Evangelho do primeiro domingo do Advento, que se divide em quatro cláusulas:
“Haverá sinais no sol e na lua.”
Primeiramente, sermão aos penitentes ou religiosos, com estas palavras:
“Naquele dia haverá o rebento do Senhor.”
Também sobre a confissão, com estas palavras: “A glória do Líbano”; ou: “Naquele dia o Senhor raspará.”
[Da primeira cláusula.] Também sobre a Anunciação ou o Nascimento do Senhor, com estas palavras: “Vi o Senhor”, e também: “O oleiro sentado.”
Também sobre a Paixão do Senhor e suas cinco chagas, com estas palavras: “Haverá cinco cidades.”
Da segunda cláusula. Tema do sermão aos penitentes ou religiosos, com estas palavras: “Moisés, tomando o sangue.”
Também sermão aos religiosos de clausura, com estas palavras: “A glória do Líbano virá até ti”; e, sobre o mesmo tema: “No ano em que morreu o rei Ozias.”
Também contra os eloquentes e sábios deste mundo, com estas palavras: “Naquele dia o homem lançará fora”; e sobre a toupeira e o morcego.
Também aos penitentes, com estas palavras: “Levanta-te, levanta-te.”
Da terceira cláusula. Tema do sermão sobre o momento da morte ou para o sepultamento do defunto, com estas palavras: “Olhando para o alto.”
Também contra os luxuriosos e gulosos, com estas palavras: “Vós vos envergonhareis dos jardins.”
Da quarta cláusula. Tema do sermão sobre o dia do juízo e a condenação dos pecadores, com estas palavras: “A terra será totalmente quebrada”, e também: “Uivai, porque está próximo”, e também: “O Senhor, como um valente”, e também: “A espada do Senhor está cheia de sangue.”
1. Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas” (Lc 21,25) etc.
Diz Isaías: “Naquele dia haverá o rebento do Senhor em magnificência e glória, e o fruto da terra será sublime” (Is 4,2). Esta autoridade será exposta primeiro alegoricamente acerca do Verbo encarnado; depois, moralmente, acerca do pecador convertido.
“Naquele dia”, isto é, no tempo da graça, quando para os que estavam sentados nas trevas (cf. Mt 4,16) resplandeceu “o esplendor da luz eterna” (Sb 7,26), haverá — diz Isaías, com certeza profética — o rebento do Senhor, isto é, o Filho do Pai, que a bem-aventurada Maria, árvore da vida, produziu como um rebento em seu nascimento. Por isso, Isaías diz: “Derramai, ó céus, o vosso orvalho do alto.” A Glosa acrescenta: Venha Gabriel, envie-nos o orvalho, isto é, anunciando; “e as nuvens façam chover o Justo”, isto é, os profetas, irrigando os nossos corações com a chuva salutar, anunciem o nascimento de Cristo; “abra-se a terra”, isto é, Maria creia, “e” assim “faça germinar o Salvador” (Is 45,8). Ele foi “em magnificência” quanto à pregação e à realização de milagres, “e em glória” quanto à Ressurreição; e ele mesmo, “o fruto da terra”, isto é, da bem-aventurada Virgem, foi sublime quanto à Ascensão.
Sobre a magnificência dos milagres diz Isaías: “O próprio Deus virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então o coxo saltará como um cervo, e a língua dos mudos se abrirá” (Is 35,4-6). Sobre a glória da Ressurreição, falando dos apóstolos, diz o mesmo: “Eles verão a glória do Senhor e o esplendor do nosso Deus” (Is 35,2). Por isso, João diz: “Vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai” (Jo 1,14) etc. Sobre a sublimidade da Ascensão, o Pai diz em Isaías, falando do Filho: “Eis que o meu servo terá êxito; será elevado e exaltado, e será muito sublime” (Is 52,13). O Filho é chamado servo do Pai porque lhe foi obediente até a morte.
2. Moralmente. “Naquele dia” etc. O dia é o sol que resplandece sobre a terra. Quando o sol da graça ilumina a terra, isto é, a mente do pecador, ela produz de si o rebento do Senhor, no qual é figurada a contrição. Por isso, Isaías diz: “Desce do céu a chuva e a neve, embebe e inebria a terra, faze-a germinar, e ela dá semente ao semeador e pão ao que come” (Is 55,10). Na chuva e na neve é figurada a graça do Espírito Santo. Sobre a neve, procura no sermão do Evangelho: “Jesus tomou consigo Pedro” (“Dom. II da Quaresma, II”) etc.
A graça, à semelhança da chuva e da neve que descem do céu, isto é, da misericórdia divina, desce e inebria a terra, isto é, o pecador apegado às coisas terrenas, para que se torne insensível a elas, se arrependa até às lágrimas e desvele o segredo de seu pecado. Com efeito, a embriaguez produz estes três efeitos: torna insensível, provoca lágrimas e revela os segredos. “E a impregna” do espírito de pobreza, do qual Isaías diz: “Seja derramado sobre nós um espírito do alto” (Is 32,15), para que não se acenda nela, como diz Jó, a sede da cobiça (cf. Jó 18,9). “E a faz germinar” de modo magnífico, o que acontece quando o pecador se arrepende absolutamente de todas as faltas cometidas e de todas as omissões; então “dá a semente” das boas obras “ao semeador”, isto é, ao penitente que semeia entre lágrimas, “e o pão ao que come”, porque colherá na alegria (cf. Sl 125,5). “Naquele dia”, portanto, “o rebento do Senhor estará em magnificência.”
Segue-se: “E em glória.” Do rebento da contrição brota a glória da confissão, da qual Isaías diz à alma penitente: “Foi-lhe dada a glória do Líbano, a beleza do Carmelo e de Saron” (Is 35,2). Líbano interpreta-se candidez; Carmelo, circuncisão; e Saron, canto de tristeza. A confissão produz estes três efeitos: torna cândida a alma, elimina as coisas supérfluas, e, chorando, chora e entoa um canto: “Triste está a minha alma até à morte” (Mt 26,38). “Pois a mulher, quando dá à luz, sente tristeza” (Jo 16,21).
Sobre a purificação da alma dos pecados, diz Isaías: “O Senhor lavará as imundícies das filhas de Sião e limpará o sangue do interior de Jerusalém, com o espírito do juízo e o espírito do ardor” (Is 4,4). Nas imundícies é indicada a impureza dos pensamentos; por isso, Jeremias diz: “As suas imundícies estão nos seus pés” (Lm 1,9), isto é, nos afetos; no sangue é designada a luxúria da carne. O Senhor lava tais imundícies das filhas, isto é, das almas de Sião, isto é, da Igreja, “com o espírito do juízo”, ou seja, da confissão, pela qual o penitente julga e condena a si mesmo; “e com o espírito do ardor”, isto é, da contrição, pela qual a alma, inflamada, se derrama em lágrimas de compunção.
Sobre as coisas supérfluas que devem ser cortadas na confissão, diz Isaías: “Naquele dia o Senhor rapará, com uma navalha afiada”, ou alugada, “os que estão além do rio: a cabeça, os pelos dos pés e toda a barba” (Is 7,20). A navalha, chamada em latim “novacula”, porque torna o homem novo, é a confissão, que renova o espírito do homem. Por isso, Jeremias diz: “Lavrai para vós um campo novo e não semeeis sobre espinhos” (Jr 4,3), “para que, ao nascerem, não sufoquem” (cf. Lc 8,7) a palavra da confissão. Esta navalha é chamada afiada ou alugada: afiada, porque corta o pecado e as circunstâncias do pecado; alugada, porque o pecador, na obra de sua salvação, deve alugá-la com devoção e humildade, como se fosse mediante certa paga. Com esta navalha, “o Senhor rapa a cabeça” etc. “dos que estão além do rio”, isto é, dos que atravessaram o rio, ou seja, receberam o Batismo. Na cabeça e nos pés são designados o princípio e o fim da vida; na barba, a firmeza da boa obra. Com o corte penetrante da verdadeira confissão, o Senhor raspa no penitente os vícios, significados pelos pelos, desde o princípio de sua conversão até o fim de sua vida. Também raspa toda a barba, para que não confie em nenhuma boa obra que tenha feito, como se ele mesmo a tivesse realizado. Com efeito, devemos confiar somente naquele que nos fez, e não naquilo que nós fizemos. Aquele que nos fez é todo o Bem, o sumo Bem; o bem que nós fizemos, porém, é como o pano de uma mulher menstruada (cf. Is 64,6). Distingue, portanto, tu mesmo em qual bem se deve confiar. Unicamente no bom Senhor Jesus, a quem o Profeta diz: “Bom és tu, Senhor” (Sl 118,68).
Do mesmo modo, sobre o canto de tristeza, diz Isaías: “Subirá chorando pela subida de Luíth, e pelo caminho de Coronaim levantarão gritos de arrependimento” (Is 15,5). Procura acima (“Dom. X depois de Pentecostes, III”).
Segue-se, na autoridade citada: “E o fruto da terra será sublime.” O fruto da terra é a satisfação, isto é, a obra penitencial. Por isso, Isaías diz: “E todo este fruto consiste em que seja retirado o seu pecado” (Is 27,9). O fruto da penitência é sublime quando o penitente é humilde e se humilha diante do verdadeiro Sol, humilde e sublime, isto é, Cristo, que se dignou velar o esplendor de sua luz com o cilício de nossa condição mortal. Por isso, diz o Evangelho de hoje: “Haverá sinais no sol” etc.
3. Considera que são quatro as “vindas” do Senhor.
A primeira vinda foi na carne, e dela se diz: “Eis que virá o grande Profeta: ele renovará Jerusalém” (Liturgia do I Domingo do Advento, 5ª antífona das Laudes).
A segunda vinda realiza-se na mente; com efeito, está escrito: “Iremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).
A terceira vinda se verificará no momento da morte; está escrito: “Feliz aquele servo que o Senhor, ao voltar, encontrar trabalhando” (Lc 12,43).
A quarta vinda se cumprirá na glória; lemos no Apocalipse: “Eis que virá sobre as nuvens, e todo olho o verá” (Ap 1,7).
Estas quatro vindas são indicadas nas quatro primeiras palavras deste santo Evangelho; considerá-las-emos uma por uma.
No intróito da missa de hoje canta-se: “A ti, Senhor, elevo a minha alma” (Sl 24,1), e lê-se a passagem da carta do bem-aventurado Paulo aos Romanos: “Sabeis que já é hora de despertarmos do sono” (Rm 13,11). Compararemos esta passagem da carta aos Romanos com a primeira vinda e também com a segunda, aquela que acontece na mente. O intróito da missa, porém, compará-lo-emos com a terceira e a quarta vindas.
Consideremos, antes de tudo, a primeira vinda.
4. “Haverá sinais no sol e na lua.” O sol, assim chamado porque brilha sozinho, é Jesus Cristo, que sozinho habita uma luz inacessível (cf. 1Tm 6,16); em comparação com o seu esplendor, isto é, com a sua santidade, todo o esplendor dos santos sofre diminuição. Por isso, Isaías diz: “Tornamo-nos todos imundos”, isto é, leprosos, “e toda a nossa justiça é como um pano de mulher menstruada” (Is 64,6). Este sol, como se diz no Apocalipse, “tornou-se negro como um saco de crina” (Ap 6,12). Com efeito, Cristo cobriu a luz da sua divindade com o saco da nossa humanidade: “Vesti”, diz ele, “uma veste de cilício” (Sl 68,12). E que relação há entre ti e o cilício, ó Filho de Deus? Com tal veste deve cobrir-se não Deus, mas o réu; não o Criador, mas, com toda a razão, o pecador. É a veste daquele que faz penitência, não daquele que perdoa os pecados. Que relação há, portanto, entre ti e o cilício? Muita, e absolutamente necessária ao homem pecador, porque: “Arrependo-me de ter feito o homem” (cf. Gn 6,7), isto é, a pena me aflige por causa do homem. Por isso, em Isaías: “Fizeste-me servir pelos teus pecados, causaste-me fadiga com as tuas iniquidades” (Is 43,24); e ainda: “Cansei-me de suportá-los” (Is 1,14).
“Portanto, o sol tornou-se negro como um saco de cilício.” Sob o cilício da carne, com efeito, escondeu-se o esplendor da luz eterna (cf. Sb 7,26). Dele diz Isaías: “És o Deus da vida, e fora de ti não há Deus. Verdadeiramente, tu és um Deus oculto, Deus de Israel, Salvador” (Is 45,14-15); e ainda: “Como um rosto oculto” (Is 53,3). E diz muito bem: “oculto”; pois o anzol da divindade ficou escondido sob a isca da humanidade, para que, como diz Isaías, matasse o cetáceo, isto é, o diabo, que está no mar (cf. Is 27,1), isto é, neste mundo salgado e amargo. Por isso, Jó: “Aos seus olhos, Beemot será apanhado quase com um anzol” (Jó 40,19). O humilde captura o soberbo; o nosso Infante, a serpente antiga. Por isso, Isaías: “O lactente brincará sobre a toca da áspide, e na caverna do basilisco o desmamado porá a mão” (Is 11,8). O nosso Infante, envolto em faixas e reclinado no presépio (cf. Lc 2,7.12), com a mão do seu poder arrancou a áspide e o basilisco, isto é, o diabo, do buraco ou da caverna, isto é, da consciência dos pecadores.
“Portanto, o sol tornou-se negro como um saco de cilício.” Ó Primeiro! Ó Último! Ó Sublime! Ó Humilde e desprezado! “E nós”, diz Isaías, “consideramo-lo como um leproso, ferido por Deus e humilhado” (Is 53,4).
5. Sobre a sua humildade, há ainda uma concordância no mesmo livro: “Vi”, diz ele, “o Senhor sentado sobre um trono excelso e elevado” (Is 6,1). Observemos o que significam o estar sentado do Senhor, o trono, o excelso e o elevado.
O estar sentado do Senhor é o humilde abaixamento da divindade na humanidade. Por isso, diz o Eclesiástico: “O oleiro, sentado ao seu trabalho, move com os pés a roda, sempre aplicado à sua obra” (Eclo 38,32). O “oleiro” é o Filho de Deus, do qual diz o salmo: “Ele plasmou, um por um, os seus corações” (Sl 32,15). Ele “sentou-se”, isto é, humilhou-se na carne, “para”, isto é, por causa de, “a sua obra”, isto é, a nossa salvação. Por isso, Isaías: “Para realizar a sua obra, a sua obra lhe é estranha; para executar a sua obra, ela lhe é alheia” (Is 28,21). A esse respeito, diz Gregório: Ele virá ao mundo para realizar a sua obra: redimir o gênero humano; mas essa obra lhe é estranha, pois não convém à sua divindade ser coberto de cusparadas, ser flagelado e ser crucificado. Com os pés da sua humanidade, ele fez girar para a vida a roda da nossa natureza, que antes corria para a morte, para que àquele a quem antes fora dito: “Tu és terra e à terra voltarás” (cf. Gn 3,19), agora se diga: “Serás feliz e tudo te irá bem” (Sl 127,2). Quanto tenha estado sempre solícito, durante trinta e três anos, para levar a cabo a sua obra, os Evangelhos o testemunham de maneira bastante clara. Por isso, diz no salmo: “Corri” (Sl 61,5). Com tanto desejo corria para a cruz, como o oleiro para a fornalha, para ali consolidar e consumar a sua obra, que não respondia a Pilatos, para que de modo algum se retardasse a obra da nossa salvação.
6. “O trono” etc. Trono, em latim solium, é assim chamado, por assim dizer, de solidum; é a humanidade do próprio Cristo, que, apoiada em sete colunas, mostrou-se firme e sólida em todos os aspectos. Por isso, Isaías: “Naquele dia, sete mulheres agarrarão um só homem, dizendo: ‘Comeremos o nosso pão e nos cobriremos com as nossas vestes; apenas seja invocado sobre nós o teu nome: tira de nós a nossa vergonha’” (Is 4,1). As sete mulheres são os sete dons do Espírito Santo, que são chamados mulheres porque ninguém é gerado para Deus senão pelo Espírito. O homem é Cristo — um só, isto é, o único sem pecado —, a quem os sete dons agarrarão, para segurá-lo firmemente e não o deixar. Todos os [homens] passam até Cristo; a nenhum agarram. Com efeito, não há homem que não peque. Em todos os outros, o espírito da tribulação tem hospedagem, não morada de repouso. Ele esteve nos profetas e nos demais justos, mas, porque eram homens e, portanto, pecadores, esteve neles, mas neles não permaneceu. Por isso, somente de Cristo se diz em João: “Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer, esse é quem batiza” (Jo 1,33).
“Agarrarão”, portanto, “um só homem, dizendo: ‘O nosso pão’” etc. Diz a Glosa: Quem tem pão e vestes não precisa de mais nada. “Comeremos o nosso pão e nos cobriremos com as nossas vestes”, o que significa: possuir tudo com o Espírito Santo, juntamente com o Pai e o Filho, e não precisar de coisa alguma. “Apenas seja invocado sobre nós o teu nome.” Isto é: sejam chamados cristãos por ti aqueles que desejam desfrutar da nossa morada. “Tira de nós a nossa vergonha”, para que, expulsos do coração dos homens pelo fedor dos vícios, não sejamos mais obrigados a mudar de morada com tanta frequência.
7. A humanidade de Jesus Cristo, portanto, na qual a divindade se sentou como num trono, isto é, na qual se humilhou, foi excelsa e elevada. Foi excelsa pela incomparável santidade de sua vida. Por isso, em João: “Aquele que vem do alto está acima de todos” (Jo 3,31), pela excelência da vida. Por isso, Isaías diz dele: “Comerá manteiga e mel, até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem” (Is 7,15).
Observa que do leite de ovelha se fazem duas coisas: manteiga e queijo. A manteiga é doce e gorda; o queijo, árido e seco. A ovelha foi Adão, cuja natureza, antes do pecado, era como manteiga, isto é, inocente e pura; depois do pecado, tornou-se como queijo árido e seco. Por isso: “Maldita seja a terra”, isto é, a tua carne, “por causa da tua obra. Ela produzirá para ti espinhos e cardos” (Gn 3,17-18). Quando, portanto, veio o Emanuel, que a Virgem concebeu e deu à luz, não comeu queijo, mas manteiga, porque não recebeu uma carne corrompida ou sujeita ao vício, mas uma carne puríssima da carne da Virgem puríssima. Comeu também mel, que cai do alto, e nele é figurada a suprema perfeição de sua vida.
Do mesmo modo, a humanidade de Cristo foi elevada, isto é, erguida no patíbulo da cruz. Por isso, em João: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32), com o anzol da cruz, na qual o nosso sol foi coberto com o cilício e marcado com cinco sinais. Por isso se diz: “Haverá sinais no sol”.
8. Os “sinais no sol” foram as cinco chagas no corpo de Cristo. Elas são “as cinco cidades na terra do Egito, que falam a língua de Canaã. Uma será chamada Cidade do Sol” (Is 19,18). O Egito interpreta-se como tristeza ou trevas. A terra do Egito é a carne de Cristo, que esteve na tristeza; por isso, aos Hebreus: “Oferecendo com lágrimas e forte clamor” (Hb 5,7); e nas trevas: “Colocou-me em lugares tenebrosos, como os mortos de outrora” (Sl 142,3). Nessa terra houve cinco cidades, isto é, cinco chagas, que são cidades de refúgio; quem quer que nelas se refugie será libertado da morte. Foge, portanto, foge para as cidades fortificadas; fora delas, quem for encontrado será morto. Por isso se diz no Gênesis que toda carne encontrada fora da arca foi destruída pelas águas do dilúvio (cf. Gn 7,21-23). Somente na arca, portanto, está a vida. Foge, pois, para ela, como fez Rute, a quem Booz disse, no mesmo livro: “Receberás plena recompensa do Senhor, Deus de Israel, para o qual vieste e sob cujas asas te refugiaste” (Rt 2,12). Com os braços estendidos na cruz, como se fossem duas asas, Cristo acolhe os que se refugiam nele e os esconde, no esconderijo de suas chagas, da perturbação dos demônios.
Segue-se: “Que falam a língua de Canaã”, que se interpreta como “mudada”. Com efeito, as chagas de Jesus Cristo, como que por meio de uma linguagem mudada, falam de nós ao Pai, não para pedir vingança, mas misericórdia. Por isso, o Apóstolo aos Hebreus: “Aproximastes-vos do mediador da nova aliança, Jesus, e do sangue da aspersão, que fala melhor que o de Abel” (Hb 12,22.24). O sangue de Abel clama por vingança; o sangue de Cristo, por misericórdia. Por isso, o bem-aventurado Bernardo: Ó homem, tens seguro acesso a Deus, pois diante do Filho tens a Mãe, e diante do Pai, o Filho. A Mãe mostra ao Filho o peito e os seios; o Filho mostra ao Pai o lado e as chagas. Portanto, não haverá rejeição onde se apresentam tantos sinais de amor.
Segue-se: “Uma será chamada Cidade do Sol”. A chaga do lado é a Cidade do Sol. Com a abertura do lado do Senhor, foi aberta a porta do paraíso, pela qual resplandeceu para nós o esplendor da luz eterna. Diz-se na História Natural que o sangue retirado do lado da pomba limpa a mancha do olho; assim também o sangue tirado do lado de Cristo pela lança do soldado iluminou os olhos do cego de nascença, isto é, do gênero humano.
9. A este primeiro advento corresponde a primeira parte da epístola de hoje: “Já é hora de despertarmos do sono” (Rm 13,11). Assim como no último advento “a trombeta soará e os mortos ressuscitarão” (1Cor 15,52), também no primeiro advento soa a trombeta da pregação: “Já é hora” etc. Esta hora é o ano da benevolência, o tempo da plenitude, no qual Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei (cf. Gl 4,4). Despertemos, portanto, do sono, isto é, do amor às coisas temporais, das quais Isaías diz: “Vendo coisas vãs, dormem e amam os sonhos” (Is 56,10), isto é, as coisas temporais, que fecham os olhos do coração à contemplação das realidades eternas. As fantasias das coisas temporais, que iludem os que dormem, são dissipadas na primeira hora do dia, quando nasce o sol. O “saco de crina”, o pobre paninho com que foi envolvido, o lugar desprezível da manjedoura em que foi reclinado, convidam-nos a despertar do sono e a expulsar as fantasias. “Já é hora”, portanto, “de despertarmos do sono”.
Mas ai de nós, porque nesta única hora não podemos, pois não queremos, vigiar com o Senhor. O Senhor vigiou; por isso, Jeremias: “Vejo uma vara vigilante” (Jr 1,11). Jesus Cristo foi uma vara flexível pela obediência e pela humildade, delgada pela pobreza; nessas virtudes vigiou, mas nós não queremos vigiar com ele. Os homens das riquezas dormiram o seu sono (cf. Sl 75,6); mas as riquezas dos homens, isto é, a humildade e a pobreza dos justos, vigiam com o Senhor e, por isso, podem verdadeiramente dizer o que segue: “Agora a nossa salvação está mais próxima do que quando cremos” (Rm 13,11). É isso que Salomão diz nos Provérbios: “A vereda dos justos é como uma luz resplandecente, que avança e cresce até o dia perfeito” (Pr 4,18). “Luz resplandecente”: eis o “quando cremos”; “até o dia perfeito”: eis o “a nossa salvação está mais próxima”. A luz resplandecente esteve na encarnação do Verbo, da qual nasceu a fé; o dia perfeito, em sua Paixão, pela qual a salvação se tornou mais próxima. Com efeito, de que nos teria aproveitado nascer, se não nos tivesse aproveitado ser redimidos? (Missal Romano, “Sábado Santo”: Precônio pascal).
Supliquemo-lhe, portanto, ó caríssimos irmãos, que, tendo-se coberto por nós de saco de crina no primeiro advento e tendo-se marcado com os sinais da Paixão para interceder por nós, nos faça ressurgir do sono e vigiar com ele, para que mereçamos possuir a herança da salvação eterna em seu último advento. Por ele, que é bendito pelos séculos. Amém.
10. Segue-se a respeito do segundo advento. “E a lua.” Os sinais na lua são aqueles de que fala João no Apocalipse: “A lua inteira se tornou como sangue” (Ap 6,12); e Joel: “A lua se converterá em sangue” (Jl 2,31). Deus fez dois luzeiros: o maior e o menor (cf. Gn 1,16), isto é, duas criaturas racionais. O luzeiro maior é o espírito angélico; o luzeiro menor é a alma humana. Por isso se diz lua, como se fosse “uma entre os luzeiros”. Com efeito, a alma humana foi criada para que, conhecendo as coisas celestes, como um desses espíritos bem-aventurados, louvasse o Criador e exultasse com os filhos de Deus (cf. Jó 38,7); mas, pela excessiva proximidade da terra, contraiu negrura e perdeu o brilho. Por isso, se quer recuperá-lo, é necessário que primeiro se transforme toda em sangue.
O sangue é a contrição do coração, da qual o Apóstolo diz aos Hebreus: “Moisés, tendo tomado sangue com água, lã escarlate e hissopo, aspergiu o próprio livro e todo o povo, dizendo: Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para nós. Aspergiu também de modo semelhante, com sangue, o tabernáculo e todos os vasos do ministério; tudo é purificado com sangue, e sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,19-22). Eis de que modo a lua inteira se tornou como sangue. Vejamos o que significam moralmente Moisés, o sangue, a água, a lã escarlate e o hissopo, o livro e o povo, o tabernáculo e seus vasos.
Quando Jesus Cristo, misericordioso e compassivo, vem à mente do pecador, então Moisés toma o sangue etc. Moisés é o próprio pecador já convertido, retirado das águas do Egito, que deve acolher estas quatro coisas, a saber: o sangue da dolorosa contrição, a água da confissão acompanhada de lágrimas, a lã da inocência, escarlate pela correção fraterna, e o hissopo da verdadeira humildade. Com essas coisas deve aspergir o livro, isto é, o segredo de seu coração, e todo o povo de seus pensamentos, e o tabernáculo, isto é, seu corpo, e todos os seus vasos, isto é, os cinco sentidos. No sangue da contrição, tudo é purificado, tudo é perdoado, contanto que haja o propósito de confessar-se. Sem o sangue da contrição, porém, não há remissão do pecado.
11. Digamos, portanto: “Haverá sinais na lua.” Pelos sinais exteriores do penitente conhecem-se os sinais interiores da contrição. Quando resplandecerem no corpo a castidade, na conduta a humildade, na alimentação a abstinência e no vestuário a modéstia, serão indícios da santificação interior. Por isso, acerca dessas quatro coisas, Deus promete à alma penitente, por Isaías: “A glória do Líbano virá a ti: o abeto, o buxo e o pinheiro juntos, para ornamentar o lugar da minha santificação” (Is 60,13). A glória do Líbano é a castidade do corpo, da qual a alma se gloria no Eclesiástico: “Como um cedro, elevei-me no Líbano” (Eclo 24,17), que se interpreta “brancura”.
O cedro, com seu odor, afugenta as serpentes. No Líbano, portanto, isto é, no corpo casto, a alma se eleva como um cedro, porque, pelo odor da santa conduta, afugenta as serpentes da sugestão demoníaca e da concupiscência carnal. Sobre isso, novamente, Isaías: “Sobre toda a glória”, diz ele, “haverá proteção” (Is 4,5). Onde há a glória da castidade, aí há a proteção da misericórdia divina, que conserva todas as obras.
Do mesmo modo, o abeto, assim chamado porque se eleva mais alto que as outras árvores, significa a humildade, que se eleva acima de todas as virtudes. Por isso, tens acerca dela uma concordância em Isaías: “No ano em que morreu o rei Ozias, vi o Senhor sentado sobre um trono excelso e elevado; e a casa estava cheia da sua majestade, e as coisas que estavam sob ele enchiam o templo” (Is 6,1). O rei Ozias, soberbo e leproso, significa o vício da soberba; quando este morre no homem, o Senhor senta-se sobre um trono. A alma do justo é sede da sabedoria. Com efeito, na alma, elevada pela humildade e erguida das coisas terrenas à contemplação das eternas, repousa o Senhor; e então a casa dos cinco sentidos se enche da sua majestade. Todos os membros estão em repouso quando o Senhor repousa na mente. Por isso, o Senhor diz em Isaías: “O meu povo”, quando eu me sentar nele, “sentar-se-á na beleza da paz”, quanto à honestidade da vida, “e nas tendas da confiança”, quanto à firmeza da consciência, “e no repouso opulento” (Is 32,18), quanto às riquezas da boa fama. Em seguida, acrescenta-se: “E as coisas que estavam sob ele enchiam o templo.” Quando o Senhor repousa em nossa mente, tudo o que fazemos está sob ele, porque é feito com humildade; e isso enche o templo, isto é, edifica o próximo.
Do mesmo modo, o buxo é de cor verde-pálida e, por isso, significa a abstinência de comida e bebida. Sobre ela, Isaías: “O Senhor te dará pão escasso e água pouca” (Is 30,20); e novamente: “Os filhotes dos jumentos”, isto é, os penitentes, “que trabalham a terra”, isto é, afligem a própria carne, “comerão uma mistura” (Is 30,24). A mistura é cevada com palha, na qual se designa a rudeza dos alimentos.
Do mesmo modo, o pinheiro, do qual se extrai a resina, significa a pobreza do vestuário: o ventre vazio e o traje pobre suplicam a Deus com grande devoção. Devemos reparar o excesso dos prazeres passados e das vestes luxuosas com a escassez do alimento e a pobreza do vestuário, para que, como diz Isaías, “em lugar de perfume suave haja mau odor, em lugar de cinto uma corda, em lugar de cabelos frisados calvície, e em lugar de faixa sobre o peito um cilício” (Is 3,24).
Essas quatro coisas acima mencionadas ornamentam o lugar da santificação do Senhor, isto é, a alma do penitente, na qual o Senhor repousa. Por isso, ele também diz: “Viremos a ele e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23).
12. A este segundo advento corresponde a segunda parte da epístola: “A noite avançou, e o dia se aproximou” (Rm 13,12). É isto que diz Isaías: “O antigo erro passou; conservarás a paz; a paz, porque em ti esperamos, Senhor” (Is 26,3). A noite e o erro do pecado significam a cegueira; o dia e a paz, a iluminação da graça. A repetição de “paz” significa a quietude interior e exterior que o homem possui quando o Senhor se senta sobre um trono excelso e elevado.
Segue-se: “Rejeitemos, pois, as obras das trevas” (Rm 13,12). É isto que diz Isaías: “Naquele dia o homem lançará fora os ídolos de sua prata e as imagens de seu ouro, que fizera para si a fim de adorá-los: as toupeiras e os morcegos” (Is 2,20). Observa que na prata é designada a eloquência; no ouro, a sabedoria; nas toupeiras, a avareza; nos morcegos, a vanglória. Com efeito, a toupeira, privada de olhos, escava a terra; o morcego não vê durante o dia, porque carece do humor cristalino e tem as asas atadas aos pés. O homem carnal, que conhece somente as coisas da terra, fabrica para si, com a prata da eloquência e o ouro da sabedoria, ídolos, isto é, toupeiras da avareza e morcegos da vanglória, que são as obras das trevas. A avareza, privada da luz da santa pobreza, escava a terra e ama as coisas terrenas. A vanglória, enquanto agrada ao dia humano, não vê o dia divino; pois tem as asas, isto é, as obras com que poderia voar para o céu, atadas aos pés, isto é, aos afetos carnais; com efeito, deseja ser vista e louvada pelos homens. Ai! Quantos pregadores e prelados do nosso tempo, com a eloquência e a sabedoria que Deus lhes concedeu, fabricam para si ídolos e os adoram. Procuram enriquecer-se, ser honrados, ser chamados rabis e ser saudados nas praças (cf. Mt 23,7).
Mas, naquele dia, isto é, na iluminação da graça, da qual foi dito: “o dia se aproximou”, o homem lança fora as toupeiras e os morcegos, que não veem a luz e, por isso, significam as obras das trevas; e então se cumpre o que vem a seguir: “e revistamo-nos das armas da luz” (Rm 13,12).
13. É isto que diz Isaías: “Levanta-te, levanta-te, reveste-te de tua fortaleza, Sião; reveste-te das vestes de tua glória, Jerusalém, cidade do Santo” (Is 52,1). Sião e Jerusalém significam a alma que, quando peca, se torna cativa e se submete ao diabo; quando faz penitência, é elevada e se levanta. Levanta-te, pois, pela contrição; levanta-te pela confissão; reveste-te da fortaleza da perseverança final; reveste-te das vestes de tua glória, isto é, da dupla caridade, e assim serás a cidade do Espírito Santo.
Segue-se: “Caminhemos honestamente, como em pleno dia” (Rm 13,13). A respeito disso, Isaías diz: “A glória do Senhor será vista em ti, e as nações caminharão na tua luz, e os reis no esplendor do teu nascer” (Is 60,1.2-3). As nações são os sentidos do corpo; os reis, os afetos da mente. Aqueles caminham então na luz de uma conduta honesta, e estes no esplendor da pureza, quando a alma do homem é iluminada pela glória do Senhor.
Segue-se: “Não em comezainas e bebedeiras” (Rm 13,13). A respeito delas, Isaías diz: “Foram absorvidos pelo vinho por causa da embriaguez; erraram em sua embriaguez; não conheceram aquele que vê”, isto é, Deus, que tudo vê; “ignoraram o juízo. Com efeito, todas as mesas estão cheias de vômito e de imundície, de modo que já não havia lugar” (Is 28,7-8). “Não em leitos e impudicícias” (Rm 13,13). Daí Isaías: “Será a toca dos dragões e o pasto dos avestruzes” (Is 34,13) etc. Procura no Evangelho: “Jesus foi conduzido ao deserto” (“Dom. I in Quadrag., II”).
“Não em contendas e rivalidades” (Rm 13,13). Daí Isaías: “Cada um devorará a carne de seu próprio braço” (Is 9,20), isto é, enfurecer-se-á contra o próximo, contendendo e invejando: “Manassés contra Efraim”, isto é, os leigos contra os clérigos, “e Efraim contra Manassés”, isto é, os clérigos contra os leigos; “eles juntos contra Judá” (Is 9,20), isto é, contra os religiosos. “Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14). Daí Isaías: “Revestiu-me com as vestes da salvação”, isto é, das virtudes, “e envolveu-me com o manto da justiça”, isto é, com Jesus Cristo (Is 61,10). “Pois todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27).
A ele, irmãos caríssimos, supliquemos devotamente que converta a lua, isto é, transforme toda a nossa alma em sangue de contrição, para que, rejeitando as obras das trevas, mereçamos caminhar em pleno dia e revestir-nos dele, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
14. Segue-se acerca do terceiro advento: “E nas estrelas.” Os sinais nas estrelas são aqueles de que fala João no Apocalipse: “As estrelas caíram do céu sobre a terra, como quando uma figueira, sacudida por um grande vento, deixa cair os seus figos verdes” (Ap 6,13). Isaías fala do homem que sofre no transe da morte: “Olhará para o alto e fixará os olhos na terra: e eis tribulação e trevas, extenuação, angústia e uma escuridão perseguidora; e não poderá escapar de sua angústia” (Is 8,21-22). No transe da morte há a tribulação da enfermidade, as trevas nos olhos, que então, como se diz, ficam privados da luz; a dissolução dos membros, a angústia da morte e a escuridão perseguidora, isto é, o temor da geena, ou a presença do diabo, que maquina apoderar-se da alma prestes a sair do corpo. Ai! Miserável homem: quer olhe para o alto, quer fixe os olhos na terra, não poderá escapar de sua angústia sem cair por terra e retornar à terra. Por isso Isaías: “Caiu, caiu Babilônia”, isto é, a carne do homem, “e todos os seus ídolos”, isto é, os prazeres de seus sentidos, “foram despedaçados por terra” (Is 21,9), porque és terra e à terra retornarás (cf. Gn 3,19). Eis, portanto, o que se diz: “as estrelas”, isto é, os homens vivos, “caíram do céu”, isto é, do firmamento, ou seja, de seu estado, no qual acreditavam permanecer mais firmemente e viver por mais tempo sobre a terra, da qual foram criados.
“Como a figueira” etc. A figueira é a natureza humana que, quando é sacudida pelo grande vento da morte, deixa cair os seus figos verdes, isto é, perde os sentidos e os membros, e assim se torna impotente. Esses são os sinais nas estrelas. Feliz, portanto, será aquele servo que, quando vier o Senhor e bater à porta, encontrar vigilante (cf. Lc 12,36-37).
15. Feliz aquele que, na hora de sua morte, puder cantar o que se canta no intróito da missa de hoje: “A ti elevei a minha alma” (Sl 24,1). É isto que diz Isaías: “Eleva-te, eleva-te, levanta-te, Jerusalém!” (Is 51,17). Ó alma, eleva-te das seduções de tua carne, eleva-te da cobiça do mundo, levanta-te para as alegrias eternas. No transe da morte estará seguro aquele que assim tiver elevado sua alma a Deus.
“Meu Deus, em ti confio” (Sl 24,2). É isto que diz Isaías: “E acontecerá naquele dia: o restante de Israel não mais se apoiará naquele”, isto é, no assírio, ou seja, no diabo, “que os fere, mas se apoiará no Senhor, o Santo de Israel” (Is 10,20). “Em ti”, diz ele, “confio”, não na carne, não no mundo. Sobre essa confiança diz Isaías: “Eis que confias nesta cana quebrada, no Egito; se um homem nela se apoiar, ela entrará em sua mão e a perfurará” (Is 36,6). A abundância do mundo e a saúde do corpo são como uma cana que tem a raiz no lodo, vazia por dentro e bela por fora. Essa cana, se o homem nela se apoia, quebra-se na morte; quebrada, fere a alma, que, ferida, cai na geena.
Segue-se: “Não me envergonharei” (Sl 24,2). Verdadeiramente, verdadeiramente, aquele que, enquanto vive, confia no Senhor não se envergonha na hora da morte, mas, exultando, diz com Isaías: “Regozijar-me-ei sobremaneira no Senhor, e minha alma exultará em meu Deus” (Is 61,10). Ao contrário, Isaías ameaça os que confiam no mundo: “Sereis envergonhados por causa dos jardins que escolhestes. Quando fordes como carvalhos cujas folhas caem e como um jardim sem água, então a vossa força será como uma brasa de estopa, e a vossa obra como uma fagulha; ambas serão incendiadas, e não haverá quem apague” (Is 1,29-31). No fim de sua vida, os carnais se envergonharão dos jardins da gula e da luxúria que escolheram para si enquanto viviam. Estarão nus e secos “como o carvalho cujas folhas caem”, isto é, sem riquezas e delícias; e “como um jardim sem água”, porque todo prazer cessará. Com efeito, pelos canais dos sentidos já não correrá a água do prazer mundano para embriagar a concupiscência da carne. E então “a sua força”, isto é, a sua soberba, na qual confiavam, “será como uma brasa de estopa”, porque se consumirá muito depressa; “e a sua obra como uma fagulha”, isto é, de nenhum valor; “e ambas serão incendiadas” pelos demônios, isto é, a força da soberba e a obra da avareza, “e não haverá quem apague”. Por isso Isaías: “O verme deles não morrerá, e o fogo não se extinguirá” (Is 66,24).
Segue-se: “Nem zombem de mim os meus inimigos” (Sl 24,3). Dessa zombaria fala Jeremias nas Lamentações: “Bateram palmas contra ti todos os que passavam pelo caminho; assobiaram e moveram a cabeça contra a filha de Jerusalém: ‘É esta a cidade’, diziam, ‘de beleza perfeita, alegria de toda a terra?’ Abriram a boca contra ti todos os teus inimigos; assobiaram, rangeram os dentes e disseram: ‘Vamos devorá-la; eis o dia que esperávamos: nós o encontramos e o vimos’” (Lm 2,15-16).
Dessa zombaria estarão seguros, no fim de sua vida, aqueles que confiaram no Senhor; a eles ele promete por Isaías: “Saireis com alegria”, isto é, do corpo, “e sereis conduzidos em paz” à pátria celeste. “Os montes”, isto é, os anjos, “e as colinas”, isto é, os apóstolos, “cantarão diante de vós louvor, e todas as árvores da região”, isto é, as almas dos santos, “baterão palmas” (Is 55,12) por causa de vossa companhia, exultando e louvando juntamente convosco o Filho de Deus.
A ele, caríssimos irmãos, peçamos devotamente que, quando chegar o último dia e o fim de nossa vida, nos livre da zombaria dos demônios e faça com que saiamos na alegria e sejamos conduzidos em paz pelas mãos dos anjos. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
16. Segue-se acerca do quarto advento. “E haverá na terra consternação dos povos” (Lc 21,25). Sobre essa consternação diz Isaías: “A terra será inteiramente quebrada, a terra será totalmente despedaçada, a terra estremecerá com grande abalo, a terra vacilará como um embriagado” (Is 24,19-20). Assim como o embriagado não sabe o que faz, também todos os que estão na terra ficarão embriagados pela grandeza dos males e atônitos diante de tudo. A terra, aqui mencionada quatro vezes, significa quatro espécies de pecadores: os soberbos, os luxuriosos, os avarentos e os iracundos. Os soberbos serão despedaçados; por isso: “O Senhor quebrará as mandíbulas dos leões” (Sl 57,7). Os luxuriosos serão esmagados; por isso Jeremias: “O Senhor os esmagará com duplo esmagamento” (Jr 17,18), para que aqueles que pecaram na alma e no corpo sejam punidos em ambos. Os avarentos serão abalados; por isso Jó: “Serão como palha diante da face do vento e como a fagulha que o turbilhão dispersa” (Jó 21,18). Os iracundos serão agitados; por isso, novamente, Jó: “Vi que aqueles que praticam a iniquidade, semeiam dores e as colhem, perecem ao sopro de Deus e são consumidos pelo espírito de sua ira” (Jó 4,8-9).
Segue-se: “E ficarão consternados com o estrondo do mar e das ondas” (Lc 21,25). Por isso Isaías: “E, de repente, imediatamente, será visitada pelo Senhor Deus dos exércitos com trovão e abalo da terra, com grande voz de turbilhão e de tempestade e de chama de fogo devorador” (Is 29,6). Os elementos vingarán o Autor. A calamidade dos condenados “será repentina”. Por isso o Apóstolo aos Tessalonicenses: “O dia do Senhor virá como um ladrão durante a noite. Quando disserem: Paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como a dor à mulher que está para dar à luz, e não escaparão” (1Ts 5,2-3). Imediatamente. Por isso, no Apocalipse: “Eis que venho em breve. Amém. Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20). Então o pecador será visitado pelo trovão do céu e pelo abalo da terra; esta, agravada pelo peso dos pecados dele, sacudirá o pecador para fora de si; e haverá grande voz de turbilhão no ar e de tempestade no mar. Para onde, então, fugirá o infeliz? Onde se esconderá? Se quiser subir ao céu, será repelido pelo trovão; se quiser entrar no ar, será esmagado pelo turbilhão; se permanecer na terra, não poderá suportar o seu tremor, porque, como diz Jó, “a terra se levantará contra ele” (Jó 20,27); se entrar no mar, será expulso por suas ondas. O que resta, então, ao miserável, para quem não se encontrou lugar em todo o mundo, senão cair no abismo da chama do fogo devorador? Sobre ele diz Jó: “Devorá-lo-á o fogo que não foi aceso” (Jó 20,26).
17. Segue-se: “Os homens desfalecerão de medo e da expectativa do que sobrevirá a todo o mundo” (Lc 21,26). É isto que diz Isaías: “Uivai, porque está próximo o dia do Senhor; como uma devastação da parte do Senhor ele virá. Por isso todas as mãos se enfraquecerão, e o coração de todo homem desfalecerá e será esmagado. Espasmos e dores os acometerão; sofrerão como uma mulher que dá à luz; cada um olhará estupefato para o seu próximo; seus rostos serão como rostos queimados. Eis que virá o dia do Senhor, cruel, cheio de indignação, ira e furor, para tornar a terra deserta e esmagar dela os seus pecadores. Porque as estrelas do céu e o seu esplendor não espalharão a sua luz; o sol será obscurecido ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz. Castigarei no mundo os males e, contra os ímpios, a sua iniquidade; farei cessar a soberba dos infiéis e humilharei a arrogância dos poderosos” (Is 13,6-11).
Segue-se: “As potências dos céus serão abaladas” (Lc 21,26), isto é, por causa da admiração. Por isso Isaías: “Todo o exército dos céus se consumirá, e os céus serão enrolados como um livro” (Is 34,4). Diz a Glosa: Este ar será envolvido pelo fogo e parecerá dobrar-se como um livro. Com efeito, depois que todos os pecados tiverem sido abertos e revelados, serão fechados os livros que haviam sido abertos, para que neles nunca mais sejam escritos delitos. Por isso Daniel: “O tribunal se assentou, e os livros foram abertos” (Dn 7,10).
“E então verão o Filho do homem vindo numa nuvem, com grande poder e majestade” (Lc 21,27). Observai estas duas palavras: poder e majestade. O poder será para os condenados; a majestade, para os salvos. Falemos de ambas.
18. Quanto ao poder, há uma concordância em Isaías: “O Senhor”, diz ele, “avançará como um valente; como um guerreiro, suscitará o seu ardor”, isto é, os justos castigos; “gritará e lançará brados de guerra, mostrar-se-á forte contra os seus inimigos. Permaneci sempre calado, guardei silêncio, fui paciente; como uma parturiente, agora gritarei: destruirei e devorarei ao mesmo tempo. Farei dos montes e das colinas um deserto e secarei todo o seu rebento” (Is 42,13-15). O Senhor calou-se como um cordeiro quando foi conduzido à Paixão; e agora permanece em silêncio, pois não intervém com castigos; por isso Jó: “A vara de Deus não está sobre eles” (cf. Jó 21,9). Ele é paciente e espera que cada um faça penitência; por isso o livro da Sabedoria: “Tu finges não ver os pecados dos homens, esperando que façam penitência” (Sb 11,24). Mas, no dia do juízo, gritará como uma parturiente, dando livre curso à dor há tanto tempo reprimida. Então dispersará os ajuntamentos de riquezas e destruirá o seu poder; fará desertos os montes e as colinas, isto é, abaterá a soberba tanto dos prelados como dos subordinados, e secará todo rebento de gula e luxúria.
A respeito desse poder diz ainda Isaías: “A espada do Senhor está cheia de sangue, coberta de gordura, do sangue dos cordeiros e dos bodes, do sangue gordo dos carneiros; pois haverá uma vítima do Senhor em Bosra, uma grande matança na terra de Edom. Descerão os seus unicórnios e os touros com os poderosos; a sua terra se embriagará de sangue, e o seu solo, da gordura dos corpos, porque é o dia da vingança do Senhor, o ano da justa retribuição do juízo de Sião. Os seus torrentes se transformarão em piche, o seu solo em enxofre, e a sua terra será piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará para sempre, e a sua fumaça subirá de geração em geração” (Is 34,6-10). No dia do juízo, “a espada”, isto é, o poder “do Senhor”, que se vingará dos seus inimigos, “estará cheia de sangue e coberta de gordura”, isto é, punirá os pecados e a opulência dos carnais; [cheia] “do sangue dos cordeiros”, isto é, dos hipócritas que, embora sejam lobos, fingem ser cordeiros; “e dos bodes”, isto é, dos luxuriosos; “e do sangue gordo dos carneiros”, isto é, dos abades e priores corpulentos, que são os guias do rebanho. “A vítima”, isto é, a vingança “do Senhor estará em Bosra”, que se interpreta como fortificada, isto é, na comunidade dissoluta e discordante dos religiosos do claustro, exteriormente protegida por muros, mas interiormente exposta a todo vício que por ali passe. Por isso Isaías: “Fizeste o teu corpo como terra e como caminho para os que passavam” (Is 51,23). “E uma grande matança na terra de Edom”, que se interpreta como sanguinário ou terreno, isto é, entre os clérigos contaminados pelo sangue da luxúria e pela terra do dinheiro. “E os seus unicórnios”, isto é, os imperadores e reis deste mundo, “e os touros”, isto é, os bispos mitrados, que têm na cabeça dois chifres, como os touros; todos estes, se não tiverem feito verdadeira penitência por seus pecados, “descerão com os poderosos”, isto é, com os príncipes e as autoridades deste século, ao inferno, que é a terra dos moribundos, a qual “se embriagará do seu sangue e da sua gordura”, isto é, da sua malícia e soberba. As demais coisas que seguem na passagem não precisam de explicação.
19. Além disso, acerca da majestade do Senhor, tens uma concordância em Isaías: “O Senhor será para ti uma luz sempiterna, e estarão completos os dias do teu luto” (Is 60,20). Pois foram esquecidas as tribulações anteriores e estão ocultas aos olhos daqueles que, nesta vida, o esperavam vir para o juízo, na santidade e na justiça. Deles se diz mais adiante no intróito da missa: “E, com efeito, todos os que te esperam não serão confundidos” (Sl 24,3). Verdadeiramente, verdadeiramente, Senhor, não serão confundidos; antes, exultarão eternamente. Por isso, acerca da glória deles e da pena dos maus, prometes em Isaías: “Eis que os meus servos comerão, e vós tereis fome; eis que os meus servos beberão, e vós tereis sede; eis que os meus servos se alegrarão, e vós sereis confundidos; eis que os meus servos louvarão por causa da exultação do coração, e vós gritareis por causa da dor do coração e uivareis por causa da aflição do espírito” (Is 65,13-14).
Roguemos, portanto, irmãos caríssimos, ao Senhor Jesus Cristo, para que, quando vier, no dia do exame final, para retribuir a cada um segundo o que fez, com grande poder e majestade, não exerça contra nós o seu poder, colocando-nos entre os condenados, mas, com a sua majestade, nos faça bem-aventurados juntamente com os bem-aventurados, para que mereçamos com eles comer e beber, alegrar-nos e exultar no reino dos céus.
Conceda-no-lo ele mesmo, que é bendito e glorioso pelos séculos eternos.
Diga toda alma bem-aventurada: Amém. Aleluia.