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Demiurgo

Demiurgo

(do gr. demiurgos, artesão). Termo empregado por Platão, no Timeu, para apontar o ser divino, construtor do universo. Já fora empregado por Sócrates através do testemunho de Xenofonte e, posteriormente, por Plotino, ao referir-se à Alma do mundo (vide), seguindo, assim, uma tese platônica. Com os gnósticos, o demiurgo é apenas um construtor do mundo, e não o Ser Supremo, que é dele distinto e do qual aquele depende.

O demiurgo de Platão e o pitagorismo – Tema que tem provocado grandes debates entre os exegetas, e servido de apoio para as críticas menos justas dos adversários do platonismo. Quem é esse demiurgo, esse artesão, esse ser que opera a realização das coisas, olhos voltados para as formas imutáveis, e que modela a matéria amorfa para dar-lhe uma forma? O mito do demiurgo, como surge na obra platônica, é sem dúvida didático. Não se deve, porém, levar esse didatismo ao extremo, pois graças à dialética simbólica nos é possível penetrar no seu verdadeiro significado.

Uma passagem de Proclo nos poderá facilitar a mais nítida compreensão do mito, que Sócrates, no Timeu, revela que é um “mito verossimilhante”, isto é, que imita a verdade, sem ser a verdade, mas suficiente para dar uma compreensão didática aos ouvintes. E é ele mesmo quem ainda acrescenta que são poucos, muito poucos, os capazes de entendê-lo em seu verdadeiro sentido. “Descobrir esse Demiurgo do universo é difícil”, diz Platão, “Com efeito, a descoberta se obtém de duas maneiras: uma procede a partir dos Primeiros pelo caminho da ciência; a outra, a partir dos Segundos pelo caminho da reminiscência. Ora, é mister dizer que aquela que procede a partir dos Primeiros; difícil, porque a descoberta das propriedades intermediárias está ligada à doutrina mais alta. Quanto à descoberta, a partir dos Segundos pouco me falta para dizer que ela é ainda mais difícil. Pois, é a partir desses Segundos que nos propomos ver a essência do Demiurgo e o conjunto de suas propriedades; é preciso considerar, em sua totalidade, a natureza dos seres produzidos por ele, todas as regiões visíveis do mundo e tudo o que há de potências naturais invisíveis, que fundam a existência das simpatias e das antipatias do universo: e antes disso, as regras fixas, que presidem à natureza e às próprias naturezas, enquanto universais e particulares, tanto imateriais como materiais, as divinas, as demoníacas e aquelas dos viventes mortais: ademais, os gêneros de seres, que entram na categoria da vida, uns imortais, outros mortais, uns não manchados de matéria, outros mergulhados na matéria, uns tendo valor de totalidade, outros de partes, uns dotados de razão, outros sem razão: e também os seres de complemento mais perfeito que nós, graças aos quais toda a região intermediária entre os deuses e a natureza mortal é bem ligada ao conjunto; e as almas de todas as espécies, a multidão dos deuses que se diversificam segundo as diferentes porções do universo, as conexões exprimíveis e inexprimíveis, que põem o mundo em relação com o Pai.

Sim, se se considerarem essas coisas, aquela que se dirige para o Demiurgo permanece bastante imperfeita para conceber o Pai: ora, não é permitido que nada de imperfeito tenha contato com o Todo Perfeito (Oniperfeito). Mas é preciso, ademais, que a alma, tornada um mundo inteligente, tendo-se tornado semelhante tanto quanto lhe é possível, à totalidade do mundo inteligível, aproxime-se do Criador do Universo; que, em virtude dessa aproximação, ela se familiariza um pouco com ele pela aplicação contínua do espírito – pois a atividade do pensamento, interrompido relativamente a um objeto dado, desperta e vivifica nossas faculdades racionais –; que graças a essa familiaridade, tendo-se instalado à porta do Pai, ela entra em união com ele. Eis o que é a descoberta de Deus: ir ao seu encontro, não fazer-se senão um com ele, gozar de sua presença, só a só, obter que ele se mostre em pessoa, quando a alma é “arrebatada” para longe de toda atividade, e que ela tenha por fábulas os discursos científicos, porque é ela unida ao Pai, que ela se alimente, no mesmo festim que ele, da verdade do ser, e que, no lampejo de uma luz pura, ela é iniciada para visões perfeitas, e que não mudam nunca. Sim, eis o que é encontrar Deus... Não é descobri-lo pelo caminho da opinião (pois esta é incerta, pouco afastada da vida irracional), nem pela voz da ciência (pois esta procede por inferências e pelas cadeias das razões, pelas quais não alcança imediatamente a essência intelectual do Intelecto demiurgo). É encontrá-lo por uma intuição que permite vê-lo, face a face, pelo contato com o inteligível, pela união ao intelecto do Demiurgo. E, verdadeiramente, esta descoberta pode-se bem chamá-la de “puro trabalho” no sentido próprio; ou porque é ele penoso, desagradável de obter, já que o objeto não se faz ver às almas senão quando elas atravessaram toda a hierarquia dos seres vivos, ou porque eis aí o verdadeiro combate das almas: pois é após as vãs corridas no criado, após a purificação, após as iluminações da ciência, que se ascende afinal à atividade intelectual, e o intelecto que está em nós, que leva a alma ao porto, no Pai, que a instala, longe de toda mancha, nos pensamentos do Demiurgo, e que junta luz à luz, não somente a luz da ciência, mas ainda uma outra mais bela, mais inteligente, mais semelhante à unidade do que essa. Pois é ali o porto do Pai, a descoberta do Pai, a união imaculada com o Pai”.

Quanto às palavras: “Quando se encontra a Deus, é impossível dize-lo”, poderiam bem manifestar, à semelhança dos Pitagóricos, que guardavam em segredo a doutrina das coisas divinas, e recusavam discutir diante de quem quer que seja: “pois os olhos do Vulgar não tem força para manter seu olhar fixado sobre o verdadeiro”, diz o Estrangeiro de Eléia. Mas pode-se dizer também que essas palavras ensinam uma doutrina que é impossível, quando se encontrou a Deus, dizer as coisas como foram vistas. Pois a descoberta não teria consistido para a alma em dizer alguma coisa, mas a ser iniciada num mistério e a ser submetida à influência da luz divina..., e ela, mantendo-se no que poderia chamar o seu silêncio. De fato, agora que ela não é de natureza a captar a essência das outras realidades pela denominação, definição ou demonstração científica, e que só é atingida pelo pensamento, como Platão o diz em suas Cartas (VII 342 s), como poderia descobrir a essência do Demiurgo de outro modo de uma maneira puramente intelectual? E como poderia ela, tendo assim encontrado, divulgar o que ela viu por meio de palavras e de verbos, e de fazê-la conhecer pelos outros? Pois é impossível ao raciocínio discursivo, que procede por composição, descrever a natureza essencialmente uniforme e simples. Mas qual, dir-se-á, não é verdadeiro o que discursamos longamente tanto sobre o Demiurgo como sobre os outros deuses e sobre o próprio UM? Sem dúvida. Mas se discorremos sobre essas realidades, não definimos nenhuma em sua própria essência. Podemos argumentar sobre ela, não podemos expressar a intuição que dela temos: pois é “encontrá-la” como se disse. Ora, se a alma não a “encontra” senão quando ela se cala, como o fluxo de palavras vocais seria suficiente para expressar o objeto “encontrado” tal qual é?

Quem é o demiurgo, então? O Hen-Dyas, o Um, cria a díada indeterminada-determinável, e cria a determinação, o ato formativo e a potência informável, pois fazer implica simultaneamente o que é feito, e criar, o que é criado. A criação não antecede a criatura; pois, onticamente, a criação é dar surgimento à criatura. O demiurgo é, em suma, o ato formativo, o determinante que determina, e este determinante, ao dar forma à matéria, nesta realiza uma imitação das formas eternas. É cotejando-as que realiza as coisas finitas. A simbólica é fácil. Os seres finitos imitam as perfeições das formas eternas, por isso as coisas delas participam. E como as coisas são o que são através das formas que as informam, exigem elas uma causa eficiente que as realize. O demiurgo é a causa eficiente universal: o determinante, o ato formativo.

Vide Década.

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