Tesouro n.º 212 · Volume III

UNIDADE UNITÀ

3 seções · 25 parágrafos · pp. 2362–2373 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DA UNIDADE

Um rebanho não tem senão um só pastor… A colmeia tem uma só rainha… O navio tem um só piloto que o governa… Uma só cabeça em cada corpo… Um único sol no mundo… Uma só Igreja verdadeira… Um só chefe na Igreja… Um só Deus… Uma só fé… Um só batismo… Em Deus há três pessoas, mas as três pessoas são um só Deus… Há na alma três faculdades, mas a alma é única.

Deus é o centro do mundo, como também de nosso coração e de nosso amor; os homens são como as linhas que convergem para o centro; a Deus se refere todo o amor ao próximo… Também no céu, todas as alegrias dos bem-aventurados se reduzem à unidade, porque, como observa São Gregório, embora uns sejam mais elevados que outros, uma só e a mesma é a alegria de todos (1).

Jesus Cristo é o centro da unidade: nele se abraçam e se unem a antiga e a nova lei, os patriarcas e os profetas, o céu e a terra, Deus e o homem. A cátedra de Pedro é o centro da unidade católica. «A Pedro foi dado o primado, escreve São Cipriano, para que não houvesse senão uma só Igreja e uma só Cátedra (2).» «Entre os doze Apóstolos, diz São Jerônimo, um é escolhido para que, estabelecido um chefe, fosse eliminada toda ocasião de cisma (3).» A mesma coisa confirma São Leão, que observa que, se Pedro foi escolhido dentre todos os homens e proposto à vocação de todos os povos, a todos os Apóstolos e a todos os Padres da Igreja, assim Deus dispôs para que, por mais que cresça o número dos sacerdotes e dos pastores no meio do povo de Deus, Pedro governe realmente todos aqueles que o próprio Jesus Cristo governa, como principal cabeça de todos (4). «Deus é um só, diz São Cipriano, Jesus Cristo é um só, a Igreja é uma só, e uma só é a cátedra fundada pela palavra de Cristo sobre Pedro. Não se pode estabelecer nenhum outro sacerdócio fora deste único altar e sacerdócio. Quem ajunta em outro lugar, dispersa (5).» O Venerável Beda observa que, assim como há um só Deus, uma só fé, um só batismo, um Deus Pai de todos, assim também há uma só Igreja católica para todos, em todos os lugares e em todos os tempos, sujeita a um só Deus» (In Cant. c. VI). O Sumo Pontífice, sucessor de São Pedro, governa o mundo inteiro; ele é o centro da unidade. Quem quer que não permaneça unido ao Papa cai no cisma e se separa da verdadeira Igreja.

São Paulo mostra-se zelosíssimo pela conservação da unidade, e de mil modos deixa entrever sua necessidade e a inculca a cada passo. «Vede bem, escrevia, por exemplo, aos Efésios, em conservar a unidade de espírito no vínculo da paz.» — A unidade da fé, da caridade; a unidade de alma, de espírito e de coração, embora separados quanto ao corpo. «Sede um só corpo e um só espírito, continua o Apóstolo, assim como fostes chamados em uma só esperança de vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos» (Ef 4,4-6). Um só Senhor, uma só fé, um só batismo: eis o fundamento da crença ortodoxa, a base da religião, o compêndio do símbolo apostólico. Aos Filipenses escrevia que vivessem de modo digno do Evangelho, de maneira que, quer fosse até eles e os visse, quer estivesse longe deles, ouvisse dizer que continuavam a formar um só e mesmo espírito e que combatiam unânimes pela fé do Evangelho; animava-os a fazer com que sua alegria fosse completa, permanecendo todos unidos e tendo um mesmo amor, uma mesma alma e um mesmo pensamento (Fl 1,27; 2,2). Com o mesmo propósito de recomendar a união na unidade, lembrava a Timóteo que há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1Tm 2,5); e advertia os Hebreus que não se deixassem enganar por doutrinas estranhas e variadas (Hb 13,9).

A heresia foi o que introduziu na Igreja de Jesus Cristo esta variedade e diversidade de ensinamentos, contra a qual o Apóstolo nos põe de sobreaviso; ela sustenta uma doutrina estranha, isto é, diferente da doutrina da Igreja católica, uma doutrina que não brota da verdadeira fonte, mas é manipulada por homens curiosos, desejosos de novidades, orgulhosos, impacientes com os vínculos da submissão e da unidade, inspirados e impelidos pelo demônio. Rompida uma vez a unidade, não há nem pode haver mais freio; cai-se de contradição em contradição, de erro em erro, de abismo em abismo; percorrem-se, na queda, todos os graus do erro, sem jamais deter-se em algum deles. Apresenta-se hoje uma heresia que amanhã será abandonada para se forjar outra; e se quer que aí esteja a verdade! e se pretende ensinar o verdadeiro! Ah! aonde não arrasta o espírito do demônio, quando se rejeita o espírito de Deus, que não inspira nem dirige ninguém fora da única Igreja que possui a unidade. Sem unidade, não é possível haver Igreja alguma; por isso, sem unidade, não há nem Deus, nem céu, nem verdade, nem salvação. Oh! se os hereges e os cismáticos que romperam a união e saíram da unidade pudessem abrir os olhos e voltar ao redil da unidade! … Quisera Deus que finalmente compreendessem aquela sentença de Santo Agostinho: «Somente a Igreja católica é o corpo de Cristo, do qual ele é a cabeça e o Salvador; este corpo é seu. Fora deste corpo, o Espírito Santo não vivifica ninguém, porque não participa da divina caridade aquele que é inimigo da unidade (6).»

São Pedro quer que sejamos todos de um mesmo ânimo e de um só coração (1Pd 3,8). São João nos diz que os Apóstolos nos anunciam aquilo que viram e aquilo que ouviram, para que também nós entremos em comunhão com eles e a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo (1Jo 1,3). Consequentemente, 1º ninguém, como diz o Venerável Beda, pode ter sociedade, isto é, estar unido a Deus, se antes não estiver unido à sociedade da Igreja (7). 2º Quem quer que, abandonando a Igreja, se una a uma Igreja adúltera, já não tem parte nas promessas da Igreja nem chegará às recompensas de Jesus Cristo. Este é o ensinamento de São Cipriano, que assim prossegue: «Quem abandona a Igreja de Jesus Cristo é um estrangeiro, um profano, um inimigo. Ninguém pode ter Deus por Pai se não tiver a Igreja por mãe. Se alguém pôde escapar ao dilúvio fora da arca de Noé, também alguém poderá escapar ao naufrágio fora da Igreja. Disto nos adverte o Senhor quando diz: Quem não está comigo está contra mim, e quem não ajunta comigo dispersa. Quem rompe a paz de Jesus Cristo e a concórdia age contra Cristo; quem ajunta fora da Igreja de Jesus Cristo desagrega e dispersa a Igreja de Jesus Cristo. Eles não podem permanecer com Deus, porque não querem permanecer na unidade da Igreja de Deus. Deixem que, por sua própria vontade, sejam queimados vivos, exponham sua vida ao fogo e às feras; jamais terão a coroa da fé, mas antes o castigo de sua perfídia; não chegarão ao prêmio das virtudes que pretendem possuir, mas encontrarão a morte no desespero. Podem muito bem ser conduzidos ao suplício, mas jamais chegarão ao triunfo» (De Unit. Eccles.).

Todos os livros da Sagrada Escritura não formam senão uma só Bíblia, porque são todos palavra e escritura de um só e mesmo Espírito Santo. Unidade na Escritura, unidade na Igreja que interpreta infalivelmente a Escritura. Tendo o cuidado de observar, como diz São Vicente de Lérins, que também na Igreja católica nos mantemos firmes naquilo que foi crido em todos os tempos, em todos os lugares e por todos (8). São Leão extrai outro argumento em favor da unidade da unidade do sacrifício: «Tendo cessado, diz ele, a variedade dos sacrifícios e das vítimas, a única oblação do corpo e do sangue de Jesus Cristo toma o lugar de todos esses diferentes sacrifícios; para que, assim como há um só sacrifício por todas as vítimas, também não haja senão um só reino para todas as nações» (Serm. de Cruce). E é precisamente isso que a Igreja repete em uma de suas orações: Senhor, decretastes a abolição das diferentes hóstias legais pela perfeição de um só sacrifício. Por meio da unidade da Igreja, todo o universo cristão forma uma só casa…

«Ouve, Israel, diz a Escritura, o Senhor nosso Deus é o único Senhor» (Dt 6, 4). Por que há um só Deus? Eis as razões: 1° Deus é um ser simplicíssimo, absolutíssimo, perfeitíssimo, infinito; portanto, é único. Pois, se houvesse dois Deuses, um teria alguma perfeição da qual o outro seria desprovido; consequentemente, faltaria alguma perfeição a ambos; por isso, nem um nem outro seria absolutamente perfeito. Deus é infinito; não pode haver senão um infinito, porque o infinito encerra tudo; contendo tudo, nada mais resta, senão o nada, para tudo o que está fora do infinito… 2° Se houvesse dois Deuses, haveria duas vontades diferentes, que poderiam, portanto, querer coisas contrárias e opostas; daí resultariam a luta e a guerra, o que é impossível, ou melhor, absurdo… 3° Se existissem dois Deuses, um deteria e limitaria o poder e o império do outro. Quem diz Deus, diz um ser sem limites e sem iguais… Deus é o monarca do universo; assim como da unidade saem todos os números e todos os raios que vão à circunferência partem do centro, assim também todas as coisas criadas saem de Deus; devem, portanto, unir-se e terminar em um só princípio, que é Deus, como em seu único centro. Não pode haver senão um só senhor e governador do mundo, que ordene e una todas as coisas tão variadas e diferentes; de outro modo, elas não se uniriam nem se associariam, se não fossem regidas por um só. «Deus, diz Lactâncio, sendo perfeito, não pode ser senão um, para que todas as coisas estejam nele. Pois tudo o que está sujeito à divisão deve necessariamente sujeitar-se à destruição (9)». A unidade em Deus é necessária; necessária é também a unidade em sua Igreja… Ora, a Igreja católica, apostólica, romana possui esta unidade perfeita; e somente ela a possui, com exclusividade; fica, pois, evidentemente provado que somente ela é a verdadeira Igreja; a verdadeira esposa de Jesus Cristo… Assim como um feixe é unido por um laço, assim a assembleia dos Santos é unida pela mesma fé, pela mesma esperança, pela mesma caridade, pelo mesmo e único auxílio divino.

Esta unidade de sua Igreja Deus já a havia predito por meio dos profetas: «Farei deles um só povo, diz Ezequiel, e um só chefe comandará a todos» (Ez 37, 22). «Os filhos de Judá, lemos em Oseias, e os filhos de Israel se reunirão e constituirão para si um só chefe» (Os 1, 11). Tudo está reunido, tudo é reconduzido à unidade de Jesus Cristo, Rei dos reis; toda a Igreja é una sob seu rei, o Romano Pontífice, Vigário de Jesus Cristo. Os judeus e os gregos, os romanos e os bárbaros, os pagãos e os idólatras, os senhores e os escravos, todos terão como chefe Jesus Cristo e o Papa, seu vice-regente na terra… A Igreja é una em seu chefe invisível, Jesus Cristo…; una em seu chefe visível, o Romano Pontífice…; una em seu ensinamento, em seu símbolo…; una em sua moral…; una em seus sacramentos!…

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA UNIDADE

«Em verdade vos digo: eu sou a porta do redil. Quem quer que entre por mim será salvo; entrará e sairá, e encontrará onde apascentar-se. Tenho outras ovelhas que não pertencem a este redil, e é preciso que eu as conduza; elas ouvirão a minha voz, e não haverá senão um só redil e um só pastor» (Jo 10, 6). Por meio da unidade encontra-se Jesus Cristo, que é a porta; encontra-se a salvação, a entrada no céu, os férteis pastos da graça e da glória. Pela unidade vai-se a Deus, entende-se a voz de Deus, abandona-se o erro, entra-se no verdadeiro redil. E não há senão um só pastor. Voltando-se depois o divino Mestre para o Pai, assim lhe rogava: «Pai santo, conservai em vosso nome aqueles que me destes, para que sejam uma só coisa, como nós… Rogo-vos por aqueles que hão de crer em mim, para que sejam todos uma só coisa, assim como vós estais em mim, ó Pai, e eu em vós; que também eles sejam uma só coisa em nós, para que o mundo creia que vós me enviastes. E a glória que me destes, eu a dei a eles, para que sejam uma só coisa, como nós somos uma só coisa. Eu neles e vós em mim, para que sejam consumados na unidade» (Jo 17, 11, 21, 23). Poderia Jesus Cristo declarar melhor a sublimidade e as vantagens da unidade? Que excelência, fazer-se uma só coisa com Jesus Cristo!

Em outro lugar repete: «Eu estou em meu Pai, e vós estais em mim, e eu em vós» (Jo 14, 20). Que rica e divina unidade! Eu estou no Pai pela unidade da essência divina; vós estais em mim pelo amor, pela união de substância, em virtude da encarnação; eu estou em vós pela graça, pelo vosso título de filhos de Deus, de herdeiros de Deus…

Por isso São Hilário de Poitiers diz: «Jesus Cristo está em seu Pai pela natureza de sua divindade; nós estamos nele por seu nascimento corporal; e ele está em nós pelo sacramento do altar, tendo ele dito: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele (10)». O Espírito Santo, diz Santo Agostinho, é o amor e o vínculo do Pai e do Filho; a ele pertence a sociedade pela qual nos tornamos uma só coisa. De muitos membros é composto o corpo do homem, e uma só alma vivifica tudo, fazendo-se ver por meio do olho, ouvir por meio do ouvido, e assim por meio dos outros sentidos. Assim também o Espírito Santo une, liga, contém e vivifica os membros do corpo de Jesus, isto é, a Igreja (De Doctr.).

«Nós somos um só pão, um só corpo, escreve o Apóstolo, porque todos participamos de um só pão». (Participamos de um só pão, do pão da fé, da palavra de Deus, da Eucaristia, que constitui em nós a unidade) (1Cor X, 17). Assim como de muitos grãos não se forma senão um pão, assim também de todos os fiéis não se forma senão um pão sagrado e vivo, isto é, um só corpo, que é a Igreja, corpo místico de Jesus Cristo; pois todos se unem realmente ao corpo de Jesus Cristo e não fazem senão uma só coisa com ele, por meio da unidade na fé e na Eucaristia, assim como o alimento se torna uma só coisa com aquele que o recebe.

São Paulo diz ainda: «Assim como o corpo é um só e consta de muitos membros, e todos estes membros, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Jesus Cristo. Pois todos fomos batizados em um só Espírito, judeus e gentios, escravos e livres, e todos fomos dessedentados em um só Espírito… Muitos são os membros, mas um só é o corpo; para que não haja divisões, mas todos os membros se ajudem mutuamente; e, se um membro sofre, todos os outros sofram; se um membro é glorificado, todos os outros se alegrem com ele. Ora, vós sois membros de Cristo e membros uns dos outros» (1Cor 12, 12-13, 20, 25, 27). No homem há: 1° união da alma e do corpo; 2° diferença de membros; 3° diversos ofícios em cada membro; 4° aptidão e faculdade de cada membro para o seu ofício; 5° comunhão das funções, em virtude da qual cada membro deve trabalhar não somente para si, mas para os outros, porque todos são membros de um só corpo; 6° amor e conservação da ordem, pelos quais cada membro está contente com sua condição e com seu ofício, não ambiciona o dos outros, não inveja o mais nobre; do que resulta entre eles união, concórdia, comunhão de alegrias e de sofrimentos; 7° admirável disposição de cada membro; cada um está no lugar que lhe corresponde, e o todo não forma senão uma só coisa, unidade perfeita de cada parte com o todo e do todo com cada parte.

Tal é a admirável unidade que existe na Igreja de Jesus Cristo! Nela se veem a mesma união, a mesma concórdia, a mesma comunhão de alegrias e de dores. Por esta unidade entre os membros de Jesus Cristo, cada um deles estima, como a própria alma, o seu dever, o seu ofício, a sua capacidade, o seu estado, o seu grau, o seu emprego; cada um se empenha pelo bem de todos, e todos trabalham pelo bem de cada um. Formam entre todos um só coração e uma só alma, como se exprime o Evangelista ao falar da primitiva comunidade cristã (At 4, 32). «Todos vós sois filhos de Deus pela fé que está em Jesus Cristo», escrevia o Apóstolo aos Gálatas (Gl 3, 26). Eis o precioso tesouro da unidade na mesma fé! E quereis saber quais são as suas vantagens? Ei-las: «Já não há distinção entre judeu e grego, entre escravo e livre, entre homem e mulher, porque todos vós sois uma só coisa em Jesus Cristo. Já não sois servos, mas filhos; e, se filhos, também herdeiros de Deus, por Jesus Cristo» (Gl 3, 28; 4, 7).

«Por Jesus Cristo, escreve o mesmo Apóstolo aos Efésios, temos acesso a Deus Pai em um mesmo espírito» (Ef 2, 18). Em um mesmo espírito, isto é, na unidade de fé, de religião, de vontade, de caridade cristã, para que não haja em todos nós senão uma só alma e um só coração. E, em virtude desta unidade, já não somos estrangeiros nem peregrinos, mas concidadãos dos Santos na casa de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, os quais eles mesmos repousam sobre Jesus Cristo, pedra angular do edifício. Pois nele deve apoiar-se todo edifício que há de ser templo santo do Senhor, se também nós somos coedificados sobre ele para sermos a casa de Deus em espírito (Ibid. 19-22). Com efeito, toda coisa criada é nossa, seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras; em suma, todas as coisas são nossas, nós somos de Cristo, e Cristo é de Deus (1Cor 3, 22-24). Eis os maravilhosos efeitos da unidade! Falemos, pois, a mesma linguagem, e não haja entre nós divisões nem separações; permaneçamos todos firmes na mesma crença e no mesmo sentimento (Ibid. 1, 10).

O Apóstolo das gentes declara-nos ainda que Jesus Cristo fez uns apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores e doutores, para o aperfeiçoamento dos Santos na obra do ministério e para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos a formar, pela unidade da fé e pelo conhecimento do Filho de Deus, um só homem perfeito, à medida da idade e da plenitude de Jesus Cristo; para que já não sejamos como crianças, levadas de um lado para outro por todo vento de doutrina, ludíbrio de homens cuja astúcia conduz às ocultas e habilmente enreda no erro, mas, praticando a verdade no amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, isto é, Cristo; do qual todo o corpo, disposto harmoniosamente e ligado pela cooperação de todas as funções, segundo a medida da operação própria de cada membro, recebe o seu crescimento, para ser edificado no amor (Ef 4, 11-16). A Igreja é um só corpo, cuja alma é a fé e a caridade. Por meio desta união e unidade, somos todos membros uns dos outros (Ef 4,25); nutrimos todos os mesmos sentimentos (Rm 12, 16); e suportamo-nos mutuamente com paciência (Ef 4, 2). Enquanto o Apóstolo se alegrava com os Colossenses pela ordem que via reinar entre eles e pela firmeza de sua fé em Cristo, exortava-os a viver sempre segundo os ensinamentos recebidos do Senhor Jesus Cristo, permanecendo enraizados nele, edificados sobre ele e firmes na fé, tal como lhes fora ensinada, e a precaver-se para que ninguém os enganasse com vã filosofia, com discursos falaciosos, com argumentos baseados nas conversas vãs dos homens, nas fábulas do século, e não em Cristo (Cl 2, 5-8).

Assim como, em um exército, a ordem e a unidade formam uma massa forte e compacta, assim também, na Igreja, a ordem e a unidade dão firmeza e estabilidade inabalável… Os bens e as vantagens da unidade se manifestam: 1° em todo governo e estado; 2° na hierarquia dos espíritos celestes; 3° no movimento dos céus, dos astros, das estações, de todo o universo; 4° na sociedade; 5° na família; 6° nos membros e nas funções do corpo humano… Um edifício não se sustenta senão pela força da unidade e das chaves que ligam entre si as suas paredes… A unidade dá ao firmamento a ordem que nele se admira; à alma, a santidade; ao corpo, a saúde; às casas e às cidades, a paz; mantém a concórdia entre os cidadãos; toda a virtude, a força e a prosperidade de um povo, de uma nação, consistem na unidade e dependem da unidade. A unidade é vida… Que unidade é maior do que aquela que reina no céu? Ela constitui a felicidade dos eleitos. «Ali não há inveja nem diferença de amor, onde reina a unidade do amor, diz Santo Agostinho (11)». «E esta unidade de amor, diz São Gregório, liga de tal modo os eleitos entre si, que cada um deles se alegra com o bem que não possui e que vê em outro eleito, como se o possuísse ele mesmo (12)».

Lemos nos Provérbios que os irmãos unidos entre si são firmes como uma cidadela (Pr 18,19); o Eclesiastes observa que um cordão de três fios dificilmente se rompe (Ecl 4,12). «Tantas são as almas e tantos são os corações, escreve Santo Agostinho, quantas são as pessoas; mas, logo que, pelo amor e pela fé, se unem a Deus, já não formam senão uma só alma e um só coração (13)». Tal era a condição dos primeiros cristãos: 1° havia entre eles perfeita amizade e mútuo amor. 2° Jesus Cristo habitava em cada um deles e os animava. 3° Havia em todos e em cada um a mesma vontade voltada para Deus, a mesma obediência, a mesma adoração. 4° Eram todos governados por um mesmo espírito, sob cujo impulso todos agiam. 5° Havia em todos a mesma submissão, o mesmo respeito a São Pedro. Eis a unidade da Igreja e os preciosos frutos da unidade religiosa. A palavra religião deriva, segundo Santo Agostinho, do verbo religare, porque, por meio dela, com o auxílio dos Anjos, tendemos para um só Deus e somente a ele nos unimos (De Civit. Dei). Por isso, a verdadeira religião exige a unidade e não pode prescindir dela; deve possuí-la, do contrário seria falsa. Portanto, ela é também em toda parte a mesma, em todos os tempos e em todos os lugares, na sua fé, nos seus mistérios, no seu ensinamento e nos seus sacramentos.

São Bernardo fala assim das vantagens da unidade: A unidade dos Santos, aqui embaixo, justifica; no céu, glorifica; uma dá o mérito, a outra, a recompensa. A unidade que se realiza nesta vida é o ornamento da paz; dela está escrito: Como é doce e agradável para os irmãos habitarem juntos! O Profeta, depois de descrever a beleza da unidade, proclama a sua utilidade, dizendo: O Senhor anexa à unidade a bênção e a vida. A bênção neste mundo; a vida, no outro (Serm. De Assumpt. Virg.). Esta unidade com Jesus Cristo, seja como homem, seja como Deus, assemelha-se àquela do senhor com o servo fiel, do pai com o filho adotivo, daquele que ilumina com aquele que é iluminado, daquele que justifica com aquele que é justificado, daquele que governa com aquele que obedece, daquele que dá com aquele que recebe, daquele que invoca com aquele que atende, daquele que introduz na bem-aventurança com aquele que nela entra. Finalmente, unindo-nos a Deus pela unidade, tornamo-nos um mesmo espírito com ele; e, assim como ele caminha na luz, também nós caminhamos na luz… Esta unidade é o tabernáculo de Deus entre os homens; ele habita com eles; eles são o seu povo, e ele é o seu Deus (Ap 21,3). Por esta unidade somos filhos de Deus e da Igreja, irmãos dos Anjos e dos bem-aventurados… Por esta unidade participamos de todas as graças da Igreja, de todas as orações e de todas as boas obras de todos os Santos… É esta unidade que constitui a comunhão dos Santos, de que fala o Símbolo.

Por meio da unidade, mantemos com a natureza humana de Jesus Cristo aquela relação que existe entre um discípulo e seu mestre, entre o rebanho e o pastor; estamos com aquele que ora e oferece o sacrifício por todos, como com aquele que paga uma dívida por outro. Esta unidade, esta sociedade, encontra o seu emblema e a sua explicação nas parábolas do pastor e das ovelhas, da videira e do sarmento; nas comparações da cabeça e dos membros, do alimento e daquele que o recebe… Por esta unidade, Jesus Cristo chama-nos seus amigos, seus irmãos, suas irmãs; sua mãe; chama o seu Deus de nosso Deus, o seu Pai de nosso Pai (Jo 20,17).

No céu, escreve Santo Anselmo, há tão grande caridade e estreita união de Deus com os eleitos, e destes entre si, que todos se amam como cada um ama a si mesmo, e todos amam a Deus mais do que a si mesmos. Em virtude desta unidade de amor, ninguém quer outra coisa senão aquilo que Deus quer; e aquilo que quer um eleito, querem-no todos os eleitos, e o quer o próprio Deus. E assim todos são reis, porque todos fazem o que querem; e todos, juntamente com Deus, não formam senão um só rei, porque querem todos a mesma coisa; e esta coisa que querem, isto é, amar eternamente a Deus, eles a possuem (In Monolog.). A unidade da Igreja assemelha-se à do céu; é o caminho e a antecipação dela. Com efeito, Deus aludia à sociedade da Igreja católica quando dizia: «Eu lhes darei um só coração, conduzi-los-ei todos por um só caminho, para que me temam durante toda a sua vida e tenham prosperidade. Farei com eles uma aliança eterna e não cessarei de lhes fazer o bem; e me alegrarei com eles pelo bem que lhes tiver feito» (Jr 32,39-41).

São João Crisóstomo faz aqui uma bela observação. A união e a unidade de dez pessoas fazem com que uma só delas valha por dez, porque as dez formam uma só, e cada uma está nas dez. Por isso, cada uma tem vinte mãos, vinte olhos, respira e trabalha por dez almas, porque cada uma cuida das outras tanto quanto de si mesma. Assim, os olhos, as mãos, os pés, a inteligência etc. de dez servem a cada uma; cada uma se ocupa das outras como de si mesma. Desse modo, uma só pode muito, porque pode tudo o que podem dez. Suponde agora que sejam cem, mil, milhões de pessoas assim unIdas, e calculai o seu poder (Homil. 77, in Ioann.). Por que nos chamamos irmãos? Não será porventura porque Deus é nosso Pai, porque participamos da mesma fé, da mesma redenção, da mesma mesa e somos todos coerdeiros das mesmas promessas?

Infinitamente grandes e preciosas são, pois, as vantagens da unidade, tanto no céu como na Igreja, na família, na ordem física e na moral… Tirai a unidade, e aniquilareis o universo e até o céu. Estabelecei a unidade, e tereis vida por toda parte… A perfeita unidade transformaria a terra em um paraíso… Já não haveria vícios, desordens, crimes nem misérias; só se veriam virtude, caridade, paz e felicidade… Destruí a unidade, e expulsareis Deus, a virtude e a felicidade; trareis os crimes, as guerras, as revoluções e a dissolução; soltareis o demônio sobre a terra e fareis do mundo um inferno.

3. PRINCÍPIO DESTA UNIDADE

O princípio, a raiz desta unidade, está na fé, na esperança, na caridade, na obediência e no apego à Igreja, sobretudo e antes de tudo ao Sumo Pontífice, chefe supremo e infalível da Igreja universal. Eis o que constitui a verdadeira unidade… Onde há pecado, há divisão… Onde há virtude, há unidade… O dualismo é a origem de toda discórdia… O amor é a vida… A divisão é a morte… A unidade é Deus, é o céu… O dualismo é o demônio, é o inferno… A unidade consiste e resulta da igualdade dos sentimentos. «Quanto às coisas que conhecemos, diz São Paulo, tenhamos os mesmos sentimentos e mantenhamo-nos na mesma regra» (Fl 3,16). E a regra que devemos seguir para constituir e manter a unidade é-nos sugerida por Vicente de Lérins nestas palavras: «Conservemos aquilo que sempre foi crido por toda parte e por todos» (Praescrip. adv, Haer. c. XII).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.