Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 4

Domingo da Quinquagésima Domenica Di Quinquagesima

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 4 seções · 19 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Terceiro evangelho na Quinquagésima: “Um cego estava sentado à beira do caminho”.

Primeiro, sermão aos pregadores: “Samuel tomou”.

Também sermão contra o soberbo: “Um cego estava sentado”; e sobre as propriedades do ninho e do sangue menstrual.

Também sermão contra os tíbios e luxuriosos: “Aconteceu que, certo dia...”.

Também sermão sobre a Paixão de Cristo: “Abre o ventre do peixe” etc.

Também sermão aos prelados da Igreja: “Os lábios do sacerdote”.

Também sermão sobre a Paixão de Cristo,

Exórdio. Sermão aos pregadores

1. “Um cego estava sentado à beira do caminho e clamava: Jesus, filho de Davi, tende piedade de mim” (Lc 18,35.38).

Lê-se no Primeiro Livro dos Reis: “Samuel tomou uma ampola de óleo e derramou-a sobre a cabeça de Saul” (1Rs 10,1). Samuel interpreta-se “pedido” e significa o pregador, pedido pelas orações da Igreja a Jesus Cristo, que diz no Evangelho: “Rogai ao senhor da messe que envie trabalhadores para sua messe” (Mt 9,38). Este deve tomar a ampola de óleo, que é um vaso quadrangular, isto é, a doutrina evangélica, chamada quadrangular por causa dos ensinamentos dos quatro evangelistas; e dela deve derramar o óleo da pregação sobre a cabeça de Saul, isto é, sobre a mente do pecador. Saul interpreta-se “aquele que abusa” e representa adequadamente o pecador, que abusa dos dons da graça e da natureza.

Observai que o óleo unge e ilumina. Assim, a pregação unge e torna maleável a pele envelhecida nos dias maus (cf. Dn 13,52) e endurecida pelos pecados, isto é, a consciência do pecador; ou unge o atleta de Cristo e o envia ao combate, para debelar as potências do ar. Por isso se diz no Terceiro Livro dos Reis que Sadoc ungiu Salomão em Gion (cf. 3Rs 1,45). Sadoc interpreta-se “justo” e significa o pregador que, como sacerdote, oferece o sacrifício da justiça sobre o altar da Paixão do Senhor. Este ungiu Salomão, que interpreta-se “pacífico”, em Gion, que interpreta-se “luta”; pois o pregador deve ungir com o óleo da pregação o pecador convertido para a luta, a fim de que não consinta com o demônio que o instiga, esmague as lisonjas da carne e despreze o mundo enganador. O óleo também ilumina, porque a pregação ilumina o olho da razão, para que possa ver o raio do verdadeiro sol. Em nome, portanto, de Jesus Cristo, tomarei a ampola deste santo Evangelho e dela derramarei o óleo da pregação, com o qual sejam iluminados os olhos deste cego, do qual se diz: “Um cego estava sentado” etc.

2. Neste domingo, lê-se o Evangelho sobre a iluminação do cego, no qual se faz menção à Paixão de Cristo; e lê-se e canta-se a história da peregrinação de Abraão e da imolação de seu filho Isaac. E, no intróito da Missa: “Sê para mim, Senhor, o Deus protetor”; e lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Coríntios: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos”, etc. Portanto, para a honra de Deus e a iluminação de vossa alma, harmonizemos entre si todas estas coisas.

I. A cegueira da alma

3. “Um cego estava sentado”, etc. Deixando de lado, por ora, todos os outros cegos iluminados pelo Senhor, queremos mencionar apenas três. Nota: o primeiro é o cego evangélico de nascença, iluminado com lodo e saliva (cf. Jo 9,1-7); o segundo, Tobias, cegado pelo esterco das andorinhas, mas curado com o fel do peixe (cf. Tb 2,11; 11,13-15); o terceiro, o bispo de Laodiceia, a quem o Senhor diz no Apocalipse: “Não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu? Aconselho-te a comprar de mim ouro provado e purificado pelo fogo, para que te tornes rico, e a vestir-te com vestes brancas, para que não apareça a vergonha da tua nudez; e unge teus olhos com colírio, para que vejas” (Ap 3,17-18). Vejamos o que significam cada um destes cegos.

O cego de nascença significa alegoricamente o gênero humano, cegado nos primeiros pais; Jesus o iluminou quando cuspiu por terra e untou com lodo os seus olhos. A saliva que desce da cabeça significa a divindade; a terra representa a humanidade. A união da saliva com a terra é a união da natureza divina com a natureza humana, pela qual o gênero humano foi iluminado. E estas duas coisas significam as palavras do cego, sentado à beira do caminho e clamando: “Tem misericórdia de mim”, o que se refere à divindade, “Filho de Davi”, o que se refere à humanidade.

4. Moralmente, este cego significa o soberbo, cuja soberba é assim descrita pelo profeta Abdias: “Se fores exaltado como a águia e colocares o teu ninho entre as estrelas, de lá te farei descer, diz o Senhor” (Ab 1,4). A águia, que voa mais alto que as demais aves, significa o soberbo, que, com duas asas, a saber, a arrogância e a vanglória, deseja parecer superior a todos. A este se diz: “Se colocares o teu ninho”, isto é, a tua vida, “entre as estrelas”, ou seja, entre os santos, que neste lugar tenebroso (cf. 2Pd 1,19) brilham como estrelas no firmamento, “de lá te farei descer, diz o Senhor”. Com efeito, o soberbo procura colocar o ninho de sua vida na companhia dos santos. Por isso, diz Jó: “A pena do avestruz”, isto é, do hipócrita, “é semelhante às penas da cegonha e do açor” (Jó 39,13), isto é, do homem justo. E nota que o ninho tem em si três características: por dentro é composto de coisas macias, por fora é construído de coisas duras e ásperas, e é colocado em lugar inseguro, exposto ao vento. Assim, a vida do soberbo tem por dentro certa suavidade, isto é, o prazer carnal, mas por fora está cercada de espinhos e lenhos secos, isto é, de obras mortas; além disso, exposta ao vento da vaidade, encontra-se em situação precária, porque não sabe se será tirada do meio dos vivos à tarde ou pela manhã. E isto é o que se acrescenta: “De lá te farei descer”, isto é, arrastar-te-ei para baixo, aos infernos, “diz o Senhor”. Por isso, diz-se no Apocalipse: “Quanto se exaltou e viveu em delícias, tanto dai-lhe de tormentos” (Ap 18,7).

5. E nota que este cego soberbo é iluminado com saliva e lodo. A saliva é o sêmen do pai, que é lançado na matriz lodosa da mãe, na qual é gerado o miserável ser humano; a soberba certamente não o cegaria, se ele considerasse a condição tão miserável de sua geração. Por isso, Isaías diz: “Considerai a pedra de onde fostes talhados e a caverna do lago de onde fostes extraídos” (Is 51,1). A pedra é o nosso pai carnal; a caverna do lago é a matriz de nossa mãe. Daquele somos cortados na fétida emissão do sêmen; desta somos extraídos no parto doloroso.

Por que, então, te ensoberbeces, ó miserável ser humano, gerado de tão vil saliva, procriado em tão horrível lago e ali alimentado durante nove meses com sangue menstrual? Se os frutos do campo forem tocados por ele, não germinarão; os mostos se tornarão azedos; as ervas morrerão; as árvores perderão seus frutos; a ferrugem atacará o ferro; os bronzes enegrecerão; e, se os cães dele comerem alguma coisa, serão tomados de raiva, tornando-se perigosos com suas mordidas, pelas quais tornam as pessoas hidrófobas. Além disso, as próprias mulheres, às quais há menos necessidade, enquanto estão em seu período, não olham com olhos inocentes. Com o olhar, danificam os espelhos, de modo que o fulgor atingido se enfraquece na visão, e o brilho extinto perde a habitual semelhança do rosto, que se obscurece com uma espécie de névoa de brilho embotado (cf. Solino, “Polí-histor”). Se, ó miserável homem, ó soberbo cego, meditares atentamente sobre estas coisas e considerares que foste gerado de lodo e saliva, verdadeiramente, verdadeiramente serás iluminado, verdadeiramente serás humilhado.

E que a autoridade de Isaías acima citada se refira à geração carnal, mostra-se clarissimamente quando acrescenta: “Considerai Abraão, vosso pai, e Sara, que vos deu à luz” (Is 51,2). A este cego soberbo o Senhor ordena, dizendo: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai”, etc. (Gn 12,1). Nota aqui três espécies de soberba: contra o inferior, o igual e o superior. O soberbo calca aos pés, despreza e escarnece: calca aos pés o inferior como terra, que se chama assim de tero, teris, isto é, calcar; despreza o igual como se fosse de sua parentela, pois o soberbo facilmente despreza e escandaliza parentes e afins; e também escarnece do superior como da casa do pai. O superior é chamado “casa do pai”, porque o súdito, estando sob ele, como o filho sob a casa paterna, deve esconder-se da chuva da concupiscência carnal, da tempestade da perseguição demoníaca e do ardor da prosperidade mundana. Mas o cego soberbo escarnece do superior com o escárnio que se manifesta franzindo o nariz. Diz, portanto, o Senhor: “Sai”, ó soberbo cego, “da tua terra”, para não calcares aos pés o inferior; sai “da tua parentela”, para não desprezares o igual; “e da casa de teu pai”, para não escarneceres do superior.

6. Segue: “E vai para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12,1). A terra é a humanidade de Jesus Cristo, da qual o Senhor diz a Moisés no Êxodo: “Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Ex 3,5). As sandálias são as obras mortas, que deves desatar, isto é, retirar, dos pés, ou seja, dos afetos de tua mente, porque a terra, isto é, a humanidade de Jesus Cristo, na qual estás pela fé, é santa e te santifica, a ti pecador. Vai, portanto, ó soberbo, para a terra; considera a humanidade de Cristo, contempla a sua humildade, rebaixa o orgulho de teu coração. Vai, digo, com os passos do amor, aproxima-te com a humildade do coração, dizendo com o Profeta: “Em tua verdade me humilhaste” (Sl 118,75). Ó Pai, em tua verdade, isto é, em teu Filho, humilhado, pobre e peregrino, humilhaste-me: humilhado, digo, no ventre da Virgem; pobre no presépio dos animais; peregrino no patíbulo da cruz. Nada humilha tanto o pecador soberbo quanto a humildade da humanidade de Jesus Cristo. Por isso Isaías: “Quem dera rasgasses os céus e descesses; diante de tua face, os montes se derreteriam” (Is 64,1). Diante de sua face, isto é, na presença da humanidade de Jesus Cristo, “os montes”, isto é, os soberbos, desfazem-se e desfalecem em si mesmos, quando contemplam a cabeça da divindade inclinada no ventre da Virgem Mãe.

Vai, portanto, para a terra que te indiquei como que com o dedo no rio Jordão, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazi” (Mt 3,17). Também tu serás “o amado, em quem me comprazi”, filho adotivo pela graça, se, a exemplo de meu Filho, que é igual a mim, te tiveres humilhado; e por isso to mostrei, para que, a partir da forma de sua vida, conformasses o comportamento de tua vida, e, assim conformado, recebesses a luz, podendo então ouvir: “Vê, a tua fé te salvou” (Lc 18,42), ela te iluminou a ti mesmo.

7. O segundo cego, cegado pelo esterco das andorinhas, mas curado pelo fel do peixe, é Tobias, do qual se diz em seu livro: “Aconteceu que, certo dia, fatigado por um sepultamento, ao voltar para casa, lançou-se junto à parede e adormeceu; e, de um ninho de andorinhas, caíram-lhe esterco sobre os olhos enquanto dormia, e ele ficou cego” (Tb 2,10-11). Vejamos brevemente o que significam Tobias, o sepultamento, a casa, a parede, o adormecimento, o ninho, as andorinhas e o esterco delas. Tobias significa o justo tíbio; o sepultamento, a penitência; a casa, o cuidado da carne; a parede, o prazer da carne; o adormecimento, o torpor da negligência; o ninho, o consentimento da mente afeminada; as andorinhas, os demônios; o esterco, a gula e a luxúria. Digamos, portanto: Tobias, “fatigado pelo sepultamento” etc.

Tobias significa o justo tíbio, do qual diz o Senhor no Apocalipse: “Porque não és frio”, pelo temor da pena, “nem quente”, pelo amor da graça, “mas porque és tíbio”, por isso “começarei a vomitar-te de minha boca” (Ap 3,15-16). Assim como a água morna provoca o vômito, também a tibieza e a negligência expulsam do ventre da misericórdia divina o ocioso e o tíbio. “Maldito”, diz Jeremias, “aquele que fizer negligentemente a obra do Senhor” (cf. Jr 48,10).

Este, fatigado pelo sepultamento, vai para casa quando, no labor da penitência — na qual e sob a qual deve esconder os corpos mortos, isto é, os pecados mortais, para estar entre aqueles dos quais se diz: “Felizes aqueles cujos pecados foram cobertos” (Sl 31,1) — se aflige pelo tédio e retorna ao cuidado de sua carne, que busca contra o ensinamento do Apóstolo, em seus desejos (cf. Rm 13,14).

Por isso acrescenta-se: “Lançou-se junto à parede”. A parede é o prazer da carne. Assim como numa parede uma pedra é colocada sobre outra e unida pelo cimento, assim, no prazer da carne, o pecado da vista se une ao pecado do ouvido, o pecado do ouvido ao pecado do gosto, e assim com cada um dos sentidos; e todos se unem e se prendem tenazmente pelo cimento do mau costume. Então ele adormece, dissolvido pelo torpor da negligência, e acontece o esterco das andorinhas sobre os olhos do que dorme.

As andorinhas, por causa de seu voo muito veloz, significam os demônios, cuja soberba quis voar acima das estrelas do céu, até a altura das nuvens, até a igualdade com o Pai, até a semelhança com o Filho (cf. Is 14,13-14).

O ninho dos demônios é o consentimento da mente afeminada, feito com as penas da vanglória e com o lodo da lascívia. Desse ninho caem o esterco da gula e da luxúria sobre os olhos do Tobias adormecido, e assim ficam cegos os olhos, isto é, a razão e o intelecto da infeliz alma.

8. Prestai atenção, caríssimos, e acautelai-vos de tão funesto processo: do tédio da sepultura, isto é, do desgosto da penitência, chega-se à casa do cuidado carnal; esta, sob a aparência da necessidade, encosta-se à parede do prazer e, enquanto a alma é oprimida pelo sono da negligência, fica cegada pelo esterco da luxúria. Donde diz o Poeta: “Pergunta-se por que Egisto se tornou adúltero. A causa é evidente: vivia na ociosidade” (Ovídio, Remédios do amor). Clama, pois, ó Tobias tíbio, ó cego luxurioso, que jazes junto à parede: “Tem piedade de mim, Filho de Davi”.

Por isso, este cego, no introito da missa de hoje, pede para ser iluminado, dizendo: “Sê para mim um Deus protetor” etc. (Sl 30,3-4). Observa que ele pede quatro coisas: primeiro, quando diz: “Sê para mim um Deus protetor”, para que, com os braços estendidos na cruz, como a galinha protege os pintinhos sob as asas, me protejas e defendas; segundo, quando diz: “e um lugar de refúgio”, para que em teu lado, traspassado pela lança, eu encontre um lugar de refúgio, onde possa esconder-me da face do inimigo; terceiro, quando diz: “porque és o meu sustentáculo”, para que eu não caia, “e o meu refúgio”, isto é, o meu retrocesso, “és tu”, para que, se eu cair, recorra a ti e não a outro; quarto, quando diz: “e por causa do teu nome”, que é “Filho de Davi”, “serás meu guia”, a mim, cego, porque me darás a mão da misericórdia “e me nutrirás com o leite” da tua graça. “Tem, pois, piedade de mim, Filho de Davi”.

II. A Paixão de Cristo

9. O Filho de Deus e de Davi, o anjo do grande conselho, remédio e médico do gênero humano, aconselha-te no mesmo livro, dizendo: “Abre o peixe, extrai-lhe a bílis, unge os olhos” (cf. Tb 6,5.9), e assim poderás recuperar a vista. Alegoricamente, o peixe é Cristo, que por nós foi assado na grelha da cruz. A sua bílis é a amargura da Paixão; se com ela forem ungidos os olhos da tua alma, recuperarás a vista. Com efeito, a amargura da Paixão do Senhor expulsa toda a cegueira da luxúria e todo o esterco da concupiscência carnal. Por isso, disse um sábio: “A memória do Crucificado crucifica os vícios”. Daí o que se diz no livro de Rute: “Mergulha o teu bocado no vinagre” (Rt 2,14). O bocado é o mesquinho e momentâneo prazer da carne, que deves mergulhar no vinagre, isto é, na amargura da Paixão de Jesus Cristo.

Por isso, o Senhor te ordena aquilo que ordenou a Abraão na narrativa deste domingo, dizendo: “Toma o teu filho, que amas, Isaac, e vai à terra da visão; e oferece-o ali a mim em holocausto” (Gn 22,2). Isaac interpreta-se “riso” ou “alegria” e significa, moralmente, a nossa carne, que ri quando as coisas temporais lhe sorriem e se alegra quando satisfaz os seus desejos. A respeito dessas duas coisas diz Salomão no Eclesiastes: “Ao riso”, isto é, às coisas temporais, “considerei um erro”, porque fazem errar o caminho da verdade, “e à alegria”, isto é, da carne, “disse: Por que te enganas em vão?” (Ecl 2,2).

Toma, pois, o teu filho, a tua carne, que amas e nutres com tanto afeto; e tu, pobre homem, não sabes que não há peste mais eficaz para causar dano do que o inimigo familiar? “Aquele que”, diz Salomão, “nutre delicadamente o seu servo desde a infância há de senti-lo rebelde” (Pr 29,21). “Toma-o, pois, toma-o, crucifica-o, crucifica-o” (Jo 19,15). “É réu de morte” (Mt 26,66). Pilatos responde, isto é, o afeto carnal: “Que mal fez ele?” (Mt 27,23). Ó quantos males o teu riso, o teu filho, fez! Desprezou a Deus, escandalizou o próximo, causou a morte da própria alma. E tu dizes: “Que mal fez ele?” Toma-o, pois, e vai à terra da visão.

10. Jerusalém foi chamada “terra da visão”, e dela se diz no evangelho de hoje: “Jesus tomou consigo, em particular, os seus doze discípulos e disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém” (Mt 20,17-18). Toma também tu o teu filho, sobe com Jesus e os apóstolos a Jerusalém e, ali, oferece no altar, isto é, na meditação da Paixão do Senhor, sobre a cruz da penitência, o teu corpo em holocausto. E nota que ele diz “em holocausto”. Holocausto vem de holon, que significa “todo”, e cauma, que significa “combustão”; daí holocausto, como que “todo queimado”. Oferece, portanto, todo o teu filho, todo o teu corpo, a Jesus Cristo, que se ofereceu inteiramente a Deus Pai, para destruir por completo o corpo do pecado (cf. Rm 6,6).

Nota que, assim como o corpo humano é constituído de quatro elementos: fogo, ar, água e terra — o fogo vigora nos olhos, o ar na boca, a água nos lombos, a terra nas mãos e nos pés —, assim também no corpo do pecador, que serve ao pecado, o fogo vigora nos olhos pela curiosidade, o ar na boca pela loquacidade, a água nos lombos pela luxúria, a terra nas mãos e nos pés pela crueldade. Mas o Filho de Deus teve velado o rosto, no qual os anjos desejam contemplar (cf. 1Pd 1,12), para reprimir a curiosidade dos teus olhos; diante daquele que não digo apenas tosquiava, mas matava, permaneceu em silêncio e, enquanto era maltratado, não abriu a boca (cf. Is 53,7; At 8,32), para refrear a tua loquacidade; o seu lado foi aberto pela lança, para extrair de ti a umidade da luxúria; foi pregado pelas mãos e pelos pés com cravos, para expulsar de tuas mãos e de teus pés a crueldade. Toma, portanto, o teu filho, o teu riso, a tua carne, e oferece-o todo em holocausto, para que ardas inteiramente de caridade, que “cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8).

Dela diz o Apóstolo na epístola de hoje: “Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos, mas não tiver caridade, torno-me como um bronze que soa ou um címbalo que retine” (1Cor 13,1). Diz Agostinho: Chamo caridade ao movimento da alma que visa gozar de Deus por causa dele mesmo, e de si mesma e do próximo por causa de Deus.

Quem não a possui, ainda que faça muitas coisas boas, do gênero das boas obras, trabalha em vão; e por isso diz o Apóstolo: “Se eu falar as línguas dos homens” etc. A caridade conduziu o Filho de Deus ao patíbulo da cruz. Por isso se diz no Cântico dos Cânticos: “O amor é forte como a morte” (Ct 8,6). Ali, o bem-aventurado Bernardo: Ó caridade, quão forte é o teu vínculo, pelo qual até o Senhor pôde ser atado! Toma, portanto, o teu filho e oferece-o no altar da Paixão de Jesus Cristo; por seu fel, isto é, por sua amargura, serás iluminado e merecerás ouvir: “Vê, a tua fé te salvou” (Lc 18,42), ela te iluminou.

11. Ou de outro modo. Tobias foi iluminado com a bílis do peixe. A carne do peixe é saborosa, mas a bílis é amarga; e, se a carne do peixe for salpicada com ela, também se torna toda amarga. A carne do peixe é o prazer da luxúria, e a bílis escondida dentro dele é a amargura da morte eterna. Por isso, Jó, com o mesmo sentido, embora com palavras diferentes, diz: “A raiz dos zimbros era o alimento deles” (Jó 30,4). Observa que a raiz do zimbro é doce e comestível, mas tem espinhos em lugar de folhas; assim, o prazer da luxúria, que é o alimento dos homens carnais, no presente parece doce, mas no fim dará à luz as picadas da morte eterna.

“Abre”, pois, “o peixe”, isto é, considera quão vil é o prazer do pecado. “Extrai a bílis”, isto é, atenta para a pena que é devida ao pecado e para o fato de que ela não tem fim; e assim poderás transformar em amargura toda a doçura da tua carne.

12. O terceiro cego foi o anjo de Laodiceia, iluminado com o colírio. Laodiceia interpreta-se “tribo amada pelo Senhor” e significa a santa Igreja, por cujo amor o Senhor derramou o seu sangue e da qual, como da tribo de Judá, escolheu o sacerdócio régio. O anjo de Laodiceia é o bispo ou prelado da santa Igreja, que é bem chamado anjo por causa da dignidade de seu ofício, a respeito do qual o profeta Malaquias diz: “Os lábios do sacerdote guardam a ciência, e da sua boca se busca a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos Exércitos” (Ml 2,7).

Observa que nesta passagem são assinaladas cinco coisas muito necessárias ao bispo ou prelado da Igreja: a vida, a fama, a ciência, a abundância da caridade e a túnica talar da pureza. Os lábios do sacerdote são dois: a vida e a fama, que devem guardar a ciência, para que aquilo que ele sabe e prega guarde a vida quanto a si mesmo e a ciência quanto ao próximo. Com efeito, destes dois lábios procede a ciência de uma pregação frutuosa. E, se estas três coisas tiverem precedido no prelado, de sua boca os súditos buscarão a lei, isto é, a caridade, da qual diz o Apóstolo: “Carregai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6,2), isto é, a caridade; pois Cristo, somente por caridade, carregou em seu corpo, sobre o lenho, o peso de nossos pecados. A lei é a caridade, que os súditos buscam, isto é, procuram exteriormente, primeiro na obra, para depois recebê-la com mais suavidade e proveito da boca do prelado: “Jesus começou a fazer e a ensinar” (At 1,1). Com efeito, “era poderoso em obras e palavras” (Lc 24,19).

13. Segue-se: “Porque é o anjo do Senhor dos exércitos”. Eis a estola da pureza interior. Com efeito, viver na carne, além da carne, como diz Jerônimo, é próprio não da natureza humana, mas da celeste. Mas ao anjo de Laodiceia, isto é, ao prelado da Igreja, que carece destas cinco virtudes, o Senhor o repreende severamente, quando acrescenta: “Tu és infeliz e miserável, cego, pobre e nu”. És infeliz na vida, miserável na fama, cego no conhecimento, pobre na caridade, nu da túnica talar da pureza. Mas, porque o Senhor sabe curar os males com remédios contrários, e, quando corrige, instrui, e, enquanto fere, unge, por isso aconselha o bispo cego de Laodiceia, quando acrescenta: “Aconselho-te a comprar de mim ouro provado pelo fogo, comprovado, para que te tornes rico, e a vestires-te de vestes brancas, para que não apareça a vergonha da tua nudez; e unge teus olhos com colírio, para que vejas. Aconselho-te”, diz ele, “a comprar de mim”, e não do mundo, isto é, pelo preço da boa vontade, “ouro” de vida preciosa, contra a escória da tua vida infeliz; “provado pelo fogo” da caridade, contra a miséria da tua pobreza; “comprovado” no cadinho da boa fama, contra o fedor da tua infâmia; “e a vestires-te de vestes brancas”, contra a nudez da tua deformidade; “e unge teus olhos com colírio”, contra a cegueira da tua insensatez.

14. E observa que este colírio, com o qual se iluminam os olhos da alma, é composto de cinco palavras da Paixão do Senhor, como que de cinco ervas, das quais se diz no Evangelho de hoje: “Será entregue aos gentios, será escarnecido, flagelado e coberto de cusparadas; e, depois de o flagelarem, o matarão” (Lc 18,32-33). Ai! Ai! A liberdade dos cativos é entregue, a glória dos anjos é escarnecida, o Deus de todos é flagelado, o espelho sem mancha e o esplendor da luz eterna (cf. Sb 7,26) é coberto de cusparadas, a vida dos moribundos é morta; e que nos resta fazer, a nós miseráveis, senão ir e morrer com ele? (cf. Jo 11,16). “Atrai-nos”, diz ele, “ó Senhor Jesus, para fora do lodo da imundície, com o gancho da tua cruz, para que possamos correr, não digo ao perfume (cf. Ct 1,3), mas à amargura da tua Paixão. Ó minha alma, prepara para ti o colírio, faze para ti um pranto amargo pela morte do Unigênito (cf. Jr 6,26), pela Paixão do Crucificado. O Senhor inocente é entregue pelo discípulo, escarnecido por Herodes, flagelado pelo governador, coberto de cusparadas pela plebe dos judeus, crucificado pela coorte dos soldados; tratemos brevemente de cada um destes fatos.

15. Foi entregue por um de seus discípulos. Judas disse: “Que quereis dar-me, e eu vo-lo entregarei?” (Mt 26,15).

Ó dor! Tenta-se pôr um preço naquilo que é inestimável. Ai! Ai! Deus é traído e vendido por pouco dinheiro. “Que quereis dar-me?” Ó Judas, queres vender Deus, o Filho de Deus, como um escravo sem valor, como um “cão morto”, pois indagas não a tua vontade, mas a dos compradores. “Que quereis dar-me?” E que podem eles dar-te? Se te dessem Jerusalém, a Galileia e a Samaria, poderiam acaso comprar Jesus? Se pudessem dar-te o céu e os anjos, a terra e os homens, o mar e tudo quanto nele há, poderiam acaso comprar o Filho de Deus, “no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2,3)? Certamente não! Pode acaso o Criador ser comprado ou vendido pela criatura? E tu dizes: “Que quereis dar-me, e eu vo-lo entregarei”? Dize-me: em que ele te ofendeu e que mal te fez, para dizeres: “Eu vo-lo entregarei”? Onde está aquela incomparável humildade do Filho de Deus e a sua pobreza voluntária? Onde estão a sua bondade e afabilidade? Onde está aquela doce pregação e a realização de milagres? Onde estão aquelas piedosíssimas lágrimas derramadas sobre Jerusalém e pela morte de Lázaro? Onde está o privilégio pelo qual ele te escolheu como apóstolo e te fez seu amigo íntimo? Estes fatos e outros semelhantes não deveriam ter enternecido o teu coração e te levado à misericórdia, para que não dissesses: “Eu vo-lo entregarei”? Oh! Quantos Judas Iscariotes há hoje — nome que se interpreta “recompensa” — que, pela recompensa de alguma vantagem temporal, vendem a verdade, entregam o próximo com um beijo de adulação e assim, por fim, se enforcam no laço da condenação eterna.

16. Foi também escarnecido por Herodes. Por isso se diz em Lucas: “Herodes, com o seu exército, desprezou-o e, para escarnecê-lo, fê-lo vestir uma veste branca” (Lc 23,11). O Filho de Deus é desprezado por aquele Herodes, raposa — “Ide”, disse ele, “e dizei àquela raposa” (Lc 13,32) —, e pelo seu exército, enquanto o exército dos anjos, com voz incessante, proclama: Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos; a quem, como diz Daniel, milhares de milhares servem e dez mil vezes cem mil assistem (cf. Dn 7,10). “E, para escarnecê-lo”, diz, “fê-lo vestir uma veste branca” (símbolo da loucura). O Pai revestiu seu Filho Jesus de uma veste branca, isto é, de carne limpa de toda mancha de pecado, assumida da Virgem imaculada. Deus Pai glorificou o Filho, a quem Herodes desprezou. O Pai o revestiu de uma veste branca, e Herodes escarneceu dele, vestido do mesmo modo. Que dor! Assim acontece também hoje! Herodes interpreta-se “glória da pele” e significa o hipócrita, que se gloria da aparência exterior, como que de uma pele, quando “toda a glória da filha”, isto é, da alma, “do rei” celeste, está “em seu interior” (Sl 44,14). Este despreza e escarnece de Jesus: despreza-o quando prega o Crucificado, mas não traz as marcas do Crucificado; escarnece dele quando se esconde sob a glória da pele, para poder enganar os membros de Cristo. A flauta toca docemente enquanto o passarinheiro engana a ave (Catão). Quantos não engana também hoje a glória da pele herodiana!

17. Foi também açoitado por Pôncio Pilatos. Por isso, em João: “Então Pilatos tomou Jesus e o açoitou” (Jo 19,1). Diz Isaías: “Quando passar o flagelo devastador, sereis para ele uma coisa pisada; sempre que passar, vos levará” (Is 28,18-19). Para que esse flagelo, pelo qual se entendem a morte eterna ou o poder do diabo, não nos pisoteasse, o Deus de todos, o Filho de Deus, foi amarrado à coluna como um ladrão e açoitado com extrema crueldade, a ponto de o sangue jorrar de todas as partes do corpo.

Ó mansidão da misericórdia divina, ó paciência da bondade paterna, ó profundo e inescrutável mistério do eterno desígnio! Tu vias, ó Pai, o teu Unigênito, igual a ti, ser amarrado à coluna como um ladrão e dilacerado pelos açoites como um homicida; e como pudeste conter-te? Nós te damos graças, ó Pai santo, porque pelas cadeias e pelos açoites de teu Filho amado fomos libertados das cadeias do pecado e dos açoites do diabo. Mas, ai de nós!, Pôncio Pilatos açoita novamente Jesus Cristo. Pôncio interpreta-se “desviante”, e Pilatos, “malhador”, ou ainda “aquele que golpeia com a boca”, e significa aquele que se desvia do bom propósito e, depois do voto, retorna ao vômito. Este, com sua boca blasfema e com o martelo da língua, golpeia e açoita Cristo em seus membros; tendo saído, com Satanás, da presença do Senhor (cf. Jó 2,7), calunia a Ordem, chama um de soberbo, acusa outro de guloso e, para parecer ele próprio inocente, julga os outros culpados, a fim de poder ocultar sua iniquidade sob a desonra de muitos.

18. Foi também coberto pelos escarros dos judeus. Então, diz Mateus, “cuspiram-lhe no rosto e deram-lhe murros; outros lhe deram bofetadas no rosto” (Mt 26,67). Ó Pai, a cabeça de teu Filho Jesus, que infunde temor aos arcanjos, é golpeada com uma cana; o rosto, no qual os anjos desejam fixar o olhar (cf. 1Pd 1,12), é conspurcado pelos escarros dos judeus, ferido por suas bofetadas; sua barba é arrancada, ele é golpeado com murros e arrastado pelos cabelos. E tu, ó clementíssimo, te calas e dissimulas, preferindo que um só, o teu único Filho, seja assim coberto de escarros e esbofeteado, a que pereça todo o povo (cf. Jo 11,50). A ti o louvor, a ti a glória, porque dos escarros, das bofetadas e dos murros recebidos por teu Filho Jesus fizeste para nós a teriaca, o antídoto que expelisse o veneno de nossa alma.

Ou de outro modo. O rosto de Jesus Cristo são os prelados da Igreja, por meio dos quais, como por meio do rosto, conhecemos a Deus. Nesse rosto os pérfidos judeus, isto é, os súditos perversos, cospem quando caluniam e amaldiçoam os próprios prelados, apesar de o Senhor proibir isso, dizendo: “Não amaldiçoarás o chefe do teu povo” (At 23,5; cf. Ex 22,28).

19. Por fim, foi crucificado pelos soldados. Diz João: “Depois de o crucificarem, os soldados tomaram as suas vestes” etc. (Jo 19,23). “Ó vós todos que passais pelo caminho”, detende o passo, “considerai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1,12). Os discípulos fogem, os conhecidos e amigos se afastam, Pedro nega, a Sinagoga coroa-o de espinhos, os soldados crucificam-no, os judeus blasfemam, escarnecendo dele, e dão-lhe de beber fel e vinagre; e que dor é semelhante à minha dor? “As suas mãos torneadas”, como diz a esposa no Cântico dos Cânticos, “de ouro, cheias de jacintos” (Ct 5,14), foram transpassadas por cravos. Os pés, aos quais o próprio mar se ofereceu para ser calcado, foram pregados à cruz. O rosto, que resplandece como o sol em todo o seu fulgor (cf. Ap 1,16), cobriu-se da palidez da morte. Os olhos amados, para os quais nenhuma criatura é invisível, fecharam-se na morte. E que dor é semelhante à minha dor? Em meio a todo esse sofrimento, somente o Pai lhe prestou auxílio; em suas mãos ele confiou o espírito, dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). E, depois de dizer isso, “inclinando a cabeça”, ele que em outro lugar não tivera onde reclinar a cabeça, “entregou o espírito” (Jo 19,30).

Mas, ai! ai! Todo o corpo místico de Cristo, que é a Igreja (cf. Cl 1,24), é novamente crucificado e morto. Nele, uns são a cabeça, outros as mãos, outros os pés, outros o corpo. A cabeça são os contemplativos, as mãos são os que levam vida ativa, os pés são os santos pregadores, o corpo são todos os verdadeiros cristãos. Todo esse corpo de Cristo é crucificado diariamente pelos soldados, isto é, pelos demônios, com suas sugestões, como que com certos cravos; os judeus, os pagãos e os hereges blasfemam contra ele e dão-lhe de beber o fel e o vinagre dos tormentos e da perseguição. E não é de admirar: “pois todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrerão perseguição” (2Tm 3,12).

Diz-se, portanto, com razão: “Será entregue, será escarnecido, será flagelado, será coberto de escarros e será crucificado”. Com estas cinco palavras, como que com cinco ervas preciosíssimas, prepara para ti o colírio, ó anjo de Laodiceia, e unge os olhos de tua alma, para que recuperes a luz e possas ouvir: “Vê! A tua fé te salvou” (Lc 18,42).

Oremos, pois, caríssimos, e peçamos insistentemente, com a devoção da mente, que o Senhor Jesus Cristo, que iluminou o cego de nascença, Tobias e o anjo de Laodiceia, se digne iluminar os olhos de nossa alma com a fé em sua Encarnação, com o fel e o colírio de sua Paixão, para que mereçamos contemplar, no esplendor dos santos e no fulgor dos anjos, o próprio Filho de Deus, luz da luz; ele o conceda, aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.