Crença
Em sentido lato significa a persuasão de ser verdadeira uma idéia. Há duas opiniões clássicas que procuram explicar as causas da crença:
A teoria voluntarista de Descartes afirma que o entendimento é puramente receptivo, passivo. Percebe argumentos, porém não julga. A vontade é que põe em movimento a seleção definitiva e põe fim à indecisão. Dessa forma, para Descartes, o juízo é um ato livre. Essa teoria tem retornado na filosofia sob o apoio de filósofos com o nome de fideísmo. Assim todo juízo seria um ato de fé.
A teoria do intelectualismo, exposta por Spinoza:
“As idéias não podem comparar-se a pinturas mudas, traçadas sobre uma tela, que contemplamos com indiferença. Não são inertes. Elas envolvem uma afirmação ou uma negação. Ademais, a vontade não é alguma coisa exterior às nossas idéias para que possa unir-se a uma outra para transformá-la em crença”... “Não há na alma nenhuma volição, isto é, nenhuma afirmação e nenhuma negação, fora da que envolve a idéia enquanto idéia”.
Os partidários desta teoria afirmam que podemos aceitar ou não uma idéia arbitrariamente, pois os princípios lógicos coordenam os nossos pensamentos, e nos levam à impossibilidade de aceitar duas proposições quando contraditórias. Um desejo, um querer, não bastam para tornar forte uma idéia e não acreditamos no que desejamos. Se forçamos, aumentamos a dúvida.
Os argumentos pró e contra, tanto de uma como de outra teoria têm seu valor, pois ambas pecam por tomarem abstratamente a gestação da crença. A voluntarista patenteia um sentido intensista, atualiza o diferente, faz intervir a vontade individual, a individualidade, o impulso pessoal, próprio; enquanto a intelectualista funda-se no geral, no extensista, nos princípios, nas normas. Se examinarmos todas as crenças veremos que nelas intervêm fatores que participam tanto duma como de outra. Há nelas um fundamento irracional, intuitivo, individualizante, diferente, místico, e uma contribuição lógica, racional, reflexiva. Toda crença procura justificar-se. Parte de um impulso voluntarioso, mas apela também pela base lógica que a fundamenta, que lhe dê uma razão suficiente.
Por outro lado, o grande erro na sustentação dessas doutrinas consiste em considerar a vontade como algo que se dá simples, acabado, um todo independente na vida psicológica, quando é ela o nome que freqüentemente se dá à parte ativa da tensão psíquica em seu tender para... E essa atividade está coordenada com paixões, sentimentos, memorizações, representações, imagens, instintos, impulsos, etc. Não há um ato de vontade simples no homem psicologicamente considerado. Não se pode esconder a ação dos sentimentos nas crenças. A sensibilidade de uma época influi na formação do complexo de suas crenças. A biotipologia mostra-nos como os diversos tipos humanos encontram plena justificação para as suas tendências, e a psicopatologia oferece elementos poderosos para a explicação de muitas das atitudes dos homens. Ambas contribuem para a explicação do problema da crença com um grande contingente de razões poderosas, mas pecam quando se excluem mutuamente.
Coordenando-as ainda não temos uma visão concreta da realidade da crença. É que a verificabilidade de que são verdadeiras entra como um elemento poderoso sobre a nossa vontade ou o nosso intelecto. Assim esse terceiro elemento, juntando-se aos outros, pode nos dar um sentido concreto da crença, o qual revela o antagonismo no choque das duas tendências: uma que deseja afirmar, outra que contradiz o desejo pela afirmação do que é julgado como norma, e o resultado que prepondera, quase sempre é a verificação observada, de indivíduo para indivíduo, de que possam dar-se divergências palpáveis, bem como a atualização de uma tendência em prejuízo da outra, que se virtualiza. Em muitos, a vontade prepondera e dá a orientação, enquanto noutros, o aspecto lógico é preponderante e, para alguns, é a verificação que dá a última palavra.
Nome dado aos diversos assentimentos firmes da mente humana a juízos ou constelações de juízos, não totalmente verificados e comprovados como evidentes e certos, e que ainda guardam uma margem sobre a qual podem outros fundar a possibilidade de uma posição contrária, inversa ao do crente: crenças religiosa, políticas, filosóficas, etc.