1. Naquele tempo: “Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos” (Jo 3,1).
Neste Evangelho observam-se três coisas: a regeneração do Batismo, a Ascensão de Cristo e a sua Paixão.
2. A regeneração do Batismo, como nesta passagem: “Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos”. Ele, crendo, dizia que Cristo viera de Deus por causa dos sinais que tinha visto, mas ainda não havia renascido; e por isso veio de noite, e não de dia, porque ainda não fora iluminado pela luz celeste. Ou talvez tenha vindo de noite porque, sendo mestre em Israel, envergonhava-se de aprender publicamente, ou por medo dos judeus. Este, tendo observado prudentemente os sinais manifestos, procura mais plenamente os mistérios da fé e, por isso, mereceu ser instruído acerca da segunda geração e da entrada no reino dos céus, da divindade de Cristo e de seu duplo nascimento, da paixão, da ressurreição e da ascensão, e de muitas outras coisas. Observa que Nicodemos, cujo nome se interpreta como efusão da terrenidade, é figura daqueles que creem perfeitamente, mas ainda não possuem a luz das obras perfeitas; temendo o assalto dos pensamentos ou das ações carnais, bem como o dos judeus infiéis, desfrutam do colóquio com Cristo somente pela fé, sem terem confiança nas boas obras.
É isto o que se diz nas coisas naturais: a coruja tem a visão fraca ao meio-dia, mas à noite vê com mais clareza; então é mais forte e voa com maior segurança, porque, durante o dia, outras aves voam ao seu redor e a depenam; e por isso os passarinheiros, por meio dela, capturam muitas outras aves. A coruja recebe seu nome do som de sua voz e significa o cristão que tem apenas o som do nome, pois é cristão por causa de Cristo, mas não possui a realidade do nome, isto é, a humildade e a caridade de Cristo; por isso é chamado vaso vazio, mas marcado. Este não vê claramente durante o dia, porque não possui a luz das boas obras, mas à noite vê com muita agudeza, “porque os filhos deste mundo são mais sábios que os filhos da luz em sua geração” (Lc 16,8). “São sábios”, diz, “para fazer o mal, mas não souberam fazer o bem” (Jr 4,22).
Esta coruja teme voar durante o dia, isto é, aparecer diante dos justos que estão na luz, porque estes não a acariciam, mas a depenam, ou seja, censuram-na, admoestam-na e corrigem-na. Mas, ai de mim! Quantas vezes, por meio de uma tal coruja, os demônios enganam os homens justos. Por exemplo: um prelado tem um paroquiano usurário ou envolvido em algum outro pecado mortal; este, por temer ser censurado ou excomungado por ele, oferece-lhe presentes e promete-lhe muitos favores; e, enquanto o prelado os recebe, é ele próprio capturado. “A flauta toca docemente enquanto o passarinheiro engana a ave” (Catão).
3. Segue-se: “Jesus respondeu e lhe disse: Em verdade, em verdade te digo: se alguém não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3,3). No Antigo Testamento, era como que o juramento de Deus: “Vive o Senhor!” (cf. 1Rs 26,10); no Novo, diz-se: “Em verdade, eu te digo”. E, enquanto nos outros evangelistas isso é dito uma só vez, somente em João é repetido duas vezes, segundo aquilo: “Seja a vossa palavra: sim, sim” (Mt 5,37), como se dissesse: Digo a verdade com o coração e com a boca. A Glosa diz ali: O segundo nascimento, do qual Jesus ensina, é espiritual; procede de Deus e da Igreja para a vida. Mas aquele conhece somente o nascimento carnal, que procede de Adão e Eva para a morte. Porém, assim como este diz que o nascimento carnal não pode repetir-se, do mesmo modo o espiritual, por quem quer que seja realizado, não pode repetir-se. Com efeito, nasceram da semente do verdadeiro Abraão, isto é, de Cristo, tanto os filhos da livre como os da escrava.
“Da água”, diz ele, “e do Espírito Santo”. Há três elementos: o fogo, a panela e o alimento. O fogo envolve a panela, e o alimento está dentro dela. O fogo, na realidade, não toca o alimento e, contudo, aquece-o, purifica-o e coze-o. O fogo é o Espírito Santo; o corpo do homem é como a panela; a alma é como o alimento. Assim, pois, como o alimento é cozido por meio da panela pelo calor do fogo, assim o Batismo da água, inflamado pelo fogo do Espírito Santo, enquanto banha exteriormente o corpo, purifica interiormente a alma de todos os pecados. O Espírito desceu no rio Jordão sobre Cristo batizado; todos os dias desce na fonte batismal sobre cada cristão, e, por sua virtude, de filho da ira ele se torna filho da graça. Por isso, Cristo, por si e por todos os batizados, ouviu: “Este é o meu Filho amado” (Mt 3,17).
4. Moralmente. O Batismo de água e do Espírito Santo é a penitência, proveniente do espírito de contrição e da água de uma confissão banhada em lágrimas, para que aquele que, pelo pecado mortal, perdeu a inocência e a graça do primeiro batismo possa recuperá-las pela virtude deste segundo. Esta é a segunda tábua depois do naufrágio. Sobre este batismo disse Eliseu a Naamã, o sírio, rico, mas leproso, no Quarto Livro dos Reis: “Vai e lava-te sete vezes no Jordão; e tua carne recuperará a saúde, e ficarás purificado” (4Rs 5,10). Naamã interpreta-se “esplêndido”, sírio, “sublime”, e Jordão interpreta-se “rio do juízo”. O pecador, exteriormente esplêndido, sublime no alto, porque soberbo, rico em baixo, mas interiormente leproso, isto é, na alma, se quiser recuperar a saúde, deve aproximar-se do rio do juízo, isto é, da confissão banhada em lágrimas, onde se julgue a si mesmo e condene o que fez de mal, e isso sete vezes.
A respeito dessas coisas, diz o Apóstolo, na Segunda aos Coríntios: “Eis quanto esta mesma tristeza segundo Deus produziu em vós: que solicitude, mas também defesa, mas também indignação, mas também temor, mas também desejo, mas também emulação, mas também vingança” (2Cor 7,11). Triste, como que triturado; tristeza é a contrição do coração na confissão. Essa tristeza produz no pecador a solicitude pela satisfação, isto é, pela reparação. Por isso, diz Miqueias: “Dói-te e empenha-te”, isto é, age com empenho, filha de Sião, como uma mulher que dá à luz (Mq 4,10). “Marta”, diz, “empenhava-se”, isto é, ocupava-se intensamente, com o frequente serviço (Lc 10,40).
“Mas também defesa”, isto é, acusação de si mesmo. Com efeito, defende-se bem diante do juiz da corte celeste aquele que se acusa bem diante do juiz da Igreja, como fazia Jó: “Eu não pouparei a minha boca; falarei na tribulação do meu espírito” (Jó 7,11). Poupa a sua boca aquele que, na confissão, procura atenuar ou embelezar o pecado; não fala na tribulação de seu espírito aquele que se confessa secamente e quase como por brincadeira.
“Mas também indignação” contra si mesmo, não contra o destino ou contra o próximo. Assim fazia Jó: “Dilacero com meus dentes as minhas carnes e levo a minha alma nas minhas mãos. Ainda que me mate, nele esperarei; contudo, arguirei diante dele os meus caminhos, e ele será o meu salvador” (Jó 13,14-16). É sinal de grande indignação quando alguém dilacera as próprias carnes com os próprios dentes. Dilacera as carnes com os dentes aquele que repreende as próprias carnalidades com suas próprias censuras. Tal pessoa leva a alma nas mãos, pronta a devolvê-la a Deus em qualquer hora em que ele a pedir. Ou ainda: a alma é a vida do corpo; onde está a alma, aí está a vida; a vida nas mãos é a caridade, que é a alma da fé nas obras. Quem leva assim a alma, ainda que Deus o aflija, ainda que o mate pela tentação ou pela perseguição, contudo espera nele, sabendo que acolhe todo filho a quem corrige; e tanto mais se humilha quanto mais repreende os seus caminhos, isto é, as suas ações, dizendo: “Não recebi quanto era digno de receber” (Jó 33,27).
“Mas também temor”, para não cair em tal pecado ou em outro semelhante. “Vede”, diz, “como andais com cautela” (Ef 5,15). Diz-se nas ciências naturais que o camaleão, que se interpreta “leão da terra”, é muito magro, porque tem pouco sangue; é muito medroso e, por causa do medo, sua cor se transforma em muitas cores, pois o seu temor aumenta devido à escassez de sangue e à diminuição do calor. Essas coisas se verificam quase literalmente no penitente humilde e contrito, que é chamado leão da terra, isto é, de sua carne, a qual submete e calca aos pés como um leão; por isso é magro e tem pouco sangue, por causa da excessiva abstinência. É chamado muito medroso porque, tendo experimentado o perigo, teme que sob todo alimento se esconda um anzol; ou teme porque não vê em si mesmo abundar tanto o sangue da contrição ou o calor do amor divino que possa entregar-se com segurança ao perigo da tentação ou a um lugar suspeito. Aquele que não possui essas duas coisas, suplico e aconselho que tema os lugares suspeitos e, temendo, deles fuja.
“Mas também desejo”, do qual se diz: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” (Lc 22,15). Com efeito, deve sempre desejar passar de dia em dia a uma perfeição maior e, finalmente, deste mundo ao Pai.
“Mas também emulação”, isto é, imitação. “Aspirai”, diz, “aos melhores carismas” (1Cor 12,31). Aemulor, quando tomado no sentido de invejar, compõe-se de “e” e “immolo”; quando, porém, significa imitar, é como que “extra molere”. Quem deseja imitar as virtudes de outro precisa moer-se dentro de si mesmo, isto é, examinar sutilmente a própria vida na consciência e, depois de tê-la examinado, mostrá-la aos outros pelo exemplo, para que o imitem. Ou chama-se emulador aquele que extrai do saco de outro o grão das virtudes e o lança no moinho do próprio coração; tritura-o sutilmente e, por assim dizer, reduz-o a farinha, para fazer dele um pão, do qual primeiro ele mesmo come e depois oferece aos outros.
“Mas também vingança”, da qual fala Lucas: “Uma viúva”, diz, “clamava a um juiz: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. E por muito tempo ele não queria” (Lc 18,3-4). A viúva é a alma que ficou viúva de seu esposo, o Espírito Santo, ao qual estava unida no Batismo, mas do qual depois ficou viúva pelo pecado mortal. Ela, afligida pelo pecado, clama ao juiz, que deve julgar a si mesmo: “Faz-me justiça contra o meu adversário”, isto é, contra este corpo. E, porque o pecador não teme a Deus, cujo temor não está diante dos seus olhos (cf. Sl 35,2), nem respeita o homem, porque se lhe fez a fronte de prostituta e não se envergonha (cf. Jr 3,3), por isso não quer, durante muito tempo, fazer justiça à viúva, isto é, fazer penitência, pois está envolvido em muitos pecados e por muito tempo. Mas finalmente, quando a consciência lateja e morde, faz justiça à viúva, julga a si mesmo e condena o adversário, isto é, o próprio corpo, no tribunal penitencial; e, depois de condenado, encerra-o no cárcere da penitência, até que satisfaça plenamente à viúva. Amém.
5. A Ascensão de Cristo, como neste texto: “Ninguém subiu” (Jo 3,13). Como nos propusemos falar mais extensamente da Ascensão do Senhor no sermão seguinte, aqui faremos dela uma breve antecipação.
O céu é a sublimidade da divindade. A respeito dele, Isaías XIV diz de Lúcifer: “Subirei ao céu, porei o meu trono ao norte e serei semelhante ao Altíssimo” (cf. Is 14,13-14). Ora, estando Lúcifer colocado no empíreo, não havia um céu superior ao qual pudesse subir; mas por céu entendeu a sublimidade da divindade, à qual desejava subir para ser semelhante ao Altíssimo. Assim também aqui se pode convenientemente entender céu, tomando-o nesse sentido. Com efeito, ninguém, isto é, nenhum homem, por mais santo que seja, mesmo santificado desde o seio materno, jamais subiu, isto é, à sublimidade da divindade, para ser Deus, senão aquele que desceu do céu, isto é, da sublimidade da divindade, para ser homem, a saber, o Filho do homem, que está no céu (cf. Jo 3,13), permanecendo Deus. Pois não desceu do céu de tal modo que deixasse de permanecer no céu, porque não se fez homem de tal maneira que deixasse de ser Deus, mas foi ao mesmo tempo rico e pobre” (Sl 48,3), Deus e homem: gerado por Deus antes dos séculos, homem nascido de homem no tempo. Também no Salmo se lê algo semelhante: “Sua saída é do alto do céu” (Sl 18,7) etc.
Nota que uma coisa é subir, outra ser levado. Quem sobe, sobe por sua própria virtude; quem é levado, é levado pela virtude de outro. Cristo subiu ao céu por sua própria virtude; todos os demais são levados com o auxílio dos anjos. Por isso se diz que Henoc foi trasladado (cf. Eclo 44,16), Elias foi levado num carro de fogo (cf. Eclo 48,9), e na Igreja se canta: “Vem o arcanjo Miguel com uma multidão de anjos, para conduzir as almas ao paraíso da exultação” (cf. Breviário Romano, Festa de São Miguel Arcanjo).
6. Moralmente. O céu é a sublimidade da contemplação ou a excelência de uma vida santa. A respeito dele, diz o Deuteronômio: “A terra à qual estás para entrar, a fim de possuí-la, não é como a terra do Egito, de onde saíste, onde, lançada a semente, as águas são conduzidas à maneira de uma horta bem irrigada; mas é montanhosa e plana, esperando do céu as chuvas, e o Senhor, teu Deus, sempre a visita, e os seus olhos estão sobre ela desde o princípio do ano até o seu fim” (Dt 11,10.12). A terra do Egito representa o mundo ou a carne, cujas águas são as riquezas e os prazeres com que é irrigada como um jardim, no qual se designam a pompa do mundo ou a luxúria da carne, a respeito da qual Isaías diz: “Quando vos tornardes como um carvalho de folhas caídas e como um jardim sem água” (Is 1,30). Na hora da morte, cairão as folhas das riquezas, secar-se-á a água dos prazeres, e então o infeliz pecador permanecerá nu e seco. Tal não é a terra da penitência, à qual deve entrar para possuí-la aquele que sai da terra do Egito. A penitência é montanhosa, porque nela se entra com esforço, e plana, porque se torna larga e espaçosa à medida que se avança. Toda vida religiosa é montanhosa no princípio, porque a subida é difícil, sobretudo para os inexperientes, mas depois se torna plana, porque se alarga com o passar do tempo. Esta terra não espera as chuvas da devoção, da consolação e da compunção banhada em lágrimas do Egito, mas do céu, isto é, da sublimidade da contemplação ou da vida santa; com elas, o Senhor a visita e a irriga.
E nota que diz “espera”, indicando com isso o grande desejo do penitente ou do religioso, que deve sempre esperar a consolação, seja da contemplação, seja da pregação, seja da convivência com um homem justo. Nesta terra estão os olhos do Senhor, isto é, o olhar da graça divina, desde o princípio da conversão até o fim da corrupção final. Neste céu está o filho do homem, isto é, o verme, isto é, o humilde, que se considera verme e filho de verme, a respeito do qual diz Jó: “O homem é podridão e o filho do homem é verme” (Jó 25,6), isto é, podridão proveniente de podridão. O humilde considera-se podridão e, por isso, diz com Davi, no Primeiro dos Reis: “A quem persegues, ó rei de Israel? A quem persegues? A um cão morto e a uma única pulga” (1Rs 24,15). Somente este se encontra no céu acima mencionado pela pureza do espírito; desce do céu pela compaixão para com o próximo e sobe ao céu pela elevação da mente; e nenhum outro, pois nenhum soberbo. “Deus, com efeito, resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4,6; 1Pd 5,5). Amém.
7. A sua Paixão, como se lê: “Assim como Moisés elevou a serpente no deserto” (Jo 3,14). Lemos isto no livro dos Números: “O Senhor enviou contra o povo serpentes ardentes”, porque havia murmurado. E pouco depois o Senhor disse a Moisés: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal: aquele que, tendo sido ferido, olhar para ela, viverá” (Nm 21,6-8). A serpente de bronze é Cristo, Deus e homem: o bronze, que não se consome com o passar do tempo, é a divindade; a serpente é a humanidade, que foi elevada no madeiro da cruz como sinal da nossa salvação. Elevemos, pois, os nossos olhos e olhemos para o autor da salvação, Jesus (cf. Hb 12,2). Consideremos o nosso Senhor suspenso na cruz, pregado com cravos. Mas, ai de nós! Como diz Moisés no Deuteronômio: “A tua vida estará suspensa diante de ti; e não crerás na tua vida” (Dt 28,66). Não disse “vida vivente”, mas “vida suspensa”. E que há de mais caro ao homem que a vida? A vida do corpo é a alma; a vida da alma é Cristo. Eis, portanto: a tua vida pende; por que não sofres e não sofres com ela?
Se ele é a tua vida, como de fato é, como podes ainda conter-te, estando pronto, com Pedro e Tomé, a ir para a prisão e a sofrer com ele a morte? (cf. Lc 22,33). Ele pende diante de ti para te convidar a sofrer com ele; por isso diz nas Lamentações: “Ó vós todos que passais pelo caminho, considerai e vede se há dor semelhante à minha dor!” (Lm 1,12). Verdadeiramente não há dor semelhante à sua. Pois aqueles que redimiu com tão grande dor, vê-os perderem-se com tanta facilidade. A sua Paixão foi suficiente para a redenção de todos. Mas eis que quase todos caminham para a condenação. E que dor pode ser tão grande quanto esta? Quase ninguém presta atenção a isso, nem o conhece. E por isso devemos temer muito que, assim como disse no princípio: “Arrependo-me de tê-los criado” (Gn 6,7), diga também agora: “Arrependo-me de tê-los redimido”. Se alguém tivesse trabalhado assiduamente durante todo o ano em seu campo ou em sua vinha e não recebesse dela fruto algum, não se afligiria? Não se arrependeria de ter trabalhado? Ele mesmo diz por Isaías: “Que mais devia eu fazer à minha vinha e não fiz? Esperei que produzisse uvas, e ela produziu uvas bravas?” (Is 5,4). Eis a dor! “Esperei que produzisse justiça”, isto é, penitência, “e eis a iniquidade; e a retidão”, para com o próximo, “e eis o clamor!” (Is 5,7). Eis que fruto a vinha maldita, que deve ser arrancada pela raiz e queimada no fogo, oferece ao seu cultivador. Não agem iniquamente somente diante de Deus, mas também clamam exteriormente contra o próximo, isto é, pecam publicamente.
Além disso, “a tua vida pende diante de ti”, para que nela, como num espelho, examines a ti mesmo. Ali poderás reconhecer quão mortais foram as tuas feridas, que nenhum remédio poderia curar, senão o sangue do Filho de Deus. Se olhares atentamente, ali poderás reconhecer quão grande é a tua dignidade e quão excelente és, por quem foi pago um preço tão inestimável. Em nenhum lugar o homem pode descobrir melhor a sua dignidade do que no espelho da cruz, que te mostra a ti mesmo, e como deves inclinar a tua soberba, mortificar a lascívia da tua carne, orar ao Pai por aqueles que te perseguem e entregar o teu espírito às suas mãos. Mas acontece conosco o que diz Tiago: “Se alguém é ouvinte da palavra e não a pratica, será comparado a um homem que contempla no espelho o seu rosto de nascimento: pois contemplou a si mesmo, afastou-se e imediatamente se esqueceu de como era” (Tg 1,23-24), de como se viu ali. Assim também nós olhamos para o Crucificado, no qual contemplamos a imagem da nossa redenção, e, ao contemplá-la, talvez sintamos alguma dor, embora muito pequena. Mas logo que desviamos os olhos, também nos afastamos com o coração e nos voltamos para o riso. Porém, se sentíssemos a mordida das serpentes ardentes, isto é, as tentações dos demônios e as feridas dos nossos pecados, fixaríamos os olhos na serpente de bronze, para podermos viver.
Mas “não crerás na tua Vida”, diz ele, que afirma: “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,15). Ver e crer são a mesma coisa, porque quanto crês, tanto vês. Crê, portanto, com fé viva, na tua Vida, para viveres com ele, que é a Vida, pelos séculos eternos. Amém.
8. “A árvore produziu o seu fruto; a figueira e a videira deram o seu vigor” (Jl 2,22). Esta autoridade é de Joel, capítulo II. Sobre esta árvore, diz o livro da Sabedoria: “Quando a água destruiu a terra, a Sabedoria tornou a salvar o justo, governando-o por meio de uma árvore desprezível” (Sb 10,4). Árvore desprezível é a árvore da cruz, porque: “Maldito todo aquele que pende do madeiro” (Gl 3,13; cf. Dt 21,23), na qual Cristo, Sabedoria de Deus Pai, foi desprezado e escarnecido: “Eis aquele que destrói o templo” (Mt 27,40); e: “Se é o rei de Israel, desça agora da cruz” (Mt 27,42). Nesta árvore e por meio dela salvou o mundo, anteriormente destruído pelas águas do dilúvio.
Lê-se na História dos gregos que, quando Adão adoeceu, enviou seu filho Set para procurar-lhe algum remédio. Chegando ele às proximidades do Paraíso, comunicou ao anjo que permanecia diante de sua porta a enfermidade de seu pai. O anjo, arrancando um ramo daquela árvore de cujo fruto Adão comera contra o preceito, deu-o a Set, dizendo: “Quando este ramo der fruto, teu pai ficará curado” — o que parece ser expresso no Prefácio, quando se diz: “Para que, de onde surgia a morte, dali ressurgisse a vida”. Set, porém, ao voltar, encontrou Adão morto e sepultado; plantou então o ramo junto à sua cabeça, e ele cresceu até tornar-se uma grande árvore. Esta, como alguns relatam, depois de muito tempo foi vista pela rainha de Sabá na casa do Bosque (3Rs 7,2). Ao retornar para sua terra, ela escreveu a Salomão — pois temera dizer-lhe isso pessoalmente — que vira na casa do Bosque certa árvore na qual seria suspenso um homem, por cuja morte os judeus pereceriam e perderiam o lugar e a nação. Temendo isso, Salomão ocultou-a nas profundezas das entranhas da terra, onde depois foi feita a piscina Probática (cf. Jo 5,2). Aproximando-se o tempo de Cristo, a árvore veio à tona, como que anunciando antecipadamente Cristo, e desde então a água começou a agitar-se pela descida do anjo (cf. Jo 5,2-4).
No dia da Parasceve, os judeus, procurando a árvore na qual haveriam de afixar o Salvador, finalmente a encontraram, levaram-na ao lugar do Calvário e nela crucificaram Cristo; e assim a árvore produziu o seu fruto, pelo qual Adão foi curado e salvo. Essa árvore, depois da morte de Cristo, foi novamente escondida nas entranhas da terra. Depois de muito tempo, foi encontrada pela bem-aventurada Helena, mãe de Constantino, justamente no dia de hoje; por isso a festividade de hoje se chama Invenção da Santa Cruz. A árvore, portanto, produziu o seu fruto.
Sobre ela diz a Esposa no Cântico: “À sombra daquele que eu desejava, sentei-me, e seu fruto é doce ao meu paladar” (Ct 2,3); e nas Lamentações: “O sopro de nossa boca, o Cristo Senhor, foi capturado por causa de nossos pecados; a ele dissemos: À tua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4,20). O ardor do sol, isto é, a sugestão do diabo ou a tentação da carne, quando aflige o homem, este deve imediatamente refugiar-se à sombra da árvore preciosa e ali sentar-se, ali humilhar-se, porque ali há refrigério e remédio especial contra a tentação. O diabo, que na cruz perdeu o gênero humano, teme muitíssimo aproximar-se da cruz. Diz o Profeta: “Abri a minha boca e atraí o espírito” (Sl 118,131). Quem abre a boca na confissão recebe o espírito da graça, que é a vida da alma. “Cristo Senhor” nosso é “o espírito”, porque “nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28), o sopro da nossa boca, aquele em quem cremos com o coração e que confessamos com a boca; ele foi capturado, atado e crucificado por causa dos nossos pecados. Eis o espírito e o fruto doce ao nosso paladar. E, se ele é tão doce na confissão de seu nome e no deleite da contemplação, como será no gozo de sua majestade? E, se é tão doce na miséria, como julgas que será na glória? E, se entre as nações, isto é, nas diversas tentações, vivemos à sombra de sua Paixão, com quanta glória viveremos na luz de sua verdade?
9. Segue-se: “A figueira e a videira deram sua força”. Eis quais benefícios recebemos da madeira da Cruz: a figueira, isto é, a doçura da Ressurreição do Senhor, e o vinho da graça dos sete dons do Espírito. Eis as grandes riquezas e delícias! De um lado, a figueira; de outro, o vinho novo, posto em odres novos (cf. Lc 5,38); e nós estamos no meio. Com efeito, esta festa da Cruz situa-se entre a Páscoa e Pentecostes.
Nós, que fomos redimidos pela madeira da Cruz, estendamos as mãos para ambos e saciemo-nos de ambos, porque estes dois nos dão sua força. Quase nenhum fruto é mais doce que o fruto da figueira; e que há de mais suave que a luminosidade, a agilidade, a transparência e a imortalidade do corpo glorificado? Essa doçura dá ao homem força contra a falsa doçura do mundo e da carne. O vinho do Espírito Santo, que alegra o coração do homem (cf. Sl 103,15), dá força para que o homem se alegre nas tribulações e nelas não desfaleça. Digne-se conceder-nos essa força aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
10. “A árvore produziu o seu fruto.” Vejamos o que significam moralmente estas três coisas: a árvore, a figueira e a videira.
Note-se que no Paraíso havia três árvores, isto é, três espécies de árvores: a primeira, da qual Adão se alimentava; a segunda, a da vida; a terceira, a da ciência do bem e do mal. Sobre elas diz o Gênesis: “O Senhor Deus fez brotar da terra toda árvore bela à vista e agradável para comer, e também a árvore da vida no meio do Paraíso, e a árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2,9). Na primeira está indicada a honestidade da conduta; na segunda, a pureza da consciência; na terceira, a sutileza do discernimento. A conduta honesta é bela e agradável, porque nada torpe há na ação, nada disforme na palavra, nada indecente no gesto ou no movimento; assim, pela cor de sua beleza, ela deleita os olhos do próximo e adoça o paladar de sua mente. Por isso, no Cântico, diz-se: “És bela, minha amiga, agradável e formosa como Jerusalém” (Ct 6,3), que se interpreta como pacífica, isto é, a conduta honesta, que pacifica e suaviza todos os membros.
Do mesmo modo, a pureza da consciência é a árvore da vida, sobre a qual se diz nos Provérbios: “É árvore da vida para os que dela se apoderam, e feliz aquele que a conserva” (Pr 3,18). Eis o Paraíso, cuja etimologia, segundo o Senhor, é “situado junto”, isto é, lugar próximo, de pará, que significa “junto”. E que há de mais próximo de Deus que uma consciência pura? A esposa junto de seu esposo? Diz Jó: “Coloca-me junto de ti, e que a mão de qualquer um combata contra mim” (Jó 17,3).
Do mesmo modo, o discernimento é a árvore da ciência do bem e do mal. Esta é a verdadeira ciência, a única que sabe saber, a única que torna sábios, para que saibam discernir entre o puro e o impuro (cf. Lv 10,10), entre a lepra e a não lepra, entre o vil e o precioso, entre o claro e o obscuro, entre a virtude e o vício. O discernimento consiste em examinar ou considerar todas as coisas, para que se veja a que tendem. De qualquer uma dessas três árvores, portanto, pode-se entender: “A árvore produziu o seu fruto.” A árvore da conduta honesta produz no próximo o fruto da edificação. A árvore da consciência pura produz em Deus o fruto da contemplação. A árvore do discernimento produz em ti mesmo o fruto da bondade.
11. Segue-se: “O figo”, que recebe o nome da fecundidade; com efeito, é mais fecundo que as demais árvores, pois produz fruto duas ou três vezes por ano, e, enquanto um amadurece, outro nasce. O figo é a caridade fraterna, mais fecunda que as demais virtudes, porque corrige quem erra, perdoa a quem a ofende, alimenta quem tem fome; enquanto pratica alguma obra de misericórdia, pensa em outra para pôr em prática. E a vinha, na qual é designada a compunção acompanhada de lágrimas. Por isso, em Gênesis XLIX: “Judá, atando à vinha o seu jumentinho e à videira, ó meu filho, a sua jumenta. Lavará no vinho a sua veste e no sangue da uva o seu manto” (Gn 49,11). A jumenta é a carne, o jumentinho é o movimento da carne. Judá, isto é, o penitente, ata tanto a carne como o seu movimento à vinha ou à videira, isto é, à compunção da mente, na qual lava a veste, isto é, purifica a consciência, e o manto, isto é, a ação exterior. “Deste-nos de beber”, diz, “o vinho da compunção” (Sl 59,5).
Sobre estas duas coisas, isto é, a vinha e a figueira, lê-se no Primeiro Livro dos Macabeus: “Simão estabeleceu a paz sobre a terra, e Israel se alegrou com grande alegria. Cada um sentou-se sob a sua videira e sob a sua figueira, e não havia quem os atemorizasse” (1Mc 14,11-12). Simão, que se interpreta como obediente ou como aquele que suporta a tristeza, é Cristo, que, obediente ao Pai, suportou a tristeza da morte. “Triste está”, diz, “a minha alma até a morte” (Mt 26,38). Ele, ao estabelecer a paz sobre a terra, isto é, em nossa carne, esmagando os ataques do diabo e as revoltas da carne, faz com que Israel, isto é, o nosso espírito, se alegre com grande alegria; e assim cada um repousa sob a vinha da compunção interior e sob a figueira da caridade fraterna; estas duas concedem a sua força ao próximo e a ti mesmo.
Digne-se concedê-la a nós aquele que é bendito pelos séculos. Amém.