A Epístola do santo dia de Pentecostes, dividida em cinco partes.
Primeiramente, sermão sobre o próprio Espírito Santo e sobre a propriedade do crisólito, onde se diz: “O espírito da vida estava nas rodas.”
[Da primeira parte]. Também sermão na solenidade do mesmo Espírito Santo, onde se diz: “Já havia chegado o terceiro dia.”
Também sobre as três línguas, a saber, a da serpente, a de Eva e a de Adão, e sobre as quatro propriedades do fogo e seu significado.
Da segunda parte. Sermão sobre a infusão do Espírito Santo, a ressurreição da alma, as quatro partes do mundo e seu significado, onde se diz: “Vem dos quatro ventos.”
Também sermão sobre a arca de Noé, seus cinco compartimentos e seu significado, onde se diz: “A arca de Noé.”
Também sobre os cinco sentidos do corpo, sua disposição, propriedade e significado, onde se diz: “O primeiro compartimento chama-se dos dejetos.”
Da terceira parte. Sermão sobre os três tipos de som e seu significado, onde se diz: “De repente, fez-se.”
Também sermão aos penitentes ou religiosos, onde se diz: “Já havia chegado o terceiro dia.”
Também sobre a propriedade da terra e seu significado, onde se diz: “O Espírito do Senhor encheu o universo.”
Da quarta parte. Sermão sobre a confissão, a manifestação das circunstâncias, o fervor da satisfação, e sobre a propriedade e a disposição da língua e seu significado, onde se diz: “E apareceram-lhes línguas repartidas.”
Da quinta parte. Sermão sobre o envio do Espírito Santo, onde se diz: “Do alto enviou o fogo”, e também: “O Senhor fez passar o espírito sobre a terra.”
Também sermão contra aqueles que pregam muito, mas fazem pouco ou nada, onde se diz: “Começaram a falar em diversas línguas.”
1. “Quando se completavam os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar” (At 2,1) etc.
Diz Ezequiel: “O espírito da vida estava nas rodas” (Ez 1,20). Os apóstolos foram rodas volúveis, levando o Filho de Deus por todo o mundo. Essas rodas, como acrescenta o mesmo profeta, tinham a aparência semelhante à visão de uma pedra de crisólito. A pedra de crisólito resplandece como o ouro, donde também recebe seu nome; com efeito, chrysos em grego significa ouro em latim. Essa pedra parece emitir de si mesma certas centelhas ardentes, e afugenta toda espécie de serpentes; ela significa os apóstolos que, resplandecentes com o ouro da graça septiforme, emitiram de si as centelhas da pregação, inflamando os outros, e com elas afugentaram toda espécie de demônios. Nessas rodas, como encontras no mesmo profeta, havia grandeza, altura e aspecto terrível (cf. Ez 1,18). Com efeito, nos apóstolos houve grandeza na retidão do ensinamento, altura na sublimidade da promessa celeste e aspecto terrível nas ameaças e nos terrores do castigo que haveria de seguir-se.
Por isso, diz o penitente no Cântico dos Cânticos: “A minha alma me perturbou por causa das carruagens de Aminadab” (Ct 6,11). Aminadab interpreta-se “espontâneo” e significa Jesus Cristo, que espontaneamente se ofereceu por nós na cruz; suas carruagens foram os apóstolos, dos quais diz Habacuc: “E as tuas carruagens são a salvação” (Hab 3,8), isto é, por meio delas concedes a salvação. Por causa delas, isto é, por causa da pregação delas, diz o penitente, a minha alma me perturbou, isto é, perturbou-me inteiramente, levando-me à penitência. Por isso, Habacuc: “Enviaste ao mar os teus cavalos, agitando as muitas águas; ouvi, e o meu ventre se estremeceu” (Hab 3,15-16). O Senhor enviou ao mar, isto é, ao mundo, os cavalos, isto é, os apóstolos, que, por sua pregação, agitaram as muitas águas, isto é, muitos povos, levando-os à penitência. Ouvi a pregação deles, diz o penitente, e o meu ventre se estremeceu, isto é, a minha carnalidade.
2. Nessas rodas estava o espírito da vida, que vivifica tudo; dele se diz na epístola de hoje: “Quando se completavam os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso que se abate, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E apareceram-lhes línguas repartidas, como que de fogo, e pousou sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2,1-4). “Pentecostes” em grego, em latim “quinquagésimo”; e o antigo povo observava o quinquagésimo dia, pois, desde o dia da imolação do cordeiro, por meio do qual os filhos de Israel saíram do Egito, a Lei foi dada no quinquagésimo dia, no fogo. Também no Novo Testamento, no quinquagésimo dia depois da Páscoa de Cristo, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, aparecendo sob a forma de fogo. A Lei foi dada no monte Sinai; o Espírito, no monte Sião. A Lei foi dada no lugar elevado do monte; o Espírito foi dado no cenáculo.
“Quando”, portanto, “se completavam os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar.” Ninguém estava ausente, seja porque o número de doze estava completo, seja porque tinham um só coração e uma só alma. “No mesmo lugar”, isto é, no cenáculo, ao qual haviam subido. Com efeito, quem deseja o Espírito, transcendendo a morada da carne pela contemplação da mente, pisa-a aos pés. “De repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso que se abate, e encheu toda a casa onde estavam sentados.” A graça do Espírito Santo não conhece demoras, segundo aquilo: “O ímpeto do rio alegra a cidade de Deus” (Sl 45,5). Veio com o som aquele que vinha para instruir os seus.
Por isso, encontras uma confirmação no Êxodo: “Já havia chegado o terceiro dia e clareara a manhã; e eis que começaram a ouvir-se trovões e a relampejar raios, e uma nuvem densíssima cobria o monte, e o som da trombeta ressoava com veemência; e o povo que estava no acampamento teve medo” (Ex 19,16). O primeiro dia foi a Encarnação de Cristo; o segundo, a sua Paixão; o terceiro, o envio do Espírito Santo; quando ele chegou, “começaram a ouvir-se trovões”, porque “de repente veio do céu um som” etc.; “e a relampejar raios”, isto é, os milagres dos apóstolos; “e uma nuvem densíssima”, isto é, a compunção do coração e a penitência, “cobria o monte” Sinai, isto é, o povo que estava em Jerusalém. Por isso, nos Atos dos Apóstolos se diz que, “compungidos no coração, disseram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?”. “E o som da trombeta”, isto é, da pregação, “ressoava com veemência”; por isso, Pedro: “Fazei penitência”, disse, “e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,37-38); “e todo o povo que estava no acampamento teve medo”; por isso, “foram batizados e, naquele dia, foram acrescentadas cerca de três mil almas” (At 2,41).
3. “E apareceram-lhes línguas repartidas, como que de fogo, e pousou uma sobre cada um deles”; porque pelas línguas, a saber, a da serpente, a de Eva e a de Adão, a morte entrou no mundo (cf. Sb 2,24). A língua da serpente inoculou veneno em Eva; a língua de Eva infundiu veneno em Adão; e a língua de Adão quis lançá-lo de volta contra Deus. A língua é um membro frio, pois nada na umidade, e por isso é um mal inquieto, cheio de veneno mortífero (cf. Tg 3,8), do qual nada é mais frio. Por isso o Espírito Santo apareceu em línguas de fogo, para opor línguas a línguas, e fogo ao veneno mortífero.
E observa que o fogo tem quatro propriedades: queima, purifica, aquece e ilumina. Do mesmo modo, o Espírito Santo queima os pecados, purifica os corações, expulsa o torpor e ilumina as ignorâncias. O fogo também é incorpóreo e invisível por sua natureza, mas, tendo assumido algum corpo, é visto aparecer com diversas cores, por causa dos materiais nos quais arde. Assim, o Espírito Santo não pode ser visto senão por meio das criaturas nas quais opera.
Observa ainda que a dispersão das línguas aconteceu na torre de Babel (cf. Gn 11,8-9): aquilo que a soberba dispersou, a humildade reúne. Na soberba há dispersão; na humildade, faz-se a concórdia. Eis que se cumpre a promessa do Senhor: “Não vos deixarei órfãos, mas enviarei o Espírito Paráclito” (cf. Jo 14,18.26), que foi seu advogado e falou por todos eles. Aquele que veio pela Palavra trouxe as línguas. A língua tem parentesco com a palavra, de modo que não podem ser separadas uma da outra; assim, a Palavra do Pai, isto é, o Filho, e o Espírito Santo são inseparáveis, mais ainda, são de uma só natureza.
“E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” Eis o sinal da plenitude: o vaso cheio transborda, o fogo não pode ser ocultado. Falavam todas as línguas, ou, falando a própria língua, isto é, a hebraica, eram entendidos por todos, como se falassem na língua própria de cada um. O Espírito Santo, “distribuindo a cada um conforme quer” (1Cor 12,11), sopra sua graça onde quer, como quer, quanto quer, quando quer e a quem quer. Digne-se infundi-la também em nós aquele que, neste dia, infundiu sua graça nos apóstolos por meio das línguas de fogo. A ele sejam sempre o louvor e a glória pelos séculos eternos. Amém.
4. “Quando se completaram os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar.” Diz Ezequiel: “Vem, ó Espírito, dos quatro ventos, e sopra sobre estes mortos, para que revivam” (Ez 37,9). Os quatro ventos são as quatro partes do mundo: o oriente, o ocidente, o aquilão e o meio-dia. No oriente é designada a Encarnação de Cristo; no ocidente, a sua Paixão; no aquilão, a sua tentação; e no meio-dia, o envio do Espírito Santo. Ou ainda: no oriente, a recordação de nossa miserável entrada no mundo; no ocidente, a memória de nossa lamentável saída; no aquilão, a consideração de nosso infeliz estado; e no meio-dia, o reconhecimento de nossa culpa. Destes quatro ventos vem o Espírito Santo e sopra, com o sopro da graça, sobre os mortos pela espada da culpa, para que revivam pela vida da penitência. Por isso, nos Atos dos Apóstolos, se diz que, “enquanto Pedro ainda falava, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a palavra” (At 10,44). Por isso, diz-se na leitura de hoje dos Atos dos Apóstolos: “Quando se completaram os dias de Pentecostes” etc. Note-se que aqui se assinalam quatro coisas. Primeiro, o cumprimento dos cinquenta dias, quando se diz antes: “Quando se completaram” etc. Segundo, a inspiração do Espírito Santo, quando se acrescenta: “E de repente veio do céu um ruído” etc. Terceiro, a aparição em línguas de fogo, onde se diz: “E apareceram-lhes línguas repartidas.” Quarto, os apóstolos falando em todas as línguas, onde se diz: “E todos ficaram cheios do Espírito Santo” etc.
Digamos, portanto: “Quando se completaram os dias de Pentecostes.” Pentecostes, em grego, diz-se “quinquagésimo” em latim: cinco multiplicado por dez dá cinquenta. Cinco são os sentidos do corpo; dez, os preceitos do decálogo. Se os cinco sentidos de nosso corpo forem aperfeiçoados pelos dez preceitos do decálogo, então, sem dúvida, se completará em nós o santíssimo dia de Pentecostes, no qual é dado o Espírito Santo. A respeito deste quinquagésimo dia, diz-se no Gênesis que a arca de Noé tinha cinquenta côvados de largura (cf. Gn 6,15). Mas primeiro deve-se observar que a própria arca tinha cinco compartimentos. O primeiro era o dos excrementos; o segundo, o dos mantimentos; o terceiro, o dos animais ferozes; o quarto,
dos mansos; o quinto, dos homens e das aves. Noé é o homem justo (cf. Gn 6,9), cuja arca é o próprio corpo, que bem se chama arca. Arca é assim chamada porque afasta o ladrão; do mesmo modo, o corpo do homem justo deve afastar de si todo vício, que vem para roubar-lhe as virtudes. Os cinco compartimentos desta arca são os cinco sentidos, a saber: o paladar, o olfato, o tato, a audição e a visão.
5. O primeiro compartimento chama-se o dos dejetos. Ele é a língua da boca, pela qual, na confissão, devemos expelir toda a imundície dos pecados. Esta é a porta dos dejetos, da qual se diz no livro de Esdras que “Malquias, filho de Recab, construiu a porta dos dejetos, e nela colocou batentes, fechaduras e trancas” (Ne 3,14). Dejetos, lugar cheio de esterco, chama-se assim porque é revestido e manchado de esterco. A mente do pecador, fétida e contaminada pelo esterco do diabo, deve ser purificada pela porta da confissão. Esta porta é construída por Malquias, filho de Recab. Malquias interpreta-se “coro para o Senhor”; Recab interpreta-se “aquele que sobe”. Malquias é o penitente que, com o tímpano e o coro, isto é, com a mortificação da carne e a harmonia da caridade, faz ressoar um hino ao Senhor. Ele é filho de Jesus Cristo, que sobe à direita do Pai. Este Malquias deve colocar na sua língua “batentes”, que são portas interiores, assim chamadas de velar, e que se fecham por dentro, para que, evidentemente, encerre interiormente todos os seus bens, tendo escrito na fronte da consciência aquele versículo de Isaías: “Meu segredo é para mim, meu segredo é para mim” (Is 24,16); e “fechaduras”, para que contenha, com as fechaduras do amor e do temor de Deus, os impulsos da alma que desejam irromper para fora; e trancas, para que proponha coisas úteis no tempo e no lugar convenientes e se cale sempre sobre as coisas más.
6. A segunda câmara, a despensa, é o olfato das narinas. Estas são chamadas nares porque por elas passa o ar, ou o espírito. Nelas há três funções: uma, conduzir o espírito; outra, captar os odores; a terceira, fazer sair o excremento do cérebro. E é um defeito que a respiração não se faça pelas narinas, pois este é o modo reto estabelecido na criação. A respiração pela boca, porém, ocorre por necessidade e é sórdida, porque é contra a natureza. E o espirro também passa pelas narinas, quando o vento se multiplica no cérebro e sai de repente. Nas narinas, como muitas vezes já se disse, são simbolizadas a discrição e a prudência; por elas, como por narinas, aspiramos o espírito da contemplação e da caridade perfeita, captamos o odor do bom exemplo e purificamos os excessos dos pensamentos. E assim como a via reta e conveniente da respiração é pelas narinas, assim também, pela discrição e pela prudência, atrai-se retamente o espírito do amor divino e ele é emitido para a consolação e edificação do próximo. E assim como a respiração pela boca ocorre por necessidade e é sórdida, assim também a confissão da boca ocorre por necessidade. Porque pecaste, é necessário que te confesses; se não queres confessar-te, é necessário que sejas condenado. E é sórdida, porque carrega o esterco; e acerca de seu fedor se diz em Lucas: “Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu cave ao redor dela e lhe ponha esterco” (Lc 13,8). A figueira é a alma; a escavação é a contrição; a adubação com esterco é a confissão dos pecados, que faz frutificar a alma estéril. E, quando o vento da soberba ou da vanglória se multiplica no cérebro, isto é, na mente, ele sai de repente pela via da discrição e da prudência.
7. A terceira câmara, a dos animais ferozes, é o tato das mãos, com as quais devemos empunhar o flagelo e flagelar-nos sem misericórdia por causa dos pensamentos indisciplinados, das palavras inconvenientes e das obras irregulares, para que encontremos em nós tantos holocaustos quantos prazeres tivemos em nós mesmos. E observa que, assim como nas mãos há dez dedos, assim também há dez espécies de disciplina, a saber: a mortificação da própria vontade, a abstinência de bebida e comida, o rigor do silêncio, as vigílias e a permanência durante a noite em oração, a efusão das lágrimas, a ocupação conveniente com a leitura, o exercício corporal, a compaixão pela necessidade alheia, a modéstia do hábito e o desprezo de si mesmo. Com esses dez dedos devemos empunhar o flagelo e ferir-nos como homens ferozes, selvagens e sem misericórdia, para que, no dia do flagelo que reduz os ossos a pedaços, mereçamos encontrar misericórdia.
8. A quarta câmara, a dos animais mansos, é a audição. Observa que a composição da orelha é de cartilagem e carne. No interior da orelha há um orifício tortuoso, semelhante a um anel, e seu término está num osso, semelhante, na criação e na forma, à orelha externa. Todo ruído e todo som chegam a esse osso, e por ele são transmitidos ao cérebro; e do cérebro sai uma veia que chega à orelha direita, e outra veia chega à esquerda. E todo animal que tem orelhas pode movê-las, exceto o homem. A cartilagem tem a aparência do osso, mas não tem sua força. A carne é assim chamada porque é preciosa. Na cartilagem e na carne, das quais se compõe a orelha, são designadas a mansidão e a humildade, virtudes das quais nada é mais precioso para Deus e para os homens. A audição de todo homem deve compor-se dessas duas virtudes, para que responda com mansidão e humildade a toda agressão, moléstia e injúria de palavras. E isso mesmo ensina a própria natureza, que fez no interior da orelha um orifício não reto, mas tortuoso, para que, quando ouvires algo que não te agrada, isso não atinja imediatamente o ânimo; mas, como por uma via de certa tortuosidade, a palavra impedida passe, de modo que, tendo perdido sua força, chegue por fim enfraquecida, para que te fira pouco ou nada.
E as duas veias que saem do cérebro, uma das quais chega à orelha direita e a outra à esquerda, são a temperança e a obediência. Na direita é designada a prosperidade; na esquerda, a adversidade. Quando ouves coisas prósperas e o que te agrada, é necessária a temperança; quando, porém, te desagrada aquilo que te é ordenado e ouves coisas adversas, então a obediência é mais necessária, porque é mais frutuosa.
E todo animal que tem orelhas pode movê-las, exceto o homem. É verdadeiramente digno de ser chamado homem aquele que não tem orelhas móveis, isto é, aquele que não se deixa mover da estabilidade de sua mente por causa do vento das palavras. Mas todo homem que tem comichão nos ouvidos, que acredita em toda palavra e oferece de bom grado um ouvido ávido à adulação, não é digno de ser chamado homem, mas animal irracional.
9. O quinto compartimento, o dos homens e das aves, é a visão dos olhos, com os quais devemos olhar misericordiosamente para os pobres e para os que padecem necessidade, e considerar atentamente as coisas celestes, porque, como diz o Apóstolo, “as coisas invisíveis de Deus são contempladas e compreendidas por meio das coisas que foram feitas” (Rm 1,20). Eis que já tens conhecimento dos cinco compartimentos da arca de Noé, isto é, dos cinco sentidos do corpo do homem justo.
E observa que a arca de Noé foi feita à maneira do corpo humano; com efeito, tinha trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura (cf. Gn 6,15). No corpo humano, o comprimento é seis vezes maior que a largura e dez vezes maior que a altura. O comprimento vai da planta dos pés ao alto da cabeça; a largura, de uma caixa torácica à outra; a altura, das costas ao ventre. Se, portanto, os cinco sentidos do corpo forem aperfeiçoados pelos dez preceitos do decálogo, então verdadeiramente a arca de Noé se alargará até cinquenta côvados, e o quinquagésimo dia será completado, e o homem justo, no fim de sua vida, será perfeitamente consumado. Por isso, diz-se no Livro da Sabedoria: “Tendo chegado rapidamente à perfeição, completou muitos tempos; pois sua alma era agradável a Deus” (Sb 4,13-14). Diz-se, portanto, com razão: “Quando se completaram os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar.”
Os discípulos são os afetos da razão e os pensamentos puros da mente do homem justo. Eles estão verdadeiramente juntos no mesmo lugar quando se completa o dia de Pentecostes, isto é, quando os cinco sentidos atingem a perfeição. Observa estas duas palavras: “juntos” e “no mesmo lugar”. “Juntos”, isto é, igualmente e ao mesmo tempo. Aqueles pensamentos da mente estão juntos quando, sob a mesma regra da razão, são ordenados e procedem com discernimento, de modo que um não apareça na mente mais elevado que outro, nem um inferior a outro; pois, se isso acontecesse, a própria desigualdade seria ocasião da ruína da construção das virtudes. Diz o Apóstolo: “Faça-se tudo com ordem” (cf. 1Cor 14,40), de modo que se possa dizer a este: “Vai”, e ele vá; e a outro: “Vem”, e ele venha; e ao servo, isto é, ao corpo: “Faze isto”, e ele o faça (cf. Mt 8,9). Sejam também os discípulos juntos, para que os pensamentos da mente, reunidos simultaneamente e num só lugar, como um exército de soldados (cf. Ct 6,3.9), possam combater vigorosamente contra os poderes do ar (cf. Ef 6,12). Estejam também “no mesmo lugar”, não divididos, porque a mente dividida nada alcança. Por isso, diz o Eclesiástico: “Filho, não estejam tuas atividades em muitas coisas” (Eclo 11,10); e ainda: “Ai do pecador que percorre a terra por dois caminhos” (Eclo 2,14). E Gregório: “O rio que se divide em muitos regatos seca-se em seu leito.” E Bernardo: “A alma ocupada em muitas coisas necessariamente é dilacerada por muitas preocupações.” Se, portanto, primeiro se completarem os dias de Pentecostes, todos os discípulos estarão juntos e no mesmo lugar, prontos para receber a graça do Espírito Santo; digne-se concedê-la a nós aquele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
10. Segue-se o segundo. “De repente, veio do céu um som, como o de um vento impetuoso que chegava, e encheu toda a casa onde estavam sentados” (At 2,2). Som é tudo aquilo que se ouve por meio dos sentidos. Há três espécies de som: o produzido pela voz, por meio da garganta; o produzido pelo sopro, como na trombeta; e o produzido pela percussão, como na lira. O som do espírito impetuoso é a contrição do coração, que o penitente percebe como um som pelo ouvido do coração. Por isso diz o Senhor em João: “O Espírito”, diz ele, “sopra onde quer”, porque está em seu poder escolher o coração que há de iluminar, “e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai” (Jo 3,8). A voz do Espírito Santo é a compunção, que fala no coração do pecador; e, embora a ouças, não sabes de onde vem, isto é, por que caminho entrou no coração dele ou de que modo retorna, porque a sua natureza é invisível. Observa também que este som se produz de três modos: pela voz da pregação, pelo sopro da compaixão fraterna e pela percussão da correção paterna. Dessas três ações costuma nascer no coração do pecador o som da compunção. Diz-se, portanto, muito bem: “De repente, veio do céu um som, como o de um espírito impetuoso que chegava”.
A esse respeito, tens uma concordância no Êxodo: “Já tinha chegado o terceiro dia, e a manhã resplandecia” (Ex 19,16), como acima. O primeiro dia é o conhecimento do pecado; o segundo, a sua abominação; o terceiro, a contrição do coração por causa dele. Quando chega a contrição e resplandece a manhã da graça, começam então a ser ouvidos “os trovões” dos gemidos, dos suspiros e das acusações de si mesmo; começam a “relampejar os fulgores” das confissões; e “a nuvem densíssima”, isto é, a obscuridade da penitência, a “cobrir o monte”, isto é, o penitente, elevado como um monte desde o vale da impureza e da miséria; e “o clangor da trombeta”, isto é, da vida boa e da boa reputação, “ressoava cada vez mais forte”, para que, onde abundou o delito, também superabunde a graça (cf. Rm 5,20). E assim teme todo o “povo” dos demônios, que estão “nos acampamentos”, porque estão sempre prontos para atacar; mas, quando veem essas coisas, não ousam avançar para a guerra. Por isso se lê em Jó: “Ninguém lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande” (Jó 2,13). Com efeito, quando os espíritos malignos veem que o som do espírito impetuoso que chega enche toda a casa, isto é, a mente do penitente, na qual ele se senta, isto é, se humilha, recordando os seus anos na amargura de sua alma (cf. Is 38,15), não ousam avançar mais nem lhe dirigir palavra alguma de sugestão. E observa que se diz “impetuoso”, isto é, aquele que remove o eterno “ai” ou conduz a mente para o alto. Assim, a contrição do coração remove o eterno ai e conduz a mente para o alto.
11. Por isso se diz no introito da missa de hoje: “O Espírito do Senhor encheu o orbe da terra, e aquele que contém todas as coisas tem o conhecimento da voz” (Sb 1,7). Orbe deriva o seu nome da redondeza do círculo. A terra é obscura, fria e imunda. O orbe é o coração do pecador, que anda em círculos como uma roda, percorre o mundo, ora no oriente, ora no ocidente; é obscuro pela soberba, frio pela avareza e imundo pela luxúria. Mas o Espírito do Senhor enche o orbe da terra quando infunde no coração do pecador a graça da compunção e assim lhe remove o eterno ai.
“E aquele que contém todas as coisas tem o conhecimento da voz.” E “aquele”, isto é, o homem, animal racional, “que contém todas as coisas”, os quatro elementos dos quais tudo é constituído, “tem o conhecimento da voz”, porque compreende quando o Espírito lhe fala. Por isso diz o bem-aventurado Bernardo: “O Espírito Santo nos fala todas as vezes que pensamos em coisas boas”. Daí dizer o Profeta: “Ouvirei o que o Senhor Deus falar em mim” (Sl 84,9); e assim conduz a mente para o alto. Por isso diz o Filósofo, ao descrever o espírito: “O espírito é o veículo das virtudes, por meio do qual as virtudes saem para realizar as suas operações” (Sêneca).
Peçamos, portanto, ao Filho de Deus que infunda em nós o espírito de contrição, remova o eterno ai e conduza a mente para as coisas celestes. Conceda-no-lo aquele que é bendito pelos séculos. Amém.
12. Segue-se o terceiro. “E apareceram-lhes línguas repartidas, como que de fogo, e pousou sobre cada um deles” (At 2,3). Observa estas três coisas: “línguas”, “repartidas” e “fogo”. Nas línguas é indicada a confissão; no fato de serem repartidas, a manifestação das circunstâncias; no fogo, o ardor da confissão e da satisfação.
Observa que a língua é o órgão do sentido do gosto, e esse sentido está principalmente na extremidade da língua. Já aquilo em que a língua é larga possui menor sensibilidade. A língua sente tudo aquilo que é comum a todo corpo quanto à sensibilidade, isto é, o calor e o frio, a dureza e a maciez. E faz isso por todas as suas partes. A língua foi criada para saborear as coisas úmidas e para falar. A língua do homem é perfeitamente solta, macia e larga, para que seja usada em duas operações: o gosto e a fala. A língua macia e larga é adequada à bondade da fala, porque se estende, se contrai e gira por toda a boca de modos diversos; e, quando a língua é solta e larga, pode-se falar bem. Isso se manifesta naqueles que têm a língua presa, pois alguns são gagos, isto é, têm dificuldade de pronunciar as palavras. Outros têm ainda outro impedimento na língua. Isso acontece somente com certas letras, quando a língua é estreita e não é larga; porque o pequeno está no grande, mas o grande não está no pequeno. Por isso, a ave de língua larga pode pronunciar algumas letras ou palavras mais do que as aves de língua estreita.
Na língua, como foi dito, é designada a confissão, na qual deve ser revelado tudo aquilo que é comum a todo o corpo, isto é, aquilo que é cometido de modo geral com todo o corpo: no calor ardente da soberba, no frio da malícia e da preguiça, na dureza da avareza, na moleza da lascívia e da luxúria. E, assim como a língua foi criada para saborear e falar, assim também há uma dupla confissão da língua: a confissão do louvor e a confissão do pecado.
A confissão do louvor se dá, por exemplo, nos ofícios divinos e nas salmodias; se os realizamos com devoção, saboreamos a graça da compunção e a doçura da contemplação. Por isso diz Gregório: “A voz da salmodia, quando é entoada com a atenção do coração, por meio dela se prepara um caminho até o coração para o Deus onipotente, a fim de que infunda na mente atenta os mistérios da profecia ou a graça da compunção”. Por isso está escrito: “O sacrifício de louvor me honrará” (Sl 49,23) etc. Com efeito, enquanto a compunção se derrama por meio da salmodia, abre-se em nosso coração um caminho pelo qual, no fim, chegamos a Jesus.
13. Na confissão do pecado, devemos falar, isto é, confessar nossos pecados de modo total, sem véus e abertamente. E a própria natureza nos ensina que assim se deve fazer, porque a língua do homem é solta, mole e larga; assim, a confissão do pecado deve ser total, na manifestação de todas as circunstâncias; mole, no derramamento das lágrimas; larga, na reparação de toda a ofensa infligida, na restituição de tudo o que foi injustamente tomado e na firmeza de um propósito estável de não recair. Tal confissão da língua faz a alma elevar-se até Deus pela contemplação, recolher-se em si mesma pela humildade e voltar-se ao redor para o próximo pela compaixão. Mas os pecadores, miseráveis, balbuciantes e insensatos, têm a língua estreita e impedida; quando se confessam, fazem-no balbuciando e de modo incompleto. Diz-se, portanto, com razão: “E apareceram-lhes línguas repartidas, como que de fogo.”
As línguas das confissões devem ser “repartidas”, porque o pecador deve ter o coração e a língua, na confissão, divididos em muitas partes: o coração, para doer-se de muitos modos por muitos pecados cometidos; a língua, para expor distintamente todas as circunstâncias, conforme as tenha cometido. Sobre isso encontrarás uma exposição mais ampla no sermão: “Jesus foi conduzido ao deserto” (Mt 4,1).
E observa que, assim como o fogo aquece as coisas frias, amolece as duras, endurece as moles, abaixa e reduz a cinzas as altas, e, se alguém quiser conservá-lo, o guarda sob a cinza, assim o ardor da confissão e da satisfação aquece com o fogo do amor os que são frios, amolece pela contrição os corações endurecidos, endurece, isto é, torna firmes pela estabilidade de um santo propósito os moles, isto é, os luxuriosos, humilha os altos, isto é, os soberbos, e os reduz a cinzas pela recordação da própria fragilidade e iniquidade; sob tal cinza, esse fogo pode ser continuamente conservado.
Nós vos suplicamos, portanto, ó caríssimos irmãos, que este fogo se assente, isto é, repouse sobre cada um de vós; que vossas línguas sejam repartidas na confissão do pecado e de suas circunstâncias, para que, confessando-vos de modo total, sem véus e plenamente, mereçais chegar a proclamar o nome do Senhor com os anjos na Jerusalém celeste. Conceda-no-lo aquele cujo fogo está em Sião e cuja fornalha está em Jerusalém (cf. Is 31,9), que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.
14. Segue-se o quarto: “E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2,4). Ficam cheios do Espírito Santo, o único capaz de encher a alma, que o mundo inteiro não pode preencher. Não recebem outro espírito, porque os vasos, estando cheios, não recebem aumento. Por isso foi dito à bem-aventurada Maria: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo, bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,28). Observa que, entre estas duas expressões — “cheia de graça” e “bendita és tu entre as mulheres” — se diz: “o Senhor está contigo”, porque é o próprio Senhor quem conserva interiormente a plenitude da graça e realiza exteriormente a bênção da fecundidade, isto é, da santa operação. Com razão também, depois de “cheia de graça”, se diz “o Senhor está contigo”, porque, assim como sem Deus nada podemos fazer nem ter, também sem ele não podemos conservar o que recebemos. Por isso, depois da graça, é necessário que o Senhor esteja conosco e guarde aquilo que somente ele nos deu. Pois, ao preceder-nos na concessão da graça, tornamo-nos seus cooperadores na conservação dela; e ele não vela sobre nós se também nós não vigiarmos com ele. Por isso parece exigir esta nossa vigilância quando diz aos Apóstolos: “Não pudestes vigiar uma hora comigo? Vigiai e orai, para não entrardes em tentação” (Mt 26,40-41). Diz-se, portanto, com razão: “E todos ficaram cheios do Espírito Santo.”
A respeito dele diz o Senhor no Evangelho de hoje: “O Paráclito, porém, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos sugerirá tudo quanto eu vos disser” (Jo 14,26). O Pai enviou o Paráclito em nome do Filho, isto é, para a glória do Filho, para manifestar a glória do Filho. “Ele”, diz, vos “ensinará”, para que saibais; “vos sugerirá”, isto é, vos fornecerá, para que queirais; pois a graça do Espírito Santo concede saber e querer. Por isso se canta hoje na missa: “Vinde, Espírito Santo, enchei o coração dos vossos fiéis”, para que tenham o conhecimento, “e acendei neles o fogo do vosso amor”, para que queiram realizar aquilo que souberem. Canta-se também: “Enviai o vosso Espírito e serão criados”, pela vossa ciência, “e renovareis a face da terra” (cf. Sl 103,30), pela boa vontade.
Sobre essas duas coisas tens uma concordância nas Lamentações de Jeremias: “Do alto enviou fogo aos meus ossos e instruiu-me” (Lm 1,13). O Pai “do alto”, isto é, “do Filho”, enviou hoje “o fogo”, isto é, o Espírito Santo, “aos meus ossos”, isto é, aos Apóstolos, diz a Igreja, e, por meio deles, “instruiu-me”, para que eu saiba e queira.
15. Digamos, portanto: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo.” Encontramos uma concordância no Gênesis: “O Senhor fez passar o Espírito Santo sobre a terra, e as águas diminuíram. E foram fechadas as fontes do abismo e as comportas do céu, e foram detidas as chuvas do céu” (Gn 8,1-2). Observa estas quatro coisas: “as águas, as fontes, as comportas e as chuvas”. Nas águas são representadas as riquezas; nas fontes do abismo, os pensamentos da alma; nas comportas do céu, os olhos; nas chuvas, a abundância das palavras. Quando, portanto, o Senhor faz passar o Espírito Santo sobre a terra, isto é, sobre a mente do pecador, então as águas das riquezas diminuem, porque são distribuídas aos pobres.
Dessas águas se diz no Gênesis: “Chamou às aglomerações das águas mares” (Gn 1,10). O acúmulo das riquezas não é outra coisa senão amargura, tribulação e dor. Por isso diz Habacuc: “Ai daquele que acumula o que não é seu! Até quando carregará sobre si densa lama?” (Hab 2,6). A lama acumulada numa casa exala mau cheiro; espalhada, fecunda a terra. Assim, as riquezas, quando acumuladas, sobretudo quando não provêm do que é próprio, mas do alheio, produzem o mau cheiro do pecado e da morte; se, porém, forem distribuídas aos pobres e restituídas a seus legítimos donos, fecundam a terra da mente e fazem-na produzir fruto.
O abismo é o coração do homem, do qual diz Jeremias: “Perverso é o coração do homem e insondável; quem o conhecerá?” (Jr 17,9). As fontes desse abismo são os pensamentos, que então se fecham quando a graça do Espírito Santo é infundida. Sobre isso tens uma concordância no segundo livro das Crônicas, onde se diz que Ezequias “reuniu uma grande multidão; e taparam todas as fontes e o ribeiro que corria pelo meio da terra, dizendo: Para que não venham os reis dos assírios e encontrem abundância de águas” (2Cr 32,4). Ezequias é figura do justo, que deve reunir uma grande multidão de bons pensamentos e tapar as fontes dos pensamentos iníquos e perversos e o ribeiro das concupiscências, para que os demônios, encontrando abundância de águas, não destruam com elas a cidade da alma.
As comportas do céu são as janelas. Chamam-se janelas porque trazem luz ou porque por elas vemos para fora. Com efeito, “phos” em grego significa “luz” em latim. Na cabeça, colocados como num firmamento, estão os dois luzeiros, isto é, os dois olhos, como duas janelas pelas quais vemos; e elas se fecham para as vaidades do mundo quando a luz da graça é infundida na mente. As chuvas, chamadas quase “fluviais”, são as palavras que, sem barreira ou obstáculo, fluem largamente por toda parte. Por isso diz Salomão nos Provérbios: “Quem deixa correr a água é princípio de contendas” (Pr 17,14). E por isso aconselha o Eclesiástico: “Não dês saída às tuas águas, nem mesmo a uma pequena quantidade” (Eclo 25,34). Essas chuvas são detidas quando, pela graça do Espírito Santo, a língua é formada para louvar o seu Criador e confessar o seu pecado. Diz-se, portanto, com razão: “E todos ficaram cheios do Espírito Santo.”
16. “E começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que se exprimissem”. Quem está repleto do Espírito Santo fala em diversas línguas. As diversas línguas são os vários testemunhos que podemos dar de Cristo, como a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência; e falamos essas línguas quando mostramos aos outros essas virtudes praticadas em nós mesmos. A palavra é viva quando falam as obras. Rogo-vos: cessem as palavras e falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras, e por isso somos amaldiçoados pelo Senhor, porque ele amaldiçoou a figueira na qual não encontrou frutos, mas somente folhas (cf. Mt 21,19). Diz Gregório: “Foi estabelecida uma lei para o pregador: que pratique aquilo que prega. Em vão dá a conhecer a lei aquele que, com as obras e com a própria vida, destrói o ensinamento”. Mas os apóstolos falavam conforme o Espírito Santo lhes concedia que se exprimissem, e não segundo as próprias inclinações. Há, com efeito, alguns que falam segundo o próprio espírito, roubam as palavras dos outros e as apresentam como suas, atribuindo-as a si mesmos.
A respeito desses e dos que lhes são semelhantes, diz o Senhor por meio de Jeremias: “Eis que venho contra os profetas que roubam uns dos outros as minhas palavras. Eis que venho contra os profetas, diz o Senhor, que tomam suas próprias línguas e dizem: ‘Diz o Senhor’. Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as narram e seduzem o meu povo com a sua mentira e com os seus falsos prodígios; eu não os enviei, nem lhes dei ordem alguma; eles de nada aproveitaram a este povo, diz o Senhor” (Jr 23,30-32).
Falemos, portanto, conforme o Espírito Santo nos conceder que falemos, pedindo-lhe humilde e devotamente que infunda em nós a sua graça, para que completemos os dias de Pentecostes na perfeição dos cinco sentidos e na observância do decálogo; e para que sejamos repletos do vento impetuoso da contrição e inflamados pelas línguas de fogo da confissão. Assim, inflamados e iluminados, mereçamos ver o Deus uno e trino entre os esplendores dos santos.
Conceda-no-lo aquele que é Deus uno e trino e é bendito pelos séculos dos séculos.
Diga todo espírito: Amém. Aleluia.