Sermões Dominicais · Parte II · Sermão n.º 40

Domingo XII depois de Pentecostes Dominica XII post Pentecosten

Sermões Dominicais — Domingos depois de Pentecostes · 4 seções · 14 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do décimo segundo domingo depois de Pentecostes: “Saindo Jesus dos limites de Tiro”, que se divide em duas partes.

Primeiramente, sermão sobre o pregador e o prelado da Igreja, sobre a natureza das abelhas e sobre a propriedade do ferro, no trecho: “O ferreiro”.

[da primeira parte]. Também sobre o pecado da luxúria, da soberba, sobre a natureza da serpente e sobre os três roubos dos avarentos, no trecho: “Filho, pecaste?”.

Também contra os prelados da Igreja, no trecho: “Seus pés levarão Tiro para longe”.

Também um sermão moral sobre a vida do homem justo e sobre a propriedade da névoa, do sol e do arco que se forma em dia de chuva, no trecho: “Simeão, filho de Onia” etc.

Também sobre os cinco rios e seus significados, e sobre as três coisas que há na flecha, no trecho: “Aquele que transborda como o Fison”.

[da segunda parte]. Tema do sermão sobre o coração do homem e os sentidos do corpo, no trecho: “O rei que se senta no trono”.

Também sobre as cinco coisas notadas nesta autoridade: “Com o ouvido do ouvido te ouvi”, e sobre a natureza do cervo e seu significado.

Também sobre a confissão, no trecho: “No meio do fogo, uma aparência de eletro”.

Também um sermão moral sobre o desprezo do mundo, no trecho: “Dois anjos” etc.

Também sobre os cinco dedos de Jesus Cristo e seus significados.

Também um sermão sobre a Natividade do Senhor, no trecho: “O oleiro sentado ao seu trabalho”.

Também um sermão sobre a Natividade e sobre as seis asas dos serafins, no trecho: “Voou até mim um”.

Também sobre o pregador, no trecho: “Muitos lábios louvarão aquele que é generoso em dar o pão”.

Também um sermão sobre o testamento e o que ele significa.

Exórdio. O pregador e o prelado da Igreja

1. Naquele tempo: “Saindo Jesus da região de Tiro, passou por Sidônia, dirigindo-se para o mar da Galileia, em pleno território da Decápolis” (Mc 7,31).

Lê-se no Eclesiástico: “O ferreiro, sentado junto à bigorna, observa o trabalho do ferro; a chama do fogo queima-lhe as carnes, e ele tem de lutar contra o calor da fornalha. O ruído do martelo ressoa-lhe nos ouvidos, enquanto seus olhos estão fixos no modelo do vaso. Aplica o coração à execução da obra e vigia para aperfeiçoá-la” (Eclo 38,29-31). Ferreiro deriva de fazer, isto é, trabalhar o ferro, e é figura do santo pregador da Igreja, que fabrica as armas espirituais. Ele deve sentar-se junto à bigorna, isto é, aplicar-se ao estudo e à prática da Sagrada Escritura, precisamente para praticar aquilo que prega. A bigorna recebe esse nome porque por meio dela se fabrica algo, isto é, se produz batendo: em latim, cudere significa golpear e dobrar. Lê-se na História Natural que “as abelhas elevam-se no ar, como que para se exercitar, e depois retornam às colmeias e se alimentam; assim, os pregadores devem primeiro exercitar-se no ar da contemplação, com o desejo da bem-aventurança celeste, para depois poderem alimentar com maior ardor a si mesmos e aos outros com o pão da palavra de Deus”.

O pregador deve também observar o trabalho do ferro, isto é, a mente férrea dos ouvintes, para fabricar nela as armas das virtudes, capazes de derrotar os poderes do ar. Daí o ferro ter recebido seu nome de ferir, porque com ele as outras coisas são feridas ou domadas. Ou então o ferro assim se chama porque serve para afundar na terra as sementes das messes, chamadas em latim farra. Também o aço, que em latim se chama chalybs, deriva seu nome do rio Chalybs, em cujas águas o ferro era temperado para se obter um aço excelente. E considera que o ferro não é atingido pela ferrugem se for untado com alvaiade, gesso e pez líquido; ou também se for ungido com medula de cervo, ou com alvaiade misturado a óleo de rosas. O alvaiade é uma matéria própria para pintar e é composto de estanho e chumbo. O gesso é um produto da Grécia, semelhante à cal, muito apropriado para fazer relevos, figuras, saliências e cornijas nos edifícios. Considera ainda que o ferro, isto é, a mente do homem, recebe excelente têmpera no rio das lágrimas. E a mente não é atingida pela ferrugem se for untada com o alvaiade e com as demais matérias acima mencionadas. Vejamos o que significam o alvaiade, o gesso, o pez, a medula de cervo e o óleo de rosas.

O alvaiade é composto de estanho e chumbo. No estanho e no chumbo é simbolizada a humanidade de Cristo, que foi de estanho na Natividade. Diz Zacarias: “Alegrar-se-ão e verão a pedra de estanho na mão de Zorobabel” (Zc 4,10). Na pedra de estanho são indicadas a natureza divina e a natureza humana, que o nosso Zorobabel, Jesus Cristo, teve na mão de seu poder: aqueles que agora se alegram com ele um dia o contemplarão, Deus e homem, face a face, na Jerusalém celeste. E sua humanidade foi de chumbo na Paixão. Diz Jeremias: “O fole se esgotou, o chumbo se consumiu no fogo” (Jr 6,29) etc. Sobre isso, veja o sermão da quarta-feira depois da Páscoa, primeira parte, onde se comenta o Evangelho: “Volto para aquele que me enviou”.

No gesso é simbolizada a vida inocente dos santos; no pez, a humildade e a pobreza; na medula de cervo, a compaixão para com o próximo; no óleo de rosas, a castidade do corpo. Quem proteger o ferro de sua mente com todas essas virtudes, sem dúvida alguma estará sempre livre de toda ferrugem do pecado. Com razão, portanto, se diz: “Observa o trabalho do ferro”.

“ A chama do fogo queima-lhe as carnes.” A chama do fogo é o santo fervor do zelo, que deve queimar as carnes, isto é, as tendências carnais do pregador ou do prelado, para que possa dizer com o Apóstolo: “Quem é fraco, que eu também não o seja? Quem recebe escândalo, que eu não arda de zelo?” (2Cor 11,29). “E contra o fogo da fornalha”, isto é, contra as tentações da carne, “combate”: combate, isto é, contra os vícios.

“ O ruído do martelo” etc. O martelo chama-se em latim malleus porque golpeia e trabalha aquilo que foi amolecido pelo calor do fogo. O martelo simboliza a palavra de Deus, da qual Jeremias diz: “Porventura, minhas palavras não são como fogo e como martelo que despedaça as pedras?” (Jr 23,29). Com efeito, quando o pregador golpeia com o martelo a massa de ferro, incute o temor dos tormentos, e com esses golpes deve fazer ressoar os ouvidos. Ai daquele que golpeia os outros e, golpeando-os, os sacode, enquanto ele próprio permanece insensível; deveria dizer com Isaías: “Eu, que faço os outros dar à luz”, isto é, que os faço irromper em gemidos de compunção, “serei eu estéril?” (cf. Is 66,9). Não irromperei também em gemidos? Ou então, “a voz” do martelo poderia ser também esta: “Ide, malditos!” (cf. Mt 25,41), que deveria ressoar continuamente aos ouvidos do coração. Por isso, para dizer “ressoa”, o latim emprega o verbo innovat, porque essa ameaça deveria voltar sempre e de novo diante dos olhos.

“E seu olho está fixo no modelo do vaso.” No olho são simbolizadas a atenção e a intenção do pregador, que devem estar voltadas para o modelo do vaso, isto é, para as almas eleitas, a fim de reproduzir outras semelhantes: para reproduzir a semelhança, deve-se sempre partir do modelo.

“Aplica todo o coração à execução da obra”, para poder dizer com o Senhor: “Pai, concluí a obra que me deste para fazer” (Jo 17,4).

“E vigia para aperfeiçoá-la.” O pregador, com sua perfeição, deve levar as almas à perfeição, para curar a alma surda e muda com os dedos de suas obras santas e a saliva da pregação divina. Por isso mesmo se diz no Evangelho de hoje: “Saindo Jesus da região de Tiro” etc.

2. Observa que neste Evangelho são postos em evidência dois fatos: a saída de Jesus Cristo da região de Tiro e a cura do surdo-mudo. O primeiro, quando diz: “Saindo Jesus da região de Tiro”. O segundo, quando acrescenta: “E lhe conduziram um surdo-mudo”. Encontraremos no livro do Eclesiástico algumas passagens que concordam com essas duas partes do Evangelho.

Na entrada da Missa de hoje canta-se o salmo: “Olha, Senhor, para a tua aliança” (Sl 73,20). Lê-se também o trecho da Segunda Carta do bem-aventurado Paulo aos Coríntios: “Esta é a confiança que temos” (2Cor 3,4); dividiremos o trecho em duas partes, fazendo-as concordar com as duas partes do Santo Evangelho. A primeira parte é: “Esta é a confiança que temos”. A segunda: “Aquele que nos tornou ministros aptos”.

I. A saída de Jesus Cristo do território de Tiro

3. Digamos, portanto: “Saindo Jesus dos confins de Tiro, passou por Sidônia ao mar da Galileia, entre os confins da Decápolis” (Mc 7,31).

Alegoricamente. Tiro interpreta-se “estreiteza” e significa a Judeia, à qual o Senhor diz por meio de Isaías: “O leito está estreito demais, o manto é curto demais e não pode cobrir ambos” (Is 28,20). “Levantemo-nos, pois, e vamos daqui” (Jo 14,31). “E, saindo” dali, “passou por Sidônia”, que se interpreta “caça”, isto é, pela pregação dos apóstolos, dos quais diz em Jeremias: “Enviarei meus caçadores, e eles os caçarão” (Jr 16,16). “Veio ao mar da Galileia”, que se interpreta “roda”, isto é, passou aos gentios, que estavam na amargura dos pecados e na engrenagem das coisas temporais. “Entre os confins da Decápolis.” Decápolis é a região das dez cidades situada além do Jordão e significa os mandamentos do Decálogo, que o Senhor também entregou aos gentios para serem observados.

No sentido literal. Marcos diz que Jesus não entrou nos confins da Decápolis, nem atravessou o mar navegando, mas que veio até o mar e chegou a um lugar que dava para os confins da Decápolis, situados longe, além do mar.

Vejamos o que significam moralmente Tiro e seus confins, Sidônia, o mar da Galileia e a Decápolis. É preciso sair dos confins de Tiro e chegar ao mar da Galileia por Sidônia. Este é o caminho da vida, a vereda da justiça, da qual Isaías diz: “A vereda do justo tornou-se reta; o caminho direito do justo é para caminhar” (Is 29,7). Tiro, estreiteza; Sidônia interpreta-se “caça da tristeza”. Tiro é o mundo, acerca de cuja estreiteza encontras concordância no Eclesiástico: “Filho, pecaste? Não tornes a pecar; mas suplica também pelos pecados passados, para que te sejam perdoados. Foge dos pecados como da presença da serpente; e, se te aproximares deles, te morderão. Seus dentes são dentes de leão, que matam as almas dos homens. Toda iniquidade é como uma espada de dois gumes; não há cura para suas feridas” (Eclo 21,1-4). Observa estas três coisas: a serpente, os dentes do leão e a espada. Na serpente é figurada a luxúria; nos dentes dos leões, a avareza; na espada, a soberba.

“Coluber” é chamado assim porque “colit umbras”, isto é, ama as sombras, ou porque é “lubricosus”, escorregadio; foge do cervo, mata o leão e significa a luxúria, que ama as sombras, isto é, habita naqueles que são sombrios, ou seja, tíbios e ociosos. Facilmente escorrega para dentro da alma, se sua cabeça não for esmagada. Portanto, “resiste logo no princípio” (Ovídio). Foge do cervo, isto é, do penitente humilde, porque este próprio foge dela: “Fugi”, diz ele, “da fornicação” (1Cor 6,18); mas mata o leão, isto é, o soberbo. Antes da queda na luxúria, o coração se exalta pela soberba, que é o princípio de todo pecado (cf. Pr 18,12).

Do mesmo modo, os dentes são assim chamados porque dividem os alimentos; os primeiros são chamados incisivos, os seguintes, caninos, e os últimos, molares. Observa que é tríplice a rapina dos avarentos. Alguns cortam, porque não tiram tudo, mas apenas uma parte; outros são como dentes caninos, isto é, os legistas e decretistas, que, por dinheiro, latem como cães nas causas; outros são como os molares, isto é, os poderosos e usurários, que trituram os pobres. Mas o Senhor quebrará os dentes dos pecadores e os molares dos leões (cf. Sl 57,7).

Do mesmo modo, “romphaea” é uma espada afiada dos dois lados, que o povo chama de “spatha”. Esta é a soberba, que mata a alma com uma dupla morte. Foge, portanto, da serpente da luxúria, dos dentes da avareza e da espada da soberba. Estes são os confins de Tiro, nos quais há estreiteza, isto é, angústia e aflição de espírito, das quais diz Salomão nos Provérbios: “Os olhos dos insensatos estão nos confins da terra” (Pr 17,24). Os confins são assim chamados porque os campos são divididos por cordas. Aqueles que são presos pelas cordas de seus pecados serão separados da herança dos santos.

4. Por isso, Isaías diz desta Tiro: “Seus pés a conduzirão, isto é, a Tiro, para peregrinar longe. Quem imaginou isto contra Tiro, outrora coroada, cujos negociantes eram príncipes, cujos mercadores eram os mais nobres da terra? O Senhor dos exércitos imaginou isto, para abater a soberba de toda a glória e reduzir à ignomínia todos os nobres da terra” (Is 23,7-9).

Tiro é o mundo, coroado de soberba, poder e grandeza; seus negociantes são os príncipes, isto é, os prelados da Igreja, dos quais se diz no Apocalipse: “Os teus mercadores eram os príncipes da terra” (Ap 18,23). Estes são os negociantes ismaelitas que, como se diz no Gênesis, venderam José como escravo, para o Egito (cf. Gn 37,28.36). O verdadeiro José, Jesus Cristo, hoje é vendido pelos negociantes que são os arcebispos, os bispos e os demais prelados da Igreja. Correm e discorrem; compram, vendem e revendem a verdade por meio de mentiras, oprimem a justiça com simonias. E observa que negócio às vezes significa a ação de uma causa, que é litígio de demanda; outras vezes, a realização de alguma coisa, cujo contrário é o ócio; por isso, negócio se diz como que negans otium, “negando o ócio”; daí negociador, aquele que se dedica ao comércio.

Os mercadores são os abades e priores hipócritas e os falsos religiosos que, sob o pretexto da religião, vendem no mercado da vaidade mundana falsas mercadorias de uma santidade alheia, pelo dinheiro da louvação humana. Tiro, portanto, com seus mercadores e negociantes, será conduzida ao cativeiro. Mas por quem? Certamente, por seus próprios pés, com os quais agora corre de um lado para outro. Eles mesmos serão a causa de que ela seja conduzida a peregrinar no exílio da geena. Quem poderia imaginar que os príncipes e nobres da terra, os prelados e religiosos, que parecem falar com Deus face a face, que possuem as chaves do reino dos céus, seriam conduzidos ao exílio da morte eterna? Por isso, os condenados, súditos e paroquianos, dizem ao prelado condenado no inferno, com as palavras de Isaías: “Também tu foste ferido como nós, tornaste-te semelhante a nós; foi precipitada aos infernos a tua soberba, caiu o teu cadáver; sob ti se estenderá a podridão, e tua coberta serão os vermes” (Is 14,10-11).

Tal leito terão os bispos e prelados, os abades e os falsos religiosos, que agora dormem, como diz o profeta Amós, em leitos de marfim e se deleitam estendidos em seus divãs (cf. Am 6,4), como os cavalos nos prados com suas éguas. O Senhor dos exércitos imaginou isto para abater, isto é, arrastar para baixo, ao inferno, a soberba de toda a glória dos prelados, e conduzir à ignomínia da eterna vergonha, isto é, levar para baixo, todos os nobres da terra, que se gloriam das nobres penas do abutre e da cegonha e caminham com o ventre projetado para a frente. “Aos poderosos”, diz o Eclesiástico, “aguarda um tormento mais poderoso”. Para que o homem justo, membro de Jesus Cristo, não seja conduzido a peregrinar com a infeliz Tiro, saia, rogo, com Jesus, dos confins de Tiro, da qual se diz: “Saindo”, isto é, indo para fora, “Jesus dos confins de Tiro”.

Segue-se: “Passou por Sidônia em direção ao mar da Galileia”. Sobre Sidônia, sua interpretação e seu significado, procure no evangelho: “Tendo saído, Jesus retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia” (Dom. IV na Quaresma).

Galileia interpreta-se como transmigração. O mar da Galileia é a amargura da penitência, pela qual se realiza a transmigração dos vícios para as virtudes e das virtudes para as virtudes. Sobre a amargura da penitência, procure no evangelho sobre os cinco pães.

Segue-se: “Em pleno território da Decápolis”. Decápolis deriva de deca, que significa dez, e polis, cidade; daí Decápolis, isto é, região das dez cidades. Observa que essas dez cidades são aquelas dez virtudes que o Eclesiástico enumera no elogio de Simeão, filho de Onias.

5. “Simeão”, diz ele, “filho de Onias, foi sumo sacerdote; como a estrela da manhã no meio da névoa, como a lua cheia em seus dias, e como o sol resplandecente, assim ele brilhou no templo de Deus; como o arco resplandecente entre as nuvens da glória, como a flor das rosas nos dias primaveris, como os lírios que estão junto à corrente das águas, e como o incenso perfumado nos dias de verão; como um vaso de ouro maciço, ornado de toda pedra preciosa; como uma oliveira que brota e um cipreste que se eleva às alturas” (Eclo 50,1.6-8.10-11). As duas expressões intercaladas, a saber: “como fogo resplandecente e incenso ardente no fogo” (Eclo 50,9), não as colocamos, porque parecem estar compreendidas sob “o sol resplandecente” e “o incenso perfumado”. Observa que, desta passagem, pode-se extrair um sermão para qualquer festa de Santa Maria, e para a festa de um apóstolo, ou de um mártir, ou de um confessor.

Simeão interpreta-se “aquele que ouve a tristeza” e significa o homem justo que, quer coma, quer beba, quer faça qualquer outra coisa, na tristeza de seu coração ouve aquela terrível trombeta: “Levantai-vos, ó mortos, e vinde ao julgamento do Senhor”. Aqui é chamado filho de Onias, que se interpreta “entristecido no Senhor”. Com efeito, é filho da tristeza, na qual deseja agradar somente ao Senhor. Por isso é bem chamado sacerdote, isto é, aquele que dá o sagrado, oferecendo-se a si mesmo ao Senhor em odor de suavidade. E observa atentamente que a vida do homem santo é comparada à estrela da manhã, à lua, ao sol, ao arco, à flor das rosas, aos lírios, ao incenso perfumado, ao vaso de ouro, à oliveira que brota e ao cipreste. Eis a Decápolis, eis a região das dez cidades, das quais se diz no Evangelho: “E tu terás autoridade sobre dez cidades” (cf. Lc 19,17).

A vida do homem justo é como a estrela da manhã no meio da névoa, isto é, no meio da vaidade do mundo. Observa que, na névoa, teme-se o ladrão; dissipada a névoa, o sol brilha mais claramente; quando é apalpada, nada se encontra; quando se eleva, é sinal de tempestade; quando cai, de serenidade. Uma coisa parece maior na névoa; ela ocupa toda a terra, mas logo não se sabe para onde foi. Assim, na vaidade do mundo, no fausto secular, esconde-se o ladrão, isto é, o diabo ou o pecado; e por isso o homem justo teme muito quando lhe sorri a prosperidade das coisas temporais. Fugi, ó justos, pois a serpente se esconde sob a erva (“Virgílio”). O ladrão se esconde na névoa!

Dissipada a névoa, isto é, desprezado o fausto do mundo, o sol da graça brilha mais luminosamente. “Para vós”, diz o Profeta, “que temeis a Deus, nascerá o sol da justiça” (cf. Ml 4,2).

Quando é apalpada, nada se encontra. Por isso se diz no Salmo: “Adormeceram o seu sono, e nada encontraram em suas mãos todos os homens das riquezas” (Sl 75,6). São chamados homens das riquezas, e não riquezas dos homens, porque são escravos do dinheiro.

Quando se eleva, é sinal de tempestade. Quando a glória secular te eleva, é sinal de tua condenação. Por isso diz Agostinho: Não há sinal mais evidente de condenação eterna do que quando as coisas temporais sucedem conforme o aceno, isto é, conforme o prazer. Quando a névoa cai, é sinal de serenidade, isto é, de perfeição. “Se queres”, diz ele, “ser perfeito” (Mt 19,21) etc.

Uma coisa parece maior na névoa. Com efeito, alguém colocado na glória secular parece ser maior do que é. É como uma bexiga que, inflada pelo vento, parece ser maior do que é; mas a picada de uma agulha, isto é, da morte, manifestará quão pequeno ele é.

Além disso, a névoa cobre toda a terra. Por isso é chamada assim, de obnubilar, isto é, cobrir. Com efeito, os vales úmidos exalam névoas. Ai! Toda a terra está coberta de névoa, e por isso os homens não veem. Por isso diz o Salmo: “Estão cobertos de iniquidade”, quanto a Deus, “e de impiedade”, quanto ao próximo (Sl 72,6). E Jó: “A gordura cobriu-lhe o rosto”, isto é, a abundância das coisas temporais, “e dos seus flancos pende a banha” (Jó 15,27), isto é, a gordura.

Agora a névoa ocupa a terra, mas logo não se sabe para onde foi. Por isso diz Jó: “Se a sua soberba subisse até o céu e sua cabeça tocasse as nuvens, como esterco seria destruído no fim, e os que o tivessem visto diriam: Onde está? Como um sonho que voa, não será encontrado; passará como uma visão noturna. O olho que o tinha visto não o verá, nem mais o contemplará o seu lugar” (Jó 30,29). A glória do pecador é, portanto, como esterco (cf. 1Mc 2,62), mas a glória do homem justo é como a estrela da manhã no meio da névoa: Abraão em Ur dos caldeus, Lot no meio dos sodomitas; Jó, irmão dos dragões e dos avestruzes (cf. Jó 30,29), Daniel na cova dos leões.

6. Segue-se: “Como a lua cheia” etc. A lua cheia resplandece durante toda a noite; assim o homem justo considera todos os tipos de pecadores e se compadece de todos.

Também: “E como o sol resplandecente.” Nos raios do sol veem-se os átomos; assim, na vida do homem justo, aparecem os nossos defeitos. Átomo é o pó finíssimo que aparece nos raios do sol. E por que nós, cegos, não vemos os nossos defeitos, senão porque não contemplamos a vida luminosa dos santos? Jó via esses átomos quando dizia: “Observarei os homens e direi: Pequei” (cf. Jó 33,27). O sol também atrai para si as gotas de água; e o homem justo converte para Deus os pequenos, os humildes. O sol é luminoso, quente e redondo; e o homem justo resplandece para o próximo, arde para Deus e é redondo, isto é, perfeito, em si mesmo. É o que diz o Apóstolo: “Vivamos neste mundo com sobriedade, justiça e piedade” (Tt 2,12).

Também: “Como o arco-íris resplandecente entre nuvens de glória.” O arco-íris provém da reverberação dos raios do sol numa nuvem carregada de água. A nuvem carregada de água é o homem justo, cheio de compaixão e de lágrimas pelo próximo. Recebendo em si os raios do verdadeiro Sol, derrama sobre os outros, como de uma nuvem, a chuva da doutrina. No arco-íris há duas cores: a cor de fogo e a azul. A cor de fogo significa a caridade para com Deus; a azul, a compaixão para com o próximo. Este arco-íris é “resplandecente entre nuvens de glória”. Com efeito, diante dos homens o homem justo aparece nebuloso, isto é, desprezado; por isso diz o Apocalipse: “O sol tornou-se negro como um saco de crina” (cf. Ap 6,12); mas diante de Deus resplandece em glória.

Também: “Como a flor das rosas nos dias primaveris.” Na rosa observam-se duas coisas: o espinho e a flor; o espinho que fere e a flor da rosa que deleita. Assim, na vida do homem justo, há o espinho da compunção e o perfume da alegria interior; e isso nos dias primaveris, porque, no tempo da prosperidade, ele também se alegra com as adversidades.

Também: “E como os lírios junto ao curso da água.” Nos lírios é simbolizada a pureza da alma e do corpo. Sobre eles se lê no Cântico: “Desceu o meu amado ao seu jardim, para colher lírios. Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu, ele que se apascenta entre os lírios” (Ct 6,1-2). Jardim chama-se assim porque nele sempre nasce alguma coisa. Com efeito, enquanto a terra comum produz algo apenas uma vez por ano, o jardim nunca fica sem algum fruto. O jardim é a alma do homem justo, que frutifica continuamente e nunca fica sem fruto. O Amado desce até ela quando o Filho de Deus infunde nela a graça e encontra repouso em sua pureza interior e exterior. “Eu”, diz a alma do homem justo, “pertenço ao meu amado, e ele me pertence”; por isso: “O Senhor é a parte da minha herança” (Sl 15,5). Ele é a minha herança, e eu sou a sua. Estes lírios estão junto ao curso da água, isto é, neste mundo que passa. Com efeito, o homem justo, mesmo em meio à abundância temporal, conserva ilibada a sua vida.

Também: “E como o incenso perfumado nos dias do verão.” A árvore do incenso é cortada no verão, para que se prepare a colheita do outono. Assim, o homem justo sofre e é atribulado na vida presente, mas na futura colherá o fruto da vida eterna. Sobre isso encontrarás mais amplamente no sermão: “A minha casa será chamada casa de oração” (“Dom. X post Pent., III”).

Também: “Como um vaso de ouro maciço” etc. A concavidade do vaso, capaz de receber aquilo que nele se derrama, é a humildade do coração do homem justo, capaz de receber as graças. Com efeito, a soberba repele o que é infundido. E com razão o homem justo é chamado “vaso de ouro maciço”: vaso, porque é humilde; de ouro, porque é límpido e precioso; maciço, porque “a sua esperança está cheia de imortalidade” (Sb 3,4), ornado com toda espécie de pedras preciosas, isto é, com toda espécie de virtudes.

Também: “Como uma oliveira verdejante.” Oliveira, porque é misericordioso; verdejante, porque o justo sempre se considera no início de sua conversão. Diz-se verdejante, isto é, que brota, em latim pullulans, como quem diz pollens cum laetitia, virtuoso com alegria: “Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7).

Também: “E como um cipreste que se eleva às alturas.” O cipreste é assim chamado porque a sua copa se eleva em forma arredondada. A cabeça do homem justo, isto é, a sua mente, eleva-se na redondeza, isto é, na perfeição do amor divino, e se exalta até as alturas da contemplação.

Bem-aventurado aquele que habitar nestas dez cidades. Estas são as “cidades de refúgio”; quem nelas se refugiar estará salvo (cf. Dt 19,2-3). Se, portanto, saíres com Jesus do território de Tiro e, passando por Sidônia, chegares ao mar da Galileia, em pleno território da Decápole, poderás dizer também tu, com o bem-aventurado Paulo, na epístola de hoje: “Temos tal confiança, por meio de Jesus Cristo, diante de Deus. Não que sejamos capazes, por nós mesmos, de pensar alguma coisa como proveniente de nós; mas a nossa capacidade vem de Deus” (2Cor 3,4-5). Pode ter confiança em Deus, por meio de Jesus Cristo, somente aquele que sair com ele do território de Tiro. Com efeito, o desprezo das coisas terrenas gera confiança nas eternas. E, porque a graça preveniente e subsequente provém somente dele, acrescenta: “Não que sejamos capazes de pensar alguma coisa” de bom, da nossa parte, que nos defenda, como se proviesse de nós; “mas a nossa capacidade vem somente de Deus”.

7. A esse respeito, encontra-se a concordância no Eclesiástico: “Ele transborda de sabedoria como o Físon e como o Tigre na estação dos frutos novos. Faz transbordar o entendimento como o Eufrates e cresce como o Jordão no tempo da colheita; espalha a ciência como a luz e inunda como o Geon no tempo da vindima” (Eclo 24,35-37). Observa que aqui são mencionados cinco rios, nos quais é simbolizada toda a perfeição, tanto da via quanto da pátria. A perfeição da via consiste em três graus: os principiantes, os que progridem e os perfeitos. Físon interpreta-se mudança do rosto; Tigre, flecha; Eufrates, fértil.

Jesus Cristo é para os principiantes como o Físon: aqueles que pouco antes falavam a língua egípcia agora falam a língua de Canaã, isto é, mudada; o rosto deles, que estava queimado pelos pecados, agora é resplandecente. Como o rio Físon transborda e inunda as terras, do mesmo modo Cristo faz abundar a sabedoria nos principiantes, para que compreendam as coisas de Deus, eles que antes conheciam somente as coisas da carne (cf. Rm 8,5).

Do mesmo modo, para os que progridem, ele é como o Tigre nos dias dos frutos novos, isto é, das sementes. Com efeito, nesses dias o Tigre transborda. Observa que na flecha há três elementos: a madeira, o ferro e a pena, na extremidade posterior, que lhe imprime a direção correta. Cristo, com a madeira de sua Paixão, com o ferro do santo temor e com a pena de seu amor, golpeia e fere o coração dos penitentes, que progridem cada dia e, como boa semente, crescem diariamente de virtude em virtude.

Do mesmo modo, Cristo é para os perfeitos como o Eufrates: seus sentimentos e seu entendimento se enchem de fecundidade. Deles diz o Apóstolo, na Epístola aos Hebreus: “O alimento sólido é para os perfeitos, para aqueles que, pela prática, têm as faculdades exercitadas para discernir o bem e o mal” (Hb 5,14).

Deve-se notar também que a perfeição da pátria consiste em três coisas: na glorificação da alma, na glorificação do corpo e na visão do Deus Uno e Trino. Digamos, pois: “Ele cresce como o Jordão no tempo da colheita”. O Jordão engrossa suas águas recebendo-as de dois rios, e isso significa a glória transbordante da dupla veste. O tempo da colheita simboliza a felicidade eterna. Diz-se com razão que o Jordão multiplicará suas águas, porque, no tempo da colheita, se enche de águas mais abundantes e multiplica suas águas justamente quando os outros rios delas carecem. Assim será também na eterna bem-aventurança: cessando o prazer do mal, nos bem-aventurados se multiplicará veste sobre veste, isto é, glória e felicidade sempre maiores.

Então Deus será para nós como o Geon: iluminará, com a visão de si mesmo, a Igreja triunfante, que estará diante dele; fecundá-la-á e saciá-la-á, e isso no dia da vindima. Por isso, diz justamente o Apóstolo: “Nossa capacidade vem de Deus”.

Nós te suplicamos, portanto, Senhor Jesus Cristo, que nos faças sair do território de Tiro e chegar, através de Sidônia, ao mar da penitência, em pleno território da Decápolis, e que nos faças crescer na perfeição durante a vida, para que mereçamos subir à perfeição da glória. Concede-nos isso tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. A cura do surdo-mudo

8. Segue-se o segundo ponto. “Levaram-lhe um surdo-mudo e suplicavam-lhe que lhe impusesse a mão. E, tomando-o à parte, longe da multidão, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e, com a saliva, tocou-lhe a língua; depois, olhando para o céu, soltou um gemido e disse: Efatá!, que quer dizer: abre-te. E imediatamente se abriram os seus ouvidos, e se desatou o vínculo de sua língua” (Mc 7,32-35). Vejamos o que significam moralmente o surdo-mudo, a mão de Jesus, o fato de ele ser levado para longe da multidão, os dedos, a saliva e o gemido de Jesus. O surdo é assim chamado por causa das escórias (lat. sordes) que se formam nos humores dos ouvidos. O mudo é assim chamado porque muge, pois a sua voz não é fala, mas um mugido de sons indistintos; com efeito, emite pelas narinas o sopro da voz, como quem muge. No coração do homem, como testemunha Salomão, está a vida (cf. Pr 4,23), e está a fonte do calor que vivifica e alimenta os membros.

O coração é como um rei que governa e dispõe a cidade do corpo; a seu respeito diz o Eclesiástico: “O rei que se senta no trono dissipa todo o mal com o seu olhar” (Pr 20,8). O trono é chamado, em latim, solium, como se fosse solidum, sólido. Quando o coração do homem se assenta, isto é, se senta no trono da firmeza e da constância, então dissipa todo o mal, isto é, toda a malícia do corpo, com o seu olhar, isto é, com o seu discernimento. Esse rei tem cinco ministros especiais, a saber, os cinco sentidos do corpo; dois deles lhe são mais especiais e mais próximos: os ouvidos e a língua. Pelos ouvidos, percebe as coisas exteriores; pela língua, manifesta as interiores. Por isso, Rute disse a Booz: “Falaste ao coração da tua serva” (Rt 2,13). E Isaías: “Falai ao coração de Jerusalém” (Is 40,2); e no Salmo: “A boca do justo meditará a sabedoria” (Sl 36,30), isto é, proclamará a sabedoria depois de meditá-la. Mas, se os ouvidos são obstruídos pelas escórias e a língua é atada, que poderá fazer o rei, que poderá fazer o coração? O seu reino é destruído, porque são destruídos os ministros por meio dos quais eram tratados os negócios do reino, os conselhos secretos e os direitos régios. Que resta, portanto, fazer? Resta um único e exclusivo recurso: levar o surdo-mudo a Jesus e suplicar-lhe que lhe imponha a mão.

O rei é o espírito do homem; os ouvidos simbolizam a obediência, e a língua, a confissão. Sobre o ouvido da obediência, diz Jó: “Eu te ouvi pelo ouvido; agora, porém, os meus olhos te veem. Por isso, retrato-me e faço penitência na cinza e no pó” (Jó 42,5-6). Observa que nesta passagem se destacam cinco atos: a obediência, a contemplação, a confissão, a reparação e a recordação da baixeza e da fragilidade.

9. A obediência, quando diz: “Eu te ouvi com meus ouvidos.” O ouvido é assim chamado porque recolhe o som do ar golpeado. A orelha, porque apanha avidamente. Audio, isto é, percebo com os ouvidos. Obediência, isto é, obaudientia, atenção prestada. Quando a voz do teu prelado, que é ar — pois nada deve ter de terra — repercute em teu ouvido, deves ouvi-la não com a orelha, mas com o ouvido da orelha, isto é, com o sentimento interior do coração, dizendo com Samuel: “Fala, Senhor, porque o teu servo te ouve” (1Rs 3,10).

A contemplação, quando diz: “Agora o meu olho te vê.” Não verás, a não ser que sejas obediente. Se fores surdo, serás cego. Obedece, portanto, com o sentimento do coração, para veres com o olho da contemplação. Por isso diz o Eclesiástico: “Deus pôs o olho deles sobre os seus corações” (cf. Eclo 17,7). Deus põe o olho sobre o coração quando infunde a luz da contemplação naquele que obedece de coração. A esse respeito diz Zacarias: “O Senhor é o olho do homem e de todas as tribos de Israel” (Zc 9,1). Enquanto o primeiro homem obedeceu no paraíso, o Senhor foi o seu olho. Por isso diz o Gênesis: “Depois de formar todos os animais da terra e as aves do céu, conduziu-os a Adão, para que visse”, isto é, para fazê-lo ver, “como os chamaria” (Gn 2,19). Mas, quando se tornou desobediente, não Deus, mas o diabo foi o seu olho cego. Por isso diz o Gênesis: “A mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos e desejável à vista; tomou do seu fruto e comeu” (Gn 3,6). Todas as tribos de Israel são os penitentes que, enquanto obedecem de coração aos seus prelados, são verdadeiramente Israel, isto é, os que veem a Deus.

Do mesmo modo, a confissão, quando diz: “Por isso me repreendo”, isto é, acuso-me na confissão. Este não era mudo nem surdo, pois ouvia claramente e se repreendia com retidão. Por isso dizia em outro lugar: “Dilacero minhas carnes com os meus dentes” (Jó 13,14). São palavras do verdadeiro penitente: “Dilacero minhas carnes”, isto é, minhas carnalidades, “com meus dentes”, isto é, com minhas repreensões. A esse respeito se diz no Cântico: “Teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do lavadouro” (Ct 4,2). O rebanho de ovelhas tosquiadas é a assembleia dos penitentes, que são tosquiados dos bens temporais, tosquiados das tentações, e sobem de virtude em virtude, do lavadouro das lágrimas, pelas quais se tornam mais brancos que a neve. Sejam, portanto, ó irmão, teus dentes como um rebanho de ovelhas tosquiadas, isto é, repreende-te, faz penitência, assim como fazem aqueles.

Do mesmo modo, a satisfação, quando diz: “Faço penitência.” Penitência é assim chamada, quase como punientia, punição, porque o próprio homem se pune, ao fazer penitência, pelo mal que cometeu. A penitência tomou o nome da pena, pela qual a alma é atormentada e a carne é mortificada.

Do mesmo modo, a lembrança da própria baixeza e mortalidade, quando diz: “Na palha e na cinza.” Favilla é assim chamada porque foi feita pelo fogo; pois “phos” em grego significa luz, e “ignis”, em latim, fogo. Na palha está simbolizada a lembrança da nossa baixeza. Ai! O alto cedro do paraíso foi transformado em palha pelo fogo do diabo. Por isso diz Joel: “A ti, Senhor, clamarei, porque o fogo devorou as belezas do deserto, e a chama incendiou todas as árvores da região” (Jl 1,19). Procura no Evangelho: “Tendo saído dali, Jesus retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia” (“Domingo II da Quaresma, sermão II”). Na cinza é simbolizada a nossa mortalidade: “És cinza”, diz, “e à cinza voltarás” (cf. Gn 3,19). Quem, portanto, carece do sentimento da obediência e da língua da confissão é verdadeiramente surdo e mudo.

Surdo vem de sordes, sujeira. Diz Jeremias nas Lamentações: “A sua sujeira está em seus pés” (Lm 1,9). Os pés são os sentimentos da alma; quando a sujeira dos vícios adere a eles, ela se torna surda. Diz Isaías: “Todas as mesas estão repletas de vômito e de sujeira, de modo que já não há lugar” (Is 28,8). Onde há vômito, isto é, repetição do pecado, há a abominação da sujeira, que obstrui de tal modo os ouvidos do coração que já não resta lugar para a obediência. A respeito desse surdo o Senhor se queixa por Isaías: “Quem é surdo senão aquele a quem enviei os meus mensageiros? Tu, que tens os ouvidos abertos, não ouvirás?” (Is 42,19-20). Diz-se nas coisas naturais que, se as orelhas do cervo estiverem erguidas, ele ouvirá com extrema agudeza e logo reconhecerá o caçador que quer matá-lo; mas, se estiverem abaixadas, nada ouvirá, nem reconhecerá aquele que o mata. Diz Isaías: “Ele me desperta manhã após manhã, desperta-me o ouvido, para que eu ouça como um mestre” (Is 50,4). Ergue, portanto, ó surdo, as orelhas como o cervo e ouve o teu mestre; assim reconhecerás a astúcia do diabo caçador. Mas, se abaixares as orelhas e desprezares obedecer, crê em mim: serás morto.

10. Do mesmo modo, há alguns mudos que, na confissão, apenas mugem; confessam seus pecados balbuciando, porque se envergonham não de cometê-los, mas de confessá-los. Diz Agostinho: “A vergonha é a maior parte da penitência.” Esta é a boa vergonha que conduz à glória, quando alguém se envergonha do pecado e, envergonhando-se, o revela na confissão. Por isso diz Isaías: “Envergonha-te, Sidônia, diz o mar” (Is 23,4). O mar, isto é, a amargura interior, faz com que o homem, confessando exteriormente, se envergonhe. Por isso diz Ezequiel: “No meio do fogo, algo semelhante ao aspecto do eletro” (Ez 1,4). O eletro é feito de ouro e prata. O rubor da confissão é indicado pelo ouro, e o som, pela prata. Por isso, pelo eletro entende-se a confissão que procede do meio do fogo, isto é, da contrição. O mudo não possui esse eletro, a respeito do qual se diz: “Levaram-lhe um surdo e mudo e suplicavam-lhe que lhe impusesse a mão.”

A mão é assim chamada porque é o dom de todo o corpo, ou porque protege o homem. Com efeito, ela ministra o alimento à boca e realiza todas as coisas. A mão é o Verbo encarnado, que o Pai, como o maior dos dons, deu a todo o corpo, isto é, à Igreja. Dom, em latim munus, deriva de monendo, advertir. Tal e tão grande dom nos adverte a amar acima de tudo o Pai que o deu. Por isso, a respeito desse dom, diz Isaías: “Como quando os filhos de Israel levam um dom, num vaso puro, para a casa do Senhor” (Is 66,20). Os filhos de Israel, isto é, os fiéis, devem levar o dom, isto é, a fé no Verbo encarnado, num vaso, isto é, num coração puro, para a casa do Senhor, isto é, para a santa Igreja.

Do mesmo modo, esta mão protege a Igreja e protege a alma. Por isso diz Isaías: “Sion é a cidade da nossa fortaleza; nela será posto o Salvador como muro e baluarte” (Is 26,1). Muro vem de munitione, fortificação, porque protege o interior da cidade. Sion, isto é, a santa Igreja, é a cidade da nossa fortaleza, fora da qual não há salvação, e nela o nosso Salvador foi posto como muro e baluarte. O muro é a divindade; o seu baluarte é a humanidade. Assim, a Igreja, pela mão do Verbo encarnado, torna-se protegida e permanece segura.

Do mesmo modo, esta mão ministra alimento a toda a Igreja. Por isso diz o Salmo: “Abres a tua mão e enches de bênção todo ser vivente” (Sl 144,16). Quando Cristo estendeu a mão na cruz e quis que ela, estendida, fosse aberta pelos cravos, então, derramando pelo seu furo um tesouro de misericórdia, encheu todo ser vivente de bênção. Animal é assim chamado porque é animado pelo espírito e posto em movimento. Todo ser vivente significa toda alma que é animada pelo espírito de contrição e se move diariamente de virtude em virtude.

Do mesmo modo, esta mão realiza todas as coisas, a saber, a criação, a recriação, a infusão das graças e a beatitude eterna. A respeito dela, portanto, se diz: “E suplicavam-lhe que lhe impusesse a mão.”

11. Segue-se: “E, tomando-o consigo, afastou-o da multidão” etc. A multidão é assim chamada de turbar, isto é, perturbar, porque é confusa e discordante. É afastado dos pensamentos agitados, dos atos desordenados e das palavras descompostas aquele que merece ser curado. Por isso se diz no Gênesis que dois anjos tomaram Lot pela mão, conduziram-no para fora e o puseram fora da cidade (cf. Gn 19,16-17). Os dois anjos são o temor e o amor de Deus, os quais tomam Lot pela mão quando refreiam as obras do pecador, afastam-no da multidão de seus pensamentos e o colocam fora da cidade dos maus costumes.

Segue-se: “Pôs os dedos nos ouvidos dele”. Os dedos são assim chamados porque convém que estejam unidos. O primeiro chama-se polegar, porque sobressai entre os demais. O segundo, salutário ou indicador, porque com ele saudamos ou indicamos. O terceiro, médio. O quarto, anular, porque nele se usa o anel; é também chamado medicinal, porque com ele os médicos recolhem os colírios triturados. O quinto, auricular, porque com ele coçamos os ouvidos. Observa que na mão do Verbo encarnado estavam estes cinco dedos. Ele foi polegar na concepção, salutário ou indicador no nascimento, médio na pregação, médico na realização dos milagres e auricular na paixão. O polegar, mais curto que os demais, mas superior a eles em força, significa a humildade do Filho de Deus, que se fez pequeno no seio da gloriosa Virgem. Por isso o Eclesiástico diz dele: “Diante de seus pés curvou a sua força” (Eclo 38,33). Nos pés é indicada a humanidade; na força, a divindade. Diante dos pés, portanto, da humanidade, curvou, isto é, humilhou, a força da divindade. No nascimento, o anjo mostrou quase com o dedo a salvação, dizendo: “Hoje nasceu para vós o Salvador, e este será para vós o sinal: encontrareis um menino” (Lc 2,11.12) etc. Na pregação foi médio, anunciando a todos o reino dos céus. Médio vem de modo, isto é, de medida. E ele media a cada um a palavra da vida segundo a capacidade de cada qual; foi médico na realização dos milagres, a respeito do qual diz o Eclesiástico: “Honra o médico por causa da necessidade” (Eclo 38,1). No ouvido é indicada a obediência: “E ele foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8), na qual consumou a obra que o Pai lhe deu para realizar (cf. Jo 17,4). A respeito dele diz o Eclesiástico: “O oleiro, sentado junto ao seu trabalho, fazendo girar com os pés a roda, sempre ocupado por causa de sua obra” (Eclo 38,32). O oleiro é Jesus Cristo, que se sentou, isto é, humilhou-se, para a sua obra, isto é, para a salvação do gênero humano; e com os pés de sua humanidade fez girar em sentido contrário a roda da natureza humana, para que esta, que corria para a morte, corresse para a vida. Ele esteve sempre solícito por nós, até consumar a sua obra. Por isso, no fim, disse: “Está consumado” (Jo 19,30). Com estes cinco dedos, portanto, o Senhor curou a surdez do gênero humano.

12. Segue-se: “E, tendo cuspido, tocou-lhe a língua.” Cuspir é pôr saliva, isto é, emiti-la. A saliva desce da cabeça e é assim chamada por ser salgada. Se uma serpente provar a saliva de um homem em jejum, morrerá. Chama-se saliva enquanto está na boca; quando é lançada, chama-se cuspe. Com efeito, o cuspe do Senhor é o sabor da sabedoria, que diz: “Eu saí da boca do Altíssimo” (Eclo 24,5). Portanto, ao cuspir, toca a língua do mudo para que ele possa falar, quando, pelo contato de sua piedade, torna aptas a proferir palavras de sabedoria as bocas que por longo tempo estiveram mudas para confessar seus pecados. Coisa semelhante encontras em Isaías, onde se diz: “Voou até mim um dos serafins, e em sua mão havia um carvão que tirara do altar com uma tenaz; tocou a minha boca e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; será removida a tua iniquidade, e o teu pecado será purificado” (Is 6,6-7).

Os dois serafins significam o Filho e o Espírito Santo. O Filho voou para a redenção do gênero humano, para que aquele que era Filho de Deus na divindade se tornasse filho do homem na humanidade; e assim não são dois filhos, mas um só Filho. Este serafim, como Isaías antecipa, teve seis asas (cf. Is 6,2), que são aquelas seis qualidades enumeradas pelo mesmo profeta, quando diz: “Seu nome será: Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai do século futuro, Príncipe da paz” (Is 9,6). Foi “admirável” no nascimento; por isso, em Jeremias: “O Senhor fará algo novo sobre a terra” (cf. Jr 31,22) etc.; “conselheiro”, na pregação; por isso: “Se queres ser perfeito” (Mt 19,21) etc.; “Deus”, na realização dos milagres; por isso Isaías: “O próprio Deus virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos serão desimpedidos. Então o coxo saltará como um cervo, e a língua dos mudos será desatada” (Is 35,4-6); “forte”, na paixão, pois, com as mãos pregadas na cruz, derrotou as potências aéreas. E que força pode ser tão grande quanto vencer o próprio inimigo com as mãos atadas? “Pai do século futuro”, na ressurreição; ao ressurgir dos mortos, com efeito, conferiu-nos a segura esperança de ressuscitar no século futuro, no qual será nosso pai, porque nos acolherá, seus filhos, junto de si; “príncipe da paz” será para nós na bem-aventurança eterna, na qual nos fará sentar à mesa e, passando, nos servirá (cf. Lc 12,37).

Sobre essas seis coisas tens uma concordância no Eclesiástico, onde se fala ao Pai: “Renova os sinais e muda os prodígios, glorifica a mão e o braço direito, desperta o furor e derrama a ira, eleva o adversário e aflige o inimigo, apressa o tempo e lembra-te do fim” (Eclo 36,6-10). O Pai renovou os sinais e mudou os prodígios no nascimento de seu Filho. Há sinal quando, por aquilo que se vê, se entende outra coisa, que significa algo. O primeiro Adão foi feito da terra virgem; nele se significava que o segundo Adão haveria de nascer da terra bendita, a Virgem Maria. Houve prodígio quando o fogo ardia e não consumia a sarça (cf. Ex 3,2), e quando a vara de Aarão produziu fruto sem orvalho (cf. Nm 17,8). A sarça e a vara são a bem-aventurada Maria, que, conservando intacta a honra da virgindade, deu à luz o Filho de Deus sem dor. Com razão, portanto, se diz: “Renova os sinais e muda os prodígios; glorifica a mão”, na pregação, “e o braço direito”, isto é, o mesmo Filho teu, por meio do qual fizeste todas as coisas, na realização dos milagres. Por isso ele mesmo disse em João: “Glorifica-me, Pai” (Jo 17,5). “Desperta o furor e derrama a ira” contra o diabo, em tua paixão; “eleva”, na ressurreição, “o adversário”, isto é, a natureza humana; e assim afligirás o seu inimigo, o diabo. Ninguém é tão afligido como o inimigo que vê seu adversário elevado à glória. “Apressa o tempo”, para que venhas depressa ao juízo, retribuindo a cada um o que é justo. Apressa o tempo, para conceder a paz aos teus. “Senhor”, diz Isaías, “tu nos darás a paz” (Is 26,12). “Lembra-te do fim”, para retribuíres aos ímpios segundo suas obras. Digamos, portanto: “Voou até mim um dos serafins”.

Segue-se: “E em sua mão havia um carvão, que tirara com uma tenaz do altar” etc. Carvão é uma pedrinha misturada à terra, assim chamada porque, por ser pequena, é pisada. Aqui, porém, o termo é usado em lugar de carvão. O carvão é a humanidade de Jesus Cristo, que, por causa de sua humildade, misturada à terra, isto é, aos pecadores, foi pisada pelos judeus, mas para nós foi carvão ardente, purificando nossos vícios. Ele o teve na mão, isto é, no poder de sua divindade, e, com a tenaz do amor duplo, tirou-o do altar da gloriosa Virgem. Observa: a tenaz, em latim forceps, é chamada assim por ser a tenaz do ferreiro, porque segura com força; soa como ferricipes, isto é, “a que pega o ferro”, ou forcicapes, “a que pega o que está quente”, pois forvum significa quente. A tenaz é própria dos ferreiros; a tesoura, em latim forfices, é usada pelos alfaiates para o fio; e a pinça, em latim forpices, é usada pelos médicos ou barbeiros para os pelos.

E com razão a bem-aventurada Maria é chamada altar. Altare é como alta ara. Alto pode significar o que está acima e o que está abaixo. Ara é assim chamada porque nela ardem as vítimas. A bem-aventurada Maria foi alta pela sublimidade da contemplação e profunda pela grandeza da humildade. Foi ara porque, ardendo no fogo do amor divino, ofereceu-se a Deus em odor de suavidade (cf. Ef 5,2).

“E tocou”, diz ele, “a minha boca” etc. É isto o que se diz no Evangelho de hoje: “E, tendo cuspido, tocou-lhe a língua”. Com o carvão, o serafim toca a boca de Isaías, e seu pecado é purificado. Jesus Cristo toca com seu cuspe a língua do mudo, e ele fala; toca a boca do pecador com o carvão de sua humanidade e a língua deste com a saliva de sua divindade, para que confesse o pecado, fale retamente e seja por ele purificado.

13. Segue-se: “E, olhando para o céu, suspirou e disse-lhe: Efatá!, que quer dizer: abre-te” etc. Diz a Glosa: Ensinou-nos a suspirar e a elevar ao céu o tesouro do nosso coração, que pela compunção é purificado da frívola alegria da carne. Por isso se diz: “Eu rugia por causa do gemido do meu coração” (Sl 37,9). “E disse-lhe: Efatá” (Mc 7,34). “Com o coração se crê para a justiça, mas com a boca se faz a confissão para a salvação” (Rm 10,10). “E imediatamente se abriram os seus ouvidos” para obedecer, “e desatou-se o vínculo da sua língua” para confessar. Observa, portanto, que se diz: “E falava retamente”. Fala retamente aquele que confessa integralmente o pecado e as circunstâncias do pecado, com o propósito de não recair.

Também fala retamente aquele que testemunha pelas obras aquilo que prega com a boca. Sobre isso tens uma concordância no Eclesiástico: “Os lábios de muitos bendirão aquele que é esplêndido ao dar o pão, e fiel é o testemunho de sua verdade” (Eclo 31,28). Quem distribui fielmente o pão da palavra de Deus e não oculta o testemunho da verdade será bendito no presente e no futuro. Quantos há hoje esplêndidos nas palavras, mas leprosos nas obras! Por isso se diz no Êxodo que a face de Moisés apareceu cornuda (cf. Ex 34,30). Diz Orígenes: Como é que somente a face de Moisés apareceu gloriosa, enquanto a mão era leprosa e os pés, sem glória? Porque fez com que ele tirasse as sandálias, quando o chamou da sarça. Isso pode ser dito daqueles pregadores que têm glória e esplendor somente na pregação, mas têm impureza na conduta; podem ser chamados descalços e não verdadeiros esposos da Igreja, dignos de que lhes cuspam no rosto, porque, estando morto o irmão, Jesus Cristo, não querem suscitar filhos (cf. Dt 25,5-10); ao contrário, se alguns existem, matam-nos pela perversidade de suas obras. Diz-se no Salmo: “Elevaram-se os rios, Senhor, elevaram-se os rios em sua voz” (Sl 92,3). Primeiro deveriam elevar a si mesmos e depois a sua voz; por isso se diz: “Falava retamente”.

14. À segunda parte do Evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Deus nos tornou ministros aptos da Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Cor 3,6) etc. Eis como a epístola concorda com o Evangelho, e como o introito da missa concorda com a epístola. No Evangelho se diz que o Senhor pôs os dedos nos ouvidos do surdo, e na epístola, que a lei foi escrita em pedras pelo dedo de Deus; no introito canta-se: “Olha para a tua aliança” (Sl 73,20), e na epístola lê-se: “Deus nos tornou ministros aptos da Nova Aliança”.

Digamos, pois: “Deus nos tornou ministros aptos da Nova Aliança”. Ministro é assim chamado por ser menor na posição, ou porque executa com as mãos o ofício que lhe foi confiado. Aliança é assim chamada porque a vontade do testador é escrita diante de testemunhas e confirmada; ou também porque o testamento só tem valor depois que o testador foi sepultado em seu monumento. Por isso o Apóstolo diz que “o testamento só se confirma depois da morte” (cf. Hb 9,17).

São ministros aptos da Nova Aliança aqueles que, tendo primeiro os cinco dedos de Jesus Cristo postos nos ouvidos, ouvem e depois dizem: Vem!; aqueles que falam retamente, consideram-se menores na assembleia dos fiéis e cumprem com as mãos e com as obras o ofício que lhes foi confiado, para que possam dignamente ministrar a palavra da Nova Aliança, confirmada na morte de Jesus Cristo.

A respeito disso se canta no introito da missa de hoje: “Olha, Senhor, para a tua aliança e não abandones até o fim as almas dos teus pobres. Levanta-te, Senhor, defende a tua causa e não te esqueças da voz dos que te procuram” (cf. Sl 73,20.19.23).

Ó Senhor Jesus, “olha para a tua aliança”, que, para não morreres sem deixar testamento, confirmaste com o teu sangue aos teus filhos; e concede-lhes falar com confiança a tua palavra (cf. At 4,29). “E as almas” que redimiste, “dos teus pobres”, que não têm outra herança senão a ti, “não as abandones até o fim”. Sustenta-os, Senhor, com o bastão da tua força, porque são teus pobres; conduz- os, não os abandones, para que sem ti não andem errantes, mas guia-os até o fim, para que, consumados em ti, que és o fim, possam chegar a ti. “Levanta-te, Senhor”, tu que agora pareces dormir, dissimulando os pecados dos homens por aguardares a penitência (cf. Sb 11,24), e “defende”, isto é, separa dos iníquos, o grão da palha, “a tua causa”, isto é, a alma por cuja causa foste levado a julgamento diante de Pôncio Pilatos. Por isso diz o Salmo: “Defendeste o meu direito e a minha causa” (Sl 9,5). “E não te esqueças das vozes dos que te procuram.” É isto que se diz no Evangelho: “Falava”, eis as “vozes”; “retamente”, eis os que “te procuram”. Se Deus não se esquece das vozes de tais pessoas, antes as guarda no tesouro de sua glória, é para lhes conceder a recompensa eterna.

Rogamos-te, pois, Senhor Jesus, que, com os dedos da tua encarnação, abras os nossos ouvidos e, com a saliva saborosa da tua sabedoria, toques a nossa língua, para que mereçamos obedecer-te, louvar-te, bendizer-te e chegar a ti, que és bendito e glorioso. Concede-no-lo tu, que vives e reinas com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos eternos. Diga toda alma fiel: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.