Criação
O conceito toma três acepções distintas:
Como produção de um novo ser, que se faça ele do nada ou de um ser preexistente. Sentido usado pelo criacionismo católico;
Produção original de uma obra artística, ou elevação de uma pessoa a um alto cargo; ou dar uma nova ordem a elementos diversos, que terminam por constituir uma nova unidade.
Como substantivo, significando o conjunto dos seres criados por Deus.
Para os criacionistas o conceito teológico é: “Criar, falando com propriedade, não é fazer de uma coisa outra, porque isto se chama geração, mas é fazer de nada algo”(Granado).
“O que é produzido, diz Tomás de Aquino, não pode supor-se anterior à produção. Assim, quando se produz um homem, não era antes homem, mas do não-homem se faz o homem, como o branco do não-branco. Decorre daí que, se se considera a emanação da universalidade dos seres de seu primeiro princípio, é impossível pressupor ente algum anterior à emanação, pois ser nada é o mesmo que não ser ente. Logo, assim como a geração do homem se faz do não ente, que é o não-homem, de igual modo a criação, que é a emanação de todo ser universal, se faz do não-ente, que é o nada.”
Para Muñiz: “A criação pode ser considerada sob quatro aspectos distintos, que respondem às suas quatro causas ou elementos constitutivos intrínsecos e extrínsecos, segundo os quais costuma dar-se dela estas quatro definições: 1) Atendendo à sua causa material, terminus a quo, ou ponto de partida material, se define: Productio ex nihilo, quer dizer, produção que se faz do nada ou sem que exista matéria alguma da qual se produza o novo ser. 2) Por ordem ao fim de execução, terminus ad quem ou de chegada, se define: Productio rei secundum totam substantiam, quer dizer, produção de todo o ser, matéria e forma. 3) Considerando-a por parte de sua causa eficiente própria se define: Emanatio totius entis a causa universali, quae est Deus, produção de todo ser pela causa universal, que é Deus. 4) Considerando a ordem entre o termo ad quo e o termo ad quem, se define: Transitus de non ente simpliciter ad ens simpliciter (trânsito do não ser em absoluto ao ser subsistente).”
Acrescenta Tomás de Aquino ainda outra definição descritiva, mediante uma propriedade essencial da criação: Prima actio quae circa rem exercetur, a criação é a primeira ação que pode exercer-se sobre qualquer ser, posto que por ela começa a existir integralmente o ser, e toda outra ação supõe já o ser existente de algum modo. Refundindo todas estas definições, a criação se define: “Primeira produção de todo o ser, feito do nada (ex nihilo) pela causa universal, que é Deus”.
Partamos primeiramente do exame do termo ex nihilo. A preposição ex (em nossa língua, de) significa, diz Tomás de Aquino: a) a negação de toda matéria ex qua, da qual se faz o novo ser, ou b) simplesmente a ordem de sucessão entre o nada e o novo ser produzido, da mesma forma como dizemos que, da manhã faz-se o meio-dia. Fieri ex nihilo nos diz que não há, como termo a quo, de partida, nenhum material positivo. Mas tais termos podem significar: a) não fazer-se em absoluto, como do que cala dizemos que nada fala; b) fazer-se do nada, como quando se diz que se faz de matéria positiva preexistente, como a mesa se faz da madeira; c) fazer-se do nada integral ou absoluto, quer dizer, sem matéria e sem causa eficiente; d) fazer-se sem que haja algo positivo, como matéria da que se faz o novo ser. É só neste sentido que se toma o termo criação.
Em forma alguma se pode admitir a atribuição de ação criadora a criatura alguma, nem por virtude própria, nem como instrumento ou ministerialmente. Ao criar, produz-se “todo o ser”, “o ser enquanto ser ou em absoluto”. Para tal se exige uma causa infinita e universal, uma causa cuja propriedade de ser e de operar seja o próprio ser, e que possa salvar a distância infinita que há entre nada e o ser. Todas as causas particulares ou criadas produzem sempre algo de algo e produzem somente algo do seu efeito; originam um novo ser, que não existia como tal, mas que já existia sob outra forma, não fazendo mais que transformar a matéria existente. Nesta ordem de causas é verdadeiro que ex nihilo nihil, do nada nada se faz, e que, na natureza, nada se origina nem se destroi totalmente. Como a ciência pertence a esta ordem, ordem do imanente, nada pode dizer dela, nem tampouco negar o que é da ordem transcendente, sob pena da ciência deixar de ser do imanente para tornar-se transcendental ou metafísica. No entanto a ciência tange este problema, mas porque o faz, não tem meios, dentro dos seus quadros de tomar uma posição dogmática.
Para os criacionistas, o modo de operar da causa divina é outro que o de todas as causas particulares. Sendo este o ser por excelência, pré-contem em si todo o ser e por isso pode produzi-lo em participações potencialmente infinitas. Sua causalidade estende-se a tudo o que pode haver de ser em qualquer efeito. E esta causa é Deus. Por ser o mesmo ser e todo o ser, esta causa exclui qualquer possibilidade de multiplicação. A existência de outra já mostramos ser infundada. Não pode a criação realizar-se por uma causa instrumental, porque toda ação instrumental é sempre anterior à da ação da causa principal e se limita a preparar a matéria para o efeito desta. A criação é absoluta e necessariamente a primeira ação que se pode exercer sobre o efeito criado.
A causa exemplar da criação só pode ser Deus, pois antes da criação não havia nenhum exemplar fora de Deus. Este modelo ou exemplar é um em si mesmo, por identificação da essência divina com o entendimento divino. O ser reproduzido em imitações parciais, distintas e múltiplas, mostra-nos toda a heterogeneidade dos seres criados que integram o universo.