mãe; e lê-se o Evangelho: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1), o que diz respeito à geração a partir do Pai. Por isso a primeira missa é cantada à noite, porque aquela geração a partir do Pai é oculta para nós, que nela cremos. A segunda missa é celebrada bem cedo, ao amanhecer, porque a geração a partir da Mãe nos foi visível e, contudo, estava como que envolta em certa névoa. Com efeito, quem pode desatar a correia de sua sandália, isto é, investigar o mistério de sua Encarnação? (cf. Mc 1,7; Lc 3,16; Jo 1,27). A terceira missa é cantada em pleno dia porque, no dia da eternidade, quando toda obscuridade tiver passado, conheceremos claramente de que modo Jesus Cristo foi gerado do Pai e de que modo da Mãe. Então conheceremos aquele que conhece todas as coisas, porque o veremos face a face e seremos como ele é (cf. 1Jo 3,2). Diz-se, portanto, muito apropriadamente: “Como o orvalho nos dias de primavera”.
16. Segue-se: “Como lírios que estão junto ao curso da água.” Observa que o lírio nasce de terra inculta, brota nos vales, é perfumado e cândido; fechado, conserva o perfume; aberto, difunde-o; tem seis pétalas, estames dourados e, no centro, o pistilo; tem a propriedade de curar os membros queimados. É chamado lírio, como que leitoso (lat. lilium, lacteum), e significa a bem-aventurada Virgem, cândida pelo esplendor da virgindade, que nasceu de pais castos e humildes: Joaquim, cujo nome significa “Deus faz levantar”, e Ana, que significa “graça”. Hoje ela deu à luz o Filho de Deus, assim como o lírio difunde o seu perfume. Esse lírio tem seis pétalas; sobre elas, procura a explicação na segunda seção do Evangelho: “Enquanto as multidões se precipitavam sobre Jesus” (Lc 5,1), onde se fala dos seis degraus do trono de Salomão (“Domingo V depois de Pentecostes”).
Os estames dourados do lírio são a pobreza e a humildade em Maria, virtudes que adornaram a sua virgindade. O pistilo no centro do lírio foi a sublimidade do amor divino no coração da bem-aventurada Virgem. Ela é a medicina dos pecadores, que foram queimados no fogo dos vícios.
A respeito deles diz Joel: “Todos os seus rostos serão reduzidos a uma panela” (Jl 2,6). A panela é um recipiente para cozinhar, assim chamada porque nela a água ferve, com o fogo colocado por baixo, e se desprende vapor. Por isso também se diz “bolha”, que se forma na água, como sustentada interiormente pelo sopro do vento. A panela é a mente do pecador, na qual se encontra a água da concupiscência, que produz as bolhas dos pensamentos perversos, quando se coloca por baixo o fogo da sugestão diabólica. Dessa panela procede a fumaça do mau consentimento, que cega o olho da alma; e assim a mente do pecador contrai a negrura. O rosto é assim chamado porque por meio dele se manifesta a vontade da alma, e significa as obras pelas quais o homem é conhecido. Portanto, os rostos dos pecadores são reduzidos a uma panela quando, pela negrura da mente, as obras são contaminadas. A bem-aventurada Maria, com o candor medicinal de sua santidade, elimina essa negrura e essa queimadura, e concede plena saúde aos que esperam nela.
Digamos, portanto: “Como lírios junto ao curso da água”, como se dissesse: assim como os lírios, junto ao curso da água, permanecem viçosos, belos e perfumados, assim a bem-aventurada Maria, quando deu à luz o Filho, permaneceu no viço e na beleza de sua virgindade.
Rogamos-te, portanto, ó nossa Senhora, Mãe benigna de Deus, que nesta Natividade de teu Filho, que geraste permanecendo virgem, envolveste em panos e reclinaste no presépio, nos obtenhas dele o perdão; que cures, com o bálsamo de tua misericórdia, a queimadura de nossa alma, que contraímos do fogo do pecado, para que mereçamos chegar à alegria da festa eterna. Conceda-no-lo aquele que hoje se dignou nascer de ti, ó Virgem gloriosa, a quem pertencem a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.