Evangelho do oitavo domingo depois de Pentecostes: “Guardai-vos dos falsos profetas”, que se divide em três partes.
Primeiro, sermão sobre a morada que a alma fiel prepara para Jesus Cristo, onde se diz: “Disse a mulher sunamita”.
Da primeira parte. Também sermão contra os falsos profetas, onde se diz: “Dos profetas de Jerusalém”.
Também sermão contra os falsos religiosos, onde se diz: “Disse Jeroboão à sua mulher”. Aqui encontrarás o que se refere à hiena, à sua natureza e ao que ela significa.
Também sermão moral sobre os falsos profetas, isto é, sobre os afetos carnais, onde se diz: “Guardai-vos”, e também: “Agora, todos os profetas de Baal”, e tudo o que segue.
Da segunda parte. Sermão sobre as cinco coisas que estão na árvore e o seu significado, onde se diz: “Toda árvore”.
Também sermão sobre as dez linhas que há no relógio e sobre outros tantos graus, e o seu significado, onde se diz: “Ezequias disse a Isaías: Qual será o sinal?”.
Também sermão sobre as cinco coisas que estão na árvore má, acerca da qual se diz: “Um vigilante, um santo, desceu do céu”.
Da terceira parte. Sermão contra aqueles que, estando em pecado mortal, clamam ao Senhor, onde se diz: “A mim clama desde Seir”.
Também sermão contra a gula, a soberba, a vanglória e a luxúria, onde se diz: “Encheram-se, saciaram-se”.
Também sermão sobre como cada um deve procurar o Senhor, onde se diz: “Quando Josias ouviu as palavras da Lei do Senhor”.
1. Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos de ovelhas” (Mt 7,15) etc.
Lê-se no quarto livro dos Reis que a mulher sunamita disse a seu marido acerca de Eliseu: “Percebo que este é um homem santo, que passa frequentemente por nós. Façamos, pois, um pequeno cenáculo e ponhamos nele uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candelabro, para que, quando vier a nós, permaneça ali” (4Rs 4,9-10). Vejamos o que significam Eliseu, a sunamita e seu marido, o cenáculo, a cama, a mesa, a cadeira e o candelabro. Eliseu interpreta-se “salvação do meu Deus” e significa Jesus Cristo, que foi enviado por Deus Pai para a salvação de seu povo. Ele vem à sunamita, que se interpreta “cativa” ou “escarlate”. Esta é a alma que Cristo redimiu da escravidão do diabo com seu sangue; nela hospeda-se enquanto lhe dá vida; passa por ela quando lhe retira a graça, para que se humilhe, ela que pensa de si coisas demasiadamente elevadas. O marido desta sunamita é o intelecto racional que, com as forças e o entendimento que lhe são próprios por natureza ou conferidos pela graça, deve governar a alma, aconselhá-la, cuidar dela e gerar nela uma descendência de virtudes e boas obras. Com este marido a alma toma conselho, dizendo: “Percebo que este é um homem santo de Deus” etc.
Observa que no pequeno cenáculo se designa a unidade; na cama, a castidade; na mesa, a suavidade da contemplação; na cadeira, o desprezo de si mesmo; e no candelabro, a luz do bom exemplo. Cenáculo deriva da comunhão dos que comem; daí também cenóbio, reunião de muitos; e por isso significa a unidade dos fiéis, da qual diz o esposo no Cântico dos Cânticos: “Feriste o meu coração, minha irmã, minha esposa, com um só dos teus olhos e com um só cacho do teu pescoço” (Ct 4,9). A unidade dos olhos é a concórdia dos prelados, os quais, assim como o olho ilumina todo o corpo, devem iluminar toda a Igreja. Nos cachos que pendem da cabeça estão representados todos os fiéis, unidos a Cristo, sua cabeça. Portanto, o esposo é ferido pela ferida do amor, para amar a Igreja, quando nela vê a unidade dos prelados concordante com os súditos. O cenáculo da unidade deve ser pequeno, isto é, pela humildade, que é o cimento que une súditos e prelados.
Do mesmo modo, na cama se indica a castidade. Por isso, no Cântico dos Cânticos: “Nosso leito é florido” (Ct 1,15). O leito da consciência deve ser florido com os lírios da pureza. Do mesmo modo, na mesa se indica a suavidade da contemplação, da qual diz o Salmo: “Preparaste uma mesa diante de mim” (Sl 22,5). Quando a mente é elevada para saborear aquela doçura, despreza toda ofensa da tribulação. Com efeito, aquela doçura afeta de tal modo a mente que ela já não sabe afligir-se com a dor. Na cadeira, que deriva de sentar-se e se diz como “sedda”, designa-se o desprezo de si mesmo. Nesta cadeira sentava-se aquele de quem Jeremias diz nas Lamentações: “Sentar-se-á solitário e calará” (Lm 3,28). “Sentar-se-á” no desprezo de si mesmo; “solitário”, afastado do tumulto das coisas mundanas e dos pensamentos; “calará”, afastado da palavra venenosa. No candelabro, que não deve ser escondido sob o alqueire, mas colocado sobre o monte, para que ilumine os que estão na casa (cf. Mt 5,15), designa-se a luz do bom exemplo. Tal hospedagem, assim ornada pelo conselho de seu marido, a alma deve preparar para o verdadeiro Eliseu, e não para os falsos profetas, isto é, os hereges e os hipócritas, dos quais o Senhor diz no Evangelho de hoje: “Guardai-vos dos falsos profetas” etc.
2. Observa que neste Evangelho se destacam três coisas. Primeiro, a simulação dos hipócritas, quando se diz: “Guardai-vos dos falsos profetas”. Segundo, a frutificação da árvore boa e o corte da infrutífera, quando se acrescenta: “Assim, toda árvore boa”. Terceiro, a expulsão do reino daquele que diz e não faz, e o acolhimento no reino daquele que faz a vontade de Deus, quando se acrescenta: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor” etc. Com estas cláusulas concordaremos algumas histórias do quarto livro dos Reis.
No introito da Missa deste domingo canta-se: “Eis que Deus me ajuda” (Sl 53,6); e lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo apóstolo aos Romanos: “Somos devedores, não à carne” (Rm 8,12), que queremos dividir em três partes e harmonizar com as três cláusulas do Evangelho. A primeira parte é: “Somos devedores”. A segunda: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus”. A terceira: “Pois o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito”.
3. Digamos, portanto: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos rapaces; por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos?” (Mt 7,15-16). Observa estas três coisas: falsos profetas, vestes de ovelhas, lobos rapaces. Os falsos profetas são os hipócritas, dos quais diz Jeremias: “Dos profetas de Jerusalém saiu a corrupção sobre toda a terra” (Jr 23,15). Estes são os profetas de Jezabel, que se interpreta “esterqueira”. Pois, enquanto amam as saudações nas praças e as cátedras nas sinagogas (cf. Mt 23,6-7), profetizam em favor da esterqueira, eles que “se tornaram como o esterco da terra” (Sl 82,11). Destes profetas diz o profeta Miqueias: “Assim diz o Senhor contra os profetas que seduzem o meu povo, que mordem com os seus dentes e pregam a paz; e, se alguém não lhes puser alguma coisa na boca, declaram contra ele uma guerra santa” (Mq 3,5).
Observa estas quatro palavras: seduzem, mordem, pregam e santificam. Os falsos profetas seduzem, isto é, conduzem consigo, persuadindo, os inocentes. Mordem com as detratações. De mordeo deriva morbus; chama-se doença porque é caminho para a morte. A detração é uma doença pela qual, como por um caminho, a morte chega à alma. Pregam a paz, para parecerem pacíficos, eles que não encontraram o caminho da paz (cf. Sl 13,3). Estes são os sacerdotes ladrões, que mordem com repreensões os que não dão, e aos que dão pregam a paz e prometem misericórdia, e contra os que não dão santificam a guerra. Consideram santo e justo perseguir os que não dão e feri-los com a espada da excomunhão. Se, porém, eles derem, com uma bênção solene, esses mesmos, amaldiçoados pelo Senhor, cujas bênçãos o Senhor amaldiçoou (cf. Ml 2,2), os abençoam. Com efeito, dizem aos que dão: “Vós sois filhos da Igreja, que honrais a vossa mãe, que vos compadeceis da sua pobreza; por isso sois benditos, porque lhe dais”. Dizei-me, ó falsos profetas, ladrões e homicidas, que é a Igreja senão a alma fiel, por cuja causa o Senhor entregou à morte a sua alma amada, para torná-la sem mancha e sem ruga? (cf. Ef 5,27). Quem dá à Igreja o que é seu, o Senhor o abençoará. Mas, ai, ai! Hoje cai uma jumenta, e há quem a levante; perece uma alma, e não há quem a ajude. Se fossem verdadeiros profetas, diriam com o verdadeiro profeta Jeremias: “Ai de mim, porque desfalece a minha alma por causa dos mortos” (Jr 4,31). “Ai de mim por causa da ruína do meu povo!” (Jr 10,19). “Quem dará água à minha cabeça e aos meus olhos uma fonte de lágrimas, para que eu chore dia e noite pelos mortos da filha do meu povo?” (Jr 9,1).
Por isso, tens uma concordância no quarto livro dos Reis, onde se diz que Eliseu “se perturbou e chorou, o homem de Deus. E Hazael lhe disse: Por que chora o meu senhor? E ele respondeu: Porque sei os males que hás de fazer aos filhos de Israel: incendiarás com fogo as suas cidades fortificadas, matarás à espada os seus jovens, esmagarás os seus pequeninos e dividirás as suas mulheres grávidas” (4Rs 8,11-12). Eliseu significa o bom prelado da Igreja, porque deve chorar até à congestão do rosto, pois Hazael, isto é, o diabo, incendeia com o fogo da cobiça as cidades, isto é, as almas dos fiéis; mata com a espada da sugestão os jovens, isto é, as virtudes; esmaga os pequeninos, isto é, destrói as boas obras ainda tenras; e divide as mulheres grávidas, isto é, destrói o propósito da boa vontade. E quem não chorará por males tão grandes? Mas os falsos profetas não se importam, contanto que tenham de onde roubar. Diz, pois, muito bem o Senhor: “Guardai-vos”, isto é, acautelai-vos diligentemente, “dos falsos profetas”. Falso vem de fando, por dizer algo diferente da verdade. Dizem: “Paz, paz”, e não há paz (cf. Jr 6,14).
Por isso se diz no terceiro livro dos Reis que Acab, rei de Israel, “reuniu os profetas e lhes disse: Devo ir a Ramot de Galaad para guerrear ou devo ficar em repouso? Eles responderam: Sobe, e o Senhor a entregará nas mãos do rei” (3Rs 22,6). Sobre esses profetas, Miqueias, verdadeiro profeta do Senhor, acrescenta pouco depois: “Eis que o Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos os teus profetas que aqui estão, e o Senhor pronunciou contra ti o mal” (3Rs 22,23). Acab significa aquele que ama este mundo, que quer subir para guerrear contra o Senhor em Ramot de Galaad. Ramot interpreta-se “visão da morte”; Galaad, “monte de testemunho” (Gn 31,47-48), e significam as dignidades e riquezas deste mundo, nas quais há uma visão da morte eterna e se acumulam testemunhos de condenação contra os que as amam. Quando quer subir a essas coisas, consulta os falsos profetas para saber se deve ir. Por isso os sacerdotes do nosso tempo aconselham, dizendo: “Sobe”: não é pecado ter riquezas, adquirir dignidades; mesmo em tal estado poderás salvar-te. Oxalá se levantasse Miqueias, profeta do Senhor, para refutar esses adivinhos e ventríloquos por proferirem mentiras e fechar a boca dos que falam iniquidades (cf. Sl 62,12), pela autoridade de Jesus Cristo, que diz em Lucas: “Ai de vós, ricos, porque tendes a vossa consolação. Ai de vós, que estais saciados. Ai de vós, que agora rides, porque haveis de afligir-vos e chorar. Ai de vós, quando os homens disserem bem de vós” (Lc 6,24-26). O Senhor diz: “Ai”, e vós, falsos profetas, dizeis: “Sobe”. Guardai-vos, portanto, dos falsos profetas. Não lhes deis crédito, para que não subais a Ramot de Galaad, porque ali há “Ai”.
4. Segue-se: “Eles vêm até vós com vestes de ovelhas, mas por dentro são lobos rapaces. Que concórdia há entre Cristo e Belial?” (2Cor 6,15). Que concórdia há entre a ovelha e o lobo? Ovelha na veste, lobo na mente. A justiça simulada não é justiça, mas dupla iniquidade (Agostinho). Os falsos religiosos, lobos rapaces, vêm com vestes de ovelhas. Encontra-se algo semelhante no terceiro livro dos Reis, onde “Jeroboão disse à sua mulher: Levanta-te e muda o vestido, para que não se saiba que és a mulher de Jeroboão, e vai a Silo, onde está o profeta Aías. Quando ela entrou e fingiu não ser quem era, Aías ouviu o ruído dos seus pés ao entrar pela porta e disse: Entra, mulher de Jeroboão; por que finges ser outra?” (3Rs 14,2.5-6). Jeroboão interpreta-se “divisão do povo”. Este é o falso religioso que, dividido em ovelha e lobo, costuma provocar divisão e discórdia nos claustros e nos capítulos. É, com efeito, como Satanás entre os filhos de Deus (cf. Jó 1,6). Este é, como diz o Salmo, o inimigo que vagueia nas trevas (cf. Sl 90,6). Sua mulher é a luxúria lupina, que ele quer que mude de veste, isto é, que vista a pele da ovelha. Mas Aías, profeta do Senhor, reconhece-a e diz-lhe: “Entra” etc. Aías interpreta-se “exame da vida” e significa a consciência do homem, que sempre protesta e reconhece toda simulação. Por isso, o Apóstolo diz aos Romanos: “Dando testemunho a eles a sua consciência, e acusando-os ou defendendo-os entre si os seus pensamentos” (cf. Rm 2,15). E Salomão, nos Provérbios: “O malvado busca sempre contendas; e contra ele será enviado um mensageiro cruel” (Pr 17,11), isto é, a consciência que murmura e repreende.
E observa que o hipócrita, escondido sob a pele de ovelha, é como a hiena, da qual se contam muitas coisas extraordinárias. A hiena é um animal pequeno, mas selvagem, que à noite escava sepulturas e se alimenta dos cadáveres dos mortos. Imita as vozes dos homens, segue os apriscos dos pastores e, pela escuta contínua, aprende o chamado que lhe permite reproduzir a voz humana, para, depois de atrair astutamente o homem, enfurecer-se contra ele durante a noite. Também imita o vômito humano e, com falsos soluços, atraindo os cães, devora-os. Se os caçadores, ao seguirem a sua sombra, chegarem a tocá-la, não podem latir, tendo perdido a voz. Há nos olhos da hiena uma múltipla variedade e mudança de cores; ela nunca fecha os olhos, mas fixa o olhar sem pestanejar naquilo que contempla. Na boca não possui gengiva; tem um só dente, contínuo, que, para nunca se desgastar, se fecha naturalmente como uma cápsula. Esta hiena, depois de dar três voltas ao redor de qualquer animal, torna-o incapaz de se mover. A respeito dela, o Senhor diz por meio de Jeremias, em outra tradução: “A minha herança tornou-se para mim como a caverna da hiena” (Jr 12,8).
Assim também o hipócrita é um animal, porque vive bestialmente; faz-se pequeno pela simulação, é selvagem pela deformidade de sua conduta e, na noite da simulação, escava sepulturas. Com efeito, como diz o Apóstolo, penetra nas casas das mulheres (cf. 2Tm 3,6); por meio de palavras doces e bênçãos seduz os inocentes (cf. Rm 16,18) e assim se alimenta dos cadáveres dos pecadores. Imita as vozes, isto é, os louvores dos homens; segue os apriscos dos pastores, isto é, os lugares onde se prega, para, pela escuta contínua, aprender a pregar e, com sua pregação, enganar durante a noite os homens que atraiu para si.
Também imita o vômito humano, isto é, as confissões dos pecadores. Acusa-se de ser pecador, embora não creia sê-lo; com falsos soluços, isto é, gemidos, inquieta os homens, para que considerem santo aquele que veem gemer desse modo. Às vezes engana até os próprios homens justos, demasiado crédulos de sua devoção fingida. Se a sua sombra tocar alguém, este não poderá latir contra ele; ao contrário, irá defendê-lo. Isso acontece hoje sobretudo àqueles que confiam nos hereges. Estes, na verdade, não deram atenção ao conselho do Senhor, que diz: “Guardai-vos dos falsos profetas” etc.
Além disso, há nos olhos do hipócrita uma múltipla variedade. Às vezes eleva os olhos ao céu e suspira; outras vezes baixa-os para a terra e chora. E há também mudança de cores: ora é pálido, ora negro; ora tem vestes desleixadas, ora bem-arranjadas; ora a abstinência lhe agrada, ora lhe desagrada. Essa mudança de cores diversas significa a mudança da instabilidade interior.
Do mesmo modo, todo animal que a hiena, isto é, o herege ou o hipócrita, tiver rodeado três vezes — isto é, com a palavra da pregação, com o exemplo de uma santidade fingida e com o presente de uma promessa sedutora — permanecerá imóvel para o bem. “Guardai-vos”, portanto, suplico-vos, “dos falsos profetas. Vós os reconhecereis por seus frutos.” Aí diz a Glosa: Eles se distinguem sobretudo pela impaciência no tempo da adversidade. Quando a prosperidade sorri, sob a pele da ovelha esconde-se a mente do lobo. Mas, quando sopra a adversidade, a pele da ovelha é dilacerada pelos dentes do lobo.
Segue-se: “Porventura colhem-se uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos?” Os espinhos são assim chamados por ferirem, porque são agudos como espigas; os abrolhos são assim chamados porque atormentam. Os espinhos e os abrolhos são os hereges e os hipócritas, dos quais nenhum homem sensato poderá encontrar santidade ou verdade, mas apenas dilaceram e ferem os que deles se aproximam.
5. “Guardai-vos dos falsos profetas” etc. Falsos profetas são os afetos carnais que, para seduzirem a alma, apresentam como pretexto a fragilidade e a fraqueza da natureza, exaltam a abundância das coisas terrenas, profetizam a paz e proclamam que é grande a misericórdia de Deus; e insinuam todas essas coisas para induzir a alma ao pecado. Por isso, a respeito deles, diz o homem justo, chorando com as palavras de Jeremias: “Ah, ah, ah, Senhor Deus! Os profetas dizem: Não vereis a espada, e não haverá fome entre vós, mas ele vos dará uma paz verdadeira neste lugar” (Jr 14,13). Quando os afetos carnais falam assim, não resta senão gemer e dizer: “Ah, ah, ah, Senhor Deus!” Nesse tríplice “ah”, é indicado um tríplice sofrimento: o do coração, o da boca e o do corpo. A respeito disso, diz o Senhor a Ezequiel: “Tu, filho do homem, profetiza e bate mão contra mão, para que se duplique ou triplique a espada dos que serão mortos. Esta é a espada da grande mortandade, que os fará desfalecer de espanto” (Ez 21,14). Quando o homem justo ouve a voz dos profetas, o assobio de convocação dos rebanhos, o murmúrio dos desejos carnais, deve imediatamente bater mão contra mão e duplicar ou triplicar a espada da dor, com a qual mate os falsos profetas e faça desfalecer de espanto os seus desejos. Diz, portanto, muito bem o Senhor: “Guardai-vos dos falsos profetas”.
Sobre isso, temos uma concordância no quarto livro dos Reis, onde Jeú diz: “Agora convocai todos os profetas de Baal, todos os seus servos e todos os seus sacerdotes; não falte nenhum” (4Rs 10,19). E, quando se reuniram, “Jeú ordenou aos seus soldados e comandantes: Entrai e matai-os; que nenhum escape. E passaram-nos ao fio da espada. Tiraram do templo a estátua de Baal, queimaram-na e reduziram-na a pedaços. Destruíram também o templo de Baal e fizeram dele uma latrina, até o dia de hoje. Assim, Jeú exterminou Baal de Israel” (4Rs 10,25-28).
Jeú interpreta-se como “excitado” ou “irado” e significa o homem justo que, quando se vê em meio à tentação, deve levantar-se e irar-se com grande furor contra si mesmo. Ele deve então reunir todos os profetas de Baal etc. Baal, que se interpreta como “devorador”, é o ventre, que tudo devora, e seus profetas são os afetos carnais. O homem justo deve reuni-los todos juntos e matá-los com a espada da penitência.
“E tiraram do templo a estátua” etc. Templo, em latim fanum, é assim chamado por causa dos faunos, falsas divindades silvestres para as quais os pagãos, em seu erro, construíam templos; ou porque nele aparecem imagens de demônios: com efeito, em grego phanía significa “aparição” em latim; ou ainda de fando. O templo de Baal é a garganta, na qual costumam aparecer imagens de peixes e carnes; dela o homem justo deve retirar a estátua, isto é, o ídolo da concupiscência, queimá-lo com a fome e a sede e reduzi-lo a pedaços por meio de diversas mortificações.
“Destruíram também o templo de Baal.” Aedes é chamado assim por derivar de edere, isto é, comer, e significa a voracidade desordenada e impetuosa ao comer, que o homem justo deve absolutamente destruir e, em seu lugar, fazer uma latrina. Latrina, lugar de retiro privado, deriva de lateo, latere, “esconder-se”, e significa o fedor do ventre. Quando tivermos de prover ao ventre, não por volúpia, mas por necessidade, pensemos que somos uma latrina de esterco, que nós, miseráveis e infelizes, carregamos sempre conosco; e, considerando isso, devemos humilhar-nos. Por isso, diz Miqueias: “A tua humilhação estará no meio de ti” (Mq 6,14). O nosso meio, o centro de nós mesmos, é o ventre, latrina de excrementos; da consideração dele provém um motivo de humildade. Diz-se, portanto, muito bem: “Guardai-vos dos falsos profetas”.
6. É desses profetas que o homem justo pede ser libertado, no intróito da missa de hoje: “Eis que Deus é o meu auxílio, e o Senhor é o sustento da minha alma. Faze recair o mal sobre os meus inimigos; na tua fidelidade, dispersa-os” (Sl 53,6-7), “tu que és o meu protetor, Senhor” (Sl 58,12). Deus socorre o homem justo quando lhe concede a graça de matar os profetas de Baal. Ele o acolhe quando este retira do templo da garganta a estátua da concupiscência. Faz recair o mal sobre os seus inimigos quando queima e reduz a pedaços essa estátua com jejuns e vigílias. Na tua fidelidade, dispersa-os, quando destrói completamente o templo dos maus hábitos.
A esta primeira cláusula corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Somos devedores, não à carne, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis” (Rm 8,12-13). Eis que aqui o Apóstolo mostra claramente como devem ser mortos os falsos profetas de Baal. “Somos devedores”, diz ele, “não à carne”, mas ao Espírito Santo, que dá a vida, e não à carne, da qual provém a morte. Por dever, por obrigação, estamos vinculados ao Espírito, “não à carne, para vivermos segundo a carne”, isto é, segundo os prazeres da carne, embora sejamos obrigados a conceder-lhe o necessário. Pois, se vivermos segundo a carne, se acreditarmos nos falsos profetas, morreremos, porque lobos vorazes nos dilacerarão. Mas, se pelo Espírito fizermos morrer as obras da carne, matando os profetas de Baal com a espada da penitência, se queimarmos a sua estátua e destruirmos o templo de Baal, sem dúvida viveremos: a vida da graça no presente e a vida da glória no futuro; à qual se digne conduzir-nos aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.
7. Segue-se o segundo ponto. “Toda árvore boa produz bons frutos, mas a árvore má produz maus frutos. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir bons frutos. Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Portanto, pelos frutos deles os conhecereis” (Mt 7,17-20). Observa que na árvore há estas cinco partes: a raiz, o tronco, os ramos, as folhas e o fruto. Chama-se raiz aquilo que, como que por certos raios, se fixa na terra e mergulha em sua profundidade. Com efeito, os naturalistas dizem que a altura das árvores é igual à profundidade de suas raízes. O tronco é a estatura da árvore que se ergue sobre as raízes. Os ramos são as partes que brotam do tronco da árvore e nos quais se formam as folhas, que protegem os frutos.
A árvore boa é a boa vontade, para que permaneça e seja boa, são necessárias estas cinco coisas: a raiz da humildade, o tronco da obediência, os ramos da caridade, as folhas da santa pregação e os frutos, isto é, a doçura da contemplação celeste. Quanto mais profunda no coração é a raiz da humildade, tanto mais elevada ela é nas obras. E isso é simbolizado pela água, que sobe tanto quanto desce. A humildade do hipócrita, por não ter raiz no coração, quer parecer grande nas obras. A verdadeira humildade, porém, quanto mais profundamente se fixa, tanto mais se inclina e, assim, tanto mais alto é exaltada.
8. Assim, sobre esta bendita raiz da boa árvore, tens uma concordância no quarto livro dos Reis, onde “Ezequias disse a Isaías: Qual será o sinal de que o Senhor me curará e de que subirei, no terceiro dia, ao templo do Senhor? Isaías respondeu-lhe: Este será o sinal da parte do Senhor, de que o Senhor realizará a palavra que proferiu. Queres que a sombra avance dez graus, ou que retroceda outros tantos? E Ezequias disse: É fácil que a sombra cresça dez graus; não quero, porém, que isso aconteça, mas que retroceda dez graus. Então Isaías invocou o Senhor, e ele fez retroceder a sombra pelos graus que já havia descido no relógio de Acaz, dez graus” (4Rs 20,8-11). O relógio de Acaz, que se interpreta como convertido ou aquele que se apodera da fortaleza, é o coração humilde do penitente que, convertido de seu mau caminho, apodera-se da fortaleza da perseverança, para alcançar o prêmio da glória. Nesse relógio há, e deve haver, dez graus de humildade, pelos quais o sol, isto é, a alma iluminada pela graça de Deus, deve subir e depois voltar novamente para trás.
O primeiro grau da humildade é considerar consigo mesmo de que matéria vil e fétida foi gerado.
O segundo é considerar como, durante nove meses, esteve encerrado nas trevas do ventre materno e foi alimentado com sangue menstrual. E sobre estas duas coisas encontrarás mais amplas considerações no Evangelho: “Um cego estava sentado” (Lc 18,35; cf. sermão dominical da Quinquagésima).
O terceiro é considerar como saiu das trevas do ventre, chorando e gritando, nu e imundo. Por estes três graus havia descido Jó, quando dizia: “Quem pode tornar puro aquele que foi concebido de semente impura?” (Jó 14,4). E ainda: “Por que não morri no ventre materno? Por que, saindo do ventre, não pereci imediatamente? Por que fui acolhido sobre os joelhos? Por que fui amamentado aos seios?” (Jó 3,11-12). E Jeremias: “Por que saí do ventre, para ver trabalhos e dores, e para que meus dias se consumissem na vergonha?” (Jr 20,18).
O quarto grau é considerar quão miserável e abominável é a peregrinação deste exílio, na qual há dor e gemido, angústia e pranto. Por isso Jacó diz no Gênesis: “Os dias de minha peregrinação e de minha vida são poucos e maus” (Gn 47,9).
O quinto é recordar a própria iniquidade: quantos e quais pecados cometeu e omitiu; sendo livre, vendeu-se gratuitamente ao diabo; e quanto foi ingrato para com Deus. Sobre este grau se diz no quarto livro dos Reis que Ezequias voltou o rosto para a parede, orou ao Senhor e chorou com grande pranto (cf. 4Rs 20,2-3). A parede é o acúmulo dos pecados, para o qual o pecador deve voltar-se, isto é, na amargura de sua alma, considerar quantos pecados cometeu e quantos deveres omitiu, e orar ao Senhor para que lhe infunda a graça perdida, e chorar para que lhe perdoe os pecados.
O sexto é a lembrança da morte, mais amarga que toda amargura. Por isso diz o Eclesiástico: “Ó morte, quão amarga é a tua lembrança para o homem que vive em paz com seus bens” (Eclo 41,1). Nela, se não se arrepender, a carne será entregue aos vermes, a alma aos demônios, e os bens serão deixados aos filhos e parentes. Por isso diz o Salmo: “Entrarão nas profundezas da terra”, isto é, no inferno: eis a alma entregue aos demônios; “serão entregues às mãos da espada”, isto é, da morte: eis a carne entregue aos vermes; “serão presa das raposas” (Sl 62,10-11): eis os bens deixados aos parentes que, astutos como raposas, espreitam a pele do asno morto.
O sétimo grau de humildade é trazer à memória como o Filho de Deus inclinou a cabeça de sua divindade no ventre de uma Virgem pobrezinha; como aquele que enche o céu e a terra, e que o céu e a terra não podem conter, se reduziu ao leito de uma donzela, no qual habitou durante nove meses; como foi envolvido em panos e reclinado numa manjedoura de animais (cf. Lc 2,7), levado ao Egito para fugir de Herodes; como o Senhor de todo o mundo foi expulso pelo mundo e não pôde encontrar em todo o mundo um lugar onde reclinar a cabeça, senão na cruz, onde, inclinando a cabeça sobre o seio do Pai, entregou o espírito em suas mãos (cf. Jo 19,30; Lc 23,46).
O oitavo é considerar quanta misericórdia e benignidade teve para com os pecadores, que atraía a si pela doçura de sua pregação; com os quais também comia, para chamá-los à penitência; quanta compaixão teve aquele que chorou amargamente sobre a cidade na qual seria crucificado e sobre Lázaro, que haveria de ressuscitar; quanta mansidão teve aquele que quis falar a sós com a Samaritana e permitiu que a Madalena pecadora o tocasse.
O nono é considerar como foi golpeado com varas e bofetadas, coberto de escarros, coroado com uma coroa de espinhos, dessedentado com fel e vinagre e crucificado entre ladrões, como se também ele fosse ladrão.
O décimo grau é investigar atentamente com a mente como soará a trombeta e os mortos, “que dormem no pó da terra”, como diz Daniel, “despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio, para que o vejam sempre” (Dn 12,2), como aquele que era benigno se tornará severo, aquele que foi julgado virá para julgar, o Filho da Virgem industriosa, o mundo com justiça; como, ao seu aceno, estremecerão as colunas do céu (cf. Jó 26,11), as potências dos céus serão abaladas (cf. Mt 24,29), e os céus serão dobrados como um livro (cf. Is 34,4), e o sol se converterá em trevas e a lua em sangue (cf. Jl 2,32; At 2,20), e os homens, fora de si, irão dizendo aos montes: Caí sobre nós, e às colinas: Cobri-nos da face daquele que está sentado no trono (cf. Os 10,8; Ap 6,16).
Por estes dez graus a alma do penitente deve subir e descer; quanto mais descer, tanto mais subirá. E este será o verdadeiro sinal de que o Senhor a curou de toda enfermidade dos pecados e de que subirá ao templo da Jerusalém celeste, construído com pedras vivas. Bendita, portanto, aquela árvore que tiver tal raiz, porque é da raiz que brota o fruto da árvore; por isso tratamos dela, pela qual se designa a humildade, da qual surge a árvore da boa vontade e o homem colhe o fruto da vida eterna. Diz, pois, muito bem o Senhor: “A árvore boa produz bons frutos”.
9. Segue-se: “A árvore má, porém, produz frutos maus.” Mau, má, mal — malus, mala, malum — diz-se por causa do fel negro, que os gregos chamam mélan. Por isso também são chamados melancólicos os homens que fogem da convivência humana, nos quais abunda o fel negro. A árvore má é a má vontade, cuja raiz é a cobiça, o tronco é a obstinação, os ramos são as obras perversas, as folhas são as palavras venenosas, e o fruto é a morte eterna. A respeito de tal árvore, acrescenta o Senhor: “Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo.” Por isso se diz em Daniel que “um vigilante e santo desceu do céu e clamou em alta voz, dizendo: Cortai a árvore e podai os seus ramos; sacudi as suas folhas e espalhai os seus frutos; fujam as feras que estão debaixo dela e as aves dos seus ramos” (Dn 4,10-11).
A árvore é cortada quando o pecador, golpeado pelo machado da morte, cai e retorna à terra; e então são cortados os ramos das riquezas e das glórias temporais, e sacudidas as folhas das palavras levianas. Já cessam as palavras, porque se chegou aos golpes. E os frutos, isto é, as suas obras malignas, são espalhados, porque as portas do corpo, pelas quais aquela alma infeliz costumava sair para ver as mulheres daquela região (cf. Gn 34,1), já se fecham. E as feras, assim chamadas como que devastadoras, isto é, os raptores e homicidas que costumavam defender-se à sua sombra, morto ele, fogem. E as aves, isto é, os soberbos que costumavam habitar em seus ramos, todas fogem. Diz, portanto, com razão o Senhor: “Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo, que está preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 7,19; 25,41).
A respeito dele diz Isaías: “Desde ontem está preparado o Tofet; foi preparado pelo rei, profundo e dilatado. O seu alimento é fogo e muita lenha; o sopro do Senhor o incendiará como uma torrente de enxofre” (Is 30,33). Tofet, que se interpreta como “largura”, isto é, o inferno, que dilatou a sua alma sem qualquer limite, foi preparado desde ontem, isto é, desde a eternidade, pelo rei Jesus Cristo, para quem todo o passado é presente e aquilo que fez desde a eternidade é como o nosso ontem. Esse inferno é chamado profundo e dilatado: profundo, porque está sempre longe de tocar o fundo, isto é, sem fim para os castigos; dilatado, para receber as almas dos condenados. Por isso se chama inferno, porque nele as almas são lançadas — inferuntur —; o seu alimento são muitas lenhas, isto é, as almas dos pecadores; e o sopro do Senhor, isto é, a sua ira, como uma torrente de enxofre que arde e exala mau cheiro, o incendiará. Pois aquele que aqui arder no fogo da avareza e for contaminado pelo fedor da luxúria, lá será eternamente incendiado.
10. À segunda cláusula corresponde a segunda parte da epístola: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Pois não recebestes um espírito de escravidão para recair novamente no temor, mas recebestes um espírito de adoção, no qual clamamos: Abbá, Pai” (Rm 8,14-15). O Espírito de Deus é a humildade; aqueles que por ela são conduzidos, isto é, regidos, são verdadeiramente árvore boa, porque são filhos de Deus. Assim como a raiz sustenta a árvore, assim a humildade sustenta a alma. O espírito de humildade é mais doce que o mel, e aquele que por ele é regido produz frutos doces. “Pois não recebestes um espírito de escravidão”, que force novamente, isto é, como outrora sob a Lei, a servir por medo do castigo. A árvore má recebe não o espírito de adoção, com os filhos, mas o espírito de escravidão, com os escravos, que não permanecem para sempre na casa (cf. Jo 8,35), mas serão cortados e lançados no fogo inextinguível.
A adoção acontece quando alguém é adotado no lugar de um filho. Por isso, o filho adotivo, isto é, recebido no lugar do filho, Jesus Cristo, que seja sempre bendito, de uma árvore estéril, tendo nela enxertado o broto da fé, fez uma árvore boa e frutífera; e dos filhos da ira faz diariamente filhos da graça, para que, com a contrição do coração e a confissão da boca, clamem todos os dias: “Abbá, Pai”. Abbá é um nome sírio e hebraico; em latim e em grego, “Pater”, Pai. Neste duplo nome de paternidade é indicada a dupla misericórdia da benevolência paterna. Com efeito, o penitente, recebido no lugar do filho, deve esperar tanto a remissão dos pecados como a bem-aventurança da glória.
Rogamos-te, portanto, “Abbá, Pai”, que nos faças árvores boas e nos concedas produzir frutos dignos da penitência, para que, enraizados e fundados na raiz da humildade e libertados do fogo eterno, mereçamos chegar a colher o fruto da vida eterna.
Concede-no-lo tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
11. Segue-se a terceira parte: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse entrará no reino dos céus” (Mt 7,21). Senhor é assim chamado porque domina toda a criatura, ou porque preside à casa, ou como que dando ameaças. A respeito deste trecho do Evangelho diz a Glosa: “O caminho do reino de Deus é a obediência, não a invocação do nome; nem é este o verdadeiro e próprio ‘dizer’, quando a proclamação discorda da vontade. A respeito disso diz o Apóstolo: ‘Ninguém pode dizer: Senhor Jesus, senão no Espírito Santo’” (1Cor 12,3). Dizer verdadeiramente: “Senhor Jesus” é crer com o coração, confessar com a boca e testemunhar com as obras. Pois uma coisa sem a outra é negar; por mais louvores que a língua faça ressoar, a vida blasfema. Clamam “Senhor” aqueles que não são seus servos, aqueles que não temem as suas ameaças.
Por isso ele mesmo diz em Isaías: “A mim clama desde Seir: Sentinela, que resta da noite? Sentinela, que resta da noite? O sentinela disse: Vem a manhã e a noite; se quereis procurar, procurai; convertei-vos e vinde” (Is 21,11-12). Seir interpreta-se como “hirsuto” e significa o pecador, coberto pelos espinhos das riquezas e das preocupações. Por isso se diz no Gênesis que Esaú habitou na terra de Seir, na região de Edom (cf. Gn 36,8).
E observa que Esaú foi chamado Seir e Edom: Seir, porque era peludo; Edom, por causa do prato de lentilhas vermelhas pelo qual vendeu a primogenitura (cf. Gn 25,29). Esaú interpreta-se como “monte de pedras”, e Edom, “sangue”. Onde há um monte de pedras, isto é, de riquezas, aí estão os espinhos pungentes das preocupações; e onde há preocupação, aí há derramamento de sangue. O pecador, pois, clama desde Seir: “Sentinela, que resta da noite?” Eis a roda no meio da roda (Ez 1,16; 10,10).
No Evangelho de Mateus se diz duas vezes “Senhor”, e em Isaías duas vezes “Sentinela”, para significar que aquele que é Senhor é necessário que seja também sentinela, para guardar bem a casa à qual preside. Este duplo nome “Senhor” compreende o criador e o juiz; entre esses dois extremos é colocado o meio, isto é, o sentinela. Jesus Cristo foi Senhor na criação das coisas e será também Senhor no exame do juízo severo, porque será juiz, dando a cada um o que é justo; entre esses dois momentos, porém, foi sentinela durante a noite: o Senhor assumiu a forma de servo para guardar os servos. Por isso se diz em Lucas que “passava a noite em oração” (Lc 6,12). O sentinela da noite passava a noite em oração, não por si, mas pela criatura para cuja libertação viera.
Foi também sentinela durante a noite na Paixão. Por isso se lê em Lucas: “Ele se afastou deles à distância de um tiro de pedra e, posto de joelhos, orava” (Lc 22,41). Sozinho ora por todos, ele que haveria de sofrer sozinho por todos. Santo Ambrósio diz: “Sofreu por mim, ele que em si nada tinha pelo que devesse sofrer”. Põe-se de joelhos para mostrar, pela postura do corpo, a humildade do espírito. Verdadeiramente humilde era então, mas virá severo para tornar a terra um deserto e esmagar dela os malvados.
12. É desses que ele se queixa pelas palavras do profeta Oseias: “Encheram-se, saciaram-se; e elevaram o coração, e se esqueceram de mim. E serei para eles como uma leoa, como um leopardo no caminho dos assírios. Atacá-los-ei como uma ursa a quem foram arrebatados os filhotes; dilacerarei suas entranhas até o fígado e, como um leão, os consumirei ali. A fera do campo os dilacerará. A tua perdição, ó Israel, vem de ti; somente de mim vem o teu auxílio” (Os 13,6-9). Observa que nesta passagem são assinaladas oito coisas, a saber, quatro vícios e quatro castigos correspondentes a cada vício: “Encheram-se”: eis as riquezas e a avareza; “saciaram-se”: eis a gula; “elevaram o coração”: eis a soberba e a vanglória; “esqueceram-se de mim”: eis a luxúria.
Por isso diz Ezequiel: “Esqueceste-te de mim e lançaste-me para trás do teu corpo; também tu carregarás a tua iniquidade e as tuas fornicações” (Ez 23,35). Lança o Senhor para trás do seu corpo aquele que, esquecido da amargura da sua Paixão, se entrega ao prazer do corpo e, por amor deste, se torna escravo da gula e do ventre. “E” por isso “serei para eles”, diz o Senhor, “como uma leoa”, contra os que se encheram; “como um leopardo no caminho dos assírios, atacá-los-ei”, contra os que se saciaram; “como uma ursa a quem foram arrebatados os filhotes, dilacerarei até o fígado as entranhas” dos soberbos, que elevaram o coração. Amamos com o fígado; nele é representado o amor pelas coisas terrenas, e o Senhor dilacerará as entranhas daquele que as ama. “E os consumirei”, isto é, os luxuriosos, “ali como um leão”, e “a fera do campo”, isto é, o diabo, “os dilacerará” com a espada da morte eterna, para que tenham como torturador no castigo aquele que tiveram como instigador na culpa. “A tua perdição, ó Israel, vem de ti”, como se dissesse: se te perdeste, a culpa é tua. Mas o teu auxílio não vem de outro, senão somente de mim, que guardo Israel. Bem se diz, portanto: “Sentinela, quanto resta da noite? Sentinela, quanto resta da noite?”
Segue-se: “E disse a sentinela: Vem a manhã e a noite; se quereis procurar, procurai; convertei-vos e vinde”. Sentinela deriva de cuidado. “Manhã”, em latim mane, deriva de manus; pois os antigos chamavam a mão de bem. Que há, com efeito, de melhor que a luz? O Senhor, nosso sentinela, que cuida de nós, como diz Pedro (cf. 1Pd 5,7), diz àqueles que clamam: “Senhor, Senhor”: “Vem a manhã”, isto é, a iluminação da graça; caminhai, portanto, enquanto é dia, porque virá a noite, na qual não podereis trabalhar. Pois onde quer que, como se diz no Eclesiastes, caia a árvore, seja para o sul, isto é, para a vida, seja para o norte, isto é, para a morte, ali permanecerá (cf. Ecl 11,3). Trabalha, portanto, diligentemente enquanto é manhã, porque no inferno, para onde tu, ó pecador, te apressas, isto é, para onde te impeles com os teus pecados, não há obra nem razão. Se, portanto, “quereis procurar”, isto é, se vos propuserdes procurar, “procurai” enquanto é manhã; e, se procurais, que significa procurar? “Convertei-vos”, diz ele, “e vinde”. Eis como Deus é procurado e encontrado. O Senhor não deve ser procurado com palavras, “Senhor, Senhor”, ele que procura adoradores que o adorem em espírito e verdade (cf. Jo 4,23-24), isto é, no espírito da contrição e na verdade da confissão.
13. Deste modo buscou o Senhor o santo Josias, rei de Judá, sobre o qual encontras uma concordância no quarto livro dos Reis, onde se diz que, quando Josias ouviu as palavras da lei do Senhor, rasgou as suas vestes; e fez uma aliança com o Senhor, para caminhar após o Senhor com todo o coração e com toda a alma; e lançou para fora do templo do Senhor todos os vasos que haviam sido feitos para Baal, e queimou-os fora de Jerusalém, no vale do Cedron. Queimou ao fogo os carros do sol; e Josias também removeu os pitões, os adivinhos, as imagens dos ídolos, as imundícies e as abominações, e celebrou a Páscoa do Senhor (cf. 4Rs 22,11; 23,3.4.11.24).
Josias interpreta-se “em quem está o sacrifício” e significa o penitente, em quem está o sacrifício a Deus, isto é, o espírito contrito (cf. Sl 50,19). Este, quando ouve anunciar a glória eterna dos justos e a pena sem fim dos pecadores, rasga as suas vestes, isto é, aflige os seus membros, com os quais a alma se veste, e faz uma aliança com o Senhor, a saber, para que o Senhor lhe perdoe os pecados e ele, doravante, não volte a cometê-los. E, do templo do Senhor, isto é, do seu coração, no qual habita o Senhor, queima no vale do Cedron, que se interpreta “triste pesar”, isto é, na humildade da tristeza e do pesar, todos os vasos que haviam sido feitos para Baal, ou seja, todos os modos de gula com os quais servia ao deus Baal, isto é, ao seu ventre. E queima ao fogo da penitência os carros do sol, isto é, os cinco sentidos do corpo, que, sobre quatro rodas, isto é, com a complacência das coisas temporais, que giram ao longo das quatro estações, correm no sol, isto é, no esplendor da glória passageira. E remove os pitões, isto é, o espírito de avareza, e os adivinhos, que são encantadores, assim chamados porque proferem preces nefandas em torno dos altares, pelos quais entendemos os hipócritas; e remove as imagens dos ídolos, isto é, as imaginações de pensamentos torpes, as imundícies das fornicações e as abominações das palavras. Purificado de todas essas coisas, celebra para o Senhor a “Páscoa”, que se interpreta “passagem” (cf. Ex 12,11), porque passa dos vícios às virtudes, para converter-se e seguir o Senhor, não dizendo: “Senhor, Senhor!”, mas fazendo a vontade do Pai, para merecer entrar, no fim, no seu reino.
14. A esta terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus; e, se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm 8,16-17). Se, depois de convertidos, tivermos seguido o Senhor, purificando de toda imundície o templo do Senhor, então reconheceremos verdadeiramente que o Espírito de Deus dá testemunho ao nosso espírito de uma boa esperança e de que somos filhos de Deus, fazendo a vontade do Pai, que está nos céus. E, se somos filhos, somos também herdeiros, isto é, participantes da mesma glória: herdeiros de Deus, que nos constituiu herdeiros da herança eterna por meio do testamento confirmado pelo sangue e pela morte de seu Filho; somos coerdeiros dele, porque ele é nossa carne e nosso irmão (cf. Gn 27,37), pela participação na natureza que, nos céus, elevou acima dos anjos, para nos tornar participantes e coerdeiros de sua divindade.
Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, ao Pai onipotente, que nos conceda fazer a sua vontade, purificar de toda imundície o templo do nosso coração e celebrar a verdadeira Páscoa, para que mereçamos alcançar a herança eterna que nos prometeu por meio de nosso coerdeiro, Jesus Cristo, seu Filho amado.
Conceda-no-lo ele mesmo, que, com seu caríssimo Filho e o Espírito Santo, sendo um só Deus eterno, vive e reina pelos séculos dos séculos.
Diga toda a Igreja: Amém. Aleluia.