Natural de Bucold, aldeia do Estado e da diocese de Liège, Cornélio a Lápide, ou Cornelis Van den Steen, nasceu em 1566, data memorável para aquelas regiões, pois o Duque de Alba assumia o governo de Flandres e da Holanda, que Guilherme, o Taciturno, se preparava para sublevar contra Filipe II da Espanha. Bucold, pátria de Cornélio, e Lovaina, lugar de sua residência até quase os cinquenta anos de idade, erguem-se à margem daquelas terras baixas e pantanosas onde a Casa de Orange levantou o modesto assento de estatúder, que foi para ela o primeiro passo ao trono da Inglaterra: o que significa que o limiar de sua morada foi muitas vezes pisado pelo vaivém das milícias espanholas, dos cavaleiros alemães, dos reformados e dos católicos em armas. Recordamos esses acontecimentos não porque Cornélio tenha tido parte neles, mas porque influíram em seus pensamentos, em suas decisões e em sua vida, e formam, numa palavra, o fundo sobre o qual se destaca, pura e austera, a sua figura. Nada conhecemos da infância de Cornélio a Lápide; sabemos apenas que entrou jovem na Companhia de Jesus, a qual cumpria gloriosamente a missão que Deus lhe confiara e contava entre suas fileiras a flor da cristandade (1). O jovem noviço era de estatura diminutíssima (2) e de temperamento tão frágil que seu estômago não suportava digerir os alimentos usados por seus outros companheiros, embora, por austeridade, jamais tivesse consentido em trocá-los. Sentia-se inclinado ao recolhimento e ao silêncio e, por isso, fixara como norma de vida aquele adágio da antiga sabedoria — «Vive ignorado» — e, parecendo-lhe que a Ordem à qual dera o nome lhe proporcionaria uma espécie de asilo onde pudesse viver escondido e obscuro, repetia com Jó: «Morrerei em meu pequeno ninho». Mas Deus dispunha de outro modo, pois, embora Cornélio tenha morrido no seio da Companhia de Jesus, sua vida, contudo, não foi, em sua maior parte, a de um passarinho em seu ninho, perdido no profundo silêncio ou nos misteriosos murmúrios da floresta. Cornélio era um daqueles homens que Deus escolhe em tempos de tempestade e de luta para fazer deles os porta-estandartes do exército dos Santos. Coração puro, alma repleta de caridade e humildade, corpo espiritualizado pelos sofrimentos cotidianos, forneciam-lhe, sem dúvida, um título diante de um Duque coroado de espinhos; mantendo-o desapegado das coisas terrenas e levando-o a praticar a resignação e a paciência, mereceram-lhe sempre, cada vez mais, as luzes do Espírito Santo. Não vemos, por outro lado, que muitas vezes a Providência escolhe deliberadamente instrumentos fracos e desprezíveis, para que se veja claramente que são por ela utilizados? Ela, portanto, chamou o quase anão, o enfermiço Cornélio, não somente a tomar parte nas empresas apostólicas daquela Ordem religiosa que sustentava o mais feroz ímpeto da luta, mas também a prestar à Igreja serviços inteiramente especiais, não dependentes da vida monástica, isto é, os de escritor e doutor. E essa vocação manifestou-se muito cedo.
O Protestantismo começara a violar o texto das Sagradas Escrituras: aqui as desfigurava, ali lhes suprimia livros inteiros e, com isso, abalava desde os fundamentos a tradição católica. Cornélio a Lápide sentiu-se arrebatado de entusiasmo pelo estudo do hebraico e dos comentaristas. Aos 28 anos, era professor de língua sagrada e de Sagrada Escritura no colégio de Lovaina; dezenove anos depois, publicava, por obediência, admiráveis Comentários sobre as Epístolas de São Paulo e conquistava um lugar distinto entre os exegetas católicos; ao morrer, deixou dez enormes volumes in-fólio, em duas colunas, de trabalhos sobre o Antigo e o Novo Testamento.
Para compreender a extensão e avaliar o valor de uma obra de tamanha importância, convém conhecer sob que aspecto Cornélio a Lápide considerou a Sagrada Escritura. Ele mesmo no-lo indica nos prolegômenos que colocou à frente de seus Comentários sobre o Pentateuco, dos quais nos seja permitido compendiar algumas páginas.
O universo é um livro que expõe o que Deus é; foi formado segundo o modelo da esfera incriada e pode ser chamado espelho das coisas divinas; imperfeito, contudo, como é, não oferece de modo algum uma imagem exata e clara da Divindade, mas somente vestígios pelos quais é fácil reconhecê-la. Além disso, o livro da natureza não nos instrui nem acerca das verdades da ordem sobrenatural, nem sobre aquilo que conduz ao Céu da Santíssima Trindade e à felicidade eterna, objeto de todos os desejos do homem, tanto em vida como no momento da morte. Por isso, a bondade infinita do Criador julgou conveniente dar-nos outro livro, que não é o universo: um livro no qual o homem encontrasse não uma imagem muda da Divindade, mas caracteres que falassem aos seus olhos, sons que ressoassem aos seus ouvidos, ensinamentos que chegassem à sua alma e nela produzissem ideias vivas e claras das coisas divinas; enfim, um livro pelo qual aprendesse a conhecer a Deus e a si mesmo, bem como os espíritos celestes, a criação, as regras de conduta a observar e os meios para alcançar a felicidade.
Este livro é a Sagrada Escritura, que compreende, seja em germe, seja de modo explícito, toda ciência, toda regra, toda noção.
E, de fato, tudo o que existe pertence ou à ordem natural, ou à sobrenatural, que também pode ser chamada ordem da graça, ou à divina, que encerra a essência e os atributos de Deus. As ciências físicas e a filosofia natural nos fazem conhecer a primeira. A doutrina revelada, isto é, a fé e a teologia aqui na terra, e depois, no Céu, a visão de Deus, que constitui a felicidade dos Anjos e dos Santos, fazem-nos conhecer a segunda e a terceira. Ora, que a Sagrada Escritura não somente nos ensine as verdades da ordem natural, mas também seja necessária para que as conheçamos perfeitamente, disso não pode duvidar quem observar com São Tomás que a filosofia não demonstra essas verdades senão a poucas pessoas, depois de um tempo longuíssimo e com a mistura de vários erros.
Que raios de luz viva lançam sobre Deus, sobre seus atributos, sobre a imortalidade da alma, sobre a liberdade do homem, sobre as penas e as recompensas futuras, os ensinamentos da Escritura! E com que segurança e firmeza ela não procede no desenvolvimento de todas essas questões! As próprias ciências naturais são por ela reconduzidas ao bom caminho quando dele se desviam.
Onde encontrar, acerca da criação e da origem do mundo, conhecimentos tão seguros como os que nos são dados pelo Eclesiastes, por JÓ e pelo Gênesis? E não são acaso os livros históricos da Bíblia aqueles que encerram a história primitiva de todos os povos e fornecem a única cronologia que não pode ser chamada um amontoado de datas falsas? Que lógica e que política podem comparar-se com a lógica e a política reveladas? Que tratado de moral se equipara às breves e profundas máximas que esmaltam os livros da Sabedoria, dos Provérbios e do Eclesiástico? Que metafísica se elevará tanto quanto aquela que se manifesta em JÓ e nos Salmos, os quais celebram, num estilo de maravilhosa poesia, o poder, a sabedoria e a imensidade de Deus, os Anjos e todas as obras de suas mãos?
Quanto à ordem divina e à da graça, elas constituem um mundo desconhecido da filosofia, cujas chaves somente a revelação possui. Com efeito, em que outra escola, senão na da Escritura, aprenderia o homem aquilo que se refere à criação e à queda do homem, à vida, à doutrina e à morte de Jesus Cristo, ao pecado, ao livre-arbítrio, à graça, aos sacramentos, ao mérito e ao demérito, ao fim do homem e às condições de sua felicidade? Oh! que admirável ensinamento é esse, no qual estão compreendidas todas essas verdades e que se vê resumido nos Evangelhos e nas Epístolas dos Apóstolos!
A ciência da Escritura é uma verdadeira enciclopédia divina, na qual se encontra tudo o que importa ao homem conhecer; e, fora das verdades nela contidas, os homens ainda não proferiram uma palavra que valha a pena repetir. As próprias obras dos Padres da Igreja, cheias de tanto gênio, tanta sublimidade e graça que, em comparação com elas, os mais belos trabalhos do mundo grego e romano ficam obscurecidos, não são senão admiráveis comentários de um texto ainda mais maravilhoso. Santo Atanásio, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho, sumos doutores, não têm um pensamento que já não se encontre, ao menos em germe, na Escritura. Além disso, São Gregório Magno não hesitava em afirmar que há nos Livros Santos mistérios que não foram revelados aos homens e que somente os Anjos conhecem.
Daí se segue que a ciência da Escritura é quase infinita quanto ao seu objeto e dificílima de adquirir, por causa de sua profundidade.
Se considerarmos as dificuldades de interpretação, encontramos esta diferença entre os Livros Sagrados e os profanos: enquanto nestes cada frase quase nunca apresenta mais de um sentido, naqueles há até quatro. O sentido literal, que é aquele que resulta imediatamente das palavras ou dos fatos narrados; o alegórico, que se encontra quando essas palavras ou fatos ocultam uma profecia referente a Jesus Cristo ou à Igreja; o tropológico, quando contêm um ensinamento relativo aos costumes; o anagógico, quando expõem, como num enigma, alguma verdade ou revelação relativa à vida futura.
Observe-se ainda que, antes de dedicar-se seriamente ao estudo da Escritura e de seus grandes intérpretes, os Padres da Igreja, é preciso conhecer os idiotismos do grego e do hebraico, línguas nas quais os Livros Sagrados foram originalmente escritos.
Cornélio lançou-se corajosamente e percorreu todo o caminho. Prosseguiu na compilação de seus Comentários em meio às turbulentas vicissitudes das guerras religiosas que devastavam o Brabante e as possessões espanholas das Flandres; em meio às controvérsias que agitavam o próprio campo dos católicos, como o comprova o ensinamento de Baio na universidade de Lovaina, e não obstante os trabalhos da cátedra e os do ministério eclesiástico, como a confissão e a pregação. A proteção de Deus velava de modo particular sobre ele: sustentou-o, fortaleceu-o, preservou-o de grandes perigos e até da morte. E eis em que ocasião.
Erguia-se em Aspracollina, não muito longe de Lovaina, uma capela dedicada à Virgem, célebre por muitos milagres ali ocorridos. No dia 8 de setembro de 1604, Cornélio fora até lá para ouvir as confissões dos devotos de Maria, que costumavam acorrer em grande número, para anunciar-lhes a palavra de Deus e oferecer o santo sacrifício, quando, de repente, apareceu um esquadrão de cavalaria holandesa, que avançou com tamanha discrição e rapidez que todos os católicos foram apanhados de surpresa. Horrenda foi a carnificina, e o edifício sagrado foi incendiado. Assim que Cornélio se recuperou do assombro, correu ao tabernáculo, dele retirou o Sacramento e levou-o consigo, temendo que fosse profanado pelos hereges. Mas, num instante, viu-se cercado pelos inimigos, dos quais, por milagre, conseguiu escapar.
Ao ler este relato, não nos parece quase assistir a uma daquelas cenas de sangue das quais várias de nossas aldeias foram testemunhas nos dias do Terror? Como um novo Hércules, o Protestantismo, ainda criança, prenunciava as carnificinas às quais mais tarde, já velho, haveria de lançar mão, sob nome e hábito diferentes daqueles de sua juventude. Aliás, Hércules e o Protestantismo não são, afinal de contas, uma mesma manifestação do antigo adversário do gênero humano, que se fazia adorar sob as feições daquele e dogmatizava pela boca deste?
Depois da publicação de seus Comentários sobre as Cartas de São Paulo, e enquanto se preparava para publicar os relativos ao Pentateuco, Cornélio foi chamado a Roma pelo Geral da Companhia de Jesus, o Padre Acquaviva, que, honrando-o acima de qualquer outro membro da Ordem, lhe confiou a cátedra de Sagrada Escritura no Colégio Romano. Os aplausos que ali recebeu durante longos anos eram espinhos para um coração tão humilde como o seu: a cada expressão de estima que lhe era dirigida, inclinava a cabeça e dizia: “Em verdade e em consciência, sou o mais estúpido dos homens: pois há quarenta anos estudo os Livros Sagrados, há trinta não me dedico a outra coisa e, no entanto, compreendo-os apenas de modo muito imperfeito (3)”.
Por volta do ano de 1620, sua saúde debilitada sucumbia ao peso do cargo, de modo que teve de abandonar o ensino e restringir-se à redação de seus Comentários. A Providência servia-se desse meio para lhe proporcionar aquela tranquilidade e aquela vida de solidão tão necessárias ao escritor que deve consultar muitos volumes e empreender longas pesquisas. Ele mesmo nos traçou o quadro de seus pensamentos e de seu estado durante este último período de sua vida. “Eu fujo, diz ele, do tumulto dos aposentos dos grandes e procuro o silêncio e o retiro que, sem me serem inúteis, me são também tão caros. Vivo na companhia dos Padres da Igreja e encontrei em Roma o sagrado asilo de Belém, que São Jerônimo foi procurar com tanta ansiedade até o extremo da Palestina. Na juventude, desempenhei o serviço de Marta; avançado em anos, cumpro e aprecio o ofício de Maria. Penso na brevidade da vida, permaneço na presença de Deus e vou me preparando para a eternidade que se aproxima. Todas as minhas consolações estão em minha coleção, que sempre foi para mim uma amiga fiel; prefiro-a a toda a terra e ela me parece um paraíso terrestre. Discípulo das santas musas, aspiro ao Céu; descanso na contemplação, na leitura e na composição, que é, ao mesmo tempo, um trabalho. Dedico-me a receber as inspirações divinas, a meditar e a celebrar os oráculos eternos. Sentado aos pés de Cristo, recebo, recolhido, de sua boca as palavras de vida, para depois fazê-las compreender aos outros (4)”.
Compostos em Lovaina, os primeiros trabalhos de Cornélio, que são os Comentários sobre as Cartas de São Paulo e sobre o Pentateuco, foram por ele dedicados, os primeiros a Matias Hovio, Arcebispo de Malinas, e os segundos ao P. H. Vanderburch, Arcebispo de Cambrai e príncipe do Sacro Império; ambos, mas especialmente este último, estavam estreitamente unidos a ele por um afeto recíproco e pelo gosto pelos mesmos estudos. Em Roma, Cornélio manteve-se tão retirado que julgou poder eximir-se de dedicar suas Obras a qualquer pessoa deste mundo. Os Comentários sobre os Profetas, dos quais um volume apareceu em 1622 (5) e o outro em 1625 (6), trazem a dedicatória a Deus e à Santíssima Trindade; os relativos aos Atos dos Apóstolos, às Epístolas católicas e ao Apocalipse (7) não têm dedicatória; os do Eclesiástico (8) são colocados sob o patrocínio de Jesus Cristo, e os relativos aos livros de Salomão (9) apresentam-se oferecidos à Virgem, Mãe da Sabedoria eterna. “Recebei, ó Virgem sábia e bendita, diz ele, estes Comentários sobre a sabedoria do mais sábio dos mortais. Eles vos pertencem, porque a sabedoria deve retornar Àquele que a concede, pelo mesmo mediador que a trouxe ao mundo”.
Cornélio a Lápide, entretanto, não deixava de voltar algumas vezes o olhar para a Bélgica; lamentava não ter podido banhar seu solo com o próprio sangue, pois desejava a coroa do martírio. “Ó Profetas do Senhor! — exclama no prefácio de seus Comentários sobre os quatro Profetas maiores — ó Profetas do Senhor, que me concedestes participar de vossa coroa de Profeta e de Doutor, ah! fazei que eu me torne também vosso companheiro no martírio e que sele com meu sangue a verdade que me transmitistes. Então meu ensinamento estará completo e perfeito, quando tiver essa marca. Muitos anos passei explicando e comentando vossas palavras: fiz-vos falar e profetizar numa língua moderna, e também eu, de certo modo, profetizei convosco; nada mais me resta senão que obtenhais para mim do Pai das luzes, que é, ao mesmo tempo, o Pai das misericórdias, a recompensa do Profeta, que é o martírio”.
Cornélio Van den Steen, gostaríamos de responder-lhe: mártir quer dizer testemunha; portanto, não recebestes a graça de ser testemunha da divindade e do poder de Jesus Cristo pela profissão dos três votos religiosos, pelo modo como suportastes a saúde precária, pela coragem e perseverança com que levastes a termo vossos trabalhos sobre os Livros Sagrados? Se não derramastes o sangue pelo Salvador, desgastastes, para a glória de seu nome, as forças de vosso corpo e consumistes as fontes de vossa vida. Por outro lado, o martírio é um testemunho que não dura senão algumas horas, no máximo alguns dias; não é prestado senão na presença de algumas pessoas e muitas vezes acontece que dele mal se faz menção na história; ao passo que o testemunho dos escritos excelentes dura séculos inteiros, manifesta-se diante do universo e se renova a cada leitura que deles se faz. Oh! não é último o lugar que ocupastes entre os servos de Deus. Mas quem ousará consolar uma alma à qual já não resta senão um único sacrifício a oferecer Àquele que ama e que se vê impedida de fazê-lo?
Cornélio a Lápide cessou de viver em Roma, em 12 de março de 1637, com mais de setenta anos de idade (10), deixando manuscritos dos Comentários sobre os Evangelhos e sobre a maior parte dos livros históricos do Antigo Testamento.
O Colégio Romano dedicou os Comentários sobre os Evangelhos ao príncipe Cardeal Francisco Barberini, chanceler da Santa Igreja Romana, sobrinho do Papa Urbano VIII e seu legado na França e na Espanha. No início daquele volume leem-se estas palavras: “O professor cuja perda deploramos desenvolveu muitíssimas máximas relativas aos costumes, mas podemos atestar que ele próprio praticou todas aquelas que podiam dizer-lhe respeito; de tal modo que, se se quisesse fazer a história de sua vida, bastaria reproduzir as regras de conduta por ele estabelecidas em seus Comentários. Quando, portanto, vos cair sob os olhos o retrato de um personagem amigo da solidão e da contemplação, considerai que tendes diante de vós o de Cornélio a Lápide”.
Redigidos sem seguir a ordem das Escrituras e em épocas diversas, os Comentários de Cornélio a Lápide estendem-se, contudo, por toda a Bíblia, exceto pelo Livro de JÓ e pelos Salmos, acerca dos quais ele não deixou senão apontamentos incompletos, jamais publicados.
Já mencionamos sob que aspecto o douto Jesuíta considerava a Sagrada Escritura e, com isso, demos uma ideia exata da Obra por ele realizada; acrescentemos agora que ele não somente expõe de modo claro e preciso os diversos sentidos do texto sagrado, mas também acrescenta a esta parte, que constitui a base de todo o Comentário, o resumo da doutrina dos grandes teólogos acerca de todos os pontos mais importantes do dogma e da moral, numerosíssimas e variadas citações dos Padres, de autores ascéticos e também de filósofos e poetas pagãos e, finalmente, trechos da história eclesiástica e profana e das vidas dos Santos. Numa palavra, ele abrange quase em toda a sua amplitude a verdadeira ciência, isto é, a ciência de Deus, do homem e do mundo, observados à luz da revelação, a única que lança sobre os mistérios deste mundo uma luz suficiente.
Cornélio a Lápide nos parece não somente o melhor e mais completo entre a numerosa plêiade de Comentadores saídos da escola católica do século XVI, mas talvez o primeiro, ao menos no gênero por ele adotado, que é excelente. É o único que nos ofereceu um curso quase completo de Sagrada Escritura comentada e desenvolvida segundo as linhas e na esteira dos admiráveis trabalhos dos Padres e da glosa de toda a tradição. Para nós, é um desígnio da Providência que ele tenha passado trinta anos de sua câmara de escritor nos postos avançados da cristandade e depois a tenha fechado em Roma, pois assim teve oportunidade de conhecer bem a luta que estava sendo travada e pôde conservar em seus Comentários a pureza do ensinamento da mãe e mestra de todas as Igrejas.
O fato de ter vindo mais tarde lhe foi útil para evitar alguns daqueles escolhos nos quais seus antecessores naufragaram; o reino absoluto de Aristóteles já havia cumprido seu tempo, e a descoberta da imprensa começava a produzir seus frutos. Da falange dos doutos críticos que floresceram no fim do século XVI e no princípio do XVII, vieram à luz edições corretas da maior parte dos Padres, mas sobretudo de Santo Agostinho: os materiais importantes de que Cornélio podia dispor eram bastante puros e, excetuando-se a atribuição que faz, a certos Doutores da Igreja, de textos que provavelmente pertencem a outros; excetuando-se algumas teorias científicas hoje rejeitadas e alusões a fatos de história natural relegados às fábulas, talvez não se lhe possa imputar outro defeito senão o de repetir-se algumas vezes, o de não ater-se a uma ordem rigorosa e o de não ter trabalhado todas e cada uma das partes de sua Obra da mesma maneira. Cremos que, sem dar a impressão de fazer um panegírico, nos seja permitido observar que Cornélio a Lápide não deu a seu trabalho o acabamento final e que, de resto, as imperfeições apontadas eram quase inevitáveis. A Sagrada Escritura exprime frequentemente a mesma verdade em termos quase idênticos; como poderiam os Comentadores evitar toda repetição?
Em segundo lugar, a falta de ordem em Cornélio não chega a produzir incoerência e confusão; antes, ajuda a evitar uma uniformidade de andamento que cansaria o leitor e tiraria do ensinamento do mestre algo daquela naturalidade tão apreciada, quando não ultrapassa os limites, nas obras de grande extensão.
Em terceiro lugar, todo Comentador que não se restringe a apresentar o sentido do texto extrai dos Padres e dos Autores eclesiásticos a maior parte das explicações que nele insere. Ora, estes não comentaram todos os versículos, nem sequer todos os livros da Sagrada Escritura, mas detiveram-se nos mais importantes, levando em consideração a doutrina, o uso frequente que deles se fazia na liturgia ou as necessidades dos povos que lhes cabia instruir. Por isso, os livros históricos, exceto o Gênesis, os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos, foram geralmente deixados de lado. Os livros morais do Antigo Testamento, embora frequentemente citados, nunca foram, contudo, reunidos num conjunto que formasse tratados completos. Finalmente, aqueles mesmos que foram explicados de modo mais amplo e mais geral o foram por doutores de gênio diferente e com desenvolvimento diverso.
Assim, por exemplo, para nos limitarmos aos principais, São Jerônimo, Santo Agostinho e São Cirilo de Alexandria deixaram-nos obras excelentes sobre os Profetas; os Santos Basílio, Ambrósio, João Crisóstomo e, acima de todos, o ilustre bispo de Hipona ilustraram os mistérios do Gênesis; estes dois últimos e São Tomás de Aquino deram-nos o fruto de longos e admiráveis estudos sobre São Mateus, São João, os Atos dos Apóstolos e as Epístolas de São Paulo. Todos conhecem a estupenda paráfrase de São Gregório sobre Jó. São Gregório de Nissa e São Bernardo explicaram o Cântico dos Cânticos. A maior parte dos Padres, mas particularmente os Santos Basílio, Ambrósio e Agostinho, escreveram páginas insuperáveis acerca dos Salmos. Donde se segue que, por maior que seja a ciência, o engenho e o gosto do exegeta, ele jamais poderá fazer com que os Comentários relativamente extensos sobre os livros da Sagrada Escritura por nós indicados não se mostrem muito superiores aos que desenvolvem os livros de que os mestres da ciência cristã não se ocuparam de propósito.
Cornélio a Lápide não pôde subtrair-se à lei geral; eis tudo o que se lhe pode censurar; sua vasta erudição, porém, colocou-o em condições de lutar contra ela e de não sofrer senão em parte o seu jugo. Seus Comentários sobre os livros morais do Antigo Testamento, sobretudo aqueles que explicam o Eclesiástico, quase nada deixam a desejar; considerados, depois, em seu conjunto, do Pentateuco ao Apocalipse, oferecem a mina mais rica que se conhece para nós em matéria de erudição sagrada (11).
De resto, a cristandade fez-lhe plena justiça, e poucas Obras completas dos Padres da Igreja tiveram tantas reimpressões quanto as do douto professor do Colégio Romano. No decurso de vinte e um anos, os Comentários sobre as Cartas de São Paulo, considerados, é verdade, como a melhor obra saída de sua pena, foram reimpressos cinco vezes somente em Antuérpia.
Entre as províncias da Igreja, não há senão a França que, no final do século XVII e durante todo o século XVIII, se tenha mostrado severa e, digamo-lo francamente, injusta para com Cornélio a Lápide. Moréri, Ricardo Simon, Dom Chardon, Elias Dupin etc. maltrataram-no, uns mais, outros menos, um após o outro. Mas isso já não deve causar admiração a ninguém, porque se sabe que a França, que combateu enérgica e gloriosamente os erros da Reforma, deixou-se depois arrastar um pouco pelo espírito do Protestantismo em tudo o que se refere à vida da alma. Em lugar de um racionalismo dogmático, viu nascer e insinuar-se uma espécie de racionalismo moral: muitíssimos não compreenderam bem as relações do homem com Deus e a ação de Deus sobre o homem. Um vento glacial soprou sobre seu coração e, infelizmente, fez murchar aquela maravilhosa floração, cheia de atrativos e perfumes, que se chama piedade católica. O Céu foi forjado em bronze; ao sobrenatural foi dada, ou quase, a expulsão da vida dos homens e da história moderna; aquilo que se chamava excesso de confiança em Deus foi severamente censurado, e o culto da Virgem bendita foi confinado a um círculo estreito. Como poderiam encontrar favor os Comentários de Cornélio, que respiram a piedade e o espírito de outras gerações? (12). Dom Chardon, autor não suspeito de heresia, trata-os de modo tão leviano, chamando-os compilações informes, transbordantes de historietas, lendas e ninharias.
Em nossos dias, a Biografia universal de Michaud mostrou-se mais justa. Ela dá a Cornélio o título de orador eloquente, tão profundo na filosofia e na teologia quanto versado na história. Que diferença entre um juízo e outro! Não teríamos mencionado essa diversidade de acolhida que teve Cornélio a Lápide se o nosso século não devesse ser, segundo a expressão de um jovem e douto eclesiástico (13), o século das reparações, e se Cornélio não tivesse direito a isso.
As principais edições de toda a Obra do jesuíta de Bucold, uma das glórias, e não das últimas, da Companhia de Jesus, tão fecunda em escritores sapientes, são as de Antuérpia, em 10 volumes in-fólio: 1618-1642; a de Veneza, de 1711; a de Lião, de 1732; esta e aquela em 16 volumes in-fólio. Neste século, a casa Pelagaud, de Lião, deu-nos uma edição em 20 volumes in-4º; outra foi feita em Malta, e outra ainda em Nápoles; e a última que conhecemos é a de Milão.