Sermões Dominicais · Parte III · Sermão n.º 58

Domingo II do Advento Dominica II de Adventu

Sermões Dominicais — Do Advento à Epifania · 5 seções · 20 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Evangelho do segundo domingo do Advento: “João, tendo ouvido do cárcere as obras de Cristo”; divide-se em três partes.

Primeiro, sermão para o início do jejum: “Sacode-te da poeira”.

Parte I: acerca das quatro espécies de pecadores: “Ai da gente pecadora!”

Parte II: sermão contra os soberbos: “Quem é cego, senão aquele que foi vendido?”

Também contra o hipócrita: “Os coxos caminham”.

Também contra os luxuriosos: “Naamã era um homem poderoso”.

Também contra os avarentos: “Os surdos ouvem”.

Também contra os glutões: “Os mortos ressuscitam”.

Também aos pobres de espírito, religiosos ou claustrais: “O Senhor consolará Sião”.

Parte III: sermão moral e especial para os claustrais e religiosos: “Que fostes ver?”, e tudo o que segue no mesmo trecho.

Exórdio. Sermão para o início do jejum

1. Naquele tempo: “Tendo João ouvido na prisão falar das obras de Cristo” (Mt 11,2) etc.

Diz Isaías: “Sacode-te do pó, levanta-te, senta-te, Jerusalém! Desata os vínculos do teu pescoço, filha cativa de Sião” (Is 52,2). Observa estas quatro palavras: sacode-te, levanta-te, senta-te, desata. Pó é assim chamado porque é impelido pela força do vento; ele é a concupiscência da carne, que, sob o impulso da sugestão diabólica, é arrastada por diversos pecados. Daí Jó: “Um vento abrasador o arrebatará” (Jó 27,21). Desse pó diz Isaías: “Para a serpente”, isto é, para o diabo, “o pó será pão” (Is 65,25). Portanto, para que o diabo não te devore, “Jerusalém”, isto é, alma, juntamente com o pó, “sacode-te do pó”, isto é, do prazer da tua carne. “Sacudi”, diz o Senhor, “o pó dos vossos pés” (Mt 10,14). “Por acaso o pó te dará graças?” (Sl 29,10). “Levanta-te”, isto é, ergue-te simultaneamente com a mente e com o corpo, para as obras da penitência. É isto que diz Salomão: “Tira a ferrugem da prata”, isto é, “sacode-te do pó”; “e sairá um vaso puríssimo” (Pr 25,4), isto é, “levanta-te”; “senta-te”, isto é, repousa do tumulto das coisas mundanas. Daí Jeremias: “Sentar-se-á sozinho e permanecerá em silêncio” (Lm 3,28). E Isaías: “Se voltardes e repousardes, sereis salvos” (Is 30,15). “Desata os vínculos do teu pescoço” etc. As últimas palavras correspondem às primeiras. As mesmas coisas são inculcadas, para que se imprimam mais firmemente na memória. O prazer da carne e a vaidade do mundo são os vínculos pelos quais a alma, atada pelo pescoço, é mantida cativa, para que não possa sair para a liberdade da confissão. “Desata”, portanto, “os vínculos do teu pescoço.” Desses vínculos se diz no evangelho de hoje: “Tendo João ouvido na prisão falar das obras de Cristo” etc.

2. Observa que neste Evangelho se notam três coisas. Primeiro, a prisão de João, onde se diz: “Quando ouviu”. Segundo, a realização dos milagres de Cristo, onde se diz: “Ide e anunciai”. Terceiro, o elogio do bem-aventurado João, onde se diz: “Que fostes ver?” etc.

Canta-se no intróito da missa: “Povo de Sião”. E lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Romanos: “Tudo quanto foi escrito” (Rm 15,4). Queremos dividi-la em três partes e concordá-las com as três partes do Evangelho. A primeira parte é: “Tudo quanto”. A segunda: “Acolhei-vos uns aos outros”. A terceira: “O Deus da esperança”.

I. Do encarceramento de João

3. Digamos, portanto: “Tendo João ouvido, estando na prisão, falar das obras de Cristo, enviou dois de seus discípulos e disse-lhe: És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11,2-3). Lê-se no mesmo Evangelho que “Herodes prendeu João, amarrou-o e lançou-o na prisão por causa de Herodíades, mulher de seu irmão. João dizia-lhe: Não te é lícito tê-la” (Mt 14,3-4).

Vejamos o que significam moralmente Herodes e Herodíades, João e suas cadeias, e os dois discípulos.

Herodes é o mundo; Herodíades, a carne; João, o espírito do homem; as cadeias, a vaidade e o prazer; os dois discípulos, a esperança e o temor. Herodes e Herodíades interpretam-se como “glória da pele”. O mundo e a carne gloriam-se da beleza exterior. A esse respeito, diz Isaías: “Que fareis no dia da visitação e da calamidade que virá de longe? A quem recorrereis para obter auxílio? E onde deixareis a vossa glória?” (Is 10,3). E ainda: “Embaixo”, isto é, no inferno, “a sua glória”, isto é, a do mundo e da carne, “arderá em chamas como a combustão do fogo” (Is 10,16). Por isso, diz ainda: “Como uma bola ele te lançará numa terra larga e espaçosa”, isto é, no inferno — “que dilatou a sua alma e abriu a sua boca sem limite algum” (Is 5,14) —; “ali morrerás, e ali estará o carro da tua glória” (Is 22,18).

João interpreta-se como “graça do Senhor” e significa o espírito do homem, que no Batismo recebeu a graça do Senhor. Por isso, encontras concordância em Isaías: “Derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca. Derramarei o meu espírito sobre a tua descendência e a minha bênção sobre a tua estirpe. E brotarão entre as ervas como os salgueiros junto às águas correntes. Este dirá: ‘Eu sou do Senhor’; e aquele invocará o nome de Jacó; e este escreverá com a sua mão: ‘Ao Senhor’; e será designado pelo nome de Israel” (Is 44,3-5). Sedenta e seca é a alma antes do Batismo. “Éramos”, diz o Apóstolo, “por natureza filhos da ira” (Ef 2,3). Mas o Senhor, derramando a água batismal, derrama o seu espírito e a sua bênção, para fazer dos filhos da ira filhos da graça; e assim sejam descendência e estirpe, isto é, filhos da santa Igreja, e brotem entre as ervas, isto é, entre os santos, como salgueiros, isto é, viçosos pela fé e pelas virtudes, junto às águas correntes, isto é, entre os carismas das graças. Este dirá: “Eu sou do Senhor”. Eis João, eis a graça do Senhor. “E aquele”, isto é, outro fiel, “invocará” à penitência, como fez João, “o nome de Jacó”, isto é, para suplantar os vícios. “E este”, isto é, o mesmo, “escreverá com a sua mão”, isto é, com a sua obra: “Ao Senhor”, isto é, para honra do Senhor. “E será designado pelo nome de Israel”, isto é, segundo o significado do nome Israel: homem que vê a Deus, agora pela fé e pela esperança, e finalmente na própria realidade.

4. Este João, assim iluminado pela graça do Senhor, é atado por Herodes e Herodíades, isto é, pelo mundo e pela carne, com suas correntes: o mundo, com a vaidade; a carne, com o prazer. A vaidade do mundo consiste na soberba e na avareza; o prazer da carne, na gula e na luxúria. Sobre esses quatro vícios diz Isaías: “Ai da gente pecadora”, por causa do pecado da soberba; “do povo carregado de iniquidade”, por causa da avareza; “da raça perversa”, por causa da gula; “dos filhos criminosos” (Is 1,4), por causa da luxúria. Eis com quais correntes o nosso espírito é mantido cativo.

Mas que deve ele fazer no meio dessas coisas? Precisamente aquilo que se diz no Evangelho de hoje: “Quando João, estando na prisão, ouviu falar das obras de Cristo”, etc. As obras de Cristo são a criação e a recriação (a redenção). Sobre elas tens uma concordância em Isaías: “Cítara, lira, tamborim, flauta e vinho estão em vossos banquetes” — coisas nas quais se designa o deleite dos cinco sentidos, como foi dito mais acima —, “e não considerais a obra do Senhor nem contemplais as obras de suas mãos” (Is 5,12). A “obra do Senhor” é a criação; bem considerada, ela conduz aquele que a contempla à consideração de seu Criador. Se há tanta beleza na criatura, quanta não haverá no Criador? A sabedoria do artífice resplandece na matéria. Mas os que se entregam aos sentidos não veem isso. “Nem consideram as obras de suas mãos”, que foram perfuradas pelos cravos na cruz. Com as mãos pregadas na cruz, ele venceu o diabo e arrancou das mãos dele o gênero humano.

Quando o nosso espírito, mantido em correntes, ouve falar dessas obras de Cristo, deve imediatamente enviar dois discípulos. Digo que as ouve interiormente, com o ouvido do coração, pela inspiração do Espírito que inspira; ou exteriormente, com o ouvido do corpo, pela voz do pregador. Quando ouve assim, deve enviar a Jesus a esperança e o temor, dizendo-lhe: “És tu aquele que me criou e recriou, que me fizeste e me redimiste” — e nisso tenho esperança em tua misericórdia —, “és tu aquele que virá julgar-me segundo as minhas obras” — e nisso tenho temor de tua justiça —, “ou devemos esperar outro” que julgue o mundo com equidade? De modo algum! Pois aquele que criou e redimiu é o mesmo que julgará. “Deu todo o julgamento ao Filho” (Jo 5,22).

5. À primeira parte do Evangelho corresponde a primeira parte da Epístola: “Tudo quanto foi escrito outrora” (Rm 15,4), etc. Por isso, o Senhor diz a Isaías: “Agora, sai e escreve isto para eles numa tábua de buxo e registra-o cuidadosamente num livro; e será, no último dia, um testemunho para sempre” (Is 30,8). “Numa tábua de buxo”, diz ele, para que permaneça perpetuamente. A síntese de tudo quanto foi escrito para nossa instrução consiste sobretudo em três coisas: a criação, a redenção e o exame do juízo final. A criação e a redenção nos ensinam a amar a Deus; o juízo final nos ensina a temê-lo, “para que, pela perseverança e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4). Ouve de que modo a Escritura consola aquele que sofre tribulação com paciência. Diz o Senhor por meio de Isaías: “Quando atravessares as águas, estarei contigo, e os rios não te cobrirão. Quando caminhares pelo fogo, não te queimarás, e a chama não te abrasará. Porque eu sou o Senhor, teu Deus” (Is 43,2-3). E ainda: “Não temas, verme de Jacó, vós, mortos de Israel. Eu te auxiliei, diz o Senhor, e teu redentor é o Santo de Israel” (Is 41,14). E ainda: “Eu mesmo vos consolarei. Quem és tu, para temeres o homem mortal e o filho do homem, que seca como o feno?” (Is 51,12).

Segue-se: “O Deus da perseverança”, que diz por meio de Isaías: “Calei-me, permaneci em silêncio, fui paciente” (Is 42,14), “e da consolação”, que diz ainda: “Eu vos consolarei, e em Jerusalém sereis consolados. Vereis, e o vosso coração se alegrará, e os vossos ossos brotarão como a erva” (Is 66,13-14), isto é, os vossos corpos reviverão na imortalidade; “conceda-vos ter uns para com os outros os mesmos sentimentos, segundo Jesus Cristo, para que, unânimes e com uma só voz, glorifiqueis a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15,5-6). É isso que diz Isaías: Dois serafins “clamavam um ao outro e diziam: Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6,3). Serafim interpreta-se como “ardente”. Serafins são aqueles que ardem reciprocamente de caridade, que têm os mesmos sentimentos, segundo Jesus Cristo. Quando, portanto, diz: “Conceda-vos Deus ter uns para com os outros os mesmos sentimentos”, isso corresponde a: “Dois serafins clamavam um ao outro”; quando acrescenta: “para que, unânimes e com uma só voz, glorifiqueis”, etc., isso corresponde a: “E diziam: Santo, santo, santo”, etc.

Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, ao Senhor Jesus Cristo que liberte o nosso espírito das cadeias do mundo e da carne, para que, com um só ânimo e uma só voz, possamos honrá-lo e glorificá-lo, pois toda a terra está cheia de sua glória. A ele, honra e glória pelos séculos eternos. Amém.

II. Da realização dos milagres de Cristo

6. Segue-se o segundo: “Ide anunciar a João o que ouvistes e vistes” (Mt 11,4). Aqui é destruído o erro dos hereges, que dizem que João foi condenado, por ter duvidado de Cristo, dizendo: “És tu aquele que há de vir?”, e que, permanecendo nessa dúvida, morreu na prisão antes do retorno dos discípulos que enviara. Cale-se a língua maldita! João não duvidou de Cristo, a quem deu testemunho: “Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1,36). Mas, para confirmar seus discípulos na fé em Cristo, enviou-os para interrogá-lo, a fim de que, vendo os seus milagres, não mais duvidassem. Por isso, o Senhor não respondeu à pergunta de João, mas, para confirmar o coração dos seus discípulos, respondeu, dizendo: “Os cegos veem” (Mt 11,5) etc. Diz Gregório: “João não duvida de que ele seja o redentor do mundo, mas pergunta para saber se aquele que viera pessoalmente ao mundo também desceria pessoalmente às profundezas do inferno.”

Também isto que objetam, que ele teria morrido antes do retorno dos discípulos, mostra-se claramente falso pelas palavras do santo Evangelho. Quando disse: “Ide anunciar”, o Senhor ordenou aos discípulos algo impossível ou possível. O Senhor jamais ordena o impossível. Mas, se João tivesse morrido na prisão antes que os discípulos retornassem, o Senhor teria ordenado algo impossível: “Ide anunciar.” A quem anunciariam? A um morto? Certamente não! Fica, portanto, claro que os discípulos encontraram João vivo e lhe anunciaram o que tinham ouvido e visto. Com efeito, o Senhor sempre ordena o que é possível.

Segue-se: “Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados” (Mt 11,5). Vejamos o que significam moralmente esses seis milagres. Os cegos são os soberbos; os coxos, os hipócritas; os leprosos, os luxuriosos; os surdos, os avarentos; os mortos, os gulosos; e os pobres, os humildes.

7. “Os cegos veem.” É isto que diz Isaías: “Das trevas e da escuridão, os olhos dos cegos verão” (Is 29,18). O mesmo diz: “Quem é cego senão aquele que foi vendido? E quem é cego senão o servo do Senhor? Tu, que vês muitas coisas, por acaso não as guardarás?” (Is 42,19-20). Quem são hoje os cegos, isto é, os soberbos, senão aqueles que se chamam servos do Senhor e parecem servir ao Senhor, isto é, os religiosos e os clérigos? Quem são os soberbos senão os que veem muitas coisas nas Escrituras, ensinam e pregam muitas coisas, mas nada observam? Veem muitas coisas para os outros, mas nada para si mesmos.

A respeito da soberba de todos esses, sob a figura do “vale da visão” (Is 22,1), diz Isaías: “Que tens, afinal, para teres subido também aos terraços, cidade cheia de clamor, cidade populosa, cidade exultante?” (Is 22,1-2). Como se dissesse: É tolerável que os seculares desejem as coisas elevadas; mas o que vos aconteceu, a vós, religiosos e letrados, que vedes muitas coisas, para que também desejeis as coisas elevadas e subais aos terraços da soberba, cheios de clamor? Com efeito, a soberba é clamorosa. Daí Isaías: “Ai do tumulto de povos numerosos, como o tumulto do mar que ressoa” (Is 17,12).

Em contraste, sobre o humilde Cristo diz Isaías: “Não clamará, nem sua voz será ouvida nas praças” (Is 42,2). “Cidade populosa”, isto é, povoada; “cidade exultante”. A respeito dela diz Isaías: “Sobre a terra do meu povo”, isto é, sobre a mente dos humildes, “subirão espinhos e abrolhos”, isto é, pungimentos e dores; “quanto mais sobre todas as casas da cidade exultante?” (Is 32,13), isto é, em sua soberba, que cega os olhos da mente, para que não veja a cidade da alegria eterna. A respeito dela diz Isaías: “Contempla Sião, a cidade de nossa solenidade: teus olhos verão Jerusalém, morada opulenta” (Is 33,20). Para que possas vê-la, unge os teus olhos com o colírio da humildade, e merecerás ouvir: “Contempla: tua humildade te iluminou.” “Os cegos”, portanto, “veem.”

8. Segue-se: “Os coxos caminham”. Coxo é chamado em latim claudus, quase como clausus, fechado ou impedido no andar. O hipócrita caminha fechado no caminho de sua conduta. Pois aquele que age mal odeia a luz, para que suas obras não sejam repreendidas pela luz (cf. Jo 3,20). Por isso Isaías: “Ai dos que vos aprofundais no coração”, isto é, que ocultais a vossa iniquidade, “para esconder do Senhor o vosso desígnio; cujas obras estão nas trevas, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece?” (Is 29,15). O hipócrita coxeia de um pé. Com efeito, suspende um pé da terra e põe o outro na terra. Enquanto aparecem a pobreza na veste, a humildade na voz e a palidez no rosto, ele levanta o pé da terra. Mas, quando deseja ser louvado por essas coisas e procura parecer santo, então, sem dúvida, põe o outro pé na terra.

De outro modo. Lê-se no segundo livro dos Reis que Mifiboset era coxo de ambos os pés (cf. 2Rs 4,4). Mifiboset interpreta-se “homem da confusão” e significa aqueles que são coxos de ambos os pés, isto é, no afeto e no efeito. E aqueles que coxeiam desse modo são dignos da confusão eterna.

Sobre isso, Isaías: “O rei dos assírios conduzirá ao cativeiro o Egito e à deportação a Etiópia, o jovem e o velho, o nu e o descalço, com as nádegas descobertas, para a vergonha do Egito” (Is 20,4). “O rei dos assírios”, isto é, o diabo, “conduzirá” ao inferno “os cativos do Egito”, isto é, aqueles que manteve cativos no pecado, “e os deportados da Etiópia”, isto é, aqueles que passam das virtudes para os vícios; “o jovem”, isto é, aquele robusto na malícia; “e o velho”, envelhecido nos dias maus; “o nu”, sem a veste nupcial (cf. Mt 22,11); “o descalço”, sem o jacinto do desejo das coisas celestes quanto ao pé do afeto, por isso Ezequiel: “Calcei-te com jacinto” (Ez 16,10), e sem o calçado da mortificação quanto ao pé do efeito, por isso, no livro de Rute: “Tira o calçado para ti”. E imediatamente o tirou do pé (Rt 4,8). E, como se diz no Deuteronômio, a casa de tal homem será chamada em Israel casa do descalço (cf. Dt 25,10). “Com as nádegas descobertas”, para que a sua torpeza apareça a todos, “conduzi-los-á”, repito, “para a vergonha do Egito”, isto é, dos que amam este mundo. Aqueles que desejam escapar dessa vergonha façam com seus pés passos retos, isto é, firmem o afeto na boa vontade e o efeito na humildade da obra, e assim merecerão ouvir: “Os coxos caminham”.

9. “Os leprosos são purificados.” Lê-se no Quarto Livro dos Reis que Naamã era um homem poderoso e rico, mas leproso (cf. 4Rs 5,1), porque onde há abundância de riquezas e prazeres, aí está a lepra da luxúria. Por isso, Isaías, depois de dizer: “A terra está repleta de prata e ouro, e não há fim para os seus tesouros” (Is 2,7), acrescenta imediatamente: “E a sua terra está repleta de cavalos” (Is 2,8), isto é, de luxuriosos. Por isso, diz-se no Êxodo que um bezerro foi formado de ouro (cf. Ex 32,4), porque do ouro da abundância se forma o bezerro da luxúria desenfreada. A respeito dele, Isaías diz: “Ali o bezerro pastará, ali se deitará e consumirá as suas copas” (Is 27,10). É isto mesmo que Jó diz acerca da luxúria: “É um fogo que devora até à destruição e arranca todos os rebentos” (Jó 31,12). “Lavai-vos”, ó leprosos, “e purificai-vos; afastai da vista do Senhor o mal dos vossos pensamentos” de luxúria; “cessai de agir perversamente” (Is 1,16) com o vosso corpo, para que se diga de vós: “Os leprosos são purificados”.

10. Segue-se: “Os surdos ouvem”. É o que diz Isaías: “Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro” (Is 29,18). Surdo é dito quase como sórdido; pois traz nos ouvidos as sordes, isto é, a sujeira, pelas quais se obstruem as vias da audição. Surdos são os avarentos e usurários, cujos ouvidos estão tapados pela sujeira do dinheiro. Por isso, diz o Salmo: “A sua fúria é semelhante à do serpente, como a da víbora surda, que tapa os seus ouvidos” (Sl 57,5). Diz-se que a serpente, para não ouvir a voz do encantador, encosta uma orelha à terra e tapa a outra com a ponta da cauda. A orelha é assim chamada, em latim auris, porque apanha avidamente ou porque recolhe o som. O infeliz avarento ou usurário priva-se de tão grande dom da natureza e da graça; para não apanhar avidamente a palavra da vida ou recolher o som, isto é, a voz do pregador, tapa os ouvidos do coração: com a terra, isto é, com o amor do dinheiro já acumulado, e com a cauda, isto é, com a torpe ambição de acumular ainda mais. Se tais pessoas quiserem ouvir as palavras do livro, isto é, do Evangelho, no qual se diz: “Bem-aventurados os pobres” (Mt 5,3), é necessário que primeiro removam dos ouvidos do coração a terra do dinheiro adquirido desonestamente e arranquem totalmente a cauda, isto é, o desejo de acumular ainda mais. Então se poderá dizer delas: “Os surdos ouvem”.

11. Segue-se: “Os mortos ressuscitam.” Isto é o que diz Isaías: “Os teus mortos viverão, os meus mortos ressuscitarão” (Is 26,19). Mortos são os glutões. “A sua garganta”, diz ele, “é um sepulcro aberto” (Sl 5,11), no qual jazem sepultados como mortos. Por isso, Isaías diz: “Também estes, por causa do vinho, não tiveram entendimento e, por causa da embriaguez, andaram errantes; o sacerdote e o profeta não tiveram entendimento por causa da embriaguez, foram absorvidos pelo vinho” (Is 28,7). Assim como o bocado, enquanto absorve o vinho, é absorvido pelo vinho e desce ao fundo do cálice, assim estes, enquanto absorvem, são absorvidos e sepultados no inferno do próprio ventre. O rico que todos os dias banqueteava esplendidamente, durante a sua vida estava, de certo modo, sepultado no inferno. Lázaro, porém, o mendigo, jazia do lado de fora, junto à porta, e não dentro dela (cf. Lc 16,19-20); jazia faminto fora da porta, isto é, privado dos prazeres dos cinco sentidos. E o Senhor, como diz o Apóstolo, padeceu fora da porta (cf. Hb 13,12). O rico, porém, sepultava-se todos os dias dentro da porta, no inferno. E no inferno do ventre, ó Senhor, quem te louvará? (cf. Sl 6,6). Nem os mortos te louvarão, Senhor (cf. Sl 113,17).

Os que querem louvar devem sair do sepulcro da gula; das trevas e do caos do inferno, devem entrar na luz da abstinência de bebidas e alimentos. Sobre isso, Isaías diz: “Despertai e louvai, vós que habitais no pó, porque o teu orvalho é orvalho de luz” (Is 26,19). Assim como o orvalho abranda o calor e a luz afugenta as trevas, assim a abstinência abranda o ardor da gula e dos vícios e afugenta as trevas da mente. E assim “os mortos ressuscitam” para a vida.

12. Segue-se: “Os pobres são evangelizados”. Sobre os pobres, diz Isaías: “Os primogênitos dos pobres serão saciados, e os pobres repousarão com confiança” (Is 14,30); e ainda: “Os mansos se alegrarão cada vez mais no Senhor, e os pobres exultarão no Santo de Israel” (Is 29,19). Somente os pobres, isto é, os humildes, são evangelizados, porque somente a concavidade é capaz de receber aquilo que nela se derrama, ao passo que a protuberância repele o que é derramado. “Quem tem sede, venha a mim e beba” (cf. Jo 7,37), diz o Senhor; pois, como ele mesmo diz por meio de Isaías: “Derramarei água sobre aquele que tem sede e torrentes sobre a terra árida” (Is 44,3). Hoje, são os pobres, os simples, os indoutos, os rústicos e as velhinhas que têm sede da palavra da vida, da água da sabedoria salvadora. Já os cidadãos da Babilônia, que se embriagam com o cálice de ouro da grande meretriz, os sábios conselheiros do faraó, que, como se diz no livro de Jó, estão cheios de palavras e são impelidos pelo espírito de seu ventre, e cujo ventre é como mosto sem abertura, que rompe os odres novos (cf. Jó 32,18-19), crede em mim: não estes, mas somente “os pobres são evangelizados”.

13. Segue-se: “E bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim” (Mt 11,6). Cristo é a verdade. Em Cristo estiveram a pobreza, a obediência e a humildade. Quem se escandaliza com estas coisas ou por causa delas, escandaliza-se com Cristo. Os verdadeiramente pobres não se escandalizam, porque somente eles são evangelizados, isto é, alimentados pela palavra do Evangelho, pois são o povo do Senhor e as ovelhas de seu pasto (cf. Sl 94,7).

A respeito desse povo canta-se no intróito da missa de hoje: “Povo de Sião, eis que o Senhor virá para salvar as nações”. É isto que diz Isaías: “Primeiro dirá a Sião: Eis-me aqui”, isto é, venho em vosso auxílio, “e a Jerusalém”, isto é, à Igreja, “darei um evangelista”, isto é, alguém que anuncie boas-novas (Is 41,27), para que os pobres sejam evangelizados e as nações sejam salvas pelo Evangelho; e o Senhor fará ouvir a glória de seu louvor na alegria de vosso coração (cf. Is 30,30).

14. Isto é o que diz Isaías: “O Senhor consolará Sião e consolará todas as suas ruínas; fará do seu deserto um lugar de delícias e da sua estepe um jardim do Senhor. Nela se encontrarão júbilo e alegria, ação de graças e voz de louvor” (Is 51,3). Sião interpreta-se como mirante. O povo de Sião são os pobres de espírito que, elevados acima das coisas terrenas e colocados no mais alto mirante da pobreza, contemplam o Filho de Deus, peregrino no caminho e glorioso na pátria. É esta Sião que o Senhor consola; consola com os seus bens os que estão despojados dos bens temporais; por isso acrescenta: “E consolará todas as suas ruínas.” Quando desaba o edifício da consolação mundana, imediatamente o Senhor ergue a casa da consolação interior. “E fará do seu deserto um lugar de delícias.” Com efeito, o deserto da pobreza exterior produz as delícias da suavidade interior. O Senhor chama de espinhos as riquezas deste mundo (cf. Mt 13,22). Isaías chama de delícias o deserto da pobreza. Ó espinhos do mundo! Ó delícias do deserto! Quanto a verdade dista da mentira, a luz das trevas e a glória da pena, tanto é grande a diferença entre vós. Estas deleitam, aquelas ferem. Nestas há repouso; naquelas, “vaidade e aflição de espírito” (Ecl 1,14).

Sobre essas delícias diz o Senhor nos Provérbios: “Minhas delícias consistem em estar com os filhos dos homens” (Pr 8,31), que a natureza gerou pobres — “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá” (Jó 1,21) —, mas que a malícia tornou ricos, porque “os que querem tornar-se ricos caem no laço do diabo” (1Tm 6,9). Minhas delícias, portanto, consistem em estar com os filhos dos homens, não com os filhos dos demônios. Ó pobreza, bem odioso para os filhos dos demônios, as tuas delícias oferecem aos que te amam o sabor da eterna doçura!

Segue-se: “E fará da sua estepe um jardim do Senhor.” A pobreza ama a solidão, porque, como diz Isaías: “Na solidão habitará o juízo” (Is 32,16). Por isso, Jeremias diz: “Impulsionado pela tua mão, eu me sentava solitário, porque me encheste de amargura” (cf. Jr 15,17). Quem quer instituir um juízo sobre si mesmo deve, ao menos, habitar na solidão da mente, da qual diz o Eclesiástico: “Escreve a sabedoria no tempo da quietude” (Eclo 38,25). Onde há juízo, aí há sabedoria; onde há sabedoria, aí há um jardim, isto é, o paraíso do Senhor. E, porque a verdadeira pobreza é sempre alegre, acrescenta: “Nela se encontrarão júbilo e alegria”, etc. A Glosa diz a esse respeito: Em Sião, que é comparada ao paraíso, deve haver somente júbilo e alegria, ação de graças e voz de louvor, para que meditemos continuamente na terra aquilo que haveremos de fazer no céu com os anjos.

15. À segunda parte do evangelho corresponde a segunda parte da epístola: “Acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus” (Rm 15,7). Assim como Cristo acolheu os cegos, para iluminá-los; os coxos, para lhes dar firmeza aos passos; os leprosos, para purificá-los; os surdos, para lhes restituir a audição; os mortos, para ressuscitá-los; e os pobres, para evangelizá-los, assim também nós devemos acolher-nos uns aos outros. Se o teu próximo é cego pela soberba, procura, quanto estiver em ti, iluminar-lhe os olhos com o exemplo da humildade; se é coxo pela hipocrisia, endireita-o pela obra da verdade; se é leproso pela luxúria, purifica-o pela palavra e pelo exemplo da castidade; se é surdo pela avareza, propõe-lhe o exemplo da pobreza do Senhor; se está morto pela gula e pela embriaguez, ressuscita-o pelo exemplo e pela virtude da abstinência; e evangeliza os pobres, exortando-os a imitar a vida de Cristo.

Ó caríssimos irmãos, imploremo-lo humildemente, para que se digne curar-nos das enfermidades da alma acima mencionadas e acolher-nos junto de si.

Ele, que é bendito pelos séculos. Amém.

III. Do elogio do bem-aventurado João

16. Segue-se o terceiro ponto: “Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido com roupas macias? Eis que os que vestem roupas macias estão nos palácios dos reis” (Mt 11,7-8). Vejamos que significado moral têm o deserto, a cana e o homem vestido com roupas macias.

O deserto é a vida religiosa, a ordem religiosa. Daí a concordância com Isaías: “Alegrar-se-á”, diz ele, “o deserto e a terra sem caminho; exultará a solidão e florescerá como o lírio. Germinando, germinará, e exultará, jubilará e louvará” (Is 35,1-2). Em toda ordem religiosa devem observar-se absolutamente três coisas, a saber: pobreza, castidade e obediência. Essas três são assinaladas nesta passagem: a pobreza, quando se diz: “Alegrar-se-á o deserto”; a castidade, quando se acrescenta: “E florescerá como o lírio”; a obediência, quando se conclui: “Germinando”.

Digamos, pois: “Alegrar-se-á o deserto”. Observa que todo religioso que deseja possuir a verdadeira pobreza deve fazer três coisas: primeiro, renunciar a toda substância exterior; segundo, não conservar de modo algum a vontade de possuir alguma coisa no futuro; terceiro, suportar pacientemente a necessidade da própria pobreza. Essas três coisas são assinaladas nestas três palavras: “deserto”, “sem caminho” e “solidão”.

A vida de todo religioso deve ser “deserta”, pela renúncia a toda substância exterior; “sem caminho”, isto é, sem via, ou seja, de modo que não permaneça em sua vontade nenhum vestígio de desejo de possuir alguma coisa. Sobre essas duas coisas diz Isaías: “O deserto se tornará um Carmelo, e o Carmelo será tido por bosque” (Is 32,5). Carmelo interpreta-se “conhecimento da circuncisão”. Portanto, o “deserto”, isto é, a ordem religiosa, “se tornará um Carmelo”, isto é, uma circuncisão quanto à renúncia à substância; e a circuncisão da substância se tornará “um bosque”, quanto à vontade de não possuir. Todo aquele que foi libertado desses dois laços pode alegrar-se e cantar com razão: “A minha alma foi libertada do laço dos caçadores” (cf. Sl 123,7). “Alegrar-se-á”, portanto, “o deserto e a terra sem caminho”.

A essas duas coisas deve acrescentar-se uma terceira: que o religioso saiba passar fome e sede e padecer necessidade (cf. Fl 4,12). E assim haverá a solidão, que então exultará, quando suportar pacientemente essas coisas e outras semelhantes.

17. Quanto à castidade: “E florescerá como o lírio”. O lírio, chamado assim como que de “leitoso”, significa a candura da castidade. Por isso diz Jeremias nas Lamentações: “Os seus nazireus eram mais cândidos que a neve, mais brancos que o leite” (Lm 4,7). A estes o Senhor promete por meio de Isaías: “Não diga o eunuco”, isto é, aquele que se fez tal por causa do reino dos céus, ou seja, que prometeu a continência: “Eis que sou uma árvore seca”. Pois isto diz o Senhor aos eunucos: “Aos que guardam os meus sábados”, isto é, a pureza do coração, que é o sábado do espírito, “e escolheram aquilo que quero”, isto é, a castidade do corpo, da qual diz o Apóstolo: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, para que cada um saiba possuir o seu vaso”, isto é, o seu corpo, “com honra e santificação” (1Ts 4,3-4); “e mantiveram a minha aliança”, a aliança que concluíram comigo no Batismo, “darei na minha casa”, na qual há muitas moradas, “e dentro dos meus muros”, dos quais se diz no Apocalipse: “A estrutura do seu muro era de pedra de jaspe” (Ap 21,18), que é de cor verde, na qual se representa a alegria do eterno verdor, “um lugar”, do qual diz João: “Vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,2), “e um nome melhor”, isto é, mais excelente, “do que o dos filhos e das filhas”, isto é, melhor do que se tivessem gerado filhos e filhas: “um nome eterno”, do qual se diz no Apocalipse: “Escreverei sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, da nova Jerusalém, e o meu nome novo” (Ap 3,12). Terá o nome de Deus, porque será semelhante a Deus e o verá como ele é (cf. 1Jo 3,2); “Eu”, diz ele, “disse: Sois deuses” (Sl 81,6); terá o nome de Jerusalém, porque será pacífico; terá o nome de Jesus, porque foi salvo. “Darei”, portanto, “a eles um nome eterno, que não perecerá” (Is 56,3-5), isto é, que jamais será apagado pelo esquecimento.

18. Segue-se a obediência. “Germinará, germinará, e exultará, jubilosa e louvando.” Observa que a verdadeira obediência possui em si cinco qualidades, indicadas nestas cinco palavras: “germinando” e nas demais. A verdadeira obediência é humilde, devota, pronta, jubilosa e perseverante. Humilde no coração: isto é “germinando”. O germe é o princípio da flor, e a humildade, de toda boa ação. Devota na voz: isto é “germinará”. Com efeito, da humildade do coração procede a devoção da voz. Pronta ao comando, à qual corresponde “exultará”. “Exultou”, diz ele, “como um gigante para percorrer o caminho” (Sl 18,6). Jubilosa na tribulação: isto é “jubilosa”. Perseverante no cumprimento do preceito, e então será “louvando”, porque todo louvor é cantado no fim.

Ó religiosos, tal deve ser o deserto de nossa religião, para o qual saístes da vaidade do mundo a fim de habitá-lo. Por isso o Senhor vos diz: “Que fostes ver no deserto?”

19. Segue-se: “Uma cana agitada pelo vento?” A cana é chamada assim como que conduzida pelo ar ou como que seca. Observa que a cana tem a raiz no lodo, no qual estão a gula e a luxúria; é vazia por dentro, bela por fora, no que se indicam a hipocrisia e a vanglória; é agitada pelo vento de todos os lados, no que se representa a inconstância da mente. Infeliz aquele claustro, maldito aquele deserto da religião em que tal árvore é plantada e cresce, árvore em cuja raiz foi posto o machado, para que seja cortada e lançada ao fogo (cf. Mt 3,10; Lc 3,9). Diz o Senhor por Isaías: “Porei no deserto o abeto, o olmo e o buxo juntamente” (Is 41,19), e não uma cana agitada pelo vento. No abeto é representada a conversação celeste; no olmo, que sustenta a videira, a compaixão pelo próximo; no buxo, que tem uma cor pálida, a mortificação do corpo. Com essas árvores, e não com a cana agitada pelo vento, destinada a ser queimada no fogo, é plantado e adornado o deserto da bênção, o paraíso da santa religião.

Segue-se: “Mas que fostes ver? Um homem vestido com roupas macias?” No mesmo evangelista lê-se que “João tinha uma veste de pelos de camelo e uma cinta de couro em torno dos rins; seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3,4). Vede, pois, peço-vos, se os religiosos de nosso tempo se vestem com essas roupas e se alimentam com esses alimentos. “Eis que os que se vestem com roupas macias estão nas casas dos reis.” Não digo religião, mas legião de demônios fez do deserto um palácio, do claustro um castelo, da solidão uma corte real. O religioso e o soldado partilham entre si uma veste do mesmo pano. Mas o habitante do deserto, o maior dos profetas, teve sua veste de pelos de camelo. Se o bem-aventurado João, anunciado pelo Anjo, santificado no ventre materno, louvado pelo Senhor — “Entre os nascidos de mulher” (Lc 7,28) —, e assim por diante, viveu com tamanha austeridade, que devemos fazer nós, concebidos no pecado, carregados de pecados e dignos de ser rejeitados pelo Senhor, se não intervier a misericórdia? Com quanta aflição, com quanta austeridade devemos afligir-nos? Portanto, no deserto da penitência haja pobreza no vestuário e austeridade no alimento, para que verdadeiramente possamos ser chamados religiosos, isto é, religados, afastados de todo prazer carnal.

20. À terceira cláusula corresponde a terceira parte da epístola: “O Deus da esperança” (Rm 15,13). Sobre ele diz Isaías: “Os que esperam no Senhor mudarão sua força, tomarão asas como as águias, correrão e não se cansarão, caminharão e não desfalecerão” (Is 40,31). “Os que esperam” não em si mesmos, mas “no Senhor”, que é o Deus da esperança, “mudarão sua força”, para serem fortes nele e fracos no mundo — “Esta é a mudança da direita do Altíssimo” (Sl 76,11) —; tomarão as asas da dupla caridade, com as quais voarão para o céu, como as águias. A águia, segundo os naturalistas, ao raspar contra uma pedra o bico, que se tornou recurvo pela extrema velhice, rejuvenesce. Assim, aqueles que mortificam a velhice do pecado por meio da pedra que é Cristo (cf. 1Cor 10,4), mortos para o mundo, renovam-se em Deus. “Renovar-se-á como a da águia a tua juventude” (cf. Sl 102,5). “Correrão” para alcançar o prêmio da felicidade eterna, “e não se cansarão”, porque para quem ama nada é difícil; “caminharão” de virtude em virtude “e não desfalecerão”, porque viverão eternamente.

“Encha-vos de toda alegria”; sobre isso diz Isaías: “Alegrai-vos com ela”, isto é, com Jerusalém, “todos vós que choráveis por ela, para que sugueis e vos sacieis do seio de sua consolação” (Is 60,10-11); “e de paz”, da qual diz Isaías: “Porei a visitação sobre ti como paz” (Is 60,17), “na fé”; donde Isaías: “Se não acreditardes, não permanecereis” (Is 7,9), “para que abundeis na esperança e na virtude do Espírito Santo” (Rm 15,13), donde Isaías: “Tornou-se uma fortaleza para o pobre, uma fortaleza para o necessitado em sua tribulação, uma esperança contra a tempestade”, isto é, a sugestão do diabo, “um abrigo contra o calor”, isto é, a tentação da carne (Is 25,4).

Todo religioso que estiver repleto destas três coisas, a saber, esperança, alegria e paz: de esperança quanto à pobreza, que espera somente em Deus; de alegria quanto à castidade, sem a qual não há alegria da consciência; de paz quanto à obediência, fora da qual ninguém terá paz, donde Isaías: “Não há paz para os ímpios, diz o Senhor” (Is 57,21); se estiver repleto delas, esteja certo de que abundará na esperança e na virtude do Espírito Santo, para habitar confiadamente no deserto da religião.

Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo que afaste de nós a agitação da cana e a suavidade das vestes, para que possamos habitar pobres, castos e obedientes no deserto da penitência.

Conceda-nos isso aquele que é digno de louvor, suave e amável, Deus bendito e bem-aventurado pelos séculos eternos. Diga toda religião pura e imaculada: Amém. Aleluia.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.