Livro I · Capítulo 32

A Igreja de Monjas The Church for Nuns

Livro I — A construção da igreja · 12 seções · 32 parágrafos · 11 notas da tradutora · português, com o inglês a um clique

Depois de descrever a forma das outras igrejas, damos agora instruções acerca da igreja das monjas. Esta igreja poderá ser construída de modo a consistir somente em uma nave e deverá estar voltada para o leste, se o local do mosteiro o permitir. Seu tamanho deverá ser proporcional ao local; poderá ter teto abobadado ou em caixotões e, quanto ao restante, será construída conforme prescrito acima.

O altar-mor

Não haverá capela-mor, mas uma parede transversal que divide a parte mais interior da igreja da parte externa, onde o sacerdote celebra a missa. O altar deverá encostar-se a essa parede transversal, no centro dela, e corresponderá, em altura, comprimento e largura, às normas estabelecidas para o altar-mor.

Haverá três degraus que conduzam ao altar, incluindo a predela: cada degrau deverá obedecer às medidas e à forma prescritas. A predela deverá obedecer aos critérios anteriormente estabelecidos para a construção do altar-mor.

A janela que deve ser instalada acima do altar-mor

Será aberta uma janela na parede transversal, diante do altar, pela qual as monjas possam ver e ouvir a missa.(1)

A janela terá a mesma largura do altar e cerca de dois côvados de altura. O peitoril da janela estará pelo menos um côvado e dez onças acima da mesa do altar.(2) A janela terá duas grades de ferro semelhantes, colocadas a cerca de doze onças uma da outra. As barras de cada grade serão dispostas bem próximas, com não mais de três onças entre elas, e firmemente unidas e fixadas, de modo que não possam ser facilmente arrancadas ou separadas. Do lado de dentro, a janela terá postigos, com ferrolho e chave. Estes poderão ser abertos lateralmente ou levantados por meio de uma roldana e de uma corda.(3)

O altar poderá ter um arco sobre ele, tornando a parede mais espessa [nesse ponto], ou então poderão ser construídas duas pequenas colunas ou pilastras não muito afastadas da parede, sobre as quais se apoiará a abertura abobadada ou em arco. Essas pequenas colunas ficarão a uma distância de dois côvados de cada extremidade do altar.

Se não houver abóbada, o altar terá uma cobertura de madeira ou um dossel de seda ou tecido, convenientemente decorado, chamado capocoelium.

A janela pela qual são passados os paramentos sagrados

Na parede transversal entre a igreja interna e a externa, do lado da sacristia das monjas, haverá uma abertura,(4) com uma roda (do mosteiro), pela qual poderão ser passados os paramentos necessários para a celebração da Santa Missa.

A roda (do mosteiro) e a janela ficarão a aproximadamente três côvados do piso. A própria roda será concebida de modo que se encaixe inteiramente na espessura da parede, que, nesse ponto, será engrossada mediante a aplicação de reboco adicional.

A janela será provida de duas folhas de portada em ambos os lados, um conjunto do lado das monjas e outro no exterior. Todas serão devidamente trancadas. A estrutura da janela e da roda (do mosteiro) seguirá as prescrições dadas abaixo a respeito da construção das rodas (do mosteiro) em geral.

A pequena abertura para administrar a Sagrada Comunhão

Do outro lado do altar, na mesma parede transversal, haverá outra pequena abertura, decorada com escultura piedosa e douramento, pela qual as monjas recebem a Comunhão. (5) O peitoril da janela será plano e ficará dois côvados e dezesseis onças acima do piso da igreja. Do lado externo, a janela terá um côvado e doze onças de largura e um côvado e dezoito onças de altura, [enquanto no interior será menor, como se explica abaixo], de modo que, à vista, pareça mais larga no exterior e mais estreita no interior.

Essa abertura aproveitará toda a espessura da parede, de um côvado de profundidade, de tal modo que, no interior, do lado das monjas [com as laterais da abertura recuadas], a parede não terá mais de duas ou três onças de espessura. Nessa parte da parede, de um côvado quadrado, será aberta a pequena janela, de oito onças de altura e seis de largura, pela qual a sagrada Eucaristia será dada às monjas.

Em seu lado interno, a pequena abertura terá folhas de portada de ferro ou bronze, bem-feitas, fechadas com ferrolho e fechadura. No lado externo haverá folhas de portada um tanto maiores, que cobrirão toda a abertura, com fechadura, chave e ferrolho.

No piso da igreja, diretamente sob a pequena janela, será colocado um pequeno escabelo, de oito onças de altura, que poderá ser coberto com um tapete, para que o sacerdote permaneça sobre ele enquanto administra a Sagrada Comunhão às monjas. O escabelo poderá ser mais alto ou mais baixo, conforme a altura do sacerdote.

No lado interno, onde ficam as monjas, poderá ser colocado outro escabelo, com no mínimo dois côvados de cada lado, com alguns degraus que conduzam até ele, de modo que, quando as monjas se ajoelharem sobre o escabelo, suas bocas fiquem no nível da pequena janela pela qual recebem a Sagrada Comunhão. Não devem sobressair da parede obstáculos de madeira, para que a monja que recebe o sacramento possa aproximar-se mais facilmente da pequena abertura.(6)

A janela para as relíquias sagradas

Além disso, será aberta outra abertura na parte externa da parede, acima da pequena janela pela qual se recebe a Sagrada Comunhão. As santas relíquias, se houver alguma, serão aqui guardadas de modo correto e ordenado. No lado interno, essa janela terá dezesseis onças de altura e doze de largura, com uma grade de ferro e vidro transparente, coberta de seda e fechada por folhas, de modo que as santas relíquias possam ser vistas, mas não tocadas.

No lado externo, voltado para a igreja exterior, será construída de modo a comportar os recipientes e vasos relicários. Terá folhas sólidas, com três fechaduras e três ferrolhos, e será fechada com três chaves, cada uma diferente das demais.(7)

A abertura para o óleo santo dos enfermos

Acima da abertura da roda, será construído um armário dos santos óleos, segundo as normas prescritas, para guardar o óleo dos enfermos. Esse armário se abrirá somente pelo lado externo, voltado para a igreja, e será provido de folhas sólidas, fechadura e chave. Quando não houver outras relíquias na igreja, exceto as que estiverem no altar, esse armário será colocado sobre a pequena janela pela qual é distribuída a Sagrada Comunhão.

Os degraus do altar

A uma distância de seis côvados do degrau inferior da predela do altar, serão construídos outros três degraus, ou mais, conforme o local e segundo o parecer do arquiteto, que desçam para a parte central da igreja, onde o piso será um tanto mais baixo que o lugar em que se encontra o altar. No degrau mais alto serão colocadas grades de ferro, conforme prescrito.

Nenhum dos degraus deverá ter mais de oito onças de altura ou mais de vinte e quatro de largura; serão construídos transversalmente à igreja, ou terão o mesmo comprimento da abertura das grades de ferro.

A sacristia

Será construída uma pequena sacristia na cabeceira da igreja, com uma entrada dentro dos limites das grades. Ela será utilizada pelo sacerdote ao retirar seus sagrados paramentos.

Deve-se cuidar de sua construção de modo que não haja janelas, rodas ou quaisquer outras aberturas pelas quais se possa ver ou ouvir alguma coisa no mosteiro de monjas.(8) Por essa razão, o lavabo, que será construído na parte externa da sacristia para a lavagem das mãos, não deverá ter tubos pelos quais a água possa ser recebida do interior do mosteiro e depois escoada em outro lugar. Além disso, não deverá haver construção alguma acima da sacristia à qual as monjas possam ter acesso.

Haverá um oratório e um altar para os sacerdotes, a serem usados quando se revestirem dos paramentos, e um sacrário, na forma prescrita, para lavar as mãos; este, porém, não deverá ser encostado à parede entre a sacristia e o mosteiro. Haverá um armário para guardar os paramentos sagrados, e nada mais.

As capelas

Haverá duas capelas no corpo da igreja das monjas, uma à direita e outra à esquerda, na forma prescrita, para que, se necessário, mais de uma Missa possa ser celebrada ao mesmo tempo.

A janela do altar

Deve-se cuidar para que a janela acima do altar, provida de grade de ferro, seja feita de tal modo que não seja possível ver a rua pública, especialmente se ali se realizarem funções públicas (9) ou se passarem multidões. Portanto, será construído diante da porta da igreja um pequeno átrio, com uma entrada lateral, e não em frente à porta da igreja. Ou, se isso não for possível, a entrada da igreja ficará na lateral, conforme julgar conveniente o arquiteto, dependendo das características do local.

A igreja interior

A igreja interna terá apenas uma nave, sem capelas. O piso será todo no mesmo nível, não sendo elevado por degraus em nenhuma parte. Será, contudo, um ou um côvado e meio mais baixo que o piso onde se encontra o altar no exterior.

Deve-se tomar grande cuidado para que a igreja interna, que é a igreja das monjas, não seja construída perto de uma via pública. Se a natureza do local tornar isso impossível, então não haverá janelas na parede voltada para a rua, mas a luz virá da parte adjacente ao mosteiro. O contrário se dará na igreja externa, onde as janelas se abrirão para a rua pública, e não para o mosteiro.

O campanário

O campanário deverá estar unido à igreja interna das monjas. Nem a porta, nem as janelas, nem sequer uma fresta estarão voltadas para a igreja externa.

A altura será proporcional à igreja, mas inferior ao que exigem a estrutura e a forma.(10)

O pavimento térreo terá uma abóbada muito sólida. Aqui, ou de um lado, poderá haver uma pequena porta estreita pela qual se subirá, se necessário, ao topo da torre. Não haverá outras entradas em nenhum outro lugar.

Os orifícios para as cordas dos sinos serão pequenos, de modo que nada além das cordas de puxar possa passar por eles.(11) A pequena porta será muito sólida, fechada com dois ferrolhos, duas fechaduras e duas chaves diferentes. Os outros níveis podem ser de madeira e receberão luz por janelas estreitas gradeadas.

O nível superior, contudo, terá janelas como de costume.

Notas da tradutora

Notas e comentários de Evelyn Voelker, tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.

  1. A função dessa parede divisória é evidente, embora sua origem permaneça incerta. A parede foi construída para terminar no nível das impostas, dividindo assim o recinto em duas seções distintas, ao mesmo tempo que permitia uma articulação espacial ininterrupta, assegurada pelo fato de se ter uma visão total do teto das duas câmaras contíguas. A ideia de combinar duas igrejas no eixo longitudinal, ainda que unificadas apenas por uma visão contínua do teto, não era um conceito novo nesse período, pois se sabe que foi utilizada para as exigências específicas que separavam a igreja de inverno da igreja de verão durante a Idade Média. A novidade, contudo, é o fato de ela aparecer em igrejas monásticas femininas em algum momento do início do Cinquecento. Um exame das igrejas de mosteiros de monjas e dos arquivos de constituições anteriores a esse período indica que ela ainda não era utilizada.

    As primeiras constituições de Fiesole, de cerca de 1306, mencionam uma grade ou locutório comunitário (locutorium) que se encontrava na igreja, ad cratem autem sive comune locutorium quod in ecclesia esse debet, … e que dois locutórios (parlatoria), providos de grades de ferro, podiam ser instalados na igreja, por meio dos quais as monjas podiam falar e ouvir aqueles que lhes falassem: Concedimus etiam quod in ecclesia duo parlatoria ferramentis munita fieri possint unde responsum recipiant et reddant secundum modum prescriptum…(b) As constituições florentinas de Cosimo de’ Pazzi (1508) descrevem a grade como ecclesie locutorium, e no hospital de S. Maria Nuova encontra-se também uma disposição muito semelhante: vadino a parlargli alla serrata della capella, e stieno le monache drenta nello spedale, e secolari drenta nella cappella.(c) Essas citações, bem como um exame dos tratados de arquitetura do final do Quattrocento e do início do Cinquecento, levam a supor que a prática de construir uma parede transversal ainda não havia sido amplamente adotada em 1545 e que as visitas e as conversas com pessoas de fora originalmente ocorriam na igreja. Com efeito, a adoção de uma nave única mediante uma parede arquitetônica radical constitui um episódio de relativa importância na história da arquitetura eclesiástica, pois a parede rompeu a linguagem arquitetônica do estilo basilical.(d)(e)

  2. A Figura 32.1 é uma planta da igreja do mosteiro de S. Agnese, destruída depois da Revolução Francesa. O projeto é de Martino Bassi, que apresentou esta planta em 1588, quando se decidiu reformar a igreja. Uma comparação desta planta com descrições posteriores do mosteiro indica que o projeto de Bassi não foi adotado. O projeto encontra-se na coleção Ferrari da Biblioteca Ambrosiana, S 150.sup., 280x430mm, em tinta marrom, com acréscimos a lápis. A descrição na margem esquerda diz:

    Projeto do interior e do exterior da igreja para as Reverendas Irmãs de S. Agnese de Milão.

    A.B…. Igreja interior para as monjas, largura de 29 por 38 de comprimento

    C.D…. Igreja exterior, largura igual à da igreja interior por 30 de comprimento, três capelas laterais.

    Como aconselha Borromeu, Bassi planeja que o altar fique encostado na parte central da parede; indicam-se também três degraus para subir ao altar, bem como a abertura na parede que permitiria às monjas ver e ouvir a Missa. Conforme exigido, a largura da grade (designada pelos pontos entre B e C ) é igual ao comprimento do altar.

    A simplicidade da planta é determinada pela função típica ou característica da igreja de um mosteiro de monjas; isto é, as monjas deveriam estar isoladas de todos, inclusive dos confessores e dos sacerdotes que celebrassem a Missa. A igreja interior possuía os coros requeridos e uma entrada claustral que se comunicava com um pátio privativo e com o restante do complexo monástico.

  3. A janela ou grade do altar-mor havia sido discutida por Borromeu no primeiro Concílio Provincial de 1565. Ele advertia que todas as janelas e grades através das quais as monjas pudessem olhar para dentro da igreja (com exceção da pequena abertura pela qual recebiam a Comunhão) deveriam ser cobertas com um pano de linho, que só deveria ser retirado no momento da elevação da Eucaristia durante a Missa. A disposição dessa janela deveria ser tal que o sacerdote não pudesse ver as monjas. AEM, 141.

    Em 1576, após o quarto Concílio Provincial, as disposições de Borromeu tornaram-se ainda mais precisas; contudo, deve-se lembrar que, nessa época, ele estava revendo as redações finais dessas normas. Ele especifica que nenhuma janela, exceto as permitidas pelas determinações de 1565, é legal e que nem mesmo a menor fresta ou fissura pela qual se pudesse espiar deveria ser tolerada. A grade através da qual as monjas viam a elevação da Eucaristia não podia estar a mais de dois côvados e doze onças (1.09m) do altar, e sua largura deveria ser igual à do altar. Essa abertura deveria ter barras de ferro colocadas a dois palmos de distância umas das outras e fixadas firmemente no lugar. Contudo, as hastes de ferro pelas quais as barras eram presas não deveriam ser removíveis e não deveriam estar a mais de três onças (5.45cm) umas das outras. Caso uma janela estivesse situada de tal modo que as monjas pudessem ver a igreja exterior, deveria ser construída uma parede de tijolos para bloquear-lhes a vista. AEM, 479.

  4. Ver Fig. 33.1.

  5. Ver Fig. 32.2.

  6. O Concílio de 1576 prescreveu que a pequena janela utilizada para a Comunhão, voltada para a igreja exterior, deveria estar suficientemente alta para que o sacerdote não tivesse de dobrar o joelho a fim de administrar o Sacramento. A abertura deveria ser fechada com pequenas portas de madeira, rentes à parede. O confessor deveria guardar as chaves. AEM, 479.

  7. O quarto Concílio Provincial de 1576 declarou que as sagradas relíquias deveriam ser ocultadas em uma abertura que, segundo as Instructiones , deveria ser construída na parede da igreja interior, mas se abriria para o exterior. O pequeno relicário devia (AEM, 479) ser fechado com três chaves: uma das quais ficaria sob a guarda do bispo, outra, do confessor, e a última, da superiora do mosteiro.

  8. Os atos do quarto Concílio Provincial (1576), quando comparados aos do primeiro, oferecem algumas pistas quanto à dificuldade de fazer cumprir essas mudanças e reformas. Onze anos depois de seus primeiros anúncios relativos às rodas (do mosteiro), Borromeu insiste novamente no fechamento ou na remoção de todas as rodas, exceto as destinadas às visitas, às confissões e a uma na sacristia. AEM, 479.

  9. Spectaculum: qualquer evento sagrado ou secular, como procissões, reuniões, comícios, feiras, jogos ou ajuntamentos gerais.

  10. Ver Fig. 32.3.

  11. Ver Figs. 32.4 e 32.5.

Fontes citadas

  1. (b)Trexler, p. 93.
  2. (c)Archivio di Stato, Firenze, Santa Maria Nuova, 588, 132rv (1544-1545). Herafter cited as ASF.
  3. (d)Filarete's treatise, c. 1460-64), describes the ideal feminine monastic church as one having a matroneo (women's gallery) with a grille, located on the second floor along the lateral walls of the church.
  4. (e)A valuable index with manuscript references noting the impact of Borromeo's visitations and legislations may be found in an article by Liliana Grassi, "Iconologia delle chiese monastiche femminili dall'alto medioevo ai secoli XVI-XVII," Arte lombarda, IX:1 (1964), 131-50.

Fonte: Instructiones fabricae et supellectilis ecclesiasticae (Milão, 1577), de São Carlos Borromeu, na tradução inglesa Instructions on Church Building, de Evelyn Voelker, publicada em credobiblestudy.com. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do inglês — não do latim —, por isso o texto inglês está sempre a um clique: o botão Inglês abre o de cada seção, e o botão Ver original em inglês o coloca ao lado do português. As notas numeradas e as fontes citadas são da tradutora inglesa; as referências bibliográficas ficaram como na fonte.