1. Naquele tempo: “Foi enviado por Deus o anjo Gabriel” (Lc 1,26).
Neste trecho evangélico consideramos três momentos: o envio de Gabriel à Virgem, o anúncio da concepção do Senhor, a intervenção do Espírito Santo.
2. O envio de Gabriel à Virgem, como se lê: “Foi enviado o anjo Gabriel”. Gabriel interpreta-se “Deus, meu conforto”, a respeito do qual diz Isaías: “Dizei: ‘Vós, tímidos de coração, recobrai ânimo e não temais; eis que o próprio Deus virá e vos salvará’” (Is 35,4). Costumamos confortar sobretudo três categorias de pessoas: o enfermo, o aflito e o temeroso. Assim estava o gênero humano: sofria de enfermidade havia cinco mil anos e não encontrava remédio algum; estava aflito, privado das delícias do paraíso terrestre; temia continuamente o diabo, que com uma mão o açoitava e com a outra o arrastava para o inferno. Mas graças a Deus, foi enviado o conforto, que curou o enfermo, consolou o aflito e tornou seguro o temeroso. “Foi enviado”, portanto, “o anjo Gabriel”, mensageiro de boas-novas de uma terra distante, água fresca para a alma sedenta. Eis o conforto para a alma sedenta, enfraquecida pela sede e desfalecendo pelo langor: água fresca, água da sabedoria salutar.
E para onde é enviado? “A uma cidade da Galileia” (Lc 1,26), que se interpreta como roda ou transmigração. Aqueles que padecem dessas duas coisas necessitam de conforto. Chama-se roda porque corre. O gênero humano corria de pecado em pecado e depois emigrava para o inferno. Por isso Jeremias, nas Lamentações, diz: “Judá emigrou por causa da aflição e da multidão da servidão; habitou entre as nações e não encontrou repouso; todos os seus perseguidores a alcançaram em meio às angústias” (Lm 1,3). Da servidão do pecado ocorria a transmigração para a condenação do inferno. Em angústia tão grande era necessário o conforto, que convertesse para a vida a roda que corria para a morte, e assim se realizasse a transmigração para a glória. “Ele vos precederá”, diz, “na Galileia; ali o vereis” (Mt 28,7).
“Cujo nome era Nazaré” (Lc 1,26), que se interpreta como flor, unção ou consagração, porque ali está a flor da virgindade, ali a unção da graça sétupla, ali a consagração da Virgem gloriosa.
3. “A uma Virgem” (Lc 1,27). Algo semelhante se lê no Gênesis: “Rebeca, donzela muito formosa, virgem belíssima e desconhecida de homem” (Gn 24,15-16). Rebeca, que se interpreta como “recebeu muito”, é a bem-aventurada Virgem, que verdadeiramente recebeu muito, porque concebeu o Filho de Deus, de cuja beleza o próprio Filho diz no Cântico dos Cânticos: “És bela, minha amiga, suave e formosa como Jerusalém” (Ct 6,3). Bela pela humildade, amiga pela caridade, suave pela contemplação, formosa pela virgindade, como a Jerusalém celeste, na qual habita Deus, e a Virgem é sua habitação. “Aquele que me criou”, diz, “repousou em minha tenda” (Eclo 24,12), isto é, em meu ventre.
“Desposada com um homem cujo nome era José” (Lc 1,27). A Glosa de Beda diz: Ele quis nascer de uma desposada, para que por meio de José se encobrisse a ordem da genealogia, para que ela não fosse apedrejada como adúltera, para que a virgem tivesse o amparo de um homem e uma testemunha de sua integridade, e para que o diabo ignorasse o mistério. José, o salvador, que salvou o Egito da fome; assim este salvou a bem-aventurada Virgem da infâmia. O Senhor preferiu que alguns duvidassem de sua origem a que duvidassem da pureza da Mãe. Pois sabia que a reputação da castidade é muito fácil de perder.
“Da casa de Davi” (Lc 1,27). Isso deve ser referido não somente a José, mas também à Virgem, pois ambos eram da casa de Davi. Por isso o Senhor, no livro dos Números, diz: “Todos os homens tomarão esposas de sua tribo e de sua parentela; e todas as mulheres tomarão maridos da mesma tribo” (Nm 36,7-8).
“E o nome da Virgem era Maria” (Lc 1,27). Nome doce, nome delicioso, nome que conforta o pecador e inspira a bem-aventurada esperança. O que é Maria senão a estrela do mar, isto é, o caminho luminoso para o porto, para os que flutuam na amargura? Nome amado pelos anjos, terrível para os demônios, salutar para os pecadores, suave para os justos.
4. “E o anjo entrou até ela” (Lc 1,28). Ela, até a qual o anjo entrou, estava no interior, ocupava-se da leitura ou da contemplação, estava só e dedicava-se à solidão. Dela diz Oseias: “Eu a conduzirei à solidão e falarei ao seu coração” (Os 2,14).
“Ave” (Lc 1,28), sem o triplo “ai”, do qual se lê no Apocalipse: “Ai, ai, ai dos habitantes da terra!” (Ap 8,13). Com efeito, ela foi sem concupiscência da carne, sem concupiscência dos olhos e sem soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), porque casta, pobre e humilde.
“Cheia de graça” (Lc 1,28), porque, primeira entre as mulheres, ofereceu a Deus o glorioso dom da virgindade; por isso também mereceu gozar da visão e da palavra do anjo, ela que deu ao mundo o autor de toda a graça. “Cheia de graça”, porque “o perfume de teus unguentos supera todos os aromas. Favo que destila são teus lábios” (Ct 4,10-11), nos quais se difundiu a graça (cf. Sl 44,3).
“O Senhor é contigo” (Lc 1,28): ele, por teu novo amor à castidade, elevou-te às alturas celestes e, depois, mediante a natureza humana assumida, consagrou-te com toda a plenitude da divindade. “O Senhor é contigo. Um cacho de uvas de Chipre é para mim o meu amado” (Ct 1,13), e por isso estás cheia do vinho da graça.
“Bendita tu entre as mulheres” (Lc 1,28). Concorda com isso o capítulo V de Juízes: “Bendita entre as mulheres, Jael”, que se interpreta ‘aquela que espera Deus’; “seja bendita em sua tenda” (Jz 5,24). Verdadeiramente bendita aquela que esperou a bênção de todos e, esperando, a recebeu. Verdadeiramente bendita, porque não foi estéril nem impura: fecunda sem vergonha, grávida sem incômodo, parturiente sem dor; aquela que, sem exemplo entre as condições das mulheres, é ao mesmo tempo virgem e mãe, e gerou Deus.
5. “Tendo ouvido isso, ela ficou perturbada” (Lc 1,29). Concorda com isso o capítulo V de João: “Um anjo do Senhor, de tempos em tempos, descia à piscina, e a água se agitava” (Jo 5,4). A agitação da água representa a perturbação de Maria diante da visão do anjo e da saudação insólita.
“E pensava que sentido tinha aquela saudação” (Lc 1,29). Ela se perturba por pudor e, em sua prudência, admira a nova fórmula de bênção. “Quem crê facilmente é leviano de coração” (Eclo 19,4). Bela união de pudor e prudência, para que o pudor não seja afetado nem a prudência, exagerada.
“Não temas”, disse ele, “Maria”, chamando-a pelo nome, como alguém que lhe era familiar; ordena-lhe que não tema, “pois encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30). Concorda com isso o livro de Ester: “Quando o rei Assuero viu a rainha Ester de pé diante dele, ela agradou aos seus olhos, e ele estendeu em sua direção, como sinal de clemência, o cetro de ouro que tinha na mão. Ela, aproximando-se, beijou a extremidade do cetro” (Est 5,2). Assuero, que se interpreta como ‘beatitude’, é Deus, a beatitude dos anjos; aos seus olhos agradou a nossa rainha Ester, que se interpreta como ‘preparada no tempo’, isto é, para o tempo da nossa salvação. O cetro de ouro é a graça celeste que ele então estendeu em sua direção, quando a encheu de graça mais que a todas as outras; e ela, não sendo ingrata a tão grande graça, aproximou-se com humildade e beijou-o com caridade.
6. O anúncio da encarnação do Senhor: “Eis que conceberás e darás à luz um filho” (Lc 1,31). Diz o bem-aventurado Bernardo: “São dois milagres, mas elegantemente unidos entre si: Deus Filho e a Virgem Mãe; com efeito, à Mãe Virgem não convinha outro filho, nem ao Deus Filho convinha outro parto”. Observa que Cristo é concebido em Nazaré, nasce em Belém e é crucificado em Jerusalém, num lugar mais elevado. Assim, Cristo é concebido na humildade, nasce na caridade, que é a casa do pão, e é crucificado na elevação.
7. “E lhe darás o nome de Jesus” (Lc 1,31). Observa que se lê na Escritura que cinco pessoas foram chamadas por Deus antes de terem sido concebidas no seio materno. O primeiro foi Isaac, acerca do qual se diz no Gênesis: “Sara, tua mulher, te dará um filho, e lhe darás o nome de Isaac” (Gn 17,19). O segundo foi Sansão, acerca do qual se diz no livro dos Juízes: “O anjo disse à mulher de Manoé: Conceberás e darás à luz um filho” (Jz 13,3). O terceiro foi Josias, acerca do qual se diz no terceiro livro dos Reis: “Eis que nascerá um filho à casa de Davi, chamado Josias” (3Rs 13,2). O quarto e o quinto foram João Batista e Jesus Cristo. Nesses cinco são indicados cinco tipos de eleitos.
Em Isaac, que se interpreta como “riso”, são indicados os caridosos, que estão sempre no sorriso do espírito. Por isso diz Jó: “Se alguma vez eu sorria para eles, não acreditavam, e a luz do meu rosto não caía por terra” (Jó 29,24). O rosto da alma é a razão, cuja luz é a graça, da qual se diz: “Está marcado sobre nós o esplendor do teu rosto, Senhor” (Sl 4,7). O caridoso serve com o sorriso da devoção, e os detratores não acreditam nele; antes, caluniam-no. Mas, por isso, o seu esplendor não deve cair por terra, e sim operar sempre na luz da razão e na alegria do espírito.
Do mesmo modo, em Sansão, que se interpreta como “o sol deles”, são indicados os que pregam a palavra de Deus; pela palavra e pelo exemplo, devem ser o sol daqueles a quem pregam. “Vós sois”, diz ele, “a luz do mundo” (Mt 5,14). O sol é chamado fonte de calor e de luz; neles estão a vida e a doutrina que, como dois rios, devem derivar destes, como de uma fonte, para os outros. A vida deve ser ardente, e a doutrina, luminosa.
Do mesmo modo, em Josias, que se interpreta como “onde está o incenso”, ou “em quem está o sacrifício”, são indicados os verdadeiros religiosos, nos quais há o incenso da oração devota e o sacrifício da carne mortificada; por isso dizem em Daniel: “Sejamos recebidos com o coração contrito e o espírito de humildade, e que assim seja o nosso sacrifício, para que agrade à tua presença” (Dn 3,39-40).
No Batista são indicados todos os penitentes e os bons leigos, que se batizam e se santificam no Jordão, isto é, no rio do juízo, ou seja, pelas lágrimas, pela confissão, pela generosidade nas esmolas e pelas demais obras de misericórdia.
Em Jesus Salvador são representados os bons prelados da Igreja, acerca dos quais diz Abdias: “Subirão os salvadores ao monte do Sul, para julgar o monte de Esaú, e o reino será do Senhor” (Ab 1,21). O monte do Sul é a excelência da boa vida, à qual devem subir os prelados; assim poderão julgar, isto é, condenar, o monte de Esaú, ou seja, a soberba dos carnais, e desse modo, neles e por meio deles, farão para o Senhor um reino. Amém.
8. A vinda do Espírito Santo, como em: “Como acontecerá isso, se não conheço homem?” (Lc 1,34). É claro que aquela que crê que isso será feito pergunta como será feito. Pergunta como isso acontecerá, porque havia prometido em seu coração não conhecer homem, a menos que Deus dispusesse de outro modo. A Glosa de Ambrósio: “Quando Sara sorriu diante da promessa de Deus e Maria disse: ‘Como acontecerá isso?’, por que não ficaram mudas, como também Zacarias? Mas Sara e Maria não duvidam que se realize o que é prometido; apenas perguntam de que modo acontecerá. Zacarias, porém, nega saber, nega crer e procura outro fundamento para a sua fé. Por isso recebe o sinal do silêncio, porque os sinais são dados não aos fiéis, mas aos infiéis.”
“E, respondendo, o anjo disse: O Espírito Santo descerá sobre ti” (Lc 1,35). Como antes dissera: “cheia de graça”, e aqui diz: “descerá”, dá a entender que, assim como de um vaso cheio, se algo é acrescentado, aquilo que se acrescenta transborda, assim algumas gotas de sua graça transbordariam até nós. O Espírito Santo, descendo sobre a Virgem e em sua alma, purificou-a da imundície dos vícios, para que fosse digna do parto celeste, e, por sua ação, criou em seu seio o corpo do Redentor, a partir da carne da Virgem.
“E a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). Nisso se entendem as duas naturezas do Salvador, porque a sombra costuma formar-se da luz e de um corpo interposto. A Virgem, porém, não podia conter a plenitude da divindade; mas a virtude do Altíssimo a cobriu com sua sombra, quando a luz incorpórea da divindade assumiu nela o corpo da humanidade, para que assim pudesse trazer Deus.
“Por isso, o que nascerá de ti será santo e será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35). Jesus nasce santo: aquele que haveria de vencer a condição da natureza corruptível não foi concebido da união ou do enlace carnal. Nós, submetidos à condição da natureza corruptível, podemos ser santificados pela graça. E foi conveniente que aquela que, acima de todo costume, concebeu permanecendo virgem gerasse o Filho de Deus acima de todo costume e uso humano.
“E eis que Isabel” (Lc 1,36) etc. Para que a Virgem não desesperasse de dar à luz, recebe o exemplo de uma mulher estéril e idosa que haveria de dar à luz, para que reconhecesse assim que tudo é possível a Deus, até aquilo que parece contrário à ordem da natureza.
9. “Então Maria disse: Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38). Ela não se exalta pela singularidade do privilégio, mas, recordando em tudo a sua condição e a dignidade divina, confessa ser serva daquele cuja mãe é escolhida para ser, e com grande devoção deseja que se cumpra a promessa do anjo.
“Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). E imediatamente Cristo foi concebido da Virgem, homem perfeito na alma e na carne, mas de tal modo que as formas do corpo e dos membros não podiam ser distinguidas pelos olhos. Crê-se que foi concebido no dia 25 de março e, passados trinta e três anos, morreu nesse mesmo dia, aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
10. “Foi enviado Gabriel”, etc. Ouvimos de que modo a bem-aventurada Maria concebeu o Filho de Deus Pai; ouçamos agora brevemente de que modo a alma concebe o espírito da salvação. Na Virgem Maria está representada a alma fiel: virgem pela integridade da fé — por isso diz o Apóstolo: “Eu vos prometi a um único esposo, para vos apresentar a Cristo como virgem casta” (2Cor 11,2) —; Maria, isto é, estrela do mar, pela profissão da mesma fé. “É com o coração que se crê para alcançar a justiça”: eis a virgem; “com a boca se faz a profissão de fé para obter a salvação” (Rm 10,10): eis a estrela que conduz da amargura do mundo ao porto da salvação eterna. Esta habita em Nazaré da Galileia, isto é, na flor da transmigração. A flor é a esperança do fruto. Com efeito, ela espera passar da fé à visão, da sombra à verdade, da promessa à realidade, da flor ao fruto, do visível ao invisível. Por isso os pastores dizem: “Vamos até Belém” (Lc 2,15), porque ali encontraremos boas pastagens, o pão dos anjos, o Verbo encarnado. Por isso Isaías diz: “Alegria dos onagros, pastagem dos rebanhos” (Is 32,14). Nos onagros estão representados os justos, cuja alegria serão as pastagens dos rebanhos, isto é, o esplendor e a bem-aventurança dos anjos, porque com eles pastarão juntos, isto é, gozarão da visão do Verbo encarnado.
A esta virgem é enviado o anjo Gabriel, cujo nome se interpreta: “Deus me fortaleceu”; nele é designada a inspiração da graça divina, sem cujo fortalecimento a alma desfalece. Por isso Judite diz: “Fortalece-me, Senhor, Deus de Israel, nesta hora”. E golpeou duas vezes com o punhal o pescoço de Holofernes e cortou-lhe a cabeça (Jt 13,9-10). Holofernes interpreta-se “aquele que enfraquece o bezerro cevado”; nele se entende o pecador que, cevado pela gordura das coisas temporais, é privado pelo diabo das virtudes e assim se enfraquece e se debilita. A cabeça de Holofernes é a soberba do diabo. Por isso, no Gênesis: “Ela esmagará a tua cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar” (Gn 3,15), no que se assinala o fim da vida. A bem-aventurada Maria esmagou a soberba do diabo com a humildade, mas ele lhe armou ciladas, por assim dizer, no calcanhar, na Paixão de seu Filho. Quem quer arrancar de si a soberba do diabo deve golpeá-la duas vezes. O golpe duplo é a recordação de nosso nascimento e de nossa morte. Quem medita bem sobre essas duas coisas corta de si a soberba do diabo, mas é necessário que primeiro peça o fortalecimento da graça divina. “Agit ai com fortaleza, e o vosso coração será fortalecido” (Sl 30,25).
11. “E o anjo entrou até ela.” Nisso se assinala a solidão da alma, na qual ela habita consigo mesma, lendo no livro da própria miséria e voltada para a doçura divina; e por isso merece ouvir: “Ave”. O nome Eva, que se interpreta “ai” ou calamidade, quando se converte, torna-se “Ave”. O nome da alma que está em pecado mortal é Eva, isto é, ai de calamidade; mas, quando se converte à penitência, é-lhe dito “ave”, isto é, “sem ai”, de a, que significa “sem”.
“Cheia de graça.” Quem derrama ainda alguma coisa num vaso cheio perde aquilo que derrama. Assim também na alma: se estiver cheia de graça, nela não poderá entrar a imundície do pecado. A graça ocupa tudo e não deixa vazio nenhum canto onde possa permanecer ou entrar o que lhe é contrário. Quem compra tudo deseja possuir tudo; e a alma é tão ampla que ninguém pode preenchê-la senão somente Deus, que, como diz João, “é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas” (1Jo 3,20). Um vaso bem cheio transborda por todos os lados. Da plenitude da alma todos os sentidos recebem, porque, como diz Isaías, “será sábado após sábado” (Is 66,23), isto é, da paz interior virá a paz dos sentidos e dos membros.
“O Senhor está contigo.” Ao contrário, no Êxodo: “Não subirei contigo, porque és um povo de dura cerviz” (Ex 33,3), isto é, desobediente e soberbo. Como se dissesse: Eu subiria contigo, se fosses humilde. Por isso promete ao humilde, em Isaías: “Tu és meu servo; quando passares pelas águas, estarei contigo, e os rios não te cobrirão; quando caminhares pelo fogo, não serás queimado, e a chama não arderá em ti” (Is 43,1-2). Nas águas estão representadas as sugestões do diabo; nos rios, a gula e a luxúria; no fogo, o dinheiro ou a abundância das coisas temporais; na chama, a vanglória. O servo, isto é, o humilde, com quem está o Senhor, passa ileso pelas tentações do diabo, porque nem a gula nem a luxúria o cobrem. Quem tem a cabeça coberta não pode ver, cheirar, falar nem ouvir bem; assim também aquele que é coberto pela gula e pela luxúria fica privado da capacidade de contemplar, discernir, confessar e obedecer. O humilde, ainda que caminhe no fogo das coisas temporais, não é queimado por isso nem pela avareza nem pela vanglória.
12. “Bendita és tu entre as mulheres.” Diz-se nos livros de história natural que as mulheres são mais compassivas que os homens, derramam lágrimas mais prontamente e têm memória mais tenaz. Nestas três coisas são assinaladas a compaixão para com o próximo, a devoção das lágrimas e a recordação da Paixão do Senhor. Diz o Cântico dos Cânticos: “Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço, porque forte como a morte é o amor” (Ct 8,6), isto é, o teu amor, pelo qual morreste. Benditas aquelas almas que possuem essas três coisas; entre elas, com especial privilégio de bênção, é bendita a alma fiel e humilde, cheia de obras de caridade.
A respeito dessa bênção, segue-se: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.” Diz-se nos livros de história natural que as mulheres grávidas sentem dores, perdem o apetite e têm a vista obscurecida; e algumas mulheres, depois que engravidam, aborrecem o vinho, porque se debilitam ao bebê-lo. Assim também a alma, quando, pela ação do Espírito Santo, concebe o espírito da salvação (cf. Is 26,18), começa a lamentar os pecados, a sentir fastio das coisas temporais e desagrado de si mesma — o que significa que se obscurece o olho com que costumava olhar para si com complacência —, e a aborrecer o vinho da luxúria. Por esses sinais poderás avaliar se a alma concebeu o espírito da salvação, que depois dá à luz, quando o produz na luz das boas obras; e dá a esse fruto o nome de salvação, porque tudo o que faz, faz com a intenção da salvação. E diz-se que a intenção dá nome à obra. Com efeito, ela age para agradar a Deus, obter o perdão, edificar o próximo e alcançar a salvação eterna. Digne-se concedê-la também a nós aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
13. “Eis que houve um vento grande e forte, que despedaçava os montes e quebrava as pedras diante do Senhor; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto; mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto, houve fogo; mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo, houve o sopro de uma brisa suave” (3Rs 19,11-12), e nele estava o Senhor. Nesta passagem do Terceiro Livro dos Reis são indicados quatro acontecimentos: a saudação do anjo, o turbamento da bem-aventurada Maria, a intervenção do Espírito Santo e a Encarnação do Filho de Deus.
14. A saudação angélica: “Ave, cheia de graça”, é como aquele “Eis um vento impetuoso e forte”. Esta saudação é chamada “espírito”, porque é espiritual, enviada por meio de um espírito angélico; “grande”, porque promete grandes coisas; “forte”, porque foi proferida pelo forte Gabriel, da parte do forte Rei da glória.
Ou então, estas três palavras correspondem às três cláusulas da saudação. “Ave, cheia de graça”: eis o “espírito”. Aqui nada há da terra, nada há da carne, mas tudo é do espírito, porque procede da graça. A primeira mulher, Eva, é terra da terra, carne da carne, osso do osso; a ela se diz: “Ai de ti (Eva)! Multiplicarei as tuas tribulações, e darás à luz com dor” (Gn 3,16). Mas à bem-aventurada Maria, cuja conversação já estava nos céus (cf. Fl 3,20), diz-se: “Ave, cheia de graça”.
E observa que o anjo não disse: “Ave, Maria”, mas: “cheia de graça”. Nós, porém, dizemos: “Ave, Maria”, isto é, “estrela do mar”, porque estamos no meio do mar, somos sacudidos pelas ondas, submergidos pela tempestade e, por isso, clamamos: “Estrela do mar!”, para chegarmos, por meio dela, ao porto da salvação. Ela é, com efeito, quem livra da tempestade aqueles que a invocam, mostra o caminho e conduz ao porto. Os anjos, porém, não precisam ser libertados do naufrágio, porque estão seguros na pátria; a claridade de Deus os ilumina, e o seu lampadário é o Cordeiro (cf. Ap 21,23). E por isso o anjo não disse: “Ave, Maria”. Nós, porém, miseráveis, lançados ao mar, longe da presença dos olhos de Deus, sacudidos a toda hora pelas tempestades, colocados no limiar da morte, clamemos a toda hora: “Ave, Maria”.
“O Senhor está contigo”: eis o “grande”. Verdadeiramente grande, porque teve em seu seio e carregou durante nove meses o Senhor, a quem os céus e a terra não podem conter (cf. 3Rs 8,27; 2Cr 2,6).
“Bendita és tu entre as mulheres”: eis o “forte”. Daí o que se lê no livro dos Juízes: “Bendita entre as mulheres seja Jael, que estendeu a mão esquerda ao prego, e a direita ao martelo dos ferreiros, e golpeou Sísara na cabeça” (Jz 5,24-26). E no livro de Judite: “Uma mulher hebreia lançou a confusão na casa do rei Nabucodonosor. Eis que Holofernes jaz por terra, e sua cabeça não está mais sobre ele” (Jt 14,16). E no capítulo XIII: “O príncipe do povo, Ozias, disse a Judite: Bendita és tu, filha, pelo Senhor Deus altíssimo, mais que todas as mulheres sobre a terra” (Jt 13,23). O prego, com que se fecha a porta da tenda, é a virgindade da bem-aventurada Maria. “Esta porta”, diz ele, “ficará fechada e não será aberta, e homem algum passará por ela” (Ez 44,2). O martelo, que tem a forma da letra “tau” (T), é a cruz da Paixão do Senhor. Sísara, cujo nome se interpreta “exclusão da alegria”, é o diabo, que sempre se esforça para excluir os homens da alegria eterna. Ele foi morto pela virgindade da bem-aventurada Maria e pela Paixão de seu Filho; ignorou o segredo de ambas e, pelo poder de ambas, perdeu seu domínio. E por isso: bendita entre todas e acima de todas as mulheres, aquela que levou a confusão à casa do diabo, cortou a cabeça do príncipe e nos restituiu a paz.
Daí segue: “Subvertendo os montes”, isto é, a soberba, “despedaçando as pedras”, isto é, a dureza e a malícia dos demônios. “O Senhor te abençoou”, ó bendita entre os anjos, “com a sua força, e por meio de ti reduziu a nada os nossos inimigos” (Jt 13,22), cuja soberba subverteu e cuja dureza despedaçou.
“O Senhor não está no vento”, porque nesta saudação não ocorreu a Encarnação do Verbo. Primeiro, ela há de perguntar o modo; perguntando, será instruída; sendo instruída, dará seu consentimento; consentindo, conceberá. Deve-se proceder ordenadamente, subir gradualmente.
15. A perturbação da bem-aventurada Maria: “E depois do vento, um terremoto”. “Ela ficou perturbada”, diz, “com aquelas palavras”, talvez porque ouvia ser chamada bendita entre as mulheres, ela que já era bendita entre os anjos. Daí o que se lê no livro de Judite: “Tu és a glória de Jerusalém, tu és a alegria de Israel, tu és a honra magnífica do nosso povo, porque agiste virilmente e teu coração se fortaleceu, por teres amado a castidade” (Jt 15,10). Ou talvez tenha ficado perturbada porque ouvia proclamar-se nela aquilo que não sentia ser. Gregório diz: “É característica dos eleitos terem de si mesmos uma opinião mais humilde do que aquilo que são. A máxima virtude é não ver a própria virtude e esconder aos próprios olhos o bem que é evidente aos olhos dos outros.” Ela nos deu o exemplo, para que também nós nos perturbemos quando somos louvados e sempre pensemos menos de nós mesmos do que somos ou do que ouvimos dos outros.
Por isso se diz, nas obras de história natural, que as conchas, que concebem pérolas do orvalho celeste, se de repente relampeja um clarão, tomadas de medo se comprimem e se fecham imediatamente, porque temem que seus frutos sejam manchados. Assim, a bem-aventurada Maria, que do orvalho celeste — “Destilai, ó céus, das alturas” (Is 45,8) — concebeu a pérola dos anjos, ficou subitamente perturbada pelo clarão do anjo. Por isso se canta: “E a Virgem se espanta diante da luz” (cf. Breviário Romano, “Domingo I do Advento, nas Matinas”). Assim também nós, se queremos conceber, com o orvalho da graça, a pérola de uma vida santa, diante do clarão do louvor humano devemos temer imediatamente, conter-nos e humilhar-nos e, para não sairmos para fora, fechar-nos, para não perdermos, por causa do favor humano, o bem que concebemos retamente. “O Senhor não está no terremoto”, isto é, na perturbação da bem-aventurada Maria, não ocorreu a Encarnação do Verbo.
16. A vinda do Espírito Santo, como naquele texto: “E depois do abalo, fogo. O Espírito Santo”, diz, “virá sobre ti”. Fogo que não queima, mas ilumina.
Observa que o fogo vence todas as coisas; não pode ser contido e leva as coisas nas quais se acende a realizar sua própria ação; comunica-se a todos os que de algum modo dele se aproximam; é renovador e não diminui ao comunicar-se. Assim o Espírito Santo, igual ao Pai e ao Filho, supera todas as coisas. “O Espírito”, diz, “do Senhor pairava sobre as águas” (Gn 1,2), como a mente do artífice paira sobre a obra que está sendo feita. Incompreensível é o seu poder, e “não sabes de onde vem nem para onde vai” (Jo 3,8). Ele torna ardentes em si as almas nas quais se acende, fazendo-as acender os outros. Comunica-se a todos: os que dele se aproximam sentem o seu calor. É renovador; por isso: “Envia o teu Espírito” (Sl 103,30) etc. Ele eleva a mente para o alto; embora difunda a graça por toda parte, permanece sempre o mesmo em si mesmo.
Este fogo veio sobre a Virgem e a encheu do carisma da graça. Mas ainda não houve neste fogo a encarnação do Verbo, porque aguardava o consentimento da Virgem. Com efeito, ninguém pode conceber Deus na mente senão mediante o consentimento da própria mente. Tudo o que há na alma sem o consentimento não pode justificar o homem.
17. A encarnação do Filho de Deus, como naquele texto: “E depois do fogo, um sussurro de brisa suave”, e nele estava o Senhor. “Eis”, diz, “a serva do Senhor”: este é o sussurro; “faça-se em mim segundo a tua palavra”. E imediatamente: “O Verbo se fez carne” (Jo 3,8). Observa que o sussurro se faz com a boca contraída. A bem-aventurada Maria contraiu-se: a rainha dos anjos declarou-se serva, e hoje o Senhor olhou para a humildade de sua serva (cf. Lc 1,48). Por isso concorda com o que se lê no livro de Judite: “Joacim, sumo sacerdote de Jerusalém, veio a Betúlia para ver Judite” (Jt 15,9). Joacim, que se interpreta “sua preparação”, é Jesus Cristo, que disse: “Vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,2), e que “por seu próprio sangue entrou uma vez por todas no santuário” (Hb 9,12). Este veio hoje da Jerusalém celeste a Betúlia, que se interpreta “casa que dá à luz o Senhor”, isto é, a bem-aventurada Virgem, que o deu à luz; ele mesmo, em sua própria pessoa, veio vê-la, habitar nela e dela assumir a carne. A ele, portanto, a honra e a glória pelos séculos eternos. Amém.
18. “Eis um espírito grande e forte.” Aqui se assinalam quatro coisas: a ira do juiz que há de vir, a sentença dos condenados, a Geena ardente e a glória dos bem-aventurados.
A ira do juiz que há de vir, como naquele texto: “Eis um espírito grande” etc. Sobre isso, Isaías diz: “Espírito de juízo para aquele que se assenta no trono” (Is 28,6); e no capítulo XXVII: “Naquele dia o Senhor visitará, com sua espada dura, grande e forte, o Leviatã, serpente rígida e tortuosa, e matará o monstro marinho que está no mar” (Is 27,1). A espada é chamada o Filho, que o Pai brandirá no juízo. Uma espada brandida produz duas coisas, a saber, esplendor e sombra trêmula. Assim Cristo, no juízo, mostrará aos justos a glória da divindade e aos injustos a forma do homem assumido, para que vejam “aquele a quem traspassaram” (cf. Jo 19,37; Ap 1,7). Esta espada é chamada dura, porque não se dobrará nem por súplica nem por preço algum; grande, porque abrangerá tudo; forte, porque esmagará tudo. No dia do juízo, portanto, o Pai, em seu Filho, visitará o Leviatã, isto é, o diabo e seus membros, que é chamado serpente pela astúcia, barra, isto é, inflexível, pela soberba, tortuoso pela inveja e monstro marinho pela rapina. Assim também são seus membros, em cuja convivência, amarga pelos pecados, habita o diabo. Então aquele espírito “derrubará os montes”, isto é, os poderosos e soberbos deste mundo, “e esmagará as pedras”, isto é, os corações infiéis.
19. A sentença dos condenados, como naquele texto: “E depois do espírito, o abalo”. Sobre isso, Isaías diz: “Por uma fratura será fraturada a terra”, isto é, o soberbo; “por uma contrição será esmagada a terra”, isto é, o avarento; “por um abalo será abalada a terra”, isto é, o iracundo; “será agitada como um bêbado”, isto é, o guloso e o luxurioso (Is 24,19-20). Todo o dia o Senhor clama: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados” (Mt 11,28), e eles não querem vir; então ouvirão: “Ide, malditos!” (Mt 25,41). Qual será naquele momento o abalo, o estrépito e o tumulto, a dor e os gemidos, o ranger de dentes e o pranto, quando aquela fera, o diabo, for precipitada no inferno juntamente com todos os ímpios!
20. A geena ardente, como se diz: “E depois da comoção, o fogo.” A respeito dela, Isaías, no último capítulo: “Eis que o Senhor virá no fogo, e como um turbilhão serão as suas quadrigas. Derramará, em sua indignação, o seu furor, e a sua ameaça na chama do fogo, porque o Senhor julgará no fogo” (Is 66,15-16); e no último capítulo de Judite: “Dará fogo e vermes às suas carnes, para que sejam queimados e sintam eternamente os males” (Jt 16,21).
21. A glória dos bem-aventurados, como se diz: “E depois do fogo, o sussurro de uma brisa suave: Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino” (Mt 25,34). Ali o Senhor é doce e suave, digno de louvor e amável, compassivo e benigno. Não é assim no espírito da indignação, na comoção da condenação, na geena de fogo, mas no sussurro de uma brisa suave, isto é, de sua inefável misericórdia. Por isso diz Zacarias: “Eu os chamarei com um sussurro e os reunirei, porque os resgatei” (Zc 10,8). Então, como diz Isidoro, os santos conhecerão plenamente que bem a graça lhes concedeu, ou o que teriam alcançado se a misericórdia divina não os tivesse escolhido por um dom gratuito, e quão verdadeiro é o que se canta no Salmo: “Cantarei para ti a misericórdia e o juízo, Senhor” (Sl 100,1). Isto se deve saber com toda certeza: ninguém será libertado senão pela misericórdia que não lhe é devida, e ninguém será condenado senão por um juízo que lhe é devido.
Cuidemo-nos, portanto, ó caríssimos, do espírito da soberba, da comoção da avareza e da ira, do fogo da gula e da luxúria, pois nelas não está o Senhor; e humilhemo-nos no sussurro de nossa confissão e acusação, da mansidão e da paz, porque ali está o Senhor, para que no dia do juízo mereçamos ouvir: “Vinde, benditos”.
Conceda-nos isso aquele que é bendito pelos séculos. Amém.